Olá. Como vão todos? Espero que bem.
Agradeço mais uma vez as reviews. Está sendo maravilhoso receber os comentários de vocês todos capítulo por capítulo. Vocês não fazem idéia.
Nesse capítulo a rememoração se faz presente em itálico novamente.
Quero pedir desculpas a minha amiga Myri. Existe nesse capítulo uma cena que envolve nomes élficos e a dificuldade em pronunciá-los que muito se assemelha a uma cena de sua maravilhosa fic. O intuito, porém é totalmente diferente, mas fica impossível não associar. A cena estava pronta há muito tempo, eu escrevi essa fic no carnaval. Pensei em tirá-la, mas me partiria o coração. Espero que você então não me leve a mal amiga.
Todos os detalhes desse capítulo são frutos de uma pesquisa que fiz com amigos e em sites, por isso se houver alguma irregularidade me perdoem, por favor.
Agradecimentos, tentarei ser breve... tentarei...
Lady-Liebe– short-fics!!! Leiam!!! A Liebe é muito talentosa. Obrigada amiga por nunca deixar de colocar seu parecer. Beijos.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Cadê??? Eu quero ler!! Por favor!!!
Kagura Bakura – Sempre uma grande leitora que nunca me deixa sem saber o que pensa. Um super obrigada!
Regina – Como vão as coisas?
Myriara– "A PAIXÃO DOS EDAIN" passou dos limites do belo. Extrapolou!! O capítulo 7 está indescritível! Lindo demais!! Leiam!!.
Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" sempre, sempre, sempre. Lindas... não deixem de ler!!
Botori – Outra leitora que me privilegia sempre com suas palavras de incentivo. Obrigada mesmo!!
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – Que bom que você está gostando. Eu lamento não poder atender ao seu chamado para a tal reunião... sabe... Eu prezo minha vida. Hehehe... Brincadeiras a parte. Obrigada pela review. Por favor, continue escrevendo.
Leka: Também nunca falha. Fico feliz em ler sua opinião. Obrigada mesmo.
Vick Weasley: "BITTERSWEET" não deixem de ler! Sensações incríveis vocês descobrirão. Obrigada Vick por me oferecer mais do que um maravilhoso texto para ler, por me oferecer sua amizade. Isso vale muito.
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" continuo recomendando. Vale a pena ler.
Dark Lali: "NARN VENDENIEL" foi atualizada! Leiam essa poesia em forma de fic! Nossa... como andamos bem servidos de textos para ler.
Kika-Sama: Nossa futura advogada tem idéias muito interessantes sobre o rei e seu filho. Consultem sua página e leiam tudo o que encontrarem. Seus textos são realmente muito bons. Obrigada pela review. Espero que a minha fic continue te agradando.
Bem. Eu tentei ser breve... mas não consigo. É muita gente maravilhosa para agradecer e muitas fics divinas para indicar. Dêem uma chance a todas elas pessoal, não vão se arrepender.
Agora vamos a fic. Esperem!! Deixa eu me esconder da A.P.E.!!!
20
A manhã chegou finalmente e enquanto alguns ajeitavam seus pertences outros providenciavam alguma comida. Aragorn aproximou-se da fogueira angustiado. Ele não tinha fome, apenas estava ali por ser um lugar privilegiado para observar como Legolas estava. O arqueiro não tinha dormido mais desde que seu pai ditara sua sentença. Ele passara o resto da noite encostado em uma das árvores enrolado nos cobertores com os quais Elladan o tinha coberto. Seu olhar era distante e vazio e Aragorn sentia-se tão preocupado com ele que cogitava a hipótese de realmente colocar em risco toda a paz entre Rivendell e Mirkwood desde que pudesse salvá-lo, desde que pudesse vê-lo sorrir de novo.
"Foi minha culpa." Uma voz soou próxima do guardião que se virou para encontrar o olhar triste de Skipper. "Eu sinto muito, Strider."
"Não diga bobagens, Skipper." Pediu Halbarad que se juntava ao grupo agora. "Tolice a nossa imaginarmos que aquela cobra não reconheceria o próprio filho."
"Mas se eu não o tivesse deixado ir..." Lamentou-se o caçador ainda olhando o elfo que tinha seu rosto voltado para o outro lado, como se soubesse que estava sendo observado.
"Ninguém impede Legolas de fazer o que quer, mestre Skipper." Disse Aragorn baixando a cabeça e apoiando uma das mãos no ombro do caçador. "Ele fez o que julgava certo, feriu-se novamente tentando proteger alguém. Isso já é uma rotina... Uma rotina muito triste infelizmente."
"Não entendo o que se passa na cabeça daquele rei. O que o menino fez de tão grave que não pode ser perdoado?" Skipper balançava a cabeça indignado enquanto observava Fowler se aproximar.
"Não entendemos, amigo." Disse Halbarad reforçando a palavra do meio de sua sentença. "Pode passar isso para o conjunto, pois eu me enquadro nele."
"Eu também." Suspirou Aragorn sorrindo amavelmente para Fowler enquanto ele passava pelo grupo e se abraçava ao pai.
"Acordei e não o vi, pai." Disse o menino preocupado. "O senhor não dormiu?"
O velho Skipper acariciou os cabelos do filho com um sorriso triste nos lábios. Seus olhos ainda estavam voltados para a figura que parecia tremer um pouco ainda em seus cobertores. Fowler acompanhou o olhar do pai e depois baixou os olhos.
"Quer que eu vá lá levar algo para ele comer?" Indagou olhando agora para os três homens do grupo.
"Ninguém pode se aproximar. Eu já tentei." Disse o pai amargamente. "Aqueles elfos não querem desagradar a seu rei."
"Eu peço para o rei então." Respondeu o menino ingenuamente. "Ele não vai querer que o filho tenha fome ou sede."
O pai riu da inocência do menino, mas os olhos de Aragorn brilharam com a idéia.
"Você faria isso, Fowler?" Indagou olhando o rapaz e apoiando ambas as mãos por sobre seus ombros dando-lhes uma leve sacudida.
"Sim, Strider." Respondeu o menino oferecendo um grande sorriso, estava satisfeito por se sentir útil.
Aragorn comoveu-se, mas olhou para o pai do menino pedindo uma aprovação. Skipper encarou o filho mais uma vez e depois se voltou para o rapaz a quem aprendera a amar também como a um filho e que precisava de ajuda do outro lado do acampamento.
"Se ele for grosseiro com você, não responda!" Aconselhou olhando agora para Thranduil que estava parado pensativamente em pé, um pouco distante do grupo. "Se ele não permitir apenas volte para cá".
"Certo".Respondeu o rapaz pegando a tigela com frutas e a caneca d'água oferecidas por Aragorn.
"Agora se conseguir, criança." Disse o guardião olhando novamente para o conteúdo da tigela, ele queria ter algo melhor para oferecer ao amigo, mas não tinha. "Prometa-me que vai fazê-lo comer. Prometa!"
Fowler sorriu e suas feições infantis pareceram apaziguar o espírito do preocupado amigo a sua frente, que apenas sorriu de volta observando o menino se afastar em direção ao lorde elfo de Mirkwood.
"Ele tem muita coragem." Disse Halbarad apreciando a mesma visão dos outros dois amigos.
"É sim." Respondeu Skipper orgulhoso. "Espero que aquela aranha venenosa não o maltrate."
"Ele não tem motivos." Explicou Aragorn puxando os dois amigos para fora do alcance de visão do rei.
Por trás de uma grande moita os três homens observavam o que acontecia do outro lado do acampamento. Fowler se aproximou de Thranduil vagarosamente, mas o rei se voltou quase de imediato e cravou seus olhos claros nos do menino.
"Com sua licença, majestade." Disse o jovem sentindo subitamente que aquilo não ia ser tão fácil quanto parecia a princípio.
O rei ficou olhando para ele sem responder, era de sua natureza não desperdiçar palavras desnecessárias. Ele parecia esperar por explicações. Seus olhos claros cujos tons de verde e azul se mesclavam numa mistura quase mágica estavam inexpressivos, indecifráveis.
"Queria sua permissão, senhor, para levar essa comida ao Squirrel." Disse o menino encolhendo levemente os ombros e baixando a cabeça, Ele olhava a autoridade com o canto dos olhos.
"Quem?" Indagou o lorde de Mirkwood franzindo as sobrancelhas e dando um passo na direção do menino para tentar ouvi-lo melhor. Tudo o que mais precisava naqueles seus momentos de agonia era o trabalho de tentar decifrar o que uma criança humana, que parecia mal poder ficar em pé sobre as pernas, queria dele.
"Seu... seu..." O menino não conseguia responder. Agora ele entendia bem porque todos pareciam temer tanto aquele elfo. Ele era bem diferente do lorde de Imladris que lhe sorria e parecia sempre disposto a ajudá-lo no que fosse preciso. "Squirrel..." Balbuciou finalmente num tom tão baixo que o rei só conseguiu entender devido à sua audição élfica privilegiada.
"Squirrel? Quem é Squirrel, rapaz?" Indagou o rei que, atentando a mocidade do menino, tentava manter a paciência.
Mas as palavras pareceram subitamente fugir da boca daquela criança. Tudo o que ele pôde fazer foi apontar para a direção onde estava Legolas, tornando finalmente as coisas mais claras para o rei de Mirkwood, que não pode deixar de esboçar um leve sorriso ao perceber o quão assustado o menino estava agora.
Thranduil ainda ficou parado por mais alguns instantes olhando a direção que o menino apontara. Parecia estar pensando na melhor decisão a ser tomada. Ele olhou então para a tigela de amoras e a caneca d'água que estavam naquelas mãos trêmulas. Legolas precisava comer pois estava se recuperando.
"Ele é um prisioneiro. Dê aos guardas que entregarão a ele." Disse simplesmente satisfeito por ter o problema resolvido e voltando-se novamente para seus pensamentos.
Mas a criança atrás dele não parecia compartilhar da mesma satisfação.
"Ele não vai comer, senhor. Deixe-me ir convencê-lo." Pediu o outro numa velocidade tão grande que Thranduil mal pôde entender o que dizia.
"O quê?" Indagou o rei voltando novamente a olhar o menino que perdera de súbito toda a cor.
"Ele... ele..." balbuciava agora o pobre Fowler pensando em correr para os braços do pai. "Ele não... se eu..."
Thranduil franzia todo o rosto agora agoniado com a espera por informações que pareciam estar totalmente perdidas dentro da boca daquele rapaz.
"Certo, certo..." Concordou finalmente o rei percebendo que aquele teste de paciência pelo qual estava passando era totalmente desnecessário. "Deixe o menino passar." Gritou então para o soldado que fazia guarda. Mas quando Fowler se voltava para tomar a direção indicada ele segurou seu braço. O menino estremeceu tanto que quase deixou cair os objetos que levava. Ter os olhos de Thranduil assim tão próximos dele era pior do que encarar seu pai quando tinham que acertar contas por alguma travessura. "Vá depressa e não fique muito tempo com ele. Se demorar vou tirá-lo de lá com a minha espada." Ameaçou o rei não conseguindo conter o riso ao ver o menino correr sem olhar para trás."
Do outro lado do acampamento, ainda escondidos atrás daquela proteção que a natureza oferecia, três humanos sorriam também, mas era um sorriso diferente daquele que enfeitava o rosto do lorde elfo.
Legolas voltou a cabeça ao perceber passos se aproximando dele e sorriu quando viu a quem pertenciam. Fowler já havia esquecido o susto que levara, pois estava feliz por ter convencido o rei a deixá-lo se aproximar de Squirrel.
"Olá, Squirrel." Disse o menino ajoelhando-se em frente ao elfo que ainda estava totalmente enrolado em seus cobertores. "Como se sente? Está com frio?"
"Estou bem," Disse o príncipe sorrindo e libertando os braços das mantas que o cobriam. "Estou bem melhor." Ele completou olhando o rapaz carinhosamente. "O que faz aqui? Não devia se arriscar."
"O rei me deixou te trazer isso." Ele falou vitoriosamente mostrando ao elfo o alimento que trouxera.
"O rei te tratou mal?" Indagou o príncipe preocupado aceitando a tigela e bebendo a água da caneca. Ele se sentia comovido com a preocupação do jovem amigo e não podia deixar de aceitar a oferta depois do sacrifício que ele acreditava ter sido para o menino conseguir chegar até ali.
Fowler ia responder, mas de repente achou que não seria uma boa idéia falar mal do rei que na verdade era o pai de Squirrel.
"Não..." Mentiu o menino baixando os olhos e denunciando assim a farsa que armava.
Legolas ergueu o rosto a sua frente com a ponta de seus longos dedos.
"Eu sinto muito que tenha se aborrecido com ele, Fowler." Disse o elfo num leve sorriso mas que não conseguia esconder a tristeza que o estava abraçando. "Ele é um elfo bom como todos os outros que você conheceu. Só está um pouco cansado devido às lutas que enfrentamos. Não o leve a mal, sim?"
"É verdade que ele vai te prender, Squirrel?" Indagou tristemente o menino.
Legolas baixou os olhos e ficou calado por alguns instantes. Aquela era uma questão difícil.
"É sim. Fowler." Admitiu então com tristeza, sabendo o quanto isso pesaria na visão que o menino tinha de Thranduil. "Eu fiz algo muito grave e já devia ter sido castigado por isso, meu amigo."
"Mas, Squirrel... ele não é... ele não..."
Legolas voltou a sorrir da inocência do rapaz que apertava os lábios a sua frente agora. Os olhos grandes e assustados pareciam um espelho de sua alma.
"Sim, meu amigo Fowler." Disse o príncipe olhando as pequenas amoras que jaziam na tigela de barro. Amontoadas umas sobre as outras elas pareciam todas iguais, mas se fossem analisadas com cuidado a diferença era evidente. Legolas separou a maior delas e segurou-a entre os dedos, depois pegou outra um pouco menor e colocou ambas lado a lado. "Mas ele é o rei e eu sou um de seus súditos."
Fowler olhava intrigado para o amigo agora. Ainda era difícil vê-lo assim sem seu disfarce. Até a voz que ouvia não o fazia lembrar-se de Squirrel. Era como se o arqueiro nunca tivesse existido.
"Ele não entendeu quando eu te chamei de Squirrel."
Legolas não conseguiu conter o riso ao imaginar a cena que Fowler insinuava.
"Eu não me chamo Squirrel, Fowler. Assim como você também não se chama Fowler, não é?" Indagou ao rapaz docemente. "São nomes de guerra."
"Mas seu pai não conhece seu nome de guerra?"
"Não." Respondeu simplesmente o elfo ainda segurando as frutas na mão. A cor avermelhada da grande amora manchou-lhe os dedos trazendo-lhe lembranças desagradáveis.
"Como é seu verdadeiro nome então, Squirrel?"
"Legolas, Fowler. Meu nome é Legolas." Respondeu o elfo voltando a colocar a grande amora entre as demais e jogando a pequena fora.
O menino riu.
"Elfos têm nomes engraçados." Ele disse.
"É?" Inquiriu o príncipe levemente contagiado pela doce alegria do rapaz.
"É." Confirmou o outro. "O que significa o seu nome, Squirrel, quero dizer... Legolas?"
"Folha verde."
"Bonito." Afirmou o outro. "E o nome daqueles dois elfos iguais?"
Legolas não pode conter o riso novamente.
"Quem? Elladan e Elrohir?"
"É!" Confirmou o menino sorrindo.
O arqueiro pensou por uns momentos.
"Bem. Elladan é algo que eu poderia traduzir como o "elfo humano ou elfo de Numenor", se minha mente confusa não me trai agora, e Elrohir é o "elfo guerreiro".
Ao esclarecer ao menino os fatos, Legolas subitamente percebeu o quão sábio, ou clarividente Elrond tinha sido ao escolher os nomes dos filhos.
"Eles são tão idênticos. Como seus nomes podem ter significados tão diferentes?" Indagou o menino que ainda sustentava bem a fama que tinha de fazer perguntas difíceis.
Legolas agora sorria abertamente. A companhia de Fowler estava lhe fazendo um grande bem.
"Ah..." Suspirou o elfo num largo sorriso. "Pergunte ao pai deles... Mas posso lhe garantir, meu grande amigo, que Elladan e Elrohir não são tão parecidos quanto sua aparência nos indica.
"Qual é a tradução do nome do pai deles?" Indagou novamente o menino. Ele parecia apreciar a aula daquele idioma interessante.
Legolas lembrou-se então de Elrond e seu coração voltou a se entristecer. A certeza de que nunca mais encontraria o sábio mestre veio subitamente encher-lhe o espírito de um amargo sentimento.
"Lorde Elrond." Disse o elfo num tom diferente que impressionou ao rapaz. O elfo parecia saborear as palavras como se fosse a última vez que as fosse pronunciar.
"Sim." Concordou o rapaz sentando-se no chão agora e cruzando as pernas. "O que quer dizer Elrod?"
"Elrond." Corrigiu o elfo, sentindo algo estranho por usar o nome do mestre curador sem seu título em frente dele.
"Elrond." Repetiu o menino sorrindo. "O que quer dizer?"
"Eu não sei bem..." Disse o príncipe com os olhos parados agora... "Eu me lembro de ter ouvido uma história, algo a respeito da mãe de lorde Elrond... que ela teria dado a ele um nome que a fizesse lembrar-se de casa... Lá havia diamantes em forma de estrelas que adornavam o teto, então o nome de lorde Elrond é algo como cúpula de estrelas...
"Nossa..." Exclamou o menino surpreso. "Ele é um elfo poderoso, não é Squirrel?"
"É, Fowler." Concordou o príncipe sentindo os olhos úmidos devido a lembrança que experimentava agora.
"E seu pai?" Indagou o rapaz numa grande rapidez. "O rei Thrandillil"
"Thranduil!" Exclamou o príncipe olhando subitamente para os lados como se receasse ver o pai aparecer furioso com o total desrespeito apresentado.
"Thandruil." Tentou repetir o menino.
"Thranduil! Thranduil, Fowler!" Disse Legolas tentando conter o riso agora.
"Isso... isso... esse é o nome mais complicado de todos..." Admitiu o rapaz agora desistindo de tentar a pronúncia tão difícil.
"E pertence ao elfo mais complicado também..." Disse Legolas já arrependido do comentário que fizera.
"É por isso que o seu é tão simples, não é Squirrel?"
O príncipe fixou seus olhos azuis nos do menino e ergueu levemente as pontas dos lábios num sorriso de incompreensão.
"Como assim, Fowler?"
"Legolas." Repetiu o rapaz com facilidade. "Qualquer um pode dizer sem nenhum esforço. L E G O L A SSSS." Ele brincou prolongando a última sílaba mais do que o necessário e fazendo o elfo a sua frente rir muito ainda abraçado aos seus joelhos. "É por isso que todos gostam de você, não é Squirrel? É tão fácil gostar de você quanto é pronunciar o seu nome."
Era um pensamento completamente novo para o jovem príncipe que deixou o sorriso morrer devagar em seus lábios enquanto pensava nas sábias palavras do menino. Seria ele assim tão simples quanto uma folha verde entre tantas outras folhas verdes, que pendem nos troncos carregados das árvores e que escondem o sol em Lasgalen? Seria ele assim tão simples? Seria seu nome tão simples como a brisa balançando as pétalas das flores? Seria assim?
"O que quer dizer, Squirrel?" Indagou novamente o menino.
"O quê?" Inquiriu Legolas sem olhar o rapaz. Estava completamente perdido em seus devaneios.
"O que quer dizer o nome de seu pai?"
Os olhos que perdidos estavam voltaram a encarar a origem de todos os questionamentos daquela manhã. Legolas sentiu-se repentinamente cansado, como se aquela conversa o estivesse tragando devagar, oferecendo-lhe respostas que ele não queria mais ter, esperanças que ele não queria mais sentir.
"Thranduil..." Ele repetiu lembrando-se do poderoso rei de Mirkwood e pensando novamente em destinos e previsões. "O nome de meu paié uma espécie de previsão que o meu avô fez. Quer dizer "além do longo rio". É um retrato de toda a jornada que ele teria que fazer... e do reino que teria que governar... ouvindo o correr das águas do Anduin... sentindo sua energia sempre próxima de nós... aprendendo a enfrentá-lo... a amá-lo... Meu pai é como o Anduin... Não há como navegar aquele rio sem ter por ele um profundo respeito... um grande amor...
"E você é bom navegador, Squirrel?" Indagou o menino com inocência.
O rosto do príncipe perdeu a luz e ele abraçou os joelhos com mais força apoiando o queixo sobre eles.
"Eu queria ser, meu amigo Fowler." Ele respondeu num resto de voz, quase para si mesmo. "Não há nada nessa vida que eu quisesse mais ser..."
E um silêncio incômodo se fez.
"Nomes élficos são bonitos... sempre têm tanta coisa além do significado das palavras, não é?" Indagou o menino mais uma vez olhando para a tigela de amoras que o elfo tinha deixado de lado e apanhando-a já que percebera que o amigo parecia ter se fechado novamente como quando ele o encontrara. "Coma, Squirrel." Ele pediu oferecendo-lhe a tigela novamente e observando a reação do elfo. Legolas apenas olhou para as frutas vermelhas inexpressivamente. "Strider me fez prometer que eu faria você comer."
O príncipe sorriu ao se lembrar do amigo e num instinto voltou-se para o lugar onde ele estava, encontrando-o, por coincidência ou não, olhando diretamente para ele. Aragorn ofereceu-lhe um sorriso simples quando percebeu que o amigo o avistara. Legolas fez o mesmo pegando depois a tigela e erguendo-a um pouco enquanto pronunciava pausadamente a palavra "obrigado" para que o amigo, que não podia ouvi-lo, conseguisse ler em seus lábios o sincero agradecimento. Aragorn ainda tentou sorrir, mas não conseguiu, a agonia daquele momento o estava desesperando e Legolas sabia disso. O príncipe então apoiou a mão por sobre o coração e pendeu a cabeça fechando os olhos e voltando a abri-los em seguida para o amigo. Aragorn retribuiu, mas sentia que aquela mão em seu peito parecia pesar mais do que ele gostaria.
"Eu disse que te tiraria daí com minha espada, menino." Surgiu a voz do rei que cruzava agora o acampamento movido por uma súbita pressa. "Vá para junto dos seus."
Fowler nem pôde se despedir de Legolas. Impulsionado pelo desespero de que o rei fosse realmente transformar suas palavras em atos o menino correu em direção ao pai que já o esperava de braços abertos. Thranduil quis rir daquela reação tão típica dos inocentes e dos covardes, mas o olhar lançado a ele por Skipper lhe tirara o pouco humor que ainda restava.
Legolas lamentou pela partida do menino e pela indesejada solidão, mas logo percebeu que a atitude do rei tinha um porquê que o rapaz logo descobriria, quisesse ou não. Ele estava agora vindo em sua direção e carregava algo nas mãos. Legolas não conseguiu encará-lo, apenas baixou os olhos e deixou seus ouvidos lhe narrarem a proximidade cada vez maior do pai.
"Pode andar?" Indagou a voz austera e forte a sua frente agora.
Jogar os cobertores no chão foi fácil, porém levantar-se era bem mais difícil do que o príncipe imaginava, mas ele tentou fazê-lo sozinho. Thranduil deu dois passos para trás tentando evitar que o desejo de ajudar o filho surgisse. Mas Legolas ergueu-se, cambaleou um pouco, mas logo se firmou diante do pai, corpo ereto, mãos para trás e cabeça baixa.
Ao ver o rapaz firme em suas próprias pernas Thranduil caminhou alguns passos e depois parou olhando para ele e dando-lhe a entender que queria ser seguido. Legolas, que conhecia o pai como ninguém, obedeceu à ordem não verbal e caminhou a passos lentos um pouco atrás dele. Eles finalmente pararam perto da fogueira e o rei repetiu o mesmo ritual da véspera pisando nas brasas e apagando as poucas chamas que restavam. Eles estavam no meio do acampamento cercados por elfos e humanos.
"Atenção!" Gritou então o lorde de Mirkwood não precisando de maior esforço para receber os olhares de todos. "Preciso fazer algumas questões ao meu prisioneiro e é necessário que vocês testemunhem. Todos vocês." Ele completou lançando alguns olhares significativos aos seus elfos que formaram um circulo deixando os homens de Halbarad dentro dele. Em seguida o rei voltou-se para Legolas que mantinha seus olhos fixos no chão.
"Quem sou eu?" Indagou então o rei em voz alta e Legolas sobressaltou-se encarando o pai forçadamente. Havia algo errado com aquele discurso. "Quem sou eu?" Repetiu o rei um pouco mais impaciente.
"É o rei Thranduil, majestade." Respondeu o príncipe voltando a baixar os olhos. "Líder e protetor de Eryn Lasgalen, da antiga Greenwood que nesses tempos sombrios é conhecida pelo triste nome de Mirkwood." Declarou por fim o discurso ensinado a eles todos desde criança e do qual Legolas nunca esquecera.
"E quem é você?" Inquiriu o rei sem mudar o seu tom austero e rude.
Legolas sentiu a saliva lhe faltar. Essa era a pergunta de Elrond. Aquela que o lorde elfo o ensinara a responder naquele dia fatídico e que pedira a ele para que nunca se esquecesse. Ele queria poder oferecer ao pai a resposta que aprendera, mas aqueles eram outros tempos.
"Eu sou Legolas".Disse simplesmente o rapaz, apagando todos os traços que o ligavam a casa real.
Thranduil fez um breve silêncio enchendo levemente os pulmões. A resposta parecia lhe doer embora o elfo não demonstrasse seus sentimentos em nenhum traço do rosto.
"E qual é o seu crime?" Foi a pergunta fatal que Legolas não esperava ouvir. Não ali, não daquela forma, não na frente de todos os seus conhecidos. "Diga em alto e bom tom para que depois as pessoas desse grupo possam entender o porquê de sua sentença."
O mundo inteiro girou na frente do rapaz e ele baixou a cabeça. Seus cabelos, ainda soltos, cobriram-lhe novamente o rosto e ele não teve coragem de impedi-los. Ele não queria responder. Chegou a desejar que o rei erguesse a grande espada e separasse sua cabeça de seu corpo naquele momento. Seria melhor do que ter que admitir o que fizera
"Diga!" Ordenou o rei num tom mais elevado. "Use da pouca coragem que tem!"
"Eu sou um exilado." Respondeu então a voz trêmula escondida pelo mar dourado de cabelos. Fui banido por traição e desonra. Não poderia estar aqui."
"E qual é o fruto da sua traição?" Inquiriu o líder sem esperar que o rapaz se recuperasse do que fora obrigado a falar. Ele foi ainda mais severo, parecendo querer que todos os detalhes fossem minutados ali.
"Duas mortes." Admitiu então o príncipe percebendo o mal estar que se criava a sua volta.
Thranduil afastou-se do rapaz e caminhou por dentro do grande círculo do acampamento encarando um a um cada rosto que via.
"Esse é Legolas!" Disse por fim em um tom alto e claro parando a alguns metros do filho. Sua voz musical soava por todo o lugar e parecia vinda do nada, não parecia pertencer-lhe. Rostos intrigados tentavam entender o que se passava. "Meu sangue ele é, embora eu me envergonhe em admiti-lo diante dos meus. E por a meu sangue ele pertencer, a ele foi concedida a chance do exílio. Porém quem cede uma vez ao lado vil e fácil do caminho errado tende a fazê-lo outras vezes e aqui está ele, infringindo as regras que lhe foram impostas, desprezando a chance que lhe foi dada e, acima de tudo, desrespeitando seu rei."
Legolas ergueu os olhos agora e encontrou os do pai. Ele tentou inutilmente ler a sinceridade nos olhos que via, mas eram indecifráveis. O príncipe sentiu seu sangue inteiro gelar e seu corpo voltou a tremer embora ele tentasse ao máximo tornar isso pouco perceptível.
O líder de Lasgalen voltou seu olhar para o horizonte. O sol que já se erguera há tempos e forçava a passagem de seus raios pelas grandes árvores emprestava certa poesia ao lugar. Uma poesia que ele não queria ver. Uma poesia para a qual não havia mais espaço naquele lugar, uma poesia que o enervava. Ele se lembrava das incansáveis vezes que o filho chamara sua atenção para as belezas que ainda permaneciam intactas em Mirkwood.
"Deixe de tolices, menino!" Disse o rei tentando desviar-se do rapaz que lhe sorria andando de costas à sua frente.
"Ah, não ada." Insistia o filho. "Não vá para o gabinete agora. Illuvatar nos presenteou com o primeiro dia de primavera. Primavera mesmo! Temos até flores! Eu vi! Não há mais nem um resquício da neve do inverno. Venha ver!"
"Como sou abençoado quando você está em patrulha." Queixou-se então o pai segurando o rapaz pelos ombros e tirando-o de seu caminho.
Legolas parou onde estava observando o rei deslizar seu longo robe verde esmeralda em direção da porta de seu gabinete. Como o príncipe queria encontrar as chaves daquela porta, trancá-la para sempre.
"Ada." Ele tentou mais uma vez fazendo o pai parar segurando a maçaneta. "Só alguns instantes... por favor... amanhã eu partirei novamente."
Thranduil não se voltou, apenas apertou aquela fria maçaneta com todas as suas forças. Ele odiava sentir-se assim dividido. Por que Legolas fazia aquilo com ele, por que o estava sempre transtornando?
"Então vá aproveitar enquanto lhe é dado o privilégio de não fazer sua obrigação" Ele disse sem se voltar, em seguida girou a maçaneta e fez seu caminho para dentro do cômodo escuro. "A mim não é concedido esse prazer." Ele finalizou entrando e fechando a porta atrás de si.
Legolas baixou os olhos e se afastou com tristeza. Mas atrás daquela porta seu pai encostara duramente o corpo e respirava fundo tentando conter sua ira enquanto a escuridão do lugar lhe proporcionava um sentimento estranho, um grande vazio. Thranduil caminhou então até as portas da sacada e as abriu amplamente permitindo que a luz do dia abençoasse levemente o lugar. Depois se afastou e sentou-se atrás de sua grande mesa de madeira maciça analisando os últimos mapas trazidos pelos batedores que felizmente tinham retornado ilesos, acontecimento cada vez mais raro naqueles dias difíceis. Ele se concentrava agora nos atalhos descobertos, nos focos controlados e nas possibilidades futuras, quando ouviu um som, um som que há muito tempo não ouvia, uma voz misturava-se ao som dos pássaros. O rei fechou os olhos, mas queria fechar seu coração, o que era praticamente impossível.
Como a voz de Legolas podia ser assim tão bela? Como era possível ele cantar aquelas canções como se a natureza toda o acompanhasse? Foi o pensamento do rei em seu duro trajeto de volta para a sacada. Ele sabia que o filho não tinha a intenção de fazer-se ouvir. Estava muito longe dali agora, no meio das árvores onde não podia ser visto. Mas sua voz era como a suave brisa da primavera que a todos atingia sem distinção. Thranduil segurou firmemente as duas portas abertas, mas quando cumpria o que se destinava a fazer, quando voltava a fechá-las vagarosamente ele viu algo, ele viu as flores que o filho citara. Pétalas vermelhas de primavera ainda nasciam e enfeitavam seu jardim. Era verdade. O menino tinha razão.
O rei fechou novamente os olhos tentando ignorar aquela doce visão, mas a voz em sua mente, o timbre suave da canção de seus pais que o jovem Legolas cantava inundava seu coração de esperanças, de sentimentos que ele não queria sentir.
"Pássaro..." Ele disse a si mesmo olhando para a direção de onde a voz vinha, mas não conseguindo avistar o filho. "Temo e desejo perder-te ao mesmo tempo. Como isso é possível?" Ele suspirou fechando depois as portas e encostando a testa na madeira fria. "Pássaro dos meus pesadelos... Como eu gostaria de engaiolá-lo num lugar muito longe de mim... para me assegurar de que você não mais surgirá do nada com suas canções..." Thranduil soltou mais um longo suspiro. "Para me assegurar de que você está a salvo..."
E a recordação se desfez deixando um gosto amargo na boca do rei.
"De joelhos!" Ordenou então e Legolas obedeceu num reflexo. Não era muito difícil deixar o corpo cair naquele chão frio já que sua energia parecia mesmo querer abandoná-lo naquele lugar.
Thranduil deu então alguns passos e ficou novamente em frente do filho. Ele tentava agora trancar todos aqueles sentimentos dentro do peito que arfava levemente.
"Como líder de Lasgalen e benfeitor dos elfos de Mirkwood a mim é reservado o direto de sentenciá-lo". Sua voz fria ecoava causando calafrios nos presentes.
Legolas levantou novamente a cabeça. Ele queria olhar o pai. Entender o que estava por trás daquelas palavras amargas. Entender suas intenções, mas quando percebeu que o rei dava mais um passo em sua direção ele voltou a olhar a terra úmida sobre a qual estava ajoelhado.
O rei aproximou-se e pegou uma grande mecha dos cabelos do rapaz alinhando-a em uma estranha trança cujo padrão poucos tinham visto. Em seguida fez o mesmo com uma igual mecha do outro lado da cabeça do arqueiro. Legolas, que não pode ver o que era feito, permaneceu em silêncio aguardando pelo desfecho. Quando o pai terminou ouviu-se um leve suspiro.
"Essas tranças você usará até o fim de seus dias aqui na Terra Média." Sentenciou o rei afastando-se um pouco do rapaz agora "Meu filho você não pode deixar de ser, mas príncipe de Mirkwood você não é mais. Tranças de servidão adornam seus cabelos agora e servo da casa real você passa a ser."
Os lábios de Legolas se desprenderam e seus olhos se abriram ainda mais enquanto ele instintivamente segurava uma das tranças para confirmar o que o rei lhe dissera.
"Nossa casa nunca teve serviçais, meu senhor." Disse o arqueiro numa voz trêmula enquanto buscava o olhar do pai que não correspondia aos anseios dele. "Nossos criados sempre foram nossos amigos..."
"E foram mortos!" Disse o rei num rompante apertando os lábios e franzindo a testa. Havia um grande ódio em sua voz. "E foram mortos por serem seus amigos!"
Legolas apertou os olhos ao ouvir aquelas acusações. O medo dera lugar ao arrependimento e a incerteza agora. Mas também dera lugar ao desejo de compreender. Seus lábios estavam entreabertos e ele ainda segurava uma das tranças enquanto tentava desesperadamente entender o que havia por trás de tudo aquilo.
"Mas eu não quero seus serviços em meus domínios, em minha casa." Completou o líder elfo dando agora as costas ao filho. Ele podia traduzir o turbilhão que se passava na cabeça de Legolas agora e não queria assisti-lo da forma refletido que estava nas feições do príncipe. "Você ficara nas masmorras e a serviço delas." Ditou o rei então sem se voltar. "Verá o sol pelas grades escuras e se mantiver o lugar limpo não terá que repartir suas refeições com os roedores para se lembrar do mal que fez."
Legolas não acreditava nas palavras que ouvia, aquele não podia ser seu pai. Seu pai não faria aquilo com ele. Exilá-lo, proibi-lo de ver seus amigos já tinha sido uma grande surpresa, mas trancá-lo para sempre em uma masmorra escura cujas pequenas janelas mal permitiam que a luz do dia proporcionasse algum conforto? Isso era inacreditável. Teria ele criado uma ira tão grande no coração do rei que o pai seria capaz de odiá-lo dessa forma?
"Faça seus votos!" Disse o lorde austeramente, seu corpo todo parecia rígido e frio naquele momento, como uma estátua de mármore. "Resgate sua dignidade."
Houve um silêncio aterrador e vazio no qual se ouvia apenas a respiração de Legolas que em sua fraqueza procurava o ar que lhe faltava nos pulmões, procura as palavras que devia dizer. Mas não as encontrava, não encontrava energia para pronunciá-las, não encontrava coragem.
Thranduil aguardava impassível. Em seu coração um grande rodamoinho se formava. E se ele se negasse? E se o afrontasse? E se ele se erguesse em sua ira e o enfrentasse? E se o obrigasse a usar a sua espada? Seu prisioneiro, o príncipe, seu filho Legolas. Irado com o sentimento que aquelas incertezas estavam lhe causando, o rei colocou a mão na arma disposto a obrigar o filho, a agarrá-lo pelos cabeços, pelas tranças de servidão que ele mesmo trançara e obrigá-lo a pronunciar palavra por palavra. Mas perdido em suas dúvidas ele ouviu, ouviu o que não esperava.
"Ao nobre rei Thranduil. Líder e benfeitor de meu povo." Vinha a voz de Legolas, sentado sobre os calcanhares, cabeça baixa, mão por sobre o coração, olhos fechados. "Eu juro minha obediência e devoção, eu ofereço meu coração e minha vida. Que sua piedade me poupe do castigo de seu chicote e da ira de sua espada e que sua mão me alimente. Que eu viva meus dias pela sua vontade e clemência e que ele me proporcione uma boa morte se sua confiança em mim lhe for roubada. Seu servo eu sou e serei, meu mestre, meu rei."
Dizendo isso ele baixou a cabeça e encostou a testa no chão. Thranduil que se voltara vagamente ao ouvir as palavras do filho, o estava observando agora, traçando as linhas daquelas costas arcadas, tentado perceber se o rapaz soluçava. Fora uma total surpresa ouvir o que ouvira e ele ainda não acreditava. As masmorras eram lugares onde nenhum elfo gostaria sequer de entrar. Ele esperava ver o filho ajoelhado ali sim, mas implorando perdão, implorando que não o mandasse para lá. Ele conhecia o medo que o menino tinha de lugares escuros e fechados e de ser obrigado a ficar longe das árvores que amava. Teria ele entendido bem o castigo?
"São esses votos verdadeiros, criatura? Bem claro está traçado o seu papel em sua mente?" Indagou então dando um passo à frente e ficando um pouco mais próximo do filho. Seu tom de voz perdera levemente a altivez e ele parecia um tanto confuso.
"Sim, meu mestre." Respondeu a voz de Legolas ainda ecoando pelo chão próximo ao seu rosto. Algo naquela voz parecia diferente.
Um breve silêncio voltou a preencher o vazio. Mas agora o silêncio era total. O peito de Legolas não arfava mais e os pássaros não cantavam. Eram momentos sombrios.
"Em pé!" Gritou o rei assustando a todos. Mas Legolas não demonstrou nenhuma reação. Apenas levantou-se e permaneceu em pé com a cabeça baixa e as mãos nas costas.
"Quem é você?" Indagou o rei tentando uma última confirmação.
"Ninguém." Respondeu simplesmente o rapaz encarando o rei pela primeira vez. Os lábios de Thranduil se partiram ligeiramente ao verem o par de olhos azuis do filho fixos nele. Havia uma tristeza profunda por trás daqueles cristais, muito pior do que a que se formara no dia em que ele o expulsara do palácio. Mas algo estava mudado.
"Quem sou eu?" Indagou o rei.
"Meu mestre." Respondeu o arqueiro sem qualquer sinal de indecisão. Seu rosto pálido refletia uma luz azulada estranha, Thranduil o achou doente, mas lembrou-se que ele ainda mal se recuperava do que aqueles traidores haviam feito. Como ele queria ter pego aqueles elfos miseráveis, como ele queria ter-lhes golpeado com a espada certeiramente antes que se perdessem naquela floresta. Mas essas não eram idéias para serem pensadas agora. Ele se voltou então para o acampamento e notou que todos estavam prontos para partir.
"Erga as mãos." Disse olhando para o filho novamente. Legolas obedeceu como um autômato e nem sequer olhou para elas enquanto o rei enlaçava seus punhos com uma corda amarrando-os firmemente. "Coloquem-no sobre um cavalo e prendam o animal ao meu. Meu servo anda sob minha guarda."
Os soldados relutaram até que um deles se aproximou segurando levemente o cotovelo de Legolas. O príncipe o reconheceu. Eram amigos desde infância, mas a sensação doce e alegre de revê-lo logo se perdeu no olhar distante e temeroso que o amigo lhe lançava. Muito havia acontecido naqueles anos todos. O príncipe então ofereceu um leve sorriso ao amigo que baixou os olhos envergonhado do que tinha que fazer e o acompanhou.
Os gêmeos e Aragorn se olhavam atordoados agora. Eles se sentiam vivendo um enorme pesadelo que parecia não ter fim. Estel esfregava novamente o peito tentando amenizar aquele aperto que voltara a sentir, enquanto Elladan dava alguns passos para longe do grupo.
"Onde vai?" Indagou o guardião segurando o irmão.
"Vou falar com o rei." Respondeu o gêmeo puxando levemente o braço. Ele parecia atordoado. Até para o sábio e calmo Elladan aquela cena era dolorosa demais para ser administrada. "Pedir que deixe Legolas cavalgar comigo. Ele não está bem para cavalgar sozinho. É muito arriscado."
"Aproveite é peça uma coroa de diamantes." Disse Elrohir. Ele estava tão enfurecido que sentia suas orelhas queimarem até as pontas. "Acho que a segunda opção é mais fácil do que a primeira."
"Ro, não tem graça." Disse o irmão caçula enquanto ainda tentava manter Elladan onde estava.
"Quer me largar, Estel!" Gritou o gêmeo pela primeira vez em sua vida. "Ele não pode fazer isso. Ele não pode!" Elladan balançava a cabeça inconformado ainda tentando se desvencilhar do irmão. Elrohir percebendo o estado de pura agonia do gêmeo mais velho aproximou-se também e ele e Aragorn se abraçaram ao irmão que finalmente cedeu tentando respirar fundo e desfazer aquele nó que sufocava sua garganta. Mas ele não pôde evitar que as lágrimas caíssem. "Ele não pode fazer isso." Disse com um profundo pesar. "Ele sabe como Legolas teme lugares como aquele onde ele pretende colocá-lo."
"Eu sei, eu sei." Disse Aragorn apoiando a testa no ombro do irmão que tentava se conter. Seu coração conjeturava milhares de saídas para aquela situação, mas todas elas tinham um final de difícil previsão.
