Olá, novamente.
Dois capítulos em menos de uma semana... Acho que estou embalada.
Obrigada querida Lady-Liebe pela última review. Nossa escritora de "Os Hobbits no McDonald's está com outros trabalhos prontos para serem lidos, vamos aborrecê-la bastante pedindo mais e mais!!
Os outros leitores estão meio calados, espero que não seja porque não estão gostando mais da história.
Obrigada! E vamos ao capítulo 13 ver se a identidade do nosso príncipe louro vai finalmente ser descoberta por alguém.
* 13 *
Estel ouvia as palavras do irmão ao lado de Halbarad. O velho guardião coçava a barba comprida separando alguns fios presos com os dedos e puxando-os em seguida. Elrohir não conseguia disfarçar a aflição que sentia ao ver o dunadain puxando os dedos avidamente por entre os encardidos fios grisalhos. O gêmeo torcia os lábios e apertava levemente os olhos inconscientemente enquanto acompanhava os movimentos dele desejando que parasse o que estava fazendo o quanto antes.
Mas, apesar de suas questionáveis maneiras, Halbarad era o símbolo da paciência. Em todas as situações nas quais se via envolvido o sábio homem era sempre o último a falar e o único a não se desesperar prontamente. Naquele momento ele apenas ouvia as palavras de Elladan que se sentia um tanto infantil recontando o acontecido, mesmo com todos os seus séculos de vida e sua experiência que sem dúvida era muito maior do que a do velho dunadain.
Aragorn, porém, compartilhava dos receios do irmão mais velho. Enquanto ouvia seu relato ele já procurava a figura do rapaz do gorro preto pela caverna, mas não conseguia encontrá-lo.
"Onde está o mercenário?" Indagou respirando fundo e olhando em todas as direções. "Já fugiu novamente aquele covarde?"
Halbarad sorriu e, apoiando uma das mãos no ombro do amigo, apontou para um canto escuro da caverna onde o jovem Squirrel estava sentado com o corpo encolhido, os braços enlaçando as pernas e a testa apoiada nos joelhos.
"Dê ao jovem um pouco mais de crédito".Disse sabiamente o líder do grupo. "Ele tem suas qualidades, você vai ver".
Aragorn estalou os lábios em sinal de descaso.
"Ele que me prove isso se for capaz".Respondeu rispidamente apertando os punhos e dando um passo na direção do rapaz. Halbarad, porém, segurou-o por um momento. Aragorn quis protestar, mas jamais em sua vida faria qualquer coisa para desagradar o líder a quem ele tanto admirava.
"Deixe-me falar com ele certo, meu amigo?" Aconselhou o velho guardião recebendo um forçado aceno de cabeça como resposta. "Você pode ficar aqui, desde que não ofenda o menino. Ele tem muitos problemas e pelo que seus irmãos relataram não demonstrou ter o desejo de nos trair".
Elrohir e Elladan balançaram suas cabeças confirmando em um movimento que parecia sincronizado a afirmação do velho guardião. Halbarad por sua vez sacudiu levemente a dele ao ver o ato dos gêmeos. O ritmo idêntico dos dois perturbava ligeiramente o guardião que sequer conseguia distinguí-los. Às vezes os movimentos de ambos eram tão idênticos que o pobre homem se questionava se realmente se tratavam de dois elfos ou se ele havia bebido demais.
"Oh, Squirrel!!" Gritou então o líder despertando não só o rapaz no canto como todo o grupo que tentava relaxar dentro daquela caverna úmida e escura. Elrohir e Elladan se entreolharam e balançaram suas cabeças num misto de desaprovação e conformismo. A sutileza decididamente não era uma das qualidades do velho guardião.
Legolas sobressaltou-se e ergueu o rosto buscando de onde vinha a voz que chamava por ele. O rapaz não havia percebido a pequena reunião que se dava no canto da entrada da caverna e sentiu um frio na espinha ao ver os filhos de Elrond olhando em sua direção. O ar de Aragorn não parecia ser dos melhores. Ele desejou com todas as suas forças que tivesse tido apenas a impressão de ter sido chamado, mas ao ver Halbarad fazer um visível movimento com uma das mãos indicando que ele viesse ao encontro do grupo, o jovem percebeu que seu desejo não iria se realizar.
"Oh, Iluvatar" Ele disse para si mesmo erguendo-se com dificuldade. Estava tão cansado e ainda sentia-se mal por causa das propostas que ouvira de Hawk. Não se achava disposto o bastante para enfrentar uma conversa daquelas.
Aragorn enfezou-se ainda mais ao ver a morosidade dos movimentos do arqueiro que não parecia estar realmente disposto a juntar-se a eles. Squirrel aproximou-se o mínimo possível do grupo, o suficiente apenas para ser visto e poder ouvir o que diziam. Halbarad sorriu ao sentir o temor no rosto do rapaz e adiantou-se para perto dele segurando-lhe pelos ombros.
"Está tudo bem, menino". Ele assegurou sorrindo e esfregando o braço de Legolas com força. O elfo sentiu-se ligeiramente emocionado com a atitude de carinho do velho amigo de Aragorn, mas logo percebeu que não estava em posição de demonstrar nenhuma boa vontade. Ele sacudiu os ombros libertando-se dos braços do dunadain e voltando a se afastar. Aragorn franziu a testa e avançou para cima do rapaz, mas Elladan segurou-o e Halbarad ergueu a mão para o amigo demonstrando que ele não precisava se consternar com o ocorrido.
"Menino".Reiniciou o líder para o jovem que agora baixara a cabeça e encarava os outros com os cantos dos olhos. A desconfiança expressa nos traços de sua face. O guardião preferiu permitir que o rapaz mantivesse a distância que queria do grupo. Ele aprendera que não valia a pena contrariar o arqueiro que lhe era tão valoroso por causa de detalhes tão pequenos.
"Pare de me chamar de menino!" Protestou Squirrel usando um tom de voz agressivo. Mas dentro dele o coração de Legolas partia-se em mais um pequeno pedaço todas as vezes que se via obrigado a desrespeitar ou maltratar àqueles a quem admirava.
Halbarad apertou os lábios pacientemente e sacudiu a cabeça.
"Você está nervoso por causa do que os irmãos sulistas lhe propuseram?" Ofereceu o sábio guardião sentindo ter dado uma flechada certeira dessa vez. O rosto do arqueiro se contorceu levemente e seus olhos ganharam um brilho que ele nunca tinha visto. Por um momento pensou que o menino fosse chorar. Mas Squirrel franziu a testa e respirou fundo dando um passo à frente e olhando o líder nos olhos.
"Não sou traidor! É isso que quer saber?"
"Não!" Respondeu Elrohir rindo. "Queremos saber se você se deita com outros machos da sua espécie".Ele não podia perder a oportunidade do gracejo embora não tivesse o hábito de fazê-lo fora de Imladris e do ceio da família. Mas a situação e a presença de somente pessoas conhecidas o motivava. Além de tudo ele estava realmente aborrecido com a atitude que o jovem do gorro negro tinha tomado anteriormente.
Legolas quis rir naquela hora, por dentro ele sabia muito bem o que o elfo estava querendo fazer e jamais cairia numa cilada dessas. Na verdade ele também odiava Squirrel e, por mais loucura que pudesse parecer, saber que o gêmeo compartilhava de seu sentimento o fazia sentir-se melhor. Porém, naquele momento ele sabia bem o que devia fazer. Num impulso rápido avançou então para Elrohir e empurrou-o por cima do irmão que o segurou num reflexo para que não caísse. Legolas não tinha a intenção de machucá-lo e por isso planejou seus movimentos habilmente utilizando-se dos dotes de guerreiro que possuía. Mas Aragorn não notou que o irmão estava ileso, por isso deixou-se levar pela ira que já controlava seu coração e avançou para Squirrel aplicando-lhe um golpe certeiro na região do estômago e fazendo-o caiu por sobre os joelhos sentindo muita dor. Legolas se contorcia apoiando a mão por sobre a região atingida e odiava-se por ter sido pego desprevenido.
Elrohir observou a cena toda que se dera muito rapidamente e sentiu uma sensação estranha vendo o que acontecera ao jovem Squirrel. Sem entender bem o porquê ele desfez-se dos braços do irmão que impedira sua queda e segurou prontamente o caçula num rápido instinto puxando-o para longe da sua vítima. Aragorn mantinha os olhos fixos nos do rapaz que se contorcia no chão, o guardião parecia um animal em um duelo selvagem, seus olhos brilhavam, seu peito arfava e seus punhos estavam tão apertados que pareciam que não se abririam nunca mais. Elrohir se colocou no campo de visão do irmão para tentar trazê-lo de volta a si.
"Strider!" Disse ele fixando seus olhos escuros nos claros olhos do caçula. "Não estou ferido! Paz, amigo!"
Aragorn sentiu uma sensação estranha ao ouvir o irmão usando aquele tom que nunca usara antes e demorou alguns instantes para perceber o motivo. Eles não estavam em Imladris e o que o irmão queria era tentar lembrá-lo disso, lembrá-lo de que certas atitudes eram muito arriscadas.
Estel baixou levemente a cabeça e deixou caírem os braços abrindo as mãos e permitindo que o ódio deixasse seu coração, mas ele não olhava mais para o rapaz no chão, não queria se arriscar ceder a mais uma de suas provocações.
Elladan se aproximou e agachou-se ao lado de Squirrel que apoiava a mão por sobre o abdômen e respirava com dificuldades. Estel tinha realmente caprichado no golpe que dera e Legolas desconfiava que trincara uma das costelas. A dor estava insuportável e ele tentava ao máximo se recompor. Sentia uma grande preocupação devido à posição desvantajosa em que se encontrava. O gêmeo num instinto deslizou as mãos nas costas do rapaz para tentar-lhe oferecer-lhe algum conforto. Ele, bem como o pai, tinha um poder muito grande nas mãos e só seu toque já fazia com que Legolas se sentisse melhor. O arqueiro sentiu o gelo de seu coração voltar a derreter-se levemente com a presença e o carinho daquele amigo a quem ele tinha como irmão. Num instinto ele levantou os olhos e encontrou os do elfo mais velho. Os dois amigos se encararam durante alguns instantes. A princípio os olhos de Elladan continham apenas um sentimento de piedade e caridade, mas depois Legolas percebeu as sobrancelhas do elfo franzirem-se e seus olhos apertarem-se como se ele estivesse tentando se lembrar de algo. O gêmeo pendeu a cabeça levemente para o lado e seus olhos dançavam encarando cada um dos olhos do arqueiro separadamente. Legolas voltou a sentir o perigo muito próximo e não hesitou empurrando Elladan que, sendo pego de surpresa, caiu de costas no chão. Aquela situação toda estava preocupando demais o arqueiro que chegara a conclusão evidente de que aquela conversa precisava ter um fim rápido. Com isso em mente ele ergueu-se de imediato, mas foi surpreendido pela dor que tentava ignorar e segurou a região afetada num instinto que despertou em Elrohir a mesma sensação estranha que o irmão estava sentindo.
Porém os gêmeos não tiveram tempo de se manifestarem. Squirrel respirou fundo e, colocando a dor num canto de sua mente, lançou olhares de puro ódio aos presentes um a um.
"Não sou traidor!" Ele gritou atraindo a atenção de todos para si. Atacar naquela hora era a melhor maneira de se defender, fora a conclusão do príncipe. "Não sou mercenário!" Completou olhando para Aragorn bem nos olhos. "Me deixem em paz ou então me deixem ir se não precisam mais de mim!" Sua voz grave ecoou por toda a caverna despertando novamente os guerreiros adormecidos. Skipper sobressaltou-se em seu saco de dormir apanhando prontamente a espada e aprontando-se para levantar-se. Mas Halbarad de longe acenava para os companheiros apaziguando seus corações.
"Está tudo bem".Disse o líder olhando na direção dos soldados em seus sacos de dormir e sorrindo levemente para Fowler cujos olhos pareciam duas grandes luas cheias. "Nós só estamos acertando algumas questões aqui".
O velho Skipper ainda olhou mais uma vez para Squirrel preocupado com o ar transtornado do rapaz. Apesar do temperamento difícil que o menino demostrava, todos gostavam dele. Skipper não se esquecera do dia em que o jovem do gorro negro salvara a vida de seu filho quando o grupo fora atacado violentamente por um bando de orcs. O jovem arqueiro arriscara sua vida para salvar a de Fowler e o velho ainda amargara o fato de que Squirrel nunca permitira que o hábil caçador retribuísse o favor ou sequer agradecesse.
"Volte a dormir, Skipper!" Instruiu novamente Halbarad sorrindo. "Está tudo bem. Não é, Squirrel?" O guardião agora forçava um pouco seu tom de voz dando a entender ao jovem arqueiro que precisava de sua confirmação, pois sabia que Skipper não voltaria a descansar se o menino não lhe assegurasse que tudo estava bem. Legolas olhou então para o caçador que ainda mantinha a espada nas mãos e agora olhava para Aragorn e os gêmeos como se imaginasse que fossem os responsáveis pelo mal estar do amigo. O príncipe tinha muito apreço por aquele pai e seu filho e em seu coração invejava levemente o carinho que Fowler recebia dele. Halbarad tinha muitas pessoas boas no grupo o que o fazia um líder de sorte. Pensando nisso e tentando novamente esfriar seu coração, Legolas apenas acenou com a cabeça dando a certeza que o velho caçador precisava para largar a arma e voltar a dormir, depois de ordenar ao filho que fizesse o mesmo. O grupo ainda permaneceu em silêncio por mais alguns instantes observando todos os guerreiros voltarem a se acomodar em seus sacos de dormir.
Mas Aragorn agora sentia o ódio voltar a encher-lhe o coração Ele podia sentir a simpatia que todos sentiam pelo arqueiro e aquilo o tirava de sua órbita. Parecia que só ele via o que ninguém mais conseguia perceber. O fato de que o rapaz atacara seu outro irmão que só estava tentando ajudá-lo também não estava auxiliando muito na diminuição de sua ira.
"Você não me engana, mercenário".As palavras lhe escaparam dos lábios e o guardião conseguiu fazer com que os poucos instantes de paz que haviam surgido desaparecessem completamente.
Squirrel voltou a encarar o filho caçula de Elrond. Parecia mesmo que Estel não iria dar-lhe descanso. Mas Legolas sabia que enquanto ele conseguisse fazer com que o amigo o odiasse, ele estaria cego e não teria a capacidade de reconhecê-lo.
"Não me importo com o que pensa, guardião!" Ele disse direcionando novamente sua ira para Aragorn. "Sua opinião não é tão importante quanto acredita que seja".
O príncipe percebeu os olhos de Estel brilharem ainda mais, totalmente invadidos pelo ódio que despertara. Era terrível receber aquele olhar do amigo a quem ele tanto amava, mas Legolas não tinha outra escolha. Já estava sendo difícil enganar os gêmeos que o olhavam com cada vez mais desconfiança. Ele sentia-se dividido por aquela torrente de sentimentos que estava enfrentando desde que reencontrara os irmãos. O fato de Elrohir tê-lo ajudado na entrada da caverna, o carinho que recebera de Elladan e todas as desconfianças dos três estavam fazendo sua cabeça girar em círculos enormes de dúvidas.
Halbarad tocou o ombro de Squirrel e segurou levemente seu antebraço.
"Paz, criança!" Ele disse despertando um sentimento ainda pior em Legolas. Aquelas eram as palavras de Elrond e a figura do sábio elfo que já sabia da verdade surgiu novamente em seus pensamentos acompanhada de toda a incerteza de sobre como seria o futuro. Ele sentia saudades de Elrond, queria que o elfo estivesse ali, queria abraçá-lo e pedir ajuda. Mas sabia que isso não seria possível, sabia que não poderia regressar, que teria que descumprir sua palavra e abandonar o grupo assim que a missão terminasse para nunca mais voltar a vê-los. Ele não podia arriscar a vida dos amigos. Esse sentimento de desespero invadiu então seu coração enquanto ainda sentia a mão de Halbarad por sobre o seu ombro. Ele não queria mais ser tocado, não queria ser amado, não queria se lembrar de que fora amado por alguém e da saudade que isso fazia. Sua dor física e emocional fez lágrimas brotarem de seus olhos e ele sacudiu a cabeça e os braços afastando-se do grupo com violência.
"Me deixem em paz".O jovem gritou enquanto voltava a sentar-se onde estava escondendo o rosto nas mãos. Halbarad baixou a cabeça com tristeza. Depois se voltou para os três irmãos que olhavam também para o rapaz intrigados.
"Eu pedi para vocês!" Protestou o líder num tom baixo. Sua voz não transmitia ira ou indignação, apenas pesar. "Eu disse que ele era uma pessoa difícil. Agora eu sei como vai ser. Ele vai se calar e não vou conseguir tirar dele nem um bom dia".O guardião soltou um leve suspiro voltando a olhar o rapaz com carinho. "Ele fez uma cena dessas só uma vez desde que eu o conheço".Explicou soltando levemente os braços e segurando as mãos em frente ao corpo. "Foi quando eu fiquei insistindo que falasse sobre o pai. Eu queria quebrar um pouco aquele escudo que ele carrega..." Admitiu voltando então a olhar os irmãos que pareciam confusos. Halbarad soltou uma leve risada ao perceber o ar deles. "É... eu gosto do rapaz... Eu sinto que ele não é mau... não sei explicar... Ele só parece estar sempre assustado, fugindo... escondendo-se... Não sei mesmo explicar..."
"Para quem tem medo ele se arrisca demais".Admitiu Elrohir tentando quebrar um pouco a seriedade do momento. Mas dessa vez ninguém riu, nem mesmo ele achou graça do que dissera. Ao ver o rapaz gemer ali de pé apoiando a mão na região abatida o gêmeo mais novo teve uma sensação que não conseguia entender, era como se aquela cena já tivesse acontecido no passado, mas ele não conseguisse encontrar a associação para aquilo tudo.
"Eu concordo que ele esconde algo".Admitiu Aragorn mantendo seu tom rude. "Mas não creio que seja o que seu bom coração, meu amigo Halbarad, presuma ser, e não vou deixar aquele mercenário tranqüilo enquanto não descobrir".
Halbarad franziu os olhos um tanto contrariado com a obsessão do guardião, mas limitou-se a abanar a cabeça, desiludido e voltou a olhar o menino que escondia o rosto nos joelhos novamente.
"Não vai conseguir tirar nada dele hoje. Eu conheço bem esse gato selvagem".
"Quer apostar?" Indagou Aragorn irritado ao perceber que definitivamente não conseguiria convencer o amigo. O guardião já estava disposto a demonstrar o contrário dando alguns passos na direção de sua vítima.
Halbarad voltou a encará-lo com um ar mais sério dessa vez.
"Deixe ele em paz, Aragorn!" Disse usando o nome verdadeiro de Estel para atrair-lhe a atenção. "O menino ainda não provou ser o que você julga que ele seja."
"E ainda não provou ser o contrário".Completou o guardião afastando-se do grupo. Ele se sentia cansado daquela conversa. Parecia que, por mais que o mercenário agisse de forma suspeita e hostil ele acabava sempre conquistando a simpatia de todos. Aquilo parecia algum feitiço! Atirou-se então no chão novamente perto da fogueira e procurou evitar olhar para Squirrel, mas simplesmente não conseguia, seus olhos voltavam-se para a direção do rapaz a todo o instante. O jovem estava imóvel no canto que escolhera para se encolher. A única coisa que Aragorn notara era que sua respiração parecia um pouco alterada. *E se eu realmente o feri?* Pensou um tanto consternado.*Ah... Seria a única coisa certa que teria feito hoje* Concluiu depois apanhando um graveto e remexendo as brasas da fogueira para impedi-la de se apagar.
"É o que você faz sempre não é, irmão?" Indagou Elladan sentando-se ao lado do caçula.
Aragorn franziu a testa sem compreender. Elladan olhou para as chamas e sorriu.
"Você vê brasas se extinguindo e as cutuca para vê-las queimarem novamente".
O guardião franziu mais as sobrancelhas tentando entender aonde o irmão queria chegar. Elrohir se sentara a sua esquerda agora.
"Não, Dan." Disse ele deixando novamente o apelido do gêmeo escapar-lhe por entre os lábios. "Eu é quem faço isso. Aliás, estou querendo muito ir lá cutucar as brasas daquela fogueira mais um pouco".Ele terminou sorrindo e olhando para Squirrel.
Aragorn não conseguiu evitar o riso. Mas Elrohir dessa vez estava realmente encenando a perfeita peça teatral. Vendo o rapaz encolhido naquele canto escuro ele não tinha desejo algum de irritá-lo mais, muito pelo contrário, ele queria tentar entender as peças desse enigma de uma vez por todas.
E o mais intrigante de tudo aconteceu. Preocupados que estavam com todas as sensações que o jovem do gorro preto havia despertado eles se esqueceram das dúvidas que tinham em relação a Heron e Hawk.
***
A noite se transformou em dia e a tempestade não parecia dar-lhes trégua alguma. Todos os integrantes da caverna caíram cada qual em seu sono profundo despreocupadamente ficando apenas Halbarad de guarda. O velho guardião fumava seu cachimbo pacientemente soltando fumaça pelo nariz e mastigando um pedaço de tabaco nos intervalos de suas tragadas. De longe ele agora observava o jovem Squirrel que se encostara a uma pedra e permanecia de olhos abertos olhando para o nada. O guardião estranhara o jeito do menino que nem piscar parecia fazer. Passados alguns momentos o velho dunadain ergueu-se e caminhou vagarosamente para ver se o rapaz estava bem. Ele ainda mantinha uma mão apoiada na região que Aragorn atingira, mas suas pernas estavam esticadas e pareciam relaxadas agora e sua cabeça apoiada na fria parede atrás dele pendia levemente para o lado. O guardião lentamente reduzia a distância entre os dois esperando que o jovem desse algum sinal de que percebera sua presença. Mas Squirrel continuava na mesma posição, olhos perdidos e imóveis no mais completo nada. Finalmente Halbarad, frente a frente com o rapaz, decidiu ajoelhar-se e verificar o estado do jovem. Seu peito arfava levemente e suas mãos pareciam ter leves tremores. Halbarad olhava fixamente para o menino sem entender.
"Você está bem, Squirrel?" Ele arriscou, mas não recebeu resposta alguma.
Preocupado o guardião encostou levemente a mão no joelho do rapaz e percebeu algo muito estranho, o brilho retornou aos olhos do menino e ele piscou algumas vezes girando os olhos para finalmente encontrar os do guardião. Legolas gastou alguns momentos para perceber o que tinha acontecido. Ele tinha dormido sem perceber e fizera o sono élfico de cura, pois estava sentindo muita dor. O arqueiro sobressaltou-se finalmente e se colocou de joelhos, mas teve um de seus pulsos segurado pelo líder do grupo. Halbarad encarava o rapaz silenciosamente, seus olhos pareciam vasculhar todos os seus segredos, seus cantos, seus temores. Legolas quis novamente se libertar, mas o líder segurou seu outro pulso com força e continuando a olhar para ele.
"O que é você, menino?" Finalmente a pergunta tão temida surgiu da boca daquele homem. "As únicas criaturas que conheço que dormem com seus olhos voltados para o mundo são os elfos".
"Eu não estava dormindo".Afirmou Squirrel veementemente puxando os pulsos e libertando-se. Ele não conseguia pensar em uma desculpa plausível. "Só estava distraído".
"Um arqueiro distraído..." Repetiu Halbarad incrédulo.
Legolas fez menção de se levantar, mas Halbarad voltou a segurar-lhe uma das mãos.
"Você podia confiar em mim, criança".Propôs o dunadain pacientemente. "Nós nos conhecemos há tantos anos e eu sei tão pouco de você. Essa sua cor, seus modos e agora esse seu jeito de dormir... De onde você vem, menino? Conte sua história para mim".
Legolas sentiu-se dividido novamente, ele se amaldiçoava por ter aceitado fazer parte daquela missão. Tudo parecia estar fugindo do controle vagarosamente e por mais que ele tentasse estava difícil retomar o caminho que tomava anteriormente. Era cada vez mais duro pronunciar aquelas palavras de amargura e ofensa, por mais necessárias que fossem. Então ele apenas fixou os olhos do guardião sem responder.
Halbarad sorriu levemente frente ao silêncio do menino e deslizou o polegar pelo pulso que segurava.
"Você sabe que pode confiar em mim, criança." Ele assegurou mais uma vez.
Legolas sentiu seu coração gelar e um desejo enorme de colocar tudo a perder naquele exato momento, de desistir de tudo e sair correndo dali para nunca mais perseguia sua alma. Ele não queria mais fingir, não queria mas maltratar as pessoas, não queria mais ser odiado, mas não tinha escolha.
"Eu não tenho nada para lhe contar".Disse mais uma vez puxando o braço. Os olhos de Halbarad entristeceram-se pelo tratamento recebido e o coração de Legolas doeu ao perceber isso. "Pare de me vigiar e me deixe fazer meu trabalho".Ele completou com a sentença que sempre usava, cujo complemento Halbarad já sabia de cor. "Se não está satisfeito me diga e irei embora".
O velho dessa vez soltou um riso triste e colocou uma das mãos no ombro do rapaz.
"Está bem, criança".Ele disse olhando para aqueles olhos cujas olheiras intensificavam ainda mais o azul que refletiam. "Eu não vou perturbá-lo. Só queria que soubesse que não deixaria nenhum mal te acontecer se você me pedisse, se me honrasse com sua amizade".Declarou finalmente o guardião fazendo Legolas estremecer levemente com essas palavras. "Eu perdi muitos homens jovens como você cujos corpos eram muitas vezes jogados na lama ou no rio e nunca regressaram às suas famílias, que se viam obrigadas a seguirem suas vidas sem saber o que se sucedera. Eu quero levar você de volta para sua mãe e irmã, por isso meu amigo, não abuse de sua sorte e fique longe de Strider e de outras confusões".
Dizendo isso Halbarad se levantou e deu alguns passos voltando-se novamente para o rapaz.
"Vou dormir um pouco agora. Você fica de guarda".
Legolas acenou com a cabeça simplesmente, vendo Halbarad ajeitar-se em seu saco de dormir e adormecer quase que instantaneamente. Por um estranho motivo o silêncio daquela caverna pareceu subitamente mais sombrio. O príncipe tentou relaxar um pouco, mas as palavras do velho dunadain ecoavam em sua cabeça enquanto o líder agora dormia profundamente deitado de frente para ele com as pernas encolhidas e os braços por cima da coberta.
"Durma o sono dos sábios, meu amigo Halbarad".Disse Legolas com um suspiro olhando ainda para o bom homem. "É por pessoas como você que eu ainda me atrevo a ter esperanças".
