Olá. :-)
Estou muito feliz por poder finalmente colocar o capítulo 15 hoje. O pessoal andou me pressionando para fazê-lo com urgência o que me deixou muito contente. Não dá para descrever a sensação que tenho quando percebo que a estória está agradando.
Novos leitores também se fizeram ouvir, gente especial que estava lendo, mas não se manifestava. Obrigada! Por favor escrevam sempre, mandem suas reviews.
Lista de agradecimentos:
Lady-Liebe– Minha amiga especial que está comigo desde o início sempre me apoiando nessa e nas outras estórias que escrevo. Ela insiste que está sempre bom e quase sempre me convence disso. Obrigada amiga! Estou esperando suas novas fics.
Misao-dono – Ainda quero saber da sua fic, amiga!! O que houve?? Me escreva para a gente trocar umas idéias. Não dá para aceitar o silêncio de alguém tão talentosa quanto você.
Kagura Bakura – Que bom que você apareceu!! Não suma!! Mande suas reviews. Sua opinião é super importante.
Regina – Escreva! Não tive notícias suas. Espero que ainda esteja gostando.
Myriara– Obrigada pelas palavras maravilhosas que você sempre escreve nas suas reviews. É super importante ouvir sua opinião. Tentei achar sua fic mas ainda não encontrei. Pessoal. A maravilhosa fic da Myriara chama-se "A paixão dos Edain" e merece ser lida. Procurem por ela!!
Roseli– Pessoal. Essa é a Nimrodel Lorellin que está com uma fic brilhante mesmo chamada "Crônicas Aragornianas". Ninguém pode deixar de ler. Ela escreve muito bem de verdade, me faz lembrar o nosso querido professor. Parabéns, amiga! Você é super talentosa.
Botori – Obrigada pela review. Espero que a espera tenha valido a pena. Não esqueça de mandar sua opinião sobre o capítulo. Foi muito bom te conhecer!!
Agora vamos a fic. Nosso elfo louro foi descoberto. O que será que vai acontecer???
15
"Ele está acordando".Disse Elrohir aproximando-se do rosto de Legolas e alisando-lhe os cabelos. Estel e Elladan também se sentaram mais próximos dele.
Legolas abriu os olhos e viu o sorriso amável dos três irmãos. Ele estava confuso, sentindo dor e amargando o estranho sentimento de não saber onde estava, e pior do que isso, de não sabendo quem era. Desprendeu os lábios num suspiro e tentou levantar-se, mas Estel impediu-o.
"Shh. Está tudo bem, mellon nîn. Você precisa descansar."
"Você nos pregou a peça da sua vida".Sorriu Elrohir ainda alisando os cabelos louros do jovem arqueiro. "E você tinha prometido nunca mais me fazer de bobo, lembra-se? Você é um tratante".
Legolas respirou fundo tentando entender. Ele passava os olhos pelas imagens dos irmãos várias e várias vezes como se sentisse que não fossem reais. Elrohir sentava-se a sua esquerda e Elladan e Estel a sua direita agora. Seus olhares fixos nele com uma mescla de alívio e preocupação. O príncipe ergueu então as mãos e percebeu que ainda possuíam o tom escuro da pele de Squirrel, mas sentia seus longos cabelos soltos por sobre os ombros.
Veio então a conscientização do que ocorrera: os filhos de Elrond tinham descoberto a verdade. Todos tinham descoberto sua identidade. Uma mistura de emoções assolou o rapaz, a alegria de poder olhar os amigos sem precisar mentir ou fingir misturava-se com o medo do que poderia acontecer agora. Mas o príncipe decidiu saborear o pequeno momento de felicidade que lhe fora concedido e não pensar no resto. Ele voltou a olhar os irmãos que não pareciam, apesar das brincadeiras do mais novo dos gêmeos, realmente zangados com ele. Elladan ergueu suavemente a cabeça do amigo lhe oferecendo um pouco d'água e o rapaz aceitou bebendo devagar.
"Isso! Dê água ao poço louro".Brincou Elrohir. Ele estava tão feliz que nem se importou com o murro que levou de Estel.
"Vai fazê-lo engasgar-se, elfo bobo".
Mas Legolas apenas sorriu depois que Elladan afastou o cantil de seu rosto e permitiu que deitasse novamente a cabeça no manto que lhe servia de travesseiro. Ele ergueu a mão para Elrohir que a segurou imediatamente com ambas as mãos comparando-a depois com as suas.
"O que é essa coisa nojenta que você passa para ficar com essa cor engraçada?" Indagou o elfo deslizando os dedos pelas costas da mão do amigo com carinho.
Legolas olhou para a mão que o gêmeo segurava sentindo como se ela não fosse sua. A cor marrom permanecia fixa em toda a sua extensão fazendo-o lembra-se de tudo o que fizera para chegar até ali onde estava.
"Magia e feitiços" O arqueiro respondeu sorrindo levemente.
Um brilho surgiu no rosto do gêmeo e seus lábios se desprenderam numa espécie de abandono. Elrohir parecia tentar juntar as peças de um enorme quebra cabeça em alguns segundos. Legolas riu levemente analisando o ar que o rosto do amigo adquirira, mas teve pouco tempo para isso, porque logo o gêmeo mais novo lançou um olhar malicioso para ele e sorriu. Os outros irmãos se olharam tentando compreender o que se passava, mas foram ignorados.
"Acho que nunca mais vou permitir que você participe de meus planos".Elrohir atestou sorrindo abertamente.
"Obrigado". Respondeu Legolas numa voz fraca retribuindo o sorriso do amigo e olhando depois a sua volta, para só então notar que não via mais a figura de Aragorn.
"Estel..." Ele disse confuso erguendo um pouco a cabeça.
Elladan colocou a mão na sua testa segurando-lhe a outra mão e fazendo-o aquietar-se.
"Ele já vem. Não se preocupe com nada agora. Vai ficar tudo bem".
Legolas olhou novamente para os dois irmãos idênticos que agora pareciam tão diferentes um do outro. Ambos mantinham os olhos fixos nele e seguravam uma de suas mãos agora. Seus olhares brilhavam e havia um universo totalmente diverso por trás de cada um deles.
"Eu sei..." Disse o príncipe num suspiro voltando a relaxar o corpo no chão duro enquanto olhava alternadamente para os dois amigos a sua frente.
"O que?" Indagou Elladan aproximando-se um pouco mais do rosto do rapaz para tentar entender o que dizia. Ele sabia que Legolas sofria por causa do ferimento e de outras dores, mas não conseguia evitar o desejo de ouvir o amigo falar, de ouvi-lo conversar com eles depois de tantos anos de afastamento.
"Eu sei... quem são vocês".Legolas tentou esclarecer num grande esforço fechando ligeiramente os olhos e voltando a abri-los. Uma sombra de sorriso clareava suas feições, mas ele ainda procurava administrar a terrível dor que sentia.
Elladan olhou para o irmão mais novo que ergueu os ombros sem entender.
"Não nos reconhecia antes?" Sugeriu Elrohir confuso.
Um silêncio se fez enquanto Legolas respirava fundo buscando energias para continuar.
"Não os distinguia".Disse o rapaz por fim, apertando suavemente as mãos dos dois. "Tão diferentes que são e eu não percebia".
Os gêmeos voltaram a se olhar e depois sorriram. Eles pareciam compartilhar uma estranha cumplicidade naquele momento.
"Só nossa família nos distingue, irmão".Ofereceu Elladan acariciando a testa do amigo com os dedos. Os olhos do primogênito de Elrond estavam úmidos agora. "Só eles".
"Claro!" Elrohir sorriu maliciosamente tentando disfarçar a emoção da conversa que tinham. "Só eles sabem que sou muito mais bonito".
Elladan sorriu balançando a cabeça conformado e sentiu alguém se ajoelhando a seu lado com uma caneca na mão.
"Hora de dormir".Disse Estel sorrindo.
Legolas olhou o rosto abatido do grande amigo. Aragorn envelhecera muito nesses anos todos, mas guardava ainda o olhar do menino Estel que ele conhecera. Em cada cicatriz de seu rosto, em cada ruga que ele antes desconhecia, o elfo pôde perceber a dor que o guardião carregava consigo e sabia muito bem que boa parte daquela dor tinha sido causada por ele, pelo que ele tinha feito, pela decisão que tivera que tomar. Uma lágrima então caiu vagarosamente de seus olhos e o arqueiro não pôde impedi-la. Estel franziu a testa e se preocupou, entregou então a caneca a Elladan e, pedindo espaço ao irmão, sentou-se um pouco mais perto do amigo. Elladan levantou se e voltou a sentar-se ao lado de Elrohir.
"O que foi mellon nîn?" Disse o guardião segurando a mão do arqueiro e enxugando a lágrima que caia.
"Matho foech, mellon nin. Matho foech.". Eu sinto muito, meu amigo. Sinto muito.Ele disse emocionado, apegando-se subitamente a seu idioma como quem busca auxílio para dizer algo muito difícil. Outras lágrimas desciam vagarosamente pelas faces manchadas do elfo.
"Shh... Larhink, idra mellon nîn." calma, meu querido amigoPediu Estel apoiando a mão esquerda no peito do príncipe como se quisesse aquietar-lhe o coração. "Do que você está falando?"
"Eu sei..." O arqueiro respirou fundo mais uma vez e tentou continuar controlando suas emoções, mas estava muito difícil porque agora, além da dor que sentia, um triste nó na garganta parecia ser seu mais novo desafio. "Eu sinto... que seu coração sofreu muito por mim... eu sinto isso... sinto a sua dor pulsar dentro do meu peito como... como se fosse minha... Sempre senti... Me perdoe, Estel. Eu não tinha outra escolha. Eu...".
Aragorn pousou dois dedos nos lábios do amigo impedindo que ele continuasse. Ele não conseguia resistir mais às palavras do elfo que estava tão fraco, mas ainda se preocupava com ele como sempre o fizera, ainda tentando usar suas poucas energias para explicações desnecessárias. O guardião sabia que tudo o que Legolas havia feito, ele o havia feito para protegê-lo, por isso não havia o que perdoar. Sentindo seu rosto umedecer-se pelas lágrimas que rolavam, ele apertou a mão do arqueiro com força e a segurou perto do rosto beijando-lhe os dedos.
"Diga que me perdoa, amigo".O elfo insistiu incomodado pelo silêncio que sentia a sua volta. "Eu preciso ouvir."
Estel balançava a cabeça negativamente enquanto ouvia aquelas palavras que pareciam tolice para ele. Ele ainda mantinha a mão de Legolas encostada em seu rosto querendo sentir o calor dela, o calor no corpo do amigo, querendo sentir que ele estava realmente lá. Não havia porquê para pedidos de perdão ou meras desculpas. Eles estavam juntos novamente.
"Estel..." Insistiu Legolas uma última vez, sua voz parecia mais fraca do que nunca.
O guardião respirou fundo, tomou a caneca das mãos de Elladan e, erguendo a cabeça de Legolas, aproximou-a de seus lábios.
"Beba tudo e eu te perdoarei por me pedir perdão por algo que não precisa ser perdoado". Disse sorrindo. Ele queria muito conversar com o amigo, ouvir o som da voz dele, mas a fraqueza que o arqueiro demonstrava o estava preocupando demais.
Legolas sorriu e virou o rosto.
"Não me faça fazer uma cena!" Ele ameaçou despertando agora o sorriso de todos.
"Não posso dormir. Temos que sair daqui. Eu sei o caminho".
Estel afastou novamente a caneca surpreso, mas não soltou a cabeça do elfo. Seus olhos estavam intrigados com a afirmação do amigo.
"Já estive aqui uma vez em patrulha quando era novato... Eu me lembro".Continuou o elfo tentando encontrar forças. "Existem inúmeras passagens e nosso comandante nos ensinou a correta... Todas as outras levam cada vez mais fundo para dentro da terra e..." O príncipe parou subitamente trazendo um calafrio às espinhas dos amigos... "Elas contêm um gás mortal, Estel... Se pegarmos o caminho errado é morte certa".
A mente de Aragorn trabalhava incessantemente com as palavras do amigo. Ele, que já desconfiara de que o grupo caíra numa armadilha, agora tinha certeza. Heron e Hawk não queriam apenas prendê-los, os irmãos sulistas queriam enterrá-los ali mesmo.
"Podemos esperar você melhorar, mellon nîn." Disse ele por fim, trazendo a caneca de volta aos lábios do amigo.
"Não, não podem".Retrucou o outro virando novamente o rosto. "Não temos suprimentos para ficarmos aqui... e a falta de luz nesse lugar horrível não vai me ajudar. Eu... eu também quero sair, Estel".
"Nisso nós concordamos".Completou Elrohir acenando veementemente com a cabeça. "Eu quero muito sair daqui e bem depressa. Carrego você se for preciso. Carrego todo mundo!"
Legolas soltou um riso fraco e respirou um pouco mais fundo. Aragorn não respondeu, ficou analisando o rosto do amigo, se questionando se não seria um risco muito grande movê-lo agora. Ele não queria por tudo a perder justamente naquele momento em que o amigo havia finalmente voltado ao convívio deles. Olhou para Elladan, precisava de uma segunda opinião naquele momento que não fossem os gracejos do gêmeo mais novo.
O irmão entendeu o recado, levantou-se e ajoelhou-se do lado do caçula erguendo a túnica de Legolas para vistoriar o ferimento. Havia melhorado muito durante o tempo em que o elfo esteve desacordado, mas a região ainda estava febril e ele podia ter algum sangramento interno. Era um grande risco. O elfo então ergueu os olhos escuros e encontrou os do caçula demonstrando indecisão.
"É arriscado".Declarou por fim. "Só aceito se realmente ele for carregado".
"E os cavalos?" Indagou de repente Elrohir como se se lembrasse.
"Não".Disse Elladan categórico. "Nada de cavalos. Ele tem que ir numa maca".
"Não, não!" Elrohir balançava a cabeça sentindo-se incompreendido. "Eu quero saber se os cavalos passam por essa passagem que Legolas mencionou".
Era uma questão importante já que todos os animais também haviam ficado presos dentro da caverna com eles. Legolas apertou os olhos tentando se lembrar.
"O caminho se estreita um pouco mais adiante... mas acho que os animais passam sim... O difícil é convencê-los a fazê-lo."
"Claro!" Concordou Elrohir. "Só anões gostam de cavernas. Cavalos são seres inteligentíssimos".
Aragorn esfregava a barba curta pensativamente. Quando ouviu uma voz atrás dele chamando seu nome.
"Strider!"
Era Halbarad que agora sorria para Legolas. O velho guardião parecia feliz em ver o elfo acordado.
"Legolas, Legolas".A voz rouca do líder demonstrava grande paciência. "Como pode me enganar durante todos esses anos? Não tem vergonha de fazer isso com um amigo como eu?"
O elfo apertou os lábios, envergonhado e baixou os olhos. Realmente, apesar dos louváveis motivo que tinha, a atitude dele para com o velho líder, a quem conhecia por tanto tempo quanto Aragorn, não fora das mais honestas. Mas o dunedain apenas ajoelhou-se ao lado de Elrohir e, apoiando uma das mãos na perna do rapaz, ofereceu-lhe um amável sorriso.
"Estou feliz que esteja bem. Passamos todos esses anos procurando notícias suas e você bem debaixo dos nossos narizes."
Legolas voltou seu olhar para o sábio líder e tentou sorrir, mas o velho amigo pôde sentir o peso da culpa nos ombros do arqueiro.
"Peço que me perdoe, amigo Halbarad." O rosto do elfo enrubescera levemente enquanto ele tentava encontrar forças para expressar palavras tão importantes. "Não tive a intenção de me aproveitar da sua generosidade... mas admito que se não fosse ela eu não teria sobrevivido... Sou-lhe muito grato".
O velho homem emocionou-se com a declaração inesperada do rapaz.
"Que diferença! Squirrel jamais me agradecia." Brincou ele fazendo Legolas sorrir novamente e alisando-lhe levemente a perna onde apoiava a mão. "É bom tê-lo de volta, menino." Ele completou olhando-o nos olhos e voltando depois seu olhar rapidamente para Aragorn. "Não desapareça novamente." Ele completou voltando a olhar o elfo com carinho. Eu não vou agüentar o Strider se você fizer isso."
Aragorn também riu por alguns instantes, mas percebeu o leve mal estar do elfo com as palavras do velho líder. O coração dele se apertou no peito. Legolas pensava em partir novamente e ele sabia disso. Toda a situação que ele tinha construído para se proteger agora estava destruída como as ruínas de uma velha casa abandonada, e o elfo ainda tinha os mesmos problemas que o perseguiam há anos atrás.
Estel imaginava como teria sido a vida dele nesse tempo, fugindo, sem teto, família, recursos mínimos para sobreviver. Ele que sempre levara uma vida de grandeza e luxo, mesmo não dando valor a eles. Olhando para a figura ali deitada o guardião não precisava de muita imaginação para descobrir a resposta para aquelas questões. O elfo ainda estava mais magro e abatido do que quando Elrond o encontrara vivendo naquele flat e sendo perseguido por orcs. A vida dele conseguira piorar ainda mais do que naqueles dias então, pois depois de sair de Rivendell, Legolas, além de não ter mais família ou reino, tivera também que negar a sua própria identidade. Ele perdera a última coisa que tinha de seu. Mas dessa vez Estel estava decidido. Ele não sairia do lado do elfo até que encontrassem uma solução. Ele não permitiria que o amigo passasse por tudo o que passou novamente.
"Então?" Indagou Elrohir um pouco impaciente. "Não sei quanto a vocês, mas eu realmente quero ver as estrelas novamente".
Halbarad olhou para o grupo confuso.
"Do que estão falando? Têm algum plano que desconheço?".
Aragorn então explicou ao velho líder tudo o que os irmãos haviam comentado e a idéia de seguir o caminho que Legolas dizia conhecer e sair da caverna. Halbarad levantou-se e juntou seus homens. Algum tempo depois se aproximou novamente. Eles já tinham improvisado uma maca para o elfo a quem olhavam com grande curiosidade agora. Elladan e Estel colocaram o arqueiro deitado então, e todos passaram a seguir o caminho que ele indicava.
O trajeto era sinuoso e muitos acessos conduziam a trechos muito mais estreitos e escuros. Os cavalos realmente foram um grande problema. Elrohir teve que usar toda a sua experiência para convencer os pobres eqüinos a entrarem em alguns acessos muito estreitos e onde o ar era tão denso que ele mesmo julgava que fosse desmaiar. Os gêmeos não admitiam, mas estavam se sentindo muito estranhos ali. Procuravam apoiar-se na esperança que o elfo louro havia lhes dado de que faltava pouco para que sentissem o frescor do ar puro novamente.
E era verdade. Em pouco tempo eles já puderam avistar a luz do dia e foi uma alegria tamanha quando finalmente sentiram-se livres novamente.
"AH!!!" Gritou Elrohir dando um ligeiro tapa no lombo de um dos cavalos e permitindo que os animais corressem pela pastagem verde à sua frente, como ele mesmo sentia vontade de fazer. Elladan sorriu e apoiou uma das mãos no ombro do irmão. Aragorn fez o mesmo. Ambos nunca se cansavam de admirar a habilidade do gêmeo mais novo com os animais. Ninguém admitia, mas todos tinham dúvidas de que o elfo realmente conseguisse convencer mais de vinte cavalos a andarem comportadamente por caminhos tão estreitos como os que eles tinham enfrentado.
"Bom trabalho, Ro".Disse Elladan apertando ligeiramente o ombro do irmão.
"É, você se superou".Concordou Estel admirando a magnífica cena que via. Os animais ainda corriam para todos os lados como se comemorassem um grande acontecimento. "Espero que você consiga reuni-los agora".Ele completou não conseguindo esconder um certo ar de ironia e um sorriso maldoso.
Elrohir suspirou. Ele sentia seu coração tão leve naquele momento que nada que o caçula dissesse podia incomodá-lo.
"Reuni-los?" Brincou ainda admirando os eqüinos que agora já se aquietavam e buscavam alguma pastagem para mastigar. "Isso não estava no trato".Um sorriso enfeitou-lhe os lábios enquanto ele olhava novamente para os irmãos e afastava-se em direção aos animais para fazer o que o caçula tinha duvidado. Mas Aragorn adiantou-se e segurou-o pelo cotovelo.
"Não, irmão." Ele disse sério agora, percebendo o cansaço no rosto do elfo. "Eles não vão a lugar nenhum. Tente descansar um pouco. Você foi quem mais se excedeu nessa nossa jornada para a liberdade".
Elrohir hesitou por alguns instantes. Não estava acostumado a receber demonstrações de preocupação para com ele. Mas de fato Estel tinha razão. Ele estava mais cansado do que queria admitir e a paz daquele lugar o estava convidando para um descanso merecido. Elladan abraçou o gêmeo e puxou-o devagar para a direção do acampamento que os homens de Halbarad já estavam montando.
"Venha".Disse ele enquanto conduzia o irmão. Vamos deitar um pouco. "Eu só vou dar mais uma olhada no nosso elfo louro e já te acompanho".
"Vão descansar".Disse o guardião. "Eu cuido de Legolas".
Os gêmeos olharam o caçula mais uma vez um tanto receosos, mas depois acenaram quase ao mesmo tempo com a cabeça e se afastaram do irmão. Aragorn ainda ficou mais um tempo ali observando o passo sincronizado dos dois enquanto caminhavam em direção do grupo. Elladan ainda mantinha uma mão por sobre o ombro do gêmeo mais novo enquanto Elrohir gesticulava com os braços e parecia rir comentando algo que Estel, agora distante deles, não conseguia mais ouvir.
O grupo tinha demorado praticamente uma noite e um dia inteiro para sair da caverna. Agora acampavam numa clareira e discutiam o que fazer.
Aragorn sentou-se perto de Legolas e ambos ficaram calados por algum tempo. O elfo olhava as estrelas acima com grande admiração e não percebera que o amigo trouxera um sedativo para fazê-lo dormir.
"Eu tenho tanta coisa que quero lhe perguntar".Admitiu o guardião olhando a xícara que segurava firme com as duas mãos. Legolas voltou seu olhar para o amigo. Todos estavam muito cansados, mas Aragorn e ele pareciam carregar não só o cansaço de um dia difícil, eles carregavam a dor de uma vida de incertezas e inseguranças.
"Você está exausto".Atestou o príncipe numa voz suave. "Por que não vai descansar um pouco? Eu estou bem".
Estel não conteve o riso.
"O que eu disse?" Indagou o elfo confuso enquanto o guardião se aproximava e erguia-lhe a cabeça oferecendo-lhe o líquido. Legolas reconheceu o sedativo pelo cheiro e franziu levemente o rosto voltando em seguida a olhar o amigo em busca da razão do riso que ouvira.
"Você..." Disse Estel procurando as palavras certas para responder a pergunta do amigo. "Ferido... exaurido pela dor e pelo esforço de se manter lúcido para nos guiar... Você bem sabia o que aconteceria se nos levasse pelo corredor errado..."
"Não entendo, Estel..." Questionava-se ingenuamente o elfo procurando evitar a caneca oferecida enquanto não recebia uma resposta. Aragorn nunca se cansaria de admirar a inocência do amigo.
"Preocupado comigo... novamente..." Completou Aragorn fazendo o amigo enrubescer e balançar a cabeça. "Não há necessidade... Eu vou dormir depois que fizer a primeira guarda. Já acertei com Halbarad. Não sei se estamos tão seguros aqui quanto pensamos estar."
"Onde estamos?" Indagou o elfo num ligeiro sobressalto tentando olhar a sua volta, mas a escuridão o impedia de ver ao certo aonde tinham saído. Já fazia muito tempo desde aquela vez em que sua patrulha explorara a região.
Aragorn sorriu carinhosamente e encostou a caneca nos lábios do arqueiro.
"Eu não sei ainda. Mas vai ficar tudo bem. Beba e durma seu sono merecido, você nos salvou a todos hoje. Foi o nosso herói... Se fôssemos elfos estaríamos cantando em sua homenagem".
Legolas desprendeu levemente os lábios, comovido pela declaração do amigo e Aragorn aproveitou a oportunidade para virar ligeiramente a xícara obrigando o elfo, pego de surpresa, a engolir seu conteúdo. O príncipe não protestou mais, apenas continuou a beber a amarga mistura que apesar de tudo matava sua sede e permitiu que o amigo o ajudasse a acomodar-se melhor nas cobertas que o separavam do chão frio agora.
"Hannon le... Gwador nîn..." obrigado... meu irmão" disse Aragorn sorrindo enquanto cobria o elfo cujos olhos já se desfocavam levemente. Mas Legolas não estava conseguindo mantê-los abertos num sono élfico normal. "Ea na gwiil. Na nefach," Fique em paz. Eu estou aqui.Assegurou o guardião apoiando a mão no peito do elfo e recorrendo a língua do amigo para tentar acalmá-lo e fazê-lo render-se ao cansaço e ao sono de que tanto precisava. O príncipe não resistiu mais e finalmente fechou os olhos adormecendo no escuro sono dos mortais.
Aragorn ainda permaneceu ali por mais algum tempo para assegurar-se de que o amigo estava bem, depois se afastou silenciosamente e sentou-se numa posição mais privilegiada de onde poderia continuar observando o elfo, mas também tomar conta do resto do acampamento. Ele decididamente não se sentia bem ali, mas não conseguia saber o porquê. O grupo agora tinha um trajeto muito mais longo em volta da montanha para trilhar. O caminho da saída da caverna os havia deixado muito distantes de seu destino.
Quando o dia amanheceu Aragorn acordou com o corpo dolorido. Ele abriu os olhos e olhou a sua volta um tanto confuso. Só então percebera que, para sua surpresa, dormira encostado numa das pedras enquanto estava de vigia. Isso nunca havia acontecido antes e ele sentiu-se envergonhado. Olhando novamente a sua volta percebeu que Halbarad estava de guarda e lhe lançava um sorriso assegurando-lhe que tudo estava bem. Aragorn retribuiu o sorriso timidamente. Outra pessoa no lugar do líder dos dunedain teria aplicado o sermão do dia por aquele ato irresponsável, mas Halbarad não era como todos os outros homens que o guardião conhecia e Estel só pôde agradecer aos Valarpor isso. O velho amigo sabia bem o quão exausto ele estava.
Já não parecia ser tão cedo, mas muitos dos homens do grupo ainda permaneciam dormindo envoltos em seus cobertores. Aragorn aproveitou a claridade agora para tentar descobrir onde exatamente estavam. Foi quando percebeu que o príncipe não estava deitado onde ele o havia deixado. Num sobressalto levantou-se e olhou a toda volta.
"Onde está Legolas?" Indagou em voz alta a Halbarad.
O velho apontou para o lago.
"Os filhos de Elrond estão com ele." Respondeu o amigo com um sorriso amável. Ele não queria que Aragorn se preocupasse desnecessariamente. "Esses elfos são mesmo muito limpos, não é Strider?" Completou tragando seu cachimbo e voltando o olhar para o horizonte. Apesar da aparente calma o guardião percebeu que Halbarad também parecia preocupado com algo e a sensação estranha que sentira na véspera voltou a perturbar-lhe. Sem mais questionamentos ele saltou de onde estava e tomou a direção indicada pelo amigo, mas quando chegou viu uma cena que não o agradou. Legolas estava sentado entre os dois gêmeos conversando, mas usava novamente o disfarce de Squirrel.
O guardião aproximou-se com o rosto contorcido pela dúvida e pela dor. Não gostava daquela imagem e muito menos do que ela significava no momento. Quando os irmãos o viram levantaram-se imediatamente, mas Legolas ficou sentado onde estava. Parecia ainda um pouco fraco. Aragorn ajoelhou-se em frente ao amigo com um olhar inquisidor, era difícil voltar a encará-lo e não conseguir identificá-lo. Legolas mantinha os olhos tristes e baixos como se evitasse olhar o amigo. O guardião apoiou as mãos nos joelhos do elfo para chamar-lhe a atenção.
"Por que está de pé?" Indagou tentando ignorar o que mais o afligia.
Legolas manteve os olhos colados no chão e nenhuma resposta foi ouvida.
"Por que você não está descansando? Ainda não se recuperou..." Tentou mais uma vez o guardião apertando ligeiramente as mãos nos joelhos do amigo.
"Você sabe onde estamos?" Indagou o príncipe enfim numa voz fria. "Já olhou a sua volta?"
Estel não entendeu. Ergueu a cabeça e encarou os irmãos que também não esclareceram. Elladan suspirou profundamente e Elrohir balançou a cabeça. Então o guardião ergueu-se de novo e voltou a olhar a sua volta tentando reconhecer o lugar. O atalho que eles foram obrigados a tomar o tinha deixado ligeiramente sem noção de território, pois não tinha uma rota na qual se apoiar.
"Onde estamos, mellon nîn?" Ele perguntou finalmente.
Legolas estendeu-lhe a mão pedindo que o ajudasse a se levantar. Estel abaixou-se e ajudou o amigo segurando-o pelos ombros, não o soltando, porém, quando ambos estavam em pé, mas o elfo afastou-se dele e deu uns passos em direção ao lago olhando seu reflexo na água limpa.
Alguma coisa estava errada.
"Estamos muito próximos de Mirkwood".Disse Elrohir olhando para o elfo louro que estava de costas para eles agora.
Aragorn teve um sobressalto e olhou tudo a sua volta mais uma vez. Realmente, agora ele reconhecia alguns aspectos da região.
"Existem muitas patrulhas de elfos da floresta por essa região, Strider".Disse Legolas voltando-se para o amigo, mas não se aproximando mais. Sua voz estava estranha e Aragorn sentiu que ele estava tentando assumir a personalidade de Squirrel novamente antes que todos se acostumassem com seu retorno.
O guardião aproximou-se e segurou-o levemente pelos ombros. Legolas baixou os olhos novamente e quis afastar-se, mas sentiu as mãos em seus braços reforçarem o aperto. Então ele olhou para Estel, embora não quisesse fazê-lo.
"Você precisa esquecer quem eu sou." Ele disse num grande esforço. Sua voz escondia as emoções, mas seus olhos estavam tristes.
Aragorn franziu a testa.
"A possibilidade de cruzarmos com uma patrulha de Mirkwood é muito grande e eu não posso ser visto com você." Continuou o arqueiro tentando ser mais categórico. "Eu não quero ser visto com você... na verdade eu não quero que saibam que estou vivo. Pelo que sei meu pai... o rei Thranduil me considera morto e isso não é de todo ruim para ele... Eu não quero que ele me encontre, eu não quero que ele desconfie de Lorde Elrond... eu não quero que ele se lembre da promessa que fez...".
Legolas respirou profundamente como se aquelas palavras tivessem tragado suas últimas energias. Aragorn sentiu que seu amigo estava sofrendo muito novamente, sofrendo ainda mais porque diversas dúvidas o estavam afligindo. Ele queria ajudar, mas sentia que o elfo estava querendo se isolar no seu esconderijo mais uma vez, sentia que ele estava se afastando, escorregando entre seus dedos, se perdendo deles e isso era o que mais preocupava o guardião.
"Legolas..."
"Não me chame assim!" O elfo gritou fazendo-o lembrar-se ainda mais de Squirrel e desvencilhou-se das mãos do guardião, mas foi novamente agarrado e com mais força agora. Sentindo-se preso ele lançou um olhar mortal a pessoa que o segurava.
"Pare!!" Disse Aragorn dando-lhe uma leve sacudida e alterando ligeiramente seu tom de voz. "Você não vai conseguir! Não vai conseguir de novo. Está me ouvindo LEGOLAS?? Se quiser que eu o ajude a se esconder durante o tempo que estamos aqui eu aceito, lamento, mas aceito... eu posso encobrir sua farsa, mas não me peça para acreditar nela, entendeu? Eu sei quem você é agora, eu o encontrei, eu..." O guardião teve que parar pois as emoções o estavam dominando. Ele estava apavorado agora, sentia um medo enorme em seu coração. "Eu não vou perdê-lo de novo." Ele finalizou com os olhos cheios d'água. "Entendeu?" Indagou dando uma outra leve sacudida no elfo a sua frente.
Legolas não respondeu. Apenas baixou os olhos e suspirou. Não queria fazer o amigo sofrer. Ele sabia que não seria justo exigir isso dele.
"Entendeu?" Aragorn repetiu a pergunta dessa vez puxando o elfo para perto de si e abraçando-o.
"Não faça isso, Estel".Pediu a voz do arqueiro abafada pela túnica do guardião. Não havia mais revolta e ela soava como a do príncipe novamente.
"Não fazer o que?" Indagou o outro.
Legolas afastou-se levemente ainda sendo segurado pelos ombros.
"Não me faça borrar o meu rosto de novo. Dá trabalho fazer esse pigmento".
Os gêmeos riram e Aragorn colocou os dedos sob o queixo de Legolas fazendo-o erguer o rosto e olhar para ele. Havia lágrimas novamente correndo por aquelas faces, criando caminhos pela cor escura que agora cobria a pele sempre alva do elfo.
CONTINUA
