Olá.!! Como vão vocês? Espero que bem.
Ai ai... mais um capítulo longo. Acho que nem dá mais para pedir desculpas... O Thranduil diria "Sempre tem uma justificativa!!" Mas tem... tem a ver com a seqüência mesmo... Ficaria perdido se fosse menor. Espero que ainda queiram ler e que gostem.
Ah... para os que se aborreceram com o tempo imenso que o Legolas ficou na cama no início da fic eu já adianto que não pretendo repetir a dose agora, por isso não se preocupem.
Agradecimentos sempre:
Às grandes autoras:
Lady-Liebe – Que bom ter notícias suas. Mas fics novas nada né?? Poxa!!
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Amiga... vamos falar de uma fic inacabada da qual estamos sentindo saudades??
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" encontrou a Sociedade do Anel... e foi muito mais do que um mero encontro... foi algo que não tenho condições de descrever, só vocês lendo mesmo... só assim...
Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Amiga!! Não dá mais pra esperar!! Vou explodir de saudades
Vick Weasley: "BITTERSWEET" e "O VINGADOR". Continuo recomendando ambas. Super bem construídas. A Vick escreve com doçura e paixão... uma mistura divina.
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Essa fic é totalmente à parte. E ainda não acredito nas façanhas do Legolas da Ju! Leiam!! Não dá pra perder!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Outra atualização saiu!! Quem não leu... perdeu as cenas mais emocionantes e belas... perdeu... mas ainda há tempo!!
Kika-Sama: "APRENDENDO". Também foi atualizada. Não deixem de ler. Parece que o mundo vai dar uma grande volta na vida de Estel.
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" – Quem ainda não leu essa fic terminada dêem uma olhada com olhos de um leitor comum e não um fã de SdA. Vão ver o quão original é o texto.
E a grandes amigas:
Regina – Saudades.
Botori – Super obrigada.
Leka – Que bom que apareceu!!
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – Cadê sua fic?.
Aeka – Espero que esteja gostando.
Syn, the time keeper - obrigada pela review, amiga!!
Kiannah – obrigada por se manifestar. Fiquei super feliz.
25
Um cantar suave soou em algum lugar. Melodias singelas e sutis. Sons da natureza o chamando para uma conversa em particular. Legolas abriu os olhos, mas não se moveu. Ele sabia onde estava. Pelas cortinas entreabertas entrava uma suave brisa que as fazia balançar levemente. Eram verdes, presentes de lorde Elrond quando o quarto fora definitivamente considerado do arqueiro há muito tempo atrás. Quando aquele deixara de ser o quarto de hóspedes. O curador queria que o aposento trouxesse ao príncipe recordações de Mirkwood. Na época, agora perdida no tempo, não havia a mera hipótese de que esse tipo de lembrança pudesse causar-lhe alguma dor. Mas hoje causavam, o vai e vem daquelas cortinas causava-lhe uma dor enorme.
Mas Legolas se lembrava de outros detalhes também. Junto a triste certeza de que não voltaria mais a sua terra natal, também lhe ocorria que agora não havia mais incógnitas em sua vida, não havia mais medo do futuro, nem expectativas macabras. Tudo o que tinha estava ali. Aquele era seu lugar agora e aquela era sua nova vida. O príncipe fechou novamente os olhos com esse sinal verdadeiro apertando seu coração. Por que não poderia apenas ser feliz? Abraçar aquela vida que lorde Elrond e sua família lhe ofereciam?
Mas mal se formulava a pergunta na mente do arqueiro, sua resposta surgia em todos os lugares, em uma figura vestida num manto verde e marrom, com sua coroa de folhas alinhada nos cachos dourados, com seu ar impiedoso, com sua voz musical. Ele não conseguia esquecer o pai. Não conseguia deixar de pensar que Thranduil agora estava só, sem ninguém que percebesse sua angústia, sem ninguém que tentasse tirá-lo da clausura na qual seu espírito decidira encarcerar-se. Como faria para esquecê-lo? Como faria para arrancá-lo de sua vida como o próprio rei o arrancara da dele? Como ele faria se ainda o amava demais?
"Abra os olhos, criança".A voz musical de seu mestre chamou. "O mundo não vai deixar de girar se você o ignorar".
O príncipe expulsou o ar que lhe restava nos pulmões e obedeceu encontrando o sorriso de Elrond a sua frente. O curador estava contra a luz, o que fazia com que seu semblante ganhasse um quê de poesia. Ele segurava uma caneca nas mãos. Legolas, percebendo o que o mestre trazia, virou o rosto num reflexo imediato.
"Por favor, meu mestre. Não quero dormir mais."
"Não é o que parece." Provocou o lorde elfo.
"Por favor..." Insistiu o arqueiro sem voltar o rosto para a posição inicial.
Elrond colocou a mão por sob o pescoço do rapaz, levantando sua cabeça com cuidado e recebendo um olhar receoso como resposta.
"É só água, ion nîn." Ele informou à aqueles olhos azuis assustados. "Você dormiu vários dias."
O rapaz sobressaltou-se, sentando-se rapidamente e sentindo uma leve vertigem. Elrond segurou-lhe o braço fazendo-o deitar-se de novo.
"Não sem nada no estômago, menino." Ele disse sério.
Legolas ajeitou então cabeça no travesseiro, olhando para o teto que nunca lhe parecera tão branco. Elrond ficou mais alguns instantes traçando o desenho do rosto do menino em sua mente, vendo se transformações tinham ocorrido desde que ele dormira. Seu coração estava preocupado com a fragilidade cada vez mais evidente no rapaz, cujos olhos azuis pareciam sempre guardar um estranho brilho de lágrimas não derramadas, o tom triste de um lago sem peixes, de um lugar esquecido. Ele tinha esperanças de que o sono dos dias de recuperação tivesse feito pelo espírito o mesmo que fizera pelo corpo do príncipe. Mas agora, olhando para aquele rosto pálido, cuja atenção não se direcionava a lugar algum, percebeu que ainda havia muito que fazer.
"Beba, criança." Ele disse estendendo a xícara d'água e ajudando o rapaz a cumprir o que lhe fora pedido.
"Obrigado, senhor." Agradeceu o jovem elfo um tanto constrangido pelo ar preocupado que o mestre lhe lançava.
"Por nada." Sorriu o curador levantando-se e voltando para perto da mesa para depositar a xícara vazia. Seus pensamentos o traiam mais uma vez. Ele julgava que, estando de volta a Imladris, seu espírito também se recuperasse dos tormentos que sofrera, mas percebia finalmente o quanto a sua própria recuperação definitiva estava ligada à de Legolas. Enquanto ele não visse o arqueiro em pé, enquanto não sentisse força novamente naquele espírito abalado, ele mesmo não teria paz.
"Iluvatar me oferece um desafio... ao qual eu me curvo e aceito... Pedindo humildemente que me ajude a realizá-lo e que ao fazê-lo eu também obtenha o meu perdão." Disse o mestre num fio de voz, enquanto apoiava-se na mesa a sua frente.
"Mestre?" A voz de Legolas despertou-o, fazendo-o voltar-se automaticamente para a figura que agora o encarava apoiada em um dos cotovelos, com o semblante refletindo a mais profunda preocupação. O príncipe sentiu subitamente a mudança no mestre e inquieto-se. "Sente-se bem?"
Um sorriso foi tudo o que o curador conseguiu oferecer como resposta. "Estou bem, ion nin. Bem melhor agora de volta a Imladris" Atestou o mestre retornando para perto do paciente e tomando-lhe as mãos frias nas suas. "E, como em todo o estado de graça atingido, eu me preocupo com o futuro".
"Tem problemas, não tem, meu senhor?" Indagou o arqueiro.
"Tenho."
"Posso ajudá-lo?"
Ingenuidade e afeto, dor e angustia. Como aquela mistura excêntrica poderia coexistir em uma mesma pessoa? Indagava-se Elrond sentando-se novamente e sorrindo para o jovem a sua frente. Legolas parecia desconhecer o cerne dos problemas que afligiam a seu mestre, o cerne que na verdade era a própria vida e futuro do príncipe.
"Pode, ion nîn." Respondeu o lorde elfo num tom amável, fazendo o elfo voltar a se deitar. "Você mais do que qualquer um."
O jovem apertou os lábios e encheu o peito de ar. Elrond sentiu as mãos que segurava tremerem levemente e percebeu que ainda não podia forçar demais a sorte. Legolas parecia estar se recuperando, mas não estava curado.
"Assim que melhorar, que estiver completo novamente."
"Não." Retrucou o rapaz levantando levemente a cabeça. "Estou bem, meu senhor. Eu posso ajudá-lo agora. Diga-me o que tenho que fazer e eu o farei."
E o selvagem cavalo do destino e das dúvidas pareceu querer levar o mestre de Imladris para um estranho passeio. Elrond voltou a sorrir, balançando levemente a cabeça. Ao invés de um pedido de ajuda, de uma súplica por salvação, Legolas oferecia seu apoio, sua fidelidade. Todo o mundo parecia girar de uma maneira pouco peculiar ultimamente e Elrond sentiu-se repentinamente sem o chão por sob os pés. Sempre fora uma tarefa árdua combater o mal quando este invade o coração de um elfo. Mas com Legolas era tudo tão diverso. Tão confuso e mais difícil. Elfos cujos espíritos estão enfraquecidos se mantêm quietos, entristecidos e jogados em seu universo de frio e dor. Mas o filho de Thranduil parecia querer infringir a mais essa regra como infringira a todas as outras, mostrando-se a incógnita indecifrável de sempre, oscilando entre o abandono e a reconquista, entre o dar e receber. Ele precisava de atenção, de cuidados, carinho, sentir-se amado para que seu espírito criasse os laços que o manteriam ali, mas ao invés de oferecer espaço para que os amigos lhe proporcionassem esse auxílio, ao invés de mostrar suas debilidades, sua sede dessa energia positiva que aqueles que o amavam poderiam lhe dar, o elfo estufava o peito e parecia tentar esquecer-se de quem era e do que havia passado, para ele estranhamente oferecer aquilo que mais precisava para si.
"Legolas". Disse o curador com seriedade, atraindo ainda mais a atenção do jovem para si. "Para tudo nessa vida existe o momento certo. Você está caminhando em uma árdua estrada de imprevistos e precisa de ajuda nesse momento, para que depois possa oferecer-nos a ajuda da qual precisamos."
"Não, meu mestre." Enfatizou mais uma vez o rapaz como se as palavras de Elrond tivessem caído num poço fundo e nem sequer o eco delas tivesse sido ouvido. "Se existe algo que eu posso fazer eu quero fazê-lo. Instrua-me sobre seus desejos e eu os realizarei a seu modo, senhor."
Elrond franziu a sobrancelha, atingido de repente por uma certeza que tornara as coisas claras até demais. O discurso de fidelidade do príncipe não era um discurso comum. Era um discurso que ele conhecia bem. O senhor de Imladris ainda não tinha perdido o servo que comprara.
"Criança." O elfo utilizou então a palavra que desarmava. "Você se lembra de nossa última conversa? A que tivemos antes de seu sono de recuperação?"
Os traços da fisionomia do rapaz enfraqueceram-se no rosto imóvel e pálido. Ele não se lembrava bem, mas a pergunta finalmente lhe remetera a qual seria o problema que Elrond mencionava. O problema era ele mesmo. Ele era o espinho que incomodava seu mestre e protetor e essa era uma descoberta cruel.
"Eu... não me lembro bem, meu senhor." Receou o rapaz, amargurando a idéia que lhe ocorrera há pouco. "Creio ter dormido... eu... disse algo que... que o ofendeu, mestre?"
Elrond esvaziou os pulmões e relaxou os ombros inconformado. Seu coração estava contrariado, dividido. Alguns sentimentos que habitavam o príncipe ainda eram uma incógnita para ele e o curador não conseguia saber até onde certas lições tinham sido bem compreendidas. Tantos problemas a serem resolvidos, tanta dor deixada para trás sem uma medicação adequada e o jovem elfo estava preocupado se lhe tinha feito algum mal.
"Legolas..."
"Senhor, diga-me..." Insistiu o rapaz por uma resposta. "Sou eu o espinho que o fere? Sou eu também o mal que o atormenta?" E seus olhos transformaram-se em lagoas profundas de escuridão e medo. Espinho que fere, mal que atormenta. Aquelas eram palavras que seu pai utilizara para classificar o poder maligno que a figura do filho exercia sobre ele. Legolas procurou esconder a lembrança, mas as palavras que dissera já o denunciavam de forma impiedosa. Elrond franziu muito o semblante ao ouvi-las, como se tivesse sido esbofeteado inesperadamente.
"Como, criança minha?" Ele questionou, numa voz serena, a figura que agora fechava os olhos e respirava fundo tentando conter a dor que voltava a incomodá-la. "Como alguém como você poderia transmitir tal sensação?"
Legolas começou a balançar novamente a cabeça. O rodamoinho se formando mais uma vez. A escuridão apertando suas garras impiedosas e frias. Suas mãos tremiam, mas ele respirava fundo não parecendo disposto a ceder novamente a pressão a qual era submetido.
"Eu sou o mal..." Ele disse então, apoiando as mãos por sobre o rosto e pressionando as pálpebras com os punhos fechados. Elrond segurou-lhe os pulsos e o forçou a libertá-las.
"Legolas... Legolas... pare... Não desperdice a pouca energia que seu corpo cansado conseguiu recuperar!"
O jovem cedeu então abrindo as palmas e escondendo o rosto por baixo delas agora.
"Diga-me que não sou o mal, meu mestre." Pediu o arqueiro com a voz abafada no rosto escondido. A oscilação mais uma vez presente. A confusão do rodamoinho das idéias, das incertezas tomando o elfo pelas mãos e o fazendo girar. "Eu não quero ser... eu não quero fazer mal a ninguém..."
"Mal?" Questionou o curador apoiando suas palmas abertas sobre as do rapaz e depois as deslocando para fazê-lo mostrar o rosto que sofria.
"Eu não quero que sofra por mim, meu mestre." Admitiu então o jovem sufocado em suas incertezas. "Não quero que sofra por mim como meu pai sofre."
E a imagem de Thranduil voltou novamente a povoar os pensamentos do lorde elfo. O rei e suas concepções sobre o certo e o errado que aos poucos tragavam a vida do filho para um cruel pesadelo, estavam lá de volta, a assombrar a ambos novamente, a tirar-lhes a paz.
"Seu pai sofre porque quer abraçar uma comunidade inteira. Ele é orgulhoso, não quer ajuda... Nunca conheci ninguém como ele, criança." Admitiu o elfo percebendo pela primeira vez que nunca conversara profundamente com Legolas sobre o pai a quem conhecia há bem mais tempo do que o menino. O jovem louro parecia esquecido novamente de sua dor, olhos e ouvidos atentos no mestre. "Ele é tudo o que um elfo não pode ser. Arrogante, teimoso, petulante, mas..."
"Mas..." Legolas insistiu. A esperança que estava em seus olhos chegava a ter um brilho próprio. Tudo o que ele queria era ouvir alguém dizer algo de bom sobre seu pai, alguém que não fosse um súdito que deve obediência e fidelidade ao rei.
"Mas... mas até em seus erros mais absurdos... ele é como você, Legolas..."
O arqueiro franziu as sobrancelhas. Ele esperava ouvir tudo, menos aquelas palavras.
"Como... eu?"
"Sim..." Admitiu o curador receoso agora. Ele não sabia quais seriam as repercussões do que ia dizer. "Como você ele erra tentando acertar..."
Legolas apertou os lábios, uma mistura de dúvida e indignação no olhar. Elrond quis rir da situação em que estava. Como fora parar ali? Como haviam chegado mesmo a aquele assunto? Mas sabia que devia terminar o que tinha começado.
"Legolas... Eu nunca vi um dirigente que arrisca a própria vida em campo de batalha junto a uma simples patrulha de soldados... Eu já vi dirigentes chefiarem seus exércitos em grandes guerras, mas seu pai... ele nunca conseguiu sentar-se no trono que tanto diz ser dele e coordenar as manobras de uma forma segura e coerente como um dirigente faria. Ele tem que estar lá, tem que sentir a espada em suas mãos e resolver tudo com ela. No fundo ele não quer o trono, no fundo o que ele deseja mesmo é ser um guerreiro e não um rei, por isso é tão avesso a diplomacia, porque ele quer resolver tudo com as próprias mãos e métodos."
Os olhos do príncipe voltaram então a se perder na tristeza em que estavam e Elrond não entendeu.
"Legolas? Legolas eu lamento se o ofendi..."
"Não, mestre." Interrompeu o rapaz erguendo os olhos úmidos. "Nunca ouvi tamanha verdade em toda a minha vida, senhor. E nunca uma verdade me fez tão bem. Este é meu pai, exatamente como o senhor de maneira tão sábia o descreveu e de quem tenho grande orgulho justamente pelos motivos que me apresentou."
"Então..." Indagou o curador preocupado enxugando uma lágrima que descia solitária pelo rosto do rapaz.
"Por que, mestre? Por que ele me odeia?"
"Legolas. Isso ainda não ficou claro em sua mente, menino? Ele não te odeia, ele apenas sofre porque quer ter domínio de tudo o que tem e ama e não consegue fazer isso com você."
"Mas eu sempre fui fiel, sempre obedeci a tudo sem questionamentos... eu..."
"Você... você menino é a própria contradição de tudo em que ele quer acreditar... Cada gesto seu... cada atitude... cada olhar... Você é tudo o que ele quer esquecer e não pode. Não pode porque você existe para provar a ele que está errado."
"Eu... não entendo..."
Elrond riu apertando as mãos do arqueiro com força e franzindo as sobrancelhas. Havia uma certa malícia em seu olhar agora.
"Claro que entende, ion nin. Você é o primeiro a defendê-lo de uma forma invejável, aquele que o entende melhor do que ninguém... você sabe a que eu me refiro."
Legolas desviou seu olhar novamente, respirando um pouco mais fundo, seus olhos se fecharam e abriram várias vezes antes que ele voltasse a olhar para o curador. O jovem parecia esgotado como quem trava uma grande batalha e não sabe se tudo realmente terminou.
"Eu nunca vou ser como ele..." Admitiu.
"Pior..." Disse Elrond sabendo que atiraria apenas mais lenha em uma fogueira que ardia, mas sentindo que o menino merecia a sua sinceridade. Legolas virou os olhos para ele confuso.
"Pior? Sou pior do que ele?"
"Não..." Riu o curador. "Pior do que isso... Para ele, é claro... Pois ele nunca quis que você fosse igual a ele."
"E o que ele quer que eu seja?"
Elrond partiu os lábios para responder, mas sentiu um receio grande de que talvez estivesse conjeturando demais.
"Senhor..." Implorou o menino erguendo novamente o corpo num grande esforço. Elrond apoiou a mão em seu peito para que voltasse a se deitar.
"Eu presumo que ele queira que você seja um dirigente melhor do que ele, tão bom quanto Oropher... talvez..."
"Para quê?" Inquiriu o arqueiro balançando a cabeça em total incompreensão.
"Para..."
"Para?"
"Para tomar o lugar dele, ion nin."
"O quê? Como? Como assim? Ele é o rei. Ele..."
"Ele é um guerreiro Legolas... ele quer lutar como qualquer guerreiro pode e deve lutar... Ele quer lutar sem a preocupação de um dia não regressar..."
Legolas empalideceu. Seus olhos arregalaram-se e seus lábios se partiram sem que nenhum ar fosse capaz de entrar ou sair de sua boca trêmula.
"Não... não pode ser..." Ele balbuciou voltando a tremer.
Elrond segurou-lhe as mãos com força e olhou-o diretamente nos olhos.
"Criança. Eu não disse que seu pai quer morrer. Eu só disse que ele não quer ser alguém imprescindível na vida de outro alguém. Ele não quer ter empecilhos que o impeçam de travar um bom combate, empecilhos como um povo que necessita de um guia que o governe e proteja ou... ou um filho que o ama e precisa dele..."
Mas as palavras do curador pareciam estar apenas aumentando o turbilhão das descobertas, que agora se somava a outros detalhes na memória do menino em uma mistura muito mais densa e confusa.
"Mas, ion nin..." Ele tentou mais uma vez conseguir a atenção do rapaz que voltava a se largar em total abandono naquela cama fria. "Mas existe outro porém que parece ser o que o incomoda mais..."
E efetivou-se a tentativa. Aqueles olhos azuis eram seus novamente.
"Ele percebeu... ele percebeu que não é só você que não pode conceber a idéia de viver sem ele..." Informou o curador olhando de forma muito séria para o rapaz que mordia os lábios agora. "Ele também não consegue imaginar a idéia de perdê-lo, criança... Ele executa inúmeras encenações tirando você da vida que ele presume ter, entorpece e engana o coração dizendo o quanto você o decepciona, o quanto é fraco e incapaz... mas... mas são só encenações menino..." Completou condoendo-se por ver lágrimas correrem novamente pelas faces alvas do príncipe e apertando-lhe novamente as mãos ainda mais frias. "Ele nem faz idéia do mal que lhe faz... não imagina o quanto você sofre porque, pela cabeça teimosa que tem, não passa a idéia de que você o ama tanto quanto ele o ama... ou ainda mais..."
Legolas desprendeu suas mãos das de Elrond virando-se na cama e escondendo agora o rosto no travesseiro, suas costas se moviam guiadas pelos soluços que ele queria conter e não podia. Elrond suspirou e deslizou os dedos pelos rebeldes fios de cabelo do rapaz que chorava abertamente agora. Aquela não era a primeira vez que ele não se agarrava a alguém para fazê-lo e isso era muito mais preocupante do que parecia ser.
"Legolas..."
"Eu vou... ele vai ter paz..."
Elrond tentou entender o que estava por trás daquela fragmentada sentença e temeu pelo que compreendera.
"Nada vai dar paz a ele, menino. Só a verdade... quando ele estiver disposto aceitá-la... só ela..."
"Se eu for... ele não vai ter escolha..." Conclui sombriamente o menino, assustando ao seu benfeitor.
"Tolo... menino tolo..." indignou-se o elfo puxando o rapaz para olhá-lo nos olhos. Legolas cobriu novamente a face, mas Elrond puxou suas mãos obrigando-o a encarar seu olhar repreensivo. O arqueiro enrubesceu apertando os olhos envergonhado.
"Se você se for, criança tola. Eu não vou me admirar em vê-lo segui-lo."
"Ele não precisa saber." Disse o rapaz olhando para o teto agora. Seus olhos vermelhos escondiam bem mais do que cansaço. "Eu vivi anos e ele não sabia onde estava... nem se importou em saber."
"Errado." Disse o curador segurando o queixo do elfo e fazendo olhá-lo um vez mais. "Você sabe quantos soldados de Mirkwood estiveram aqui durante os anos em que esteve desaparecido?" Indagou sinistramente apertando os olhos. "Muitos... sempre com as mesmas perguntas, sempre questionando-nos sobre o seu paradeiro..."
"Ele apenas queria saber se eu cumpria a promessa que fizera, se não me escondera em algum reino élfico contrariando sua proibição."
Elrond riu balançando a cabeça e erguendo-se para andar pelo quarto agora. "Tão parecidos às vezes que chego a me assustar." Ironizou chegando novamente a porta da sacada e voltando a admirar a tarde de sol. "Teimosia e obstinação. Características intrínsecas de pai e filho." Por dentro, porém, o curador buscava o confronto propositalmente. Ele tinha esperanças que a ira e o conflito pudessem manter o menino longe do desespero por mais algum tempo. Estava caminhando em um fino fio de seda.
"Eu o conheço..." Surgiram as palavras do príncipe num tom totalmente alterado agora. Elrond fechou os olhos ao ouvir aquela triste tonalidade reconquistar a voz doce do rapaz. "Tudo o que o senhor diz pode ser verdade... mas de nada me adianta... O senhor tem razão... teimosia e obstinação nos igualam e nos condenam... mas meu pai faz uso delas como muralha e fortaleza... Ele nunca me perdoará pelo que fiz... amando-me ou não... desejando ou não que eu respire o ar de Arda por toda a eternidade, ele não vai nunca mais me permitir que o chame de..."
Elrond voltou-se para ele a espera do complemento que não veio. Legolas se abraçara ao travesseiro agora, deitado de lado no mais completo silêncio.
"Diga, ion nîn. Diga do que quer chamá-lo." Insistiu o elfo sem se aproximar.
"Ele me disse que nunca mais usarei esse termo para com ele..." Respondeu a voz embargada do rapaz. "Então esta palavra nunca mais sairá da minha boca."
"O que não sai de nossa boca pode habitar o nosso coração mesmo assim, criança."
"No meu coração existem outros detalhes importantes." Respondeu o rapaz fechando os olhos agora. " Existem aqueles a quem estimo e infelizmente a quem também faço sofrer."
Elrond deixou cair os ombros esgotado. Sentia-se caminhando passo a passo em campo de batalha usando todas as armas e não obtendo o êxito do qual precisava. A razão favorecia a tristeza profunda do rapaz e ele não conseguia achar uma escora qualquer na qual o príncipe sentisse que valesse a pena se segurar. Na verdade o rapaz parecia temer segurar-se em qualquer coisa que fosse e vê-la afundar-se com ele. Um medo totalmente compreensível.
"O tempo agora é nosso único aliado." Elrond disse então numa voz triste que fez com que o arqueiro voltasse a olhá-lo. "Dê-lhe chances de mostrar os caminhos que ainda estão escondidos."
Legolas ofereceu-lhe um sorriso fraco voltando a apoiar a cabeça no travesseiro e encolher-se na cama. Não parecia disposto a sair de lá, nem mesmo em uma tarde tão linda quanto a que os estava presenteando naquele dia.
Elrond aproximou-se mais da sacada abrindo o restante das cortinas e se deixando inundar pelo ar que lhe faltava, pela luz que lhe faltava, pelo sentimento de vida que ele queria tanto fazer crescer de novo em seu paciente. Era uma tarde ensolarada e os diversos tons do verde do outono, que se fazia vermelho e finalmente marrom em algumas partes do jardim, eram de um encanto sem igual.
Legolas acompanhou os movimentos do lorde elfo durante alguns instantes, mas logo seus olhos voltaram a se desprender do que viam e sua mente recomeçou a corrida feroz pelos árduos corredores das memórias tenebrosas que o assolavam. Ele não queria remoer os tristes fatos passados, mas estes pareciam ser tudo o que lhe restava, pareciam fazer parte do que ele era, e acima de tudo, pareciam ter vida própria, indo e vindo na mente do arqueiro como uma luz que ora se esconde, ora se revela por entre os oscilantes galhos de uma árvore a quem vento não perdoa.
Elrond ficou alguns instantes admirando a chuva de cores daquela paisagem e não pôde deixar de desejar que Legolas ainda fosse o jovem cheio de vida que freqüentava sua casa. O jovem para quem o desabrochar de uma flor era uma benção e o cair de uma pétala o motivo para um lamento. O jovem a quem conhecera há tanto tempo...
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"Eu vou passar por aqui, Legolas." Disse a voz de Elrohir desaparecendo em seu cavalo por entre as árvores. O elfo baixava levemente a cabeça para que os galhos baixos não lhe puxassem as tranças.
"Não, Elrohir. Não pode!!" Interveio o elfo louro num tom de súplica. "Por favor."
"Não adianta insistir, Legolas." Aconselhou Elladan num sorriso complacente. "Quando Elrohir decide algo, não há o que o impeça de fazer."
E dizendo isso ele também seguiu o árduo atalho escolhido pelo irmão. Eles queriam chegar o quanto antes a Imladris.
"Venha, Legolas." Chamou a voz perdida de Elladan que agora ecoava por entre as árvores como mais um dos sons da floresta.
Elrond, o último integrante da comitiva, aproximava-se agora com seu cavalo estranhando o ar triste no rosto do arqueiro.
"O que houve, Príncipe Legolas?" Indagou. "Meus filhos disseram algo que o desagradou?"
"Não, senhor..." Respondeu o elfo sem levantar os olhos.
Elrond aproximou um pouco mais o cavalo emparelhando-o com o do arqueiro e buscando seu olhar, mas Legolas esquivou-se e o curador pôde perceber que algo estava errado. O rapaz segurava-se agora na crina de seu animal com vigor, os pelos brancos presos entre seus dedos rígidos.
"Você sabe que pode me dizer o que quiser, não sabe criança?" Ele indagou recebendo o olhar surpreso do arqueiro como resposta. Ele sentia que, por algum motivo, o olhar do príncipe se transformava quando era chamado assim. E como aquele olhar era cheio de significados! Era no que Elrond mais pensava, deixando-se várias vezes perder-se naquele azul indefinido, cujo brilho escondia um universo inteiro que o curador desconhecia. "Diga, criança." Ele insistiu sentindo mais uma vez as feições do rapaz denunciarem o quanto aquele tratamento especial o abalava.
"Elrohir..." Ele começou inseguro, apontando sutilmente para a região pela qual os dois irmãos seguiram. "Ele... vai passar..."
Mas o final da sentença simplesmente inexistiu, como se não houvesse final possível, como se a atitude do gêmeo fosse tão séria que Legolas não conseguisse prever um final e expressasse isso de alguma forma com essa ausência de palavras. Elrond pendeu a cabeça tentando entender o rapaz que enrubescia agora evitando novamente seu olhar.
"Vai passar por onde? O que Elrohir vai fazer de errado agora?" Indagou então tentando de alguma forma fazer com que o príncipe sentisse que ele estava a seu favor. Ele preocupava-se ao perceber o quão alterado o rapaz estava. Seu peito arfava agora e ele agarrava-se ainda mais aos longos pelos da crina de seu animal
"Não... Ele não vai fazer nada de errado, meu senhor." Defendeu subitamente o jovem elfo deixando o curador ainda mais confuso. Uma grande contradição crescia ali e o lorde não conseguia entender. "Ele só quer ir por um atalho que conhece para que cheguemos mais depressa."
Elrond franziu a testa sem conseguir entender. O que deram para este príncipe beber?
"Legolas..." Ele tentou então expressar a confusão em que se encontrava em palavras que também pareciam escapar-lhe agora.
"Deixe estar, senhor." Desistiu finalmente o elfo louro mostrando-se contrariado pela primeira vez e dirigindo seu cavalo para outra direção.
"Aonde vai?"
"Eu encontro o senhor e os gêmeos em Imladris." Disse o arqueiro já de costas seguindo pelo caminho mais longo.
"Legolas! Vai gastar mais dois dias seguindo por aí."
"Não tem problema, senhor. Estou acostumado. Sempre faço esse caminho."
E chegou então a vez de Elrond sentir-se contrariado.
"Ora, pelos Valar!" Disse o curador demonstrando indignação. "Pare já onde está, criança."
Legolas obedeceu atônito, seu cavalo deu duas voltas no mesmo lugar para finalmente se aquietar.
"El!" Chamou o pai em um tom mais alto. Ele se lembrava de chamar os filhos assim apenas quando eram crianças e mereciam uma dura repreensão. Era a sua forma de chamar ambos ao mesmo tempo.
Legolas olhou para a mesma direção do mestre e só então entendeu pelo que ele esperava.
"Não vão ouvir, senhor." Disse o arqueiro.
"Não estão tão longe."
E os instintos de pai estavam corretos, logo as duas figuras apareceram de volta pelo caminho que haviam tomado. Olhos preocupados e confusos vistoriavam o lugar, armas em punho.
"O que houve, ada?" Indagaram quase em uníssono.
Elrond olhou pacientemente para os três jovens ao seu redor e ficou em silêncio esperando também ele entender o que se passava. Legolas baixou a cabeça e Elrohir balançou a sua com indignação, parecendo finalmente compreender o porquê do chamado.
"Não acredito que nos fez voltar por causa do que ele disse, ada!" Reclamou.
"Ele nada me disse. Apenas decidiu seguir um caminho diferente e presumo que vocês saibam o porquê."
"Legolas!" Gritaram os dois gêmeos agora. Eles realmente estavam ligeiramente enervados com o rapaz e não acreditavam que, em sua teimosia, o arqueiro pudesse ir tão longe.
"Eu não vou por aí." Indignou-se o príncipe e foi a primeira vez que os irmãos e o curador o viram assim. Seus lábios formavam uma só risca de tão pressionados que estavam e seus olhos faiscavam, mais azuis do que nunca.
"Não vai, é?" Ameaçou o gêmeo mais novo dirigindo então seu cavalo para a direção da do arqueiro. "Vamos ver se eu e Elladan não fazemos você ir por onde queremos..."
O louro elfo de Mirkwood estufou o peito e esperou pelo conflito que não se efetivou. Elrond segurou o braço do filho do meio com força. Ele não acreditava no que via.
"O que é isso? Querem me envergonhar em frente dessas árvores e por sob esse céu?" Disse o curador irritado. Suas sobrancelhas se curvavam num impossível sinal de indignação.
"Ada! Ele está com essas idéias tolas dos elfos de Mirkwood. Eu não vou dar-lhe ouvidos." Aborreceu-se Elrohir. "E Estel não está aqui para apoiá-lo. Você está só." Completou olhando agora diretamente para o rapaz, mas subitamente percebendo que suas palavras o atingiram de uma forma inesperada. O gêmeo mal as dissera e já se arrependera.
O rosto do arqueiro perdeu subitamente a cor e seu queixo pendeu levemente como se respirar tivesse se tornado uma tarefa árdua. Ele agarrou-se ainda mais ao cavalo, fazendo um movimento com a cabeça que indicava que seu animal não ficaria ali por mais nenhum momento.
"Legolas, espere!" Ordenou Elrond, a única pessoa a quem o arqueiro não ousaria desafiar.
O louro elfo baixou então o rosto e aguardou, mãos nervosas acariciavam agora a crina desfeita do cavalo, como se percebessem a desconsideração com que a trataram a pouco. Um clima pesava no ar.
"Elladan." Chamou o pai esperando por esclarecimentos
O mais velho dos gêmeos respirou fundo. Também ele, embora bem mais paciente, se sentia contrariado com a situação que o príncipe criara.
"Legolas acha que essa trilha não nos pertence, ada. Ela pertence aos pássaros. Porque nela ficam as únicas árvores baixas nas quais o pássaro solitário constrói seus ninhos."
"E se assustarmos esse pássaro mal humorado. Ele abandona o ninho com o que quer que esteja dentro dele." Adicionou Elrohir ainda alterado. "E que culpa temos nós se esse pássaro que tem medo da própria sombra, é irresponsável o bastante para abandonar sua cria só porque alguns elfos estão passando por perto?"
"Ele não é irresponsável, Elrohir." Disse Legolas num tom mais ameno agora. Ele parecia mais desapontado do que realmente irritado. "Ele é como nós. Em tempos de guerra ou conflitos, nós também optamos pela dolorosa ausência das crianças."
Elrond encarou o príncipe admirado. A sabedoria daquelas palavras simples tocou-lhe o coração e a consciência do tempo trágico em que viviam se fez mais clara. Não havia uma criança sequer em Imladris e em reino élfico algum. Algo realmente havia assustado os pássaros. Ele então olhou para os dois filhos que por si só perceberam finalmente o que apenas o príncipe via. Elrohir encarou o pai e baixou a cabeça, fazendo depois um leve movimento com o corpo, ao qual seu cavalo compreendeu, levando-o para perto do amigo louro. Os dois animais se emparelharam, mas Legolas não o olhava mais, parecia realmente magoado.
"Ainda considero você um temperamental teimoso." Disse o gêmeo aproximando o rosto o máximo que podia do aborrecido amigo. "E não pense que a razão vai sempre lhe favorecer" Ele provocou um pouco além vendo as feições do arqueiro se contraírem ainda mais. Era divertido irritar alguém tão pacato quanto Legolas. "Eu vou seguir o seu caminho, mas se você sair por aí falando que um elfo de Imladris seguiu algum preceito de Lasgalen, vai amanhecer sem as suas belas tranças louras, entendeu?"
Legolas ergueu o rosto encarando o amigo surpreso. Ele não teria coragem.
"Eu teria." Confirmou Elrohir como se lesse as dúvidas escondidas por trás daqueles cristais azuis. "Não pense que não teria."
E ambos se encararam muito sérios por alguns minutos até que Legolas não resistiu, baixando a guarda e sorrindo. Elrohir fez o mesmo em seguida, apoiando a mão no ombro do amigo com carinho.
"Você nunca vai estar só, mellon nîn." Ele afirmou então tentando redimir-se das palavras duras que dissera. Os escuros olhos imersos na mais pura sinceridade. "Nunca."
E as feições do louro amigo se abrandaram, como se o gêmeo tivesse tocado em seu coração e o segurasse agora com ambas as mãos fazendo-o subitamente parar de doer. Mas ele não disse mais nada.
Elrond passou por eles em seu cavalo oferecendo-lhes um breve sorriso e um silêncio que lhes disseram muito mais do que um eloqüente discurso de horas faria, sendo seguido então pelos filhos e pelo hóspede, a quem aos poucos ele estava aprendendo a amar como a um dos seus.
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Aquela bela cena, mais um dos quadros impecavelmente pendurados nas paredes da mente do curador, parecia ter vindo assolá-lo em um momento que, de repente, se fizera conveniente, despertando nele uma idéia, oferecendo-lhe um caminho a seguir.
"Está um belo dia." Disse então o mestre em um sorriso sem se voltar para o rapaz na cama. Seus olhos direcionavam-se para fora. Observando novamente cada folha, cada cor, sentindo a brisa e agradecendo pela inspiração que aquela visão paradisíaca lhe trouxera. "Doces toques dos últimos momentos das verdes árvores estão abençoando nossas vidas ultimamente."
Legolas reabriu os olhos apertando levemente o travesseiro. O mundo, embora parecesse o cenário mais triste possível, estava ganhando cores e luz na voz do mestre, na voz que ele agora não queria ouvir, mas não conseguia evitar.
"A estação das folhas velhas está chegando, já podemos ver pequenas pinceladas coloridas nas árvores. Tons de marrom e verde misturam-se... As cores de Lasgalen... É outono... o outono promete ser belo dessa vez, o mais belo de todos os que já vi."
O arqueiro desprendeu os lábios sentindo seus sentidos se aguçarem instintivamente. De onde estava o rapaz apenas enxergava a claridade que entrava e os galhos de sua árvore. Ele sentia saudades dos jardins de Imladris e sentiu um desejo imenso de poder se levantar e ir até onde o mestre estava, de poder apreciar a mesma visão. Mas o cansaço e a tristeza ainda habitavam seu corpo, e um frio terrível corroia seu espírito parecendo amarrá-lo àquela cama.
"Alguns pássaros migraram para cá, você sabia?" Disse o mestre dando uma olhada rápida na direção do rapaz, para depois voltar a observar o cenário da sacada. "Alguns nem eu mesmo conhecia. Acho que a terra está sofrendo alguma modificação que desconheço e certas espécies procuram um novo abrigo. Abençoados somos nós em recebê-los. Eles parecem cantar para os Valar todos os dias."
Legolas sentiu o coração acelerar no peito. Ele se viu subitamente envolto por aquelas palavras que ouvia como se tivesse caído em uma armadilha. Cenas do passado mesclavam-se agora com o presente, momentos doces, visões de terras coloridas as quais admirava, misturavam-se agora ao desejo de vivenciar as cenas que Elrond descrevia, de se sentir novamente parte da paisagem.
"Erestor levou alguns desenhistas e fizeram belos retratos de nossos novos hóspedes cantores. Elrohir fez alguns realmente fieis. E os mestres das flautas e citaras também ficam o dia todo a ouvi-los cantar e roubar-lhes os ensinamentos de algumas notas. Belas canções tem sido compostas desde então." Declarou o curador não conseguindo conter um leve sorriso ao perceber que Legolas havia se sentado na cama agora. O corpo esticado, o olhar perdido no nada, parecendo tentar ouvir a magia toda que seu mestre descrevia. Ali estava um Legolas que ele conhecia bem, o príncipe de Lasgalen que ele sempre admirara. Estava ali, muito vivo e parecia disposto a um combate. A dor e o sofrimento ainda o perseguiam, mas precisariam ser mais poderosos para derrubarem aquele elfo.
"Onde eles ficam, meu mestre?" Quis saber o rapaz totalmente envolvido agora na imagem que o curador criara em sua mente.
"Ah..." Suspirou o lorde elfo forçadamente. "Em muitos lugares."
"O senhor já os viu de perto?"
"Não de tão perto. Eles ficam em altas árvores e lá fazem seus ninhos. Nosso amigo eucalipto abriga muitos deles."
"A grande árvore?" Surpreendeu-se o rapaz.
Elrond voltava-se agora completamente para ele, admirando-lhe os traços sutis do rosto ainda pálido e abatido, cujas marcas das lágrimas que derramara ainda eram visíveis, mas sentindo uma nova energia percorrer o corpo fraco do rapaz. Ele parecia querer viver e aquele poderia ser um caminho para a cura.
"Sim, criança." Disse o lorde elfo numa voz embargada a qual tentava inutilmente disfarçar agora. "A grande árvore que tanto bem lhe faz."
Legolas percebeu o que o curador queria mostrar-lhe e sorriu-lhe agradecido. Em seu coração ainda palpitavam todas as palavras tristes que ouvira anteriormente, mas sua mente se permitia aventurar-se agora por outros caminhos.
"Vamos fazer um acordo?" Ofereceu o lorde aproximando-se novamente do elfo. O arqueiro voltava a oferecer-lhe o mesmo olhar inocente de sempre e que o assemelhava a um vaso raro o qual Elrond tinha medo de quebrar. Naquele momento, mais uma vez, Elrond entendeu algumas das loucuras de Thranduil. Como alguém como Legolas poderia realmente viver em um cenário cruel como o que Arda estava se tornando? Como alguém assim poderia existir sem tentar a todos que estavam ao seu lado, sem levantar em todos os que o amavam o instinto de protegê-lo, de guardá-lo como a um objeto precioso, de poupá-lo das atrocidades da vida?
"Que acordo, senhor?" Indagou o arqueiro curioso ao perceber o silêncio no mestre.
"Vamos nos poupar um pouco dos tempos árduos que se foram e voltarão." Respondeu Elrond afastando-se daqueles maus pensamentos. "Não falamos mais dos dias difíceis que vivemos. Deixamos tudo para trás." Completou ajeitando os travesseiros atrás do rapaz para que ele se apoiasse neles. "E..."
"E?"
"E eu deixo que saia daí, que vá até o jardim."
Os olhos do rapaz mudaram de tom e um brilho diferente surgiu neles, embora o arqueiro tentasse disfarçá-lo. Elrond finalmente sentiu-se em uma trilha segura de novo, usando as armas certas, os procedimentos corretos.
"O que acha? Pode conversar com o grande eucalipto."
"E vou poder subir?" Ele deixou escapar a pergunta num instinto puro de um amante das árvores, atormentado por uma saudade imensamente dolorosa.
Os cantos dos lábios de Elrond ergueram-se e o arqueiro enrubesceu novamente baixando o rosto.
"Quer subir?" Provocou o curador sentindo o jovem apertar os lençóis da cama. "Ouvir as novas canções?"
Legolas não respondeu. Ele queria ir, mas um medo maior o atormentava.
"Se bem que pode não ser conveniente." Disse o lorde elfo como se conversasse consigo mesmo. Os pássaros podem se assustar. Muitos dos nossos elfos passam dias a admirá-los e seria uma pena..."
"Eu não os espantaria nem se minha vida dependesse disso, senhor." Interrompeu o jovem louro levemente aborrecido com o comentário. "Eu sei lidar com eles, eles até gostam de mim... Os pássaros de Mirkwood, quero dizer..."
Elrond sorriu novamente olhando para o rapaz dentro dos olhos, investigando seus traços, seus vazios.
"Tenho certeza que será invejado por muitos dos meus." Ele garantiu. "A maioria de nós não se arrisca em árvores muito altas."
Legolas desprendeu os lábios apertando as mãos nervosamente agora, seu peito arfava como se o ar do quarto apenas não fosse mais o bastante para ele. Ele queria sair, queria correr pelo jardim, queria abraçar-se a primeira árvore que encontrasse, queria sentir-se completo de novo.
"Quando poderei ir, senhor?" Perguntou receoso.
"Logo." Elrond respondeu vendo o rosto do príncipe voltar a demonstrar insatisfação e tristeza. Legolas baixou os olhos e começou a alisar os lençóis que o cobriam sem encarar mais seu mestre. Ele não iria insistir, não valia a pena aborrecer o curador com uma questão dessas. Elrond levantou-lhe novamente o rosto segurando em seu queixo. "Assim que você comer algo e tomar um banho."
O rapaz não pode evitar o sorriso e uma súbita alegria totalmente sem propósito que lhe invadira. Ele segurou ambas as mãos do curador e deixou-se finalmente ver. Sua mente perdida nas expectativas que a presenteavam estava clara e aberta como em poucas vezes estivera e Elrond pôde sentir o que havia por trás daqueles olhos azuis, pôde perceber o quão maior aquela tristeza era do que a imagem que ele havia atribuído a ela. Realmente o rapaz precisava ser acompanhado de perto, qualquer deslize poderia ser irreversível.
Mas naquele momento, vendo-o segurar suas mãos e lhe sorrir, o curador não pôde deixar de se sentir encantado por ele, por aquela força que parecia não ter fim, por aquele desejo de viver que rebrotava a cada suspiro e estava muito além de sua compreensão. Uma mudança estava se efetivando, ou ao menos tentando se efetivar e aquele era um sinal que valia a pena ser comemorado.
"Aceita então?" Indagou o curador num leve sorriso.
Legolas apertou os lábios receoso, mas acenou-lhe positivamente.
"Que assim seja, jovem príncipe de Mirkwood. Providenciarei." Disse o lorde elfo satisfeito enquanto se levantava e aproximava-se da porta. "Não saia daí, certo? Se não nosso acordo está desfeito." Ameaçou com um sorriso nos lábios vendo o rapaz voltar a balançar a cabeça silenciosamente.
Mas assim que o Elrond saiu o príncipe encostou-se nos travesseiros e suas feições recobraram o ar triste dos dias passados. Ele soltou um longo suspiro e balançou levemente a cabeça. Estava decidida uma questão importante em sua vida daqui para frente: Ele não faria Elrond e sua família sofrerem mais.
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Não se passou muito tempo até que três figuras muito conhecidas entrassem no quarto.
"Olha!! O poço louro acordou!!" Elrohir exclamou chutando os sapatos e atirando-se sobre a cama.
"Elrohir! Saia daí!" Gritou Estel que entrava em seguida.
"Você é mesmo terrível".Completou Elladan que trazia uma bandeja e não conseguia conter o riso. "Se ada o vir sobre a cama de Legolas vai puxar-lhe as duas orelhas".
""timo! Não sabe que o charme dos elfos são as orelhas pontiagudas?" Informou o outro já por sobre o colchão, provocando legolas com leves murros e empurrões. "Fico feliz que ada esteja sempre disposto a assegurar o meu charme".
"Orelhas pontiagudas, é?" Repetiu Estel sentando-se na cama aos pés de Legolas e rindo muito ao ver o arqueiro tentar inutilmente se defender do irmão. "Eu posso providenciar isso para você. Não é preciso que ada o faça."
Elrohir parou uma questão de segundos lançando um olhar desafiador ao caçula que retribuiu com um sorriso cínico e depois voltando a perturbar o pobre Legolas.
"Ro... pare, por favor..." Pedia o louro elfo não conseguindo se defender do amigo.
"Que moleza!" Reclamou o outro se sentando por sobre os calcanhares e olhando o louro elfo com carinho. "Dormiu três estações e ainda não consegue enfrentar um combate."
Legolas arregalou os olhos fazendo com que os outros dois irmãos não conseguissem evitar o riso.
"Três estações??" Indagou o príncipe olhando os três irmãos a sua frente.
Elladan sentou-se finalmente ao lado do arqueiro colocando a bandeja que trouxera próximo a ele e sorrindo. Ele e Estel se olharam inconformados. Elrohir era mesmo muito convincente.
"Largue de ser um elfo bobo." Disse finalmente o mais novo dos gêmeos com desdém. "O que acha que é? Algum super poderoso? Acha que poderia dormir tanto assim e ainda saber quem é?"
"Isso." Concordou Estel sorrindo. "Mesmo porque esse papel de "elfo bobo" é de Elrohir. Você não pode desempenhá-lo. Aliás, ninguém pode desempenhá-lo melhor do que ele."
O irmão do meio voltou-se subitamente para o caçula e mais uma questão de família se criou. Ele ia responder quando viu Legolas olhando para o conteúdo da bandeja que Elladan havia lhe apresentado. Sorrindo então, o gêmeo apenas fez um leve aceno para Estel que também notara o fato.
"Tem fome?" Inquiriu o guardião com um sorriso aproximando a bandeja do amigo que vistoriou o conteúdo silenciosamente, para finalmente pegar uma das maçãs.
"Obrigado." Ele disse dando uma pequena mordida.
Estel sorriu, mas era um sorriso preocupado.
"Como se sente?"
"Sujo." Respondeu Legolas num sorriso surpreendendo aos irmãos que se olharam intrigados. "Preciso de um banho." Ele completou dando mais uma mordida e mastigando devagar.
Estel sentiu o queixo cair surpreso. Ele esperava encontrar o amigo deprimido, triste, perdido, mas Legolas parecia... bem... realmente bem.
"É Estel." Provocou Elrohir com ironia. "É a sua má influência. Você nunca se banha."
E para que o hábito não se perdesse, Estel levantou-se e agarrou o irmão, puxando-o para fora da cama e fazendo com que o corpo do elfo caísse impiedosamente no chão provocando um grande barulho. Elrohir soltou um grito contido de surpresa e dor. Suas brincadeiras com o irmão estavam ficando cada vez mais violentas, conforme Estel se desenvolvia nas artes da guerra. Logo ele se viu no chão com o joelho do irmão em seu pescoço.
"Retire, elfo bobo." Disse o caçula olhando o gêmeo se contorcer.
Mas uma voz inesperada soou com austeridade.
"ESTEL!"
O guardião empalideceu levantando-se prontamente e encontrando o olhar indignado do pai.
"Ele me provocou, ada." Defendeu-se o dunedain sentindo que não poderia fazer ridículo maior.
Elrohir ficara no chão petrificado, Elladan baixou a cabeça e Legolas mantinha os olhos arregalados de surpresa. O ar de Elrond estava realmente muito intimista. Ele de fato sabia como colocar seus filhos em seus lugares.
"Elrohir!" Chamou agora o pai fazendo com que o filho se levantasse do chão de imediato, ajeitando a túnica com ambas as mãos e apertando os lábios.
"Sim, ada?" Ele indagou inocentemente.
Elrond balançou a cabeça e afastou-se se dirigindo para a sala de banhos. Ele trazia algumas ervas na mão, plantas que fariam bem ao príncipe, que ajudariam na recuperação do rapaz. Abrindo o pequeno orifício que conduzia a água para dentro da casa, apenas ficou observando o líquido transparente descer pela banheira e começar a enchê-la devagar. Quando uma quantidade razoável se juntara o elfo derramou suas ervas e o pó que havia trazido dando a água uma coloração levemente esverdeada e um agradável odor. Em seguida voltou ao quarto e encontrou os filhos exatamente no mesmo lugar em que os havia deixado. O curador não pode conter o riso.
"Pensei que somente os Trolls petrificados não pudessem sair do lugar aos quais foram condenados." Riu-se o pai aproximando-se de Legolas que escondia o rosto para conter o leve sorriso que o curador lhe proporcionara. Estel e Elrohir eram realmente muito habilidosos em diferentes artes, mas Elrond era imbatível em praticamente todas.
"Então?" Indagou o lorde elfo olhando para o paciente. "Pronto para sair dessa cama?"
Os outros irmãos se entreolharam surpresos. Não imaginavam que o pai fosse liberar Legolas assim tão cedo. Elladan franziu a testa lançando a ele um olhar cheio de questionamentos. O gêmeo sentia que Legolas precisava de mais repouso, de mais tempo para recuperar suas forças, sentia que, apesar do elfo estar se esforçando para parecer bem, ele ainda escondia suas dores, escondia suas fraquezas. Mas o rapaz também sabia que se ele e os irmãos haviam conseguido perceber algo assim, o pai já o havia feito há muito mais tempo. Aquilo não fazia sentido.
Porém Elrond parecia ignorar toda a consternação que criara a sua volta. Ele só tinha olhos para o príncipe que lhe sorria acenando com a cabeça.
""timo." Disse o curador. "Vamos então estabelecer certas regras, de acordo?"
Outro leve aceno foi sua resposta. Os irmãos voltaram a se olhar, estavam curiosos para descobrir qual era o plano do pai. Eles não se cansavam de admirar o quão hábil Elrond era na arte da cura. Quando tudo já havia sido tentado, todos os artifícios, todos os riscos, ele sempre aparecia com uma informação nova, com um dado surpreendente, com uma saída. E este parecia ser um daqueles momentos.
"Você vai se levantar, vai se banhar e vai até o jardim. E eu vou permitir que se aproxime da grande árvore, mas hoje você não sobe nela, certo? Talvez amanhã, mas apenas depois da minha permissão. Está claro?"
Legolas baixou levemente o olhar concordando. Ele sabia que seria uma tentação muito grande abraçar à velha amiga e não deixá-la guiá-lo até os céus, mas não iria desapontar o mestre, não lhe trairia a confiança.
"Amanhã?" O jovem louro ainda arriscou despertando um sorriso nos lábios do curador.
"Depois que eu o autorizar." Completou o mestre mostrando-se bastante atento as observações que fizera.
O príncipe voltou a balançar a cabeça engolindo suas queixas. Entendendo que Elrond estava tentando protegê-lo, sondá-lo para sentir o quão melhor e disposto ele realmente estava.
"Posso me levantar, mestre?" Indagou então.
Elrond concordou e Legolas jogou levemente as cobertas colocando os pés para fora da cama. Estel apressou-se em ajudá-lo, mas o curador ergueu uma mão impedindo a atitude do filho. Ele precisava sentir o rapaz, observar-lhe os movimentos, analisar cada fraqueza, cada dor. Legolas levantou-se devagar e segurou-se na cabeceira da cama ficando parado por alguns instantes. Houve um longo silêncio, todos queriam formular a pergunta que os corroia, mas o olhar de Elrond os oprimia, os impedia de fazê-lo. Estel sentou-se em uma das cadeiras, agoniado.
Legolas sentia o mundo inteiro dar voltas e todas as cores do arco-íris colorirem o cenário que via. Estava fraco demais para ir adiante sozinho, mas ninguém vinha em seu auxílio e ele sabia o porquê.
"Senhor." Ele disse numa tom baixo.
"Sim, Legolas." Respondeu a voz suave e solidária do mestre.
"Eu acho que preciso..." Ele respirou fundo mais uma vez.
"Precisa?"
"Preciso de ajuda..." Ele admitiu finalmente baixando a cabeça o máximo que podia, mas não voltando a sentar-se. Queria muito sair daquela cama.
Elrond sorriu fazendo um leve movimento de concordância com a cabeça que parecia ser um sinal para si mesmo. O curador parecia satisfeito com o rumo dos acontecimentos.
"Quer que Elladan lhe ajude?" Perguntou.
O gêmeo se levantou vagarosamente. Finalmente entendera as intenções do pai. Elrond não queria proibir o arqueiro de realizar suas ações mais corriqueiras, queria apenas provar a ele que ainda não era capaz de fazê-las. Legolas ergueu a cabeça e encontrou os olhos do amigo a sua frente. Elladan oferecia-lhe um leve sorriso e estendia as duas mãos. O príncipe retribuiu erguendo um braço e deixando-se finalmente cair por sobre o amigo que o recebeu e sustentou, ajudando-o novamente a ficar de pé.
"Estou... fora de forma..." Brincou o arqueiro caminhando agora a passos curtos pelo quarto e sendo amparado por Elladan que sorria concordando.
"Logo vai se sentir melhor." Garantiu o gêmeo enquanto ambos sumiam dentro da sala de banhos.
Elrond então soltou um longo suspiro e sentou-se em uma das cadeiras do quarto. Elrohir e Estel olhavam para ele com um misto de compreensão e apreensão no olhar.
"Que seja assim, crianças." Ele aconselhou olhando os filhos com carinho. "Que seja a pedido dele, sempre. Em tudo, em todas as circunstâncias. Entenderam?"
"Ada..." Insistiu Estel um tanto preocupado. Ele conhecia o orgulho do amigo. Sabia que assim que estivesse um pouco melhor para esconder suas dores com mais eficácia, ele o faria. "O senhor tem certeza?"
"Estel, ion nin. Legolas não é um paciente como os outros que você teve. Eu não me preocupo com o corpo dele. O corpo dele está fraco, mas vai se recuperar. O que me aflige é o seu espírito. Só o fato dele ter querido se levantar, ter aceitado a ajuda de seu irmão, ter suavizado seu próprio estado com leves brincadeiras, já faz meu coração cantar de alegria. Muitos elfos, por muito menos do que ele passou, já descansam nos braços de Mandos."
O guardião engolia a saliva com dificuldade como se estivesse engolindo as próprias palavras que ouvira e que não lhe agradaram.
"Então..." indagou receoso. "Ele ainda corre risco?"
"Eu não sei, criança." Respondeu o mestre lançando um olhar triste para a cama desfeita e depois para a porta entreaberta, parecendo rever mais uma vez a cena que se passara há pouco, procurando mais dados, mais certezas, mas não encontrando nenhuma. "Legolas sempre foi uma grande surpresa para mim. Confesso que muito do que se passa em sua mente e seu coração ainda é um segredo difícil de ser decifrado."
"Não pode ver, ada?" Indagou Elrohir que se sentava agora na cama do arqueiro. "Não pode sondar-lhe a mente?"
"Não, ion nin." Respondeu o mestre com sinceridade. "Posso deduzir-lhe os pensamentos baseando-me em uma série de fatos, suas feições, seus olhares, a energia que emana de seu corpo. Mas a mente do rapaz é uma das mais fechadas que já encontrei. Se ele não me autorizar eu não posso entrar."
O gêmeo surpreendeu-se levemente ao ouvir o pai admitindo a existência de tal obstáculo. Ele era um dos mais poderosos elfos e a sondagem dos espaços vazios da mente de homens e elfos era uma de suas habilidade, embora evitasse ao máximo fazer uso dela.
"Por isso," continuou o mestre. "preciso que façam tudo da maneira que lhes oriento. Cada detalhe é muito importante e cada dia vai ser uma nova descoberta."
Passados alguns momentos os dois elfos regressaram ao interior do quarto. Legolas vestia calças claras e uma túnica azul leve e caminhava ao lado de Elladan, procurando agora não se apoiar mais no amigo. O gêmeo, um rápido aprendiz, já entendera as idéias do pai sem que esclarecimentos lhe fossem necessários, por isso andava próximo ao arqueiro, mas sem exercer nele nenhuma pressão.
"Muito bem." Disse Elrond da poltrona onde estava. "O dia ainda está quente, podem aproveitar o fim de tarde."
Mas quando Legolas encostou-se na cômoda e olhou-se no espelho seu rosto subitamente se transformou. Uma tristeza invadiu-lhe o espírito de uma forma muito pior do que a que Elrond vira no primeiro dia do rapaz em Imladris. O curador procurou pensar rápido nos porquês e nos talvez, aquele era um momento decisivo. Elladan olhou para o pai ligeiramente transtornado esperando por maiores instruções.
"Consegue vir até aqui, Legolas?" Indagou o mestre procurando manter o mesmo tom de voz que vinha utilizando até então.
O príncipe não respondeu. Seus olhos estavam voltados para a imagem que via de si e que parecia roubar-lhe algo muito precioso.
"Venha até aqui, ion nin." Insistiu o lorde num tom um pouco mais alto que despertou o rapaz. Legolas voltou-se devagar e caminhou em passos inseguros pelo quarto parando em frente ao curador. Elrond não se levantou erguendo apenas a cabeça para encará-lo.
"Vire-se e ajoelhe-se aqui na minha frente, criança." Ele instruiu ao elfo que obedeceu de imediato.
Jogar-se ao chão era uma tarefa fácil para o cansado príncipe que já sentia sua pouca energia desaparecer mais rápido do que imaginava. Ele poderia ficar ali mesmo naquele chão, não faria mais diferença para ele no estado de abandono em que seu espírito se encontrava. Mas Legolas subitamente sentiu uma estranha sensação e seu coração acelerou-se novamente como se quisesse saltar do peito, quando percebeu os dedos de Elrond enlaçaram as mechas douradas de seu cabelo. Aquela sensação traduzia uma infinidade de momentos, momentos bons e momentos terríveis e sua mente deu voltas ao se ver ali permitindo que o mestre cumprisse um papel que fora um dia de seu pai. Lágrimas quiseram se formar em seus olhos, mas o rapaz encheu o peito de ar contendo-as todas. Ele estava decido a cumprir a promessa que fizera a si mesmo naquele dia.
"Pronto." Declarou o curador segurando em ambos os ombros do arqueiro e ao erguer-se trazer Legolas consigo. "Vá ver." Ele disse por fim soltando o rapaz.
O louro elfo caminhou novamente até o espelho e não pode conter a surpresa ao ver seus cabelos impecavelmente trançados, nenhum sinal dos fios irregulares e perdidos era visível, o problema estava totalmente escondido. Mas algo estava diferente. Ele usava as tranças de Rivendell agora, as mesmas que Elladan e Elrohir usavam. Uma idéia estranha veio então povoar a sua mente.
"Senhor..."
"Sim?" Respondeu Elrond do outro lado do quarto.
"Acha que eu posso mudar meus cabelos?" Indagou o elfo segurando uma pequena mecha entre os dedos.
"Mudá-los como?"
"Fazê-los mais... escuros..." O rapaz declarou olhando para o mais completo nada então. Elrond sentiu mais uma vez o dissabor da notícia inesperada, da surpresa com a qual não se sabe lidar. Ele entendia o que Legolas queria e sabia que aquilo não iria lhe fazer nenhum bem.
"Seus cabelos são muito belos, ion nin." Disse o curador aproximando-se e olhando a imagem do príncipe no espelho. Legolas enrubesceu levemente baixando a cabeça e se voltando para ele. "Pura luz líquida que lhe faz especial, que lhe faz ser quem você é." Completou o lorde sorrindo amavelmente.
"Obrigado, meu mestre." Disse o rapaz sentindo-se constrangido com o elogio. "Mas eu queria..."
Elrond segurou-lhe os ombros e olhou-o com carinho.
"Cinco filhos eu tenho." Declarou o lorde. "E só dois deles se parecerem." Ele completou sorrindo para Elladan e Elrohir que retribuíram. "E mesmo assim, só se parecem para aqueles que não têm o privilégio de conhecê-los melhor."
Legolas compreendeu a posição do mestre e ofereceu-lhe um leve aceno de concordância antes de baixar novamente os olhos. Um silêncio estranho se fez, dores palpitavam, dúvidas incomodavam e o sim e não pareciam confrontarem-se diante de um destino duvidoso.
"Vamos então?" Indagou subitamente Elrohir erguendo-se da cama e dirigindo-se até a porta. Ele estava se sentindo sufocado dentro daquele quarto. "Eu não quero ficar aqui até que anoiteça.
Estel sorriu e o acompanhou abrindo a porta e esperando que os presentes se manifestassem. Legolas olhou para aquele caminho aberto, símbolo da liberdade que finalmente adquirira e por uma razão inexplicável sentiu um grande temor. Temor de sair em busca de si mesmo e não conseguir se encontrar, temor de nessa grande busca perder-se de vez.
"Então?" Indagou o guardião lançando um largo sorriso ao amigo elfo. "Vai ficar aí ou vai nos acompanhar?"
O arqueiro deu dois passos para trás, sentando-se então na cama para a surpresa de todos.
"Eu vou... amanhã..." Disse ele. Seus olhos estavam tristes e suas mãos tremiam levemente embora ele tentasse contê-las.
Elrond olhou para o rapaz sentindo a vitória escapar-lhe entre os dedos. Aquele era um momento muito importante.
"Certo." Disse o curador num mesmo tom, despertando a admiração dos outros presentes. Ele se sentou ao lado do rapaz e cruzou os dedos das mãos. "Está mesmo anoitecendo e tudo o que você vai ver são as corujas e as estrelas... A propósito, Elladan. Como está o céu hoje?" Indagou olhando para o filho que estava próximo a sacada.
O rapaz sorriu esticando o pescoço para fora.
"O sol vai se por em alguns cantares." Respondeu o elfo. "Em duas canções não muito longas eu acredito, ada." Completou olhando maliciosamente para os irmãos que subitamente entenderam o porque dos fatos. "O senhor tem razão. Logo as estrelas virão... Veja, Ro! Ele provocou dando uns passos para dentro da sacada e olhando na direção do poente. "O céu já está ficando rosa, venha ver. Venha ter idéias para as misturas das suas tintas."
O gêmeo mais novo sorriu para Estel com malícia e apressou-se para a sacada. Ele queria muito participar daquele jogo. Estel acompanhou-o olhando com o canto dos olhos para o pai que o seguia com seus olhos cor de chumbo. O guardião entendia o que a família tentava fazer, mas temia pelos resultados.
"Por todas as estrelas do céu!" Exclamou Elrohir apoiando uma mão no ombro do irmão e olhando na mesma direção. "Eu nem me atreveria a tentar pintar um quadro desses que parece ter saído dos próprios pincéis de Iluvatar."
Legolas ouvia tudo tentando se conter. Sua mente girava em turbilhões de vento e poeira e a noite que se aproximava, sua companheira sempre leal, parecia naquele dia com um monstro tenebroso que o oprimia. Ele queria se levantar, queria compartilhar a boa experiência que os amigos estavam tendo, mas seu coração parecia acorrentado, preso a amarras terríveis de sofrimento e dor e ele não conseguia mais disfarçar. Num instinto, ele enlaçou as mãos de Elrond apertando-as nas suas.
"Me... mestre..."
Elrond sentiu o frio novamente e seu coração preocupou-se.
"Quer ir até lá?" Indagou o curador sorrindo, afastando as dúvidas de seus pensamentos.
O príncipe fechou os olhos atordoado, confuso e quando os abriu percebeu que Elrond também se levantara e caminhava agora para se juntar aos filhos. Ele estava só.
"Realmente, crianças." Disse o mestre juntando os três filhos a sua frente enquanto observava a paisagem. Ele apoiava uma mão no ombro de Elladan e a outra no de Estel juntando-os todos perto de si. "É um belo quadro."
"Veja, ada." Disse Elladan numa surpresa genuína. "Esse tom de vermelho é totalmente novo para mim.
"Novo..." Debochou Elrohir. "É porque o seu mundo é todo em preto e branco... como aqueles livros que lê. Eu faço um vermelho muito mais convincente do que esse com as pigmentações certas, você pode apostar."
Elrond e Estel riram do ar insatisfeito de Elladan. O gêmeo resignou-se ao silêncio. Realmente ele passava mais momentos na biblioteca do que no jardim.
"Eu vou querer ver isso." Provocou mais um pouco o primogênito, mas Elrohir não respondeu. Alguém estava se aproximando agora deles.
Elrond voltou-se para a figura que parara na porta da sacada olhando o céu receosamente como se o mundo fosse cair em sua cabeça se ele desse mais um passo.
"Venha, Las." Disse o curador erguendo um dos braços na direção do elfo. "Venha ver antes que tudo seja ontem, ion nin."
Legolas tremeu levemente. O desejo e o medo numa batalha cruel que o sufocava. Ele desprendeu os lábios e fechou os olhos dando alguns passos e sendo recebido por Elrond. O curador abraçou-o com força e virou-o para a direção do poente.
"Olhe." Ele disse ao ouvido do elfo que mantinha seus olhos fechados. "Olhe agora e deixe que o momento se eternize."
O príncipe então obedeceu abrindo os olhos devagar, deixando a luz invadir-lhe pouco a pouco. E quando a visão se fez quadro real, obra de arte das mãos divinas, o rapaz não pôde evitar que as lágrimas caíssem. Ele não as queria de volta, mas não pôde impedi-las, estava ocupado com outra coisa, estava ocupado com aquela descoberta.
"Eu... eu... quero ir..." Ele balbuciou atônito erguendo uma das mãos como se estivesse hipnotizado.
Elrond riu.
"Onde, ion nin? Onde quer ir?"
"Quero ir..."
Mas nem ele mesmo sabia a resposta. Ele queria ser parte daquilo como qualquer elfo da floresta anseia em fazer parte da paisagem, em subir nas árvores, cantar com os pássaros. Legolas estava tão encantado pela mistura que o jogo das cores do anoitecer lhe proporcionava, que desejou ser aquele azul, ser aquele verde, aquele amarelo quase laranja, aquele vermelho pálido. Ele desejou ser alguma coisa, desejou ser alguém. E seus olhos se fecharam novamente guardando aquele momento como um tesouro enquanto seus joelhos se dobraram mais uma vez. Ele queria cair ali mesmo e ficar e nunca mais se levantar. O resto de suas forças lhe fugia, mas ele não se importava. Ele ficaria ali até que as estrelas se fizessem hóspedes noturnos, até que o sol trouxesse a luz que as encobrisse novamente. Ele ficaria ali até quando a natureza aceitasse recebê-lo. Elrond o tomou nos braços sorrindo, o calor regressava àquele corpo cansado e ele vencera mais uma batalha. Elladan puxou as antigas cobertas e colocou novos lençóis na cama do arqueiro para só então Elrond depositar o adormecido elfo em seu leito novamente.
