Olá.!! Como vão vocês? Espero que bem.
Desculpem-me pelo atraso do capítulo. Tive tarefas horríveis para executar na Universidade que me tiraram o sono de muitas noites. Mas agora me sobrou um tempinho e resolvi colocar no ar o capítulo 26. Se estiver confuso ou com erros sérios, peço que me desculpem, eu realmente não consegui me dedicar a ele como gostaria de tê-lo feito. Espero que ainda esteja do agrado de vocês.
Nesse capítulo alguns trechos estão separados do texto original, são... bem, não vou contar para não acabar com o pouco suspense que há, mas se não ficar claro por favor me escrevam.
Agradecimentos de coração:
Às grandes autoras (eu sei que outras leitoras aqui também são excelentes autoras, mas estou apenas destacando as maravilhosas cabeças que conseguem acrescentar mais poesia e arte na já tão completa e maravilhosa obra do Prof. Tolkien.):
Lady-Liebe – Todas as short fics da Liebe são imperdíveis. Leiam!
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Amiga... dê chance a idéia que teve... vai se surpreender com o resultado. Tenho certeza. Saudades da sua fic.
Myriara – O capítulo recente de "A PAIXÃO DOS EDAIN" continua fazendo uma mistura que eu julgava das mais difíceis. A talentosa Myri está somando a história original do nosso Professor com as maravilhosas cenas que surgem de sua mente brilhante. Não acredito que ainda existam pessoas aqui que não estão acompanhando essa obra prima.
Nimrodel Lorellin – As "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" foram atualizadas e o belíssimo capítulo sobre o doce guerreiro Elrohir da Nim ficou algo que meras palavras não poderiam explicar. Nim é talentosa demais, pessoal. Não deixem de ler essa fic que é a minha "fic de cabeceira".
Vick Weasley: "BITTERSWEET" surgiu mais comovente e intrigante do que nunca. A fabulosa Vick está arrasando, deixando qualquer um de boca aberta. Seu discurso, seus parágrafos, tudo na fic é por demais perfeito. Quem acompanhava "O VINGADOR" no entanto vai ter que esperar um pouco mais. A nossa autora retirou o texto pois vai se dedicar apenas a Bittersweet por enquanto. Bom e mau. Bom pois teremos atualizações mais rápidas, mau porque teremos saudades dessa fic intrigante. Amiga, vou cobrar a sua promessa!
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Legolas está voltando para o reino de seu pai... e está bem acompanhado. Será que esses dois vão se entender algum dia? Fic fabulosa da nossa Ju. Leiam!!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Anseio por uma atualização rápida... Lindo texto. Elfos maravilhosamente bem construídos. Leiam!!
Kika-Sama: "APRENDENDO". Cada vez melhor. O último capítulo me tocou profundamente. Adoro o Estel da Kika. Leiam!!
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Sempre estará nas minhas recomendações. Não deixem de dar uma olhada.
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – Nossa amiga finalmente me deixou postar a sua fic. Muito bela. Ela disse que só terá dois capítulos. Espero que não. "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Bonita, romântica. Leiam!
Kiannah – Com a linda ESTRELA SILENCIOSA. Novidades, surpresas muito agradáveis mesmo.
E a grandes amigas:
Regina – Que bom ter notícias suas.
Botori – Sempre presente.
Leka – Como vão as coisas?
Aeka – Também sinto pena do Las. Por isso coloco sempre alguém para consolá-lo. Obrigada pela review.
Soi – Nova leitora. Muito obrigada pela review. Os elfos são mesmo um amor.
26
Elrond fechara seus olhos por apenas um instante, pelo menos fora o que lhe parecera. A brisa agradável da manhã entrava pela sacada do quarto de Legolas balançando suavemente tudo o que encontrava pela frente. O rapaz dormira desde a hora em que fora colocado em seu leito, sem sequer se mover e aquele era um dos poucos momentos em que o curador tirara seu olhar dele. Sentindo o ar da fresca manhã atingir seu rosto, o cansado elfo permitiu-se se afastar momentaneamente daquele lugar, favorecido pela escuridão dos olhos firmemente fechados e pelo silêncio absoluto que imperava no quarto. Mas a brevidade do momento ficara apenas na promessa que fizera para si, pois Elrond adormeceu ali mesmo naquela poltrona macia, embalado pelo canto dos pássaros e pela esperança de que Legolas estava a caminho da recuperação.
Quando abriu novamente os olhos sentiu, pela posição em que estava e pelo sol do meio dia que aquecia firmemente o quarto agora, que realmente havia se distanciado por mais tempo do que planejara, dormindo sem perceber. Sorriu esfregando o rosto com ambas as mãos para depois voltar novamente a atenção para o paciente na cama, ou que pelo menos deveria estar ali, mas não estava. Elrond sobressaltou-se se erguendo de imediato e caminhando pelo quarto preocupado. Legolas não estava mais lá. Entrou na sala de banhos, nada. Andou então desnorteadamente pelo quarto não sabendo em que pensar.
"Legolas?" Ele chamou em um tom brando, agindo apenas por instinto e duvidando que fosse receber uma resposta.
Mas estava enganado.
"Mestre?" Veio uma voz da sacada. O curador sentiu um grande alívio dirigindo-se para lá. Porém não encontrou o rapaz.
"Legolas?" Ele repetiu olhando atordoado a sua volta, ainda sentindo-se um pouco zonzo pelo fato de ter acabado de despertar. Foi quando percebeu os galhos da árvore que invadiam sutilmente a sacada do quarto, já quase secos pela queda das folhas, balançarem levemente e um vulto surgir sorrindo. O curador ergueu os olhos protegendo-os da claridade com a palma da mão e constatou que, apesar da imagem parecer bela e poética, ela era real. Legolas estava mesmo sobre um dos galhos da sua árvore de flores vermelhas, como ele gostava de chamá-la, e estava sorrindo. Elrond sentiu uma sensação estranha ao vê-lo ali. Uma mistura de medo e alegria que o entontecia mais do que as seqüelas do sono leve que tivera. "Menino!" Ele disse apenas, estendendo os braços na direção do rapaz que entendeu o recado e deslizou novamente para baixo, sendo amparado por seu protetor. O elfo cambaleou um pouco quando atingiu o piso de madeira dura, mas os braços de Elrond já estavam lá o envolvendo paternalmente, impedindo que a fraqueza o levasse ao chão.
"Peço desculpas, meu senhor." Disse o arqueiro constrangido, ainda agarrado ao robe do mestre. "Havia muito tempo que não conversávamos e eu não resisti..."
Elrond sorriu balançando a cabeça. Legolas dizia "conversávamos" como se realmente um diálogo se estabelecesse entre ele e a árvore, mas Elrond conhecia bem as habilidades dos elfos de Mirkwood e presumia, portanto, que o que ocorria era apenas uma grande troca de energia entre eles e a natureza. Energias boas representavam os tempos de bonança e energias negativas traduziam um provável perigo à espreita, não se tratava necessariamente de um diálogo, mas apenas da habilidade que essas doces criaturas da floresta das trevas tinham de traduzir as sensações que a natureza refletia sobre ambiente onde se encontravam.
"Não faça mais isso." Pediu o lorde conduzindo o rapaz novamente para o seu quarto. "Você podia ter caído. Ainda não está pronto para manobras tão destemidas." Ele completou sorrindo e recebendo um tímido sorriso de volta.
"Isso quer dizer que não posso subir na grande árvore?" Arriscou o rapaz sentando-se na cama macia.
Elrond não conteve o riso musical que lhe subiu a garganta, escapando-lhe mais como um alívio por sentir o progresso tão abençoado que se dava, do que pela insinuação do rapaz. Legolas enrubesceu levemente baixando o rosto, enquanto o curador puxava uma cadeira e sentava-se a sua frente agora.
"Que tal jantarmos no Hall do Fogo hoje?" Ele propôs segurando as mãos do rapaz que voltou seus olhos para encontrar os dele em um sobressalto.
"No Hall do Fogo?" Ele repetiu com descrença. "Mas é o lugar dos grandes encontros e festas..."
"Sim." Respondeu o curador.
"Apenas para comemorações... Algo muito bom aconteceu para ser comemorado, mestre?" Inquiriu o rapaz intrigado.
"Sim." Disse Elrond com um olhar enigmático. "E você vai comparecer, não vai?"
Legolas voltou a sentir aquela sensação do medo gélido correr-lhe a espinha, mas ao invés de ceder, ele apertou mais as mãos do mestre a sua frente e respirou fundo, fechando outra vez as grandes portas de sua alma para aquele mal aterrador.
"O senhor precisa que eu vá, meu mestre?" Ele indagou fixando-se agora apenas naqueles olhos acinzentados que lhe destinavam um grande carinho.
Um sorriso fez-se a resposta dos lábios do curador que agora esfregava as costas de uma das mãos do rapaz, tentando afastar os leves tremores que sentia nelas. "Sim, ion nin." Reforçaram as palavras. "Eu preciso."
"Então estarei lá, meu senhor." Respondeu finalmente o príncipe apertando os lábios. Seus olhos e suas palavras, porém, simplesmente não coincidiam, não parecendo pertencerem à mesma pessoa.
"Fico feliz." Disse Elrond ignorando suas dúvidas e aflições e levantando-se, trazendo agora Legolas consigo. O rapaz ergueu-se com um olhar intrigado e demonstrou grande preocupação ao ver-se conduzido para perto da porta de saída do cômodo.
"On.. onde vamos, senhor?" Indagou em um tom que preocupou seu benfeitor, mas Elrond não deixou transparecer as dúvidas que ainda restavam em seu coração.
"Vamos almoçar." Respondeu o lorde abrindo a porta e puxando o rapaz com ele sem oferecer-lhe tempo para pensar ou reagir. Legolas acompanhou-o pelo corredor vagarosamente. Seu medo crescia a cada passo que dava. Ele não compreendia o que acontecia no momento. Por vários anos cruzara aqueles corredores, descera aquelas escadas, mas agora tudo parecia tão novo, tão diferente e tão... assustador. Em seu peito um grande pavor emergia em total ebulição, sufocando-o, tomando-lhe o ar dos pulmões. Ele queria resistir, mas não conseguia, quando chegaram perto da escada central seu corpo já tremia tanto que Elrond desistiu de puxá-lo, parando então a sua frente com um olhar preocupado.
"Las." Ele chamou carinhosamente segurando pelos ombros o rapaz que agora se encolhia abraçando o próprio corpo.
"Na... não... não posso, mestre." Admitiu então o jovem baixando a cabeça a ponto de fazê-la ficar na altura do peito do curador. Elrond enlaçou os braços a sua volta trazendo-o para perto de si.
"Claro que pode, ion nîn." Garantiu o lorde erguendo o rosto do rapaz para que olhasse para ele. Mas Legolas resistiu voltando a face transtornada pelo medo e pela vergonha para que Elrond não o visse, enterrando o rosto no robe do mestre. "É apenas nossa casa." Continuou então o curador alisando-lhe os cabelos pacientemente. "Não há ninguém aqui que não te conheça, criança, e que não ficará satisfeito em vê-lo novamente entre nós."
Mas aquelas eram palavras vãs. Legolas desprendeu-se dos braços que o seguravam, parecendo discordar inteiramente da opinião que ouvia. Ele ainda voltou-se e ofereceu um olhar triste ao curador, um pedido de desculpas, um pedido de clemência e virou-se, dando alguns passos hesitantes de volta pelo corredor. "Eles não me conhecem..." Disse em um tom amargurado. "Eu não sou mais quem eles julgavam conhecer..."
Elrond franziu os olhos seguindo o arqueiro a tempo de segurar-lhe o braço, impedindo-o assim de entrar novamente em seu quarto. "É claro que é, criança." Ele disse em um tom severo. "Nada mudou."
"Mudou!" Respondeu o arqueiro subitamente. Seu tom era mais alto do que o habitual e sua voz carregava grande amargura e dor. Ele puxou o braço que Elrond segurava com força e colocou a mão na maçaneta abrindo a porta, mas foi novamente impedido de cumprir seu objetivo pelo lorde de Imladris. Elrond colocava-se agora entre ele e a entrada encarando-o com um dos piores olhares que Legolas já recebera. O príncipe baixou os olhos novamente, envergonhado, mas não conseguia conter a avalanche de sentimentos diversos que estava caindo sobre seu espírito naquele momento. Era tudo muito difícil, era tudo um grande enigma, era tudo um caminho árduo e ele não queria mais, não tinha mais forças para o que se construía a sua frente. Ele só queria voltar para dentro daquele cômodo e nunca mais sair, nunca mais precisar conversar com ninguém, ouvir os pesares e lamentos na voz de todos, ouvi-los chamá-lo de "príncipe", ouvi-los perguntar-lhe sempre como está, como se sente. Ele queria se esconder de tudo e de todos. Estava cansado.
"Se não me deixar entrar eu vou embora." Ele disse com os olhos baixos, não acreditando em uma palavra sequer que proferia.
Elrond fixou seus infinitos olhos no menino sem responder, lamentando cada palavra que ouvia, mesmo sem dar-lhes crédito algum. Legolas sentiu o rosto arder, não acreditava que estava dizendo aquelas coisas, não acreditava que estava descarregando sua ira e seus conflitos em seu mestre.
"Vai nos deixar a par dessa vez, Legolas?" Disse por fim o curador em um tom triste. "Ou vai simplesmente deixar mais uma carta?"
E aquelas questões foram como um banho em um lago gelado. Legolas sentiu as lágrimas lhe assolarem e não compreendeu de onde elas tinham vindo. De repente se viu em prantos, encostando-se na parede do corredor e escorregando para o chão como uma folha que o vento leva. Ele perdera novamente o controle sem qualquer sobreaviso. Um grande mal parecia querer tragá-lo, puxá-lo, fazê-lo curvar-se como um senhor perverso que castiga seu servo impiedosamente. No que havia se tornado?
Elrond agachou-se perto dele puxando-o para próximo de si novamente. O arqueiro não ofereceu resistência, deixando-se ficar nos braços do mestre por alguns instantes, enquanto tentava conter os soluços que escapavam por sua garganta. O lorde elfo esperou pacientemente aquele rompante de dor e angústia esvaecer-se enquanto ansiava que alguma nova idéia lhe viesse à mente. Ele sentia que seria muito difícil levar Legolas para baixo no estado em que o rapaz estava e isso o transtornava profundamente. Já era passada a hora do menino voltar a encarar o mundo a sua volta, passo importante, primordial para sua recuperação.
"Quer mesmo ir embora, criança?" Insistiu então, tentado esconder as intenções ocultas por trás daquelas palavras.
"Deixe-me entrar, senhor." Pediu mais uma vez o rapaz ignorando a pergunta feita. Sua voz soava abafada pelo robe do mestre. Ele não ousava reerguer o rosto depois do que dissera. "Eu não estou preparado... por favor."
Elrond massageava-lhe as costas sutilmente agora. O rosto contraído em um súbito pesar.
"Eu não posso obrigá-lo, ion nin."Disse com tristeza. "Mas minha experiência me diz que a cada passo recuado, mais difícil se torna o caminho a seguir."
"Eu não posso... não consigo..." Lamentava-se o príncipe encostando-se mais em seu mestre. Ele sentia o frio voltar a incomodá-lo e ansiava que os braços do curador pudessem protegê-lo daquela sensação medonha.
"Criança, eu entendo a sua dor e as suas dúvidas. Elas seriam todas plausíveis se a pessoa em questão não fosse você, Legolas." Disse Elrond afastando mais uma vez o rapaz de si para poder olhar para ele. "Você é mais forte do que isso. Você viveu numa floresta sozinho durante anos, enfrentou as mais terríveis provações, enfrentou a pior delas... a ira daqueles a quem amava. Você é capaz."
Legolas balançava a cabeça com força como se quisesse impedir que as palavras de Elrond chegassem aos seus ouvidos. E eram verdadeiras e contundentes aquelas palavras. Ele realmente fizera tudo aquilo, enfrentara a dor da perda e da solidão mais de uma vez. O que mudara?
"Não... não posso... Misericórdia, meu senhor." Ele suplicou voltando a agarrar-se ao mestre. Elrond suspirou profundamente abraçando o menino com força e sentindo-se derrotado. Ele não se julgava capaz de forçar o rapaz a nada, muito menos depois do pedido que ouvira. Sentia-se novamente sem saída e aquela era uma sensação com o qual não estava habituado. Ele se via sem suporte, sem forças para combater aquele mal sozinho, mas não conseguia imaginar onde ou em quem buscar apoio.
Mas Iluvatar dera-lhe muitos amigos.
"Que curioso!" Surgiu uma voz familiar no corredor. Uma voz que Legolas há muito não ouvia. "Uma reunião no chão do corredor principal."
O arqueiro apertou os olhos e respirou profundamente. A última pessoa que gostaria de ver parecia estar querendo cruzar o seu caminho em um momento crucial. E era alguém diante de quem ele não poderia mostrar fraqueza, não poderia mostrar dor. Elrond sorriu ainda no chão, olhando a figura amiga se aproximar.
"Mas para quem vive em árvores".Disse o visitante como se recitasse antigos versos que sabia de cor. "O chão limpo de Imladris é muito convidativo."
Legolas abriu os olhos sem se mover. Aqueles não eram versos. Eram palavras de alguém que há muito tempo deliciava-se com cada momento que desfrutava em Rivendell, com cada instante. Eram palavras suas, mas, ao mesmo tempo, de alguém que não existia mais. O príncipe moveu o rosto devagar, mesmo sabendo o quanto não desejava fazê-lo, o quanto não desejava encarar aquele elfo. Quando ergueu o olhar encontrou uma palma estendida para ele, oferecendo-lhe ajuda para se levantar.
"Esse chão não tem nenhuma regalia a lhe oferecer, príncipe Legolas." Continuou a voz forte, porém doce. "Não há sequer uma vista aqui para ser contemplada."
O rapaz encheu os pulmões contrariado, aquela soma de palavras o estava confundindo, idéias doces e amargas somadas e misturadas em um amontoado de emoções que o deixava sem ação. Ele voltou-se levemente para encontrar o sorriso encorajador de Elrond a seu lado. Então ergueu hesitante a mão, aceitando o oferecimento o amigo do curador e colocando-se em pé com a ajuda dele. Elrond acompanhou seu movimento, fazendo o mesmo. Mas Legolas afastou-se dos dois no instante que se viu ereto, buscando apoio na parede atrás dele e procurando não olhar mais na direção do elfo que agora o encarava.
"Como vai, príncipe Legolas?" Inquiriu a melódica voz.
Quantas vezes ele ainda iria repetir aquele tratamento? Pensou o rapaz apertando os punhos levemente. Por que simplesmente não continuava o caminho que seguia? Mas não, ele tinha que ficar parado onde estava. Encravando aquele par de claros e enigmáticos olhos nele, vasculhando o pouco de paz que restava em sua alma. Legolas sentiu-se estranho ao voltar a encarar aquele olhar, um olhar que nunca lhe fizera bem. Apesar daquele elfo sempre o tratar com o mais profundo respeito e consideração, ele simplesmente não conseguia se sentir a vontade diante dele.
"Legolas está um pouco cansado ainda, mellon nîn." Informou Elrond, tentando justificar o silêncio do rapaz.
"Cansado. Claro." Repetiu o elfo aproximando-se mais um pouco até estar frente a frente com o jovem elfo. O louro príncipe de Mirkwood encostou-se ainda mais na parede como se quisesse passar a fazer parte dela, ser mais um quadro pendurado, enquanto aqueles olhos de um azul indecifrável o encaravam de mais perto.
"Nós vamos almoçar. Gostaria de fazer-nos companhia?" Inquiriu o curador em um tom de paz.
"Sou-lhe grato pelo convite, mellon nîn." Respondeu o outro colocando-se a praticamente um palmo de distância do arqueiro de Lasgalen agora. "Mas tenho afazeres, alguns acertos para nossa confraternização de hoje." Ele continuou sem desviar os olhos do rosto ao qual analisava de forma muito interessada agora. Legolas tremia levemente e odiava-se por sentir sua pele queimar e esfriar-se a cada movimento dos poderosos olhos que o aprisionavam agora. "Sente-se bem, príncipe Legolas?" Indagou o amigo do curador por fim, voltando a repetir a torturante expressão. Ele parecia fazê-lo apenas para senti-la vibrar e refletir-se no rosto do menino, como quando se atira uma pedra em um lago parado e esta causa um estranho desenho na água.
"Sim... meu senhor." Respondeu finalmente o rapaz em uma voz que não tinha um oitavo de sua potência habitual. Ele diria o que quer que o guerreiro quisesse, desde que ele fosse embora lhe devolvendo a alma que parecia estar aprisionando agora e que lhe pertencia.
"Excelente. Muito me satisfaz vê-lo recuperado, Thranduilion." Soou a voz com satisfação agora, mas ecoando na cabeça de Legolas como quando se está muito próximo de um grande sino e este dobra sem sobreaviso. O arqueiro engoliu o nada que tinha na garganta e voltou a pressionar os punhos fechados, enquanto uma mão em seu queixo o fazia erguer o rosto e encarar aquele a quem ele não queria ver. "Príncipe Legolas Thranduilion." Repetiu o elfo pausadamente analisando cada dor que fazia brotar no rosto do arqueiro, cada palavra despertava um tremor diferente na bela face do rapaz. "Seja bem vindo a Imladris mais uma vez. Sua força e seu gosto pelo que é belo nos fizeram grande falta. Desejo que tenha uma estadia prazerosa... e que encontre o que busca."
Legolas deixou-se então perder naquele olhar por alguns instantes, tentando desvendar as palavras que aquele poderoso guerreiro lhe dissera, mas sentindo-se ainda pressionado como se um grande animal tivesse caído por sobre ele. O amigo de Elrond ofereceu-lhe um leve sorriso então e um grande alívio finalmente se fez quando ele se afastou, fazendo uma nova reverência e seguindo seu caminho em seu robe branco e prateado.
"Ele me odeia." Admitiu o arqueiro em um suspiro forçado, tentando expulsar o mal estar que sentia. Aquela frase parecia perdida, fora de ocasião. Quantas vezes, em seu perfeito estado de espírito, ele jamais tivera coragem de proferi-la, no entanto agora ela lhe escapava como uma verdade que exige vir à tona contra todos os desejos.
Elrond riu e seus olhos acompanharam a figura do amigo em seu elegante andar, até que este finalmente desapareceu escada abaixo. Seu coração agradecia por não estar só. Por saber que a sua volta sempre haveria alguém para atender-lhe aos apelos desesperados, mesmo que estes apelos não fossem expressos em palavras ou atos. Ele agradeceu uma vez mais pela sabedoria infinita daquele louro lorde de Imladris, que sempre soubera os momentos mais apropriados para semear o discurso correto. Que sabia que, muitas vezes, a semeadura de uma pequena discórdia fazia mais bem do que mal.
"Não." Ele respondeu voltando a encarar o príncipe que finalmente parecia recobrar a cor que perdera. "Ele não guarda nenhum sentimento negativo para com você, menino. E você sabe disso. Ele só é um tanto intolerante com certas atitudes as quais não considera corretas."
Legolas franziu novamente as sobrancelhas voltando a encarar o corredor que, apesar de vazio, ainda parecia guardar a fragrância do poderoso elfo.
"E quais atitudes minhas mestre Glorfindel condena, meu senhor?"
Um novo e diferente sorriso enfeitou os lábios de Elrond quando ele apenas balançou levemente a cabeça, voltando a tomar o braço do rapaz e conduzi-lo pelo mesmo caminho feito pelo louro amigo. "Nada de grave, meu menino." Ele disse satisfeito em ver o rapaz descer os degraus despercebidamente agora. "Apenas seu excesso de amor por alguém por quem ele não guarda grande simpatia."
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O destino sempre favorece àqueles que não deixam de esperar. Foram os pensamentos de Elrond quando percebeu que a sala estava vazia, bem como os demais cômodos. Todos estavam ocupados com a organização do evento que se daria naquela noite. Não havia nada, nem ninguém para espantar ou assustar o pássaro solitário que ele tinha em mãos agora. O lorde de Imladris pediu que o almoço fosse servido na sala de estudos, onde ninguém entraria sem ser convidado. Não seria conveniente abusar de uma sorte que tão gentilmente lhe sorria.
Legolas deslizava displicentemente os talheres pelo prato agora, remexendo a comida de forma que ela já não parecia mais com nada que pudesse ter forma ou sabor definido. Elrond franziu a testa em desaprovação quando viu que seu prato quase vazio não era o espelho do prato do príncipe.
"A comida não lhe agrada, ion nîn?" Questionou embora presumisse a resposta que receberia.
Mas não houve resposta. Legolas não respondeu e não o fez porque simplesmente não estava ali. Seus talheres remexiam os vegetais cozidos, mas seus pensamentos remexiam outras imagens não tão coloridas. Elrond suspirou involuntariamente. Estava esgotado e havia se passado tão poucos dias. Ele não podia deixar de pensar que o que quer que estivesse corroendo o coração e a alma do doce príncipe de Mirkwood, deveria ser algo muito forte, pois o estava atingindo também.
De repente, sem nenhum porquê ou motivo aparente, o rapaz empalideceu e os talheres deslizaram de seus dedos, caindo por sobre o prato e fazendo um barulho desagradável. Elrond assustou-se e segurou-lhe uma das mãos de imediato.
"O que houve?"
"Ele..." balbuciou o rapaz tentado se erguer agora. O curador acompanhou-o, dando a volta na mesa e ficando a seu lado.
"O quê, menino? O que está te abalando assim?" Indagou preocupado, fazendo o rapaz voltar a se sentar e puxando outra cadeira para fazer o mesmo.
Legolas piscou várias vezes enquanto apertava as mãos do mestre. Elrond percorria todos os sinais do rosto do menino em busca da resposta que não vinha de seus lábios. Mas era uma busca em vão, o rosto pálido e assustado do rapaz não lhe dizia nada a não ser que ele estava realmente amargando alguma idéia terrível.
"Ion... ion nîn," Insistiu o curador segurando o rosto do arqueiro com ambas as mãos agora. Legolas ergueu as suas e segurou os punhos do mestre, suas mãos e seu rosto suavam o frio da contradição de todos as dores que sentia. "Diga o que te aflige, criança. Diga para que eu possa ajudá-lo."
"Ele... não morreu, não é?" Indagou finalmente o jovem.
"Quem?"
"Hawk."
Hawk. Repetiu o curador em sua mente enquanto pestanejava por alguns instantes, assimilando a pergunta que lhe fora feita. De repente um novo personagem invadia-lhe os pensamentos e parecia não haver lugar para ele ali.
"Por que pergunta, criança?" Indagou tentando se lembrar que destino abraçara o estranho arqueiro sulista.
"Senhor..." Insistiu o príncipe puxando as mãos que mantinham seu rosto imóvel e fixando o desespero de seu olhar na pessoa a sua frente. "O senhor o viu cair? O viu fugir? Sabe dele?"
Elrond estava tentando refazer aquele dia fatídico em sua mente e não era uma tarefa fácil ou algo que ele realmente quisesse fazer naquele momento. Mas aquele pedido soava tão urgente que o curador se viu sem outra alternativa.
"Não..." ele respondeu virando levemente o rosto e voltando a segurar as mãos do rapaz. "Não me lembro de tê-lo visto cair... mas creio que sim, ion nîn. Estavam em número reduzido demais para que alguém escapasse."
Não era uma resposta satisfatória e Elrond sabia disso, mesmo sem ver que aquela informação não atenuara uma ruga sequer de preocupação que se formara no rosto do arqueiro. Aquele personagem maligno parecia ter renascido das cinzas para perturbar a pouca paz que restava nos corações presentes.
"Ele..." A voz de Legolas tornou a enfraquecer enquanto ele voltava seu olhar para a janela aberta do cômodo. A brisa cessara sua investida e o ambiente estava em uma calmaria desagradável. "Ele não foi abatido." Completou então.
"Como sabe disso?" Indagou Elrond voltando-se vagarosamente para observar a cena que parecia prender a atenção do rapaz agora. O curador franziu a testa ao perceber que a pequena janela aberta cedia gentilmente espaço para uma imagem externa que, de tão imóvel e sem som, parecia uma pintura.
"Ele... é..." Tentou dizer o rapaz. Eram momentos nos quais as palavras pareciam ter espinhos.
"O que, Las?"
O que? O que Hawk era? Perguntou-se o príncipe lembrando-se que não dissera a ninguém os planos que ouvira do inimigo declarado. Ele desejava não ter se lembrado. Desejava não ser assombrado por mais esse fantasma.
"Legolas?" Insistiu o senhor de Rivendell afligindo-se pelo silêncio que vinha do rapaz. "O que o perturba? Porque acha que essa criatura infeliz ainda nos é alguma ameaça?"
E certas cenas voltaram a se refazer na mente do arqueiro como um quebra-cabeças macabro, criando imagens aterradoras, semeando suspeitas, receios. A aterrorizante visão de Hawk, dizendo as coisas que dissera, fazendo as ameaças que fizera, tornou-se tão clara quanto estava no dia em que tudo se dera.
"Ele não está morto."
Elrond franziu os lábios preocupado. Percebendo que havia uma história inteira ali que precisava ser contada, mas temendo que aquele talvez não fosse o momento adequado para o enfraquecido Legolas ver-se obrigado a fazê-lo.
"Se não está..." Disse o curador buscando alguns momentos da atenção do menino ao seu lado. "Nós saberemos."
"Ele é um elfo, senhor." Revelou então o príncipe percebendo que aquela informação decididamente era uma grande e desagradável novidade para o lorde de Imladris. Elrond franziu muito as sobrancelhas e seus lábios se separaram ligeiramente como se ele executasse estranhos e difíceis cálculos matemáticos em sua mente agora.
"Como?" Indagou o curador sentindo subitamente uma estranha sensação em seu peito. Uma sensação que ele conhecia bem e que sempre precedia um mal pior.
Legolas sentiu um enorme calafrio correr-lhe o corpo todo, sacudindo-o como um vento forte que vinha de lugar algum. Sua mente não conseguia manter-se ali. Ela viajava várias léguas, percorrendo as planícies, entrincheirando-se pelas densas árvores, tentando imaginar onde estaria o terrível Hawk.
"Ele está vivo... e ele..." A sentença saiu incompleta da boca do jovem elfo que permanecera semi-aberta mesmo depois de proferi-la. O jovem tentava organizar as idéias, mas aquela era uma tarefa verdadeiramente difícil.
Elrond, desperto de suas conjecturas pela informação mal recebida, voltou a olhar o rapaz com uma interrogação estampada em sua face.
"E o que, ion nîn?" Indagou.
"Ele... tem um mestre..." Disse o arqueiro por fim, como se a conversa fosse muito pessoal, fosse para si mesmo. O rapaz ergueu o corpo devagar, dando alguns passos em direção da janela aberta. "Eu... não sei quem é..." Completou percebendo a mão de Elrond por sobre seu ombro agora. O curador sentia uma terrível sensação de perigo e instintivamente acompanhava o rapaz, disposto a protegê-lo daquela ameaça invisível.
"Ele lhe contou isso?" Indagou colocando-se ao lado do menino.
"Ele... quer tomar o meu... o reino... o reino de meu..." Legolas sentia-se confuso, percebendo finalmente que as palavras de seu vocabulário haviam mudado de sentido. Ele queria dizer 'meu reino', o 'reino de meu pai', mas aquelas eram palavras que não lhe pertenciam mais. "Ele quer tomar Mirkwood." Disse por fim abrindo muito os olhos azuis, mas não desviando seu olhar da paisagem imóvel a sua frente.
Aquela notícia era um vulcão em erupção. Elrond segurou a mão do menino pensando no que ouvia, assimilando as sensações que cresciam em seu peito e estavam para explodir. O que estaria por trás de todo aquele pesadelo?
"Ele queria que eu o ajudasse..." Confidenciou o jovem olhando finalmente para seu mestre. Ele não parecia nada além de uma criança assustada agora. Uma criança que fora ameaçada e se lembrava de seu malfeitor com traumas profundos. "Queria que eu traísse meu... que eu traísse o rei... que tomasse o lugar... o lugar dele." Desembestou o arqueiro tentando dizer tudo o que podia enquanto o ar ainda preenchia-lhe os pulmões. "Ele disse que o mestre... que o mestre a quem servia iria... que eu iria... que eu iria servi-lo de bom grado... que eu lideraria meu..." E conforme aquelas palavras surgiam dos lábios do rapaz ele apertava mais a mãos do curador. Elrond sentia o frio que o ameaçava novamente. "Ele esperava que eu... Mas eu não fiz... eu não pude... eu..."
Elrond ergueu dois dedos apoiando-os finalmente por sobre os trêmulos lábios do rapaz. Ele entendera a história cruel perfeitamente agora e não havia mais necessidade do príncipe continuar amargando aquelas palavras que não queria proferir.
"Está tudo bem, ion nin." Disse então procurando manter uma serenidade em sua voz e encarando os assustados olhos que se voltavam para ele. O curador teve que se conter para não ceder ao instinto que teve de abraçar aquela criança e voltar a trancá-lo em seu quarto, protegido de qualquer dor ou perigo.
"Quem é, meu senhor?" Indagou o príncipe voltando-se novamente para a visão que coloria a paisagem daquele começo de tarde. "Quem é esse mestre a quem Hawk serve tão fielmente?"
Elrond colocou-se então ao lado do rapaz apoiando uma mão por sobre o ombro do arqueiro e a outra no parapeito da janela em frente. O que crescia em seu peito estava finalmente prestes a explodir e ele ansiava e receava por isso com igual intensidade. Seu olhar distanciou-se, como se visse algo muito além, o horizonte se desfazia em uma imagem diferente. Uma imagem que ganhava forma... cor... lugar... vida... Uma visão...
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Legolas estava correndo a pé por um terreno íngreme, olhos voltados para a frente e um pavor estampado no rosto. Ele se apressava cada vez mais e seus lábios se moviam como se chamasse desesperadamente por alguém, como se visse algo aterrador. Atrás dele e a sua volta vultos enormes passavam sem serem reconhecidos, imagens, sombras distorcidas e velozes, mas o príncipe não parecia dar-lhes atenção, ele apenas corria e gritava. Estava desarmado, mas não parecia fugir, muito pelo contrário, parecia ir ao encontro de algo, ao encontro de seu destino.
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Elrond respirou fundo e baixou a cabeça apoiando as duas mãos por sobre a janela agora. Legolas sobressaltou-se segurando o curador pelos ombros e buscando seu olhar.
"Mestre?" Indagou aflito. "O que está sentindo?"
Era apenas uma voz distante agora. Que chamava por ele e a quem ele queria atender. Mas os detalhes ainda estavam vivos e deslizavam em sua mente, formando imagens, imagens assustadoras.
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O Anduin se erguia severo em ondas de pavor, como um mar tempestuoso, suas águas claras manchavam-se de vermelho e gritos de dor e angústia se faziam ouvir. Nenhuma palavra, porém conseguia ser distinguida, gritos sufocados e desconexos, medo somado a medo e medo. Um corpo deslizava imóvel pela água, batendo em algumas pedras, escorregando em direção a grande cachoeira, escorregando para onde o Anduin era o mais soberano de todos. Um figura com os cabelos cor de ouro.
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"Legolas!" Exclamou então o mestre afastando-se subitamente da janela e encostando-se na parede. O príncipe empalideceu voltando a aproximar-se e apoiando uma mão por sobre o peito do lorde elfo.
"Senhor?" Ele indagou assustado, seus olhos claros buscavam uma conexão com os de seu mestre, mas não conseguiam encontrá-la. "Senhor, o que houve?"
Eram imagens chicoteadas, flashes de luz e sombra.
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Estel estava ajoelhado em uma colina sob um anoitecer sem estrelas. As mãos unidas e os olhos fechados. Seus lábios tremiam enquanto pronunciavam palavras que não podiam ser ouvidas. A dor presente em cada traço de seu rosto. O cansaço abatendo-o enquanto uma grande sombra parecia encobri-lo, uma presença que o guardião não via, não queria ver. Um mal sem tamanho.
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"Não!" Gritou Elrond erguendo subitamente as mãos e apoiando os dedos sobre as têmporas. Estava sem ar, sem possibilidades de dominar o que o estava assolando, sentindo-se impotente diante do destino que parecia debochar dele, parecia provocá-lo, lembrá-lo sempre de sua condição, lembrá-lo de que ver o que estava para acontecer poderia ser apenas sofrer por aquelas dores mais de uma vez.
A imagem enfraqueceu, empalideceu, perdeu paulatinamente a cor até desaparecer dando novamente lugar ao rosto preocupado do príncipe a sua frente.
"Legolas..." Ele disse soltando o ar dos pulmões e apoiando a mão por sobre o peito do elfo. O curador pôde sentir o arfar do peito do assustado arqueiro. O rapaz perdera novamente a cor e segurava os braços do mestre sem saber o que fazer. "Tudo bem... está tudo bem..." Ele assegurou respirando fundo e voltando a ficar em frente à janela, encarando a verdadeira visão que deveria ter visto, mas não vira.
"O que houve, meu senhor?" Indagou o rapaz preocupado.
O curador baixou a cabeça por alguns instantes, amargando os flashes daquele pesadelo que tivera e que insistiam em vibrar em sua mente ao invés de simplesmente desaparecerem. Legolas baixou também a sua, tentando acompanhar o movimento do mestre, tentando ver o que aqueles olhos escondiam.
"Quer que eu chame seus filhos, meu senhor?" Ele indagou sem saber o que mais poderia fazer.
Elrond ergueu novamente o rosto e teve uma estranha surpresa. Ele então sorriu olhando carinhosamente para o rapaz que segurava suas mãos agora. Por alguma razão inexplicável a dor e o mal que assolavam a alma do menino tinham desaparecido e ele transmitia-lhe uma grande segurança, como se estivesse disposto a desfazer a casa toda se a ele fosse pedido.
"Um de meus filhos está aqui." Respondeu apertando levemente as mãos do rapaz. "E aqui vai ficar."
Legolas virou a cabeça buscando compreensão. Elrond ergueu uma das mãos e deslizou os dedos pelos dourados fios de cabelo do príncipe. Ele queria esquecer o que vira. Não queria acreditar que algum mal maior ainda estivesse reservado para aquele rapaz que já sofrera tanto. Ele não iria permitir. Não permitiria que mais nenhuma perversidade adentrasse o caminho do jovem e bondoso Legolas.
"Senhor, deixe-me ajudá-lo." Implorou o rapaz agora. Sentia um grande mal estar em seu coração que buscava em vão compreender o que se passara. "Diga-me o que fazer."
Então o curador fixou seus olhos nele e finalmente o rapaz pôde perceber o que havia acontecido. Nos acinzentados olhos do mestre vivia uma grande dor, a dor de uma descoberta terrível, uma descoberta que ele não se sentia com coragem o bastante para questionar. Elrond olhava para ele, deslizava um olhar amável por seu rosto com um sorriso cansado, enquanto seus dedos ainda seguravam uma das tranças do jovem elfo. Então ele finalmente a soltou e ergueu um pouco mais a mão deslizando a ponta dos dedos pelo contorno da orelha do rapaz. Um gesto cheio de significados para os elfos, um pedido e um voto de confiança.
"Fará qualquer coisa que eu lhe pedir?" Indagou o mestre tentando fazer o ritmo de sua respiração voltar ao normal.
Legolas franziu a sobrancelha e sentiu o corpo estremecer diante do gesto e da pergunta pouco usual. Mas ele não tinha mais medo. Ele iria até as profundezas da mais funda caverna se o lorde elfo o pedisse.
"Sim, meu mestre." Ele respondeu com firmeza.
Elrond ofereceu-lhe um novo sorriso e finalmente voltou-se para a janela e olhou o jardim carinhosamente.
"Então vá até lá." Ele instruiu apontando para a imensa e velha árvore. "Vá ver a grande árvore. Eu quero vê-lo daqui."
O arqueiro estranhou ainda mais o pedido do mestre. E temeu.
"Ir... até o grande eucalipto?" Ele indagou incrédulo.
"Sim." Respondeu simplesmente o mestre, seus olhos voltados respeitosamente para a árvore mais antiga de Imladris, símbolo da sabedoria ansiada e cultivada por todos os elfos de Rivendell.
O príncipe acompanhou o olhar do curador e encontrou a imagem da amiga. Ela era forte, emanando energia e beleza para quem quer que estivesse aberto para senti-la. Mesmo de longe o grande eucalipto assemelhava-se a um gigantesco imã que o puxava para perto dele. Não havia nada naquele momento que ele quisesse mais fazer do que ir até lá, a não ser...
"Senhor, eu não quero deixá-lo aqui."
Elrond soltou um longo suspiro sem se voltar. Seus olhos buscavam por algo que o príncipe não entendia.
"E eu não quero deixá-lo subir." Respondeu o mestre finalmente voltando a encarar o menino. "Mas eu preciso estar só agora e você precisa da companhia do grande e sábio eucalipto. Ambos vamos ter que correr os nossos riscos. Por nós dois... separados... e juntos..."
E a dúvida se desfez no enigma indecifrável, aquelas palavras desconexas nunca fizeram tanto sentido, como se ambos falassem uma estranha língua cujas palavras traduziam apenas fragmentos de emoções e reflexões. Legolas abraçou o mestre mais uma vez e caminhou até a porta a passos firmes. Elrond observou-o sair, ouviu-lhe os passos no corredor, o som da grande porta se abrindo, a porta da sala e a porta do coração do menino, que finalmente estava curado. Um veneno destruindo o outro, um vazio preenchido pelo temor e pela preocupação, porém preenchido. Legolas colocava-se em pé, não por si, não para sua segurança, mas para enfrentar a nova batalha que vira refletida nos olhos do mestre. Ele se colocara de pé para servi-lo.
Elrond finalmente o viu no jardim. O rapaz caminhava, passava por todos os que cruzavam seu caminho com um leve aceno de cabeça. As pessoas não eram mais um problema, vissem como o vissem, chamassem como o chamassem. Ele tinha uma missão. Fez uma leve reverência diante da velha árvore e depois apoiou ambas as mãos gentilmente nela, sentindo a rispidez e a rigidez da madeira viva, a energia que fluía e que o convidava. Venha! Venha tocar o céu! E seu coração se esvaziou dos temores e dúvidas que o povoavam e um grande silêncio se fez em seu espírito. O rapaz desprendeu os lábios em admiração. Nunca se cansaria daquilo, nunca deixaria de sentir-se honrado com o convite. Mas voltou-se por um minuto para assegurar-se de algo.
E a certeza se fez. Elrond estava na janela. Olhos fixos nele, ansiando pelo rompimento de um momento de dor, ansiando que ele lhe proporcionasse um alivio, uma cena de paz. Legolas sorriu, apoiando uma mão por sobre seu peito e curvando-se levemente. Elrond retribuiu. A palma aberta sobre o coração, segurando o rapaz dentro dele, confiando nele uma vez mais. E Legolas fez jus a essa confiança, enchendo os pulmões de ar e fechando os olhos para finalmente apoiar-se com firmeza, subir vagarosamente e enfim sumir por entre a grande copa de onde as folhas mortas do outono ainda se desprendiam, voavam e perdiam-se no ar. Ele desaparecera, subindo para visitar o céu.
