Olá.!! Tudo bem com vocês? Espero que sim.
Aqui estou eu lançando um capítulo longo. Perdoem-me. É que começo a arrumar aqui e ali e quando está pronto acho que vai faltar a informação que vem em seguida e aí emendo mais o resto... pronto... fica muito extenso. Mas façam a seu tempo pessoal. Eu vou adorar saber a opinião de vocês, mas sei que é época de provas (minha também) e o pessoal está sem tempo.
Na semana passada chamei o capítulo de "divisor de águas", mas acho que esse tem mais essa função até do que o outro. A fic vai mesmo tomar um novo rumo, vai fazer uma volta para cair no mesmo lugar. Espero que achem interessante.
Agradecimentos sempre:
Às grandes autoras:
Lady-Liebe – Saudades de você. Deve estar estudando muito. Gente leiam as fics da Liebe... Elas vão fazer o seu dia.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Doce amiga. Saudades de sua fic. Mas pelo menos temos vc de volta. Não suma mais.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" tomou um rumo diferente também... muita coisa vai acontecer e não consigo esperar... Quem não está lendo não sabe o que já perdeu. A fic da Myri tem tudo o que se pode esperar. Tem ação, romance, diálogos de efeito, personagens sólidos e poesia!! Leiam!! Ah amiga! MANCHAS VERMELHAS acontece antes de VIDAS E ESPÍRITOS no meu calendário.
Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Doces crônicas que eu amo... Estou sofrendo de saudades delas. Leiam e sofram comigo!! Amiga!! Atualize!!
Vick Weasley: "BITTERSWEET" e "O VINGADOR". O capítulo atual de BITTERSWEET está divino, muito além do que as palavras podem expressar. Leiam e depois me contem se não ficaram sem palavras como eu. Obrigada, amiga! Já li um monte de vezes e agora, escrevendo isso, sinto vontade de ler mais uma vez.
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Essa fic é genial. Um Legolas que é decididamente o oposto do meu, mas de um charme que não dá para descrever. Muito bem escrita. O texto!! Leiam!! Parabéns, amiga!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". A atualização saiu!! E que atualização!! Estou até agora sem rumo. Assim não dá. Com tanta coisa boa para ler eu não vou fazer mais nada da vida. Obrigada por me avisar sobre o capítulo! Eu me odiaria se não o lesse.
Kika-Sama: "APRENDENDO". Ainda é uma das minhas indicações. Personagens muito bem elaborados mesmo, cada qual em seu universo marcante. Estou amando. Atualize logo, amiga!
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" – Último capítulo. Leiam! Estou fazendo a maior pressão para a Chell reescrever essa fic com tudo o que ela não colocou. A idéia que essa escritora de talento teve é invejável. Fiquem de olho nela. Ainda vem muita coisa boa por aí. Estou esperando, amiga!
E a grandes amigas:
Kagura Bakura – Amiga! Saudades
Regina – Saudades também.
Botori – Super obrigada. Vc tem razão. Só mesmo o Elrond...
Leka – E ai? O que achou? O Elrond continua arrasando?
Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – Suas ameaças estão me tirando o sono (risos). Espero que esse capítulo te agrade. Cadê sua fic?.
Aeka – Gente nova se manifestando!! Obrigada. Espero ainda estar agradando.
Syn, the time keeper - obrigada pela review. Pois é.. O coração do Thranduil trabalha de um jeito estranho.
Vamos ver se o Elrond vai mesmo conseguir tirar o Legolas de Mirkwood?
Esse texto agora está revisado pela minha amiga Myri, que muito gentilmente dedica parte do seu tempo precioso para dar uma lida no trabalho final e puxar a minha orelha todas as vezes que mereço. Obrigada, amiga.
24
Quando todos saíram a porta ficou entreaberta e o mesmo ar frio continuava entrando por ela impiedosamente. Legolas, ainda sobre os joelhos, mantinha o olhar fixo naquele caminho e seus olhos, embora voltados para a passagem que agora poderia conduzi-lo a liberdade, pareciam ver muito além.
Elrond aproximou-se devagar, o coração inundado de dor e culpa estava inchado no peito, buscando espaço para se manifestar, tendo dificuldades para bater. Ele ajoelhou-se ao lado do príncipe e receosamente colocou uma mão por sobre seu ombro. Dono que era de um vasto vocabulário das mais variadas palavras de acalanto ele se via mudo, como se a voz que lhe restasse estivesse aprisionada na garganta seca.
Legolas não se esquivou do toque do mestre, mas também não demonstrou qualquer reação. Sua pele alva parecia irreal, como se um feitiço o tivesse transformado em uma estátua de mármore. O curador deixou a mão onde estava por mais algum tempo analisando a figura do rapaz, medindo a dor que o corroia, avaliando suas chances de recuperação. E não pareciam muitas.
"Eu sinto muito, criança." Disse Elrond aquelas palavras com as quais não estava habituado. Ele que sempre ensinara a seus filhos a não se lamentarem pelos rumos que tomavam em suas vidas, desde que apoiados em uma causa maior, estava lá agora, desfazendo suas palavras, desmembrando cada letra que as unia num sentido único, negando tudo o que dissera, arrependendo-se do fundo de seu coração. "Perdoe-me, Legolas."
A única reação do rapaz, porém, foi baixar levemente os olhos tristes que ainda pareciam amargar suas próprias visões, os globos azuis dançavam para ambos os lados como se ele buscasse uma saída para o pesadelo que via a sua frente. Ele não se virou, não relaxou os membros, mal parecia respirar. Havia um frio tão grande em seu ser que Elrond conseguia senti-lo caminhando pelo corpo do rapaz, avançando pela sua mão e atingindo-o também.
"Eu sei que o que vou dizer não vai fazer sentido, criança." Ele continuou deslizando agora a mão pelos músculos rígidos das costas do arqueiro. "Mas esse não é o fim para você e seu pai. Os destinos de vocês dois seguem um caminho em comum e ele precisa de você tanto quanto você precisa dele. Mas o tempo infelizmente será o carcereiro e o carrasco de vocês; e ele será impiedoso, será brutal. A esperança que eu alimento ainda é a de que você seja forte o bastante para suportar mais essa provação."
Legolas não reagiu, mantendo a mesma posição, seus músculos continuavam rígidos apesar da atenção dada pelo amigo. Elrond então soltou um longo suspiro e apoiou ambas as mãos por sobre os joelhos dobrados. Ele queria muito ajudar o menino, mas para isso teria que tirá-lo dali. Ergueu-se e foi até o corredor averiguar se realmente Thranduil efetivara o que prometera. E era fato. A porta do topo da escada estava totalmente aberta e ninguém parecia vigiá-la. Aquelas masmorras subitamente estavam vazias novamente como nunca deveriam ter deixado de estar.
Então o curador regressou para dentro da cela, mas quando a iluminou novamente com o lampião que levara viu uma cena triste. Legolas havia se encolhido novamente em um canto tremendo muito. O curador sentiu o coração pular no peito ao se dar conta de que saíra deixando o rapaz no escuro novamente e correu em sua direção ajoelhando-se perto dele e puxando-o para seus braços.
"Está tudo bem, criança. Estou aqui. Perdoe-me por tê-lo deixado." Disse o mestre percebendo com pesar de que já pedira perdão por seus atos duas vezes em um intervalo muito pequeno de tempo. Algo realmente não estava mais correndo como deveria correr e isso o aborrecia tremendamente. Ele precisava sair dali, recuperar o equilíbrio que perdera vivendo aqueles momentos cruéis.
Elrond engoliu aquelas idéias amargas e resolveu então agir. Tirou seu manto e o jogou por sobre as costas do rapaz segurando-lhe os ombros e fazendo-o levantar-se. O arqueiro obedecia como um autômato deixando o amigo ainda mais preocupado. Por mais paciente e gentil que o nobre Legolas fosse aquele momento não correspondia às reações que demonstrava. Eles seguiram por todo o árduo caminho de volta aos aposentos de Elrond sem verem viva alma, era como se todos fugissem de uma trilha amaldiçoada, pela qual apenas aqueles dois elfos poderiam seguir. Chegando finalmente ao quarto ele entrou receoso trazendo Legolas consigo.
O ambiente estava no mais completo silêncio, mas quando a imagem de ambos tornou-se visível na entrada, as vozes dos filhos extasiados se fez como doce música. Os três vieram na direção deles sorrindo e indagando inúmeras questões as quais o pai apenas escutou, esperando pacientemente que calorosa recepção cessasse enquanto fazia com que o príncipe se sentasse em uma das camas.
Aos poucos Estel, Elrohir e Elladan perceberam que algo havia acontecido e que o fato de Elrond ter conseguido resgatar Legolas do martírio em que estava, provavelmente implicara em um problema muito maior. Os três se aproximaram devagar do amigo assim que o curador o fez sentar-se, se afastando em seguida para buscar uma caneca de água fresca. A falta de reação do jovem elfo de Mirkwood preocupava os irmãos imensamente. Estel colocou-se a seu lado e enlaçou-o com cuidado. Elladan à direita do arqueiro segurava-lhe uma das mãos nas suas e Elrohir ajoelhou-se em frente dele. O silêncio foi impossivelmente cruel, mas ninguém conseguia rompê-lo, por mais força que tivessem, por mais que o desejo clamasse-lhes que o fizessem.
Legolas então baixou os olhos e seu rosto pareceu contorcer-se levemente em um sinal de dúvida e dor. Ele estava olhando para a atadura na mão de Elladan agora. O gêmeo, percebendo o fato, retirou silenciosamente a mão ferida constrangido, mas continuou a segurar a do amigo com a boa. Legolas acompanhou o movimento do elfo moreno, mas não o olhou nos olhos, voltando simplesmente o rosto para a posição inicial com um ar ainda mais triste. Era como se soubesse, de alguma forma, que aquele ferimento tinha relação com a situação na qual ele colocara os amigos.
"Legolas?" Chamou finalmente Aragorn rompendo o silêncio e deslizando a mão suavemente pelo braço do elfo sem receber nenhuma resposta. Ele voltou a olhar os irmãos que nunca lhe pareceram mais idênticos. O ar de ambos era de um mesmo pesar, uma mesma dor.
Elrond voltou com a caneca e algumas folhas pequenas na mão e pediu espaço a Elladan, sentando-se ao lado do arqueiro. O primogênito ergueu-se, mas não se afastou, permanecendo em pé com uma mão por sobre o ombro do gêmeo que estava agachado a seu lado.
Fez-se mais um demorado silêncio enquanto o lorde de Imladris, sentado ao lado do enfermo elfo analisava-lhe atentamente as feições. O frio presente parecia contagiar agora aos demais e o lorde elfo temeu por todos os seus filhos, o rosto dos outros três jovens voltados para o amigo perto deles espelhava a mesma dor por ele sentida, espelhavam a mesma angústia. O mal trilhando novamente o caminho de todos, tornando-se ainda mais poderoso.
Elrond procurou afastar aqueles pensamentos que só faziam com que suas percepções adormecessem, deixando-o mais vulnerável do que a situação permitia. Ele então aproximou uma das miúdas folhas alaranjadas dos lábios do arqueiro e admirou-se ao ver o rapaz abrir levemente a boca e aceitar o medicamento sem qualquer questionamento. Franzindo um pouco as sobrancelhas o lorde sentiu que algo mais estava encoberto naquele dia nublado e que sua agonia não estava permitindo que ele desvendasse o que seria. Intrigado ele observou o rapaz mastigar vagarosamente a erva engolindo-a com dificuldade, depois aproximou a xícara dos lábios do príncipe ainda analisando suas reações.
"Beba, menino." Ele disse e impressionou-se ao ver o arqueiro desprender os lábios e obedecer a ordem novamente sem um argumento sequer, para voltar a mesma posição inicial depois de fazê-lo.
As peças do quebra cabeças estavam se encaixando e criando a figura de um cenário cruel. O curador afastou então a xícara, mas não teve ânimo para se levantar. Embora quisesse muito sair dali, um mar de dúvidas e outras perguntas sem resposta o estava tragando sem piedade.
"Ada..." Disse Estel rompendo a sofrida meditação do pai. Ele não estava agüentando toda aquela angústia. "O que ele tem, ada?"
"O problema não é o que ele tem, ion nîn." Respondeu o lorde elfo ainda olhando o príncipe com carinho enquanto deslizava dois dedos pelas têmporas do rapaz. "O problema e o que falta a ele."
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Na saída do palácio não havia ninguém além do jovem Alagos que fora incumbido de tratar das últimas negociações com o líder de Imladris e que agora acompanhava a partida do grupo com pesar. Ele olhava para o amigo e príncipe com um sentimento de culpa muito semelhante ao amargurado pelo sábio elfo com o qual negociava.
"Espero que o rei tenha sido complacente com você e seus elfos, capitão." Disse Elrond trazendo a atenção do elfo louro. O guerreiro não tirava os olhos da figura abatida que, escondida por sobre o manto de seu mestre, encolhia-se envolvida pelos braços de Aragorn agora.
"Ele não nos culpou." Respondeu o elfo num tom amargo. "Ele culpa apenas o senhor. Disse-nos que o senhor semeia a tempestade, a discórdia e a dor."
Elrond não se abateu com a sinceridade daquele elfo que, apesar de presenciar a cena que o rei fizera, parecia continuar dando a ele total apoio e concordância. Ele optou então pelo silêncio ao invés da defesa. A prudência pede que não se remexa em brasas quando não se deseja uma fogueira novamente.
Foi quando uma voz temperada da mais pura indignação surgiu em sua defesa.
"E ele tem razão." Disse o Elrohir saindo de perto de seu cavalo e voltando a aproximar-se do grupo. Havia surpresa no rosto de todos, inclusive do próprio Elrond que não sabia o quão sensata seria a atitude do seu filho gêmeo mais novo. "Meu pai semeia a discórdia, a tempestade e muitas vezes a dor." Ele completou numa voz firme enquanto se colocava em frente ao louro elfo da guarda real. Elladan, preocupado já se aproximara dele colocando uma mão suavemente por sobre seu ombro. "Ele semeia a discórdia quando a concordância gera a escravidão, a tempestade quando a ausência de vida seca todos os pastos do coração e a dor quando esta é necessária para que a cura se efetive."
Elrond fechou levemente os olhos enquanto as palavras do rapaz banhavam seu coração sedento e seco. Muito mal se espalhava por toda a Arda no momento e sentir o afeto de seus filhos era uma benção incomensurável. Porém aquele não era um momento apropriado para um dos combates retóricos os quais Elrohir tanto apreciava.
"Alagos não intenta nenhuma ofensa contra nossa família, ion nîn." Ele disse com receio de que aquelas palavras do filho principiassem uma nova torrente de discórdia.
Elrohir, porém, não baixou o olhar que fixara no amigo de Legolas. Alagos sentiu que o elfo moreno de Rivendell esperava algo. Esperava uma retratação.
"Foram as palavras de meu rei." Disse o capitão em um tom desafiador, retribuindo o olhar do gêmeo com igual coragem. "E eu, seu súdito, não sou ninguém para questioná-las."
"Em Rivendell todos têm direito a sua própria opinião." Retrucou friamente o gêmeo sentindo o gosto do bom combate deslizar-lhe garganta abaixo e rebrotar em forma das palavras mais cruéis. Ele estava irado e não queria ser piedoso.
Alagos engoliu a pouca saliva que lhe restava e apertou os punhos contrariado.
"Não estão em Rivendell." Disse dando um passo a frente e ficando a menos de um palmo de distância do filho de Elrond. "E não chegarão até lá se não se moverem mais do que falarem. Vocês, elfos de Imladris, falam mais do que agem"
"Meu povo se moveu rápido o bastante para salvá-los nas colinas há alguns dias." Provocou Elrohir.A resposta exata a atiçar-lhe os nervos.
"Basta." Disse então Elrond aproximando-se e puxando o filho pelo braço numa indelicadeza que não lhe era peculiar. Elrohir lançou um olhar de indignação ao pai, cuja retribuição foi tão pouco motivadora que o jovem elfo aquietou-se na mesma hora baixando a cabeça e afastando-se com o irmão.
Alagos não pôde deixar de expressar um riso estranho.
"Parece que vocês não têm tanto direito a opinião própria quanto imaginam." Ironizou o jovem capitão de Mirkwood sentindo uma agradável sensação de vitória ao ver seu opositor ser obrigado a baixar a guarda diante do pai tal qual uma criança pequena e travessa. Elrohir, porém, não compartilhou da satisfação do outro elfo voltando-se imediatamente ao ouvir aquelas palavras.
Mas Elladan estava em seu caminho e fez com que sua presença intensificasse as vontades do pai, segurando o contrariado irmão. Ares de revolta e contrariedade envenenavam o ar já tão carregado de Mirkwood.
"Não, irmão".O gêmeo mais velho disse apertando levemente o braço que agora segurava.
Elrohir respirou fundo olhando nos olhos de Elladan de uma forma que o gêmeo nunca vira seu irmão fazer. Um ódio doente fazia com que aqueles olhos escuros brilhassem de forma estranha e pouco natural. O primogênito, porém, ergueu o escudo de sua alma não se permitindo atingir. Aquele era Elrohir. Era seu irmão que estava apenas cansado e desgostoso, nada além disso. Ergueu assim uma mão apoiando-a aberta por sobre o peito do mais novo, por sobre aquele coração que batia fervorosamente e fazendo com que ambas as energias se encontrassem. O ódio de Elrohir e o amor de Elladan ao se misturarem, voltaram a gerar a paz que lhes faltava. A química perfeita da mãe natureza realizando seus feitos. Elrohir então compreendeu, esvaziando os pulmões e baixando os olhos novamente. Depois voltou a encarar o irmão com um olhar arrependido e apoio a mão por sobre a dele que ainda estava em seu peito.
Elrond olhou a cena com seus olhos de curador e vidente e, ao ver o que apenas ele via, ao ver os filhos despidos de suas máscaras como quando eram crianças, ele sentiu uma nova esperança. Iluvatar dando-lhe seus recados. Esse era o papel dos elfos na Terra Média, sempre fora e sempre será. E, enquanto soubesse da existência daqueles dispostos a desempenhá-lo, o caminho para os portos cinzentos ainda estaria distante para ele.
"Disciplina e consideração caminham juntas, nobre guerreiro." Disse então o curador voltando-se novamente para Alagos cujo queixo erguido e uma arrogância similar a de seu rei pareciam transformar-lhe a bela face. "Bem como obediência e medo. Por isso é necessária uma grande sabedoria para se escolher a quais desses conjuntos se curvar."
O sorriso de Alagos desapareceu e seus punhos voltaram a se fechar.
"O senhor e seus filhos fazem insinuações demais." Contestou o elfo apertando levemente os lábios numa careta de indignação. "Falam por meias palavras deixando vários vazios sem serem preenchidos. Começo a acreditar que meu rei tem razão quando diz que são responsáveis pelo que aconteceu a nosso príncipe."
Elrond sentiu-se ferido com o fundo de verdade que estava por trás daquelas palavras, mas não demonstrou. Era impressionante o quão amado Thranduil era por seu povo. Suas atitudes não eram só inquestionáveis, elas eram simplesmente respeitadas como se não fossem destinadas a apreciação, análise e concordância.
"Acredite, jovem Alagos." Disse o curador. "Crie as crenças que quiser, mas deixe que a verdade as estruture, se não estará construindo uma casa em um brejo alagado, em um pântano de lama e lodo."
Foi então que Alagos odiou Elrond ainda mais. Ele não sabia o porquê e não queria se questionar a respeito, ele só queria selar os lábios daquele meio-elfo como seu rei desejava, mas, por alguma razão inexplicável, não o fizera. Sua mente pensou que talvez se ele o fizesse, se erguesse a espada naquele momento e calasse aquela criatura de língua bifurcada, ele teria paz e traria paz ao reino no qual vivia. Ele veria novamente seu rei sorrir.
E enquanto criava aquela cena trágica em sua mente o elfo sequer percebeu que sua mão já estava por sobre a espada e seus olhos de ódio desigual não abandonavam os de sua vítima. O rancor e a ira guiavam seus sentidos, entorpeciam sua razão.
"Maldito." Ele disse entre os dentes dando um passo adiante, mas encontrando alguém para impedi-lo, alguém que ele não esperava. Legolas havia se desprendido dos braços de Estel e estava agora a sua frente. Alagos empalideceu só por sentir o olhar do príncipe nele. Anos da infância que viveram juntos, das brincadeiras aprendendo a acertar o alvo no primeiro lance, da maturidade cheia de conflitos, da inocência roubada nas batalhas das fronteiras, vieram a sua mente envolvendo seu coração em um embrulho sufocante. Legolas fixou os olhos tristes nos do amigo apoiando então as mãos em seus ombros. O cansaço se fazia visível na face do príncipe e o frio de suas mãos fez com que o capitão estremecesse. O ódio, outra vez confrontado pelo afeto mais antigo do que tudo, fez-se paz novamente e toda a indignação esvaeceu-se do semblante do guerreiro. Tudo o que ele conseguiu fazer foi puxar o amigo para si num abraço roubado, numa atitude que ele sabia que o rei não aprovaria, num ato de rebeldia. A consideração superando o medo, como Elrond havia dito. Ele decidira se curvar ao primeiro conjunto.
Mas ao manter agora o amigo próximo como podia de si Alagos sentiu mais do que nunca o frio que aquele corpo emanava e um grande temor invadiu-lhe o coração. O espírito de Legolas estava definhando, ele estava desistindo.
"Não..." Ele disse ao ouvido do amigo que abraçava. A palavra cheia de significados, de intenções, que retratava seu puro desespero diante do mar sem fim de dor e sofrimento que os vinha atingindo. Ele não queria muitas coisas, não queria sentir o ódio e o medo corroerem seu coração, não queria levar seus soldados para a morte, não queria ver seu rei amargando a solidão dos poderosos, não queria perder seu príncipe. Ele não queria muitas coisas, coisas tão cruéis que sequer conseguiram fazerem-se palavras na boca do capitão.
"Não..." Ecoou o príncipe em resposta. A palavra distante que parecia sair de dentro de seu próprio peito sem passar pela boca tinha outros significados. Não havia desespero nela, apenas cansaço, cansaço de muitos níveis, cansaço sem medidas e sem possibilidades de recuperação. Ele tentou apertar o amigo um pouco mais em seus braços, mas estava sem forças, então apenas se manteve ali por mais alguns instantes sentindo algo que sabia que não voltaria a sentir, sentindo o cheiro da madeira e das matas de Mirkwood nos cabelos dele, sentindo o abraço de um dos seus. Depois afrouxou os braços levemente dando a entender a Alagos que ele precisava deixá-lo ir e o capitão afastou-se com tristeza, a obediência com a qual estava acostumado, mas de seus olhos baixos escorriam caminhos molhados adornando-lhe o rosto. A dor da separação e o medo do destino que se escondia mais uma vez da visão de todos.
Legolas sentiu uma pequena vertigem ao se ver novamente só, mas logo dois braços vieram auxiliá-lo. Aragorn o envolvia com carinho, braços fortes garantindo-lhe equilíbrio e calor. Eles trocaram olhares e o guardião lhe ofereceu um sorriso triste ao qual Legolas não foi capaz de retribuir, inclinando-se apenas e balançando levemente a cabeça em agradecimento. O guardião, porém, apertou-o um pouco mais forte não se importando com o frio que emanava do corpo do príncipe, não se importando com os que estavam a sua volta e Legolas, sentindo a força do amigo, deixou-se ficar naquele abraço pacificamente a espera do grande nada que parecia estar lhe espreitando.
Era um dia triste, e o céu cinzento anunciava que as nuvens impacientes não estavam dispostas a comportar uma gota a mais da água que evaporava. Alagos observou o amigo voltar a afastar-se apoiado em Aragorn, a quem também conhecia. Ele sempre se admirara da amizade que se desenvolvera entre os dois. Na verdade nunca conseguira entender como Thranduil, que tudo conseguira do filho durante toda a sua existência, não havia sido capaz de convencer o príncipe a evitar o convívio com aquele dunedain. Alagos se lembrava bem de todas as conversas que tivera com o amigo e do quão fiel ele demonstrava ser ao humano de Rivendell. Aquela amizade estava além da compreensão de qualquer um, mas agora oferecia ao capitão uma luz de esperança na recuperação do príncipe que os deixava, oferecia a ele algo para amenizar aquela sensação de impotência que sentia, pior do que mil batalhas perdidas. Ele não conseguia sequer imaginar a idéia de ver seu amigo definhar, embora aquela certeza do futuro próximo e cruel estivesse temperando seu coração com ervas amargas.
Um suspiro involuntário fugiu-lhe da garganta enquanto ele se virava e, sem perceber, voltava a encarar o antigo oponente. Elrond ainda o olhava, mas aqueles olhos acinzentados não tinham nenhum ar provocador ou irônico, muito pelo contrário, eram olhos de solidariedade, como se o curador estivesse lendo todos os pensamentos que atemorizavam sua mente agora. Alagos quis dizer-lhe algo, quis pedir-lhe que tomasse conta de Legolas, que não o deixasse desistir, que o ajudasse no que fosse preciso. O inimigo como tábua de salvação, mais uma ironia nos desajustes do destino. Mas Elrond sorriu levemente antes mesmo que o elfo de Mirkwood pudesse converter seu desespero em uma só palavra. O lorde de Imladris sabia quais eram aqueles sentimentos sem que sentenças precisassem traduzi-los e já oferecia sua resposta não verbal também, poupando assim a ambos de futuros desentendimentos gerados por idéias mal expressas ou compreendidas.
Alagos respirou um pouco mais fundo, sem saber se aquele alívio que sentia era fruto de esperança ou desistência e se afastou, inclinando-se em uma breve reverência. Um sinal de que era chegada a hora do grupo deixar Mirkwood.
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A princípio os irmãos discutiam para saber no cavalo de quem o jovem Legolas viajaria, já que não tinha forças para cavalgar, mas Elrond simplesmente passou por eles e subiu em seu cavalo estendendo os braços para Estel em quem Legolas se apoiava.
"Deixe que ele venha até mim, Estel." Instruiu o lorde numa voz triste enquanto olhava para o arqueiro.
Aragorn olhou para os irmãos e depois para Legolas, que mais uma vez pareceu não precisar de nenhuma instrução para obedecer à ordem ainda não formulada. Ele dirigiu-se vagarosamente em direção ao cavalo do mestre e Elrond laçou seus ombros ajudando-o a subir e sentar-se a sua frente.
Elrond voltou a sentir o frio que emanava do corpo do príncipe, mas não fez qualquer comentário, a não ser as palavras que sempre lhe ocorriam naqueles momentos e nas quais ele esperava que Legolas ainda acreditasse.
"Vai ficar tudo bem." Ele sussurrou no ouvido do rapaz enquanto ajeitava-lhe o manto para tentar protegê-lo um pouco do frio encostando-o em seu peito. "Confie em mim. Faça-me digno de sua confiança por mais algum tempo."
Legolas estremeceu levemente. Era a primeira reação que demonstrava desde que saíra da cela onde estava. Ele queria muito desistir, mas ao sentir Elrond ali próximo dele, ao se lembrar de todo o sacrifício que o curador e seus filhos fizeram, das coisas que o lorde e Estel ouviram do rei, das outras inúmeras vezes em que aquelas mesmas palavras foram necessárias, ele se sentiu culpado. Sentiu-se culpado por tudo e também pelo fato de querer desistir. Ele não tinha esse direito. Não tinha nem sequer esse direito. Um novo tremor correu-lhe o corpo e ele então sentiu os braços de Elrond o enlaçarem com mais força e uma de suas mãos segurarem a dele oferecendo-lhe um pouco de calor. Legolas não resistiu mais, aceitando o conforto oferecido e encostando-se levemente no peito do mestre enquanto sentia sua mente vagar e suas pálpebras quererem fechar as cortinas que deveriam ficar abertas, o medicamento do curador finalmente parecia fazer algum efeito.
Em um último esforço o príncipe procurou olhar uma vez mais a sua volta antes de sair definitivamente de Lasgalen, da terra onde tudo o que era vivo ganhara um nome para ele, da terra por onde corria quando criança, por onde se escondia nas brincadeiras com a mãe, da terra que era seu lar. Legolas ergueu novamente os olhos, voltando-os para o palácio que nada mais era do que um retrato de seu pai. O arqueiro não gostava de viver nele, mas se lembrava do quanto ele simbolizava a figura do rei das inúmeras vezes que, chegando de uma longa patrulha, deliciava-se com a visão daquelas paredes brancas que acolhiam a pessoa mais importante de sua vida. O palácio não era nada, mas ele gostava de se lembrar dele pelo que continha em seu interior, pela pessoa a qual abrigava e de quem agora ele havia sido separado definitivamente.
Entretanto como se fosse um sonho, ou um delírio qualquer, ao deslizar seus olhos cansados por aquelas janelas e portas, Legolas teve uma visão que não esperava. Em uma das sacadas do palácio uma imagem conhecida se fez real: o rei olhava diretamente para onde estavam com um ar indecifrável. Parecia... triste? Legolas balançou levemente a cabeça e julgou estar enganado, mas olhando melhor percebeu algo ainda mais estranho: aquela sacada era a do quarto onde ele dormia no palácio, era a sacada do quarto do príncipe. Mas não houve tempo para questionamentos ou respostas. Elrond instruiu o cavalo a começar sua marcha e a figura do pai ficou para trás, bem como os muros de Mirkwood.
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Foi uma viagem cansativa. Na primeira oportunidade que tiveram, depois que os elfos da floresta deixaram o grupo, Elrond e seus filhos pararam para acampar com os elfos de Rivendell que haviam vindo escoltar seu líder. Estel adiantou-se e foi fazer uma fogueira enquanto Elladan e Elrohir cuidavam dos cavalos. Elrond ajudou Legolas a sentar-se e lhe ofereceu um pouco de água a qual o jovem aceitou agradecendo com um leve aceno de cabeça. Em seguida abriu sua bolsa de suprimentos e retirou algumas ervas.
"Tire a camisa para mim." Ele pediu numa voz suave. "Deixe-me colocar algo em seus ferimentos".
Mas Legolas subitamente laçou os braços em volta do corpo fazendo com que Elrond se surpreendesse ao ver que ele não tinha intenção de fazer o que lhe fora sugerido.
"Tire, criança." Ele insistiu.
Mas foi em vão. Legolas abanou a cabeça e fechou os olhos. Lágrimas começaram a correr por seu rosto. Ele queria obedecer, sabia que devia obedecer agora. Mas não se sentia disposto a encarar novamente suas feridas, abertas ou sãs, não tinha mais energia para observar o rosto preocupado do curador enquanto este lhe dava assistência mais uma vez. Já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha chorado nos últimos tempos. Queria que aquilo tudo acabasse, não agüentava mais sofrer assim.
Elrond arrastou-se vagarosamente para perto dele e abraçou-o fazendo encostar-se em seu peito e deitar a cabeça em seu ombro. Mas o carinho do mestre não se fez consolo naquele momento, o corpo do rapaz passou a tremer com mais força e logo suas lágrimas se transformaram em soluços enquanto ele se agarrava à túnica do curador. Elrond abraçou-o com delicadeza, não queria piorar suas feridas, mas queria dar-lhe algum carinho. O choro de Legolas não era o mesmo das outras vezes que ele o vira chorar. Não era um choro de tristeza ou dor, não era um choro de dúvidas, era um choro de agonia e desespero.
Os irmãos viram de longe a cena e vieram aproximando-se devagar. Elrond lançou-lhes um olhar triste e preocupado e depois voltou a falar palavras de conforto para o príncipe. Os três agacharam-se perto do amigo e cada qual colocou a mão nele devagar, chamando-lhe o nome e garantindo-lhe que as coisas iriam melhorar. Mas dessa vez nada parecia fazer com que o príncipe recobrasse a paz. Elrond pediu então que Estel despejasse um pouco de água em uma caneca e jogasse nela um pó avermelhado que ele trazia em um pequeno frasco. O filho obedeceu mexendo devagar a mistura e a entregando para o pai.
"Tome, beba isso".Ofereceu o curador aproximando a caneca do rosto do rapaz em seu peito. Mas ele agitou-se mais em seu desespero e afastou-se, ainda em prantos, apoiando uma das mãos no chão e cobrindo os olhos com a outra. Estava tudo errado para ele naquele momento e o jovem simplesmente não conseguia voltar a si por mais que tentasse. Agora que o desespero inicial se dissolvia e ele se vira fora de Mirkwood novamente, todo o restante dos acontecimentos ganhavam uma outra dimensão ainda maior. As palavras do pai, as tranças, laços invisíveis que o prendiam a terra natal, cortadas, as ameaças, a estranha negociação que os dois elfos mais importantes de sua vida fizeram, tudo ia e vinha em sua mente criando um rodamoinho tenebroso de imagens e dor, causando-lhe tremores ainda mais fortes, tremores incontroláveis que lhe roubavam agora o ar, que pareciam envenenar seu sangue e seu espírito. Elrond voltou a segurá-lo. Os outros começaram a se agitar.
"Ele vai ter uma convulsão, ada." Gritou Elladan muito preocupado. Nunca tinha visto Legolas assim.
"Não pode..." Disse Elrohir para si mesmo enquanto olhava todos a sua volta desesperado. "É um elfo..."
Muito da dor do espírito ainda era desconhecido para todos.
O arqueiro continuava a tremer muito e agitava a cabeça nos braços de Elrond. O curador mantinha as costas do jovem encostadas em seu peito e segurava-lhe a testa com a palma da mão tentando fazê-lo aquietar-se. Mas não estava conseguindo nenhum resultado.
"Criança, você precisa beber o calmante." Ele dizia gesticulando para que Estel aproximasse a caneca novamente dos lábios do rapaz, enquanto ele o segurava. O guardião procedeu como lhe fora pedido, mas Legolas não queria beber, seu corpo tremia tanto que mesmo se o quisesse não conseguiria, seus lábios estavam se arroxeando.
"Ada!" Gritou o guardião apoiando uma mão na perna do amigo, cujo corpo agora se enrijecia tal qual uma árvore antiga.
Elrond soltou um leve suspiro procurando acalmar o espírito e o coração e sentiu-se mais uma vez sem escolha. Ele deslizou então a mão que segurava o tronco do rapaz para o meio do peito que arfava dolorosamente e com a outra cobriu os olhos muito abertos do príncipe. Em seguida falou-lhe ao ouvido algumas palavras em uma língua antiga, Quênia talvez, os filhos não tinham forças para tentar entender, e como em um passe de mágica o corpo do elfo parou de tremer e ele se aquietou completamente. Os irmãos se entreolharam perplexos, ali estava um procedimento que o pai nunca lhes havia ensinado. Mas Elrond não deu nenhuma explicação, apenas olhou para Estel, gesticulando com a cabeça para que o guardião aproximasse novamente a caneca dos lábios de Legolas. Dessa vez o jovem elfo bebeu todo o líquido sem fazer nenhuma objeção. Mas Estel percebeu que seu corpo estava rígido e que ainda havia leves tremores. Então Elrond fechou os olhos por alguns instantes e depois disse novas palavras ao ouvido do rapaz e todos viram seu corpo voltar a relaxar. O lorde elfo deslizou o jovem para que deitasse a cabeça em seu colo e olhou no fundo dos olhos azuis dele. Havia um grande cansaço ali, como se o rapaz tivesse acabado de voltar de uma guerra terrível.
"Me perdoe, filho." Disse o curador alisando os cabelos do jovem arqueiro. O terceiro pedido de perdão que saia de sua boca e o mais amargurado de todos. "Não tive outra escolha que fosse menos prejudicial para você".
Legolas não respondeu, apenas pendeu a cabeça para o lado devagar, os olhos voltados para o nada, encarando o grande muro do sono.
Um sorriso aliviado surgiu então na face do curador ao ver que Legolas dormia finalmente o sono dos elfos, mas ele não teve tempo para aquietar novamente o espírito, ao erguer os olhos encontrou o olhar inquisidor dos filhos.
"Como fez isso, ada?" Quis saber Estel, que não conseguia guardar uma pergunta para si, enquanto deslizava seus grandes olhos azuis pelo corpo do elfo adormecido, para depois voltá-los para o pai. Suas sobrancelhas arcadas demonstravam todo o conflito que o humano sentia dentro de si.
"É!" Adicionou Elrohir um pouco irado. "Que truque é esse que nunca nos ensinou?"
O sorriso de Elrond alargou-se um pouco e ele balançou a cabeça. Também se sentia cansado.
"Magias e feitiços, Elrohir". Ele respondeu encarando o rapaz. "Você devia saber que nem tudo é usado para brincadeiras nessa terra."
O rosto do mais novo dos gêmeos enrubesceu como nunca enrubescera antes. Então o pai sabia que ele havia lido o livro que proibira. O jovem baixou imediatamente seus olhos escuros envergonhado, mas o sábio pai segurou-lhe a mão e o fez olhá-lo novamente.
"O que eu fiz hoje, crianças." Ele iniciou chamando a atenção dos três. "Não deve ser feito, não é um procedimento correto e eu só fiz uso dele porque meus conhecimentos não foram suficientes para que eu pudesse ver outra escolha melhor. Por isso vocês não devem se questionar a respeito."
"Mas, ada" protestou Elladan pela primeira vez. Tudo o que dizia respeito à arte da cura era de seu grande interesse.
Elrond olhou para o primogênito entendendo sua angustia. Então voltou os olhos para o rosto do elfo louro deitado em seu colo e seu semblante mudou.
"Elladan," Disse por fim fitando o filho com tristeza. "O que eu fiz foi aprisionar o espírito de Legolas por alguns instantes. O corpo dele se aquietou, mas em sua mente eu criei um grande desespero. Eu o fiz viver uma situação de angústia ainda pior, atirando-o em um lugar escuro e frio. Por isso procurei fazê-lo o mais rápido possível e mesmo assim ainda estou me questionando se tinha o direito de tê-lo feito".
Os três filhos voltaram a se olhar e, embora ainda fascinados pelo novo "truque" que presenciaram, sentiram mais pelo elfo que agora dormia.
"O que deu a ele?" Indagou Elrohir ainda um pouco abalado pelas últimas descobertas. "Sedativo?"
"Um calmante leve." Respondeu Elladan no lugar do pai. "Não o faria dormir se ele não estivesse tão cansado e abatido."
Houve mais alguns momentos de silêncio até que os gêmeos, ao verem que a situação estava sob controle, decidiram voltar ao que estavam fazendo. Erguendo-se ao mesmo tempo eles se afastaram em seu caminhar compassado sendo observados pelo pai e pelo irmão com simpatia. Uma família eles eram, na qual um novo membro ingressara.
Elrond baixou os olhos mais uma vez deslizando os dedos pelos curtos fios de cabelo que restaram das tranças que Legolas perdera. Era doloroso ver como Thranduil havia deixado os belos cabelos do rapaz. Estavam sem forma, fios longos e curtos misturavam-se, desalinhados como a própria vida do príncipe. Ele não pôde deixar de pensar em como poderia trançá-los para que aquela desordem fosse escondida, embora temesse que esconder um mal não o neutralizasse, muito pelo contrário, talvez o reforçasse.
Com a ajuda de Estel ele ergueu levemente o corpo de Legolas para substituir o seu por um manto dobrado como um travesseiro. O curador não conseguia parar de olhar o rapaz com um sentimento de culpa terrível pelo que havia feito. Só esperava que, quando acordasse, o menino não se lembrasse do pesadelo que vivera.
Estel cobriu-o com uma manta e sentou-se também perto dele, analisando os traços no pálido rosto do príncipe que agora fechara os olhos e se agitava levemente em seus sonhos. Momentos de paz eram realmente curtos. Ele pensou olhando para o pai que, ao perceber também que Legolas havia caído novamente em um sono mortal, baixou os olhos soltando um suspiro triste.
"Não entendo..." Disse o guardião em voz alta, embora falasse consigo mesmo. Ele pensava nas cruéis acusações de Thranduil que povoavam sua mente, fazendo-o reviver aquelas cenas todas mais uma vez. Elrond percebeu a tristeza nos olhos do filho e notou que ela não dizia respeito só à situação em si, ela encobria muito mais fatos, o passado e o futuro inteiro da vida de seu filho dunedain.
"As pessoas dizem e fazem todos os tipos de barbaridades quando estão fora de si, quando estão perdendo o controle de uma situação ou quando se sentem impotentes, ion nîn." Ele declarou olhando o guardião com afeto. Não sabia o que incomodava o filho, poderiam ser muitas coisas ou todas elas misturadas. "O que você viu esses dias, criança, é mais uma prova de que a insensatez pode atingir a membros de todas as raças, e que ela se torna muito mais séria quando o indivíduo é detentor do poder. Não se esqueça disso. Você principalmente não pode esquecer, porque também você um dia estará numa situação de poder muito parecida com a de Thranduil, você também será tentado pelo mal e terá que resistir".
Aragorn sobressaltou-se com a dureza das palavras proféticas do pai. Quando o elfo havia começado a falar ele esperava apenas ouvir as mesmas palavras de consolo e carinho de sempre, mas dessa vez não fora assim. Elrond mais uma vez atingira a ferida certeiramente como se lesse de fato os pensamentos do filho. O guardião se sentiu transparente diante do pai. Lágrimas brotaram em seus olhos enquanto a amarga expectativa de futuro que lhe fora traçada voltara a importunar-lhe. Agora que via Legolas aos cuidados de sua família novamente, ele não pôde evitar que as outras preocupações que assombravam sua vida voltassem a erguer obstáculos para sua felicidade. O povo de Gondor, de Rohan... vilas entregues a miséria... a ganância dos homens... o assombroso desenvolvimento e expansão da raça orc, entre outras obscuridades que ainda não ganhavam sentido para ele, se fizeram presentes em seu pensamento mais uma vez, como durante todos os últimos anos desde que soubera da verdade, desde que descobrira quem era. Ele mordeu os lábios com força enquanto inconscientemente segurava a mão de Legolas acariciando-a devagar. Ele queria que o príncipe estivesse bem, o amigo era um dos poucos com quem ele conseguia se abrir, falar sobre seus conflitos, suas tristezas, sem se sentir um fraco, um covarde.
"Queria que ele ficasse bom..." Lamentou-se. "Sinto falta de nossas conversas. Sinto falta da paz que tínhamos".
Elrond sorriu solidariamente enquanto lembranças vinham lhe visitar...
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Estel sentava-se comodamente no chão da varanda de casa. Uma chuva forte caia em Rivendell como não acontecia há muitos anos. Glorfindel, sentado um pouco mais adiante em uma confortável cadeira almofadada, balançava a cabeça devagar um tanto inconformado com o rio de água que abençoava a pequena cidade há dias.
Elrond, em pé perto da escada, mãos cruzadas nas costas, parecia gostar do som que ouvia.
"Não acha que já foi o bastante?" Indagou o amigo num suspiro forçado enquanto olhava para as costas do curador.
Estel riu observando as feições do pai. Ele entendia o que o louro elfo insinuava. Ele queria que Elrond usasse seu anel, usasse Vilya para conter o incômodo que acontecia. Mas o paciente lorde de Imladris parecia ter outros planos.
"Desista, Glorfindel." Disse o guardião num sorriso enquanto ascendia o cachimbo displicentemente, esticando as pernas no chão da varanda. Elrond lançou-lhe um olhar reprovador ao qual o filho decidiu ignorar tragando o fumo doce e sorrindo para o pai.
"Estel!" Indignou-se o lorde franzindo as sobrancelhas como lhe era peculiar. "Poupe nosso precioso ar!"
"Ah, ada." Aborreceu-se o guardião dando mais uma tragada e soltando argolas de fumaça para o aborrecimento maior do pai. "Não posso fumar lá fora, uma tempestade nos está afogando." Ele ironizou olhando para Glorfindel que apertou os lábios automaticamente voltando a olhar para o dilúvio que ocorria.
Elrond voltou-se para responder, mas apenas ofereceu um breve sorriso curvando-se agora para a figura que vinha fazer-lhes companhia.
"Como vai, jovem príncipe?" Indagou o curador.
Legolas retribuiu o sorriso cumprimentando os três presentes com uma graciosa reverência.
"Bem, meu senhor."
"Sente-se aqui, Legolas." Convidou Estel apontando para o chão a seu lado.
"Estel! Onde estão os seus modos?" Indagou Glorfindel inconformado. "Convidar o príncipe para sentar-se no chão? E ao lado de uma chaminé poluidora como você?"
O guardião sentiu-se ofendido pelo tom do amigo de seu pai. Ele gostava de brincadeiras, mas não queria ferir a imagem que Legolas tinha dele.
"Desculpe, príncipe Legolas." Disse então baixando levemente a cabeça e apagando o cachimbo.
Legolas riu e atirou-se no chão ao lado do amigo impressionando a todos. Estel arregalou os olhos surpreso.
"Não me importo com isso, Estel, meu grande amigo." Ele disse fixando seus olhos claros nos do guardião. "Para quem dorme em árvores o chão limpo da casa de seu pai é muito convidativo." Ele sorriu cruzando as pernas e fazendo uma pequena pausa. Subitamente um leve traço de ironia enfeitou-lhe os olhos. "Mas a fumaça do cachimbo realmente é algo que dispenso." Ele completou com um riso musical.
Estel o acompanhou rindo também e envolvendo o amigo em um abraço.
"Certo." Ele disse dando um leve aperto no ombro do elfo. "Por você eu faço esse sacrifício." Ele completou olhando para Glorfindel que balançou novamente a cabeça voltando a encarar o mal tempo que parecia ter piorado ainda mais.
Elrond observava a cena incrédulo. O príncipe de Mirkwood, filho do poderoso Thranduil Oropherion estava sentado no chão de sua varanda abraçado a seu filho humano. Uma cena que ele não imaginaria ver em dez milênios. Cada dia que passava sua admiração por Legolas crescia. Ele decididamente não tinha traço algum da personalidade do pai.
"Diga-me, jovem Legolas." Ele disse atraindo a atenção do rapaz. "A chuva o incomoda?"
Legolas voltou seus olhos para a paisagem do dia e sorriu.
"Não senhor. Mesmo cinza Imladris é uma das terras mais belas de toda a Arda." Ele respondeu em um sorriso que subitamente pareceu esconder alguma tristeza. "Só..." Mas a frase se perdeu e Legolas abraçou os joelhos um tanto incomodado.
"Só..." Incentivou o curador.
O príncipe levantou os olhos receoso e o curador sentiu alguma coisa partir em seu coração ao olhar para aqueles olhos. Uma grande história estava por trás deles e não era feliz.
"Só lamento não poder ir até o grande eucalipto." Ele disse olhando mais uma vez para o tempo triste que se firmava mais cruel. Se o senhor me permitisse entrar pela cozinha ou trocar minhas roupas na varanda dos fundos..." Ele acrescentou inocentemente, e Elrond percebeu que até nesse aspecto a chuva não era um problema para o jovem elfo, mas sim o medo de aborrecer o anfitrião que tão bem o recebia. "Não me importo em me molhar e..."
Elrond sorriu erguendo uma mão para silenciar o rapaz. Em seguida virou-se para a saída da varanda e um longo silêncio se fez. Ninguém ousava emitir um som sequer que desconcentrasse o poderoso lorde de Imladris. Legolas olhou a sua volta confuso. Estel esfregava as mãos olhando o pai ansiosamente e Glorfindel ofereceu-lhe um sorriso enigmático. Algo estava para acontecer e o príncipe sentiu um frio na espinha causado pelo receio de não saber o que seria.
De repente um longo suspiro se ouviu e Elrond fechou seus olhos respirando profundamente. Os traços em seu rosto se suavizaram devagar, ele ergueu a palma e um estranho brilho se fez. Em poucos instantes a chuva diminuiu sua intensidade, cascatas de água se transformaram em pingos grossos e depois em gotículas solitárias para finalmente restar apenas uma névoa molhada na paisagem. Rastros de sol surgiram por entre as nuvens acrescentando uma magia ao quadro que se formava. As gotas de água nas árvores brilharam como pequenas luzes anunciando os tempos da bonança.
"Acho que elas já beberam o bastante." Disse então o curador voltando-se para encarar o olhar admirado do príncipe que, mesmo sabendo dos poderes daquele lorde elfo, jamais sonhara presenciar um acontecimento desses."
Legolas ficou mudo, as palavras tinham todas se perdido a caminho da boca, que agora pendia completamente aberta. Elrond riu despertando o príncipe que finalmente percebera que sua admiração estava evidente demais.
"Pode ir, criança." Disse o curador erguendo um pouco o braço e indicando o caminho para a escadaria. Ele se sentia surpreso por instintivamente tratar o elfo de Mirkwood com um termo que reservava apenas para seus filhos.
Legolas sorriu abertamente, um sorriso que Elrond não o havia visto oferecer a ninguém até agora. De certa forma, o pequeno favor pareceu pesar de uma maneira diferente no coração do rapaz.
"Obrigado, meu senhor." Disse então o príncipe erguendo-se de imediato e correndo para fora.
E fez-se a vez de Elrond se admirar. Ele deu alguns passos para perto da saída e deliciou-se com a cena do louro elfo correndo até a velha árvore. Ele tinha algo dentro de si que o curador não conseguia definir, mas que lhe fazia muito bem.
"Abençoado." Disse o lorde para si mesmo vendo o rapaz colocar ambas as mãos na árvore e abaixar a cabeça em respeitosa reverência, pedindo permissão para aproximar-se, para compartilhar de sua energia.
Glorfindel levantou-se e colocou-se ao lado do amigo.
"O oposto do pai, completamente." Ele atestou.
"Oposto não." Corrigiu o mestre. "Seu complemento."
Estel sorriu sentindo que o pai parecia diferente. Como nos dias que passava em sua biblioteca com algum exemplar raro recebido de amigos distantes. Elrond parecia extasiado, folheando as páginas de um livro novo.
"Gosto dele, ada." Disse o guardião. "Ele não parece um príncipe."
"Parece, ion nîn." Discordou o elfo curador. "É exatamente como um príncipe deve ser."
E o filho sorriu saboreando a lição que o dia lhe reservara. Elrond e suas verdades. Quando voltou os olhos novamente para Legolas viu o elfo lhe acenando de longe.
"O quê?" Gritou despertando uma grande agonia nos dois lordes que nunca se acostumariam com o comportamento do único humano de Rivendell.
Mas, para a surpresa dos dois, Legolas gritou em resposta.
"Venha, Estel." Foram as palavras do elfo louro de Lasgalen, enquanto sorria e movimentava novamente as mãos. "A grande árvore permitiu que você suba hoje. Corra!"
Estel não coube em si de felicidade, saindo em disparada, os degraus mal sentiram seus pés e o guardião correu como quando era criança e se divertia nos jardins de Imladris, todas as suas preocupações desapareceram e ele nem se lembrou de pedir a opinião do pai. Glorfindel franziu as sobrancelhas e sorriu vendo os dois se encontrarem. O céu e a terra enlaçados em uma harmonia quase divina. Legolas subiu e estendeu a mão para o amigo que a aceitou e logo os dois desapareceram na enorme copa da mais antiga árvore de Imladris.
"Ele não é boa influência." Brincou o louro lorde ainda sorrindo.
Elrond não se voltou, ainda admirando o que vira, guardando carinhosamente cada cena em sua lembrança e agradecendo a dádiva recebida.
"Não, não é." Disse então. "Ele é melhor do que isso."
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Elrond despertou daquele sonho bom e surpreendeu-se ao ver o filho também perdido em recordações. A coincidência dos fatos parecia fazer com que ambos relembrassem um mesmo momento bom em um passado tão turbulento.
"Se eu tivesse um filho como Legolas" Disse o guardião por fim. "O faria saber o quanto eu o amo todos os dias."
Elrond riu.
"A primeira criança que será colocada em seus braços e que um dia te chamará de pai será um menino, com um bom coração como o de Legolas. Por isso não esqueça de suas palavras".
Aragorn teve um novo sobressalto e olhou para Elrond atônito, seu queixo havia caído deixando a boca totalmente aberta. Parecia que o pai tinha decidido reservar aquele momento para lhe fazer profecias. Elrond riu e Estel acabou rindo também. De certa forma a conversa com o pai o havia consolado mais do que ele imaginava que qualquer conversa fosse capaz de fazê-lo.
"Obrigado, ada." Ele disse sorrindo levemente.
"Pelo que, ion nîn?"
O guardião baixou os olhos voltando a olhar para o príncipe, cujo sono agitado parecia incomodá-lo.
"Por ser um pai para mim." Ele disse retirando alguns fios teimosos do rosto do amigo. "Um pai de verdade. Nem todos têm essa sorte."
Elrond sorriu, buscando apenas pelas palavras positivas que ouvira. Ele não queria mais falar em Thranduil, ele não queria mais se lembrar do rei de Lasgalen.
"Obrigado a você, criança." Ele disse recebendo um olhar questionador do filho a sua frente. "Obrigado por dar-me essa possibilidade e honra."
E um sorriso largo surgiu na face cansada do dunedain que conseguia sentir-se Estel novamente. Era tudo o que ele queria, sentir-se inteiro, sentir-se o homem que sempre foi. Seus olhos brilharam e ambos voltaram então a olhar o jovem adormecido naquela tarde escura. O guardião soltou um longo suspiro, mas quando se voltou viu que Elrond estava ajeitando outro manto em forma de travesseiro ao lado do rapaz. Ficou confuso ao ver o pai se deitando.
"O senhor está bem, ada?"
"Sim." Respondeu o elfo sorrindo e puxando uma parte da manta de Legolas para cobrir-se aproximando-se dele até seus corpos estarem juntos. Ele não queria deixar o menino só, deixá-lo enfrentando aquele frio aterrador que o consumia. Ele precisava manter um elo com o jovem, até que este se sentisse forte novamente para fazer com que seu espírito voltasse a lutar. "Mas meu coração e minha mente pedem um pouco de descanso, para que eu possa pensar com mais clareza depois."
Dizendo isso o elfo passou um braço ao redor do corpo de Legolas que tremia visivelmente, mas o rapaz virou-se em um sobressalto e Elrond ergueu novamente o braço esperando que voltasse a se acalmar. O príncipe não acordou, apenas encostou a cabeça no ombro do curador em um sono agitado.
"Ada, eu não quero ir" ele disse em seus pesadelos. "Me perdoe. Não me odeie. Eu não tive a intenção."
Elrond e Estel se olharam com tristeza e o pai alisou os cabelos do elfo carinhosamente.
"Ele não te odeia, criança." Garantiu o curador ao jovem adormecido. "Ele odeia a si mesmo por te amar demais."
Estel soltou um longo suspiro e o silêncio encheu o local enquanto os elfos a sua volta armavam o acampamento aguardando o anoitecer. Ele ainda ficou ali por mais alguns instantes até perceber os olhos semi abertos do pai perderem o brilho e constatar que também ele tinha adormecido.
&&&
Quando Legolas acordou estava novamente em sua cama em Rivendell. A primeira imagem que viu foi a da mesma árvore que tanto amava acenando-lhe da janela. Não era primavera e por isso ela não podia presenteá-lo com as flores vermelhas e seu maravilhoso perfume como havia feito na última vez que ele estivera ali. Mas só a presença daqueles galhos e folhas já alegrava o coração do elfo.
Olhando ao redor ele teve a leve sensação de que tudo fora um sonho. De que ele nunca havia saído dali, não havia passado aqueles anos de solidão e sofrimento como Squirrel e, acima de tudo, não havia ouvido o pai dizer-lhe as coisas que dissera.
Ele ergueu o corpo e sentou-se tentando descobrir quem poderia estar lhe fazendo companhia naquela manhã, haja vista que nunca era deixado sozinho quando estava ferido. Mas não viu ninguém. Colocou então os pés para fora da cama, mas quando se levantou teve uma dolorosa vertigem e agarrou-se na cabeceira sem voltar a sentar-se. Quanto tempo teria dormido? Ele não sabia. De repente sentiu um braço envolver-lhe a cintura e alguém segurar sua mão.
"Levantar agora não é muito conveniente.." Disse a voz musical de Elrond enquanto tentava fazê-lo sentar-se de novo, mas Legolas recusava-se.
"Por favor, meu senhor." Ele disse enquanto tentava firmar-se em pé. "Não quero passar mais dias em Rivendell nessa cama."
Elrond riu, mas mesmo assim o obrigou a sentar-se empurrando suas pernas para baixo das cobertas e ajeitando os travesseiros para que ele pudesse ficar sentado confortavelmente.
"Até as flores têm seu tempo para desabrocharem, criança".Ele disse caminhando até a mesa lateral e voltando com uma caneca nas mãos. "Dê a seu corpo todo o tempo que ele precisa e ele lhe retribuirá quando for necessário." Completou aproximando o líquido dos lábios do rapaz que bebeu sem contestar. Ele tinha sede e aquela mistura lhe fazia bem, embora não reconhecesse seu gosto. "Mesmo porque você não dorme há tanto tempo assim."
Legolas ofereceu um sorriso triste enquanto tentava evitar o mar de lembranças que estava inundando sua mente naquele momento, mas parecia inevitável. O devastador frio que o perturbava ainda estava presente, enquanto ele se via lá, de volta a Rivendell, de volta de onde saíra há tantos anos, de volta à mesma cama, ao mesmo quarto. Só que as coisas eram diferentes dessa vez. Dessa vez ele voltara como servo do Lorde de Imladris. E era esse o papel de sua vida daqui em diante.
A sua frente Elrond sentou-se, lançando-lhe um olhar cheio de significados.
"Meu senhor...". Ele iniciou inseguro, mas o curador ergueu uma das mãos fazendo-o se calar.
"Lamento, mas preciso ir, tenho assuntos a tratar com Glorfindel que acaba de chegar de uma expedição, mas antes preciso acertar alguns detalhes com você, jovem Legolas".
O arqueiro se assustou com o tom diferente da voz do lorde elfo.
"O que quiser, meu senhor."
Elrond então olhou fundo nos olhos do príncipe.
"Eu sou o senhor dessas terras, você sabe disso..." iniciou o elfo, sua voz tinha austeridade e um certo tom de tirania.
"Sim, senhor." Legolas sentiu o corpo gelar ainda mais ao responder.
"Ninguém tem mais poder do que eu aqui, certo?"
"Sim, senhor." Continuou.
"Você, agora vivendo sob o meu teto, fará as coisas ao meu modo, correto? Obedecerá ao que eu lhe disser sem questionamentos, concorda?"
Os olhos do rapaz brilharam ao ouvir as palavras do elfo. Ele estava usando um tom que nunca usara antes e Legolas não entendia. Ele não imaginava que o fato de não ser mais quem era influenciaria tanto na maneira com que o lorde de Imladris o trataria.
"Responda-me rapaz".Insistiu o curador.
"Sim, senhor".Ele respondeu hesitante, baixando os olhos.
"Qualquer coisa que eu lhe disser que faça você o fará sem questionamentos, compreende?"
Legolas apertou os punhos assustado, encolhendo-se levemente na cama.
"Compreende?" Insistiu o mestre. Seus olhos fixos no rapaz como se o quisessem hipnotizar.
"Si... sim, senhor." Balbuciou o arqueiro.
"Tudo. Em qualquer circunstância, contra quem quer que seja." Completou o elfo fazendo com que suas palavras soassem mais ásperas, implacáveis.
Legolas voltou a tremer muito. Seus olhos brilharam e lágrimas começaram a se formar. Ele não conseguia entender o que se passava e estava com medo.
"Vou ter que ficar me repetindo para que você me responda, menino?" Indagou o curador impaciente.
"Na..na... não... senhor." Tentava responder o jovem elfo escondendo ao máximo o temor que sentia.
"Então?"
"Sim, senhor."
"Sim, senhor? Sim, senhor o quê?" Insistiu mais uma vez o curador. Lábios impacientemente apertados e sobrancelhas franzidas.
"Eu... eu... farei o que... o que o senhor mandar... mestre." Responde com um grande esforço o rapaz abaixando a cabeça e não conseguindo conter mais as lágrimas que lhe escapavam.
Elrond sorriu e então ergueu as mãos segurando o rosto de Legolas. Sua expressão transformara-se novamente na que o arqueiro sempre conhecera.
"Menino tolo." Disse olhando aquelas poças azuis. Seu coração arrependia-se do que tinha feito, mas ele sabia que era necessário. "Faria mesmo qualquer coisas que eu lhe pedisse?" Ele indagou em um tom paciente que apesar de confundir o arqueiro lhe trazia uma estranha paz. Legolas respirou fundo mordendo o lábio inferior e acenando positivamente com a cabeça.
Elrond sorriu um sorriso triste.
"Eu acredito. E é o que mais temo. Temo por sua fidelidade."
O queixo do rapaz caiu levemente. Não conseguia entender o que o mestre estava dizendo.
"Sou... seu servo meu senhor." Ele disse num tom que partiu o coração do curador.
"Criança. Minha criança amada."
"O senhor me... me comprou do meu pa... do rei..." Disse o rapaz soluçando levemente agora, novas lágrimas o incomodavam. De tudo o que acontecera, o fato do pai tê-lo vendido para Elrond, fora o golpe final. Ele não queria estar ali, ele queria estar morto, mas sentia que tinha uma obrigação de honra a cumprir. Uma obrigação que não poderia ficar para trás.
As feições de Elrond se transformaram. Um grande remorso pareceu expressar-se nelas.
"Eu não lhe comprei, menino..." Disse o curador. "Seu pai não lhe vendeu."
"Ele me vendeu, senhor." Retrucou então o elfo soltando finalmente o rosto das mãos do curador em uma rebeldia compreensível. "Eu ouvi."
"Legolas..."
"Olhe." Disse então segurando a mecha de cabelos cortada e voltando a soluçar. A imagem parecia se fazer real para ele como se tivesse acabado de se concretizar. "Eu não sou mais nada... sou um... não sou ninguém... não posso ser um guerreiro... não...".
E aquelas palavras o dominaram fazendo-o encolher-se na cama em prantos novamente. Por que continuar? Por que tentar entender o que estava mais do que claro? Por que tentar encontrar explicações onde não havia nenhuma?
Elrond quis tocar-lhe, mas ele se esquivou encolhendo-se mais na cabeceira da cama.
"Não compreende porque sofre, criança. Sua visão embaçada pelas lágrimas que derrama o impede de ver." Disse o lorde. "Se não sofresse tanto as coisas ficariam mais claras para você."
"Não compreendo... o quê?" Indagou o elfo entre soluços.
Elrond finalmente voltou a tocá-lo puxando levemente o rosto do arqueiro e fazendo-o olhar para ele.
"Não compreende que ele te colocou sob minha guarda pelo mesmo motivo que o levou a aprisioná-lo."
Legolas pendeu a cabeça enxugando as lágrimas. Ele queria entender, mas temia a resposta, temia voltar a ter esperanças.
"Ele quer protegê-lo."
"Proteger-me?" Indagou o menino numa voz fraca. "Proteger-me do que?"
"De muitas coisas... inclusive dele mesmo."
A confusão se tornou insuportável e o menino balançou a cabeça cansado, colocando ambas as mãos por sobre o rosto. Aquilo não fazia sentido. Não fazia sentido algum. Elrond sentia que o rapaz já tinha dado tudo de si e precisava descansar. Ele levantou-se e começou a puxar os travesseiros atrás do elfo.
"Deite-se e durma mais um pouco, criança." Ele disse, percebendo que o rapaz o obedecia sem questionamento novamente, deitando-se de costas e enxugando o resto das lágrimas que haviam molhado seu rosto.
"Legolas." Ele chamou segurando novamente o rosto do rapaz. "Legolas, olhe para mim." O arqueiro obedeceu. "Eu fiz esse teste com você porque queria ver a que nível sua fidelidade poderia chegar, entende?" O elfo acenou levemente com a cabeça, mas no fundo não sabia se realmente compreendia onde o curador queria chegar. "Queria fazer seu coração reagir, clamar por sua independência, ter forças para lutar."
"Senhor." Ele disse tentando agora conter as lágrimas. "Eu sou seu servo." Ele atestou reforçando a segunda palavra. "E não me envergonho de cumprir essa tarefa a qual meu pa... o rei me incumbiu. Eu já lhe causei muitos aborrecimentos. Permita-me recompensá-lo um pouco apenas."
Elrond riu novamente.
"Menino tolo. Toda a eternidade pela frente e acha que me deve algo. Eu é que lhe devo e nunca vou poder pagar-lhe, porque uma lição aprendida não tem preço."
Legolas franziu o rosto novamente. O cansaço pesando-lhe as pálpebras. O que havia naquela água?
"Eu aprendi minha lição. E expressando-a as avessas para você hoje ela ainda se fez mais clara."
"Lição?"
"Sim, criança. Eu aprendi que não sou líder aqui, eu não sou o senhor de ninguém, eu não sou mais poderoso que meu querido amigo Glorfindel e melhor do que isso: eu não quero ser, eu não quero ser o senhor de terras, o senhor de um povo, senhor de coisa alguma... Legolas, Legolas, Legolas, criança a quem amo como um filho... eu não quero ser o seu senhor..."
O jovem elfo desprendeu os lábios. O ar inteiro fugia-lhe dos pulmões e não queria mais voltar. Ele não acreditava que fosse chorar novamente.
"Então ion nîn. Pelo amor que eu sei que você tem por mim, permita-me escolher que papel eu quero ter em sua vida. Permita-me ser quem eu quero ser, permita-me ser Elrond, seu amigo e seu segundo pai."
Aquilo era tortura. Foi o pensamento do arqueiro. Só podia ser. Ele não podia aceitar aquilo. Não queria aceitar aquele sentimento bom invadindo-o sem qualquer sobreaviso, obrigando-o a chorar todo o mal que lhe ocupava até que estivesse livre dele.
"Permita-me." Pediu novamente o curador. "Permita-me."
Legolas sentia que ia explodir. Ele queria agarrar aquela esperança, queria muito acreditar em tudo o que o mestre lhe dissera, acreditar que o pai o amava, acreditar que não era uma simples mercadoria, acreditar que ainda era Legolas Greenleaf.
"Não faça isso comigo, meu mestre." Ele implorou.
Elrond franziu as sobrancelhas.
"Não fazer o quê, criança? O que estou fazendo a você?"
"Eu... eu não quero mais." Ele disse desistindo de enxugar as lágrimas que caiam. "Eu... não quero acreditar... Não me faça acreditar... Deixe-me... deixe-me... ir."
O coração do curador nunca doeu tanto quanto ao ouvir aquelas palavras. Aquela era a pior batalha contra o mal que ele já travara. O espírito do menino estava cansado demais e mesmo assim ele insistia em seguir sozinho seu caminho, ele temia pelos que amava e Elrond não conseguia acreditar que ainda houvesse alguém capaz de tamanho sacrifício.
"Não posso..." Respondeu o curador emocionado, envolvendo o rapaz em seus braços e o levantando para mantê-lo perto do peito, enquanto o embalava suavemente. "Não posso, Las." Ele disse usando o apelido de Legolas pela primeira vez. "Não posso ion nîn. Eu não sei viver sem nenhum de meus filhos."
E então a porta trancada se abriu como se um vento forte a tivesse arrombado. A gota d'água fez a xícara transbordar. Toda aquela situação era demais para o príncipe que amava seu mestre indiscutivelmente. Ouvi-lo tratá-lo com tamanha consideração fora mais do que ele sonhava que pudesse acontecer quando conheceu o grande lorde de Imladris, uma das maiores lendas vivas da Terra Média.
Legolas finalmente se rendeu a todo aquele turbilhão de sentimentos abraçando o curador desesperadamente, agarrando-se aquela esperança mais uma vez, embora temesse tanto pelo futuro que nem sequer conseguia pensar nele. Seu corpo ainda tremia e uma mistura de frio e cansaço o invadia cruelmente.
Elrond sorriu sentindo um grande alívio, como quando um paciente se recuperava milagrosamente e voltava a respirar. Legolas era um de seus pacientes agora e precisava de mais alguns cuidados. Ele o manteve em seus braços embalando-o por mais algum tempo enquanto o rapaz chorava aquelas lágrimas de fel, tentando expulsar de si o mal que o atormentava. Quando finalmente os soluços se converteram em uma respiração ofegante e difícil, o curador voltou a dar-lhe alguma atenção.
"Preciso ouvir aquela resposta sua, só para que meu coração fique leve e em paz." Ele disse ainda embalando o rapaz levemente em seus braços.
"Qual resposta, meu senhor?" Legolas indagou, olhos quase fechados, a respiração acalmando-se, cedendo aos braços do cansaço. Ele não entendia.
"A resposta que nunca deve ser esquecida, lembra-se?" Disse o curador virando o rosto para que pudesse olhar o rapaz nos olhos.
Legolas se sentia exausto, não tinha mais forças e Elrond realmente parecia ter providenciado para que ele dormisse. Seus olhos pesavam cada vez mais, ele se lembrava bem da resposta que o curador queria, mas não se achava capaz de reproduzi-la novamente.
"Devo repetir a pergunta?" Sugeriu Elrond ainda olhando o rapaz. Um riso leve erguia-lhe os cantos dos lábios.
Mas Legolas não respondeu fechando os olhos como se desejasse que o mundo desaparecesse naquele momento.
"Quem é você, criança?"
O rapaz soltou um longo suspiro e seu peito começou a arfar levemente de novo, um efeito rápido que pareceu passar em poucos segundos. O medicamento já o dominava e ele não poderia resistir mais nem que desejasse. Balançou apenas a cabeça sem abrir os olhos, enquanto seus lábios se desprenderam, mas não emitiram nenhum som. O sono dominava-se os sentidos, mas ele ouvia e discernia o que lhe era pedido. As palavras estavam presas, fixas nas paredes de sua mente como se fizessem parte delas.
"Quem é você, criança?" Repetiu o mestre, lábios próximos ao ouvido do rapaz.
"Eu sou... Legolas," Ele disse numa voz de sono e paz, como se estivesse se comunicando com alguém em um lugar muito distante. "Filho do rei..." Ele parou apertando os lábios como se sonhasse e o sonho não fosse bom, mas não sonhava, apenas temia a palavra que se seguiria, a qual não se sentia mais autorizado a usar.
"Vamos, Legolas." Incentivou o curador falando ao ouvido do rapaz semi-acordado. "Quem é você?"
"Sou... filho do rei... Thranduil... do rei Thranduil..." Ele repetiu o nome do pai um pouco mais alto... "Sou... o príncipe da floresta de Mirkwood."
O curador soltou um longo suspiro de alivio e sorriu beijando a testa do menino que finalmente adormecera. Os traços de seu rosto demonstravam uma grande paz, como se aquela sentença fosse um espinho que lhe tivesse sido tirado. Elrond ainda o manteve em seus braços por alguns instantes, depois o deitou de volta na cama cobrindo-lhe e ajeitando-lhe para que tivesse o sono tranqüilo e confortável do qual tanto precisava.
"Eu lhe garanto, ion nîn." Ele disse voltando a beijar a testa do rapaz e depois afastando os rebeldes fios de cabelo que lhe cobriam o rosto. "Vai chegar o dia em que dizer essa frase não vai arrancar-lhe lágrimas dos olhos ou apertar-lhe o coração. Muito pelo contrário. Vai lhe trazer orgulho e felicidade."
Então o curador levantou-se e voltou para a sacada onde estava anteriormente. Ele não sairia dali até que Legolas estivesse fora de perigo
Aqui estou eu lançando um capítulo longo. Perdoem-me. É que começo a arrumar aqui e ali e quando está pronto acho que vai faltar a informação que vem em seguida e aí emendo mais o resto... pronto... fica muito extenso. Mas façam a seu tempo pessoal. Eu vou adorar saber a opinião de vocês, mas sei que é época de provas (minha também) e o pessoal está sem tempo.
Na semana passada chamei o capítulo de "divisor de águas", mas acho que esse tem mais essa função até do que o outro. A fic vai mesmo tomar um novo rumo, vai fazer uma volta para cair no mesmo lugar. Espero que achem interessante.
Agradecimentos sempre:
Às grandes autoras:
Lady-Liebe – Saudades de você. Deve estar estudando muito. Gente leiam as fics da Liebe... Elas vão fazer o seu dia.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Doce amiga. Saudades de sua fic. Mas pelo menos temos vc de volta. Não suma mais.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" tomou um rumo diferente também... muita coisa vai acontecer e não consigo esperar... Quem não está lendo não sabe o que já perdeu. A fic da Myri tem tudo o que se pode esperar. Tem ação, romance, diálogos de efeito, personagens sólidos e poesia!! Leiam!! Ah amiga! MANCHAS VERMELHAS acontece antes de VIDAS E ESPÍRITOS no meu calendário.
Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Doces crônicas que eu amo... Estou sofrendo de saudades delas. Leiam e sofram comigo!! Amiga!! Atualize!!
Vick Weasley: "BITTERSWEET" e "O VINGADOR". O capítulo atual de BITTERSWEET está divino, muito além do que as palavras podem expressar. Leiam e depois me contem se não ficaram sem palavras como eu. Obrigada, amiga! Já li um monte de vezes e agora, escrevendo isso, sinto vontade de ler mais uma vez.
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Essa fic é genial. Um Legolas que é decididamente o oposto do meu, mas de um charme que não dá para descrever. Muito bem escrita. O texto!! Leiam!! Parabéns, amiga!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". A atualização saiu!! E que atualização!! Estou até agora sem rumo. Assim não dá. Com tanta coisa boa para ler eu não vou fazer mais nada da vida. Obrigada por me avisar sobre o capítulo! Eu me odiaria se não o lesse.
Kika-Sama: "APRENDENDO". Ainda é uma das minhas indicações. Personagens muito bem elaborados mesmo, cada qual em seu universo marcante. Estou amando. Atualize logo, amiga!
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" – Último capítulo. Leiam! Estou fazendo a maior pressão para a Chell reescrever essa fic com tudo o que ela não colocou. A idéia que essa escritora de talento teve é invejável. Fiquem de olho nela. Ainda vem muita coisa boa por aí. Estou esperando, amiga!
E a grandes amigas:
Kagura Bakura – Amiga! Saudades
Regina – Saudades também.
Botori – Super obrigada. Vc tem razão. Só mesmo o Elrond...
Leka – E ai? O que achou? O Elrond continua arrasando?
Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – Suas ameaças estão me tirando o sono (risos). Espero que esse capítulo te agrade. Cadê sua fic?.
Aeka – Gente nova se manifestando!! Obrigada. Espero ainda estar agradando.
Syn, the time keeper - obrigada pela review. Pois é.. O coração do Thranduil trabalha de um jeito estranho.
Vamos ver se o Elrond vai mesmo conseguir tirar o Legolas de Mirkwood?
Esse texto agora está revisado pela minha amiga Myri, que muito gentilmente dedica parte do seu tempo precioso para dar uma lida no trabalho final e puxar a minha orelha todas as vezes que mereço. Obrigada, amiga.
24
Quando todos saíram a porta ficou entreaberta e o mesmo ar frio continuava entrando por ela impiedosamente. Legolas, ainda sobre os joelhos, mantinha o olhar fixo naquele caminho e seus olhos, embora voltados para a passagem que agora poderia conduzi-lo a liberdade, pareciam ver muito além.
Elrond aproximou-se devagar, o coração inundado de dor e culpa estava inchado no peito, buscando espaço para se manifestar, tendo dificuldades para bater. Ele ajoelhou-se ao lado do príncipe e receosamente colocou uma mão por sobre seu ombro. Dono que era de um vasto vocabulário das mais variadas palavras de acalanto ele se via mudo, como se a voz que lhe restasse estivesse aprisionada na garganta seca.
Legolas não se esquivou do toque do mestre, mas também não demonstrou qualquer reação. Sua pele alva parecia irreal, como se um feitiço o tivesse transformado em uma estátua de mármore. O curador deixou a mão onde estava por mais algum tempo analisando a figura do rapaz, medindo a dor que o corroia, avaliando suas chances de recuperação. E não pareciam muitas.
"Eu sinto muito, criança." Disse Elrond aquelas palavras com as quais não estava habituado. Ele que sempre ensinara a seus filhos a não se lamentarem pelos rumos que tomavam em suas vidas, desde que apoiados em uma causa maior, estava lá agora, desfazendo suas palavras, desmembrando cada letra que as unia num sentido único, negando tudo o que dissera, arrependendo-se do fundo de seu coração. "Perdoe-me, Legolas."
A única reação do rapaz, porém, foi baixar levemente os olhos tristes que ainda pareciam amargar suas próprias visões, os globos azuis dançavam para ambos os lados como se ele buscasse uma saída para o pesadelo que via a sua frente. Ele não se virou, não relaxou os membros, mal parecia respirar. Havia um frio tão grande em seu ser que Elrond conseguia senti-lo caminhando pelo corpo do rapaz, avançando pela sua mão e atingindo-o também.
"Eu sei que o que vou dizer não vai fazer sentido, criança." Ele continuou deslizando agora a mão pelos músculos rígidos das costas do arqueiro. "Mas esse não é o fim para você e seu pai. Os destinos de vocês dois seguem um caminho em comum e ele precisa de você tanto quanto você precisa dele. Mas o tempo infelizmente será o carcereiro e o carrasco de vocês; e ele será impiedoso, será brutal. A esperança que eu alimento ainda é a de que você seja forte o bastante para suportar mais essa provação."
Legolas não reagiu, mantendo a mesma posição, seus músculos continuavam rígidos apesar da atenção dada pelo amigo. Elrond então soltou um longo suspiro e apoiou ambas as mãos por sobre os joelhos dobrados. Ele queria muito ajudar o menino, mas para isso teria que tirá-lo dali. Ergueu-se e foi até o corredor averiguar se realmente Thranduil efetivara o que prometera. E era fato. A porta do topo da escada estava totalmente aberta e ninguém parecia vigiá-la. Aquelas masmorras subitamente estavam vazias novamente como nunca deveriam ter deixado de estar.
Então o curador regressou para dentro da cela, mas quando a iluminou novamente com o lampião que levara viu uma cena triste. Legolas havia se encolhido novamente em um canto tremendo muito. O curador sentiu o coração pular no peito ao se dar conta de que saíra deixando o rapaz no escuro novamente e correu em sua direção ajoelhando-se perto dele e puxando-o para seus braços.
"Está tudo bem, criança. Estou aqui. Perdoe-me por tê-lo deixado." Disse o mestre percebendo com pesar de que já pedira perdão por seus atos duas vezes em um intervalo muito pequeno de tempo. Algo realmente não estava mais correndo como deveria correr e isso o aborrecia tremendamente. Ele precisava sair dali, recuperar o equilíbrio que perdera vivendo aqueles momentos cruéis.
Elrond engoliu aquelas idéias amargas e resolveu então agir. Tirou seu manto e o jogou por sobre as costas do rapaz segurando-lhe os ombros e fazendo-o levantar-se. O arqueiro obedecia como um autômato deixando o amigo ainda mais preocupado. Por mais paciente e gentil que o nobre Legolas fosse aquele momento não correspondia às reações que demonstrava. Eles seguiram por todo o árduo caminho de volta aos aposentos de Elrond sem verem viva alma, era como se todos fugissem de uma trilha amaldiçoada, pela qual apenas aqueles dois elfos poderiam seguir. Chegando finalmente ao quarto ele entrou receoso trazendo Legolas consigo.
O ambiente estava no mais completo silêncio, mas quando a imagem de ambos tornou-se visível na entrada, as vozes dos filhos extasiados se fez como doce música. Os três vieram na direção deles sorrindo e indagando inúmeras questões as quais o pai apenas escutou, esperando pacientemente que calorosa recepção cessasse enquanto fazia com que o príncipe se sentasse em uma das camas.
Aos poucos Estel, Elrohir e Elladan perceberam que algo havia acontecido e que o fato de Elrond ter conseguido resgatar Legolas do martírio em que estava, provavelmente implicara em um problema muito maior. Os três se aproximaram devagar do amigo assim que o curador o fez sentar-se, se afastando em seguida para buscar uma caneca de água fresca. A falta de reação do jovem elfo de Mirkwood preocupava os irmãos imensamente. Estel colocou-se a seu lado e enlaçou-o com cuidado. Elladan à direita do arqueiro segurava-lhe uma das mãos nas suas e Elrohir ajoelhou-se em frente dele. O silêncio foi impossivelmente cruel, mas ninguém conseguia rompê-lo, por mais força que tivessem, por mais que o desejo clamasse-lhes que o fizessem.
Legolas então baixou os olhos e seu rosto pareceu contorcer-se levemente em um sinal de dúvida e dor. Ele estava olhando para a atadura na mão de Elladan agora. O gêmeo, percebendo o fato, retirou silenciosamente a mão ferida constrangido, mas continuou a segurar a do amigo com a boa. Legolas acompanhou o movimento do elfo moreno, mas não o olhou nos olhos, voltando simplesmente o rosto para a posição inicial com um ar ainda mais triste. Era como se soubesse, de alguma forma, que aquele ferimento tinha relação com a situação na qual ele colocara os amigos.
"Legolas?" Chamou finalmente Aragorn rompendo o silêncio e deslizando a mão suavemente pelo braço do elfo sem receber nenhuma resposta. Ele voltou a olhar os irmãos que nunca lhe pareceram mais idênticos. O ar de ambos era de um mesmo pesar, uma mesma dor.
Elrond voltou com a caneca e algumas folhas pequenas na mão e pediu espaço a Elladan, sentando-se ao lado do arqueiro. O primogênito ergueu-se, mas não se afastou, permanecendo em pé com uma mão por sobre o ombro do gêmeo que estava agachado a seu lado.
Fez-se mais um demorado silêncio enquanto o lorde de Imladris, sentado ao lado do enfermo elfo analisava-lhe atentamente as feições. O frio presente parecia contagiar agora aos demais e o lorde elfo temeu por todos os seus filhos, o rosto dos outros três jovens voltados para o amigo perto deles espelhava a mesma dor por ele sentida, espelhavam a mesma angústia. O mal trilhando novamente o caminho de todos, tornando-se ainda mais poderoso.
Elrond procurou afastar aqueles pensamentos que só faziam com que suas percepções adormecessem, deixando-o mais vulnerável do que a situação permitia. Ele então aproximou uma das miúdas folhas alaranjadas dos lábios do arqueiro e admirou-se ao ver o rapaz abrir levemente a boca e aceitar o medicamento sem qualquer questionamento. Franzindo um pouco as sobrancelhas o lorde sentiu que algo mais estava encoberto naquele dia nublado e que sua agonia não estava permitindo que ele desvendasse o que seria. Intrigado ele observou o rapaz mastigar vagarosamente a erva engolindo-a com dificuldade, depois aproximou a xícara dos lábios do príncipe ainda analisando suas reações.
"Beba, menino." Ele disse e impressionou-se ao ver o arqueiro desprender os lábios e obedecer a ordem novamente sem um argumento sequer, para voltar a mesma posição inicial depois de fazê-lo.
As peças do quebra cabeças estavam se encaixando e criando a figura de um cenário cruel. O curador afastou então a xícara, mas não teve ânimo para se levantar. Embora quisesse muito sair dali, um mar de dúvidas e outras perguntas sem resposta o estava tragando sem piedade.
"Ada..." Disse Estel rompendo a sofrida meditação do pai. Ele não estava agüentando toda aquela angústia. "O que ele tem, ada?"
"O problema não é o que ele tem, ion nîn." Respondeu o lorde elfo ainda olhando o príncipe com carinho enquanto deslizava dois dedos pelas têmporas do rapaz. "O problema e o que falta a ele."
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Na saída do palácio não havia ninguém além do jovem Alagos que fora incumbido de tratar das últimas negociações com o líder de Imladris e que agora acompanhava a partida do grupo com pesar. Ele olhava para o amigo e príncipe com um sentimento de culpa muito semelhante ao amargurado pelo sábio elfo com o qual negociava.
"Espero que o rei tenha sido complacente com você e seus elfos, capitão." Disse Elrond trazendo a atenção do elfo louro. O guerreiro não tirava os olhos da figura abatida que, escondida por sobre o manto de seu mestre, encolhia-se envolvida pelos braços de Aragorn agora.
"Ele não nos culpou." Respondeu o elfo num tom amargo. "Ele culpa apenas o senhor. Disse-nos que o senhor semeia a tempestade, a discórdia e a dor."
Elrond não se abateu com a sinceridade daquele elfo que, apesar de presenciar a cena que o rei fizera, parecia continuar dando a ele total apoio e concordância. Ele optou então pelo silêncio ao invés da defesa. A prudência pede que não se remexa em brasas quando não se deseja uma fogueira novamente.
Foi quando uma voz temperada da mais pura indignação surgiu em sua defesa.
"E ele tem razão." Disse o Elrohir saindo de perto de seu cavalo e voltando a aproximar-se do grupo. Havia surpresa no rosto de todos, inclusive do próprio Elrond que não sabia o quão sensata seria a atitude do seu filho gêmeo mais novo. "Meu pai semeia a discórdia, a tempestade e muitas vezes a dor." Ele completou numa voz firme enquanto se colocava em frente ao louro elfo da guarda real. Elladan, preocupado já se aproximara dele colocando uma mão suavemente por sobre seu ombro. "Ele semeia a discórdia quando a concordância gera a escravidão, a tempestade quando a ausência de vida seca todos os pastos do coração e a dor quando esta é necessária para que a cura se efetive."
Elrond fechou levemente os olhos enquanto as palavras do rapaz banhavam seu coração sedento e seco. Muito mal se espalhava por toda a Arda no momento e sentir o afeto de seus filhos era uma benção incomensurável. Porém aquele não era um momento apropriado para um dos combates retóricos os quais Elrohir tanto apreciava.
"Alagos não intenta nenhuma ofensa contra nossa família, ion nîn." Ele disse com receio de que aquelas palavras do filho principiassem uma nova torrente de discórdia.
Elrohir, porém, não baixou o olhar que fixara no amigo de Legolas. Alagos sentiu que o elfo moreno de Rivendell esperava algo. Esperava uma retratação.
"Foram as palavras de meu rei." Disse o capitão em um tom desafiador, retribuindo o olhar do gêmeo com igual coragem. "E eu, seu súdito, não sou ninguém para questioná-las."
"Em Rivendell todos têm direito a sua própria opinião." Retrucou friamente o gêmeo sentindo o gosto do bom combate deslizar-lhe garganta abaixo e rebrotar em forma das palavras mais cruéis. Ele estava irado e não queria ser piedoso.
Alagos engoliu a pouca saliva que lhe restava e apertou os punhos contrariado.
"Não estão em Rivendell." Disse dando um passo a frente e ficando a menos de um palmo de distância do filho de Elrond. "E não chegarão até lá se não se moverem mais do que falarem. Vocês, elfos de Imladris, falam mais do que agem"
"Meu povo se moveu rápido o bastante para salvá-los nas colinas há alguns dias." Provocou Elrohir.A resposta exata a atiçar-lhe os nervos.
"Basta." Disse então Elrond aproximando-se e puxando o filho pelo braço numa indelicadeza que não lhe era peculiar. Elrohir lançou um olhar de indignação ao pai, cuja retribuição foi tão pouco motivadora que o jovem elfo aquietou-se na mesma hora baixando a cabeça e afastando-se com o irmão.
Alagos não pôde deixar de expressar um riso estranho.
"Parece que vocês não têm tanto direito a opinião própria quanto imaginam." Ironizou o jovem capitão de Mirkwood sentindo uma agradável sensação de vitória ao ver seu opositor ser obrigado a baixar a guarda diante do pai tal qual uma criança pequena e travessa. Elrohir, porém, não compartilhou da satisfação do outro elfo voltando-se imediatamente ao ouvir aquelas palavras.
Mas Elladan estava em seu caminho e fez com que sua presença intensificasse as vontades do pai, segurando o contrariado irmão. Ares de revolta e contrariedade envenenavam o ar já tão carregado de Mirkwood.
"Não, irmão".O gêmeo mais velho disse apertando levemente o braço que agora segurava.
Elrohir respirou fundo olhando nos olhos de Elladan de uma forma que o gêmeo nunca vira seu irmão fazer. Um ódio doente fazia com que aqueles olhos escuros brilhassem de forma estranha e pouco natural. O primogênito, porém, ergueu o escudo de sua alma não se permitindo atingir. Aquele era Elrohir. Era seu irmão que estava apenas cansado e desgostoso, nada além disso. Ergueu assim uma mão apoiando-a aberta por sobre o peito do mais novo, por sobre aquele coração que batia fervorosamente e fazendo com que ambas as energias se encontrassem. O ódio de Elrohir e o amor de Elladan ao se misturarem, voltaram a gerar a paz que lhes faltava. A química perfeita da mãe natureza realizando seus feitos. Elrohir então compreendeu, esvaziando os pulmões e baixando os olhos novamente. Depois voltou a encarar o irmão com um olhar arrependido e apoio a mão por sobre a dele que ainda estava em seu peito.
Elrond olhou a cena com seus olhos de curador e vidente e, ao ver o que apenas ele via, ao ver os filhos despidos de suas máscaras como quando eram crianças, ele sentiu uma nova esperança. Iluvatar dando-lhe seus recados. Esse era o papel dos elfos na Terra Média, sempre fora e sempre será. E, enquanto soubesse da existência daqueles dispostos a desempenhá-lo, o caminho para os portos cinzentos ainda estaria distante para ele.
"Disciplina e consideração caminham juntas, nobre guerreiro." Disse então o curador voltando-se novamente para Alagos cujo queixo erguido e uma arrogância similar a de seu rei pareciam transformar-lhe a bela face. "Bem como obediência e medo. Por isso é necessária uma grande sabedoria para se escolher a quais desses conjuntos se curvar."
O sorriso de Alagos desapareceu e seus punhos voltaram a se fechar.
"O senhor e seus filhos fazem insinuações demais." Contestou o elfo apertando levemente os lábios numa careta de indignação. "Falam por meias palavras deixando vários vazios sem serem preenchidos. Começo a acreditar que meu rei tem razão quando diz que são responsáveis pelo que aconteceu a nosso príncipe."
Elrond sentiu-se ferido com o fundo de verdade que estava por trás daquelas palavras, mas não demonstrou. Era impressionante o quão amado Thranduil era por seu povo. Suas atitudes não eram só inquestionáveis, elas eram simplesmente respeitadas como se não fossem destinadas a apreciação, análise e concordância.
"Acredite, jovem Alagos." Disse o curador. "Crie as crenças que quiser, mas deixe que a verdade as estruture, se não estará construindo uma casa em um brejo alagado, em um pântano de lama e lodo."
Foi então que Alagos odiou Elrond ainda mais. Ele não sabia o porquê e não queria se questionar a respeito, ele só queria selar os lábios daquele meio-elfo como seu rei desejava, mas, por alguma razão inexplicável, não o fizera. Sua mente pensou que talvez se ele o fizesse, se erguesse a espada naquele momento e calasse aquela criatura de língua bifurcada, ele teria paz e traria paz ao reino no qual vivia. Ele veria novamente seu rei sorrir.
E enquanto criava aquela cena trágica em sua mente o elfo sequer percebeu que sua mão já estava por sobre a espada e seus olhos de ódio desigual não abandonavam os de sua vítima. O rancor e a ira guiavam seus sentidos, entorpeciam sua razão.
"Maldito." Ele disse entre os dentes dando um passo adiante, mas encontrando alguém para impedi-lo, alguém que ele não esperava. Legolas havia se desprendido dos braços de Estel e estava agora a sua frente. Alagos empalideceu só por sentir o olhar do príncipe nele. Anos da infância que viveram juntos, das brincadeiras aprendendo a acertar o alvo no primeiro lance, da maturidade cheia de conflitos, da inocência roubada nas batalhas das fronteiras, vieram a sua mente envolvendo seu coração em um embrulho sufocante. Legolas fixou os olhos tristes nos do amigo apoiando então as mãos em seus ombros. O cansaço se fazia visível na face do príncipe e o frio de suas mãos fez com que o capitão estremecesse. O ódio, outra vez confrontado pelo afeto mais antigo do que tudo, fez-se paz novamente e toda a indignação esvaeceu-se do semblante do guerreiro. Tudo o que ele conseguiu fazer foi puxar o amigo para si num abraço roubado, numa atitude que ele sabia que o rei não aprovaria, num ato de rebeldia. A consideração superando o medo, como Elrond havia dito. Ele decidira se curvar ao primeiro conjunto.
Mas ao manter agora o amigo próximo como podia de si Alagos sentiu mais do que nunca o frio que aquele corpo emanava e um grande temor invadiu-lhe o coração. O espírito de Legolas estava definhando, ele estava desistindo.
"Não..." Ele disse ao ouvido do amigo que abraçava. A palavra cheia de significados, de intenções, que retratava seu puro desespero diante do mar sem fim de dor e sofrimento que os vinha atingindo. Ele não queria muitas coisas, não queria sentir o ódio e o medo corroerem seu coração, não queria levar seus soldados para a morte, não queria ver seu rei amargando a solidão dos poderosos, não queria perder seu príncipe. Ele não queria muitas coisas, coisas tão cruéis que sequer conseguiram fazerem-se palavras na boca do capitão.
"Não..." Ecoou o príncipe em resposta. A palavra distante que parecia sair de dentro de seu próprio peito sem passar pela boca tinha outros significados. Não havia desespero nela, apenas cansaço, cansaço de muitos níveis, cansaço sem medidas e sem possibilidades de recuperação. Ele tentou apertar o amigo um pouco mais em seus braços, mas estava sem forças, então apenas se manteve ali por mais alguns instantes sentindo algo que sabia que não voltaria a sentir, sentindo o cheiro da madeira e das matas de Mirkwood nos cabelos dele, sentindo o abraço de um dos seus. Depois afrouxou os braços levemente dando a entender a Alagos que ele precisava deixá-lo ir e o capitão afastou-se com tristeza, a obediência com a qual estava acostumado, mas de seus olhos baixos escorriam caminhos molhados adornando-lhe o rosto. A dor da separação e o medo do destino que se escondia mais uma vez da visão de todos.
Legolas sentiu uma pequena vertigem ao se ver novamente só, mas logo dois braços vieram auxiliá-lo. Aragorn o envolvia com carinho, braços fortes garantindo-lhe equilíbrio e calor. Eles trocaram olhares e o guardião lhe ofereceu um sorriso triste ao qual Legolas não foi capaz de retribuir, inclinando-se apenas e balançando levemente a cabeça em agradecimento. O guardião, porém, apertou-o um pouco mais forte não se importando com o frio que emanava do corpo do príncipe, não se importando com os que estavam a sua volta e Legolas, sentindo a força do amigo, deixou-se ficar naquele abraço pacificamente a espera do grande nada que parecia estar lhe espreitando.
Era um dia triste, e o céu cinzento anunciava que as nuvens impacientes não estavam dispostas a comportar uma gota a mais da água que evaporava. Alagos observou o amigo voltar a afastar-se apoiado em Aragorn, a quem também conhecia. Ele sempre se admirara da amizade que se desenvolvera entre os dois. Na verdade nunca conseguira entender como Thranduil, que tudo conseguira do filho durante toda a sua existência, não havia sido capaz de convencer o príncipe a evitar o convívio com aquele dunedain. Alagos se lembrava bem de todas as conversas que tivera com o amigo e do quão fiel ele demonstrava ser ao humano de Rivendell. Aquela amizade estava além da compreensão de qualquer um, mas agora oferecia ao capitão uma luz de esperança na recuperação do príncipe que os deixava, oferecia a ele algo para amenizar aquela sensação de impotência que sentia, pior do que mil batalhas perdidas. Ele não conseguia sequer imaginar a idéia de ver seu amigo definhar, embora aquela certeza do futuro próximo e cruel estivesse temperando seu coração com ervas amargas.
Um suspiro involuntário fugiu-lhe da garganta enquanto ele se virava e, sem perceber, voltava a encarar o antigo oponente. Elrond ainda o olhava, mas aqueles olhos acinzentados não tinham nenhum ar provocador ou irônico, muito pelo contrário, eram olhos de solidariedade, como se o curador estivesse lendo todos os pensamentos que atemorizavam sua mente agora. Alagos quis dizer-lhe algo, quis pedir-lhe que tomasse conta de Legolas, que não o deixasse desistir, que o ajudasse no que fosse preciso. O inimigo como tábua de salvação, mais uma ironia nos desajustes do destino. Mas Elrond sorriu levemente antes mesmo que o elfo de Mirkwood pudesse converter seu desespero em uma só palavra. O lorde de Imladris sabia quais eram aqueles sentimentos sem que sentenças precisassem traduzi-los e já oferecia sua resposta não verbal também, poupando assim a ambos de futuros desentendimentos gerados por idéias mal expressas ou compreendidas.
Alagos respirou um pouco mais fundo, sem saber se aquele alívio que sentia era fruto de esperança ou desistência e se afastou, inclinando-se em uma breve reverência. Um sinal de que era chegada a hora do grupo deixar Mirkwood.
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A princípio os irmãos discutiam para saber no cavalo de quem o jovem Legolas viajaria, já que não tinha forças para cavalgar, mas Elrond simplesmente passou por eles e subiu em seu cavalo estendendo os braços para Estel em quem Legolas se apoiava.
"Deixe que ele venha até mim, Estel." Instruiu o lorde numa voz triste enquanto olhava para o arqueiro.
Aragorn olhou para os irmãos e depois para Legolas, que mais uma vez pareceu não precisar de nenhuma instrução para obedecer à ordem ainda não formulada. Ele dirigiu-se vagarosamente em direção ao cavalo do mestre e Elrond laçou seus ombros ajudando-o a subir e sentar-se a sua frente.
Elrond voltou a sentir o frio que emanava do corpo do príncipe, mas não fez qualquer comentário, a não ser as palavras que sempre lhe ocorriam naqueles momentos e nas quais ele esperava que Legolas ainda acreditasse.
"Vai ficar tudo bem." Ele sussurrou no ouvido do rapaz enquanto ajeitava-lhe o manto para tentar protegê-lo um pouco do frio encostando-o em seu peito. "Confie em mim. Faça-me digno de sua confiança por mais algum tempo."
Legolas estremeceu levemente. Era a primeira reação que demonstrava desde que saíra da cela onde estava. Ele queria muito desistir, mas ao sentir Elrond ali próximo dele, ao se lembrar de todo o sacrifício que o curador e seus filhos fizeram, das coisas que o lorde e Estel ouviram do rei, das outras inúmeras vezes em que aquelas mesmas palavras foram necessárias, ele se sentiu culpado. Sentiu-se culpado por tudo e também pelo fato de querer desistir. Ele não tinha esse direito. Não tinha nem sequer esse direito. Um novo tremor correu-lhe o corpo e ele então sentiu os braços de Elrond o enlaçarem com mais força e uma de suas mãos segurarem a dele oferecendo-lhe um pouco de calor. Legolas não resistiu mais, aceitando o conforto oferecido e encostando-se levemente no peito do mestre enquanto sentia sua mente vagar e suas pálpebras quererem fechar as cortinas que deveriam ficar abertas, o medicamento do curador finalmente parecia fazer algum efeito.
Em um último esforço o príncipe procurou olhar uma vez mais a sua volta antes de sair definitivamente de Lasgalen, da terra onde tudo o que era vivo ganhara um nome para ele, da terra por onde corria quando criança, por onde se escondia nas brincadeiras com a mãe, da terra que era seu lar. Legolas ergueu novamente os olhos, voltando-os para o palácio que nada mais era do que um retrato de seu pai. O arqueiro não gostava de viver nele, mas se lembrava do quanto ele simbolizava a figura do rei das inúmeras vezes que, chegando de uma longa patrulha, deliciava-se com a visão daquelas paredes brancas que acolhiam a pessoa mais importante de sua vida. O palácio não era nada, mas ele gostava de se lembrar dele pelo que continha em seu interior, pela pessoa a qual abrigava e de quem agora ele havia sido separado definitivamente.
Entretanto como se fosse um sonho, ou um delírio qualquer, ao deslizar seus olhos cansados por aquelas janelas e portas, Legolas teve uma visão que não esperava. Em uma das sacadas do palácio uma imagem conhecida se fez real: o rei olhava diretamente para onde estavam com um ar indecifrável. Parecia... triste? Legolas balançou levemente a cabeça e julgou estar enganado, mas olhando melhor percebeu algo ainda mais estranho: aquela sacada era a do quarto onde ele dormia no palácio, era a sacada do quarto do príncipe. Mas não houve tempo para questionamentos ou respostas. Elrond instruiu o cavalo a começar sua marcha e a figura do pai ficou para trás, bem como os muros de Mirkwood.
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Foi uma viagem cansativa. Na primeira oportunidade que tiveram, depois que os elfos da floresta deixaram o grupo, Elrond e seus filhos pararam para acampar com os elfos de Rivendell que haviam vindo escoltar seu líder. Estel adiantou-se e foi fazer uma fogueira enquanto Elladan e Elrohir cuidavam dos cavalos. Elrond ajudou Legolas a sentar-se e lhe ofereceu um pouco de água a qual o jovem aceitou agradecendo com um leve aceno de cabeça. Em seguida abriu sua bolsa de suprimentos e retirou algumas ervas.
"Tire a camisa para mim." Ele pediu numa voz suave. "Deixe-me colocar algo em seus ferimentos".
Mas Legolas subitamente laçou os braços em volta do corpo fazendo com que Elrond se surpreendesse ao ver que ele não tinha intenção de fazer o que lhe fora sugerido.
"Tire, criança." Ele insistiu.
Mas foi em vão. Legolas abanou a cabeça e fechou os olhos. Lágrimas começaram a correr por seu rosto. Ele queria obedecer, sabia que devia obedecer agora. Mas não se sentia disposto a encarar novamente suas feridas, abertas ou sãs, não tinha mais energia para observar o rosto preocupado do curador enquanto este lhe dava assistência mais uma vez. Já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha chorado nos últimos tempos. Queria que aquilo tudo acabasse, não agüentava mais sofrer assim.
Elrond arrastou-se vagarosamente para perto dele e abraçou-o fazendo encostar-se em seu peito e deitar a cabeça em seu ombro. Mas o carinho do mestre não se fez consolo naquele momento, o corpo do rapaz passou a tremer com mais força e logo suas lágrimas se transformaram em soluços enquanto ele se agarrava à túnica do curador. Elrond abraçou-o com delicadeza, não queria piorar suas feridas, mas queria dar-lhe algum carinho. O choro de Legolas não era o mesmo das outras vezes que ele o vira chorar. Não era um choro de tristeza ou dor, não era um choro de dúvidas, era um choro de agonia e desespero.
Os irmãos viram de longe a cena e vieram aproximando-se devagar. Elrond lançou-lhes um olhar triste e preocupado e depois voltou a falar palavras de conforto para o príncipe. Os três agacharam-se perto do amigo e cada qual colocou a mão nele devagar, chamando-lhe o nome e garantindo-lhe que as coisas iriam melhorar. Mas dessa vez nada parecia fazer com que o príncipe recobrasse a paz. Elrond pediu então que Estel despejasse um pouco de água em uma caneca e jogasse nela um pó avermelhado que ele trazia em um pequeno frasco. O filho obedeceu mexendo devagar a mistura e a entregando para o pai.
"Tome, beba isso".Ofereceu o curador aproximando a caneca do rosto do rapaz em seu peito. Mas ele agitou-se mais em seu desespero e afastou-se, ainda em prantos, apoiando uma das mãos no chão e cobrindo os olhos com a outra. Estava tudo errado para ele naquele momento e o jovem simplesmente não conseguia voltar a si por mais que tentasse. Agora que o desespero inicial se dissolvia e ele se vira fora de Mirkwood novamente, todo o restante dos acontecimentos ganhavam uma outra dimensão ainda maior. As palavras do pai, as tranças, laços invisíveis que o prendiam a terra natal, cortadas, as ameaças, a estranha negociação que os dois elfos mais importantes de sua vida fizeram, tudo ia e vinha em sua mente criando um rodamoinho tenebroso de imagens e dor, causando-lhe tremores ainda mais fortes, tremores incontroláveis que lhe roubavam agora o ar, que pareciam envenenar seu sangue e seu espírito. Elrond voltou a segurá-lo. Os outros começaram a se agitar.
"Ele vai ter uma convulsão, ada." Gritou Elladan muito preocupado. Nunca tinha visto Legolas assim.
"Não pode..." Disse Elrohir para si mesmo enquanto olhava todos a sua volta desesperado. "É um elfo..."
Muito da dor do espírito ainda era desconhecido para todos.
O arqueiro continuava a tremer muito e agitava a cabeça nos braços de Elrond. O curador mantinha as costas do jovem encostadas em seu peito e segurava-lhe a testa com a palma da mão tentando fazê-lo aquietar-se. Mas não estava conseguindo nenhum resultado.
"Criança, você precisa beber o calmante." Ele dizia gesticulando para que Estel aproximasse a caneca novamente dos lábios do rapaz, enquanto ele o segurava. O guardião procedeu como lhe fora pedido, mas Legolas não queria beber, seu corpo tremia tanto que mesmo se o quisesse não conseguiria, seus lábios estavam se arroxeando.
"Ada!" Gritou o guardião apoiando uma mão na perna do amigo, cujo corpo agora se enrijecia tal qual uma árvore antiga.
Elrond soltou um leve suspiro procurando acalmar o espírito e o coração e sentiu-se mais uma vez sem escolha. Ele deslizou então a mão que segurava o tronco do rapaz para o meio do peito que arfava dolorosamente e com a outra cobriu os olhos muito abertos do príncipe. Em seguida falou-lhe ao ouvido algumas palavras em uma língua antiga, Quênia talvez, os filhos não tinham forças para tentar entender, e como em um passe de mágica o corpo do elfo parou de tremer e ele se aquietou completamente. Os irmãos se entreolharam perplexos, ali estava um procedimento que o pai nunca lhes havia ensinado. Mas Elrond não deu nenhuma explicação, apenas olhou para Estel, gesticulando com a cabeça para que o guardião aproximasse novamente a caneca dos lábios de Legolas. Dessa vez o jovem elfo bebeu todo o líquido sem fazer nenhuma objeção. Mas Estel percebeu que seu corpo estava rígido e que ainda havia leves tremores. Então Elrond fechou os olhos por alguns instantes e depois disse novas palavras ao ouvido do rapaz e todos viram seu corpo voltar a relaxar. O lorde elfo deslizou o jovem para que deitasse a cabeça em seu colo e olhou no fundo dos olhos azuis dele. Havia um grande cansaço ali, como se o rapaz tivesse acabado de voltar de uma guerra terrível.
"Me perdoe, filho." Disse o curador alisando os cabelos do jovem arqueiro. O terceiro pedido de perdão que saia de sua boca e o mais amargurado de todos. "Não tive outra escolha que fosse menos prejudicial para você".
Legolas não respondeu, apenas pendeu a cabeça para o lado devagar, os olhos voltados para o nada, encarando o grande muro do sono.
Um sorriso aliviado surgiu então na face do curador ao ver que Legolas dormia finalmente o sono dos elfos, mas ele não teve tempo para aquietar novamente o espírito, ao erguer os olhos encontrou o olhar inquisidor dos filhos.
"Como fez isso, ada?" Quis saber Estel, que não conseguia guardar uma pergunta para si, enquanto deslizava seus grandes olhos azuis pelo corpo do elfo adormecido, para depois voltá-los para o pai. Suas sobrancelhas arcadas demonstravam todo o conflito que o humano sentia dentro de si.
"É!" Adicionou Elrohir um pouco irado. "Que truque é esse que nunca nos ensinou?"
O sorriso de Elrond alargou-se um pouco e ele balançou a cabeça. Também se sentia cansado.
"Magias e feitiços, Elrohir". Ele respondeu encarando o rapaz. "Você devia saber que nem tudo é usado para brincadeiras nessa terra."
O rosto do mais novo dos gêmeos enrubesceu como nunca enrubescera antes. Então o pai sabia que ele havia lido o livro que proibira. O jovem baixou imediatamente seus olhos escuros envergonhado, mas o sábio pai segurou-lhe a mão e o fez olhá-lo novamente.
"O que eu fiz hoje, crianças." Ele iniciou chamando a atenção dos três. "Não deve ser feito, não é um procedimento correto e eu só fiz uso dele porque meus conhecimentos não foram suficientes para que eu pudesse ver outra escolha melhor. Por isso vocês não devem se questionar a respeito."
"Mas, ada" protestou Elladan pela primeira vez. Tudo o que dizia respeito à arte da cura era de seu grande interesse.
Elrond olhou para o primogênito entendendo sua angustia. Então voltou os olhos para o rosto do elfo louro deitado em seu colo e seu semblante mudou.
"Elladan," Disse por fim fitando o filho com tristeza. "O que eu fiz foi aprisionar o espírito de Legolas por alguns instantes. O corpo dele se aquietou, mas em sua mente eu criei um grande desespero. Eu o fiz viver uma situação de angústia ainda pior, atirando-o em um lugar escuro e frio. Por isso procurei fazê-lo o mais rápido possível e mesmo assim ainda estou me questionando se tinha o direito de tê-lo feito".
Os três filhos voltaram a se olhar e, embora ainda fascinados pelo novo "truque" que presenciaram, sentiram mais pelo elfo que agora dormia.
"O que deu a ele?" Indagou Elrohir ainda um pouco abalado pelas últimas descobertas. "Sedativo?"
"Um calmante leve." Respondeu Elladan no lugar do pai. "Não o faria dormir se ele não estivesse tão cansado e abatido."
Houve mais alguns momentos de silêncio até que os gêmeos, ao verem que a situação estava sob controle, decidiram voltar ao que estavam fazendo. Erguendo-se ao mesmo tempo eles se afastaram em seu caminhar compassado sendo observados pelo pai e pelo irmão com simpatia. Uma família eles eram, na qual um novo membro ingressara.
Elrond baixou os olhos mais uma vez deslizando os dedos pelos curtos fios de cabelo que restaram das tranças que Legolas perdera. Era doloroso ver como Thranduil havia deixado os belos cabelos do rapaz. Estavam sem forma, fios longos e curtos misturavam-se, desalinhados como a própria vida do príncipe. Ele não pôde deixar de pensar em como poderia trançá-los para que aquela desordem fosse escondida, embora temesse que esconder um mal não o neutralizasse, muito pelo contrário, talvez o reforçasse.
Com a ajuda de Estel ele ergueu levemente o corpo de Legolas para substituir o seu por um manto dobrado como um travesseiro. O curador não conseguia parar de olhar o rapaz com um sentimento de culpa terrível pelo que havia feito. Só esperava que, quando acordasse, o menino não se lembrasse do pesadelo que vivera.
Estel cobriu-o com uma manta e sentou-se também perto dele, analisando os traços no pálido rosto do príncipe que agora fechara os olhos e se agitava levemente em seus sonhos. Momentos de paz eram realmente curtos. Ele pensou olhando para o pai que, ao perceber também que Legolas havia caído novamente em um sono mortal, baixou os olhos soltando um suspiro triste.
"Não entendo..." Disse o guardião em voz alta, embora falasse consigo mesmo. Ele pensava nas cruéis acusações de Thranduil que povoavam sua mente, fazendo-o reviver aquelas cenas todas mais uma vez. Elrond percebeu a tristeza nos olhos do filho e notou que ela não dizia respeito só à situação em si, ela encobria muito mais fatos, o passado e o futuro inteiro da vida de seu filho dunedain.
"As pessoas dizem e fazem todos os tipos de barbaridades quando estão fora de si, quando estão perdendo o controle de uma situação ou quando se sentem impotentes, ion nîn." Ele declarou olhando o guardião com afeto. Não sabia o que incomodava o filho, poderiam ser muitas coisas ou todas elas misturadas. "O que você viu esses dias, criança, é mais uma prova de que a insensatez pode atingir a membros de todas as raças, e que ela se torna muito mais séria quando o indivíduo é detentor do poder. Não se esqueça disso. Você principalmente não pode esquecer, porque também você um dia estará numa situação de poder muito parecida com a de Thranduil, você também será tentado pelo mal e terá que resistir".
Aragorn sobressaltou-se com a dureza das palavras proféticas do pai. Quando o elfo havia começado a falar ele esperava apenas ouvir as mesmas palavras de consolo e carinho de sempre, mas dessa vez não fora assim. Elrond mais uma vez atingira a ferida certeiramente como se lesse de fato os pensamentos do filho. O guardião se sentiu transparente diante do pai. Lágrimas brotaram em seus olhos enquanto a amarga expectativa de futuro que lhe fora traçada voltara a importunar-lhe. Agora que via Legolas aos cuidados de sua família novamente, ele não pôde evitar que as outras preocupações que assombravam sua vida voltassem a erguer obstáculos para sua felicidade. O povo de Gondor, de Rohan... vilas entregues a miséria... a ganância dos homens... o assombroso desenvolvimento e expansão da raça orc, entre outras obscuridades que ainda não ganhavam sentido para ele, se fizeram presentes em seu pensamento mais uma vez, como durante todos os últimos anos desde que soubera da verdade, desde que descobrira quem era. Ele mordeu os lábios com força enquanto inconscientemente segurava a mão de Legolas acariciando-a devagar. Ele queria que o príncipe estivesse bem, o amigo era um dos poucos com quem ele conseguia se abrir, falar sobre seus conflitos, suas tristezas, sem se sentir um fraco, um covarde.
"Queria que ele ficasse bom..." Lamentou-se. "Sinto falta de nossas conversas. Sinto falta da paz que tínhamos".
Elrond sorriu solidariamente enquanto lembranças vinham lhe visitar...
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Estel sentava-se comodamente no chão da varanda de casa. Uma chuva forte caia em Rivendell como não acontecia há muitos anos. Glorfindel, sentado um pouco mais adiante em uma confortável cadeira almofadada, balançava a cabeça devagar um tanto inconformado com o rio de água que abençoava a pequena cidade há dias.
Elrond, em pé perto da escada, mãos cruzadas nas costas, parecia gostar do som que ouvia.
"Não acha que já foi o bastante?" Indagou o amigo num suspiro forçado enquanto olhava para as costas do curador.
Estel riu observando as feições do pai. Ele entendia o que o louro elfo insinuava. Ele queria que Elrond usasse seu anel, usasse Vilya para conter o incômodo que acontecia. Mas o paciente lorde de Imladris parecia ter outros planos.
"Desista, Glorfindel." Disse o guardião num sorriso enquanto ascendia o cachimbo displicentemente, esticando as pernas no chão da varanda. Elrond lançou-lhe um olhar reprovador ao qual o filho decidiu ignorar tragando o fumo doce e sorrindo para o pai.
"Estel!" Indignou-se o lorde franzindo as sobrancelhas como lhe era peculiar. "Poupe nosso precioso ar!"
"Ah, ada." Aborreceu-se o guardião dando mais uma tragada e soltando argolas de fumaça para o aborrecimento maior do pai. "Não posso fumar lá fora, uma tempestade nos está afogando." Ele ironizou olhando para Glorfindel que apertou os lábios automaticamente voltando a olhar para o dilúvio que ocorria.
Elrond voltou-se para responder, mas apenas ofereceu um breve sorriso curvando-se agora para a figura que vinha fazer-lhes companhia.
"Como vai, jovem príncipe?" Indagou o curador.
Legolas retribuiu o sorriso cumprimentando os três presentes com uma graciosa reverência.
"Bem, meu senhor."
"Sente-se aqui, Legolas." Convidou Estel apontando para o chão a seu lado.
"Estel! Onde estão os seus modos?" Indagou Glorfindel inconformado. "Convidar o príncipe para sentar-se no chão? E ao lado de uma chaminé poluidora como você?"
O guardião sentiu-se ofendido pelo tom do amigo de seu pai. Ele gostava de brincadeiras, mas não queria ferir a imagem que Legolas tinha dele.
"Desculpe, príncipe Legolas." Disse então baixando levemente a cabeça e apagando o cachimbo.
Legolas riu e atirou-se no chão ao lado do amigo impressionando a todos. Estel arregalou os olhos surpreso.
"Não me importo com isso, Estel, meu grande amigo." Ele disse fixando seus olhos claros nos do guardião. "Para quem dorme em árvores o chão limpo da casa de seu pai é muito convidativo." Ele sorriu cruzando as pernas e fazendo uma pequena pausa. Subitamente um leve traço de ironia enfeitou-lhe os olhos. "Mas a fumaça do cachimbo realmente é algo que dispenso." Ele completou com um riso musical.
Estel o acompanhou rindo também e envolvendo o amigo em um abraço.
"Certo." Ele disse dando um leve aperto no ombro do elfo. "Por você eu faço esse sacrifício." Ele completou olhando para Glorfindel que balançou novamente a cabeça voltando a encarar o mal tempo que parecia ter piorado ainda mais.
Elrond observava a cena incrédulo. O príncipe de Mirkwood, filho do poderoso Thranduil Oropherion estava sentado no chão de sua varanda abraçado a seu filho humano. Uma cena que ele não imaginaria ver em dez milênios. Cada dia que passava sua admiração por Legolas crescia. Ele decididamente não tinha traço algum da personalidade do pai.
"Diga-me, jovem Legolas." Ele disse atraindo a atenção do rapaz. "A chuva o incomoda?"
Legolas voltou seus olhos para a paisagem do dia e sorriu.
"Não senhor. Mesmo cinza Imladris é uma das terras mais belas de toda a Arda." Ele respondeu em um sorriso que subitamente pareceu esconder alguma tristeza. "Só..." Mas a frase se perdeu e Legolas abraçou os joelhos um tanto incomodado.
"Só..." Incentivou o curador.
O príncipe levantou os olhos receoso e o curador sentiu alguma coisa partir em seu coração ao olhar para aqueles olhos. Uma grande história estava por trás deles e não era feliz.
"Só lamento não poder ir até o grande eucalipto." Ele disse olhando mais uma vez para o tempo triste que se firmava mais cruel. Se o senhor me permitisse entrar pela cozinha ou trocar minhas roupas na varanda dos fundos..." Ele acrescentou inocentemente, e Elrond percebeu que até nesse aspecto a chuva não era um problema para o jovem elfo, mas sim o medo de aborrecer o anfitrião que tão bem o recebia. "Não me importo em me molhar e..."
Elrond sorriu erguendo uma mão para silenciar o rapaz. Em seguida virou-se para a saída da varanda e um longo silêncio se fez. Ninguém ousava emitir um som sequer que desconcentrasse o poderoso lorde de Imladris. Legolas olhou a sua volta confuso. Estel esfregava as mãos olhando o pai ansiosamente e Glorfindel ofereceu-lhe um sorriso enigmático. Algo estava para acontecer e o príncipe sentiu um frio na espinha causado pelo receio de não saber o que seria.
De repente um longo suspiro se ouviu e Elrond fechou seus olhos respirando profundamente. Os traços em seu rosto se suavizaram devagar, ele ergueu a palma e um estranho brilho se fez. Em poucos instantes a chuva diminuiu sua intensidade, cascatas de água se transformaram em pingos grossos e depois em gotículas solitárias para finalmente restar apenas uma névoa molhada na paisagem. Rastros de sol surgiram por entre as nuvens acrescentando uma magia ao quadro que se formava. As gotas de água nas árvores brilharam como pequenas luzes anunciando os tempos da bonança.
"Acho que elas já beberam o bastante." Disse então o curador voltando-se para encarar o olhar admirado do príncipe que, mesmo sabendo dos poderes daquele lorde elfo, jamais sonhara presenciar um acontecimento desses."
Legolas ficou mudo, as palavras tinham todas se perdido a caminho da boca, que agora pendia completamente aberta. Elrond riu despertando o príncipe que finalmente percebera que sua admiração estava evidente demais.
"Pode ir, criança." Disse o curador erguendo um pouco o braço e indicando o caminho para a escadaria. Ele se sentia surpreso por instintivamente tratar o elfo de Mirkwood com um termo que reservava apenas para seus filhos.
Legolas sorriu abertamente, um sorriso que Elrond não o havia visto oferecer a ninguém até agora. De certa forma, o pequeno favor pareceu pesar de uma maneira diferente no coração do rapaz.
"Obrigado, meu senhor." Disse então o príncipe erguendo-se de imediato e correndo para fora.
E fez-se a vez de Elrond se admirar. Ele deu alguns passos para perto da saída e deliciou-se com a cena do louro elfo correndo até a velha árvore. Ele tinha algo dentro de si que o curador não conseguia definir, mas que lhe fazia muito bem.
"Abençoado." Disse o lorde para si mesmo vendo o rapaz colocar ambas as mãos na árvore e abaixar a cabeça em respeitosa reverência, pedindo permissão para aproximar-se, para compartilhar de sua energia.
Glorfindel levantou-se e colocou-se ao lado do amigo.
"O oposto do pai, completamente." Ele atestou.
"Oposto não." Corrigiu o mestre. "Seu complemento."
Estel sorriu sentindo que o pai parecia diferente. Como nos dias que passava em sua biblioteca com algum exemplar raro recebido de amigos distantes. Elrond parecia extasiado, folheando as páginas de um livro novo.
"Gosto dele, ada." Disse o guardião. "Ele não parece um príncipe."
"Parece, ion nîn." Discordou o elfo curador. "É exatamente como um príncipe deve ser."
E o filho sorriu saboreando a lição que o dia lhe reservara. Elrond e suas verdades. Quando voltou os olhos novamente para Legolas viu o elfo lhe acenando de longe.
"O quê?" Gritou despertando uma grande agonia nos dois lordes que nunca se acostumariam com o comportamento do único humano de Rivendell.
Mas, para a surpresa dos dois, Legolas gritou em resposta.
"Venha, Estel." Foram as palavras do elfo louro de Lasgalen, enquanto sorria e movimentava novamente as mãos. "A grande árvore permitiu que você suba hoje. Corra!"
Estel não coube em si de felicidade, saindo em disparada, os degraus mal sentiram seus pés e o guardião correu como quando era criança e se divertia nos jardins de Imladris, todas as suas preocupações desapareceram e ele nem se lembrou de pedir a opinião do pai. Glorfindel franziu as sobrancelhas e sorriu vendo os dois se encontrarem. O céu e a terra enlaçados em uma harmonia quase divina. Legolas subiu e estendeu a mão para o amigo que a aceitou e logo os dois desapareceram na enorme copa da mais antiga árvore de Imladris.
"Ele não é boa influência." Brincou o louro lorde ainda sorrindo.
Elrond não se voltou, ainda admirando o que vira, guardando carinhosamente cada cena em sua lembrança e agradecendo a dádiva recebida.
"Não, não é." Disse então. "Ele é melhor do que isso."
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Elrond despertou daquele sonho bom e surpreendeu-se ao ver o filho também perdido em recordações. A coincidência dos fatos parecia fazer com que ambos relembrassem um mesmo momento bom em um passado tão turbulento.
"Se eu tivesse um filho como Legolas" Disse o guardião por fim. "O faria saber o quanto eu o amo todos os dias."
Elrond riu.
"A primeira criança que será colocada em seus braços e que um dia te chamará de pai será um menino, com um bom coração como o de Legolas. Por isso não esqueça de suas palavras".
Aragorn teve um novo sobressalto e olhou para Elrond atônito, seu queixo havia caído deixando a boca totalmente aberta. Parecia que o pai tinha decidido reservar aquele momento para lhe fazer profecias. Elrond riu e Estel acabou rindo também. De certa forma a conversa com o pai o havia consolado mais do que ele imaginava que qualquer conversa fosse capaz de fazê-lo.
"Obrigado, ada." Ele disse sorrindo levemente.
"Pelo que, ion nîn?"
O guardião baixou os olhos voltando a olhar para o príncipe, cujo sono agitado parecia incomodá-lo.
"Por ser um pai para mim." Ele disse retirando alguns fios teimosos do rosto do amigo. "Um pai de verdade. Nem todos têm essa sorte."
Elrond sorriu, buscando apenas pelas palavras positivas que ouvira. Ele não queria mais falar em Thranduil, ele não queria mais se lembrar do rei de Lasgalen.
"Obrigado a você, criança." Ele disse recebendo um olhar questionador do filho a sua frente. "Obrigado por dar-me essa possibilidade e honra."
E um sorriso largo surgiu na face cansada do dunedain que conseguia sentir-se Estel novamente. Era tudo o que ele queria, sentir-se inteiro, sentir-se o homem que sempre foi. Seus olhos brilharam e ambos voltaram então a olhar o jovem adormecido naquela tarde escura. O guardião soltou um longo suspiro, mas quando se voltou viu que Elrond estava ajeitando outro manto em forma de travesseiro ao lado do rapaz. Ficou confuso ao ver o pai se deitando.
"O senhor está bem, ada?"
"Sim." Respondeu o elfo sorrindo e puxando uma parte da manta de Legolas para cobrir-se aproximando-se dele até seus corpos estarem juntos. Ele não queria deixar o menino só, deixá-lo enfrentando aquele frio aterrador que o consumia. Ele precisava manter um elo com o jovem, até que este se sentisse forte novamente para fazer com que seu espírito voltasse a lutar. "Mas meu coração e minha mente pedem um pouco de descanso, para que eu possa pensar com mais clareza depois."
Dizendo isso o elfo passou um braço ao redor do corpo de Legolas que tremia visivelmente, mas o rapaz virou-se em um sobressalto e Elrond ergueu novamente o braço esperando que voltasse a se acalmar. O príncipe não acordou, apenas encostou a cabeça no ombro do curador em um sono agitado.
"Ada, eu não quero ir" ele disse em seus pesadelos. "Me perdoe. Não me odeie. Eu não tive a intenção."
Elrond e Estel se olharam com tristeza e o pai alisou os cabelos do elfo carinhosamente.
"Ele não te odeia, criança." Garantiu o curador ao jovem adormecido. "Ele odeia a si mesmo por te amar demais."
Estel soltou um longo suspiro e o silêncio encheu o local enquanto os elfos a sua volta armavam o acampamento aguardando o anoitecer. Ele ainda ficou ali por mais alguns instantes até perceber os olhos semi abertos do pai perderem o brilho e constatar que também ele tinha adormecido.
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Quando Legolas acordou estava novamente em sua cama em Rivendell. A primeira imagem que viu foi a da mesma árvore que tanto amava acenando-lhe da janela. Não era primavera e por isso ela não podia presenteá-lo com as flores vermelhas e seu maravilhoso perfume como havia feito na última vez que ele estivera ali. Mas só a presença daqueles galhos e folhas já alegrava o coração do elfo.
Olhando ao redor ele teve a leve sensação de que tudo fora um sonho. De que ele nunca havia saído dali, não havia passado aqueles anos de solidão e sofrimento como Squirrel e, acima de tudo, não havia ouvido o pai dizer-lhe as coisas que dissera.
Ele ergueu o corpo e sentou-se tentando descobrir quem poderia estar lhe fazendo companhia naquela manhã, haja vista que nunca era deixado sozinho quando estava ferido. Mas não viu ninguém. Colocou então os pés para fora da cama, mas quando se levantou teve uma dolorosa vertigem e agarrou-se na cabeceira sem voltar a sentar-se. Quanto tempo teria dormido? Ele não sabia. De repente sentiu um braço envolver-lhe a cintura e alguém segurar sua mão.
"Levantar agora não é muito conveniente.." Disse a voz musical de Elrond enquanto tentava fazê-lo sentar-se de novo, mas Legolas recusava-se.
"Por favor, meu senhor." Ele disse enquanto tentava firmar-se em pé. "Não quero passar mais dias em Rivendell nessa cama."
Elrond riu, mas mesmo assim o obrigou a sentar-se empurrando suas pernas para baixo das cobertas e ajeitando os travesseiros para que ele pudesse ficar sentado confortavelmente.
"Até as flores têm seu tempo para desabrocharem, criança".Ele disse caminhando até a mesa lateral e voltando com uma caneca nas mãos. "Dê a seu corpo todo o tempo que ele precisa e ele lhe retribuirá quando for necessário." Completou aproximando o líquido dos lábios do rapaz que bebeu sem contestar. Ele tinha sede e aquela mistura lhe fazia bem, embora não reconhecesse seu gosto. "Mesmo porque você não dorme há tanto tempo assim."
Legolas ofereceu um sorriso triste enquanto tentava evitar o mar de lembranças que estava inundando sua mente naquele momento, mas parecia inevitável. O devastador frio que o perturbava ainda estava presente, enquanto ele se via lá, de volta a Rivendell, de volta de onde saíra há tantos anos, de volta à mesma cama, ao mesmo quarto. Só que as coisas eram diferentes dessa vez. Dessa vez ele voltara como servo do Lorde de Imladris. E era esse o papel de sua vida daqui em diante.
A sua frente Elrond sentou-se, lançando-lhe um olhar cheio de significados.
"Meu senhor...". Ele iniciou inseguro, mas o curador ergueu uma das mãos fazendo-o se calar.
"Lamento, mas preciso ir, tenho assuntos a tratar com Glorfindel que acaba de chegar de uma expedição, mas antes preciso acertar alguns detalhes com você, jovem Legolas".
O arqueiro se assustou com o tom diferente da voz do lorde elfo.
"O que quiser, meu senhor."
Elrond então olhou fundo nos olhos do príncipe.
"Eu sou o senhor dessas terras, você sabe disso..." iniciou o elfo, sua voz tinha austeridade e um certo tom de tirania.
"Sim, senhor." Legolas sentiu o corpo gelar ainda mais ao responder.
"Ninguém tem mais poder do que eu aqui, certo?"
"Sim, senhor." Continuou.
"Você, agora vivendo sob o meu teto, fará as coisas ao meu modo, correto? Obedecerá ao que eu lhe disser sem questionamentos, concorda?"
Os olhos do rapaz brilharam ao ouvir as palavras do elfo. Ele estava usando um tom que nunca usara antes e Legolas não entendia. Ele não imaginava que o fato de não ser mais quem era influenciaria tanto na maneira com que o lorde de Imladris o trataria.
"Responda-me rapaz".Insistiu o curador.
"Sim, senhor".Ele respondeu hesitante, baixando os olhos.
"Qualquer coisa que eu lhe disser que faça você o fará sem questionamentos, compreende?"
Legolas apertou os punhos assustado, encolhendo-se levemente na cama.
"Compreende?" Insistiu o mestre. Seus olhos fixos no rapaz como se o quisessem hipnotizar.
"Si... sim, senhor." Balbuciou o arqueiro.
"Tudo. Em qualquer circunstância, contra quem quer que seja." Completou o elfo fazendo com que suas palavras soassem mais ásperas, implacáveis.
Legolas voltou a tremer muito. Seus olhos brilharam e lágrimas começaram a se formar. Ele não conseguia entender o que se passava e estava com medo.
"Vou ter que ficar me repetindo para que você me responda, menino?" Indagou o curador impaciente.
"Na..na... não... senhor." Tentava responder o jovem elfo escondendo ao máximo o temor que sentia.
"Então?"
"Sim, senhor."
"Sim, senhor? Sim, senhor o quê?" Insistiu mais uma vez o curador. Lábios impacientemente apertados e sobrancelhas franzidas.
"Eu... eu... farei o que... o que o senhor mandar... mestre." Responde com um grande esforço o rapaz abaixando a cabeça e não conseguindo conter mais as lágrimas que lhe escapavam.
Elrond sorriu e então ergueu as mãos segurando o rosto de Legolas. Sua expressão transformara-se novamente na que o arqueiro sempre conhecera.
"Menino tolo." Disse olhando aquelas poças azuis. Seu coração arrependia-se do que tinha feito, mas ele sabia que era necessário. "Faria mesmo qualquer coisas que eu lhe pedisse?" Ele indagou em um tom paciente que apesar de confundir o arqueiro lhe trazia uma estranha paz. Legolas respirou fundo mordendo o lábio inferior e acenando positivamente com a cabeça.
Elrond sorriu um sorriso triste.
"Eu acredito. E é o que mais temo. Temo por sua fidelidade."
O queixo do rapaz caiu levemente. Não conseguia entender o que o mestre estava dizendo.
"Sou... seu servo meu senhor." Ele disse num tom que partiu o coração do curador.
"Criança. Minha criança amada."
"O senhor me... me comprou do meu pa... do rei..." Disse o rapaz soluçando levemente agora, novas lágrimas o incomodavam. De tudo o que acontecera, o fato do pai tê-lo vendido para Elrond, fora o golpe final. Ele não queria estar ali, ele queria estar morto, mas sentia que tinha uma obrigação de honra a cumprir. Uma obrigação que não poderia ficar para trás.
As feições de Elrond se transformaram. Um grande remorso pareceu expressar-se nelas.
"Eu não lhe comprei, menino..." Disse o curador. "Seu pai não lhe vendeu."
"Ele me vendeu, senhor." Retrucou então o elfo soltando finalmente o rosto das mãos do curador em uma rebeldia compreensível. "Eu ouvi."
"Legolas..."
"Olhe." Disse então segurando a mecha de cabelos cortada e voltando a soluçar. A imagem parecia se fazer real para ele como se tivesse acabado de se concretizar. "Eu não sou mais nada... sou um... não sou ninguém... não posso ser um guerreiro... não...".
E aquelas palavras o dominaram fazendo-o encolher-se na cama em prantos novamente. Por que continuar? Por que tentar entender o que estava mais do que claro? Por que tentar encontrar explicações onde não havia nenhuma?
Elrond quis tocar-lhe, mas ele se esquivou encolhendo-se mais na cabeceira da cama.
"Não compreende porque sofre, criança. Sua visão embaçada pelas lágrimas que derrama o impede de ver." Disse o lorde. "Se não sofresse tanto as coisas ficariam mais claras para você."
"Não compreendo... o quê?" Indagou o elfo entre soluços.
Elrond finalmente voltou a tocá-lo puxando levemente o rosto do arqueiro e fazendo-o olhar para ele.
"Não compreende que ele te colocou sob minha guarda pelo mesmo motivo que o levou a aprisioná-lo."
Legolas pendeu a cabeça enxugando as lágrimas. Ele queria entender, mas temia a resposta, temia voltar a ter esperanças.
"Ele quer protegê-lo."
"Proteger-me?" Indagou o menino numa voz fraca. "Proteger-me do que?"
"De muitas coisas... inclusive dele mesmo."
A confusão se tornou insuportável e o menino balançou a cabeça cansado, colocando ambas as mãos por sobre o rosto. Aquilo não fazia sentido. Não fazia sentido algum. Elrond sentia que o rapaz já tinha dado tudo de si e precisava descansar. Ele levantou-se e começou a puxar os travesseiros atrás do elfo.
"Deite-se e durma mais um pouco, criança." Ele disse, percebendo que o rapaz o obedecia sem questionamento novamente, deitando-se de costas e enxugando o resto das lágrimas que haviam molhado seu rosto.
"Legolas." Ele chamou segurando novamente o rosto do rapaz. "Legolas, olhe para mim." O arqueiro obedeceu. "Eu fiz esse teste com você porque queria ver a que nível sua fidelidade poderia chegar, entende?" O elfo acenou levemente com a cabeça, mas no fundo não sabia se realmente compreendia onde o curador queria chegar. "Queria fazer seu coração reagir, clamar por sua independência, ter forças para lutar."
"Senhor." Ele disse tentando agora conter as lágrimas. "Eu sou seu servo." Ele atestou reforçando a segunda palavra. "E não me envergonho de cumprir essa tarefa a qual meu pa... o rei me incumbiu. Eu já lhe causei muitos aborrecimentos. Permita-me recompensá-lo um pouco apenas."
Elrond riu novamente.
"Menino tolo. Toda a eternidade pela frente e acha que me deve algo. Eu é que lhe devo e nunca vou poder pagar-lhe, porque uma lição aprendida não tem preço."
Legolas franziu o rosto novamente. O cansaço pesando-lhe as pálpebras. O que havia naquela água?
"Eu aprendi minha lição. E expressando-a as avessas para você hoje ela ainda se fez mais clara."
"Lição?"
"Sim, criança. Eu aprendi que não sou líder aqui, eu não sou o senhor de ninguém, eu não sou mais poderoso que meu querido amigo Glorfindel e melhor do que isso: eu não quero ser, eu não quero ser o senhor de terras, o senhor de um povo, senhor de coisa alguma... Legolas, Legolas, Legolas, criança a quem amo como um filho... eu não quero ser o seu senhor..."
O jovem elfo desprendeu os lábios. O ar inteiro fugia-lhe dos pulmões e não queria mais voltar. Ele não acreditava que fosse chorar novamente.
"Então ion nîn. Pelo amor que eu sei que você tem por mim, permita-me escolher que papel eu quero ter em sua vida. Permita-me ser quem eu quero ser, permita-me ser Elrond, seu amigo e seu segundo pai."
Aquilo era tortura. Foi o pensamento do arqueiro. Só podia ser. Ele não podia aceitar aquilo. Não queria aceitar aquele sentimento bom invadindo-o sem qualquer sobreaviso, obrigando-o a chorar todo o mal que lhe ocupava até que estivesse livre dele.
"Permita-me." Pediu novamente o curador. "Permita-me."
Legolas sentia que ia explodir. Ele queria agarrar aquela esperança, queria muito acreditar em tudo o que o mestre lhe dissera, acreditar que o pai o amava, acreditar que não era uma simples mercadoria, acreditar que ainda era Legolas Greenleaf.
"Não faça isso comigo, meu mestre." Ele implorou.
Elrond franziu as sobrancelhas.
"Não fazer o quê, criança? O que estou fazendo a você?"
"Eu... eu não quero mais." Ele disse desistindo de enxugar as lágrimas que caiam. "Eu... não quero acreditar... Não me faça acreditar... Deixe-me... deixe-me... ir."
O coração do curador nunca doeu tanto quanto ao ouvir aquelas palavras. Aquela era a pior batalha contra o mal que ele já travara. O espírito do menino estava cansado demais e mesmo assim ele insistia em seguir sozinho seu caminho, ele temia pelos que amava e Elrond não conseguia acreditar que ainda houvesse alguém capaz de tamanho sacrifício.
"Não posso..." Respondeu o curador emocionado, envolvendo o rapaz em seus braços e o levantando para mantê-lo perto do peito, enquanto o embalava suavemente. "Não posso, Las." Ele disse usando o apelido de Legolas pela primeira vez. "Não posso ion nîn. Eu não sei viver sem nenhum de meus filhos."
E então a porta trancada se abriu como se um vento forte a tivesse arrombado. A gota d'água fez a xícara transbordar. Toda aquela situação era demais para o príncipe que amava seu mestre indiscutivelmente. Ouvi-lo tratá-lo com tamanha consideração fora mais do que ele sonhava que pudesse acontecer quando conheceu o grande lorde de Imladris, uma das maiores lendas vivas da Terra Média.
Legolas finalmente se rendeu a todo aquele turbilhão de sentimentos abraçando o curador desesperadamente, agarrando-se aquela esperança mais uma vez, embora temesse tanto pelo futuro que nem sequer conseguia pensar nele. Seu corpo ainda tremia e uma mistura de frio e cansaço o invadia cruelmente.
Elrond sorriu sentindo um grande alívio, como quando um paciente se recuperava milagrosamente e voltava a respirar. Legolas era um de seus pacientes agora e precisava de mais alguns cuidados. Ele o manteve em seus braços embalando-o por mais algum tempo enquanto o rapaz chorava aquelas lágrimas de fel, tentando expulsar de si o mal que o atormentava. Quando finalmente os soluços se converteram em uma respiração ofegante e difícil, o curador voltou a dar-lhe alguma atenção.
"Preciso ouvir aquela resposta sua, só para que meu coração fique leve e em paz." Ele disse ainda embalando o rapaz levemente em seus braços.
"Qual resposta, meu senhor?" Legolas indagou, olhos quase fechados, a respiração acalmando-se, cedendo aos braços do cansaço. Ele não entendia.
"A resposta que nunca deve ser esquecida, lembra-se?" Disse o curador virando o rosto para que pudesse olhar o rapaz nos olhos.
Legolas se sentia exausto, não tinha mais forças e Elrond realmente parecia ter providenciado para que ele dormisse. Seus olhos pesavam cada vez mais, ele se lembrava bem da resposta que o curador queria, mas não se achava capaz de reproduzi-la novamente.
"Devo repetir a pergunta?" Sugeriu Elrond ainda olhando o rapaz. Um riso leve erguia-lhe os cantos dos lábios.
Mas Legolas não respondeu fechando os olhos como se desejasse que o mundo desaparecesse naquele momento.
"Quem é você, criança?"
O rapaz soltou um longo suspiro e seu peito começou a arfar levemente de novo, um efeito rápido que pareceu passar em poucos segundos. O medicamento já o dominava e ele não poderia resistir mais nem que desejasse. Balançou apenas a cabeça sem abrir os olhos, enquanto seus lábios se desprenderam, mas não emitiram nenhum som. O sono dominava-se os sentidos, mas ele ouvia e discernia o que lhe era pedido. As palavras estavam presas, fixas nas paredes de sua mente como se fizessem parte delas.
"Quem é você, criança?" Repetiu o mestre, lábios próximos ao ouvido do rapaz.
"Eu sou... Legolas," Ele disse numa voz de sono e paz, como se estivesse se comunicando com alguém em um lugar muito distante. "Filho do rei..." Ele parou apertando os lábios como se sonhasse e o sonho não fosse bom, mas não sonhava, apenas temia a palavra que se seguiria, a qual não se sentia mais autorizado a usar.
"Vamos, Legolas." Incentivou o curador falando ao ouvido do rapaz semi-acordado. "Quem é você?"
"Sou... filho do rei... Thranduil... do rei Thranduil..." Ele repetiu o nome do pai um pouco mais alto... "Sou... o príncipe da floresta de Mirkwood."
O curador soltou um longo suspiro de alivio e sorriu beijando a testa do menino que finalmente adormecera. Os traços de seu rosto demonstravam uma grande paz, como se aquela sentença fosse um espinho que lhe tivesse sido tirado. Elrond ainda o manteve em seus braços por alguns instantes, depois o deitou de volta na cama cobrindo-lhe e ajeitando-lhe para que tivesse o sono tranqüilo e confortável do qual tanto precisava.
"Eu lhe garanto, ion nîn." Ele disse voltando a beijar a testa do rapaz e depois afastando os rebeldes fios de cabelo que lhe cobriam o rosto. "Vai chegar o dia em que dizer essa frase não vai arrancar-lhe lágrimas dos olhos ou apertar-lhe o coração. Muito pelo contrário. Vai lhe trazer orgulho e felicidade."
Então o curador levantou-se e voltou para a sacada onde estava anteriormente. Ele não sairia dali até que Legolas estivesse fora de perigo
