Olá.!! Tudo bem? Espero que sim.

Mais uma vez o incansável agradecimento pelas reviews. Eu nem acredito na consideração que vocês estão demonstrando não falhando nenhuma vez sequer. Um milhão de obrigados.

No capítulo passado eu me senti na obrigação de oferecer esclarecimentos a minha amiga Myri. Embora ela, com seu coração que nenhum mal consegue enxergar, tenha me livrado desse peso que sentia.

Agora minhas palavras vão para a maravilhosa Nimrondel cujo capítulo novo das CRÔNICAS ARAGORNIANAS está imperdível. Existe um fato coincidente em nossos capítulos novos que não vou mencionar para não acabar com a surpresa de ambos, mas que queria esclarecer tratar-se de uma coincidência (os animais nem são os mesmo...), embora a cena da Nim tenha ficado dez vezes melhor que a minha.

Sei que alguns vão querer minha pele por eu estar levantando tais questões. A Myri mesmo já me disse que não devo me apegar a essas questões de originalidade etc. Eu concordo com todos os argumentos que ela tão bem me apresentou, mas só que existe um problema. Eu. Eu não me sinto bem se não comentar. Se não esclarecer que não houve intenção. Acho que originalidade é algo que todos nós buscamos e, embora algumas coincidências existam sempre vale a pena valorizar o trabalho do colega que dedicou tanto tempo e carinho a ele e buscar ao máximo, utilizando-se é claro de todas as boas influências, tentar fazer algo com um toque seu. Quando coincidências assim ocorrem não custa esclarecer. Eu faço só por respeito, porque aprecio o trabalho tão bom que minhas colegas fazem.

Agradecimentos,

Lady-LiebeAmiga. Saudades!! Não se esqueçam de ler as short-fics da Liebe se ainda não fizeram.

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Ainda estou esperando!! Por favor!!!

Kagura Bakura – Minha grande leitora. Um obrigado de coração!

Regina Que bom que você apareceu! Fiquei feliz. Aguardo notícias.

Myriara– "A PAIXÃO DOS EDAIN" conseguiu superar-se. E eu que julgava impossível. Não percam... não percam... não percam... não percam... As coisas estão se complicando para o nosso Haldir, mas só Iluvatar sabe o que Myri reservou para essa fic enigmática, estou perdendo meu sono tentando descobrir.

Nimrodel Lorellin "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" dispensa comentários. A descrição no novo capítulo está tão real que chega a me dar vontade de desenhar de novo.

BotoriEstou super feliz por você me dar o prazer de sua review. Obrigada!!

Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – Escapei mais uma vez da A.P.E. Você quase conseguiu me pegar, não é mesmo? Ufa... Mas obrigada de coração pela review. Gosto demais das coisas que você escreve para mim. Você devia escrever fics!!

Leka: Também nunca falha. Fico feliz em ler sua opinião. Obrigada mesmo.

Vick Weasley: "BITTERSWEET" continua sendo a dica do dia, do mês e do ano. Quem não leu não pode deixar de ler!

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" ainda recomendo.

Dark Lali: "NARN VENDENIEL" é outra dica que não posso deixar de dar! Não deixem de ler. Obrigada por ler minha fic, amiga. Fiquei muito feliz.

Kika-Sama: Nossa futura advogada continua arrasando com suas short fics. Leiam! Obrigada pela review.

Chell1: Não creio que ela leia a minha fic, mas queria muito recomendar a dela, pessoal. Ela me disse que está no fim, mas a idéia foi super original, vale a pena conferir "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE". Eu gosto muito.

Bem. Espero não ter esquecido ninguém. Se esqueci me escrevam me dando uma bronca porque eu mereço. Novamente obrigada pelas reviews. Eu fico feliz demais por saber que ainda não desistiram de mim.Obrigada

Agora vamos a fic. Enquanto eu volto para o meu esconderijo. A vem a A.P.E.!!!

Ah... Alguém se lembra da visãoque o Elrond teve? para saber...

21

Aquela cavalgada fora a pior de todas as que enfrentaram. As horas passavam de uma forma cruelmente lenta e Mirkwood parecia nunca chegar. Thranduil seguia no seu cavalo em frente ao grupo, junto aos gêmeos e Aragorn. O passo dos animais era lento devido à trilha irregular que seguiam. Espírito vinha amarrado ao cavalo do rei e Legolas, montado no amigo, mantinha seus olhos fixos no mais completo nada. Suas mãos atadas estavam levemente encostadas à crina macia do cavalo e seus longos dedos deslizavam suavemente entre aqueles pêlos brilhantes. Parecia estar numa espécie de transe, no qual apenas seu corpo estava presente, mas seu espírito vagava muito além dali. Ele voltava a usar o gorro de Squirrel e escondia os cabelos e as tranças que o pai fizera, atitude esta que o rei condenara com um olhar severo assim que subira em seu cavalo, mas que decidira ignorar, como o vinha ignorando desde então. Pela primeira vez em sua vida ele desejava muito mais ser Squirrel do que ser quem era. O rosto indecifrável, os olhos sem brilho e a pele ligeiramente azulada do elfo preocupavam Aragorn que não conseguia deixar de olhá-lo.

"Talvez devêssemos parar um pouco." Arriscou-se o guardião olhando para as costas do rei que cavalgava poucos metros a frente. Ele sabia que não era tão bem quisto pelo lorde de Lasgalen quanto gostaria, mas não agüentava mais ver o amigo naquele estado.

Thranduil voltou-se vagarosamente em seu cavalo. Olhos claros, levemente escondidos por trás dos rebeldes cachos dourados que se desprendiam das longas tranças, buscavam os motivos para aquela sugestão. Aragorn deixou seu rancor de lado e o encarou como não havia feito até então. O rei, sempre coberto por finos tecidos e com os cabelos impecavelmente arrumados, parecia outro elfo naquele momento. O manto já não era mais branco há muito e as escoriações visíveis em vários lugares lhe davam um ar estranho de fragilidade. Cansaço o abatia e seu espírito entristecera-se ainda mais desde a última vez que Aragorn o vira em seu encontro com Mithrandir.

O guardião não tivera coragem de perguntar-lhe a respeito da terrível batalha cujo inimigo devastador levara daquele reino alguns elfos imortais de Mirkwood que mereciam sorte melhor. Todo o reduzido corpo de soldados do rei estava debilitado e abatido e a proximidade com que se encontravam de casa parecia ter-lhes baixado a guarda. Aliviados os elfos do exército do rei mantinham seus ombros levemente arcados e suas mãos soltas por sobre a montaria, alguns pareciam recuperar forças num sono élfico.

Thranduil, porém, não dormira. Aquela sombra que parecia avizinhar-lhe era mantida longe pela altivez de seu olhar.

"Estamos todos cansados".Aragorn tentou mais uma vez olhando agora diretamente nos claros e profundos olhos do rei, cujo rosto se voltou imediatamente para seus soldados olhando-os um a um com um ar paternal. Que grande paradoxo ele era, pensava o filho de Elrond observando-lhe cuidadosamente todas as reações. Naquele momento o lorde de Lasgalen demonstrava mais amor pelas criaturas que o seguiam cegamente, obedecendo-lhe todas as ordens sem qualquer questionamento, do que qualquer líder que o guardião já vira em suas andanças pelo mundo. Mas a ambigüidade característica da personalidade daquele elfo que, mesmo tendo suas roupas reduzidas a trapos sujos de lama e sangue, ainda parecia ser o mais belo de toda a terra média, chocava a todos que o acompanhavam sempre nas horas menos esperadas. E um desses momentos estava por surgir.

"Quando chegarmos, dunedain." Ele disse friamente ainda encarando o guardião. Em sua rápida inspeção seus olhos não haviam perdido um só segundo sobre o filho que vinha atrás dele. "Você e seus irmãos terão muito tempo para um descanso."

Aragorn engoliu seco e olhou para os gêmeos esperando por qualquer auxílio que pudesse lhe servir naquele momento. Mas Elladan sequer levantara a cabeça durante todo o trajeto e assim continuava. Ele cavalgava pensativo, os cabelos presos em uma única trança da qual alguns fios já fugiam teimosamente, escondiam-lhe as feições da cabeça baixa. Ele nem mesmo ouvira o breve diálogo entre o rei e seu irmão. Elrohir, por outro lado estava mais alerta do que nunca, mas sua atenção parecia toda voltada para algo além. O elfo cavalgava ereto por sobre o animal, ambas as mãos segurando firmemente na crina negra e olhos atentos a todas as direções. Algo o estava incomodando.

"Elrohir?" Indagou o caçula conseguindo uma atenção muito breve do irmão que já se voltava a sua estranha busca. "Ro, o que o está perturbando?" Inquiriu Estel aproximando um pouco mais seu cavalo do dele.

Um silêncio foi a única resposta que coube ao caçula. O gêmeo assemelhava-se a um cão de caça buscando sua presa. Seus olhos, ouvidos e todos os demais sentidos estavam unidos em uma busca sem sentido para o irmão que cavalgava perto dele.

Aragorn franziu a testa e apoiou levemente uma mão por sobre a perna do elfo que nem assim se voltou.

"Elrohir? O que é?"

O jovem esticou então o braço e tocou o ombro de sua cópia exata que cavalgava a esquerda deles. Elladan sobressaltou-se levemente e retribuiu com estranheza o olhar que o irmão lhe lançava. Os gêmeos eram admirados pela habilidade incomum que tinham de se entenderem e até se comunicarem sem que palavra alguma fosse necessária, e aquele parecia ser um momento apropriado para isso.

O primogênito, depois de manter seus olhos fixos nos do irmão por alguns instantes, começou também o mesmo ritual que Elrohir vinha fazendo, espelhando após meros segundos, o idêntico ar de preocupação que o outro estampava em seu rosto.

"O quê?" Indagou Aragorn um tanto irritado agora com aquela comunicação indecifrável. Aquele era um dos momentos nos quais ele se amaldiçoava por ter um parentesco tão longínquo com a raça élfica que nada restara em si dessa incrível habilidade que possuíam. A indignação do guardião fizera sua voz subir um tom sem que ele percebesse. "O que está acontecendo?"

"O que se passa?" Indagou o rei que se virara alertado pela pelo tom do guardião e percebera que os filhos de Elrond desaceleravam a marcha dos animais sem nenhum motivo aparente.

Elrohir encarou o lorde, mas estava confuso, não sabia o que dizer.

"O que se passa, jovem Elrohir?" Insistiu Thranduil sentindo uma estranha preocupação.

"Ouço algo que não consigo classificar, majestade" Admitiu o gêmeo empalidecendo ligeiramente. "Parece estranho, pois eu deveria saber o que é, mas..."

O gêmeo sentia-se envergonhado por admitir diante de alguém como Thranduil que suas habilidades não estavam correspondendo tão bem quanto era desejado no momento.

As sobrancelhas do lorde elfo arcaram-se e ele esticou o tronco estufando levemente o peito. Com o queixo erguido, mas as sobrancelhas franzidas ele começou a olhar a sua volta também buscando pelas sensações que o gêmeo descrevera. Sua figura pareceu mais imponente do que nunca. Quem o visse ali o julgaria pronto para a batalha de sua vida.

"O senhor ouve?" Arriscou-se o jovem com esperanças de um esclarecimento para aquela questão que o estava perturbando.

O rei, entretanto não parecia ver mais nada nem ninguém que não fosse de seu interesse no momento. Seus pensamentos já não estavam mais ali. Ele virou o cavalo e olhou para o grupo que o seguia tentando perceber o quão distante o último elfo estava.

"Batedores!" Gritou então e dois soldados surgiram em seus cavalos malhados olhando o rei com preocupação. Estavam em território conhecido, bastante próximos de Mirkwood, porque o rei precisaria deles?

"Quero vocês à frente!" Ele disse olhando-os com seriedade. "Não muito distantes de nós, entenderam? Quero ouvi-los gritar se virem algo."

Então pela primeira vez desde que haviam saído Legolas demonstrou alguma reação. Ao ver os batedores passarem por seu cavalo em disparada a respiração do príncipe acelerou-se e ele agarrou a crina que segurava, acompanhando com um olhar atento o galopar dos elfos até que não pudesse mais vê-los. Aqueles batedores eram seus amigos de infância, guerreiros muito valentes e cuja perda seria irreparável.

"Ouve algo, mellon nîn?" Aragorn indagou ao amigo despertando-o daquelas amargas sensações. O guardião queria aproveitar-se do momento para sentir o estado do príncipe.

Legolas voltou-se para ele. Suas feições estavam estranhas. Ele apenas respirou fundo e acenou com a cabeça positivamente, mas em seu olhar habitava a mesma dúvida dos demais. Ele também ouvia o perigo que parecia espreitá-los, mas não conseguia identificá-lo.

"O que acha que é?"

O elfo não teve tempo para responder. Thranduil forçou novamente sua marcha tentando manter contato visual com os dois batedores. Espírito acompanhava o cavalo do rei com certa dificuldade.

"Esse é o cavalo que lhe arrumaram?" Indagou olhando o filho com indignação ao perceber que o estranho cavalgar da criatura que servia ao rapaz intimidava o passo de seu próprio animal fazendo com que ambos se colocassem em uma marcha estranha e lenta.

O príncipe sequer olhou para o rei enquanto este falava aquelas palavras amargas. Para ele não importava mais a opinião do pai sobre o que quer que fosse. Para a posição de servo a qual fora destinado agora, o bom Espírito era muito mais do que ele merecia. O elfo limitou-se apenas a deslizar as mãos amarradas pela crina do amigo carinhosamente e sua atitude em si já foi uma resposta muito pior para Thranduil do que se o filho o tivesse afrontado. O lorde elfo enervou-se e voltou-se levemente para argumentar quando foi surpreendido.

"AHHHH!!!" Surgiu o grito aterrador de um dos batedores. O rei voltou-se. Uma mistura de surpresa e terror se fez no ar. Ele ia ordenar a seu cavalo que seguisse na direção do nefasto som quando se lembrou da situação na qual se encontrava. Rapidamente desfez os laços do cavalo do filho para depois se aproximar desfazendo também os nós que prendiam as mãos do rapaz. Se eles fossem atacados ele tinha que lhe dar alguma chance.

"Escute e escute bem!" Disse o rei agarrando a túnica do filho enquanto todos os cavalos do grupo passavam por eles levantando poeira e indo em direção do conflito. "Você lembra quem é?"

"Seu servo".Respondeu Legolas numa voz fria que quase fora encoberta pelo estrondoso som do cavalgar a volta deles, mas que desconcertou o pai.

"Então defenda seu mestre e seu povo".Ordenou Thranduil erguendo o tom de voz para assegurar-se de que seria ouvido e fixando seus olhos nos do jovem mais uma vez antes de libertá-lo. O cavalo do rei passou então a correr o máximo que pôde enquanto Legolas seguiu-o com a distância que a capacidade de Espírito lhe permitia.

Quando o rei chegou ao local dos conflitos tudo ficou mais claro do que ele gostaria. Uma alcatéia de lobos os estava atacando numa fúria indescritível. Não eram conduzidos por inimigo algum, no entanto pareciam dispostos a liquidar qualquer elfo ou humano que estivesse naquela trilha. Thranduil respirou fundo aquele ar de agonia e incertezas e concluiu que aquela provavelmente seria a pior batalha que eles enfrentariam desde sua saída de Mirkwood, temendo então por seus elfos já cansados e enfraquecidos. Porém pensar em qualquer desventura naquele momento seria apenas ignorar o óbvio e ele decidiu agir. Ergueu sua espada e encheu os pulmões, elevando seu pensamento a Iluvatar e rogando-lhe a ajuda que precisava. Seu cavalo branco ergueu-se como se lhe oferecesse um sinal de concordância, mas quando estava a caminho lembrou-se de algo muito importante. Virando-se percebeu o cavalo do príncipe se aproximar. Ele havia deixado o filho desarmado.

"Legolas!" Gritou sem ser ouvido. O rapaz vira algo por sobre a colina e conduzia seu animal naquela direção em grande velocidade. Thranduil quis acompanhá-lo, mas um lobo chocou-se com seu cavalo derrubando-o sem piedade. O elfo ergueu-se no chão a tempo apenas de aplicar um golpe mortal na fera antes que pudesse virar uma presa fácil.

A sua volta o mundo todo parecia um grande caos. À direita Aragorn e Elrohir corriam ainda sobre seus animais matando tantas bestas quanto fosse possível, seus rostos se contorciam de temor e fúria e sangue já escorria de uma das pernas do dunedain. Correndo alguns metros à frente vinha Elladan sem seu cavalo e um pouco mais além dois lobos devoravam avidamente os restos mortais de um pobre infeliz que, daquela distância e naquela situação, era praticamente impossível para o rei distinguir se tratar de um humano ou um de seus elfos.

"Animais malditos!" Resmungou Thranduil virando-se para enfrentar mais uma triste visão. Caído no chão com o pescoço esticado seu cavalo parecia estar dormindo, mas não estava. "Malditos!!" Repetiu então correndo pelo campo com sua espada na mão. Desde que saíra de Mirkwood não houvera um período muito longo de paz e ele sentia o quão difícil estava, apesar de tão próximos de casa, levar seu grupo intacto para suas famílias.

"Elladan!" Uma voz gritou para o elfo que corria pela trilha enquanto abatia alguns animais que vinham para cima dele arrastando árvores, galhos e o que quer que estivesse a sua frente. O gêmeo mal teve tempo de ver quem lhe estendia a mão. Aceitou-a subindo com destreza na garupa do cavalo para só depois se ver segurando a cintura do irmão.

"Hannon le..." obrigado... " Disse o elfo um tanto sem fôlego segurando com mais força no gêmeo.

Elrohir acenou levemente com a cabeça franzindo a sobrancelha e apertando mais a espada que segurava. Eles ainda tinham muito que fazer.

No alto da colina Legolas corria com o corpo pendido para frente dizendo a seu animal palavras de incentivo para que o cansado Espírito não desistisse de sua jornada. Algumas vezes olhava para trás receosamente, temendo estar sendo seguido por mais uma daquelas bestas. Ele achava muito estranho aqueles lobos estarem sozinhos tão longe dos campos abertos. Era evidente que não se tratava de uma alcatéia selvagem e isso o fazia crer que quem quer que fossem seus senhores logo estariam por ali. Mas não havia tempo para pensar. Ele tinha que convencer o pobre Espírito a tentar alcançar aquele lobo feroz que perseguia um de seus amigos.

"Squirrel!" Gritava Fowler apavorado por sobre o seu cavalo ao perceber o quão próximo dele o feroz animal estava. "Me ajude!"

Mas o tempo foi rápido e cruel. O animal do menino logo fora alcançado e o mortal canídeo agarrou-lhe uma das patas trazendo-lhe brutalmente ao chão. Fowler com o corpo preso por sob o seu cavalo foi obrigado a assistir enquanto o faminto lobo dava um rápido término à vida de seu amigo eqüino sem que ele pudesse impedi-lo.

"Não!" Gritou o rapaz tentando agora remover o pesado corpo que o prendia. Ele empurrava com toda a sua força, mas a massa não parecia se mover um centímetro sequer. Ele tentou uma, duas, três vezes até sentir algo que transformou o pavor anterior em puro desespero. Um hálito quente e fétido estava por sobre ele e dentes enormes ainda com restos de carniça e sujos de sangue novo se mostravam a poucos centímetros de seu rosto.

Fowler sentiu o estômago dar grandes voltas e seu corpo todo pareceu tomado por uma súbita dormência que ele não sabia dever-se ao medo que sentia, ou ao sangue comprimido de suas veias. Eram experiências árduas e desesperadoras demais para alguém de sua idade e o pobre menino resignou-se enfim, fechando os olhos e elevando seu pensamento ao irmão a quem presumia que fosse reencontrar em breve.

"Ai, Glower." Lamentou-se apertando os olhos até doerem. "Eu queria que você estivesse aqui."

E o calor daquela boca imunda se fez mais e mais próximo enquanto a criatura tentava alcançar a presa que estava numa posição de difícil acesso. Os dentes próximos o bastante, a saliva escorrendo como cascata e aquele calor indicavam que o fim estava próximo.

"Aqui, animal das trevas." Surgiu então uma voz. "Venha fazer mal a alguém tão mau quanto você."

Era Legolas que estava tão transtornado com a cena que via que permanecera parado em pé a alguns metros do local. O elfo já havia perdido o gorro preto e sangue escorria de sua cabeça e pescoço fazendo dele um atrativo ainda maior

O lobo virou-se e em sua irracionalidade obedeceu avançando por sobre o elfo, mas caindo a poucos passos dele, vítima de uma lança certeira. Legolas, ao sentir o perigo passar nem olhou para seu salvador, apenas caiu por sobre os joelhos baixando a cabeça e apoiando as palmas no chão.

"Ia enfrentar aquela besta com as mãos limpas? Indagou uma voz se aproximando a pé. "Quer morrer?" Inquiriu novamente num tom mais sério. "Quer morrer, menino?"

O rapaz levantou a cabeça e encontrou um par de olhos preocupados lhe fitando.

"Mestre Halbarad." Disse o elfo num fio de voz.

O velho guardião não pôde deixar de sorrir ao ver aqueles olhos inocentes se fixarem nele. Legolas sequer agradecera, parecia petrificado como alguém que esperasse pelo pior e não fosse atendido. Halbarad apoiou levemente uma mão por sobre o ombro do elfo, mas em seguida franziu as sobrancelhas ao ver o sangue que fazia seu caminho pela face pálida do amigo.

"Está ferido." Foi um comentário completamente desnecessário.

O elfo, contudo tinha outras preocupações.

"Fowler." Ele disse em seguida apontando para o cavalo do menino.

O velho dunedain ainda ficou parado por mais alguns instantes, voltando confuso seu rosto para o local indicado e virando-se novamente para o elfo.

"Ajude..." Tentou dizer o príncipe apontando novamente para a direção do animal morto, mas sentindo-se sem forças. Aquela investida havia lhe tomado toda a energia e ele lamentava-se pela difícil recuperação que seu corpo estava demonstrando desde que o grupo saíra daquela caverna escura. Ele queria lutar, voltar a se sentir completo, mas não estava pronto para uma batalha e não conseguia prever quando estaria.

Halbarad deu alguns passos hesitantes sem entender. De onde estava só via o pobre animal cuja cabeça tinha sido mordida tantas vezes que era impossível reconhecê-lo.

"Fowler!" Chamou então o velho guardião aproximando-se do animal e surpreendendo-se por finalmente encontrar um olhar assustado que demonstrava grande alívio ao vê-lo.

"Mestre Halbarad!" Disse o rapaz num tom amargo. Uma dor presente em sua voz.

"Calma, menino. Vamos tirá-lo daí antes que você possa achar que não é uma posição tão desconfortável assim." Disse o líder se permitindo sorrir para acalmar o menino e correndo em seu socorro. Fowler tentou retribuir o sorriso e o otimismo do líder de seu grupo, mas o pavor ainda ecoava em todo o seu ser.

"Pesado..." Ele sussurrou franzindo o rosto de dor enquanto observava Halbarad dar a volta no animal morto. O líder logo conseguiu encontrar um ponto de apoio e ergueu o cadáver libertando o menino, que se aproveitou do momento de liberdade e arrastou-se para a segurança observando depois o líder soltar o corpo imóvel do amigo eqüino.

"Pobre Tempestade." Disse acariciando levemente o cavalo.

"Perdi o meu também, filho." Comentou tristemente o guardião ajudando o rapaz a ficar de pé. Fowler cambaleou um pouco, recebendo a ajuda do amigo, mas logo se firmou. Sentia uma estranha dormência nas pernas, mas esta já estava se atenuando conforme ele as sacudia levemente e voltava a firmá-las.

Halbarad soltou uma risada que representava um genuíno sentimento de alívio, observando o estranho passo de dança do menino que tentava fazer suas pernas funcionarem novamente.

"Estão formigando." Sorriu o rapaz compreendendo bem com o que seu líder se divertia naquele instante.

"Logo vão ficar ótimas, rapazinho." Ele afirmou voltando a olhar o animal estendido no chão. A imagem triste o lembrara de algo. "Legolas, onde está Espírito?" Ele perguntou voltando-se para o elfo que não pôde responder, estava caído no chão agora no mesmo lugar onde se ajoelhara. "Pelas terras do norte!" Gritou o guardião correndo na direção do rapaz e erguendo-o devagar. "Legolas, o que foi, filho?" Os olhos do elfo estavam fechados e seu rosto pálido não demonstrava nenhuma resposta. Halbarad deitou-o de costas e começou a procurar por algum ferimento. O corte no pescoço voltara a sangrar levemente e alguns hematomas começavam a surgir em seu rosto. "Legolas?" Insistia o amigo batendo as costas da mão levemente no rosto do elfo que agora abria seus olhos com dificuldades.

"Mestre Halbarad." Ele disse sentindo o guardião segurar-lhe uma das mãos. "Onde está Fowler?"

"Estou aqui." Disse o menino se aproximando devagar.

"Está ferido, amigo?" Indagou o príncipe parecendo fazer um grande esforço para focar o rosto do rapaz.

"Não Squirrel." Respondeu então ajoelhando-se perto do elfo e apoiando uma das mãos por sobre sua perna. "Obrigado por afastar a besta de mim."

Halbarad riu sentindo-se novamente aliviado.

"Ela ia mesmo te achar um prato muito indigesto." Disse o líder ainda sorrindo e olhando para o menino que retribuiu inocentemente. "Aliás vocês dois são muito indigestos." Completou olhando para Legolas agora e percebendo que o elfo voltava a fechar os olhos de forma preocupante. "Ei!" Ele disse dando-lhe uma leve sacudida. "Não durma. Temos que sair daqui." Legolas acenou com a cabeça odiando-se por demonstrar-se assim tão frágil e tentando erguer-se devagar, mas sentindo todo o mundo rodar quando voltou a posição vertical.

"Onde está Espírito?" O mestre repetiu sua pergunta preocupado enquanto olhava o elfo com atenção. Aquele sangue que escorria parecia ser um problema.

Legolas baixou os olhos com tristeza.

"Fomos derrubados" Disse o arqueiro erguendo a mão para apoiá-la por trás da cabeça, fazendo um ar de dor e trazendo-a de volta manchada de sangue. "Eu não sei onde ele está..." Completou olhando para os dedos e suspirando com pesar. Sangue dele e de seus amigos em suas mãos pareciam ser uma constante. "Quando dei por mim ele tinha desaparecido."

Halbarad franziu as sobrancelhas preocupado.

"É grave?" Indagou o homem erguendo-se um pouco para vistoriar o local que o elfo tocara. O líquido vermelho ainda escorria e os claros cabelos do príncipe estavam ligeiramente avermelhados. "Tem um corte aqui. Você bateu a cabeça na queda, não é?"

Legolas respirou fundo tentando se livrar da sensação estranha que sentia, mas não respondeu.

"Vai ficar tudo bem".Garantiu Halbarad pousando a mão no ombro do arqueiro. "Vamos cuidar disso assim que eu conseguir um pouco de água. Você é mesmo duro na queda".

"É estranho, mestre Halbarad".Disse o príncipe sendo ajudado a se levantar e apoiando-se nos ombros dos dois amigos enquanto eles voltavam para a descida da colina em direção da trilha que deixaram. "Esses lobos aqui sozinhos..."

O dunedain entendeu muito bem as preocupações do elfo. Aquele conflito tinha algum propósito que ele temia tentar imaginar. Tantas coisas já haviam acontecido nos últimos tempos que qualquer imprevisto, por mais surpreendente que fosse, poderia ser possível.

"Eu sei, rapaz. Temos que voltar. Espero que encontremos os outros bem."

Legolas acenou com a cabeça, respirando pausadamente para tentar controlar a dor e cansaço enquanto pensava no que iriam encontrar no pé da colina escura que deixaram.

"Já vão?" Surgiu então uma voz conhecida.

Halbarad soltou o amigo e os três voltaram-se vagarosamente para encontrarem uma visão que não esperavam. Mais de vinte figuras escondidas em mantos e capuzes apontavam suas flechas para o grupo. Legolas que tentava agora se equilibrar em pé, empurrou Fowler ligeiramente para trás de si, enquanto apertava os olhos tentando distinguir as pessoas que estavam contra a luz. A pessoa do meio baixou seu arco e deu um passo à frente retirando o capuz e oferecendo um sorriso cínico a Halbarad e os dois amigos.

"Hawk!" Disse o dunedain tentando disfarçar a surpresa. "Quantas vidas você tem?"

"Quantas forem preciso, meu amigo Halbarad." Respondeu o outro olhando agora para Legolas.

"Uff." Resmungou o velho guardião baixando a cabeça e balançando-a inconformado. "Observando as pessoas que você classifica como amigos, eu preferiria que não utilizasse esse termo para comigo."

"Ah, meu caro Halbarad." Fingia-se de ofendido o astuto Hawk aproximando-se devagar do grupo. "Muito me entristece essa sua rejeição."

"O que quer, Hawk?" Indagou Halbarad incomodado com a maneira com que o sulista olhava para Legolas enquanto se aproximava. Em um leve movimento ele deu um passo para o lado colocando-se na frente do amigo protetoramente no exato momento em que o opositor estava a um passo dele.

Hawk lançou um olhar cínico para o antigo líder e disse:

"Não tenho mais assuntos para tratar com você, caro Halbarad. Meus assuntos são com o príncipe de Mirkwood e ainda não estão resolvidos."

"Eu não sou o príncipe de Mirkwood." Retrucou Legolas tentando não demonstrar o receio que sentia pelo total estado de vulnerabilidade em que ele e os amigos se encontravam, agora que o grupo de arqueiros os estavam cercando.

"Não é?" Disse Hawk encarando o príncipe por cima do ombro de Halbarad que ainda estava entre os dois. Em seguida colocou pacientemente a ponta de sua lâmina afiada no estômago de Halbarad enquanto o fazia a contra gosto sair de seu caminho. Um dos arqueiros puxou o líder dunedain para perto dele colocando então uma adaga em seu pescoço ameaçadoramente. Legolas não teve tempo para reagir. Idêntica ameaça foi direcionada a Fowler poucos instantes depois, mas o menino não reagiu da mesma forma pacífica de seu líder, sendo então segurado pelos cabelos por dois integrantes do grupo que não demonstravam compartilharem da paciência de Hawk e seu irmão.

"Deixe ele em paz, Hawk!" Disse Legolas preocupado enquanto via o menino se debater nos braços que o seguravam.

"Diga que se comporte e não faremos mal a ele, príncipe." Insinuou a voz irônica do arqueiro do sul.

Legolas voltou-se para o rapaz que sacudia os braços e pernas apavorado. O pobre menino não tinha um momento de paz há muito tempo. Ameaças, perigos e incertezas faziam dele uma criança assustada agora.

"Fowler!" Disse então o elfo atraindo a atenção do jovem para si. "Está tudo bem. Nada vai te acontecer."

O menino fixou olhos desesperados nos do amigo. Lágrimas os faziam parecer irreais e o coração de Legolas sofria ao ver os sentimentos que estavam por trás daqueles olhos.

"Eu prometo." Disse por fim.

"É claro." Hawk aproximou-se do príncipe segurando-lhe uma das tranças. "Acho que o príncipe já está disposto a nos ajudar não é, majestade?"

Legolas olhou o inimigo com o canto dos olhos sem se voltar. Suas feições não se modificaram.

"Eu não sou mais um príncipe, Hawk. Desista de mim."

"Ah..." O tom do inimigo mudava completamente enquanto este se colocava frente a frente com Legolas agora. "Eu faço idéia do que aquele arrogante rei que se diz seu pai lhe fez. Por que vergonhas ele lhe fez passar agora, meu príncipe? Por que humilhações?"

Legolas desviou seu olhar. Ele sabia o quão bom Hawk era naquele jogo, mas não ia ceder.

"Ele não te quer como filho, meu príncipe. E você sabe disso. Ele tem medo de que o sofrido povo de Mirkwood lhe queira no lugar dele. E porque não iriam querer? Você é bom e gentil enquanto ele é presunçoso e arrogante. Você se preocupa com eles enquanto ele os manda para a morte. Você tem amigos em Imladris e Lothlorien que podem ajudá-lo, ajudar a todos, enquanto o orgulho de Thranduil os fazem passar fome."

"Meu povo não passa fome!" Indignou-se o elfo. O arqueiro sulista não pode disfarçar a surpresa e o ligeiro temor que a voz de Legolas que nunca adquiria esse tom lhe causara.

"Isso, majestade." Retomou Hawk tentando disfarçar seu embaraço. "Se usar esse tom, convencerá a todos..."

"Hawk, pare! Não vai conseguir" Advertiu Legolas olhando agora o inimigo nos olhos. Hawk não conseguia entender de onde tinha surgido tanta coragem. "Esqueça de mim! Eu sou um servo de Mirkwood."

"Servo? É sim... eu posso ver" Confirmou o outro segurando agora uma das tranças do príncipe com força. "E aceita isso? Que tipo de elfo você é? Não tem amor próprio? Aceita a injustiça dessa forma? Aceita a humilhação daquele..."

"O rei é meu pai!" Interrompeu o príncipe. Uma angústia soava em sua voz enquanto ele tentava a todo custo retomar sua calma habitual, mas o tom de suas palavras denunciava o desespero que sentia no momento já que estava sem forças para lutar se fosse preciso. "Por que quer lhe fazer mal? O que quer com o reino de Mirkwood? Estamos em guerra, cercados e estamos sofrendo."

As feições de Hawk se apaziguaram novamente e ele aproximou-se do príncipe segurando-lhe o rosto com ambas as mãos e olhando-o nos olhos.

"Então, Legolas? E você gosta disso? E se eu lhe disser que posso acabar com toda a dor de nosso povo? Todo o sofrimento? Não vai haver mais dor, Legolas." Ele disse numa voz que parecia não lhe pertencer, trazendo sensações de paz e criando imagens de alegria na mente do prisioneiro a sua frente. Era um jogo bastante fácil para ele, munido que estava das armas certas. "Não vai haver mais dor para nosso povo."

Os olhos do príncipe se encheram de lágrimas como se uma mão estivesse segurando-lhe o coração. O tom de Hawk era convincente demais. Algo naquela voz penetrava-lhe as entranhas e ele não conseguia deixar de imaginar como seria se tudo aquilo fosse verdade. Se o povo de Mirkwood pudesse novamente ter a oportunidade de admirar as flores, de contar os ramos dos troncos das árvores, de se deitar sob as estrelas. Por alguns instantes ele quis acreditar. Mas sabia com quem estava lidando.

"Eu não posso te ajudar, Hawk. Deixe meu povo em paz. Não temos muito valor nos dias atuais."

As feições do sulista se distorceram numa agonia de quem recebe uma punhalada pelas costas. Ele não entendia porque sua investida não estava convencendo o elfo. Tudo estava saindo exatamente como ele e seu mestre tinham planejado, mas a parte final, a sedução, a corrupção da alma do príncipe de Mirkwood que o mestre lhe garantira efetivar-se não ocorrera.

"Você vai ter que nos ajudar, meu amigo. Ou outros vão sofrer." Ele sorriu ironicamente olhando para Halbarad e Fowler, sua segunda opção, ameaçados pelas adagas de seus companheiros.

O rosto de Legolas perdeu o resto de cor que lhe restava. Ele sabia que essa seria a segunda hipótese. Tantos inimigos ele já enfrentara e, apesar de diferentes, todos finalizavam seus golpes com a mesma ameaça. O príncipe balançou a cabeça inconformado. Por mais voltas que o mundo desse, por mais lugares que andasse ou onde tentasse se esconder parecia inútil, ele sempre cairia nessa armadilha e sempre teria que sacrificar alguém a quem amava.

"Faça o que tiver que ser feito, Hawk." Ele disse por fim causando um estranhamento na figura a sua frente. "Eu não vou trair o meu rei, eu não vou trair o meu pai."

O sorriso de Hawk se desfez. O príncipe não podia estar falando sério. Ele não permitiria que alguém como Halbarad ou Fowler fossem mortos para proteger um ser insuportável como Thranduil. Ele não o faria.

"Eu não acredito em você."

"Perde seu tempo então."

"Matarei o menino primeiro." Ameaçou o sulista agora demonstrando sua insatisfação.

Silêncio.

"Farei com que ele sofra." Adicionou Hawk inconformado.

Legolas fechou os olhos e o coração. Ele sabia que se isso acontecesse a última parte dele morreria junto com seus amigos. Ele não suportaria.

"Eu o torturarei. Falo sério Legolas!"

Silêncio.

"Mate o menino." Disse então Hawk num rompante, afastando-se e segurando Legolas com força voltando-o para a direção dos amigos. Estava clara sua intenção. Ele faria com que o príncipe assistisse a cena. Primeiro Fowler, o mais jovem. As crianças sempre foram as melhores peças nesse jogo de corrupção. Depois de assistir ao menino agonizar ele apostava que o príncipe faria o que fosse preciso para não ser obrigado a presenciar qualquer outra cena cruel. Provavelmente não teriam que matar Halbarad. Não agora. Legolas quis se desprender das garras que o seguravam, mas não conseguiu. "Delicie-se," Disse Hawk sedutoramente no ouvido do prisioneiro enquanto o segurava por trás. "Um dia aprenderá a gostar."

"Não! Não!" Gritou Fowler arregalando muito os olhos e sendo obrigado a ficar de joelhos enquanto um dos homens de Hawk erguia uma grande espada e a encostava em seu pescoço. Halbarad a direita debatia-se. Cinco homens agora o seguravam enquanto ele gritava ameaças. "Não, por favor!" Chorava o pequeno Fowler com a cabeça encostada no chão. Squirrel!! Não me deixe morrer, por favor!"

Legolas apertava os olhos balançando levemente a cabeça enquanto Hawk se deliciava com os tremores que corriam por todo o corpo do príncipe. Quanto mais até que ele cedesse?

"Não perca seu tempo, criança." Dizia o sulista deslizando a ponta de seu nariz pelo rosto de Legolas enquanto sua mão passeava despreocupadamente pelo peito do príncipe. Ele estava apreciando aquela sensação de pavor e desespero que vinha do corpo que segurava agora e se permitia deixar a mente vagar imaginando as outras deliciosas torturas as quais submeteria o belo Legolas depois de tudo acabado, quando o tivesse como prêmio por sua devoção, conforme seu mestre lhe havia prometido.

"Squirrel..." Chorava o menino mais alto agora. "Squirrel por favor..."

"Ele não vai ajudá-lo. Ele prometeu não é mesmo? Mas o que é uma mera promessa?"

Legolas apertava os punhos. Todas as lembranças amargas voltaram até ele. Os elfos de seu grupo torturados e mortos em sua frente porque ele se recusara a revelar a seus raptores a entrara secreta de seu reino, os criados mortos, o povo inocente... Quando aquilo ia ter um fim? Ele se perguntava sentindo as lágrimas rolarem por seu rosto agora. E a que preço?

"Não entendo, meu príncipe." A voz de Hawk se revelava ainda mais cruel enquanto ele encostava os lábios na orelha esquerda do elfo. "Você sabe quantos de nós estão nesse momento atacando seu grupo? Quantos de nossos animais e homens estavam escondidos em emboscada só para esse missão? Acredita que éramos apenas aqueles infelizes que seu pai por sorte assassinou? Somos muitos. Somos invencíveis. Eles não têm a menor chance. Estão todos mortos e você, queira ou não, é o novo líder de Lasgalen agora".

Legolas encheu os pulmões do ar que lhe faltava. Aquilo era um blefe. Só poderia ser. Ele não iria ceder.

"Posso acabar com o garoto?" Indagou impacientemente o soldado segurando Fowler que agora desistira de seus pedidos de clemência e chorava baixinho voltando a chamar pelo nome do irmão.

"Dê a ordem, meu príncipe!" Pediu Hawk colando seu corpo ao de Legolas ainda mais. Ele queria sentir tudo o que se passava com o príncipe, todos os sentimentos de agonia, de desespero, de vulnerabilidade, toda a dor. "Posso matar o menino?"

"Hawk... Por favor... Ele é só uma criança..." Pediu o príncipe sentindo seus joelhos fraquejarem agora que ele tentara escutar a sua volta e percebera, pelo silêncio que se formara que a possibilidade de Hawk ter dito a verdade realmente existia. E se seu pai estivesse morto? E Aragorn, os gêmeos, Skipper? Imagens horríveis vieram assolar seus pensamentos ao imaginar-se sozinho definitivamente à mercê de um mal que ele não conhecia.

"Eu não vou dar a ordem. Você vai, Legolas. Você." Insistia incansavelmente o tom sarcástico do inimigo.

Legolas fechou os olhos e mais lágrimas escorreram por suas faces. Não havia saída. Ele só podia desejar que soldado com a espada fosse clemente e fizesse da morte do rapaz uma ocorrência rápida.

"Perdoe-me, Fowler." Ele disse então. Mas as palavras não lhe consolaram.

"Não chore, meu príncipe." Instigou Hawk deslizando sua língua pela face esquerda do elfo lambendo as salgadas lágrimas que caiam. Legolas enojou-se e sacudiu o corpo tentando soltar-se, mas os braços fortes do arqueiro do sul o tinham exatamente onde ele queria e não pareciam dispostos a lhe dar qualquer chance. O sangue do jovem elfo ferveu diante de todo aquele sadismo e a amarga mistura de sofrimento e indignação queria levá-lo a loucura. Ele não podia crer que um elfo fosse capaz de tamanha crueldade.

O silêncio se refez mais angustiante e Hawk finalmente deu um sinal para o soldado que levantou a arma.

"Lembre-se disso, príncipe. Esse só vai ser o primeiro até que você nos ajude."

A espada brilhou erguida durante mais alguns segundos, segundos cruéis e povoados de desespero, para finamente descer seca e rapidamente. Legolas fechou os olhos e só ouviu o barulho do cair de um corpo. Fez-se mais um silêncio muito pior do que o que se fizera antes e ele sentiu finalmente Hawk libertá-lo, mas não teve coragem de abrir os olhos caindo de joelhos no chão frio, deixando-se dominar pela fraqueza que sentia. Sua mente desistira de pensar, seus sentidos o deixavam e todo o pouco de esperança que lhe restava esvaiu-se. Ele não ouvia nada a sua volta, não sentia nada, seu espírito enfraquecido parecia ceder finalmente ao abraço de Mandos.

"Legolas!" Uma mão pousou no seu ombro. "Legolas! Olhe para mim!"

O arqueiro abriu os olhos confuso e encontrou novamente o rosto de Halbarad que estava agora ajoelhado a sua frente. Legolas procurou traços de tristeza e desespero nas linhas cansadas do rosto do velho guardião, mas não os encontrou. Ao contrário daquilo, dentes amarelos lhe sorriam enquanto a mão em seu ombro o sacudia levemente.

"Está tudo bem, menino." Garantiu-lhe o amigo mais uma vez. Seus lábios se moviam e Legolas entendia aquela voz, compreendia as palavras, mas elas não faziam sentido. Foi quando o elfo percebeu o que seus sentidos adormecidos estavam tentando lhe negar: A volta deles algo muito maior estava acontecendo, um grande campo do batalha se formava. Vários elfos enfrentavam o grupo de Hawk. Espadas brandiam, flechas voavam e gritos ecoavam. Era uma batalha feroz.

O queixo do príncipe caiu enquanto ele virava a cabeça em todas as direções não se importando com a dor que isso lhe causava. O que havia acontecido? Seria aquilo real ou um delírio de seu espírito cansado.

Voltando-se enfim para sua direita ele viu o jovem Fowler, o rosto do menino estava manchado pelas lágrimas que derramara e ele ainda soluçava levemente. O desespero o deixara, mas traços da dor que o menino enfrentara ainda eram visíveis em suas feições embora ele parecesse bem. Um pouco atrás dele o soldado que tencionava matá-lo jazia no chão com uma flecha no peito.

"Me perdoe, Fowler." Disse então o príncipe ainda confuso, mas sentindo uma necessidade enorme de proferir aquelas palavras naquele momento, antes que tudo fosse transformado em algo além, antes que o destino lhe roubasse alguma coisa mais. Legolas não entendia o que se passava e estava com medo.

Fowler tentou sorrir. Seus olhos demonstravam que ele entendia os motivos de Legolas, entendiam o que era ter um pai e a ele honrar. Mas o sorriso não surgiu e lágrimas caíram pelo rosto do menino que se abraçou ao amigo com força enterrando o rosto em seu peito.

"Eu chamei por ele." Disse a voz abafada do rapaz. "Eu chamei por Glower... e você surgiu."

Legolas fechou os olhos e apoiou o rosto por sobre a cabeça de Fowler enquanto o abraçava mais forte agora. Ele lamentava profundamente o que tinha feito. Ele lamentava não ter podido fazer o papel do irmão do menino daquela vez.

"Me perdoe, meu amigo." Ele repetiu baixinho desprendendo os lábios banhados de lágrimas e respirando aquele ar de guerra que se instaurava. "Me perdoe por não poder ser como seu irmão."

"Meu irmão você sempre vai ser Squirrel." Respondeu rapidamente o menino erguendo-se um pouco e olhando o amigo nos olhos. Ele sentia o quanto aquela atitude estava pesando sobre os ombros do já tão abatido elfo e não queria transtorná-lo mais.

Legolas ergueu os cantos dos lábios num ensaio de sorriso que não se concretizou. Tanta coisa ele queria dizer, mas não conseguia. Seu corpo tremia, sem entender o que acontecera. Sem entender o que se passava. Ele voltou a olhar a sua volta e finalmente percebeu algo: Aqueles não eram elfos de seu pai, não eram elfos de Mirkwood.

"O que... quem..." Ele balbuciava uma pergunta que não conseguia formular.

"É Halbarad." Indagou Fowler se encostando novamente em Legolas e sendo envolvido em um abraço enquanto os três permaneciam no chão. Estavam desarmados e a luta não parecia ter possibilidades de durar muito mais diante da superioridade do número de elfos que surgiram. "Quem são eles?"

Halbarad sorriu observando uma figura conhecida se aproximar.

"Amigos, Fowler." Respondeu o guardião levantando-se e fazendo uma longa reverência para o guerreiro a sua frente. Legolas ergueu o rosto e não acreditou na visão que teve.

"Olá, criança!" Agachou-se diante dele a última pessoa que ele esperava ver.

"Meu mestre." Ele balbuciou. "Lorde Elrond."