Olá. Espero que estejam todos bem.
Adianto-lhes que esse é o capítulo mais longo que escrevi até agora, por isso peço desculpas se vocês acabarem a leitura um tanto entediados. Bem, talvez isso não aconteça porque me atrevi a escrever minha primeira cena de ação. Confesso que foi difícil e espero que agrade a vocês.
Agradecimentos (não podia deixar de fazer):
Lady-Liebe– Minha grande amiga e escritora conhecida de vocês. Mas para os novos amigos que estão lendo agora a fic, vai um conselho. Não deixem de ler as short-fics da Liebe, além de divertidas elas sempre fazem a gente pensar em algo além. Valem a pena! Amiga!! FICS!!!
Misao-dono – Outra talentosa escritora que está nos dando um cruel chá de espera. Quem ainda está lendo "COMO UM PÁSSARO" sabe bem do que estou falando. Vale checar. Amiga, atualize!!
Kagura Bakura – Essa pessoa amável que também acompanha a minha história desde o começo. Esse capítulo é para você em especial. Obrigada pela camaradagem.
Regina – Espero que ainda esteja gostando.
Myriara– Fabulosa autora de "A PAIXÃO DOS EDAIN". Não deixem de ler. Se você gosta ou não do Haldir ainda assim vale a pena. A narrativa tem tudo de bom, romance, aventura, suspense e, de quebra, a divina Galadriel. Estou aguardando amiga. Amei o capítulo 5.
Nimrodel Lorellin – Parece que sou privilegiada mesmo. A maioria dos meus leitores são escritoras de talento. Aqui está mais uma. A autora das belas "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" Ninguém pode deixar de ler. Eu fiquei encantada, ainda mais que tenho um afeto especial pelos doces filhos de Elrond. Elladan e Elrohir são muito bem caracterizados lá. Leiam. Amiga, estou esperando!!
Botori – Obrigada mais uma vez pela review. Fiquei contente em saber que você ainda está me acompanhando. Obrigada!!
Desculpem mais uma vez por gastar tanto espaço com os agradecimentos. Mas eu nunca vou conseguir deixar de fazê-los, pois pessoas especiais merecem sempre ser lembradas. Muito obrigada a todas vocês!
Agora vamos ao capítulo 16. Acho que vou mesmo ser processada pela "Associação protetora dos Elfos" depois desse capítulo...
16
Já passara do meio dia quando o grupo finalmente se encontrava pronto para partir. Elladan passara uma vista pelos feridos para certificar-se de que nenhum precisava de auxílio e agora juntava seus pertences e prendia-os ao cavalo. Seu pensamento, porém parecia distante e ele teve um sobressalto quando sentiu uma mão em seu ombro.
"Ei." Reclamou Elrohir também assustando-se com a reação do irmão. "O que foi? Minha mão tem espinhos?" Ele brincou olhando a própria palma e voltando depois a apoiá-la por sobre o ombro do irmão.
Elladan soltou um leve suspiro e olhou a sua volta. Aragorn agora se aproximava trazendo Legolas consigo. O guardião puxava o arqueiro levemente segurando em seu cotovelo. Desde que o príncipe voltara a usar os trajes de Squirrel ele não deixara seu lado, parecia temer que o elfo simplesmente desaparecesse.
Legolas franziu levemente as sobrancelhas ao perceber o ar ligeiramente transtornado do gêmeo mais velho.
"Elladan?" Indagou o rapaz. Sua voz não tinha vigor e ele ainda mantinha uma mão por sobre o local do ferimento. "Algo o está incomodando?"
O elfo moreno fixou-se nos claros olhos do príncipe e esvaziou novamente os pulmões.
"Essa missão está caminhando em rumos muito estranhos".Declarou então em um tom profético que arrepiou a espinha dos demais. O primogênito estava sentindo algo no ar que não conseguia explicar. "Ela já começou errada e não está parecendo que vai tomar o caminho certo tão cedo".
"Pelos Valar!" Exclamou Elrohir. "Vamos ser mais otimistas aqui".
Mas Legolas também sentia o que o amigo mencionara. A missão toda parecia estar com seu destino sobre o fio de uma espada afiada. Eles corriam grande risco e sua mente ainda tentava desvendar o mistério dos irmãos sulistas, porque a traição dos arqueiros fizera com que o grupo não tivesse mais em quem confiar. Toda a história que lhes fora contada, o pedido de ajuda que fora encaminhado, tudo tinha vindo das mãos e bocas daqueles homens, eles eram os mensageiros da região afetada, eram os guias e conhecedores do lugar, da população e dos problemas da região.
"Acha que devíamos voltar?" Indagou Aragorn ao irmão mais velho.
"Não sei." O elfo parecia distante. Seus olhos estavam fixos no horizonte como se vissem algo. Elladan tinha muitos traços da personalidade de Elrond e diversas vezes fora capaz de prever o perigo com uma antecedência vantajosa, mas agora os acontecimentos estavam obscuros demais até mesmo para ele. Depois que reencontraram Legolas, o elfo começou a julgar que muitos outros acontecimentos surpreendentes poderiam vir a surgir.
Aragorn soltou um suspiro involuntário e inquietou-se olhando o irmão terminar de acertar a sela de seu cavalo.
"Dentro de dois dias estaremos no mesmo lugar onde Heron e Hawk foram vistos pela última vez. Acredito que, ao analisarmos a caverna por fora, teremos algumas respostas do que aconteceu".Concluiu o elfo sem desviar seu olhar.
O guardião apenas acenou com a cabeça solenemente e afastou-se para perto de seu cavalo puxando Legolas com ele. O jovem príncipe se deixava conduzir pelo amigo sem olhar ao seu redor. Estava se sentindo constrangido com os olhares de todos sobre ele agora. Desde que sua identidade fora revelada o grupo parecia olhá-lo com desconfiança, mesmo agora que o elfo voltara a usar os trajes de Squirrel.
Halbarad, porém, advertira aos seus homens que deviam fazer silêncio a respeito daquele assunto. Em uma breve reunião durante a noite de sono forçada do elfo, o líder, sem grandes explicações, apenas pedira discrição ao grupo com relação a Squirrel, e aqueles homens simples, que eram totalmente avessos a conflitos desnecessários, apenas aceitaram a imposição sem maiores questionamentos.
"Parece que Illuvatar vai nos presentear com mais um dia encoberto." Resmungou Aragorn num tom baixo enquanto olhava as nuvens acima. "Espero que não tenhamos mais água em nossas cabeças por alguns dias."
Legolas acompanhou o movimento do amigo calado e ficou fitando o céu acinzentado acima com uma tristeza no olhar. Tempos encobertos nunca foram de grande ajuda para seu espírito. Mas ele procurou aquietar o coração que já se encontrava aflito o bastante com os fatos que se sucederam anteriormente. Olhando ao redor ele percebera que o grupo já terminara de aprontar suas montarias e muitos já se encontravam sobre as costas de seus animais esperando por ordens. Legolas voltou-se a Aragorn e surpreendeu-se ao vê-lo amarrar Espírito na sela de seu cavalo.
"O que está fazendo?" Indagou o príncipe segurando a rédea do animal.
"Você vai comigo no meu cavalo".Informou o guardião amarrando agora, sem olhar o amigo, seus pertences na sela de Espírito.
Legolas indignou-se.
"Eu estou bem".Retrucou apertando os lábios. "Posso cavalgar."
Aragorn fingiu não ouvir, limitando-se a subir em seu animal e estender a mão para o elfo. O príncipe sacudiu a cabeça levemente olhando mais uma vez para o grupo que encarava os amigos com curiosidade.
"Estel..." Ele apelou em voz baixa aproximando-se do guardião para tentar capturar o olhar que fugia dele agora. "Não faz sentido sobrecarregar seu amigo..."
"Elfos não pesam quase nada." Respondeu o outro olhando para cada um dos seus homens e fazendo com que eles desviassem automaticamente o olhar deles numa obediência quase involuntária. "E você pesa menos ainda." Ele sorriu um sorriso triste, olhando rapidamente para o príncipe e voltando a estender-lhe a mão. "Vai subir ou quer que eu te coloque aqui?"
O arqueiro suspirou descorçoado aceitando a mão oferecida e ajeitando-se atrás de Aragorn em seu cavalo.
"Não precisa fazer isso." Retrucou Legolas num tom amargo. "Eu não vou fugir."
Aragorn engoliu as palavras que ouviu com dificuldade.Era mesmo impressionante como não havia segredos entre eles. Legolas sabia muito bem o porquê de sua atitude.
"Assim espero".Respondeu retribuindo o tom amargo do elfo. "Pois não vou te perdoar se fizer isso novamente comigo".
Legolas baixou o olhar e sentiu seu rosto enrubescer. Ele não esperava uma declaração tão direta do amigo dessa forma. Aragorn sentiu o peso das palavras que dissera e, como num instinto, esticou uma das mãos para trás puxando a do amigo e a colocando sobre sua cintura.
"Segure-se".Disse ele fazendo o mesmo com a outra mão agora. "Não posso manter o cavalo num passo lento. Se sentir alguma dor forte me avise."
Legolas obedeceu calado enquanto Aragorn colocava seu animal em movimento. Ele de fato ainda estava sentindo o ferimento apesar da noite de sono, mas não julgava que esse fosse um bom motivo para não cavalgar seu amigo Espírito como sempre fazia.
O dia se passou sem maiores acontecimentos. Já era quase entardecer e o grupo passava agora por uma grande planície aberta de onde se observava a floresta tenebrosa de Mirkwood, circundando assustadoramente o vazio onde estavam. Legolas era o único que olhava com carinho aquela escuridão de onde mal se podiam distinguir os galhos das árvores. Enquanto todos se viam obrigados a lançar olhares de vigias para o emaranhado de galhos e folhas onde surpresas mais desagradáveis encontravam-se escondidas, o jovem arqueiro dirigia um olhar totalmente diferente dos demais, um olhar de saudades. Ele não podia evitar as lembranças que lhe acometiam sem aviso ou direito à escolha. Tudo o que sentia que podia fazer era navegar aquele mar turbulento de imagens, memórias e temores que lhe afloravam de tal modo que sua pele chegava a arrepiar. Imagens começaram a surgir por entre aqueles emaranhados: os rostos dos soldados de sua patrulha, os criados que haviam perdido suas vidas de forma infeliz, os homens cuja liberdade custou ao príncipe muito mais do que ele julgava poder dar, e o rei Thranduil. Todos os rostos surgiam por entre os galhos e depois desapareciam como se estivessem fugindo dele ou como se o estivessem ignorando. Legolas apertou os olhos com força para conter lágrimas que queriam descer. Ele não podia chorar. Ele não podia fazer quase nada na posição em que estava e a cada dia o arqueiro se sentia mais preso, amarrado de tal forma que até um mero movimento era um custo. Instintivamente, ao apertar os olhos para segurar a dor, Legolas intensificou ligeiramente a força com que se segurava na cintura de Aragorn. O guardião teve um leve sobressalto e segurou em uma das mãos do arqueiro.
"Está tudo bem?"
Legolas não respondeu, apenas encostou a cabeça nas costas do amigo, tentando aproveitar o carinho e a energia positiva que estava recebendo dele para combater a tristeza de seu coração. Estava muito cansado.
"Venha, Squirrel." Disse uma voz fazendo-o reabrir os olhos e erguer novamente a cabeça. Era Elladan que emparelhava seu cavalo ao de Aragorn agora e lhe estendia os braços com um sorriso. Legolas não entendeu. Então o filho de Elrond aproximou-se mais e enlaçou o arqueiro pela cintura obrigando-o a trocar de cavalo e o colocando sentado a sua frente, em seguida puxou-o levemente para encostar-se em seu peito.
"Mastigue isso." Disse o elfo aproximando uma folha muito verde dos lábios príncipe que virou o rosto num reflexo.
"Não posso dormir agora." Retrucou o rapaz. "Somos um alvo fácil aqui."
"Não te dará um sono profundo, é só um analgésico para a dor." Explicou o amigo encostando a folha nos lábios do arqueiro que finalmente cedeu e a aceito mastigando-a devagar. "Você precisa descansar." Esclareceu depois ajeitando a capa do príncipe e apoiando uma das mãos por sobre sua face para fazê-lo relaxar em seus braços. "Durma um pouco."
Legolas ainda olhou mais uma vez para Aragorn que o observava preocupadamente, mas nada respondeu, apenas segurou uma das mãos do gêmeo dando-lhe um leve aperto em agradecimento e fechou seus olhos. Era de certa forma um alívio muito grande fugir daquelas lembranças que o estavam perseguindo.
"Seria bom se pudéssemos parar um pouco." Lamentou Strider olhando agora para a figura adormecida nos braços do irmão. "Ele não parece bem."
"Legolas tem razão." Retorquiu Elladan olhando tudo a sua volta. "Não estamos seguros aqui."
"O que ele tem?" Surgiu a voz preocupada de Elrohir que retornava alguns metros com seu cavalo e juntava-se aos irmãos.
"Nada".Disse Elladan enlaçando melhor o corpo relaxado do amigo em seus braços para garantir-lhe segurança. "Só precisa descansar. Ainda não se recuperou totalmente".
Elrohir olhou o amigo por mais alguns instantes e franziu os lábios demonstrando consternação. Apesar de adormecido o rosto de Legolas ainda contorcia-se levemente a cada passo do cavalo. Elladan olhou para o gêmeo ao seu lado, mas não disse mais nada. Ele também estava tão preocupado com o príncipe quanto o irmão, mas sabia que pouco podia ser feito pelos males maiores que o torturavam agora.
"Precisamos sair de perto desse lugar maldito." Disse Aragorn numa espécie de interpretação radical dos sentimentos de todos. "Pelos Valar, como eu queria que ele esquecesse desse passado desesperador que teve. Que ele tivesse oportunidade de começar uma vida nova.
"Pedir isso a ele seria como pedir que esquecesse quem é, Strider." Disse Elladan mantendo seus olhos fixos no caçula agora. "Por isso nunca diga isso. O que ele precisa é voltar a ter esperanças de que um dia poderá regressar a sua terra, a seu lar e a seu pai."
Aragorn balançou a cabeça visivelmente contrariado. Elladan compartilhava as mesmas idéias de seu pai, mas ele não conseguia acompanhá-los nisso.
"Thranduil só fez mal a ele... Você precisava ouvir o que o rei disse quando Gandalf citou seu nome. Legolas tem razão. O rei prefere vê-lo morto a recebê-lo de volta a Lasgalen".
"Que desgraçado..." Afirmou Elrohir por entre os dentes. Era uma das poucas vezes que os irmãos o viram tão indignado. "Nós vamos dar um jeito dele nunca mais ver o filho de novo. Ele tem uma família agora, não precisa daquele elfo arrogante miserável".
"Calem-se vocês dois".Advertiu o mais velho dos filhos de Elrond aproximando o rosto para perto do de Legolas receosamente. "Ele não está dormindo um sono profundo. Pode ouvi-los".
Elrohir bufou e apertou ligeiramente as pernas indicando ao seu cavalo que gostaria que o animal apressasse o passo. Aragorn e Elladan apenas ficaram observando o irmão correr e passar por todos os integrantes do grupo desaparecendo de seu campo de visão.
"Às vezes ele me lembra você." Comentou o mais velho num suspiro. "Nunca vi um elfo com tão pouca paciência."
Aragorn quis rir das provocações do irmão, mas não encontrava forças para fazê-lo. Ele sabia muito bem o que se passava na cabeça de Elrohir. Nisso realmente ele e o irmão eram muito parecidos, eles simplesmente não conseguiam encarar uma injustiça com um olhar frio e a atitude paciente de Elrond e Elladan.
"Não!" Gritou Legolas despertando de repente e olhando a sua volta assustado.
"Tudo bem, mellon nîn." Assegurou Elladan acariciando o braço do arqueiro amavelmente.
"Não, não..." Retrucava Legolas se desfazendo dos braços do amigo e saltando do cavalo. Elladan tentou segurá-lo, mas não conseguiu, quando o príncipe caiu em pé no chão seus joelhos se dobraram obrigando-o a ajoelhar-se onde estava. Aragorn veio em seu socorro e o segurou pelos ombros tentando levantá-lo. Legolas aceitou a ajuda, mas libertou-se do amigo assim que sentiu que readquira o equilíbrio, sua mente estava atordoada e ele sentia o mundo girar a sua volta, mas precisava fazer algo com urgência. Aragorn e Elladan não entenderam ao vê-lo pegar seu arco e flechas e subitamente apontar para a mata. O grupo todo então se exaltou e colocou-se de prontidão temendo o que não conseguia ver. As flechas de Legolas seguiram uma a uma numa distância inacreditável caindo em um mesmo lugar. Todos se apavoraram ao ouvirem um grito assustador quando a primeira flecha atingiu seu alvo e outros gemidos seguiram o primeiro conforme o elfo disparava sua arma mortal.
Legolas finalmente se deixou abater pela dor e pelo cansaço e ajoelhou-se largando suas armas e tentando recuperar o ar e a energia que perdera. Elladan e Estel fizeram o mesmo ao lado do amigo, mas não proferiram palavra alguma. Estavam totalmente perplexos com a habilidade fenomenal do elfo, cujos ouvidos e olhos continuavam voltados para o bem estar de seu povo.
"Malditas sejam..." Disse o príncipe tentando conter as lágrimas. "Essas não vão sugar a vida de nenhum dos meus..."
Elladan apoiou uma mão no ombro do amigo e soltou um longo suspiro. Aragorn, porém ainda mantinha os olhos na mata distante e lamentava o tom da voz do príncipe.
"O que você matou, Squirrel?" Indagou a voz admirada de Fowler que se aproximava agora ainda montado em seu cavalo. "Que coisa é essa que grita assim como se fosse uma pessoa?"
Legolas levantou-se auxiliado pelos irmãos e encarou o menino, mas por alguma razão ele não conseguiu responder a uma questão tão simples.
"São aranhas, filho".Explicou então o velho Skipper aproximando seu cavalo do grupo. "Vivem para capturar e matar... alimentam-se de sangue de homens... e de elfos..." E ao pronunciar essas últimas palavras, o velho voltou seus olhos acinzentados para Legolas que não conseguiu encará-los baixando imediatamente a cabeça. Skipper era um homem simples, mas sábio, que ainda guardava em seu coração o compromisso que sentia ter para com o príncipe pela vida do filho que ele salvara. Porém, depois do acontecido na caverna, o velho passara a olhar o arqueiro com uma certa desconfiança e Legolas sentia isso. "Devemos agradecer por termos gente de boa mira no grupo".Terminou então o homem. Legolas virou-se surpreso e encontrou um leve sorriso nos lábios do velho caçador que apenas acenou com a cabeça e virou o cavalo voltando para a trilha original que o grupo seguia. Fowler sorriu para o arqueiro e fez o mesmo.
O príncipe desprendeu os lábios e um sentimento de alívio invadiu seu coração. Era muito bom saber que nem Skipper nem Fowler guardavam algum rancor ou desconfiança em relação à pessoa dele. Seu espírito estava fraco demais para tolerar o ódio daqueles por quem tinha estima e admiração.
Subitamente, porém, Elladan afastou-se do grupo. Seu olhar apertava-se em direção ao caminho que tinham em frente e suas feições pareciam transtornadas.
"O que foi irmão?" Indagou Aragorn preocupado.
Mas o guardião não teve uma resposta. O elfo moreno apressou-se subitamente e pulou em cima do cavalo gritando com o animal e fazendo-o correr o mais que podia. Aragorn ficou perplexo por alguns instantes e quando deu por si percebeu que Legolas também desfazia os laços que prendiam Espírito e saltava por sobre o animal para fazer o mesmo. Sem mais perguntas, só restou ao caçula espelhar a atitude dos elfos e seguí-los.
Os cavalos davam tudo de si e logo Aragorn deixou Legolas um pouco para trás. O pobre Espírito era veloz, mas o problema em sua pata traseira dificultava alguns movimentos comprometendo sua velocidade. O grupo passou por alguns arbustos e árvores baixas quando finalmente Aragorn começou a ouvir o que os elfos já ouviam há tempos. Elrohir gritava e sons de brandires de espadas eram ouvidos.
"Orcs..." Concluiu o guardião pouco antes da visão formada em sua mente tornar-se real a sua frente. O gêmeo mais novo enfrentava um grupo considerável daquelas criaturas cruéis que pareciam rir até quando estavam sendo mortas. Ele mantinha agora uma mão por sobre o ombro e sangue também escorria por seu rosto.
Aragorn pulou em sua defesa brandindo a espada, enquanto Legolas e Elladan tentavam abater o máximo possível de inimigos usando suas habilidades com o arco. Mas o grupo de orcs aumentava consideravelmente como se estivessem escondidos em algum buraco escuro e pudessem aparecer num passe de mágica na hora mais apropriada. Legolas deixou finalmente o arco e ergueu suas adagas avançando sobre um inimigo cruel que conseguira derrubar Elrohir e estava disposto a acabar com o conflito naquele momento mesmo, dando um fim à vida do elfo. Elladan e Estel lutavam agora de costas coladas um no outro fazendo grandes giros com os corpos e protegendo-se como podiam. O elfo já havia gastado todas as suas flechas e usava agora a espada para defender-se, cobrindo sempre que possível a retaguarda do irmão. A luta estava se tornando cada vez mais desigual e Aragorn preocupava-se com o irmão e o amigo feridos que não estavam ao alcance de seu olhar.
"Onde está Halbarad?" Indagou em voz alta para o elfo atrás dele.
"Eles estão chegando." Garantiu Elladan defendendo-se de mais um golpe e separando a cabeça de seu inimigo do corpo num rápido movimento. "Estou ouvindo os cavalos."
"Não vamos agüentar muito tempo..." Advertiu o guardião preocupado empurrando mais um cadáver que ficara preso a sua espada. "Onde estão Legolas e Elrohir?"
"Não os vejo. Mas ouço sons de espadas..."
A dupla fez mais um longo giro tentando afastar-se do centro dos conflitos, mas estavam cercados e não havia muito que fazer ou para onde se mover. O som de gritos de dor e de provocação se misturavam dando a batalha um tempero ainda mais amargo. Aragorn queria visualizar melhor a situação para pensar numa tática que os tirassem de onde estavam, mas o número grande de inimigos não permitia que o guardião tivesse tempo para tal. Eram momentos decisivos.
"Dan." Chamou Estel usando o apelido do irmão pela primeira vez.
"O que?" Indagou o elfo sem tempo para demonstrar surpresa.
"Me lembre de afiar essa espada."
O elfo riu. A ajuda estava chegando.
Um pouco distante dali Legolas arrastava o corpo imóvel de Elrohir para trás de uma grande moita. O elfo tinha sido atingido por um golpe na cabeça e estava desacordado.
"Agüente firme, amigo." Pediu o arqueiro acariciando levemente o rosto do elfo e depois escondendo-o por baixo de sua capa protetora.
O grupo de Halbarad aproximou-se violentamente e sem qualquer questionamento. O velho guardião era um exímio espadachim e não oferecia a menor chance a qualquer opositor. Aragorn finalmente conseguiu ver-se livre do cerco onde estava e passou a enfrentar os inimigos de igual para igual, abatendo muito mais orcs do que anteriormente. Mas eles ainda atacavam o guerreiro sem medo.
Fowler correu pelo meio do grupo desarmado, perdera a arma para um violento orc que agora o perseguia. Incapaz de ajudá-lo o pai só pôde gritar seu nome enquanto ele também combatia bravamente dois poderosos inimigos. O rapaz tentou inutilmente escalar uma grande árvore, mas não foi feliz. Encurralado com as costas pressionadas no grande tronco o menino só pôde franzir a testa esperando o golpe mortal que a criatura preparava para ele. Tudo o que o menino viu foi o ser cinzento erguer o braço cuja mão segurava um punhal brilhante já manchado com o sangue de vários inimigos e descê-lo de uma só vez na direção de seu peito. Apavorado ele fechou os olhos com força acreditando que assim, quem sabe, toda aquela imagem desapareceria como se fosse magia. E aconteceu. Quando o menino os reabriu a figura monstruosa estava caída à sua frente com os olhos abertos e uma asquerosa língua roxa estendida pelo chão enlameado. O menino olhou para os lados sem entender, mas logo veio a explicação. Já correndo com certa dificuldade mais adiante seguia uma franzina figura em seu gorro preto e com apenas um punhal na mão.
"Squirrel..." Balbuciou o menino soltando um riso nervoso.
O elfo ainda voltou para trás e encontrou o olhar do menino que lhe sorria.
"Suba na árvore, Fowler." Ele tentou gritar embora as dores não estivessem permitindo tamanho esforço, mas o movimento que fizera com as mãos ajudara o menino a entender o conselho e Legolas ficou feliz ao vê-lo obedecendo.
O príncipe percorreu o campo onde ainda vários orcs cercavam os homens de Halbarad, tentando abatê-los com a única arma que lhe restava. Ele perdera suas adagas e agora se restringia a usar o punhal que sempre carregava na bota. Mas não havia tempo para lamentações. O elfo tentou observar a área encostado atrás de uma árvore pensando numa melhor atitude a tomar. Aquele conflito estava tomando proporções assustadoras e eles estavam ficando sem tempo.
"Elladan!" Uma voz gritou despertando Legolas de seus pensamentos tenebrosos. O elfo olhou por detrás do abrigo e percebeu o problema. Aragorn combatia três inimigos, mas tentava manter seus olhos voltados para o que acontecia a alguns passos dele. Lá o gêmeo mais velho, agora desprovido de sua espada, tinha sido agarrado por três criaturas e era arrastado violentamente para dentro da floresta. Legolas desesperou-se. Ele sabia muito bem porquê os orcs faziam questão de fazer dos elfos seus prisioneiros ao invés de simplesmente matá-los. Elladan debatia-se, mas era inútil, quanto mais ele se movia e lutava mais seus seqüestradores o golpeavam para que se aquietasse. Ao ver a cena cruel e injusta o príncipe lembrou-se de quando encontrou o valente Elrond em condições muito parecidas as que eles estavam enfrentando no momento e da coragem impressionante que moveu aquele elfo que sempre fora o reflexo da paciência e da sabedoria a agir como um guerreiro assustador.
Quem é você, criança? Veio então a voz do lorde de Imladris sacudir-lhe as idéias. "Eu sou Legolas, filho do rei Thranduil e príncipe da floresta de Mirkwood". Ele disse para si mesmo apoiando-se naquela convicção.E foi com aquela imagem e com as palavras de Elrond ecoando em sua mente que Legolas olhou mais uma vez o punhal em sua mão e, ignorando a dor dos ferimentos novos e antigos e todos as probabilidades que o desfavoreciam, atirou-se em combate para defender aquele que era mais do que um amigo para ele.
Aragorn só teve tempo de arregalar os olhos ao ver a figura do príncipe surgir do mais completo nada e abater um por um os orcs que tentavam carregar seu irmão. Tão impressionado que ficou com tamanha coragem e determinação, o guardião quase se deixou abater pelo grupo que ainda o cercava.
Legolas enfim caiu de joelhos por sobre o último combatente, mas foi logo posto de pé novamente por Elladan.
"Ainda não, gwador nîn." Pediu o gêmeo segurando o rapaz pelos ombros e arrastando-o para perto de uma árvore. "Ainda não estamos salvos." Ele completou encostando o arqueiro atrás da grande árvore e escondendo-se com ele.
Legolas tentava recuperar o fôlego, mas não conseguia. O ar parecia pesado demais para seus pulmões cansados. Elladan vistoriou o amigo rapidamente deslizando as mãos por sob a túnica do rapaz e assustando-se ao vê-la sair completamente manchada de sangue.
"Legolas..." Lamentou o elfo moreno baixando os olhos para em seguida voltar a encarar os arredores com preocupação. Eles não podiam parar agora. Ainda havia muitos orcs no campo e os homens de Halbarad não estavam em um número vantajoso.
"Vá!" Pediu Legolas estendendo-lhe seu punhal.
Elladan aceitou a arma, mas olhou pesarosamente para o amigo cujo rosto já perdera parte da pigmentação deixando a mostra uma palidez preocupante.
"Vá salvar algumas vidas..." Pediu o príncipe mais uma vez.
O primogênito de Elrond respirou fundo, depois beijou a testa do amigo e partiu para mais um conflito.
Legolas deixou o corpo cair onde estava. As dores tornavam-se insuportáveis e ele queria deixar a escuridão abraçá-lo finalmente. Já era chegada a sua hora e não havia mesmo muito mais o que fazer. Mas os gritos conhecidos que ouvia, o barulho incessante do brandir de espadas, o cheiro de sangue o mantinham ali, o faziam querer ajudar. Não... Ainda não era a sua hora.
Pensando nisso o príncipe ergueu-se mais uma vez e voltou a encarar a guerra que ocorria a sua frente. Aragorn e Elladan voltaram a lutar lado a lado. Ambos estavam feridos e cansados e o número de inimigos não tinha diminuído tanto quanto era o desejo de todos. Mais adiante Skipper balançava ferozmente sua grande espada contra cinco figuras que o rodeavam e não muito além o velho Halbarad já caído no chão, tentava defender-se com um tronco enquanto três orcs batiam suas armas contra ele.
"Halbarad, não..." Disse Legolas para si mesmo passando depois os olhos pelo campo em busca de alguma arma perdida. Havia muitos cadáveres. Humanos e Orcs numa mistura de sangue e lama aterradora. Mas havia algumas armas também. Legolas só precisava alcançá-las. Num movimento arriscado o elfo correu pelo campo completamente desarmado e atirou-se por sobre uma pilha de corpos que se confundiam próximos ao lugar onde Elrohir caíra primeiramente. O elfo conseguiu puxar uma grande espada que estava presa sob todos aqueles seres infelizes. Em seguida arrancou uma adaga das mãos cinzentas de um orc que precisou ter os dedos quebrados pelo príncipe para tanto. Não havia mais tempo.
Halbarad ainda tentava bravamente defender-se dos golpes que lhe eram dirigidos, mas o tronco que usava como escudo estava cedendo e o guerreiro não sabia mais a que recorrer se ficasse novamente desarmado. Quando a última resistência cedeu e o tronco se partiu tudo o que o guardião pode fazer foi arrastar-se pelo chão em busca de algum abrigo milagroso. Mas o orc que viera selar seu destino fora subitamente impedido por uma adaga que lhe perfurou o pescoço. A criatura pendeu os joelhos caindo por sobre o comandante do grupo dos humanos e impedindo assim que os demais orcs conseguissem feri-lo. Halbarad não pensou uma segunda vez. Puxou a adaga do pescoço da imunda criatura que o cobria agora e deu-lhe um novo destino: o coração de um outro ser repugnante que se distraia tentando achar um meio de atingi-lo. O último orc, porém não estava mais lá, o que fez com que Halbarad franzisse a testa e, empurrando o peso que o impedia de se mover, se colocasse em pé novamente para imediatamente constatar o porquê do paradeiro do monstro. A alguns metros a criatura, aliada a um novo companheiro, travava uma batalha difícil contra uma franzina e contorcida figura que apenas tentava se defender. Tudo passou a fazer sentindo para o velho líder agora e ele, apanhando novamente a adaga, foi em direção do elfo para auxiliá-lo. Legolas ainda olhou para o homem rapidamente, mas, percebendo sua ação, gritou.
"Skipper, Halbarad!"
O velho não entendeu, entretanto ao olhar para o local indicado pelo arqueiro a resposta se fez mais clara do que o dia. O caçador estava encurralado por cinco orcs e parecia em grande desvantagem, o problema era que apenas uma adaga não seria o bastante para aquele número considerável de inimigos. Olhando ao redor o velho teve um triste choque. Caído bem diante dele estava Ruff. Um dos mais velhos integrantes do grupo. O pobre homem tivera seu peito inteiramente aberto e estraçalhado por uma grande espada que ainda encontrava-se fincada impiedosamente nele. Halbarad sentiu os olhos umedecerem, mas não podia deixar-se abater pela trágica cena a sua frente. Retirando a arma rapidamente ele então olhou mais uma vez para o velho amigo e fez uma breve reverência.
"Vamos matar alguns orcs, velho amigo Ruff." Ele disse com a voz embargada atirando-se em seguida a outra dura batalha ao lado de Skipper.
Foram momentos angustiantes até que o último orc caiu.
Legolas abriu os olhos vagarosamente para depois voltar a fechá-los para proteger-se da luz do dia que o pegara de surpresa. Ele sentia uma dor terrível e ainda estava cavalgando as últimas lembranças que tinha. Após pedir que Halbarad ajudasse Skipper a defender-se do número grande de orcs que o estavam atacando, ele ainda conseguira derrubar as outras duas criaturas que o haviam cercado. Mas e depois? O que teria acontecido? Legolas não conseguia se lembrar.
"Beba isso, mellon nîn." Surgiu uma voz e uma mão ergueu sua cabeça suavemente.
O arqueiro obrigou-se a abrir novamente os olhos e encontrou o rosto de Elladan lhe sorrindo. O gêmeo tinha um grande ferimento cruzando-lhe a face esquerda e uma das mãos estava amarrada numa bandagem muito branca.
"Elladan... O que aconteceu?" O rapaz perguntou fazendo o elfo sorrir ainda mais.
"Você realmente nos distingue, ou apenas fez uma tentativa?" Ele brincou fazendo Legolas acompanhá-lo num sorriso.
"Dan, onde estão os outros?" Ele insistiu em obter informações.
O gêmeo emocionou-se ligeiramente ao ouvir seu apelido na boca do príncipe. Nos últimos tempos parecia haver uma avalanche de emoções reservada para cada dia.
"Beba e lhe direi." Chantagiou o amigo.
"Não quero dormir..." Protestou o príncipe.
"Mas precisa... Não vai se recuperar nunca assim."
"Me diga primeiro onde estão os outros... por favor, Dan."
O gêmeo suspirou soltando levemente a cabeça de Legolas e olhando a sua volta.
"Ele acordou." Disse o elfo num tom um pouco mais alto do que seu habitual.
Legolas não entendeu, mas várias figuras foram aparecendo vagarosamente em frente dele. Aragorn e Elrohir foram os primeiros. Os irmãos ajoelharam-se perto do amigo e seguraram-lhe as mãos. Elrohir tinha uma grande bandagem amarrada em sua cabeça e o braço numa tipóia. Aragorn estava com o rosto coberto de arranhões e hematomas e, através da camisa entreaberta, o elfo pode distinguir mais algumas escoriações, mas parecia não ter nenhum ferimento mais grave. Em seguida surgiu o alegre rosto de Halbarad e por último Skipper com seu filho Fowler. Todos tinham o rosto adornado por arranhões e hematomas.
"Então nosso benfeitor acordou?" Indagou o líder do grupo sorrindo e fazendo Legolas sentir o rosto ferver. "Como está se sentindo, Squirrel?"
Legolas sorriu sem entender e contorceu-se um pouco onde estava para só então percebeu que sua pele tinha sido retocada e ele estava usando o gorro preto de Squirrel. Uma sensação estranha lhe encheu o coração, mas ele não quis indagar o porquê naquele momento.
"Obrigado, Squirrel." Disse Fowler um tanto envergonhado. Ele havia contado ao pai sobre como o arqueiro salvara novamente a sua vida
O elfo olhou para o menino e seu pai com carinho, mas balançou a cabeça indicando que não havia motivos para agradecimentos. Skipper abraçou o filho ao notar seu constrangimento, depois se afastou dele ajoelhando-se ao lado de Aragorn e tomando a mão do arqueiro na dele.
"Quero que fique com isso." Disse o caçador colocando um belo punhal nas mãos do elfo. Legolas ergueu-o ligeiramente e ficou espantado com sua beleza. O cabo da arma era adornado a ouro e prata e algumas pequenas pedras de diamantes emprestavam um brilho ainda maior a peça.
"Mestre Skipper..." Legolas tentou com muito custo encontrar sua voz que parecia ter ficado presa na garganta pela emoção. "Eu não posso aceitar algo de tanto valor." Ele completou estendendo a arma de volta a seu dono.
Mas o velho caçador não parecia inclinado a aceitá-la. Ele apenas segurou a mão do arqueiro com ambas as suas agora o fazendo apertar a arma com mais força e apoiando-a em seguida por sobre seu peito. "Era do meu filho mais velho." Admitiu então o homem. "Ele morreu há dois anos... Ele a ganhou de presente de um rei, pois era um grande guerreiro, assim como você... É sua agora, menino."
Os olhos de Legolas ganharam um brilho estranho e o homem percebeu que o rapaz parecia querer chorar. Era impressionante e ao mesmo tempo confortante descobrir que o amargo Squirrel era na verdade aquele elfo doce e gentil.
"Por favor, mestre Skipper".Insistiu ainda o elfo extremamente transtornado com a demonstração de carinho que recebia. "É uma peça de valor..."
"Havia duas peças de valor na minha vida, rapaz." Interrompeu o caçador. "Uma eu perdi há dois anos e é só uma lembrança, a outra você me impediu de perder ontem... E ao fazê-lo você passou a ser a terceira."
Ao ouvir tais palavras Legolas teve que fazer o maior esforço da sua vida para não ver seu mundo desmontar num rio de lágrimas. Ele apenas sorriu e permitiu que Skipper deslizasse os dedos por seu rosto antes que o velho se levantasse e se afastasse novamente. Halbarad ainda sorriu mais uma vez e acompanhou os dois.
Um silêncio tomou conta dos irmãos que agora estavam juntos novamente.
"Dan..." Chamou Legolas num sussurro.
"O que foi?" Indagou o elfo aproximando-se do amigo que agora era olhado pelos outros dois irmãos com curiosidade e preocupação.
"Acho que vou querer dormir agora." Declarou o elfo sentindo que não conseguiria controlar as emoções que sentia no momento.
Elladan ofereceu um sorriso triste para o jovem príncipe, em seguida passou a caneca para as mãos de Aragorn que também sorriu ajudando o elfo a beber seu conteúdo e depois a ficar numa posição confortável no chão duro por sobre o qual estava deitado.
"Por que..." Indagou Legolas suavemente. Seus olhos já se desfocavam enquanto ele lutava para receber uma informação que precisava.
"O que, mellon nîn?" Inquiriu Aragorn segurando a mão do arqueiro e apoiando a outra em sua testa. "Durma e depois conversamos."
"Por que... estou... Quem... retocou meu disfarce?"
Os três irmãos se entreolharam preocupados, e aguardaram mais alguns instantes na esperança de que o elfo adormecesse sem sua resposta. Mas o rapaz debatia-se ligeiramente e parecia transtornado.
"Quem... o que...?" Repetia o elfo tentando concentrar sua atenção nos irmãos a sua volta.
"Mellon nîn." Iniciou Aragorn apoiando uma mão por sobre o peito do amigo como sempre fazia quando queria que ele se aquietasse. "Um grupo está acampado próximo daqui. Descobrimos por acaso, mas eles não sabem que estamos aqui... porém existe a possibilidade de nos encontrarem..."
"Que grupo?" Indagou o rapaz confuso, seus olhos o traindo a cada momento.
Aragorn engoliu seco e voltou a olhar os irmãos.
"Um grupo de Mirkwood... batedores eu suponho... ou guerreiros..."
Legolas teve um sobressalto e ergueu-se violentamente. Seu estômago deu várias voltas e ele chegou a sentir o gosto da bílis na garganta.
"Estel..." Ele lamentou em um tom desesperado enquanto o amigo o forçava a voltar a se deitar. "Pelos Valar, estamos próximos não é? Mas não estamos nas terras do rei... não estamos... eu não entendo".
"Calma, mellon nîn." Pediu Elrohir apoiando uma mão por sobre a perna do amigo. "São só elfos e provavelmente sairemos daqui antes que notem nossa presença, mas se notarem não há problema, nós e os dunedain sempre fomos bem vindos às suas terras."
Legolas estava desesperado agora. Ele balançava novamente a cabeça e a sensação ruim que sentia em seu estômago voltava a incomodá-lo.
"Eu sou um exilado... não posso estar aqui... Se for pego eu... nós..."
Mas ele não conseguiu terminar. A dor terrível na região do abdômen se fez ainda pior, o elfo virou-se para o lado e subitamente vomitou uma grande quantidade de sangue que assustou a todos. Aragorn segurou-o enquanto o elfo se livrava daquele líquido todo, em seguida deslocou-o para outro lugar enquanto Elladan olhava atentamente o sangue no chão.
"Ele está com hemorragia?" Indagou Elrohir depois de ajudar como pode o irmão a remover o elfo que estava agora desacordado.
"Creio que sim." Respondeu o gêmeo mais velho num ar transtornado. "Não podemos movê-lo de forma alguma."
"Illuvatar" Clamou o mais novo voltando a olhar para o amigo desacordado. "Quando um sofrimento desses vai ter fim?
Aragorn esvaziou os pulmões e esfregou freneticamente o rosto com ambas as mãos.
"O que mais, Estel?" Indagou Elladan olhando o caçula com consternação. "O que mais está roubando-lhe a paz?"
O guardião encarou os dois irmãos e deixou render-se ao desespero. Lágrimas caiam de seus olhos e ele não sabia o que fazer. Ele voltou então a esfregar o rosto, mas agora manteve ambas as mãos cobrindo as faces. Elladan assustou-se e se arrastou para perto do caçula. Estel já era um homem feito e um guerreiro valoroso. Sua seriedade e coragem iam muito além do que os gêmeos imaginavam que fosse quando o viam menino correr pelo jardim atrás das borboletas.
"Ele vai ficar bom, Estel".Assegurou o primogênito de Elrond forçando um sorriso. Por mais que ele soubesse que aquelas palavras eram verdadeiras doía muito ver Legolas novamente no estado em que estava.
"É sim, irmão!" Apoio o outro gêmeo segurando a mão do caçula. "Ele é muito forte. Eu nem acreditei em tudo que foi capaz de fazer no campo de batalha ontem. Eu mesmo não estaria aqui se não fosse ele".
"Nem eu..." Adicionou Elladan como se tivesse se lembrando agora do fato.
Aragorn soltou então os braços por sobre o colo e continuou olhando para o valente príncipe guerreiro que dormia naquele chão duro agora escondendo sua própria identidade e com medo de seu próprio povo. Aquilo era injusto demais e estava muito além do que ele podia compreender.
"Estou com medo." Admitiu o guardião de repente.
Os gêmeos se olharam perplexos com a afirmação.
"Com medo de que, irmão?" Indagou Elrohir um tanto alterado. "Ele vai ficar bom. Eu tenho certeza."
"O grupo de Mirkwood que os homens de Halbarad encontraram quando foram em busca de comida..."
"O que há?" Indagou Elladan confuso. "É normal encontrarmos uma patrulha, não é?"
"Não aqui. Legolas tem razão em se preocupar. Essas ainda não são terras de Lasgalen, são uma fronteira".
"Não compreendo, Estel".Reclamou o gêmeo mais novo. "Quer falar uma língua que eu entenda?"
"Eu temo que esse grupo grande que foi visto não seja de batedores."
Elladan e Elrohir voltaram a se olhar apreensivos.
"E quem são então?" Os gêmeos perguntaram em uníssono.
Aragorn ainda guardou silêncio por mais alguns instantes. Parecia ponderar a afirmação que estava para fazer com cautela.
"Estel!" Insistiram os irmãos já angustiados.
"Acho que são guerreiros. Acho que são um grupo de guerreiros que encontrei há algumas luas e que estão regressando para Mirkwood."
"Guerreiros?" Indagou Elladan "E isso é um problema para nós?"
"É Estel..." Completou o irmão inconformado com todo aquele mistério. "Não entendo porque um grupo de guerreiros de Mirkwood pode nos ser uma ameaça. Acho que até seria bom se estivessem aqui ontem. Na certa teriam nos ajudado e não teríamos tantas baixas."
Silêncio.
"Não teriam?" Insistiu Elrohir pendendo levemente a cabeça para o lado e sentindo um calafrio estranho e inexplicável.
"Teriam." Concordou o caçula. "Teriam sim."
"Então? Não entendo... Você teme que os elfos de Mirkwood possam conseguir reconhecer seu príncipe? Eu não creio. Nós que somos seus melhores amigos não o reconhecemos. Ele é muito bom nisso."
"Mas Ada o reconheceu." Retorquiu Aragorn. Seu rosto não tinha mais expressão e seus olhos pareceram perder o brilho subitamente.
"Ada não é qualquer elfo... e ele tem Legolas como a um filho." Disse Elladan categórico.
"Isso é que me faz temer mais..." Disse Aragorn. O guardião parecia completamente perdido em seus pensamentos agora. "Um pai reconhece um filho perfeitamente..."
Os gêmeos voltaram a se olhar intrigados.
"Estel..."
"Thranduil..." Iniciou Aragorn percebendo que só o nome do pai do amigo já empalidecera os irmãos. "Se esse grupo for o mesmo com quem me encontrei, ele não tem um mero elfo da floresta como líder. Ele tem como líder o rei de Mirkwood. Thranduil, o pai de Legolas."
