Olá. Espero que todos tenham passado horas felizes.

Agradeço-lhes muito pelas palavras positivas sobre meu capítulo anterior. Estava muito insegura sobre as cenas de ação, mas parece que posso tentar me aventurar mais um pouco.

Esse capítulo é totalmente diferente do anterior, espero que vocês gostem do que vão ler. Me deixem saber, não se esqueçam! Tenham gostado ou não, me digam suas opiniões, por favor.

Agradecimentos (minha lista está crescendo):

Lady-Liebe Minha consultora sobre assuntos relativos à medicina. Liebe vai ser uma médica de talento. Vocês podem não entender, mas ela, ao ler o capítulo vai se lembrar de uma observação que fez há algum tempo e me esclareceu muito. Obrigada amiga! Não se esqueçam de ler as short-fics da Liebe, quem ainda não o fez, faça já e ganhe algumas horas de alegria. Amiga!! FICS!!!

Misao-dono – Ainda não recebi notícias suas. Pessoas que estão lendo "COMO UM PÁSSARO" escrevam todas para a Misao e cobrem dela uma atualização já!! Uma fic dessas não pode ficar parada!!Amiga, estamos esperando!!

Kagura Bakura – Meu maior incentivo para escrever. Obrigada pelas reviews. Você nunca falha.

ReginaFico feliz por receber notícias suas. Espero que seu computador esteja pronto.

Myriara–  Leiam "A PAIXÃO DOS EDAIN". Leiam!!! Se já leram, releiam... vocês não imaginam quanta coisa maravilhosa está nas entrelinhas dessa fic. Poesia pura. Ler uma vez só não é o bastante Amiga, estou aguardando mais capítulos!!

Nimrodel Lorellin –  "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Uma das fics mais lindas que tive o prazer de ler. Estou feliz em poder ser a primeira toda vez a ler o capítulo novo. Leiam pessoal. É imperdível. Amiga, novo capítulo já!!

BotoriObrigada, Obrigada!! Outra leitora que não deixa de me mandar seu parecer. Fico muito feliz.

Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – Uma nova leitura que está sacudindo a minha vida! Dirigente da APE (Associação Protetora dos Elfos) ela está querendo a minha pele!! Ai de mim!!Sinto muito... mas como já te disse... só sei escrever angsts.

Leka: Olá! Obrigada pela review. Fico muito contente quando encontro uma nova leitora. Espero que o próximo capítulo continue lhe agradando.

Vamos a fic! Algo vai acontecer no acampamento...

17

Várias estrelas brilhavam no céu naquela noite em que Legolas abriu novamente os olhos. As nuvens tinham se dissipado e o espírito do elfo agradeceu pela imagem que viu. Diversos pontos cintilantes piscavam num céu quase limpo e o frescor do ar noturno indicava que os tempos de chuva haviam dado uma trégua.

Olhando ao redor o elfo pôde constatar que o grupo ainda estava no mesmo lugar onde acampara primeiramente e, há alguns metros dele, Aragorn fazia a guarda fumando seu cachimbo. Não parecia haver mais ninguém acordado no acampamento e a própria displicência do guardião indicava que eles não corriam nenhum perigo. Legolas ergueu-se em um cotovelo e tentou sentar-se devagar ainda analisando as dores que sentia.Todo o seu tronco estava firmemente amarrado com diversas bandagens limpas que pareciam terem sido trocadas há pouco, mas não havia sangue nelas. A dor também não o estava incomodando tanto quanto antes. Sentado agora, o elfo procurou respirar devagar para amenizar a tontura que sentia por estar finalmente com o corpo na vertical novamente. Pelo mal estar que sentia nos músculos, provavelmente ele dormira por um tempo razoável.

"Não, não... nada disso!" Ele ouviu uma queixa na escuridão e logo o rosto de Elrohir apareceu. O gêmeo já não usava mais a tipóia ou a bandagem na cabeça, mas a cicatriz do ferimento ainda estava visível. "Nem pensar, poço louro." Disse ele segurando o amigo e o fazendo deitar novamente. "Nada de estripulias, você não pode levantar."

Legolas quis protestar, mas o tom de voz e o sorriso do amigo o desarmaram completamente e o príncipe só pode rir e ceder a pressão do gêmeo, obedecendo e voltando a deitar-se.

"Ro, eu quero água..." Reclamou o elfo tentando relaxar no chão duro. "Por favor..."

"Que novidade!" Riu o outro esticando o braço e trazendo o cantil para perto dos lábios do amigo. "Você ensaia a mesma fala sempre ou já sabe de cor?"

"Cale a boca, elfo bobo!" Surgiu a voz de Aragorn que estava de pé atrás deles agora. "Vai fazê-lo engasgar-se."

"Uff." Reclamou o gêmeo olhando para o caçula. "Você também ensaia? Ou é um complô mesmo?"

Mas Legolas não estava mais prestando atenção alguma na discussão dos dois. A única coisa que queria era matar a sede. Apoiado em seu cotovelo ele entornava o cantil bebendo o máximo que podia enquanto os dois irmãos discutiam.

"Ei, ei!!" Interrompeu subitamente Elrohir puxando o cantil devagar das mãos do príncipe que soltou um baixo gemido de protesto. "Vai se sentir mal assim!"

"Por favor... eu tenho sede..."

Elrohir olhou para Estel preocupado. O guardião então se ajoelhou ao lado de Legolas obrigando gentilmente o amigo a deitar-se enquanto desfazia as ataduras em volta de seu peito com a ajuda do irmão.

"A hemorragia faz as pessoas sentirem sede, mellon nîn." Ele explicou apoiando a palma por sobre todo o abdômen do amigo e parando em alguns lugares por mais tempo.

"Que nada!" Sorriu Elrohir tentando desfazer a tensão. "Ele que é um poço louro mesmo... não tem mais jeito. Vamos deixá-lo na beira de um rio qualquer e seguir caminho."

Legolas sorriu um riso triste com a brincadeira do amigo, ainda observando as feições de Aragorn enquanto analisava seus ferimentos.

"Não vamos te deixar em lugar nenhum".Declarou Elrohir de repente como se ele mesmo tivesse repensado o que dissera. "Você nunca mais vai se livrar de nós".

Legolas olhou para o amigo mais uma vez e voltou a sorriu, porém não comentou nada a respeito do que ouvira. Aragorn ergueu os olhos e fitou o príncipe também como se percebesse um mal estar nele.

"E os soldados?" Indagou o elfo. Ele sentia um receio enorme em perguntar, mas precisava daquela informação. Precisava conhecer os perigos que estavam a espreita.

"Estão ainda acampados há umas horas daqui".Respondeu o guardião sem olhá-lo.

Legolas apertou os lábios preocupado.

"Por quanto tempo eu dormi?"

"Quatro dias, mellon nîn! E só vai comer algo e voltar a dormir. Ainda não pode se mover." Respondeu rapidamente Aragorn fazendo o amigo suspirar insatisfeito com a informação.

"Quantos mais?" Indagou o rapaz.

"Quantos mais o quê?

"Quantos feridos além de mim?"

Estel e Elrohir trocaram olhares estranhos e o guardião voltou a encarar o amigo deitado.

"Só você! Dos feridos graves só você sobreviveu. Tivemos muitas baixas. Somos apenas doze homens além de nossa família e Halbarad."

Legolas franziu profundamente as sobrancelhas e balançou a cabeça em seguida nervoso.

"E estão todos aqui acampados durante quatro dias por minha causa?"

"Legolas..."

"Não acredito! E a vila? E aqueles homens, mulheres e crianças ameaçadas? E Heron e Hawk? Não podemos..." Reclamou o elfo inconformado levantando-se novamente apesar dos protestos dos irmãos que tentavam segurá-lo.

"Legolas, não seja teimoso!" Advertiu Elrohir ajudando o caçula a fazer o príncipe voltar a se deitar. "Não vai adiantar nada você se esforçar quando não está pronto. Mesmo porque eu não quero ver você vomitando sangue mais..." O elfo brincou sabendo que se fizesse o amigo rir ele cederia. Sempre funcionava. "Fiquei traumatizado com isso... nunca mais vou comer de novo!"

Aragorn arregalou os olhos para o irmão inconformado. Ele não acreditava que Elrohir estava brincando com algo tão sério como o estado delicado de saúde de Legolas. Mas, para sua surpresa, ele foi contemplado com uma risada musical que há muito tempo não ouvia. Legolas estava deitado, mãos no lugar do ferimento, fazendo tudo o que podia para parar de rir, mas não conseguindo grande êxito. A alegria do amigo desfez seus traços amargos fazendo-o parecer muito, apesar do disfarce, com aquele Legolas que Aragorn um dia conheceu na floresta de Mirkwood que, mesmo comandando uma patrulha, sorria sempre, se dando ao trabalho de parar diversas vezes só para lhe mostrar, a cada passo, uma beleza perdida naquela floresta escura e triste. Aragorn olhou para Elrohir que encarava o príncipe com os mesmos pensamentos do irmão e ambos riram também saboreando aquela doce sensação.

"Ai, Ro." Lamentou-se o elfo louro ainda tentando se recuperar. "Lamento tê-lo causado tamanho dano. Prometo nunca mais vomitar diante de presença tão nobre".

"Diante de presença tão nobre tudo bem, mas em cima de presença tão nobre já é um exagero!" Provocou o outro ainda mais um pouco se deliciando em ver o amigo render-se novamente ao riso e erguer uma mão como quem pede misericórdia. O gêmeo estava saboreando uma sensação totalmente diferente agora, percebendo como era maravilhoso ver o amigo rir daquele jeito, como se o mundo todo a sua volta tivesse desaparecido. Então ele pôde finalmente perceber que muito da felicidade de Legolas ainda estava voltada para coisas pequenas as quais o príncipe dava muito valor e que ele e seus irmãos podiam tentar tornar reais sempre que possível.

Enquanto estava perdido nesses pensamentos ele percebeu os olhos do príncipe encontrarem novamente os dele. Legolas apertou as pontas dos dedos nos cantos dos olhos para tentar impedir que as lágrimas causadas pela crise de riso caíssem, depois respirou fundo e sorriu um sorriso franco.

"Obrigado".Ele disse simplesmente fechando os olhos cansados.

Uma estranha sensação acordou o príncipe dessa vez. A terra parecia tremer abaixo dele e Legolas levantou-se num sobressalto olhando tudo a sua volta Ele estava atordoado e a princípio não conseguiu distinguir que som era aquele que ouvia e que parecia fazer o mundo inteiro tremer daquela forma. Uma mão em seu ombro o impediu de levantar-se.

"Elladan... o que..." Ele tentou perguntar ao elfo que se mantinha em pé olhando a sua volta e mantendo uma mão por sobre o ombro do amigo para fazê-lo continuar sentado no chão.

"Shh... Está tudo bem." Ele disse finalmente ajoelhando-se e ficando frente a frente com um par de olhos azuis assustados. "Legolas, você precisa se deitar e fechar seus olhos. Aconteça o que acontecer não os abra."

"Dan..." Tentou retrucar o arqueiro, mas o apelido do amigo foi a única coisa que surgiu de seus lábios que, mesmo sem pronunciarem palavra alguma depois, permaneceram entreabertos. Ele lembrava uma criança que acabara de acordar de um pesadelo.

"Faça o que eu pedi, Las".Implorou o outro retribuindo o carinho e também usando o apelido de infância do príncipe. "Por favor..."

"Me diga pelo menos..."

"São os soldados de Mirkwood" Disse o gêmeo por fim, lamentando não ter outra escolha. "Eles estão aqui..."

"Oh, Elbereth!" Clamou o príncipe arregalando os olhos que pareceram ainda mais claros então e olhando para todos os lados.

Mas Elladan sabia que não havia tempo para maiores explicações, então ele forçou o príncipe a voltar a se deitar e o cobriu com o cobertor até a altura do pescoço. "Acha que consegue ficar de lado?" Indagou recebendo uma ação como resposta. Legolas virou-se por baixo do cobertor e encolheu-se como pôde. O elfo moreno lamentou mais aquela agonia que o rapaz estava sentindo, mas havia muito pouco o que ele ou qualquer um pudesse fazer a não ser contar com a sorte agora. O gêmeo levantou-se e correu.

Aragorn e Halbarad estavam em pé observando o grande grupo se aproximar em seus trajes de guerra. Eram cerca de vinte elfos a cavalo numa velocidade pouco usual, não pareciam realmente estar de passagem. Se a insegurança não habitasse o coração dos presentes que aguardavam pelo pior, a imagem teria até uma certa poesia, devido à beleza incomparável dos elfos da floresta. Halbarad acenou para que seus homens permanecessem sentados e não fizessem qualquer movimento brusco.

"São elfos." Gritou o líder. "Não vão nos fazer mal se nos comportarmos bem."

O som dos cascos dos cavalos batendo pesadamente no chão aproximou-se e a imagem do grupo se fez mais nítida. Vestidos com as cores de Mirkwood e armaduras nos ombros, a única proteção possível para eles, arqueiros em sua maioria, os elfos pareciam cansados e muitos estavam feridos. A sua frente, para o desespero de Estel e dos gêmeos que se aproximavam do irmão agora, vinha o pai de Legolas, o rei Thranduil.

"Pelos Valar, Estel." Reclamou Elrohir quase sem ar. "Por que você tem que estar sempre certo?"

"Onde ele está?" Indagou Aragorn sem tirar os olhos do quadro assustador que se formava a sua frente, suas pernas tremiam e ele mal conseguia sentir as mãos frias.

"Está deitado, mas já acordou infelizmente".Informou Elladan. "Eu o coloquei a par dos fatos e pedi que fingisse estar dormindo".

"Mas ele não sabe que o pai..." Tentou indagar o gêmeo mais novo, mas não conseguiu encontrar coragem para tanto.

Não houve tempo para mais nenhum comentário ou questionamento. Estel engoliu seco quando olhou novamente para a austera figura do rei. Num instinto ele ainda se virou levemente para trás, mas não conseguia ver o local onde Legolas estava deitado. Só restava, naquele momento, esperar que a sorte não fechasse os olhos para eles.

"Mae Govannen, Aragorn, Mae Govannen Elladan e Elrorir" Saudou a bela voz do rei que se lembrava que o guardião estava no meio de seus homens e não poderia ser tratado como filho de Elrond.

"Mae Govannen" Responderam os três em uníssono, praticamente imóveis.

"Permita-me perguntar-lhes o que fazem tão próximos às minhas terras o grupo dos Dunedain e os filhos de Elrond".Disse Thranduil olhando para os homens de Aragorn. Todos permaneciam sentados, mas a figura imponente do rei estava causando uma impressão assustadora naqueles homens simples. O líder de Mirkwood tinha algumas escoriações no rosto e suas vestes estavam manchadas de sangue e barro, mas mesmo assim o belo elfo ainda causava um grande impacto.

"Vejo que o senhor também encontrou problemas em seu caminho".Disse Halbarad não resistindo à oportunidade de provocar a arrogante autoridade que nem sequer o cumprimentara

"Mestre Halbarad".Exclamou o rei com frieza descendo de seu cavalo num leve movimento e fazendo um sinal para que seus homens fizessem o mesmo. O grupo estava com seu número reduzido consideravelmente. "Como vão as terras do Norte?".

"Perigosas... como o senhor mesmo deve ter notado".Respondeu ironicamente o velho líder com um sorriso pouco convincente, enquanto analisava as feições do rei e depois deslizava seu olhar pelos elfos do grupo. "Aragorn disse que seu grupo tinha cerca de cinqüenta elfos. Não vejo mais de vinte agora. Lamento por suas perdas e espero que o inimigo tenha perecido."

O rosto do rei tremeu quase imperceptivelmente enquanto ele engolia aquelas palavras amargas. A aversão que tinha por humanos se agravara nos últimos anos e a tolerância com que tratava Estel devia-se apenas ao respeito que tinha por Elrond e mais ainda, a certas questões diplomáticas.

"De fato".Foi a única resposta de Thranduil que não pareceu realmente muito clara para o velho Halbarad que continuava deslizando os dedos por sua barba, desembaraçando os fios encardidos.

"Realmente lamentamos".Afirmou Aragorn num tom forçado, dando um leve aperto no braço do velho amigo que traduzia um nítido conselho para que ele se calasse. Mas Halbarad voltou seus olhos para Aragorn e sorriu. Ele parecia se divertir muito com o que estava fazendo e não tinha intenção de parar.

"Minha questão não me foi respondida ainda".Informou o rei fixando seus olhos claros nos do guardião agora.

Aragorn respirou fundo e resolveu usar de toda a sua sinceridade ao relatar os fatos ao rei que ouvia pacientemente, enquanto circulava pelo acampamento olhando todos os rostos com atenção. O guardião tentava desviar os passos para longe do lugar onde Legolas estava, mas o líder de Lasgalen parecia insistir em tomar aquele rumo. Ele já havia visto todos os rostos dos homens do grupo e aquela figura envolta em cobertores pareceu chamar-lhe muito a atenção. Pararam então muito a contra gosto, em frente da imóvel criatura que sequer parecia respirar.

"Quem é?" Indagou o rei demonstrando insatisfação por não conseguir ver o rosto da pessoa em questão.

Aragorn engoliu seco e sentiu o mundo girar de repente.

"O único ferido que sobreviveu ao ataque, majestade".Informou Elladan vendo que o caçula parecia paralisado de pavor. "É o motivo de ainda estarmos aqui. Não podemos removê-lo, está se recuperando de uma hemorragia".

"Quando estará bom?" Indagou o rei franzindo a testa e ainda olhando o corpo envolto em cobertores.

"Estávamos com planos de partirmos hoje. Ele ainda não pode cavalgar sozinho, mas creio que um dos nossos pode levá-lo".Continuou Elladan na esperança de que o objetivo do questionamento do rei fosse justamente saber quando o grupo deixaria aquelas terras.

Mas Thranduil parecia ter outros planos e o fato de não conseguir ver o rosto do convalescente não o estava agradando.

"Ele está sob o efeito de algum sedativo?" Indagou.

"Não..." Elladan respondeu. Ele queria mentir, mas simplesmente não sabia fazê-lo. "Creio que apenas dorme."

O rei então se ajoelhou perto do paciente e puxou levemente a mão que lhe cobria o rosto. Legolas portou-se excepcionalmente bem fingindo estar adormecido.

"Cor estranha ele tem".Comentou o rei ainda olhando o rosto que agora se mostrava para ele.

"Ele é do sul".Adiantou-se Aragorn que não sentia tanta dificuldade em atirar-se numa grande mentira se preciso fosse. "Faz parte do nosso grupo há pouco tempo, mas não é muito eficiente ainda, como o senhor mesmo pode ver. Não passa de um menino."

"De fato".Ponderou o rei repetindo a mesma frase anterior e finalmente se ergueu. Aragorn apertou os lábios sentindo um ligeiro mal estar. Ele não sabia porquê, mas aquelas palavras pareciam dizer mais do que realmente diziam.

Thranduil deu mais uma última olhada no soldado convalescente e depois se afastou em direção da fogueira que o grupo acendera. As chamas já estavam quase extintas e o rei terminou subitamente de apagá-las com um dos pés.

"Vocês estão nas fronteiras de Lasgalen". Disse ele pisando levemente por sobre as brasas ainda quentes. Ele parecia disposto a impossibilitar que aqueles restos de carvão fossem acesos novamente. "Permita-me oferecer-lhes estadia então. Se partirmos agora, estaremos em Mirkwood em dois dias. E não aceito uma recusa. Essas terras estão muito violentas e não me agrada a idéia dos filhos de Elrond viajarem por aqui sem uma escolta adequada".

Aragorn olhou para os irmãos atônito.

"Majestade. Não queremos parecer rudes, mas..."

"Eu creio que fui bem claro quando disse que não aceitaria uma recusa".Interrompeu Thranduil com um sorriso no canto dos lábios que Aragorn não conseguia decifrar. "Mesmo porque seu grupo parece muito cansado e abatido para a investida a qual estavam destinados. Lá podemos reestruturar algumas questões que amenizem essas baixas."

"O tempo corre contra nós, senhor." Disse Elrohir levantando o que ele julgava ser um bom argumento. "A vila espera nossa ajuda."

"O conflito está mais próximo do que se imagina, jovem Elrohir." Informou o rei num ar profético. "Não acredito que uma mera vila de humanos seja a questão agora."

Aragorn segurou o braço de Halbarad quase de imediato. Ele sabia que, bem como ele mesmo, o líder do grupo não apreciara o tom de descaso de Thranduil."

"Grandes problemas começam em lugares pequenos, majestade." Comentou Elrohir não se dando por vencido. "E muitas vezes são resolvidos em lugares pequenos também."

Aragorn olhou para Elladan sem saber o que pensar ou esperar. Elrohir era tão bom na arte da retórica e ironia quanto era em fazer as pessoas sorrirem e se zangarem. Thranduil deu dois passos largos. O suficiente para cobrir a distância que o separava do filho do meio de Elrond.

"Jovem Elrohir. Não sei como as pessoas ainda conseguem confundi-lo com seu irmão, haja vista que ele parece ser o único a herdar a visão e o bom senso de seu pai."

Elladan arregalou seus olhos para fechá-los em seguida. Aquela conversa estava tomando rumos perigosos, mas ele sabia que o irmão não o perdoaria se interferisse.

"Digamos que eu e o senhor, nobre rei Thranduil, não compartilhamos do mesmo conceito de visão e bom senso".Finalizou simplesmente o elfo mantendo seu rosto inalterado. Ele usava uma de suas inúmeras máscaras agora.

O rosto do rei não se alterou também. Aquele conflito mostrava-se mais mortal que um duelo de espadas.

"É por esse e outros motivos que estou na liderança de um reino, meu jovem. Porque tenho visão do que é grande enquanto você, soldado, preocupa-se com pormenores." O rei olhava diretamente nos olhos do elfo a sua frente. Elrohir sequer piscara ou demonstrara sinal de inquietação.

"Muito me satisfaz que assim o seja, senhor." Respondeu o gêmeo mais uma vez. "Existe lugar para todos, um soldado precisa de seu líder e o líder precisa de seus soldados. Só agradeço aos Valar que meu líder não compartilhe das opiniões de vossa majestade."

Thranduil voltou a mostrar seu sorriso enigmático. O jovem era realmente astuto, tão astuto quanto seu pai.

"De fato, jovem Elrohir. De fato..." Voltou a repetir então o rei. "Eu conheço bem as opiniões e crenças de seu líder. Elas custaram a vida de muitos dos meus e do meu pai também."

Elrohir respirou fundo indignado. Ele aceitava todo o tipo de acusação e desrespeito para com a pessoa dele, mas não tolerava que uma palavra negativa sequer fosse dita a respeito de seu pai. Elladan, notando que o clima realmente excedera os limites suportáveis, aproximou-se do irmão apoiando uma mão em seu ombro. Ele sentiu Elrohir tremer em sua ira ao ser tocado, mas manteve sua mão firme onde a depositou indicando ao irmão que já era hora de uma trégua.

"Acredito, majestade." Disse Elladan dessa vez. Seu olhar e tom de voz eram serenos como a brisa que os atingia naquela manhã. "Que o nobre rei Oropher, com toda a sua sabedoria, foi, assim como nosso pai, um aliado importante numa questão que era de extrema urgência. Nosso reino, bem como Lorde Elrond, também perdeu muitos entes queridos. A memória do mestre Gil-Galad ainda ocupa um espaço triste nas recordações de nosso pai, bem como, acredito eu, a memória do rei Oropher ocupa nas do senhor. Mas infelizmente o dom da premonição parece ser dado aos elfos como um castigo e não uma benção."

Os traços no rosto do rei se suavizaram ao soar das palavras do primogênito de Imladris e Thranduil apoiou uma das mãos por sobre o ombro de Elladan olhando o rapaz com respeito.

"Sábias palavras, jovem Elladan." Disse ele parecendo disfarçar uma súbita tristeza. "É como eu disse. Você tem muito de seu pai."

Elrohir deu as costas e ia se afastando quando teve seu braço subitamente segurado pelo rei. O rapaz voltou-se surpreso e não pode evitar lançar um olhar de revolta a figura a sua frente. Mas Thranduil apenas sorriu olhando fixamente para os dois irmãos. Ele ainda mantinha uma mão por sobre o ombro de Elladan e segurava o braço de Elrohir com gentileza agora.

"Vocês não se parecem, meus jovens. Vocês se completam. O sol e a lua, o frio e o calor, a bonança e a tempestade. Elrond é afortunado pelos filhos que tem."

Elrohir desprendeu os lábios surpreso e Elladan baixou os olhos colocando uma mão por sobre o coração em agradecimento.

"Mas você, jovem Elrohir".Completou o rei sorrindo ainda mais largamente. "Você é uma confusão esperando para acontecer. O que te faz um grande guerreiro, mas um diplomata não muito valoroso".

Elrohir também baixou seus olhos dessa vez, mas voltou a erguê-los encarando novamente o rei.

"O mundo não é feito só de diplomacia, o senhor bem sabe." Comentou o rapaz.

"De fato... Eu bem sei... Eu melhor do que ninguém".Finalizou o rei libertando finalmente o braço do rapaz e dando-lhe um leve aperto no ombro esquerdo. Ele não parecia zangado ou magoado com as palavras do gêmeo mais novo, muito pelo contrário. Thranduil realmente admirava a audácia do jovem elfo.

Aragorn, que assistira toda a cena angustiado, sentiu um grande alívio ao ver o rei se afastar novamente dos irmãos. Era como se seu coração tivesse parado subitamente e agora retornasse seus batimentos regulares como se nada tivesse acontecido.

"Junte seus pertences e seus homens, Aragorn".Ordenou o rei retomando sua seriedade e rispidez habitual. "Precisamos sair para que possamos atingir o próximo ponto de descanso antes do anoitecer".

Aragorn não teve escolha. O grupo, com um sinal do rei, imediatamente foi cercado pelos elfos de Mirkwood. Aquilo decididamente não parecia uma escolta, parecia um ato de prisão.

"Vocês me acompanham na frente".Ordenou simplesmente o rei a Aragorn e seus irmãos ignorando Halbarad que acenou discretamente para o amigo e afastou-se em direção a onde Legolas estava.

Enquanto todos desmontavam o acampamento e reuniam seus pertences Estel e Elladan ainda trocavam algumas palavras com o rei tentando distraí-lo, uma vez que o mesmo já parecia ter se esquecido da figura no gorro preto.

Halbarad aproximou-se de Legolas que ainda estava deitado na mesma posição na qual fora deixado.

"Squirrel!" Chamou pousando uma mão no braço do elfo.

O rapaz abriu receosamente os olhos como quem espera ser surpreendido por uma assombração ou algo do gênero, mas ao ver que não havia mais ninguém ali além do velho dunedain, ele se ergueu receosamente, porém sem coragem de olhar a sua volta.

"Halbarad... era ele, não era?" Indagou numa voz tão trêmula que fez com que o coração do líder se apertasse no peito. "Não foi um pesadelo meu, foi?"

O velho apiedou-se da figura desamparada a sua frente e aproximou-se lançando um braço por sobre as costas do rapaz. O arqueiro não entendeu a demonstração de carinho recebida, mas não se esquivou do amigo.

"É ele sim, filho".Confirmou o velho dunedain sentindo o elfo tremer ligeiramente sob seu braço. "Mas acho que não o reconheceu".Atestou por fim oferecendo um sorriso de encorajamento. "Eu disse que você era bom nisso".

Legolas não respondeu. Ele apenas virou vagarosamente a cabeça. Ele queria olhar a sua volta, mas temia o que fosse ver.

"Squirrel..." chamou o líder fazendo o arqueiro olhá-lo novamente. Legolas não gostava daquela insistência no uso de seu nome falso. Ele sentia que algo estava errado. "Estamos com problemas e você precisa ser forte. Tão forte quanto foi nesses anos todos... Você ainda se lembra como é, não lembra?"

"Do que está falando, Mestre Halbarad?" Indagou o rapaz franzindo a testa e erguendo levemente o meio das sobrancelhas em pura agonia.

"Você ainda se lembra bem como o rabugento Squirrel é, não lembra?" Esclareceu o guardião afagando levemente as costas do rapaz.

Legolas fechou seus olhos para tentar conter os tremores que corriam por todo o seu corpo. O que mais estaria por vir? O que estaria por trás daquelas palavras do amigo Halbarad?

"Não... entendo..." Disse o príncipe com muita dificuldade. Seu estômago voltava a dar algumas voltas e seu corpo continuava a tremer. "Por favor, mestre Halbarad..."

O velho líder puxou levemente o rapaz para mais perto de si, fazendo-o encostar-se em seu peito e esfregando-lhe o braço.

"O rei de Lasgalen..." Iniciou o homem pacientemente. "Ele vai nos levar para suas terras. Ele quer que fiquemos em Mirkwood por um tempo."

"Não!" Disse Legolas afastando-se subitamente do amigo e ameaçando levantar-se. Halbarad segurou-o pelos pulsos obrigando-o permanecer sentado.

"Calma, menino." Pediu ainda mantendo o rapaz seguro. "Vai dar tudo certo. Você não pode por tudo a perder agora."

Mas Legolas balançava a cabeça em curtos movimentos. Seus lábios também tremiam e sua pele estava tão fria que os dedos de Halbarad doíam só em  tocá-la.

"Halbarad". Disse o elfo por fim olhando para os próprios pulsos como se a força com que o velho guardião o estivesse segurando fosse demais para ele. O homem diminuiu a intensidade que usava, mas não o soltou.

"Vai dar tudo certo".Repetiu o líder tentando sorrir. Você vai ver."

 "Você não entende..." Lamentou Legolas voltando a fechar os olhos para reabri-los e fechá-los mais algumas vezes. Ele sentia uma leve fraqueza. "Eu não posso ir... estarei infringindo uma regra muito grave".

"Você não tem escolha, criança".Lamentou o guardião soltando agora os pulsos do rapaz e voltando a abraçá-lo. "Estamos cercados aqui e o convite do rei não pareceu ser realmente um convite... Se você se mostrar agora vai comprometer seus amigos que tentaram te esconder".

Legolas agarrou-se instintivamente no casaco de Halbarad ao visualizar a imagem sobre a qual o amigo estava lhe alertando. Ele se sentia perdido como alguém que tenta controlar um cavalo em disparada. Se resolvesse se manifestar comprometeria os amigos da mesma forma que os comprometeria se fosse obrigado a fazê-lo mais tarde. A única coisa que lhe restava era obedecer e esperar por um milagre.

Em pouco tempo os filhos de Elrond já estavam sobre seus animais cavalgando ao lado do rei. Aragorn olhou para trás e percebeu que Legolas agora vinha no cavalo de Halbarad. O astuto líder o mantinha atrás de si totalmente envolvido pela capa e alguns cobertores. Mesmo os elfos a seu lado não pareciam reconhecê-lo.

Agüente firme mellon nîn Pensou o guardião sentindo uma grande aflição pelo amigo que agora se via obrigado a descumprir a ordem de seu pai da pior maneira possível. Ele não ia pisar em um reino élfico qualquer. Ele ia voltar para casa.