Olá! Como vão vocês, pessoas que vivem no meu coração?
Gostaria de saber agradecer a todos os que me escrevem de uma forma inesquecível. Gostaria de poder proporcionar a vocês um agradecimento à altura do que sinto quando recebo as reviews que me mandam. Nunca vou cansar de me surpreender com a boa vontade dessas pessoas maravilhosas que nunca deixam de me dizer o que acharam e me motivam sempre a continuar. Obrigada, de coração.
Esse capítulo está mais curto. Deixe-me explicar. Na verdade, como a Myri mesma notou, o capítulo anterior também ficou mais curto do que o normal. Isso se deve ao fato de que esse e aquele eram na verdade um só. Eu o dividi em duas partes porque achava que a cena final daquele e a cena inicial desse eram duas cenas muito marcantes e que uma acabaria neutralizando a outra de certa forma. São duas cenas que gosto demais e queria que vocês pudessem aproveitá-las e quem sabe sentir algo como eu senti. No capítulo anterior parece que funcionou, pois mais de uma de nossas amigas comentou sobre o último parágrafo, a cena final do Las "visitando o céu." Espere que funcione com este também.
Mas admito que este capítulo está bem no meu clima "angst" mesmo... e como eu gosto disso... sem muita ação, mas com muita doçura. Porém adianto aos que vão ficar achando que falta algo que o capítulo 28 também está pronto. Devo postá-lo nos próximos dias. É um capítulo marcante também para mim, pois outros personagem aparecem. Espero que valha a pena para vocês a espera. Obrigada pela paciência e boa vontade. Vocês são demais.
Já que está é uma segunda revisão. Gostaria de destacar que o nome Elvéwen, não é criação minha, e sim de uma grande escritora chamada Cássia, que muito gentilmente me autorizou a usá-lo.
Esse capítulo foi revisado pela minha amiga Myri. Obrigada!!
Agradecimentos (não briguem comigo por eu fazer uma enorme introdução, por favor... mas eu não posso deixar de dizer certas coisas):
Lady-Liebe – as short fics da Liebe estão me dando uma saudade dela. Amiga, cadê você?
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Está sumida de novo. Não adianta que não vou me cansar de pedir para que você continue sua fic maravilhosa.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" continua percorrendo o cenário do Prof Tolkien corajosamente. Mas estou me mordendo de curiosidade para saber quando Haldir vai reencontrar sua amada e o que aquela corajosa Edain estará fazendo. Divina Myri. Obrigada por estar sempre presente e me auxiliando, mesmo quando o tempo joga contra você.
Nimrodel Lorellin – As "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" Nossa amiga Nim me prometeu um capítulo para essa semana... Estou respirando essa promessa... Que trabalho maravilhoso é o dela. Amiga!!!!
Vick Weasley: "BITTERSWEET" da talentosa Vick é uma obra de arte. A bela Arwen reflete muito mais do que a personagem original ousou refletir. Criação pura da Vick, uma Arwen cheia de qualidades e surpresas. E que dificuldade para ela se entender com um certo príncipe louro. Espero ansiosamente por um novo capítulo.
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Atualizada. Nossa Ju nunca me deixa na mão. Escritora valente que defende seus pontos de vista e arrisca com uma caracterização nova e intrigante dos nossos conhecidos personagens. Tudo o que eu quero é saber quando aquele arqueiro vai deixar o orgulho de lado e se entender com seu grande amor. Leiam!!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Atualizada e cada vez mais reconhecida como grande trabalho. Quem não leu está perdendo. Nossos personagens viram meros coadjuvantes diante da complexidade e riqueza dos personagens da Lali. Escritora de talento que devia deixar de se questionar sobre a qualidade do que escreve, pois faz um trabalho maravilhoso. Leiam!!
Kika-Sama: "APRENDENDO". Superou-se. Cresceu para se tornar uma fic completa e imperdível. Espero dia após dia por uma atualização. O último capítulo trouxe outros personagens que me encantaram e, melhor do que tudo, um Thranduil paizão, para aqueles que estão cansados do meu confuso rei élfico. Leiam!!
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Uma fic que adoro. Completa, comovente e diferente de tudo o que vocês já leram. Obrigada pelos emails. Suas reviews fazem o meu dia.
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS" ganhou um segundo capítulo. Nossa nova escritora parece receosa em publicar seu trabalho. Que bobagem, pois ficou muito belo! Leiam e vão adorar!
Kiannah – A ESTRELA SILENCIOSA é minha recomendação. Não percam.
E a grandes amigas:
Syn, the time keeper. Agradeço de coração as coisas belíssimas que você disse. Desde o começo você está aqui comigo e eu não me esqueço disso. Agradecimentos não são o bastante. Mas eu agradeço mesmo assim, amiga. Obrigada mesmo.
Regina – Saber que estou te agradando me deixa muito feliz. Espero que esteja tudo bem com você.
Botori – Eu sei o quanto cansa ficar sempre mandando reviews. Por isso mesmo agradeço a pessoas como você que nunca falham. Obrigada.
Leka – Que bom que você gosta de capítulos que envolvem emoções. Espero que este esteja do seu agrado também. Obrigada por estar sempre por aqui me dando um grande apoio. Significa muito para mim.
Aeka – Não tive notícias suas dessa vez. Espero que esteja tudo bem. Abraços!
Soi – É uma angst, por isso o sofrimento todo. Mas prepare-se. Nesse e no próximo você vai ver cenas de felicidade (Eu disse isso?? É!! Felicidade!!). Super obrigada por escrever. Estou feliz por você estar acompanhando.
Vamos a fic. O que estará acontecendo com um certo elfo louro em cima de uma árvore???
27
"O que aconteceria se o mundo fosse um eterno vazio como minha alma nesse momento? Se não houvesse dor ou desespero, mas também não houvesse alegria ou esperanças?"
"Não seria um mundo mais, Las querido." Disse a voz doce.
"Acha que podemos viver sem esperanças, nana?/mamãe/
"O que você acha, pen-neth?" /pequenino/
A doce visão na árvore lhe sorria. Cabelos infinitamente louros, lisos como os seus, escorregando como uma cascata de luz pelos ombros delicados, olhos amáveis de um verde cor de mata nativa, um verde puro e abençoado.
"Sinto sua falta." Seus lábios finalmente declararam o que seus olhos já denunciavam desde o instante em que a vira.
A elfa ofereceu-lhe um sorriso delicado, uma infinita paciência e compaixão reluziam naquele olhar gentil.
"Você sabe que não pode vir, hen lend" /doce criança/ Ela adivinhou-lhe as intenções e as tristezas. "Ele precisa de você. Não pode deixá-lo só. Você prometeu, prometeu há muito tempo."
"Eu o amo com todas as minhas forças, nana." Declarou fixando seus olhos nela. "Mas ele..."
"Ele também ama você, Las. Tanto quanto eu... Vocês são a razão da minha luz ainda brilhar..."
Como palavras tão doces poderiam ferir assim? E não houve resposta, nem qualquer outro som. Só a brisa suave balançando as folhas das árvores em volta dela, mas sem tocar-lhe os imóveis fios de cabelo, o incansável sorriso enfeitando-lhe os lábios. "Prometa." Ela pediu novamente. "Prometa que não vai deixá-lo."
Foi quando ele finalmente afastou seus olhos dos dela. O desejo de aproveitar cada momento daquela rara visão fora superado pela amargura do pedido feito, um pedido irrecusável, porém carregado de talvez.
Então ela se moveu, aproximando-se devagar, a palmos dele. Luz fria, presença distante, matéria translúcida; próxima, porém distante; ao alcance da mão, mas intocável. "Prometa, minha luz. Menino que se fez forte e sábio. Prometa que não vai deixá-lo."
"Ele me mantém longe..." Disse em uma voz desprovida de paixão, desprovida de expectativas ou esperanças. "Não me quer mais por perto. Sou o pesadelo de seus dias... Não lhe faço bem..."
Ela sorriu abertamente. A face muito próxima. Como ele queria sentir aquele calor que inexistia agora. "Ele precisa de você."
Mas os azuis olhos descriam completamente. Estavam presos nos dela, porém vendo muito além do que aquela voz lhe oferecia. Tentando criar a imagem do que ela supunha verdade, mas sempre recebendo a amarga realidade em seu lugar.
"Eu quero acreditar, nana." Uma lágrima acompanhou silenciosamente o ritmo daquelas quatro palavras.
"Eu não, meu folha verde." Os olhos lhe diziam dessa vez sem que aqueles lábios se movessem, estavam ambos presos em um momento que parecia esvaecer-se devagar. "Eu apenas amo... e confio..."
A imagem enfraquecia agora, misturando-se ao colorido do céu, à beleza do entardecer de Imladris. "Prometa... Prometa, esperança minha..."
E a mão dele inutilmente ergueu-se tentando alcançar o que já não era mais seu, o que já não estava mais ali. "Eu prometo..." Ele disse fechando os olhos para não vê-la desaparecer devagar como das outras vezes. Para não se sentir perdendo-a mais e mais uma vez. "Eu te amo, nana."
E o vazio tomou seu lugar. E ele esperou mais uma vez a solidão vir abraçá-lo.
"Legolas!!!" Chamou uma voz distante.
O príncipe reabriu os olhos em um sobressalto, percebendo que o sentimento de abandono pelo qual esperava ser atingido fora complacente pela primeira vez. Seu mestre o chamava. E era muito bom ouvi-lo chamar por seu nome. Elrond e seus filhos eram o porquê de sua existência agora, um porquê merecedor de toda a dedicação que ele fosse capaz de oferecer.
"Legolas, desça agora menino!" Reforçou a voz do curador.
O arqueiro surgiu então, deslizando vagarosamente pelos galhos da antiga árvore. Elrond sorria para ele segurando duas grandes canecas pelas alças em uma das mãos.
"Venha devagar." Pediu o curador admirado pela destreza do rapaz. O príncipe não comia há dias, emagrecendo visivelmente, mas sua agilidade não se comprometera e o jovem elfo estava tão familiarizado com aquele processo, que seu corpo parecia executá-lo sem o menor esforço.
Finalmente com os dois pés no chão o arqueiro se viu obrigado a apoiar-se na grande amiga para recuperar-se de uma leve tontura. Elrond aproximou-se lhe segurando o braço e puxando-o amavelmente para sentar-se em uma das grandes raízes expostas. O rapaz obedeceu calado e ao sentarem Elrond retomou o processo que desempenhava tão bem. Com um leve olhar seu instinto de curador logo percebeu que algo não estava bem. Algo diferente e que ele não sabia explicar.
"Estava dormindo lá em cima, ion nîn?" Indagou sorrindo.
"Não, mestre." Respondeu o rapaz com a cabeça baixa. Ele retirava os leves sapatos agora e apoiava os pés na grama macia. "Mas sonhava mesmo assim."
"E era um sonho bom?"
"Era. Era meu sonho favorito."
Os olhos do jovem elfo continuavam voltados para o chão, observando a grama verde sob seus pés, enquanto ele brincava com os dedos, apreciando a agradável sensação que sentia por estar descalço no jardim, algo que ele sempre adorava fazer. Elrond não pôde deixar de sorrir ao olhar para ele. Havia uma paz naquela cena toda, uma paz diferente que o curador conseguia captar, porém não chegava realmente a compreender.
"O senhor conheceu minha mãe, mestre?" A pergunta esclarecedora surgiu.
O olhar de Elrond então se perdeu, desviando-se devagar para as flores vermelhas que enfeitavam o jardim. As imagens de dois doces rostos vieram a sua mente. Elvéwen e Celebrian eram as flores mais belas de toda a Arda, delicadas, porém fortes, pétalas macias de amor e conforto.
"Thranduil e eu fomos afortunados." Ele disse simplesmente. "Um dia vale por mil dias quando se está com alguém que se ama."
Os olhos azuis do príncipe finalmente se ergueram e encararam a amargura que se refletia no sábio lorde de Imladris.
"Lamento, meu senhor." Desculpou-se o rapaz subitamente incomodado com o sentimento que despertara inconscientemente. "Eu não tinha a intenção de entristecê-lo."
"Lembrar-me de Celebrian não me entristece, criança." Garantiu o elfo mantendo seus olhos ainda voltados para a mais vermelha das flores. "Eu a guardo dentro de mim e sua presença é uma constante em minha vida. Não sei viver meus dias sem abençoá-los sempre com as recordações que tenho dela".
Os lábios do arqueiro se ergueram em um leve sorriso, mas parecia doer-lhe sorrir agora.
"Elvéwen era a luz da vida de seu pai." Respondeu finalmente o mestre olhando para o menino sentado a seu lado e tentando entender mais, mesmo sabendo o quão difícil seria compreender o porquê daquela conversa.
Mas algo realmente tinha acontecido e ainda estava se desenrolando. Ao olhar o rapaz nos olhos, o curador pôde fazer algo que era muito difícil, pôde pegar o menino desprevenido, com o forte escudo de sua mente abaixado. Legolas deixou-se prender pelo olhar do mestre como raramente fazia. Elrond sentiu-o entregue como nunca o sentira antes e, apesar de questionar-se sobre o porquê, ele não hesitou em vasculhar-lhe a mente em busca do que o estava aborrecendo.
Encontrou, porém, um grande vazio. Parecia não haver nada ali. A mente do rapaz era um enorme salão escuro. Elrond sentia tristeza e frio ao percorrê-la, mas mesmo assim decidiu prosseguir. Havia algo que ele precisava buscar, embora não soubesse o que era. Caminhando por aquele nada o curador finalmente viu uma cor, um vulto de luz e força, uma única imagem solitária estava a vagar vestida em leves tecidos esvoaçantes por um lugar que não lhe pertencia, parecendo esperar por ele. Elrond se aproximou devagar. A imagem cada vez mais próxima, cada vez mais forte. Estava a passos dela agora. Longos cabelos louros e lisos como um rio percorriam as costas delicadas atingindo a altura da cintura; eles brilhavam como a luz do sol em pleno meio dia. Era uma visão de beleza incomparável, uma visão que se voltava para ele agora e lhe sorria. Olhos infinitamente verdes, pele pálida como o luar e lábios de um rosa doce e suave.
"Sábio e bom Elrond." A voz soou daqueles gentis lábios que lhe ofereciam mais do que um mero sorriso naquele momento. "Obrigada." Soou então a palavra solitária que atingiu o coração do curador como um bálsamo para uma ferida ardente. A imagem então desapareceu antes mesmo que ele respondesse, deixando finalmente a mente do príncipe no mais completo vazio.
"Elvéwen..." Elrond disse libertando o rapaz agora. E um bando de pássaros cruzou subitamente o céu parecendo carregar a imagem com eles. O vento forte balançou os galhos acima e Legolas suspirou aliviado, como se tivesse estado segurando o ar nos pulmões mais tempo do que o necessário.
O silêncio entrecortado pelo cantar de pássaros foi tudo o que restou. A doce memória da imagem que há pouco iluminara a mente de ambos os impedia de romper aquele sagrado momento. Como havia possibilidade de se desistir de Arda quando algo assim tão mágico ainda era possível? Foram pensamentos que surgiram misturados a outros e que impulsionaram mais um recomeçar. Elrond finalmente estendeu a caneca que trouxera para Legolas. O rapaz lançou-lhe um olhar inquisidor sem tocar nela, apenas esticando o pescoço curiosamente para verificar seu conteúdo. Um creme amarelo cujo doce aroma era bastante convidativo. Legolas ergueu o olhar e sorriu confuso, sentindo uma agradável sensação, mas mesmo assim precisando dos esclarecimentos.
Mas nem sempre esclarecimentos vêm em forma de palavras. Elrond apenas estendeu mais o braço até que o jovem príncipe finalmente aceitou a oferta. Nas mãos do curador ainda havia outra caneca semelhante, na qual o mesmo conteúdo também era visível.
"O que é, mestre?" Indagou o arqueiro aproximando levemente a caneca do rosto para sentir-lhe o cheiro agradável, que subitamente fez surgir uma sensação de vazio em seu estômago. Aquele aroma parecia despertar um prazer que o jovem havia esquecido e ele instintivamente molhou-os lábios com a ponta da língua. "O aroma é muito bom, mas não consigo distinguir o que é."
Elrond riu trazendo a que segurava para a boca e bebendo um pequeno gole. Legolas não se conteve, imitando o gesto automaticamente e sentindo uma indescritível sensação.
"Que delícia!" Ele exclamou bebendo mais um pouco para o puro deleite de seu benfeitor que o observava agora.
"Fico feliz que aprove." Disse Elrond fazendo o mesmo.
E o silêncio voltou a imperar, mas de uma forma diferente, servindo apenas como o símbolo da paz que abençoava aqueles dois elfos, enquanto apreciavam calados uma sensação totalmente diferente: a sensação de estarem fazendo uma coisa banal e que lhes dava um grande prazer.
Quando a caneca de Legolas já estava quase vazia ele se voltou novamente para o mestre. Um leve sorriso nos lábios e um grande questionamento no olhar.
"Banana, mel, canela e alguns outros ingredientes." Esclareceu o curador revelando finalmente sua receita. "Estel adorava quando era menino. E até hoje... Ele sempre dizia que era uma das poucas alegrias que tinha quando estava doente."
"O senhor é quem faz?"
O curador acenou positivamente bebendo o último gole.
"E faz apenas quando alguém está doente?"
Elrond riu.
"Não..." Respondeu reforçando sua negação com um movimento com a cabeça. "Eu só faço em ocasiões especiais. Mas Estel sempre me chantageia para que eu faça mais vezes." Ele riu mais uma vez lembrando-se que o rapaz sempre tornava suas dores piores do que eram para que o pai o presenteasse com a bebida. "Aliás, ele e os gêmeos não vão ficar satisfeitos se souberem que bebemos sem a presença deles."
Legolas não pôde conter o riso. Havia muito tempo que Elrond não via aquele riso. O espírito do rapaz estava leve, embora seus olhos ainda guardassem uma certa tristeza.
"Onde eles estão?"
"Foram encontrar com alguns de nossos convidados. Escoltá-los até aqui."
"Pessoas importantes?" Indagou o rapaz voltando a se preocupar. Ele não se sentia muito disposto a participar de nenhuma reunião diplomática ou coisa assim.
"Sim." Respondeu o curador, colocando-se de pé e puxando-o levemente para que fizesse o mesmo. "Importantes para nós."
Aquelas informações traziam uma cascata de dúvidas à figura do arqueiro, mas o rapaz tentava dominar o desejo de fazer mais perguntas, enquanto voltava a calçar os sapatos e acompanhava o mestre que o conduzia gentilmente de volta para casa. Ele captava no ar a nítida sensação de que, por alguma razão, Elrond estava sentindo um grande prazer em esconder-lhe os detalhes daquela confraternização. Então o jovem preferiu dar ao sábio lorde elfo um voto de confiança ao invés de bombardeá-lo com questões irrelevantes como uma criança pequena.
"Mestre?"
"Sim?" Indagou o curador abrindo a grande porta e dando passagem para o menino.
"Por que o senhor fez?" Indagou o rapaz entrando a passos lentos e virando levemente o corpo para poder continuar olhando para o amigo.
"Fez o quê, ion nîn?"
"Fez a bebida especial?"
O curador sorriu um sorriso diferente dessa vez, enquanto ambos se aproximavam da grande escada e começavam a subi-la.
"É uma longa história..." Ele disse.
O príncipe se calou, sentindo que seria inconveniente insistir. Elrond abriu a porta do quarto e o rapaz entrou acompanhado pelo mestre. Uma penumbra inundava o lugar agora que parecia ter sido limpo e arrumado. O lorde foi até a sacada e puxou novamente as verdes cortinas permitindo que a luz voltasse a abençoar o ambiente. Foi quando Legolas viu que por sobre sua cama havia uma estranha surpresa: roupas novas e muito belas. Uma túnica verde água e calças de um marrom brilhante. Ao lado delas, um luxuoso robe vermelho vivo com belos bordados nas golas e mangas.
Legolas aproximou-se devagar, mas não tocou nas peças. Elrond colocou-se ao seu lado estudando os traços do rosto do rapaz. Se fossem ignorados os lábios entreabertos pela surpresa, o menino não demonstrava qualquer outra emoção.
"Não gostou?" Arriscou o curador.
"Sim..." Respondeu o rapaz de imediato. "São muito bonitas... luxuosas demais eu diria..."
"Não acredito que nunca tenha usado algo assim tão fino." Brincou o mestre apanhando a túnica para sentir o delicado tecido em suas mãos. "O príncipe de Mirkwood, filho do nobre e elegante Thranduil." Continuou com o mesmo tom de brincadeira. "Seu pai sempre teve a fama de ser o mais alinhado elfo de toda a Arda. Nem mesmo o bom gosto de Celeborn se compara ao dele."
"Ou ao seu, meu mestre." Disse o rapaz deslizando os dedos pelos delicados bordados da peça vermelha, só agora ele notara o que aqueles bordados traduziam. Eram folhas, folhas entrelaçadas de diversos tamanhos e formas. Em seu rosto iluminou-se um discretíssimo sorriso. "Seu bom gosto me entontece, senhor. Realmente nunca usei nada assim tão belo."
"Não creio." Respondeu o curador voltando a colocar a túnica estendida por sobre a cama. "Mas fico feliz por tê-lo agradado, embora, por algum motivo que ainda não consigo explicar, esteja com a nítida impressão de que vou receber um "não obrigado" de você, ion nîn."
"Jamais, meu senhor." Disse o rapaz muito sério, voltando-se para ele agora. "Jamais demonstraria tamanha ingratidão."
Elrond riu segurando o ombro do arqueiro.
"Pode dizer, menino. O que não lhe agradou em suas vestes? E não foi o fato de serem tão bem trabalhadas."
Legolas enrubesceu levemente baixando o olhar, mas não ofereceu a resposta que o mestre aguardava.
"Diga, criança." Insistiu o curador.
O príncipe então enlaçou os braços em volta de si nervosamente. Um grande constrangimento parecia incomodá-lo demais.
"É que... eu nunca..."
"Nunca..."
"Nunca usei vermelho antes, senhor." Declarou finalmente o príncipe voltando a olhar para o belíssimo robe. Era a primeira vez que aquela cor lhe trazia algum prazer.
"Eu sei." Revelou o curador sorrindo. "Não é uma cor que reflita os ânimos de Lasgalen. Seus elfos não conseguem desvinculá-la dos horrores da guerra. Mas aqui em Imladris ela é bem vinda. O vermelho vivo das flores e tecidos faz parte do nosso dia a dia, por isso eu o escolhi para você." Ele segurou então o rapaz pelos ombros fazendo-o voltar-se para ele, chamando sua atenção total para o que ia agora dizer. "Hoje você usa as cores do seu povo, mas usa a do meu também."
Aquele dito fez-se a sentença que Legolas engoliu e não pôde ignorar. Muito mais significativas aquelas roupas eram do que ele queria crer. O rapaz acenou com a cabeça em confirmação e o lorde elfo afastou-se até a porta da sala de banhos.
"Está tudo pronto." Ele declarou. "Tudo caminhando tranqüilamente."
Legolas foi até a sacada e deixou-se perder por mais alguns momentos apreciando a paisagem. Uma folha seca voou pousando sobre seu ombro. O jovem elfo voltou-se para os galhos nus de sua árvore e sorriu, pousando uma mão por sobre ela e sentindo o amável convite. A bela amiga não podia lhe presentear com suas flores vermelhas nessa época do ano, mas sua energia sempre presente era uma benção. Ela parecia lhe sorrir, convidando-o para subir e se deitar um pouco mais como sempre fazia. Era muito difícil recusar aquele convite. Ele queria muito se deitar em um daqueles galhos e senti-la embalá-lo como a uma pequena criança. Elrond tinha razão. O vermelho tinha uma conotação diferente em Rivendell.
"Não vai mais subir em árvores por hoje." Disse Elrond adivinhando-lhe os pensamentos mais uma vez e amavelmente recuperando a atenção perdida. Legolas voltou-se com um pequeno sorriso. "Agora você se banha e se prepara. Já é quase chegada a hora. Eu vou fazer o mesmo e volto aqui para ver se precisa de ajuda em alguma coisa, está bem?"
"Não se incomode em voltar, senhor." Respondeu o rapaz aproximando-se devagar. "Quando eu estiver pronto descerei."
Elrond franziu a testa.
"Não vai querer descer e entrar comigo?"
Legolas baixou os olhos com uma leve tristeza.
"O senhor já me ofereceu regalias demais, mestre. Não quero que pensem que está fazendo diferenças entre seus amigos."
O curador aproximou-se então, fixando seus olhos novamente nos do rapaz. Havia outras coisas em questão e ele queria saber o que seriam.
"Não faço diferenças, menino. Apenas trato a todos como precisam e merecem serem tratados."
A fresta de paisagem vista da sacada e o constrangimento causado pelas palavras do curador fizeram com que o rapaz desviasse novamente sua atenção para o que se passava no céu de Imladris agora.
"Por que a fez para mim, senhor?" Ele perguntou sem se voltar. Seus olhos estavam perdidos em um estranho horizonte de dúvidas e temores.
Elrond aproximou-se mais, tocando-lhe o ombro levemente.
"A bebida?" Ele perguntou recebendo um leve aceno de cabeça como resposta. "Para que você colocasse algo no estômago." Ele respondeu sorrindo com simplicidade. Mas sua voz parecia esconder algo.
Legolas voltou-se para ele com um olhar desapontado que quase fez o curador rir. Ele parecia uma criança privada subitamente de suas crenças na magia. Elrond sabia que aquele ritual todo tinha uma grande poesia que simplesmente não podia esconder do menino por mais que quisesse.
"Só por isso?" Indagou o rapaz em um tom triste.
O sábio elfo puxou-o pelo braço fazendo-o sentar-se em uma das poltronas do quarto. Legolas obedeceu silencioso e receptivo, tentando imaginar o que aconteceria. O curador trouxe uma cadeira sentando-se então mais perto dele. Houve um estranho vazio de alguns momentos nos quais eles apenas se olharam. Depois disso o lorde de Imladris tomou as mãos do príncipe nas suas e suspirou.
"Minha mãe fazia essa bebida para nós. Meu irmão Elros e eu." Ele confidenciou. "Não me pergunte como eu me lembro disso, pois eu não sei... é uma das poucas lembranças que tenho dela..."
As mãos do príncipe esfriaram-se e seu olhar se entristeceu ao ouvir tal declaração. Aquele parecia ser um dia destinado para que elfas do passado dos dois regressarem em doces visões.
"Muitas canções eu ouvi sobre a bela e corajosa Elwing, filha de Dior..." Disse o rapaz apertando ligeiramente as mãos de seu mestre. "Somos abençoados, meu mestre. Em nossas raízes correm seivas de um doce sabor..."
Nada que pudesse ser descrito com palavras pôde então traduzir o que aquela sentença despertou em Elrond. O curador emocionou-se com a sabedoria do rapaz que criara uma estranha emoção em seu coração, um sentimento puro e antigo, diferente de tudo o que já havia sentido. Legolas tinha um estranho poder.
"É verdade, ion nîn... É verdade."
E por mais alguns instantes os dois elfos ficaram assim parados, perdidos em um mar de recordações e redescobertas, até que Elrond apertou mais uma vez as mãos que segurava e sorriu.
"Faço a receita que guardo em meus sentidos." Ele contou. "Que sinto... Sinto o gosto dela como se a tivesse provado pela primeira vez ainda há pouco... e toda vez que a provo... é como se fosse a primeira vez..."
Legolas sorriu.
"É por isso que só a faz em ocasiões especiais?"
"Sim." Disse o mestre com uma certa insegurança.
"E qual foi a ocasião especial que fez com que o senhor a fizesse hoje?" Indagou por fim o rapaz não conseguindo conter aquela grande curiosidade que crescia em seu peito.
Mais um silêncio surgiu. Um silêncio com um estranho sabor. Um sabor de revelação.
"Eu não faço somente em ocasiões especiais." Voltou a confidenciar-lhe o lorde elfo encarando os olhos do príncipe que se apertavam em uma nítida dúvida agora. "Eu faço para pessoas especiais, Las."
Legolas respirou fundo sentindo um estranho temor. Aquelas palavras também pareciam ter mais significado do que o lorde parecia estar deixando transparecer.
"Nunca ninguém provou dessa bebida..." Completou o curador deixando uma dúvida no ar.
"Ninguém?" Indagou o rapaz sem entender.
"Essa bebida não é só fruto de ingredientes especiais." Disse Elrond em um tom que refletia a mais pura paz. "Ela é fruto de uma saudade, de uma recordação, de um ato de amor. Para fazê-la eu tenho que reviver alguns momentos do meu passado, saborear doces e amargas lembranças, sentir um toque que nunca mais senti, ouvir palavras que nunca mais ouvi, e deixar outras mãos me guiarem, mãos que nunca mais toquei... E para que eu me disponha a viver mais uma vez essa experiência eu preciso ter um porquê, um porquê muito forte dentro de mim..." Finalizou então o mestre deixando que suas palavras caíssem suavemente sobre o confuso príncipe que finalmente começava a entender os seus enigmas.
Legolas sentiu um aperto em seu peito. Como se algo estivesse se partindo ali. Seu coração se dividia em duas partes iguais.
"E... qual foi seu... qual foi seu motivo, meu mestre?" Indagou por fim.
Elrond sorriu.
"Ninguém nunca provou dessa bebida." Ele repetiu. "Somente meus filhos... Somente a eles eu reservo esse direito... E eu a faço sempre que quero vê-los em pé, sempre que quero fazê-los forte, sempre que quero vê-los em paz."
Não havia mais nada a ser dito então. Nada ocorria ao príncipe de Lasgalen depois daquela declaração. Legolas fechou os olhos segurando as lágrimas e a vergonha. Quem era ele para receber tamanha dedicação de alguém tão poderoso quanto Elrond? Quem era ele para ocupar um lugar à mesa e no coração do grande guerreiro e curador?
"Senhor..." Ele disse em uma voz angustiada, baixando a cabeça como se ela pesasse muito naquele momento. "Não... não... sou digno de tamanha consideração..."
"Legolas..."
"Perdoe-me..." Disse então o rapaz olhando o mestre nos olhos.
"Perdoá-lo?"
"Perdoe-me, senhor." Repetiu o jovem jogando-se agora de joelhos em frente ao mestre. Elrond surpreendeu-se. "Perdoe-me por ser um fraco, incapaz de me manter em pé, incapaz de uma atitude sensata... perdoe-me, meu mestre... Eu não sou digno de que o senhor sequer olhe para mim e mesmo assim o senhor o faz, e me acolhe entre os seus... e me oferece... o seu amor..."
Elrond ficou sem ação. Seus olhos se encheram de lágrimas ao verem o príncipe se arrastar mansamente e abraçar uma de suas pernas de forma servil. Que mundo era aquele que tinha feito alguém assim sofrer? O que restava em Arda para se admirar quando pessoas tão doces e gentis como Legolas sofriam por pecados que não eram delas?
"Há muito nessa vida que eu não compreendo, ion nîn." Disse o curador deslizando então os dedos pelos longos cabelos dourados do rapaz. "E que espero vir um dia a compreender... Eu só sei que do mal muitas vezes surge o bem..." Ele colocou então as mãos nos ombros do príncipe fazendo-o se soltar e voltar a olhá-lo. Legolas obedeceu, mas permaneceu no chão. Olhos fixos em seu mestre, lagoas azuis brilhantes que encantavam e entristeciam. "E eu quero acreditar que todo o mal que você sofreu vai ser um dia recompensado... Porque, criança amada, porque você não merece, porque você não é o que imagina ser. Você nem sequer faz idéia do poder que tem... Porque você merece ser feliz..."
Legolas apertou os lábios contendo agora as lágrimas que derramava. Ele olhava para o mestre com carinho e devoção.
"Ah, criança!" Disse Elrond deslizando os dedos pelo rosto do arqueiro agora. "Se você fizesse idéia do bem que me faz nunca mais diria as tolices que disse há pouco."
"Perdoe-me." Pediu o rapaz voltando a abaixar a cabeça. Mas Elrond não permitiu, segurando-lhe o queixo na posição em que estava.
"Não peça perdão..." Ele disse com firmeza. "Essa palavra não tem espaço em seu vocabulário, menino, pois nenhuma atitude sua jamais justificou tal pedido. Se todos os que te devem um pedido de perdão saldassem essa dívida você se cansaria de ouvir essa amarga expressão."
"Ninguém me deve um pedido de perdão." Disse o rapaz franzindo levemente a testa.
Elrond ergueu-se de imediato e puxou o rapaz pelos ombros com ele. Ambos ficaram parados frente a frente.
"Muitos..." Ele disse. "Inclusive eu mesmo."
"Mestre!" Indignou-se o arqueiro como se ouvisse uma blasfêmia.
"A verdade é soberana, Legolas Verde Folha." Atestou o lorde com um ar solene e mudado. "Eu, como muitos outros, também usufrui sua boa vontade."
"Não diga isso, senhor!" Interrompeu o rapaz tentando se afastar agora. Mas Elrond o segurou firmemente pelos ombros fazendo-o voltar a olhá-lo.
"Sim. A verdade é soberana." Repetiu o curador. "Eu tenho amor por você como a um filho legítimo meu. E agradeço por tê-lo sob meu teto e cuidados. Eu sempre desejei tê-lo aqui, todas as vezes que você colocou seus pés em Imladris. Todas as vezes que dormiu nessa mesma cama eu desejei que nunca fosse embora. Eu desejei..." Ele parou então por alguns segundos. "Havia muitas formas de te ajudar, menino... Mas eu escolhi a mais conveniente para mim."
Legolas balançava a cabeça confuso. O que havia de errado com aquelas palavras que o estavam entontecendo daquela forma? Ele sentiu suas pernas fraquejarem como se algo voltasse a tomar-lhe a energia vital. Elrond fez com que ele se sentasse novamente e retomou seu lugar original voltando a segurar suas mãos.
"Legolas..."
"O senhor é bom, mestre." Disse o rapaz com firmeza, encarando corajosamente o curador. "Nenhuma intenção negativa habita seu coração."
Elrond soltou um longo suspiro e fechou seus olhos percebendo então como as coisas funcionavam na cabeça do jovem príncipe. Ele simplesmente não via o que não queria ver. Ali estava agora, ignorando as revelações que ouvira bem como ignorava os exageros do pai. Para o rapaz não importava o que de bom ou mal se fazia. Importava algo que só ele parecia poder ver.
"Menino..." Ele disse. "Eu também lhe fiz um grande mal."
"Nenhum mal pode nascer do bem... mal nenhum... mal nenhum..." Repetiu o rapaz olhando firmemente para seu mestre agora.
Elrond sorriu então. Conformado, porém não inteiramente convencido. Ele voltou a deslizar os dedos pelo rosto do arqueiro com carinho.
"Ainda voltaremos a discutir esse assunto." Ele disse erguendo-se e afastando-se para a porta. Precisava sair por alguns instantes. Recobrar uma paz que lhe estava escapando. Mas algo ainda o segurava ali. Um sentimento dúbio, contraditório. Ele se voltou mais uma vez.
"Vou me preparar. Já é quase hora. Volto para ajudá-lo."
"Não há necessidade, senhor." Insistiu novamente o rapaz. "Posso me virar sozinho. O senhor já tem muito com o que se preocupar."
Elrond apoiou uma mão por sobre a maçaneta, mas não abriu. Apenas ficou ali parado por alguns instantes decifrando as intenções escondidas atrás de cada palavra que o príncipe proferira.
"Não vai me decepcionar, vai Legolas?" Ele indagou, antevendo algumas intenções que habitavam o coração do rapaz. "Você vai se vestir e descer, não vai?"
O príncipe engoliu a saliva com dificuldades e limitou-se a acenar a cabeça em concordância. Elrond suspirou. Uma insatisfação crescia em seu coração. Os limites do filho de Thranduil ainda estavam instáveis para que muita confiança fosse depositada nele, mas o curador não tinha outra escolha a não ser esperar pelo melhor e preparar-se para lidar com o pior se porventura esse também se fizesse presente.
