Olá. Queria agradecer novamente as reviews. Fiquei feliz em descobrir mais duas pessoas amáveis que estão lendo. Por isso peço a vocês que revisem, por favor. Vocês não fazem idéia como eu me sinto motivada quando descubro novos leitores ou leio a opinião dos amigos já conhecidos.

Agradecimentos especiais novamente à:

Lady-Liebe Alguém que todo dia agradeço por ter conhecido e cujo incentivo me move a tentar escrever sempre, mesmo achando que o trabalho final poderia ser bem melhor. Obrigada amiga!

Misao-dono – Quero saber da sua fic, amiga!! Escreva!! Um talento como o seu não pode ficar calado!

Kagura Bakura – Quero notícias suas. Sinto saudade dos seus recados simpáticos.

ReginaEspero que goste desse capítulo

Myriara– Uma escritora de muito talento cujo trabalho vale a pena ser lido. Espero um dia poder escrever fics como as suas. Quem gosta do Haldir não pode deixar de ler http:www.guaruhara.hpg.ig.com.br/lordofringsfic.html.

RoseliMais uma das agradáveis amizades que a minha fic parece estar me proporcionando. Muito obrigada pela review. E por favor, mostre seu talento. Tenho certeza que não vai decepcionar. Quero ler suas fics!!

Aqui vai o capítulo 14. Preparem-se, pois parece que o clima vai mudar...

14

As horas custavam a passar naquela caverna escura e sombria e o coração do arqueiro acelerava-se a qualquer sinal de movimento. Halbarad já havia dormido há algumas horas e os outros membros do grupo continuavam cada qual em seu saco de dormir enfrentando seus pesadelos e aflições. Legolas sentia um estranho cansaço em seu corpo não muito peculiar a um elfo. Provavelmente aquele ambiente fechado estava tragando levemente suas energias. Ele se questionava se os gêmeos, que agora dormiam lado a lado próximos a saída sentiam também o peso daquele lugar. Elladan mantinha as mãos por sobre o peito e parecia dormir profundamente. Já Elrohir deitara-se com o rosto virado para a parede e havia se movido muito desde então. Parecia não estar tendo um sono tranqüilo.

O príncipe observava os dois há algum tempo e quando percebeu o gêmeo mover-se mais uma vez levantou-se e se dirigiu vagarosamente na direção dele para ver se conseguia perceber o que o estava incomodando. A passos curtos e inseguros Legolas foi se aproximando dos irmãos e quando estava há poucos metros de distância percebeu que Elrohir pronunciava algumas palavras em sindarim enquanto dormia de olhos fechados. Não era normal um elfo dormir dessa forma a não ser quando doente ou extremamente fatigado, mas essas não pareciam ser as condições do filho do meio de Elrond. O arqueiro atreveu-se a dar mais alguns passos para tentar ouvir o que o jovem elfo dizia em seus possíveis pesadelos.

"Dan..." Ele apenas chamava pelo irmão. Legolas agachou-se perto dele para tentar entender o que dizia. "Dan... a chuva passou... diga ao Ada para abrir as janelas... está escuro aqui".

Legolas franziu a testa, mas seus lábios se curvaram num leve sorriso. Não havia nada de errado com o amigo, ele apenas sofria, como ele também, a terrível sensação de sentir-se preso num lugar sem luz. Os elfos não conseguem suportar tais condições por muito tempo sem demonstrarem algum tipo de desgaste.

Ele moveu o rosto levemente para o lado e ia se levantar quando sentiu uma mão segurar seu braço. Voltando-se num sobressalto encontrou os olhos de Elrohir fixos nele. Por um minuto os elfos apenas se olharam e Legolas simplesmente não encontrou a desculpa certa para dar. Ele não se perdoava por ter se arriscado assim, desde que se unira ao grupo dessa última vez ele parecera ter esquecido todas as normas de conduta que estipulara para si há muitos anos atrás quando assumira a personalidade de Squirrel. Ele sabia que não podia se aproximar de ninguém, se dirigir a ninguém e muito menos se preocupar com alguém. Mas tais normas pareciam cada vez mais difíceis de serem cumpridas ultimamente.

Legolas puxou o braço e tentou se levantar, mas Elrohir agarrou-lhe a túnica num rápido movimento e o trouxe para mais perto enquanto se erguia rapidamente. Sentindo a proximidade de seus corpos o arqueiro baixou automaticamente os olhos tentando evitar o olhar do amigo. Temia que, como Elladan havia feito na véspera, seu irmão também notasse algo de peculiar nos olhos dele.

"Você gosta de olhar as pessoas dormirem?" Indagou o elfo. Em sua voz o tom de deboche de sempre, mas havia algo mais. Algo que Legolas não consegui decifrar.

"Você estava falando coisas".Legolas defendeu-se prontamente ainda evitando o olhar do amigo.

"E você veio ver se eu estava bem?" Indagou o outro incrédulo. Um meio sorriso sarcástico enfeitava seus lábios.

"Eu..." Legolas iniciou sua defesa, mas foi interrompido.

"Oh, veja só, Hawk!" Uma voz conhecida veio da escuridão que se fazia na entrada. Elrohir soltou sua presa e agarrou uma das adagas com as quais dormia num instinto. Legolas fez o mesmo. As silhuetas dos irmãos do sul apareceram e seus sorrisos brilharam na escuridão antes mesmo de seus rostos se tornarem visíveis. "Eu não disse que o nosso Squirrel apreciava a companhia dos elfos." Heron riu mais uma vez mostrando agora seu rosto amarelado que emergia das sombras.

"É mesmo." Disse a voz do irmão cujas feições cheias de ironia se faziam visíveis também. "Esperamos não estar interrompendo algo."

Legolas deixou sair o ar dos pulmões ao perceber que os dois arqueiros não pareciam ser uma grande ameaça no momento. Então se levantou e afastou-se do grupo calado sem encarar nenhum de seus integrantes. Apesar de sua antipatia pelos sulistas crescer dia a dia ele só pôde agradecer aos Valarpela interrupção. Elrohir balançou levemente a cabeça ao observar o arqueiro afastar-se e colocar novamente a pequena adaga que tirara da bota em seu lugar, voltando a sentar-se no canto escuro de onde tinha saído. Se o jovem do gorro preto era um covarde isso ainda não estava claro na mente do filho de Elrond, mas sua atitude naquele momento era um indício muito grande de que, ou a possibilidade disso ser verdade era muito grande, ou ele tinha outras intenções que o elfo desconhecia. Elrohir naquele momento olhando os dois sulistas rirem novamente para ele e afastarem-se também, começou a acreditar que as desconfianças de Aragorn poderiam ter de fato fundamento.

O dia enfim amanheceu, mas a chuva não cessou seu castigo, por isso muitos dos integrantes do grupo de Halbarad continuaram em seus sacos de dormir ou envoltos em velhos cobertores. Aragorn, porém levantara-se e reascendera a fogueira voltando a sentar-se em frente dela enquanto mordiscava um pedaço de pão duro. Os gêmeos sentaram-se novamente perto do caçula, mas dessa vez nenhuma palavra parecia estar sendo dita. Legolas não tinha coragem de observar as atitudes dos amigos que pareciam cada vez mais desconfiados dele e o encaravam de forma impiedosa praticamente todo o tempo. O arqueiro encolhia-se em seu canto escuro cada vez mais, incrivelmente incomodado com a sensação de desconfiança e desamor que experimentava agora. A situação estava se tornando insuportável e logo se tornaria insustentável também. Legolas sentia pelos olhares dos gêmeos que eles estavam muito próximos de descobrirem a verdade e ele não podia permitir que isso acontecesse.

Num movimento repentino e doloroso o jovem então se ergueu devagar, ainda sentindo um pouco a dor do golpe de Aragorn, e cruzou a caverna a passos tristes dirigindo-se até Halbarad. Tinha tomado uma decisão. Iria informar ao líder que, assim que a chuva passasse, ele abandonaria o grupo. Era mesmo inútil tentar ficar, haja vista que a desconfiança em relação à pessoa dele crescia perigosamente.

Aragorn observou enquanto o jovem do gorro preto sentou-se ao lado do líder e eles trocaram algumas poucas palavras. Halbarad balançou a cabeça e colocou sua mão por sobre o joelho de Squirrel mais de uma vez, seus olhos tristes fixos nos do rapaz enquanto ele dizia algumas palavras que o guardião não entendia, mas que eram retribuídas por acenos de cabeça e olhares distantes do jovem arqueiro. Finalmente o líder deixou seus braços caírem por sobre o colo, vencido e Aragorn entendeu que a conversa entre aqueles dois estava encerrada. Squirrel voltou a erguer-se sem olhar para o velho novamente e retomou o trajeto que o trouxera até ali tomando o cuidado de desviar dos irmãos sulistas que passaram por ele em direção da passagem principal.

No meio do caminho, porém, algo fez com que Squirrel parasse por um momento. Aragorn apertou mais os olhos para tentar entender o que se passava e percebeu, a alguns passos dele, o arqueiro tirar o casaco de couro e cobrir o jovem Fowler com ele. Achou aquilo muito estranho e levantou-se para ver o que se passava. Legolas sentiu a aproximação do amigo, mas não teve tempo de se afastar. O guardião agachou-se ao lado dele e olhou o menino.

"O que houve? Ele está doente?" Indagou demonstrando preocupação. Os olhos fixos na figura adormecida.

"Não sei".Respondeu o rapaz rispidamente. Legolas estava se sentindo muito contrariado para conversar com Aragorn naquele momento. A esperança e alegria que povoavam uma pequena parte de seu coração pareciam tê-lo abandonado definitivamente dessa vez. "Dizem que você é o curador, porque não olha por si mesmo?" Ele desafiou o amigo amargamente e levantou-se para voltar a se sentar mais adiante.

Aragorn fez o que lhe fora sugerido, mas constatou que o menino só dormia. De fato fazia muito frio naquela caverna e provavelmente Squirrel percebera o menino tremer e viera oferecer-lhe um pouco mais de calor. O guardião ficou observando o arqueiro que usava agora apenas uma túnica fina e conjeturando se ele não sentia o frio que fazia por entre aquelas paredes úmidas.

Lá fora ainda trovejava muito e os cavalos já estavam impacientes dentro da caverna, principalmente Espírito que não estava acostumado a longas jornadas fora de seu território. Squirrel levantou-se novamente e foi acariciar o animal.

"Está tudo bem, mellon nîn".Disse o elfo ao seu amigo eqüino num tom amável, enquanto alisava a crina do animal. Muitas vezes Legolas chegava a estranhar ouvir o som de sua própria voz depois de tantos anos disfarçando-a no tom amargo de Squirrel.

O gesto de amizade do arqueiro era observado pelos filhos de Elrond com atenção. Aragorn franziu a sobrancelha e lançou um olhar questionador ao irmão mais velho.

"É impressão minha ou ele está conversando com o cavalo?" Indagou Elrohir traduzindo a intrigante dúvida dos irmãos em palavras diretas.

Aragorn ainda observou a cena por mais alguns instantes, mas depois deu de ombros estalando os lábios num sinal de indiferença.

"Todos falam com os animais".Ele atestou afastando-se dos gêmeos.

"Mas poucos são os que se fazem entender".Completou Elrohir encarando o irmão cujos traços da mais completa concentração e seriedade se faziam presentes em seu rosto. Elladan sentia que uma resposta estava vindo a sua mente, mas ele ainda não conseguia entender qual era.

De repente um grande estrondo foi ouvido acima deles. O som de uma enorme explosão veio da entrada inundando o coração dos integrantes da caverna de pânico. Os que dormiam saltaram em pé, mas não houve tempo para protestos ou indagações, outro estrondo seguiu o primeiro e o chão tremeu sob os pés do grupo. Ninguém compreendia o que estava ocorrendo.

Poeira e pedras começaram a cair do teto da caverna e os integrantes do grupo encaravam-se desesperadamente procurando um sinal do que deviam fazer, alguns correram para a saída, mas ela tinha sido bloqueada. Uma comoção geral ocorreu. Gritos de dor e desespero ecoaram por entre aquelas paredes onde um mero suspiro já parecia se tornar um grande lamento. Aragorn e os gêmeos tentaram puxar algumas das pedras que impediam a entrada, mas perceberam que eram muito grandes. Eles teriam que encontrar uma nova saída.

"Excelente! Fabuloso!" Exclamou Elrohir soltando os braços, incrédulo enquanto olhava a montanha de pedras que o separava definitivamente da liberdade.

"Cale a boca!" Disse Elladan já um pouco nervoso por estar preso num lugar daqueles.

Elrohir voltou-se para o irmão sobressaltado com o tom que ouvira. Mas Elladan agora esfregava o rosto com ambas as mãos. O desespero parecia estar invadindo o coração do gêmeo mais velho, que até agora tinha conseguido driblar brilhantemente a terrível sensação de claustrofobia que perseguia a ambos. Elrohir aproximou-se devagar e pousou uma mão no ombro do outro elfo.

"Tudo bem, Dan." Ele disse fazendo com que o irmão respirasse fundo e virasse o rosto em outra direção ligeiramente envergonhado. "Nós vamos achar uma saída. A caverna tem outros túneis."

Elladan acenou positivamente enfim, embora sentisse que fosse difícil apegar-se a uma esperança dessas. Entrar por um daqueles estreitos e úmidos túneis, cujas passagens surgiam humildemente por entre as pedras, não era definitivamente uma idéia que o agradasse. Mas o elfo tentou se recompor dando um leve aperto no antebraço do irmão e afastando-se para verificar se havia algum ferido.

Legolas instintivamente laçou os braços ao redor do próprio corpo, também ele sentindo a pressão do ambiente. Eles tinham sido enterrados vivos e a ausência de luz e ar seria o fim de todos se não pensassem rápido. O arqueiro esfregava os braços nervosamente enquanto olhava ao redor pensando no que fazer, quando sentiu uma mão tocar-lhe o ombro. Num movimento bruto ele virou-se para encontrar Fowler estendendo-lhe o casaco com o qual ele havia coberto o menino momentos atrás.

"Está com frio, Squirrel?" Indagou o rapaz fixando seus grandes olhos nos do arqueiro. "Pode pegar de volta. Eu estou bem."

Legolas tentou evitar o olhar do menino para não ceder as emoções que sentiu ao vê-lo se preocupar com ele num momento de aflição como o que passavam. Apenas ergueu a mão e empurrou o braço do rapaz fazendo-o segurar o casaco contra o peito.

"Fique com ele."A voz de Squirrel ordenou tentando transmitir a amargura de sempre. "Faz frio aqui dentro e ficará pior agora que estamos presos."

O jovem baixou a cabeça e afastou-se indo ao encontro do pai que regressava para dentro da caverna. Fazia mesmo muito frio lá dentro. Legolas ainda atreveu-se a olhar o menino novamente caminhando com o braço do pai por sobre seu ombro e vestindo agora a jaqueta de Strider. A felicidade estava em momentos pequenos como aquele e, mais uma vez, por mais complicada que toda aquela situação se fizesse, a única imagem que surgia na mente do elfo era a do rei Thranduil.

"Ada..." Legolas suspirou para si mesmo vendo Skipper erguer a mão que apoiava no ombro do filho e alisar-lhe os cabelos oferecendo-lhe algum conforto. "Sinto sua falta".

Tristemente os demais integrantes do grupo de Halbarad foram deixando o pequeno túnel que dava acesso à saída bloqueada. Na cabeça de todos o problema estava se tornando aterrador.

 "Onde estão Heron e Hawk?" Indagou Halbarad olhando para os lados já quase no final do túnel.

Todos se assustaram e passaram a procurar pelos arqueiros sem encontrá-los em lugar algum. O líder lançou então um olhar cheio de significados para o grupo. Uma conclusão tenebrosa estava no ar.

Aragorn, que permanecera em pé perto da passagem obstruída pensando no que fazer, sobressaltou-se arregalando os olhos para franzi-los em seguida. A imagem dos irmãos sulistas fazia-se presente em seus pensamentos e enchia-lhe o coração de ódio. Tão concentrado que estava na figura do jovem do gorro negro, Strider pela primeira vez não percebera o quão mal intencionados aqueles estrangeiros poderiam estar.

Os gêmeos se entreolharam desconfiados e Squirrel lembrou-se que vira os dois irmãos passarem por ele alguns momentos atrás, mas não se lembrava para onde tinham ido. Ele então passou entre os irmãos e dirigiu-se pelo corredor até a saída bloqueada, parando ao lado de Aragorn e focalizando seu pensamento e habilidades para tentar ouvir o que se passava lá fora. Concentrando-se ao máximo finalmente conseguiu distinguir as vozes dos sulistas do lado de fora da entrada, mas não pareciam preocupados com o que havia acontecido, muito pelo contrário. Legolas franziu a testa e respirou fundo ao perceber nitidamente a risada sarcástica dos arqueiros em meio ao som da chuva que ainda caia lá fora.

"Ouço vozes" Declarou por fim. "Eles estão lá fora."

Após transmitir a má notícia o arqueiro desviou seu olhar para Aragorn, depois para o resto do grupo que estava no final do túnel.

"Eles estão rindo..." Completou desprendendo levemente os lábios e baixando os olhos. Halbarad tinha sido traído.

Aragorn franziu a testa e aproximou o ouvido da passagem para tentar ouvir algo, mas não conseguia ouvir absolutamente nada.

"Como pode ouvi-los daqui?" Indagou muito intrigado olhando para o rapaz, depois voltou-se para os irmãos que estavam no fim do corredor ao lado de Halbarad. Elladan virou-se para Elrohir que franziu as sobrancelhas, depois deu um passo para frente tencionando aproximar-se também da entrada e tentar averiguar a verdade. Mas nesse momento um novo estrondo foi ouvido e a última imagem que os gêmeos viram foi a do jovem Squirrel rapidamente empurrando Aragorn para longe e outra grande explosão trazer novamente parte da caverna abaixo.

Uma nuvem de poeira ergueu-se com a queda violenta de várias rochas. Aragorn, empurrado pelo arqueiro, bateu com força contra uma áspera parede em frente e caiu de joelhos. Pequenas pedras atingiram suas costas e sua cabeça ocasionando alguns ferimentos. O guardião parou um minuto sentado em seus calcanhares para tentar entender o que se passara, tudo tinha sido muito rápido. Pousou então a mão levemente em sua testa e sentiu sangue nela, mas fora isso ele não sentia ter quebrado nada.

Ao olhar em volta pôde por fim constatar o que acontecera, mas ainda não entendia o porquê e qual era a gravidade de tudo aquilo. O som da explosão então voltou a sua mente e a imagem da destruição ganhou um significado ainda mais triste. Agora a caverna estava definitivamente bloqueada e eles não teriam como escapar pelo caminho que antes fora a entrada.

Aragorn suspirou fundo e massageou as têmporas tentando afastar a dor de cabeça que o incomodava. Foi quando uma outra lembrança lhe veio à tona: a de um par de mãos empurrando-o violentamente contra a parede. Mas porque aquele mercenário desgraçado fez isso? Indagou-se se voltando para tentar localizar Squirrel. Foi quando ele percebeu ainda melhor a gravidade do que tinha acontecido e ocorreu-lhe então que motivo poderia ter levado o jovem do gorro preto a tamanho ato de violência: uma boa parte do teto da entrada tinha desabado impedindo ainda mais a passagem para a saída. Squirrel salvara-o de ser soterrado vivo.

"Mas onde está esse infeliz".Indagou-se o guardião enfurecido por ter que enfrentar um sentimento de gratidão por aquela figura a quem abominava.

Finalmente no meio dos estrondos, e com a pouca luz que entrava por uma brecha no canto superior da entrara, ele conseguiu localizar o arqueiro. Estava deitado muito próximo à montanha de pedras recentes que caíra, tinha ficado com a perna e parte do tronco presos por uma grande pedra e gemia de dor. Aragorn arrastou-se rapidamente para perto dele e tentou remover o obstáculo. Quando viu que não seria capaz de fazê-lo sozinho virou-se para chamar os outros, mas percebeu que o pior ainda não havia lhe chamado à atenção: outra parte da caverna também tinha caído deixando-os isolados.

"Valar!" Exclamou o guardião olhando para os lados desesperadamente. Um sentimento de impotência assolou-o bem como uma preocupação com os outros que ficaram ainda mais isolados que eles. Ele só pôde desejar que não estivessem feridos também.

"Aragorn!! Squirrel!!" chamavam as vozes do outro lado como em resposta as suas preces. Ele pode distinguir as vozes dos irmãos e isso lhe aquietou um pouco o coração.

"Estamos aqui!!" Respondeu o guardião sem sair do lugar, ainda tentando mover a pedra que prendia o rapaz do gorro negro. "Algum ferido?"

"Acho que não".Veio a voz de Elrohir como resposta. "Vamos tentar cavar uma saída."

"Certo, mas sejam rápidos. Squirrel está ferido!"

Nenhuma resposta mais foi necessária. O guardião sabia que todos tentariam fazer o possível para libertá-los. O pior problema a ser resolvido, no entanto, estava em suas mãos.

Aragorn tentou mais uma vez mover a grande pedra e começou a se desesperar, não conseguia libertar o rapaz por mais força que fizesse. Parou sentando-se novamente por sobre os calcanhares para pensar enquanto olhava o rosto desacordado do jovem arqueiro. Ele já parara de gemer há alguns momentos e sua respiração parecia difícil. O coração do guardião acelerou-se ainda mais diante daquela imagem e a adrenalina em seu sangue parecia querer obrigá-lo a agir, embora ele não soubesse o que fazer preso como estava naqueles poucos metros que não haviam sido cobertos pelos escombros. O menino ia morrer ali e Aragorn não poderia cumprir a promessa que fizera ao pai. Não levaria aquele mercenário desgraçado para casa como seu pai tão veementemente havia pedido a ele que fizesse.

Aquele pensamento era insuportável e o sentimento de culpa seria ainda pior se ele se tornasse realidade. Movido pelo mais puro desespero e pela ira que o perseguia, Aragorn usou de toda a força que tinha e, para sua surpresa, a pedra se moveu o suficiente para libertar o rapaz. O sempre tão incrédulo Strider só pôde duvidar da veracidade do que acontecera. Ele ficou estagnado por alguns minutos olhando a pedra imensa que movera. Mas depois foi despertado pelo gemido de Squirrel que retomara a consciência e tentava se levantar. Sua túnica estava manchada de sangue e o rosto do arqueiro se contorcia de dor. O guardião apoiou as mãos nos ombros dele impedindo-o.

"Você não pode se mover ainda".Disse encarando os olhos assustados e confusos do rapaz e aproximando-se mais colocando as mãos na túnica dele para abri-la "Você está muito ferido".

Legolas estava atordoado pela dor e pelo susto que levara, por isso ele demorou alguns preciosos segundos para se dar conta do que estava para acontecer. Num movimento rápido, porém ele empurrou as mãos do guardião para longe dele erguendo o corpo e arrastando-se para perto da parede onde tentou apoiar-se para se levantar. Mas o arqueiro não conseguiu encontrar as energias que precisava para isso, limitando-se a encostar o rosto contra a parede fria e encolher-se tentando pensar no que poderia tirá-lo da situação complicada na qual estava. Aragorn surpreendeu-se com aquela atitude sem sentido e olhou para o rapaz indignado.

"Pelos Valar, homem tolo!" Exclamou franzindo a testa, profundamente ofendido. "O que acha que vou fazer?"

"Fique longe de mim".Ameaçou o rapaz com um olhar severo, mas com as mãos no ferimento, sua respiração estava ofegante.

"Deixe de bobagens".Ordenou o outro tentando retomar a calma. "Você salvou minha vida, por que acha que eu...". Ele tentou dizer aproximando-se novamente, mas foi surpreendido pela ponta de uma adaga que o fez voltar a se indignar. "Mas... você é louco ou o que? Quer morrer?".

Squirrel não respondeu, apenas mantinha sua mão trêmula segurando a arma erguida na direção dos olhos do guardião. Ele queria pensar no que fazer e precisava ser rápido, mas a dor insuportável estava roubando-lhe a sanidade, e o jovem não conseguia evitar demonstrá-la em suas feições.

Estel não entendeu. O rapaz agora se encolhera num canto como lhe era peculiar, parecia ter mais medo dele do que do que podia lhe acontecer. Olhando para aqueles olhos azuis por um momento ele tentou sondar o que poderia haver por trás deles, tentou entender porque tanto receio.

"O que acha que vou fazer?" Ele insistiu tentando trazer o rapaz a si. Mas qualquer coisa que dissesse não parecia fazer efeito algum. E o problema maior estava se agravando, Aragorn percebia a mancha de sangue que avermelhava a túnica do rapaz aumentar seu diâmetro assustadoramente. Ele não tinha tempo para conjecturas, o jovem sangrava muito.

Arrastando-se silenciosamente tentou se aproximar novamente, mantendo ainda os olhos fixos no ferido. Legolas encolheu-se ainda mais e esticou a adaga o máximo que pôde aproximando-a dos olhos do guardião.

"Fique longe de mim".Ele repetiu. Sua voz parecia não lhe pertencer agora, era um mero eco numa escuridão que se formava devagar em sua mente. Mas, apesar da dor imensa que sentia, ele precisava convencer Aragorn a deixá-lo lá. O problema era como convencer alguém com um coração como o de Estel a abandonar um ferido que precisa de cuidados.

 "Deixe de tolices".Retrucou o outro olhando para a adaga que o ameaçava e novamente para seu dono. "Se eu te quisesse algum mal haveria outras oportunidades de fazê-lo."

Os lábios de Legolas se desprenderam e ele tentou retrucar, mas o desespero o estava abraçando e ele não sabia mais o que fazer. Manter a consciência e agüentar aquela dor estava quase impossível. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele apertou a adaga com mais força como se fosse uma escora na qual pudesse se segurar. Aragorn, vendo o sofrimento nos olhos do arqueiro já não conseguia se lembrar porque motivo não gostava dele, já não conseguia se lembrar do que ele havia dito ou feito. Ele só queria poder fazer aquele sofrimento parar.

"Eu não vou lhe fazer mal." Ele disse por fim.

Ao ouvir essas palavras do guardião os pensamentos e desejos de Legolas por trás de Squirrel foram maiores e seus olhos viraram dois cristais. Lágrimas correram devagar por suas faces. Aragorn olhava para elas sem entender, mas sentindo algo muito estranho, um desejo de ajudar, mesmo sem saber como.

Então, num movimento arriscado, ele estendeu a mão e tomou a faca do rapaz que não tinha mais forças para resistir. Legolas apavorou-se ao ver-se desarmado e cruzou os braços por sobre o peito para tentar uma última vez impedir o amigo de concretizar o que queria fazer.

"Não se preocupe", disse o guardião tentando ser o mais gentil que podia vendo o estado de agonia no qual o menino estava. Ele se aproximou devagar colocando as mãos por sobre os braços cruzados do arqueiro e voltando a abri-los pacientemente para depois se concentrar na túnica dele novamente. "Eu não vou lhe fazer mal, eu lhe dou minha palavra".

"Por favor..." disse o arqueiro mais uma vez, seu corpo começava a tremer muito. Aragorn sentiu o coração apertado por causa da cena que via. Squirrel apoiou uma mão por sobre a dele mais uma vez tentado impedi-lo de fazer o que pretendia. "Por favor... me deixe morrer em paz... Vá embora..."

Aquelas palavras transformaram os olhos de Aragorn em duas grandes luas cheias. Ele não suportava ouvir aquilo de ninguém.

"Você não vai morrer".Atestou categoricamente tentando sorrir para disfarçar a grande aflição que sentia agora. Odiar o menino era tão mais fácil. "Você vai se recuperar... e vamos ser amigos, então".

Legolas percebeu que não havia mais como resistir e que tudo estava perdido. Todos aqueles anos de solidão, todos os dias frios e as noites sem estrelas que ele enfrentou sozinho passaram por seus olhos. Tudo o que tinha construído como escudo estava para cair por terra naquele momento e ele não conseguia imaginar como as coisas seriam a partir de então. Um pavor invadiu seu coração e ele só pôde desejar que o amigo não guardasse mágoa dele pelo que tinha feito. Como Squirrel ele se habituara a ser odiado, mas ser odiado como Legolas estava muito além do que ele poderia suportar. Usando suas poucas forças ele fez então um último gesto: segurou a mão daquele a quem amava como a um irmão mais uma vez. Aragorn olhou-o nos olhos sem entender, não havia mais ódio ou desconfiança nos olhos dele, apenas compaixão.

"Não se preocupe".Ele disse tentando soltar-se para continuar. "Vai ficar tudo bem".

"Me perdoe".A voz de Legolas surgiu nos lábios de Squirrel. "Me perdoe Estel, me perdoe, meu irmão".

E dizendo isso ele pendeu levemente o rosto para o lado e seus olhos se fecharam. Aragorn ficou petrificado, achou ter ouvido vozes, ter enlouquecido. Voltou a olhar o rapaz tentando entender enquanto pensamentos insanos assolavam-lhe a alma. O guardião pendeu levemente a cabeça e voltou a franzir as sobrancelhas respirando ofegante como se tivesse ouvido uma alma do hall de Mandos lhe falar. Teria realmente perdido a razão?

Não havia, porém, tempo para novas conjecturas. Então abriu depressa a túnica em busca do ferimento e teve um novo sobressalto: a pele de Squirrel não era a mesma por baixo da túnica. Agora nada mais fazia sentido. Soltou os braços e sacudiu a cabeça voltando a olhar para o rosto do rapaz e novamente para o abdômen ensangüentado dele. Não podia deixar de imaginar-se vivendo algum pesadelo. Talvez a pancada na cabeça tivesse sido mais forte do que imaginava.

Mas então algo lhe chamou subitamente a atenção: um leve reflexo dourado escapava insubordinadamente da negritude do gorro que escondia boa parte da cabeça do menino. Um grande calafrio pareceu gelar a alma do guardião e um sentimento inexplicável o levou a colocar as mãos na cabeça do jovem e puxar vagarosamente o gorro libertando, para sua surpresa, um mar de cabelos claros que caíram por sobre o rosto e ombros da figura desacordada.

"Oh, Elbereth!!" Foram as únicas palavras que povoaram o silêncio que fazia naquele pedaço sombrio de caverna. Palavras que escaparam dos trêmulos lábios de Estel enquanto seus olhos espantados olhavam para aquele rosto novamente, para aqueles cabelos, aquelas orelhas, antes de serem cobertos por uma cortina de lágrimas quando finalmente ele compreendeu tudo, desde o início até o fim. Tudo fazia sentido. "Oh, mellon nîn!" Ele sussurrou passando as mãos inseguras no rosto do arqueiro, vendo aquela cor que tingia a pele do amigo desaparecer manchando as suas mãos e revelando-lhe um rosto conhecido que ele julgava que nunca mais veria em sua vida. "Legolas, meu irmão".

Então se voltou rapidamente para verificar o ferimento que não cessara de sangrar, rasgou um pedaço da túnica que vestia e fez uma bandagem para deter a hemorragia. Em seguida tomou aquele corpo desacordado nos braços estendendo-o gentilmente sobre o chão duro. Ele não podia movê-lo até pelo menos o dia seguinte. Legolas precisava se recuperar. Ele ia se recuperar.

Após terminar de fazer tudo o que podia para ajudar o amigo, Aragorn deixou-se cair exausto, sentando-se no chão e segurando a mão dele na sua.

"Por que, Legolas?" Ele sussurrou para si mesmo acariciando mais uma vez as faces do elfo e usando as próprias lágrimas que o arqueiro derramara para tirar os últimos traços de Squirrel do rosto do belo príncipe. "Por que tanta dor?"

Finalmente uma fresta surgiu na avalanche e uma pedra enorme foi removida. Elladan e Elrohir entraram.

"Estel... Oh Strider..." Corrigiu-se o mais novo que entrara primeiro. "Você está bem?".

Mas os dois pararam atônitos quando viram que o irmão parecia soluçar levemente.

"Não houve tempo?" Indagou Elladan preocupado. "Não fomos rápidos o bastante?" Ele e seu irmão haviam parado onde estavam com receio do que iam encontrar.

Elrohir encarou o mais velho surpreendido pela triste possibilidade de fracasso levantada pelo mesmo e voltou a olhar o caçula que estava sentado de costas para eles.

"Diga que ele está bem, Strider".Ele pediu sentindo receio de se aproximar.

"Ele vai ficar bem". Foi a resposta do guardião depois de enxugar o rosto com a manga da túnica. "Ele vai ter que ficar bem e nós não vamos deixá-lo mais... Nós não vamos deixá-lo nunca mais..." Aragorn repetiu para si mesmo.

Aquela resposta confundiu os irmãos e ambos arriscaram um passo em busca do esclarecimento. Um frio gelava suas espinhas enquanto eles se achegavam. Mas Estel moveu-se devagar um pouco para o lado e a pouca luz da caverna foi o suficiente para que os gêmeos pudessem ver o corpo brilhante de Legolas deitado no chão com as vestes de Squirrel.

"Illuvatar..." aclamou Elrohir caindo de joelhos diante do arqueiro. "Diga que não estou sonhando..." E estendeu sua mão receosamente até conseguir tocar o amigo e sentir que era real. Elladan também se ajoelhou sem entender. Mas vagarosamente tudo pareceu fazer sentido e os irmãos sorriram e se abraçaram sentando-se perto do corpo de Legolas, vendo o que ainda podiam fazer para que ele tivesse algum conforto e ignorando os olhares atônitos dos outros humanos presentes.