Olá.!! Como estão as coisas?

Não vou me estender muito já que esse capítulo está saindo quase colado ao outro. Alguns nem tiveram tempo de revisar o anterior e espero que ainda o façam mesmo lendo esse.

Eu ia esperar um pouco mais, sempre gosto de dar tempo para o pessoal digerir o que escrevo e também ler as outras fics fabulosas que estão na net. Mas como esse capítulo é uma espécie de "divisor de águas", uma separação na história que vai agora tomar outros rumos eu julguei que fosse melhor postá-lo logo.

Vale para este, no entanto, o mesmo pedido que fiz no anterior. Por serem capítulos muito densos acabei achando que ficaram carregados... Qualquer coisa que não gostem ou queiram comentar por favor escrevam.

Estou tento problemas para postar... a fanfic come alguns acentos e junta palavras. Tentei arrumar. Se houver mais algum detalhe por favor me escrevam. Obrigada por me ajudar Myri!

Agradecimentos mais rápidos já que escrevi esses dias.

Às grandes autoras:

Lady-Liebe - Excelentes short-fics

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Ainda espero ansiosamente

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" cuja maravilhosa versão original do capítulo passado foi postada. Obrigada!!

Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Minhas fabulosas "crônicas se cabeceira"

Vick Weasley: "BITTERSWEET" e "O VINGADOR". Textos muito convincentes e comoventes.

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" . Suspense e mistério. Muito boa de verdade.

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Espero ansiosa uma atualização.

Kika-Sama: "APRENDENDO". Nova fic com uma visão dos personagens muito bela de fato. Me apaixonei. Vale a pena ler. Aproveitem por que está no capítulo 2 apenas.

Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" – Leiam. Vale a pena.

E às amigas

Kagura Bakura – Estou esperando sua opinião

Regina – Espero que goste desse capítulo também.

Botori – Também espero sua opinião.

Leka – Obrigada pela review. Você tem razão. O Elrond é o maior!

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – Obrigada pela review. Cadê sua fic?.

Agora vamos novamente para a fic. Será que muitos ventos fortes ainda vão soprar até que os nossos amigos encontrem alguma paz?

23

A escuridão dominava todo o lugar. Um vento frio passava por entre as pequenas frestas que serviam de janelas enquanto Elrond caminhava por aqueles corredores aguçando olhos e ouvidos como um gato selvagem. Sua silhueta era uma sombra que parecia fazer parte daquelas paredes escuras. Os soldados de Thranduil estavam em quase todos os lugares e ele precisava ter cuidado. Sua astúcia e movimentos quase imperceptíveis o tinham ajudado até então, mas não podia contar só com eles daqui para frente.

Ele já havia passado por vários cantos, celas escuras tinham sido vistoriadas, lugares vazios, ambientes medonhos e não encontrara o príncipe. Virando um dos corredores ele então avistou uma dupla de elfos guardando uma velha porta de madeira que o fez franzir os olhos com desconfiança. Havia guardas na entrada da masmorra aos quais ele conseguira burlar, havia alguns nos corredores também, mas aqueles eram diferentes. O ar em suas faces era de puro pesar e consternação. Eles mantinham as cabeças baixas e as mãos apoiadas nas espadas que pendiam em seus cinturões. Não restou dúvida para o lorde de Imladris de quem estaria por trás daquela porta. Alguém que provavelmente era amado demais para estar ali, mas estava.

Elrond olhou a sua volta. O ambiente não favorecia nenhuma manobra evasiva. Para passar por aquela porta ele teria que enfrentar os elfos, ele teria que feri-los e isso estava fora de cogitação, mesmo porque ele não tinha esperanças de conseguir tirar o menino dali por mais que quisesse. Resgatar Legolas naquele momento seria como tentar tirar uma pedra pequena debaixo de outras muito maiores, e ele não estava em condições de enfrentar a avalanche que isso acarretaria.

Aquela era a pior questão que a diplomacia lhe impunha e nessas horas ele quis muito ser como Thranduil e simplesmente arriscar, por ódio, por amor, por desejo, por vontade, pelo que quer que fosse. Ele quis muito não ser quem era, não conhecer tudo o que conhecia, não ser capaz de prever o resultado de seus atos com tanta certeza, ele quis muito não ser Elrond de Imladris.

E esse pensamento povoou-lhe o coração adormecendo aos poucos a esperança que tinha de fazer algo no presente momento e forçando-o a dar as costas.

Cabisbaixo ele ainda deu alguns passos pelo caminho do qual viera, quando um frio repentino lhe tomou de assalto e ele sentiu um aperto em seu coração, uma dor ainda maior surgiu e uma imagem do passado lhe veio a mente.

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"Estel! Estel deixe o príncipe em paz, criança."

O menino corria sorrindo puxando o elfo pela mão.

"Ele vai me ensinar a atirar, ada." Gritou.

Legolas olhou para Elrond e ofereceu um sorriso, erguendo os ombros para atestar sua total vulnerabilidade frente às vontades do menino.

"Ele acaba de chegar, Estel".Disse o curador segurando o rapazinho pelo cotovelo e fazendo-o parar por alguns instantes. O pequeno humano olhou para cima e encarou o pai sorrindo. Quem poderia resistir àqueles olhos azuis? "Deixe-o ao menos falar com seus irmãos. Elladan e Elrohir vão ficar zangados com você se desaparecer com o amigo que eles não vêem desde a última estação."

"Vou chamá-los!" Decidiu-se então o pequeno dando a questão por resolvida. "Você os cumprimenta e podemos treinar, certo?" Ele determinou olhando novamente para Legolas, que lhe sorriu balançando veementemente a cabeça com mais força do que a necessária, de forma puramente proposital e divertindo-se muito ao fingir ser uma criança que recebe ordens. Ele adorava passar seu tempo com o pequeno Estel.

O menino desapareceu gritando os nomes dos irmãos. Elrond sorriu largamente, mas quando se voltou para o visitante deparou-se com um olhar estranho vindo do jovem elfo de Mirkwood. Um olhar que ele não conseguia decifrar.

"Poucas foram as vezes que vi o senhor sorrindo assim." Afirmou o príncipe baixando os olhos ao encontrar os do anfitrião. "Estel parece lhe fazer um grande bem."

Elrond franziu levemente a testa. O comentário do príncipe continha mais incógnitas em seus vazios do que em suas palavras.

"Filhos sempre nos fazem um grande bem, Legolas." Ele respondeu ainda com um leve sorriso.

"O senhor é um bom pai... de bons filhos." O rapaz simplesmente adicionou, num estranho diálogo que parecia mais voltado para si mesmo. "Com sua licença". Ele pediu depois dando as costas ao lorde de Rivendell e se afastando em direção ao cavalo, a fim de pegar os pertences que trouxera para sua estadia em Imladris.

Elrond ainda observou o jovem arqueiro por mais alguns instantes enquanto ele separava a pouca bagagem que trouxera. Legolas não se assemelhava em nada a seus filhos, mas a originalidade de sua personalidade era um traço marcante. Ele sentia muita simpatia pelo filho do rei de Mirkwood.

"Thranduil não se aborreceu com sua viagem?" Arriscou o lorde. Um curador eficiente tentando encontrar o ponto específico da dor.

O jovem elfo ficou parado em frente ao animal. Suas mãos permaneceram onde estavam como se ele tivesse medo de se mover.

"Ele não sabe que estou aqui. Não quis incomodá-lo com detalhes." Respondeu receosamente sem se voltar. "Disse que iria aproveitar meus dias de folga para fazer uma expedição à cascata do norte."

O sorriso do anfitrião desapareceu.

"Admiro-me da capacidade que tem de criar uma mentira tão plausível, meu amigo. Enganar Thranduil não é uma tarefa fácil. Porém tal habilidade não é muito específica do nosso povo."

Legolas voltou-se subitamente. Olhos arregalados, rosto pálido e lábios ligeiramente entreabertos. Tudo o que ele mais temia era ferir sua imagem diante de lorde Elrond, um elfo a quem muito admirava.

"Senhor eu…"

Mas o curador aproximou-se e colocou uma mão em seu ombro paternalmente. Olhos pacientes e solidários agora.

"Ainda não tive a necessidade de me fazer esconder atrás de uma inverdade, plausível ou não, e espero não ter, criança. Mas eu conheço seu pai. Você não me deve satisfações. Só quero que saiba que Rivendell é aberta para você e sempre será."

Legolas deixou cair os ombros aliviado e voltou a olhar o curador a sua frente, soltando um leve suspiro. Era a primeira vez que ambos conversavam sobre um assunto mais íntimo e o príncipe se admirava em ver com que franqueza as palavras simplesmente saiam de sua boca em frente ao elfo de Rivendell. Ele não conseguia mentir para Elrond.

"Mirkwood é o lugar mais triste de toda Arda, senhor." Ele disse admirando-se novamente pela sinceridade que lhe escapava. "Mas é meu lar. Eu só agradeço a Iluvatar por me proporcionar a oportunidade de me lembrar do que é belo quando venho a Imladris."

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Elrond fechou os olhos afastando aquelas recordações de sua mente. Ele não podia dar simplesmente as costas àquele rapaz como se nunca o tivesse visto, como se ele não fosse ninguém. Virando-se voltou a encarar o desafio que tinha a sua frente e decidiu tomar uma atitude não muito sensata, mas que talvez surtisse um resultado positivo. Decidiu fazer o que dissera nunca ter feito até então. Esconder-se atrás de uma inverdade. Ele então se deixou ver no corredor caminhado a passos largos na direção dos elfos que já estendiam suas armas.

"Paz, soldados".Disse o mestre erguendo ambas as mãos. "Estou aqui como curador".

Os elfos olharam apreensivos, mas o tom de voz daquele elfo de cabelos escuros e olhos profundos pareceu apaziguá-los.

"Estou desarmado. Não lhes ofereço nenhum mal. Trago algumas ervas para tratar do príncipe de Mirkwood".Arriscou então o lorde elfo confiando em seus instintos.

"Não fomos informados".Disse um dos elfos olhando Elrond com desconfiança. O curador mal conseguiu disfarçar o seu alívio ao ver que estava certo, que encontrara o príncipe. "O senhor é um dos hóspedes do rei, não é?".

Elrond sorriu amavelmente escondendo suas intenções e dúvidas por trás daquele sorriso. O silêncio foi sua resposta.

"Não podemos permitir que ninguém entre".Surgiu então uma voz no final do corredor. O curador voltou-se para aquela direção e viu aproximar-se devagar um elfo, cujo rosto ele só pôde distinguir quando estava a alguns passos dele. Era o mesmo elfo que tinha carregado Legolas a pedido do rei.

"Alagos, não é mesmo?" Indagou Elrond.

O rapaz surpreendeu-se pelo lorde lembrar-se de seu nome.

"Lorde Elrond".Disse ele demonstrando preocupação. "Não sei como o senhor conseguiu chegar até aqui. Mas se me acompanhar de volta a seus aposentos eu lhe prometo não informar ao rei nada a respeito disso".

Elrond centrou seus olhos nos do louro amigo de Legolas. Ele se lembrava do príncipe falar a respeito dele algumas vezes.

"Só preciso de alguns instantes".Tentou mais uma vez. Não podia desistir assim tão perto como estava.

"Impossível, senhor".

"Só me diga então, jovem Alagos, por favor".Pediu o lorde diminuindo mais a distância entre os dois enquanto ainda sondava a mente do elfo com seu olhar. Ele sentia o conflito habitar o espírito do rapaz, ele sentia a revolta, o desejo de ajudar. "Como está Legolas?"

"Não sou autorizado a vê-lo, senhor. Ele não pode receber visitas." Respondeu o outro com amargura segurando levemente no braço do curador. "Por favor, me acompanhe."

Elrond franziu as sobrancelhas inconformado.

"Ninguém o vê?" Admirou-se não cedendo a leve pressão que o elfo lhe impunha agora.

"Apenas o soldado que lhe leva comida." Completou o capitão tentando desviar seu olhar do lorde elfo a sua frente. Um sentimento de culpa estava expresso em todas as linhas de seu rosto e Elrond as lia bem. "Todos os dias mandamos um elfo diferente para que o príncipe não se habitue a essa companhia. São ordens do rei."

"E o que esses elfos falam do príncipe?" Indagou o curador procurando disfarçar sua inquietação e indignação.

Alagos olhou para os dois soldados que baixaram as cabeças. Um sentimento de total repulsa parecia corromper-lhes o espírito. Elrond abriu sua mente para que aquelas estranhas sensações se unissem em algo que fizesse sentido e pôde perceber que o ambiente lhe era mais favorável do que parecia. Ele precisava se aproveitar dessa descoberta o quanto antes.

"Alagos. Eu sou apenas um elfo. Que mal posso fazer? Deixe-me apenas ver como ele está. Permita-me ajudar seu amigo."

O capitão olhou mais uma vez para seus elfos cujos olhares pareciam suplicar que o rapaz atendesse àquele pedido.

"O senhor tem idéia do que vai me acontecer se o rei souber?" Indagou então o líder apertando um pouco mais o braço que segurava. Mas Elrond sentia que não havia violência naquela atitude, apenas um sentimento de revolta diante da situação em si.

"Sim. Respondeu o curador balançando solenemente a cabeça em sinal de compreensão. "É um risco."

"Não maior do que todas as vezes que ele se arriscou por nós, Alagos." Disse finalmente um dos elfos à porta. O rapaz tinha um tom aflito em sua voz, que fazia clara a idéia de que príncipe realmente era tão bem quisto dentro de suas terras quanto fora delas.

O capitão largou então o braço que segurava e esfregou a face com uma das mãos, encostando-se em seguida na parede fria. Elrond olhou-o com mais atenção. O peso de uma decisão importante pressionava o peito daquele elfo e algo maior também o incomodava. O curador esperava por uma resposta sobre o que seria. Ele sabia que ela viria. A verdade fazendo seus caminhos para se fazer visível.

"Legolas não quer comer, senhor." Disse por fim o rapaz dando voz a seu desespero. Não se levanta do canto escuro onde está... E ontem…" Ele baixou os olhos e sua agonia se transformou em lágrimas. Elrond aproximou-se e segurou-o pelos braços, suas mãos de curador traziam um pouco de paz para aquele ser em agonia. "Ontem ele se deixou atacar pelos ratos… se o elfo que foi buscar seu prato de comida não chegasse l"

Elrond fechou os olhos e soltou os braços chocado. Um vazio mortal se fez e a respiração dos presentes tornou-se o som mais forte.

"Nosso elfo disse que o príncipe não o deixou ajudá-lo..." Disse um dos soldados atrás de Elrond. O curador voltou-se para ele. Os olhos do rapaz tinham a mesma expressão triste da de seu capitão. "Então tudo o que podemos fazer é evitar deixarmos a comida com ele agora." Ele lamentou baixando a cabeça com pesar e apertando mais a espada na qual apoiava as mãos. "É porque o rei não nos permite mandar algum amigo, todos os elfos que se aproximam do príncipe não podem tê-lo conhecido. São normas... normas... E Legolas tem receio... ele..."

Não havia mais o que ser dito e as imagens do que fora e do que poderia vir a ser passaram a incomodar aquele elfo de uma forma insuportável, calando-o como uma fria mordaça. O amigo ao lado tentou confortá-lo segurando levemente seu braço. Ambos agora olhavam para o capitão do grupo esperando por uma decisão muito importante.

Alagos respirou fundo e dirigiu-se meio transtornado até a porta.

"Eu vou abrir, senhor." Ele disse decidido. "Há um lampião na parede, o senhor pode carregá-lo. Precisarei fechar a porta novamente, por isso preciso que bata quando voltar. Tome cuidado com os degraus."

"Degraus?" Indagou Elrond tentando confirmar o que seus ouvidos captaram.

"Sim, senhor. Há uma escada com alguns degraus e eles são muito curtos e traiçoeiros. Essas malditas masmorras nunca mais foram usadas".O elfo mostrava pela primeira vez sua opinião claramente. Aquele lugar abandonado nunca deveria ter sido aberto, muito menos para aprisionar o elfo a que fora destinado.

"Não posso crer…" Disse Elrond ainda tentando acreditar. "Existem janelas iguais a essas lá embaixo?" Indagou apontando para as pequenas passagens acima, pelas quais um pouco de luz da superfície entrava teimosamente oferecendo algum conforto ao lugar. Ele temia a resposta.

Os três elfos voltaram a se encarar percebendo o quão bem o lorde de Imladris conhecia seu príncipe. O silêncio deles, porém, veio como a confirmação de uma situação que Elrond sequer conseguia conceber. Thranduil havia aprisionado o filho em uma cela sem janelas.

"Por favor." Disse o líder de Rivendell num rompante se colocando prontamente em frente à porta. Alagos ainda olhou para seus elfos mais uma vez e depois abriu a passagem observando Elrond passar suavemente por ela e trancando-a em seguida. Ele só podia pedir a Iluvatar que ninguém ficasse sabendo dessa profunda traição.

&&&

Elrond desceu as longas escadas cujos degraus estreitos pareciam dar a lugar algum. Ao chegar finalmente ao último e tortuoso obstáculo, ele ergueu o lampião e encontrou a sua frente um outro corredor subterrâneo mais antigo.

"Ele não fez isso." Disse o elfo para si mesmo inconformado. Aquele lugar era mais tenebroso do que imaginava. "Ele não trouxe o filho para um pesadelo desses."

Thranduil não parecia realmente querer apenas aprisionar o filho, ele o estava querendo esconder, guardá-lo como quem guarda um tesouro muito valioso que pode ser roubado a qualquer momento. Mas até quando ele pretendia fazê-lo? E como julgava que o menino fosse encontrar forças para tamanho desafio? Elrond balançava a cabeça ao analisar essas idéias, ao perceber que o amor pode ferir tanto ou até mais do que o ódio.

Caminhando a passos rápidos o curador foi iluminando todos os cantos, olhando dentro daquelas celas escuras, surpreendendo criaturas que corriam tão rapidamente que sequer conseguiam ser identificadas, até chegar à última cela. A porta estava entreaberta e uma total escuridão imperava em seu interior. Elrond teve um leve calafrio, a preocupação que sentia parecia estar-lhe inibindo os sentidos e ele não conseguia prever o que encontraria. Idéias amargas vieram perturbar-lhe enquanto ele caminhava a passos curtos agora, tentando ouvir se algum sinal de vida escapava daquele abismo escuro.

Foi quando um som surgiu nitidamente. O lorde elfo sacudiu levemente a cabeça como se sentisse que o ar pesado o estivesse corrompendo, adormecendo sua sanidade. Mas não. Seus sentidos trabalhavam bem. O que ele ouvia era realmente uma canção. Doces melodias escapavam por aquela porta, deslizavam pelas paredes e atingiam em cheio seu coração. Legolas estava cantando. E quando aquela voz se fez mais clara e as palavras ganharam seu sentido o mestre, ainda surpreso, pôde perceber um detalhe maior. Aquela não era uma canção qualquer, era uma antiga canção que falava sobre a Eärendil. O lorde elfo admirou-se mais ao lembrar-se de que aquela era uma canção que seus pais cantavam, uma canção do início de tudo, uma canção na qual a estrela ainda era chamada de Gil-Estel, a estrela das grandes esperanças, esperanças essas que sempre povoaram os corações dos elfos desde que o primeiro beijo dera vida a todas as coisas.

Perdido como estava em seus devaneios, o curador nem percebera que havia parado em pé no corredor, permitindo-se invadir por aquela doce voz que ecoava por todo o lugar como uma brisa sem destino, e que, apesar de vinda de uma criatura tão torturada, parecia acalentar seu coração. Ele se deixava levar por recordações do passado, lembranças dos pais, de um mundo diferente onde a raça élfica ansiava por seu futuro. Um mundo distante agora.

Elrond soltou um grande suspiro tentando não só espantar aquelas lembranças, mas também o receio do futuro incerto que se armava diante dele agora. Ele deu mais alguns passos e parou diante da porta, mas a canção desapareceu assim que a luz iluminou o lugar. O lorde sentiu a tristeza voltar a abater-lo quando a agradável melodia cessou, e ele dançou levemente o lampião dentro da cela escura sem nada conseguir enxergar. Foi quando então a luz encontrou seu afim, outra luz retribuiu seu brilho como duas crianças que se acenam felizes. Eram os fios dourados do cabelo de Legolas. O jovem estava encolhido num canto escuro, o corpo colado na parede, os braços em volta dos joelhos e os claros cabelos cobrindo-lhe todo o rosto. As tranças que o pai fizera ainda os adornavam trazendo uma sensação amarga ao lorde elfo.

Elrond aproximou-se devagar, mas preocupando-se em fazer ruídos, em se fazer notar, não queria assustar o prisioneiro. Como não percebeu nenhuma reação ele simplesmente se ajoelhou em frente dele tocando-lhe o ombro.

"Criança." Chamou em uma voz gentil.

Legolas assustou-se e ergueu a cabeça fixando seus grandes olhos azuis nos da alucinação que julgava ter ouvido. Mas não era uma alucinação, não era fruto de sua mente cansada. Elrond estava realmente ali.

"Me… Mestre?" Indagou o arqueiro.

Elrond sorriu o pior sorriso que dera em sua vida. Olhando o rosto marcado e as vestimentas manchadas de sangue do menino, a última coisa que queria naquele momento era sorrir-lhe.

O arqueiro quis retribuir o sorriso, mas seu rosto logo demonstrou preocupação.

"O senhor não devia estar aqui" Ele disse numa foz fraca, quase trêmula. "Como conseguiu?"

Mas o tempo era escasso e o curador queria cuidar do menino o quanto antes, por isso não respondeu, colocando apenas o lampião no chão e apanhando sua bolsa de medicamentos. O cantil de água que havia sido deixado para o príncipe foi então trazido para mais perto. Legolas olhou para ele com olhos de sede e seus lábios secos se entreabriram. O curador franziu a testa, mas em seguida trouxe a água para os sedentos lábios do arqueiro que se agarrou àquela oportunidade avidamente, bebendo em grandes goles e tossindo em seguida.

"Devagar, criança." Ele disse tentando afastar o cantil do jovem elfo que não permitiu, voltando a agarrá-lo e bebendo mais. Elrond ficou observando inconformado aquelas mãos marcadas e trêmulas segurarem o cantil como se sua vida dependesse dele e não entendeu. "Por que não bebeu, menino? Estava aqui o tempo todo." Aquela era uma pergunta para qual ele já tinha a resposta, mas queria trabalhá-la com o príncipe, ver como o rapaz sentia a situação na qual estava.

Legolas finalmente abaixou o frasco, entregando-o de volta ao curador e respirando fundo. Seu corpo tremia muito.

"Não estava aqui".Disse o príncipe voltando a abraçar os joelhos.

"Estava ali, criança".

"Não há nada aqui senhor. Só a escuridão".Foi a triste constatação que veio como resposta.

Elrond fechou os olhos, para abri-los em seguida.

"A escuridão não existe, criança. Ela é só uma cortina leve que te impede de ver o que está a sua volta, mas ela nada possui e de nada é capaz. Não pode impedir as coisas de existirem ao impedi-lo de vê-las".

Apoiando o queixo por sobre os joelhos o príncipe apenas olhava seu mestre, escutando as palavras como um bom aprendiz. Seus grandes olhos azuis fixos em Elrond faziam com que o curador sentisse o coração tamborilar no peito, e ele continha a todo o instante o incontrolável desejo de agarrar aquele menino e tirá-lo dali o quanto antes.

"Deixe-me ver seus ferimentos." Disse então segurando o rapaz e tentando fazê-lo soltar o corpo. Legolas relutou apertando mais os braços ao redor das pernas. Ele não queria que Elrond o visse como estava, não queria preocupar mais aquele elfo que já o tinha ajudado tanto. "Vamos, menino. O tempo não corre a nosso favor".Insistiu então o curador conseguindo finalmente que o rapaz cedesse e se encostasse à parede atrás dele, soltando as pernas e os braços. Elrond horrorizou-se ao ver o estado do menino. Várias feridas novas adornavam-lhe os membros, provavelmente seqüelas do ataque que sofrera na véspera. O ferimento no pescoço também permanecia aberto e parecia infeccionado agora. Ele não compreendia como o arqueiro, ferido como estava, ainda conseguia lançar-lhe aquele olhar vazio como fazia naquele momento. Elrond retirou algumas folhas verdes e as umedeceu colocando-as por sobre alguns ferimentos maiores e ouvindo leves gemidos do paciente enquanto o fazia.

Terminado o breve tratamento o curador ficou parado olhando o paciente por alguns instantes. Ferido como o rapaz estava, o melhor que ele poderia fazer seria dar-lhe algo para fazê-lo dormir e assim recuperar-se mais rapidamente, mas ele temia que essa medida pudesse deixá-lo vulnerável a qualquer ataque como o que acontecera na véspera.

Confuso por não saber como agir o elfo fechou os olhos amargurado sentindo novamente o tempo escorrer por suas mãos. Ele não podia ficar muito mais e não conseguia tomar o rumo certo da decisão que acalentaria seu espírito. Naquele momento, pela primeira vez em sua vida, ele desconfiava que tal decisão não existia. Quando abriu os olhos encontrou um par de cristais azuis fixos nele.

"O senhor tem que ir, não é?" Indagou Legolas numa voz triste, sabendo bem o que incomodava seu amigo.

Elrond esfregou as têmporas com as pontas dos dedos. Ele não queria demonstrar preocupação, mas não se reconhecia naquele momento, deixando o desespero dominar-lhe como não permitia há muitos anos. Ele já enfrentara inimigos poderosos, mas Thranduil, cujos passos eram de quase impossível previsão, transformava-se agora no senhor de seus pesadelos.

"Eu não posso ficar." Ele disse pensando na responsabilidade que tinha para com os amigos do príncipe. "Se o fizer arriscarei alguns amigos seus que me ajudaram a estar aqui."

Legolas desprendeu os lábios e tirou seus olhos do mestre parecendo tomar consciência de algo muito importante. Ficara claro para ele como o curador chegara até ali. Alagos e seus outros amigos o tinham ajudado.

"Tem que ir, meu senhor." Ele disse com veemência então. Os olhos firmes e as mãos cerradas em punhos de dor. "Por favor, não deixe que nada aconteça a eles."

Elrond contorceu levemente o rosto apertando os lábios e fechando os olhos. Lá estava Legolas preocupado novamente com a segurança daqueles a quem amava. Lá estava o rapaz escondendo seu sofrimento e disposto a tudo para salvar seus amigos. Por estas e outras razões o curador não compreendia como e por quê as sombras da dor sempre vinham perseguir essa nobre criatura. Ele segurou o rosto do príncipe com ambas as mãos. Não queria deixá-lo.

"Prometa-me que vai lutar, menino".Ele disse então olhando firmemente para o rapaz. "Prometa que não vai se deixar abater, que vai ser forte".

O arqueiro fechou os olhos sentindo as mãos quentes do curador em seu rosto frio. O frio já era uma constante para ele, ele sentia muito frio, frio por fora de seu corpo, frio por dentro de seu espírito. Ele sabia o que aquilo indicava.

"Esqueça-se de mim, meu senhor".Respondeu então libertando seu rosto das mãos que o prendiam e voltando a encolher-se em busca de um pouco de calor. "Eu já o coloquei em muitas situações difíceis, não quero fazê-lo de novo. Por favor, convença o rei a deixá-lo ir com seus filhos. Não há mais esperanças para mim, eu não quero mais que haja."

As mãos do lorde elfo permaneceram estendidas, mesmo sem tocarem mais o príncipe.

"Esperanças..." Ele repetiu num tom estranho que fez com que Legolas voltasse a olhá-lo mesmo sem desejar fazê-lo. Então se aproximou mais, olhos fixos nos do príncipe como se quisessem atingir sua alma, seus lábios se desprenderam numa espécie de transe e doces palavras começaram a fugir de sua boca.

Legolas virou levemente a cabeça tentando entender e sua mente cansada logo pôde reconhecer a canção. Era a mesma que ele cantava pouco antes do curador chegar, mas que na voz do mestre deixava de ser simplesmente uma canção, ela passava a ser um ensinamento cujo porquê estava tão claro para o príncipe como um dia de verão: Se eles ainda cantavam a canção de Gil-Estel, se ainda podiam se lembrar dela, era porque ainda havia esperanças de dias melhores.

Aquela mensagem que vinha através da doce melodia começou então a dominar os sentidos do príncipe, dizendo-lhe que sim várias e várias vezes. Mesmo no momento em que o ele começou a sacudir a cabeça com força, tentando fugir daquela certeza, a melodia continuava a lhe repetir o mesmo sim, um sim que refletia dentro dele também, o sim da esperança que não desistira de habitar-lhe o coração e agora parecia gritar de volta em resposta àquela canção.

Exausto, ele finalmente cedeu sentindo algo crescer dentro dele a afirmar-lhe que ainda havia um alguém ali que queria prosseguir. E lágrimas voltaram aos olhos daquele menino que julgava já ter chorado todas as suas. Legolas tentou contê-las, tentou conter o desespero que o estava abraçando, tentou amarrar o soluço que crescia em sua garganta, mas não pôde.

Foi quando a canção terminou e Elrond o puxou para si e o abraçou como nunca fizera até então. O abraçou com força, sem se importar com os ferimentos dos quais tratara, o abraçou como o príncipe desejou ser abraçado por seu pai inúmeras vezes e não foi. O elfo o manteve completamente em seus braços e o mundo todo se resumiu àquele lugar.

"Eu nunca vou deixá-lo." Ele disse então com o rosto encostado no topo da cabeça do rapaz. "Eu amo você, criança. Amo você, ion nîn."

E o arqueiro sentiu novamente o calor, aquele calor que ele julgava tê-lo deixado para sempre, substituído pelo amargo frio da queda, do sofrimento, da morte. Nos braços de Elrond ele voltou a viver, voltou a sentir que havia um caminho a seguir, uma esperança se abrindo como as flores vermelhas no jardim de seu pai. Ele sentia que ainda era amado e que podia amar também.

"Ada..." Ele deixou a palavra escapar-lhe dos lábios enquanto enlaçava seus braços em volta do curador mantendo-o mais próximo ainda de si.Tudo o que queria era que aquele calor não o deixasse, que ele não voltasse a sentir o frio tenebroso que matava seu espírito devagar. Ele queria ser alguém de novo.

E perdidos naquela luz que surgia entre eles os dois elfos não perceberam a outra luz que agora iluminava o ambiente. Elrond sentiu uma sensação estranha, como quando o vento norte sopra ruidosamente através das árvores do seu jardim anunciando a chuva que virá. Ele percebeu que algo acontecera e não era bom, e que a balança das emoções do pobre Legolas iria sofrer um novo desajuste, talvez o pior deles. Soltando o príncipe devagar ele o olhou com tristeza. O rapaz, envolto como estava naquele conforto do medo que se extingue, não havia notado a turbulência que o apanharia. Virando-se num instinto puro despertado pela inquietação repentina que sentira no curador, ele finalmente viu uma imagem que nem seus piores pesadelos lhe proporcionariam. Thranduil estava de pé, corpo ereto e olhos de ódio extremo. E aqueles olhos não estavam voltados para Elrond como em todas as outras vezes. Estavam voltados para ele.

Os lábios do príncipe quiseram se abrir, mas estavam selados, suturados pelo pavor, seu rosto perdeu a pouca cor que ganhara e o frio que a princípio apenas o incomodava agora vinha gelar-lhe todas as entranhas de sua alma.

"Ada..." Ele disse sem pensar, num instinto do filho que busca mostrar ao pai quem é, lembrá-lo do que queria ser esquecido.

Thranduil nem parecia respirar. Ele deu alguns passos e fez algo que nunca havia feito ou sequer desejado fazer. Ergueu a espada e a colocou no pescoço do filho, do filho que amava.

"Nunca mais." Ele disse numa voz sem dono. Era um eco apenas da verdadeira voz do rei. "Nunca mais você vai usar esse título diante de mim. Nunca mais quero ouvi-lo chamar-me assim, criatura dos meus pesadelos! Mal que me aflige! Espinho que me fere! NUNCA MAIS!"

E aquela confirmação se fez doença no coração do príncipe. O rei ouvira o que não poderia ser ouvido, o que não poderia ter sido dito, mas fora. E agora ele perdera sua última chance. Ele fizera o pai tão infeliz quanto ele mesmo era, ele passara o mal adiante. Eles se igualaram e isso seria a perdição dos dois. O caminho sem volta da separação.

Elrond, agora obrigado a encostar-se em uma das paredes pelos guardas que acompanhavam o rei, observava sem nada poder fazer. A mágoa escorria como cascata inundando todo o local e tirando o fôlego dos poucos presentes que se afogavam nela, sentindo-a umedecer-lhes as almas, inebriar-lhes os corações e as mentes, deixando a todos num estado total de abandono.

O cenário todo se transformou numa pintura de dor, na qual ninguém ousava se mover e onde todos respiravam como se não o fizessem. Uma corrente de um ar gélido pareceu entrar pela porta semi-aberta e o clima se fez mais funesto.

"Faça." Disse então a voz do príncipe que ecoou pela cela escura como se não fosse apenas um pedido, fosse uma ordem maior.

Ninguém a entendeu a não ser o alguém a quem a palavra fora destinada. Thranduil apertou mais o cabo da espada encostando-a na pele do pescoço do filho.

"Lave minha honra com meu sangue, meu mestre e senhor. Como eu lhe pedi em meu juramento." Disse o arqueiro deixando os joelhos apoiarem no chão e esticando mais o pescoço para favorecer o ato do rei. Ele percebera que Thranduil lia a sinceridade em seus olhos vazios e sentiu seu corpo adormecido. Que a morte viesse pelas mãos do pai e Mandos o abraçasse finalmente. Ele havia chegado a uma fronteira da qual não teria mais como prosseguir e não queria mais fazê-lo.

A espada tocou a pele alva e os nervos disseram que sim, e a ira disse que sim, e o orgulho disse que sim, mas ali, no local onde o corte tinha que ser feito já havia algo, havia outro corte que sequer cicatrizara, outra violência que ficara sem punição. Thranduil fechou os olhos e sentiu a pior dor de sua vida. Ele deu dois passos para trás e abaixou a arma olhando agora para Elrond. Lagoas verdes de tristeza eram seus olhos.

"Peredhel." Ele disse numa voz cujo sentimento escondido era indecifrável. "Iludiu meus soldados, invadiu meus domínios, tomou o que era meu, incentivou o que ainda tinha redenção a fazer o mal mais uma vez... Maldito seja você."

Elrond ficou sem palavras. Seu coração sentia que apesar das suas boas intenções o rei tinha razão, ele realmente tinha deslizado em seu caminho. Na agonia que sentia, no desespero que o medo semeara em seu espírito, ele havia excedido em sua conduta. Ele extrapolara na autoridade e direitos que uma amizade estabelece, ele infringira suas próprias regras. O mal o havia apanhado em teias grossas e pegajosas e agora ele teria que se livrar delas e se responsabilizar pelas seqüelas que sofreria e faria os que o acompanharam sofrer.

"A razão lhe favorece, Thranduil Oropherion." Disse o lorde baixando a cabeça e colocando a mão por sobre o peito em submissão, ocasionando assim uma surpresa ao inimigo, cujo rosto inexpressivo até então o encarava. "Curvo-me a sua justiça."

Legolas ao ouvir as palavras do curador sentiu ainda mais a gravidade de sua traição e soltou o corpo sentando-se novamente. Ele caíra num poço fundo mais uma vez e havia tragado aqueles que o amavam consigo como fizera anteriormente.

As feições de Thranduil se desfizeram como a espuma do grande rio, e uma estranha serenidade dominou-lhe os traços da face, mas não o espírito. Era a serenidade da desistência, do abandono. Ele desviou seu olhar dos dois elfos concentrando-o num nada que estava a sua frente. Uma grande quantidade de ar foi tragada pelos seus pulmões, mas parecia não lhe dar a energia da qual precisava, não apaziguava a dor que sentia. De uma realidade, porém, ele tinha consciência: mais sangue em suas mãos também não o faria.

"Elrond de Rivendell".Ele disse sem voltar a olhar o inimigo em uma das poucas vezes que o tratara pelo nome. "Meu povo sofre o bastante sem um rei que assassina os de sua própria espécie. E é por ele, por essas criaturas que confiam em mim, que sua jornada de volta vai se efetivar e que eu espero nunca mais vê-lo."

Em sua sabedoria Elrond ouvia as palavras do rei antecipando-lhes todos os significados e intenções. Agora que o desespero o deixara, que o mal da angústia que o tentara dominar se extinguira, ele voltava a ouvir e ver o que os outros não podiam. Ele voltava a ser assolado pelas visões de um futuro próximo enquanto esperava pelo preço que teria que pagar.

"Precisamos de armas e provisões." Disse finalmente o rei verbalizando a solução para um problema que o estava afligindo, mas cujo preço era mais caro do que ele poderia imaginar até em suas previsões mais pessimistas. "E esse é o pagamento que nos deve."

Elrond fez um leve movimento com a cabeça concordando, mas seu coração voltou a afligir-se quando o destino passou a esconder-se de suas visões novamente. Ele observou receoso quando Thranduil deu dois passos na direção do filho sem que suas previsões lhe dissessem o que se passava na cabeça do rei elfo. E preocupou-se mais ao ver Legolas fechar os olhos e tremer com a proximidade do pai. O rapaz sentia mais medo das palavras que saiam daquela boca do que da espada que o rei segurava. Thranduil lhe segurou subitamente pelos cabelos fazendo-o erguer a cabeça. Houve então muita dor, mas o príncipe não atendeu a um instinto que queria erguer-lhe a mão para impedir o ataque.

"Esse servo lhe interessa?" Ele disse apoiando novamente a espada no pescoço do filho enquanto olhava para o inimigo de Rivendell mais uma vez.

Elrond franziu a testa. Aquela atitude estava além de sua compreensão.

"Se lhe interessa diga-me agora e será seu."

E a dúvida fez-se impossivelmente tempestade dentro daquele que era o senhor de um dos anéis do poder, daquele que tinha criado um reino, que tinha salvado tantas vidas. Como aquilo era possível? O mal voltava a tentá-lo? Ele queria dizer que sim, queria levar o menino de lá, fazê-lo esquecer-se de quem era, torná-lo seu filho. Mas também sabia que apesar desses sentimentos estarem jogados dentro da caixa do bem maior eles tinham sombras escuras, intenções que corromperiam o futuro do rapaz, que o tornariam um ser ausente de si mesmo, um ser vazio.

"Seu filho ele é, Thranduil de Mirkwood".Disse então a voz firme do curador que decidira usar da sinceridade que sempre fora sua aliada. "E embora eu o ame como amo aos meus, ninguém pode tomar o seu lugar no coração dessa criança."

"Eu não tenho filho algum." Atestou o rei com seus olhos fixos no elfo de Rivendell. "Ofereço-lhe esse servo. Diga-me se o quer ou o venderei para outro reino. Talvez ele seja de alguma serventia num reino de humanos, criaturas as quais ele aprecia mais do que eu gostaria." Concluiu ciente de sua crueldade pela primeira vez e utilizando-se dela com um objetivo certeiro: Ferir e deixar uma grande cicatriz. Muito maior do que sua espada poderia.

Elrond fechou ligeiramente os olhos sendo atingido pelo reflexo da dor que explodia no peito de Legolas. O rapaz não se movia mais, nem seus tremores eram agora visíveis, ele estava entregue àquela tortura que parecia não ter fim.

"Responda-me!" Ordenou o louro lorde das florestas escuras.

Um suspirar e um breve aceno foram a resposta daquele que agora só podia aceitar o mal estabelecido e tentar reparar o dano que fizera. Elrond tinha que beber da bebida amarga que o destino lhe oferecia.

Thranduil então soltou os cabelos do filho e segurou as tranças que fizera, mas ao invés de desfazê-las ele as cortou violentamente com sua espada, mostrando-as depois para seu dono. Legolas sobressaltou-se menos do que o esperado devido ao cansaço e abatimento no qual se encontrava, mas seus olhos se abriram e umedeceram-se ao ver o que o pai tinha feito com seus cabelos.

"Ouve o que digo?" Indagou o rei. "Me ouve??" Ele repetiu em um tom mais alto. "Ditarei sua sentença, criatura! Preciso saber se me ouve. Se tem consciência do que estou lhe dizendo."

"Sim, majestade." Respondeu o rapaz em uma voz quase inaudível que pareceu abalar mais a já tão entristecida figura do rei.

"Meu servo você não é mais, ser insignificante." Ele disse apertando as tranças com força em suas mãos. Elas ainda tinham manchas do sangue do filho. "Nada meu você é. Nenhuma relação tem comigo. Em Lasgalen não é bem vindo. Se algum de meus soldados o vir terá ordens de matá-lo. Ao retirar-lhe essas tranças eu retiro você de minha vida para todo o sempre. Dispensado está de seu juramento e que nem sua sombra ou vestígios de sua voz atentem contra meus sentidos mais, nunca mais."

E ao proferir aquela última sentença o ar pareceu faltar-lhe e Thranduil apressou-se para fora daquele lugar seguido de seus soldados.