Olá. Aqui vai a continuação dos capítulos que saíram abraçados. Só não postei os dois juntos porque realmente ficaram muito grandes.

Uma observação. Haverá uma cena onde uma das personagens rememora um fato do passado. Eu coloquei o acontecimento em itálico. Espero que fique claro.

Beijos.

19

Som de vozes discutindo incessantemente era tudo o que ele ouvia enquanto uma brisa fria roubava-lhe o calor do corpo. Ele tentava compreender o que diziam, mas era muito difícil desviar sua atenção do frio que estava sentindo.

"Não quero você perto dele." Foram palavras perdidas que vieram a sua mente. Eram de seu pai.

"Está ferido, precisa de ajuda." Retrucava a voz distante de Aragorn.

"Não será a sua ajuda, humano desprezível. Elladan e apenas ele se aproximará." Rompia a voz gélida de Thranduil novamente. "Não serei contrariado."

Legolas queria dizer algo, queria defender o amigo das acusações dolorosas do rei, mas os braços da escuridão estavam exigindo seu calor novamente, o estavam chamando para o descanso final.

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Ele tinha que abrir os olhos, mas não queria. Ele não queria mais enfrentar aquele mundo que deixara. Ele não queria mais viver. As palavras dos irmãos sulistas iam e vinham em sua mente e ele se via obrigado a concordar com elas por mais cruéis que fossem. Ele realmente não era ninguém. Um tremor correu por todo o seu corpo e um gemido surgiu de sua garganta como se a vida lhe tivesse sido roubada e lhe fosse devolvida a força naquele momento.

"Legolas! Abra os olhos mellon nîn." Surgiu uma voz suave e ele sentiu o peso da mão do dono dela sobre sua testa. "Venha para a luz!"

O arqueiro esquivou-se do toque num reflexo de pavor. Parecia temer ser tocado por alguém. O gêmeo franziu as sobrancelhas e retirou a mão silenciosamente analisando as feições do amigo.

"Sou eu, Las." Ele tentou mais uma vez, apoiando agora a palma levemente no peito do príncipe. "Não vou lhe fazer mal."

Houve mais um leve movimento do corpo que estava ali deitado, mas depois ele aquietou-se parecendo reconhecer a voz daquele que o tocara.

"Elladan..." um suspiro saiu de seus lábios, mas ele não abriu os olhos.

"Sim." Respondeu o outro num sorriso aliviado. "Sou eu Las. Abra os olhos, olhe para mim."

"Frio..." Ele disse sentindo em seguida o calor de um cobertor ser colocado sobre ele.

"Você perdeu muito sangue. Mas vai ficar bom." Encorajou o gêmeo puxando a nova coberta para o pescoço do amigo.

"Dan..."

"Abra os olhos, mellon nîn. Está tudo bem."

O príncipe obedeceu com receio agradecendo por ainda ser noite e ele não ter que enfrentar a luz do dia. Havia estrelas no céu, mas nuvens negras as estavam tentando encobrir. Olhando temerosamente a sua volta notou que somente Elladan estava junto dele. O gêmeo lhe direcionou um sorriso triste e Legolas percebeu que ele parecia muito preocupado.

"Onde estão os outros?"

"Estão todos bem." Disse o elfo moreno antecipando as preocupações do amigo. Sua mente parecia estar ocupada com outros detalhes. Olhando ao seu redor fez um sinal para alguém que Legolas não pode ver. "Você precisa se alimentar agora." Completou voltando a encarar o paciente. "Está muito fraco."

Não houve tempo para respostas, sons de passos rápidos surgiram fazendo o arqueiro tremer ainda mais, arregalando os olhos e tentando se levantar.

"Está tudo bem".A mão do bom curador apoiou-se por sobre seu peito ao perceber o mal estar que surgira. "É só Elrohir."

"Que história é essa de só Elrohir?" Disse o irmão se ajoelhando com uma tigela na mão e olhando Legolas com carinho. "Bem vindo ao reino dos vivos, poço louro!" Ele brincou afastando alguns fios teimosos de cabelo do rosto do príncipe. "Ele já pediu água?"

Elladan sorriu levemente balançando a cabeça enquanto Legolas fixava olhos vazios nos de Elrohir. O gêmeo mais novo sentiu algo muito ruim ao olhar para o amigo daquela vez. Ele percebia que mais alguma coisa tinha sido partida dentro do rapaz. Algo cuja emenda poderia demorar muito mais tempo do que a cicatrização de um simples ferimento.

"Ele precisa comer, Ro".Disse Elladan despertando o irmão de suas conjecturas.

"Certo".Concordou o outro passando a tigela que trouxera para as mãos do gêmeo e erguendo o elfo louro, colocando-se gentilmente atrás dele para que pudesse se apoiar em seu peito. Elladan sentou-se um pouco mais perto e ofereceu a primeira colherada da sopa que estava na tigela a um rosto que mantinha olhos azuis imóveis a lhe fitar.

"Coma, mellon nîn." Disse o primogênito de Elrond tentando conter a aflição que estava sentindo. "Você precisa ficar bom. Você vai precisar de todas as suas forças."

As palavras pareceram pedras atiradas num abismo sem fundo. Aquele olhar não se alterou. Não havia brilho naqueles olhos sempre tão claros que sequer olhavam agora para a comida que lhe era oferecida.

"Las..." Insistiu a preocupada voz de Elladan.

"Não quero comer..." Retrucou o príncipe num suspiro, seus olhos passaram a brilhar, mas eram lágrimas que surgiam neles. "Não quero que se preocupem comigo. Eu não valho a pena. Me deixe aqui, por favor."

Os gêmeos se entreolharam apreensivos. Nunca tinham visto o príncipe agir assim. Eles não tinham coragem de perguntar o que tinha acontecido antes da chegada deles. Os olhos de Elladan encheram-se de lágrimas ao verem que o espírito de Legolas estava tão fraco que ele já estava entregue ao abandono. Elrohir passou as mãos pelos cabelos do amigo e pensou no que fazer já que o irmão parecia sem ação.

"Dissemos que não íamos te deixar, Las".Disse ao elfo louro que estava a sua frente. "E não vamos. Nós vamos ficar aqui até que você coma, o que te dá duas opções: Ou toma a sopa quente e fresca como está agora ou vai tomá-la fria e podre daqui a uns três dias depois que perceber que não vamos te deixar."

Elladan fechou bruscamente os olhos enojado pela imagem que o gêmeo criara. Ele não acreditava em como o elfo tinha coragem de dizer aquelas coisas. Legolas quis sorrir sentindo o calor amigo dos braços de Elrohir. Ele queria esquecer o que tinha acontecido, mas naquele momento seria como se esquecer de respirar. Mas encarou a tigela de sopa outra vez.

"Coma, mellon nîn." Pediu o mais velho erguendo a colher de novo. Legolas desprendeu levemente os lábios e se deixou alimentar. Estava muito cansado para contrariar os dois amigos e não queria que eles continuassem se preocupando com ele. A sopa não tinha gosto algum, porém e o mundo todo parecia sem cor, seu coração estava tão vazio que ele podia sentir o frio dentro dele.

"Está frio." Disse o elfo mais uma vez desviando o rosto da colher que o alimentava.

Elrohir ajeitou-se melhor atrás do amigo e enlaçou seus braços a sua volta mantendo as costas de Legolas encostadas em seu peito e puxando mais os cobertores.

"Não está tão frio assim, poço louro. Você perdeu sangue e por isso sente frio. Logo vai passar."

Mas Elladan fixava incrédulo e nervoso seus olhos no paciente. Ele sabia que o frio que Legolas sentia não era só devido a perda de sangue, mas também devido a fraqueza que assolava seu espírito.

"Coma mais um pouco enquanto a sopa está quente".Pediu recebendo um aceno negativo do príncipe como resposta. "Legolas, por favor!".

De repente o arqueiro começou a tremer muito sem nenhuma razão. Elrohir abraçou-o com mais força procurando ficar o mais próximo possível dele. Mas logo os irmãos perceberam que o amigo não tremia de frio, ele tremia de pavor. Thranduil estava se aproximando. Ele mantinha a mão por sobre a espada ainda suja de sangue. Suas vestes também estavam manchadas e rasgadas em alguns lugares de onde pequenas escoriações apareciam. Era o retrato da guerra.

O rei parou em pé sem olhar para o filho.

"Ele comeu, Elladan?" Indagou.

"Um pouco, majestade."

"Então vão. Eu quero falar com ele."

"Majestade, ele acabou de acordar. Ainda está atordoado e sentindo os efeitos da perda de sangue."

Elladan estava realmente preocupado. Naquele momento qualquer palavra rude ou mesmo cruel do pai poderia atirar Legolas definitivamente no abismo escuro que ele estava tentando enfrentar agora.

"Não gosto de repetir minhas ordens, filho de Elrond."

O gêmeo suspirou e levantou-se olhando para o irmão. Elrohir abraçara o amigo com mais carinho e parecia não ter a intenção de sair de onde estava.

Legolas, que não se atrevera a erguer o olhar, percebeu, porém, o impasse que se formava e, movimentando-se levemente de onde estava, afastou-se do amigo apoiando o corpo numa das mãos, mas lamentando a perda do agradável calor que sentia. Ele sabia que se não o fizesse o corajoso Elrohir enfrentaria o rei mesmo com todos aqueles elfos a sua volta.

"Está tudo bem, podem ir".Disse Legolas numa voz baixa e trêmula que não condizia com as palavras que proferira. Ele estava com medo de enfrentar o pai e os gêmeos entendiam o porquê. Elrohir ainda mantinha uma mão nas costas do arqueiro e permanecia imóvel encarando o rei com bravura.

"Valente Elrohir".Admirou-se o rei olhando o filho de Elrond nos olhos. "Não vai ajudá-lo fazendo o que está fazendo."

"Não faça mal a ele".Pediu então o gêmeo.

"Nunca fiz mal a ele, jovem soldado".Respondeu o lorde elfo sem mudar o tom de sua voz. "Ele é quem faz mal a si mesmo e a todos a sua volta conseqüentemente".

Legolas sentiu que aquelas palavras eram como espadas afiadas que se cravavam uma a uma em seu peito.A passagem dos anos só fazia provar que tudo aquilo era a mais pura verdade. Ele só lamentava que, depois de tantos anos desde que vira e conversara com o pai, o sonho de uma reconciliação, que sempre se mantivera vivo, parecia agora estar perecendo devagar.

Vendo-se sem alternativa Elrohir levantou-se auxiliado pelo irmão. Os gêmeos olharam ainda mais uma vez para o amigo que não ergueu a cabeça e Elladan puxou o irmão tristemente.

Houve um longo silêncio no qual o rei parecia esperar que Legolas lhe desse algumas explicações, mas o rapaz sequer se movera mantendo todo o corpo apoiado em uma das mãos e a cabeça tão baixa que seu queixo parecia estar colado ao peito. Os cabelos soltos e sem nenhum trançado cobriam-lhe o rosto como um véu de luz. O rei ainda olhou para ele por mais alguns instantes. Assim sentado no chão com seus cabelos soltos ele ainda lembrava mais o menino que de certa forma parecia nunca ter deixado de ser. Momentos que pareciam infinitamente distantes surgiram em sua mente.

Legolas entrou correndo pelo salão do palácio, pés descalços, cabelos completamente soltos e a camisa entreaberta, ele corria atrás de um de seus furões que insistiam em entrar nos lugares mais inconvenientes possíveis.

"Legolas! Não acredito!" Disse a voz rude de Thranduil no exato instante em que o filho conseguira capturar a fugitiva criatura.

O rapaz voltou-se surpreso e enrubesceu levemente ao ver que o pai estava acompanhado. Lorde Celeborn lhe sorriu colocando a mão no coração e fazendo uma leve reverência.

"Mae govannen, jovem príncipe Legolas."

"Mae govannen, Lorde Celeborn" disse o rapaz tentando desajeitamente retribuir a saudação enquanto ao mesmo tempo lutava para manter a inquieta criatura em seus braços. "Peço perdão por meus modos".Ele insistiu enrubescendo ainda mais enquanto tentava fechar inutilmente a camisa, a qual o animal que mantinha nos braços parecia ter elegido como um esconderijo muito interessante.

Celeborn não pôde evitar o riso que infelizmente não foi acompanhado pelo rei que fechara os olhos agora e respirava fundo parecendo conter-se para não jogar o rapaz dali a fora pelos cabelos.

"Como vão as fronteiras?" Indagou Celeborn evitando assim a saída estratégica que o jovem elfo tentava fazer. O lorde de Lothlorien estava sentindo-se muito bem na presença do amável Legolas depois da conversa dura e quase isenta de sentimentos que tivera com o pai do rapaz.

"Estão bem protegidas, meu senhor".Respondeu receosamente o jovem olhando agora para seu pai que se virara e parecia entretido com as folhas de uma samambaia próxima. "Estive em patrulha durante toda a última estação. É meu primeiro dia em casa." Ele completou tentando talvez justificar um pouco o seu estado.

"O que não justifica muita coisa".Atestou o rei não conseguindo se conter e evitando olhar para o filho "A primeira coisa que um elfo adulto faz quando se levanta é trançar os cabelos".

"Perdoe-me, meu senhor".Pediu o rapaz voltando a enrubescer e baixando a cabeça incapaz de resolver o problema agora que suas mãos estavam ocupadas. "Ele já estava sobre a minha cama quando acordei e faziam muito tempo que não o via..."

"Sempre há um porquê, não é Legolas?" Indagou o rei voltando um olhar irado para o rapaz que dera dois passos para trás ao perceber a mudança no tom do pai. Mas Thranduil arrependeu-se por dar-lhe alguma atenção. A figura do filho ali, abraçado ao animal de estimação como uma criança pequena com seu bicho de dormir o fez ficar abismado. Ele não conseguia compreender como um guerreiro tão mortal e eficaz como Legolas que parecia não temer nada em toda a Arda poderia converter-se nesse ser tão doce e gentil dentro de seu lar. Thranduil queria irritar-se com ele, mas simplesmente não conseguia, por isso voltou-se novamente de costas para o menino sem mais nenhum comentário.

"Pois se eu tivesse um filho como você, doce Legolas." Disse Celeborn pendendo a cabeça para o lado levemente. "Eu nunca mais o deixaria partir. Você tem a energia pura e boa dos valar pulsando dentro de você. Pode trazer a paz e a felicidade a qualquer um que lhe dê essa oportunidade."

Legolas corou ainda mais e em seu embaraço acabou deixando que o furão lhe escapasse dos braços alcançando a porta e ganhando o jardim.

"Ah não!" Lamentou-se o príncipe já prevendo o tempo que gastaria para encontrá-lo agora. "Com licença..." Ele pediu esquecendo-se completamente do que tinha ouvido e saindo porta a fora exatamente como estava vestido para a agonia de seu pai.

Thranduil baixou a cabeça inconformado, segurando o rosto com uma das mãos, mas Celeborn riu um riso musical e apoiou uma das mãos no ombro do parente distante.

"Por toda a Arda eu já andei, meu amigo".Ele disse quando o rei ergueu os olhos para encará-lo. "E nunca vi tamanha pureza em reino algum. Cuide bem da jóia que tem, ele ainda vai te ajudar a salvar algumas vidas importantes".

Thranduil se odiou por permitir que as lembranças da infância de seu filho viessem incomodá-lo agora. Ele não queria se lembrar de situações nas quais ele quase se rendera ao prazer de ter uma família de novo, de levar uma vida normal. Sacudindo levemente a cabeça ele se exasperou ao perceber que o filho ainda não se movera de onde estava e parecia tremer ligeiramente.

"Eu esperei".Disse então decidindo que tentaria ao máximo fazer com que essa conversa fosse a mais curta possível. Tudo o que precisava fazer era voltar-se aos fatos, se lembrar do que o rapaz fizera e as coisas voltariam a fazer sentido. Ele precisava ser duro. "Observei até onde você iria com sua farsa. Julgava que você não tivesse coragem de entrar aqui. Achava que ainda restava um pouco de respeito por mim em seu coração. Mas você teve. Você cruzou as fronteiras da pior maneira possível. Cruzou as fronteiras achando que estava me enganando. Você teve coragem de desobedecer às leis do exílio e voltar para Lasgalen."

"Eu não tinha a intenção."

"Não tinha a intenção?" Repetiu o rei agarrando a manga da camisa do rapaz e sacudindo o tecido, exigindo a atenção do filho que ainda não ousava erguer os olhos. "Você faz idéia de quantas vezes eu já ouvi isso de você? O que você pensa que sou? Acha que posso aceitar tudo? Além de fazer amizade com humanos você agora se veste como um deles".Thranduil sacudiu mais uma vez a manga que segurava. "Trapos velhos são suas roupas. Seu cabelo escondido." Ele disse agarrando agora os cabelos do rapaz obrigando-o sem sucesso a olhá-lo. Legolas apertou os olhos evitando o confronto. "Se porta como um deles." Completou o rei cada vez mais indignado passando dessa vez um dedo pelos restos de pigmentação que ainda coloria partes de seu rosto. "Esconde os traços de sua espécie".

Legolas ouvia tudo, recebia todas as provas da ira de seu pai resignadamente apertando cada vez mais os olhos. O rei sempre dissera que ele era um dos poucos capazes de tirá-lo do sério em tão pouco tempo.

"Peço seu perdão, meu senhor."

Thranduil bufou largando violentamente o cabelo que segurava em seus dedos e ajoelhando-se em frente do filho que baixou a cabeça ao perceber o rosto do pai tão perto do seu.

"Não há perdão para você e você sabe disso."

"Não quero que me permita voltar, ada." Disse o rapaz erguendo receosamente os olhos já arrependido por chamar o pai assim com essa intimidade. "Só quero o seu perdão."

O poderoso lorde de Mirkwood só pode fechar os olhos como se quisesse fazer com que a imagem do filho desaparecesse de sua frente. O olhar dele, sua voz suave e o jeito carinhoso que sempre o tratara, apesar de toda a distância que ele procurava manter do filho, o faziam sofrer, o faziam se sentir fraco, impotente e pior do que tudo, o faziam temer, temer algo que ele mesmo não conseguia entender.

"Por que?" Indagou o elfo colocando as mãos no rosto e esfregando a face vagarosamente. Legolas ergueu o rosto aflito ao sentir o desespero na voz do pai, mas não se moveu. "Por que você faz isso comigo, criatura? Por que não foi embora com seus soldados? Por que não tomou o barco para o oeste? Não há mais nada para você aqui. Você não é o tipo de criatura que pode viver num lugar desses, vai ser a ruína de todos!"

O rosto do príncipe contorcia-se ao ouvir os questionamentos do pai. Só agora ele entendera que Thranduil realmente o queria longe, o queria tão distante que não houvesse possibilidade de volta.

"Por que?" Indagou mais uma vez o rei agora segurando o filho pelos braços e olhando-o nos olhos.

Os olhos de Legolas encheram-se de lágrimas. Ele não queria chorar na frente do pai, mas não conseguia se conter.

"Ada..."

Thranduil voltou a fechar seus olhos ao ouvir o menino chamá-lo novamente de pai e sentiu as lágrimas brotarem. Era por esse e outros motivos que ele não podia ter Legolas por perto, ele decididamente era sua fraqueza.

"Você quer voltar, não é isso?" Indagou o rei retomando sua compostura e levantando-se, dando as costas ao rapaz que permanecera no chão, sem forças para acompanhá-lo. "Então vai voltar. Vai voltar comigo e vai ter o fim que qualquer criminoso tem em meu reino. Minhas celas estão vazias, pois não faço desses orcs meus prisioneiros, então acho que você não terá companhia nos próximos anos. Quem sabe a clausura lhe faça algum bem. Faça-lhe pensar no que faz para com aqueles que estão a sua volta."

Dizendo isso o rei afastou-se respirando fundo e voltando a passar as mãos pelo rosto com força. Legolas só pôde lamentar mais uma vez o grande mal que fazia a seu pai. Thranduil, depois de alguns instantes nos quais tentava se acalmar, chamou dois de seus soldados.

"Fiquem de guarda aqui".Ele instruiu-os numa voz rouca. "Não quero que ninguém se aproxime dele. É meu prisioneiro. Ninguém fala com ele ou se aproxima dele sem minha autorização".

Os guardas que reconheceram a figura do príncipe se olharam atônitos.

"FUI CLARO?" Gritou o rei pela primeira vez fazendo com que todos no acampamento olhassem para ele. Os soldados se curvaram assustados. "Ninguém fala com ele! Nem mesmo vocês!"

E ao terminar suas ordens o rei afastou-se sem olhar para trás. Legolas abraçou os joelhos e fechou os olhos segurando as lágrimas que insistiam em bater nas portas de seu coração. Ele não queria mais chorar. Ele não queria chorar nunca mais.

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Elrohir que ficara por perto ouvindo a conversa de pai e filho correu para junto dos irmãos assim que viu o rei se afastando do amigo. Aragorn arregalou os olhos ao ver o gêmeo chegando.

"Você se arriscou muito, elfo bobo!" Disse o caçula tentando disfarçar sua própria preocupação ao perceber que o irmão parecia transtornado.

Mas Elrohir sequer riu da brincadeira que ouvira. Ele caíra de joelhos diante dos dois, mas ainda mantinha os olhos voltados para a direção da qual viera.

"Precisamos tirar Legolas daqui".Ele disse olhando finalmente para os irmãos e trazendo uma grande preocupação a seus rostos.

"O que ele disse? Ele foi cruel?" Indagou Elladan contorcendo o rosto como se estivesse pronto para receber um grande golpe.

"Cruel?" Repetiu Elrohir como se ao fazê-lo a palavra perdesse parte de sua força. "Eu não saberia classificar aquele elfo. É a única conclusão que cheguei."

"Ro, pare de nos torturar e conte-nos logo o que se passou".Insistiu Aragorn segurando o queixo do irmão e obrigando-o a olhar para ele agora. "Diga logo!"

Elrohir relatou aos dois toda a conversa que Legolas tivera com o pai. Os irmãos se entreolhavam admirados cada vez que o gêmeo repetia as acusações e os comentários do líder de Lasgalen.

"Pobre Legolas..." Suspirou Elladan soltando os ombros e perdendo toda a compostura natural dos elfos. "Ele não merece sofrer assim. Ada tem razão quando diz que o rei Thranduil está tão confuso que não enxerga o filho que tem."

Aragorn esfregava o peito agora como se seu próprio coração doesse. Todas os comentários que queria fazer pareciam agora presos ali criando um grande redemoinho.

"Precisamos tirá-lo daqui. Precisamos salvá-lo." Reafirmou Elrohir abrindo bastante os olhos e encarando os irmãos de perto.

"Não, Ro".Disse Elladan com tristeza. "Se o fizermos tudo o que Legolas fez durante todos esses anos terá sido em vão. Se o ajudarmos a fugir, criaremos um desentendimento diplomático que pode se transformar em algo muito pior".

O gêmeo arregalou os olhos ainda mais, descrente do que ouvia.

"Dan! Não podemos! Ele não vai agüentar! Você viu como ele está, viu como está o espírito dele. Com as certezas que Thranduil lhe deu hoje eu temo que ele não veja mais sentido para..."

O gêmeo não conseguiu terminar. Um nó formou-se em sua garganta e ele só pôde abraçar os joelhos e encostar a testa neles. Ele sabia que Elladan tinha razão, por isso mesmo a impotência diante de uma questão tão séria o estava torturando mais do que ele podia agüentar. Aragorn aproximou-se do irmão e abraçou-o carinhosamente. Ele não sabia o que dizer, não sabia o que fazer e o tempo corria contra eles.

"Temos que fazer algo." Disse o guardião ainda abraçado ao irmão.

"Silêncio, Estel." Pediu Elladan subitamente. Seus olhos estavam voltados para algo que o estava perturbando. Aragorn e Elrohir também se voltaram e perceberam que o rei vinha caminhando rapidamente na direção deles.

"Valar! O que será agora?" Disse Elrohir fechando os punhos. Estel permaneceu com a mão no ombro do irmão.

"Não diga nada, Elrohir!" Aconselhou Elladan. "A situação não está favorável"

Thranduil aproximou-se do grupo que permaneceu sentado e parou cruzando as mãos nas costas.

"Eu vou levá-los para Mirkwood. Mas devo lhes dizer que se a justiça tivesse que ser cumprida em todos os seus pormenores o seu grupo não deveria sair de lá com vida."

"Majestade..." Tentou argumentar Aragorn.

"Mas vou aceitar que isso é obra sua, Aragorn filho de Arathorn." Interrompeu o rei. "Pois não acredito que tamanha traição possa ter vindo da cabeça dos verdadeiros filhos de Elrond."

Estel fechou seus olhos engolindo todas as palavras amargas que queria proferir naquele momento. Ele conhecia bem o jogo do rei e o quão habilidoso ele era nele.

"Seu grupo estava sob suas ordens." Continuou o lorde de Mirkwood. "O que me faz isentá-los de culpa também. Mas os gêmeos estavam lhe seguindo, atitude muito pouco racional para alguém com a vivência de vocês, devo completar."

"Não tínhamos a intenção de ofendê-lo, majestade." Disse Elladan com os olhos baixos. "Tudo aconteceu muito rápido. A princípio sequer sabíamos que Legolas estava entre nós, quando soubemos estávamos perto demais de Mirkwood. Erramos em termos aceitado seu convite."

"Entendo." Disse o rei baixando os olhos pensativo. "Essa criatura é mesmo uma sombra escura que traz o mal a qualquer um que caminhe a seu lado."

"Como pode?" Indagou Aragorn não conseguindo administrar o que acabara de ouvir. "Como pode falar isso de alguém como Legolas? Como pode falar isso de seu próprio filho?"

"Silêncio, dunedain!" Ordenou o rei. "Não lhe devo satisfações e não lhe tenho apreço como os elfos de Rivendell. Sabia que atribuo parte da culpa do destino que essa criatura tomou a você! Você foi quem lhe incutiu a esperança de que os humanos podem ser bons. Você o desvirtuou. Lamento o dia em que se conheceram."

Aragorn fechou os olhos novamente tentando ignorar aquelas acusações que pareciam fazer de repente muito sentido.

"Legolas não tinha a intenção de ofendê-lo ou magoá-lo, majestade." Disse Elladan pousando solidariamente uma mão por sobre o joelho do caçula. Ele também sentia a dor das palavras do rei que acusava o pobre guardião de maneira tão injusta, mas queria aproveitar-se do fato de que Thranduil parecia ainda respeitar sua opinião para tentar ajudar o amigo príncipe.

"Se tivesse, Elladan, a cabeça dele não estaria sobre o pescoço agora." Respondeu o rei colocando a mão por sobre a espada como se estivesse imaginando se teria coragem de fazer o que admitira. "Eu o conheço bem o bastante para saber que nenhuma maldade passa pelo coração daquela criatura. Sei que todos os atos insanos que cometeu ele os fez movido pelo puro instinto de agir em benefício de alguém. Ele os fez sem pensar. Mas boas intenções não salvam alguém da morte. Seria como guerrear com um cego que deseja usar o arco para ajudar seus amigos: no fim de tudo você pode acabar com uma flecha fincada em seu peito."

Elladan desprendeu os lábios buscando um pouco de ar. A linha de raciocínio do rei fazia muito mais sentido que ele gostaria que fizesse. Ele sabia, entretanto, que aquilo não dizia respeito ao pobre Legolas, que o amigo não era uma criança inocente e despreparada que simplesmente não pensava em seus atos e nas conseqüências deles, mas ele não tinha argumentos para conseguir fazer com que o rei visse que estava sendo radical.

"Perdoe-me minha indiscrição, senhor".Desculpou-se então o filho mais velho de Elrond. "Mas sendo pai dele, não cabe ao senhor protegê-lo se realmente o julga a pessoa frágil e vulnerável que me apresentou?"

Thranduil mordeu levemente o lábio inferior fazendo com que os irmãos se lembrassem de Legolas cujo mesmo hábito era freqüente.

"Não sou pai dele no momento, jovem Elladan. Sou o rei de Lasgalen. O líder de Mirkwood e ele é um ponto fraco em minha vida que não posso ter. Ele sabe disso. Eu lhe disse várias vezes como deveria agir. Mas ele nunca me deu ouvidos. Ele tem uma crença tola nas pessoas e no destino que será minha ruína se eu não conseguir impedi-lo..."

"Impedi-lo como?" Questionou Elrohir não conseguindo mais se conter.

Thranduil voltou seu olhar para o gêmeo mais novo, depois olhou novamente para Aragorn e Elladan. Em seguida respirou fundo e apertou os lábios.

"Isso é um assunto pessoal. Como amigos dele de longa data senti que deveria esclarecer-lhes a questão sob meu ponto de vista que, felizmente ou não, é o correto. Quanto a como punirei o meu... Como punirei a pessoa em questão isso já foge da gama de informações que acredito dizer respeito a vocês, por isso peço que não me questionem ou julguem o que farei, pois eu e mais ninguém tenho a visão total do que nos aflige."

"Ele o ama senhor".Disse Elrohir quando o rei já dava as costas para se afastar do grupo. Thranduil parou por mais alguns instantes, mas não se voltou.

"Esse é mais um dos enganos que comete." Comentou o rei numa voz triste. "Talvez o pior deles. Mirkwood não é Rivendell. Lá não há mais lugar para o amor."

Thranduil enfim afastou-se do grupo deixando para trás os maus presságios que semeara e voltando a se unir a alguns soldados que faziam vigília. Ele não parecia sentir-se seguro para dormir o resto da noite. Ou talvez algo mais estivesse roubando-lhe o sono.