Olá, mais uma vez. Como prometido aqui está o capítulo 28. Confesso que foi o capítulo mais difícil que revisei até agora. Quando se escreve a primeira vez parece tão bom, mas quando se dá uma segunda ou terceira olhada o medo começa a incomodar.

Talvez esteja me sentindo insegura devido ao fato de ter trabalhado muitos personagens de uma só vez, coisa que não costumo fazer. E como não eram personagens quaisquer a incerteza vai mesmo até os limites do suportável.

Bem. Mas espero de coração que vocês gostem e comentem e comentem mesmo se não gostarem.

Dois apartes:

1) Quem se perguntava por que a minha fic tem esse nome, vai ter uma pequena dica hoje.

2) Um belo poema aparece no meu texto, mas não me pertence. Ele é obra de um outro grande mestre, tão talentoso quanto o nosso Prof. Tolkien, chamado Carlos Drummond de Andrade, a quem eu me curvarei sempre.

Agradecimentos de sempre:

Lady-Liebe – Continuo com saudades dela e do talento dela. Amiga, cadê você?

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" A Misao apareceu e adivinhem? Vai atualizar a fic! Ela prometeu, pessoal! Vamos cobrar!!!

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" foi mais uma vez atualizada. Quem está encantado como eu pela maravilhosa "Cabelos Negros" finalmente terá a oportunidade de descobrir de onde essa força em forma de mulher apareceu e quais são suas intenções. Muito do que eu imaginava não era verdade e o resto também não passou muito perto. Riscos que se corre quando se le uma fic de alguém de talento como a Myri. Mas nossa amada personagem vai reencontrar o seu Haldir... o que será que vai acontecer?? Mal posso esperar. Amiga. Obrigada por corrigir meus erros mais uma vez.

Nimrodel Lorellin – As "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" vão ser atualizadas. É que como a beta sou eu, sabe, tudo atrasa um pouco. Mas já li o capítulo novo (me invejem... eu agüento...) e está surpreendente. Vamos saber mais também sobre essa linda figura feminina que a Nim criou. Assim que a fic estiver no site (o que dever ser daqui a pouco) não deixem de ler. Essa maravilhosa fic que é a minha de cabeceira fica cada dia melhor. Bom trabalho, Amiga!!

Vick Weasley: "BITTERSWEET" ainda não foi atualizada. Estou sofrendo de saudades. Vick!!!!

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Nossa Ju também não me deu sinal de vida dessa vez. Amiga! Cadê você e sua atualização?

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Outra amiga que sumiu. Que sofrimento!... como é ruim esperar.

Kika-Sama: "APRENDENDO". A Kika estava em época de provas. Logo deve atualizar sua fantástica fic. Obrigada pela review maravilhosa que você escreveu, amiga.

Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Hoje tive uma boa notícia. Parece que a Chell vai voltar a escrever. E eu vou betar!!!! Tudo de bom mesmo! Estou ansiosa para saber o que será. Logo ficaremos informados. Obrigada por sua review Chell, seus e-mails fazem o meu dia.

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS" tem um novo capítulo, mas ainda não recebi para betar. Cadê amiga? Manda de novo. Estou ansiosa pra saber se o nosso Legolas vai realmente tomar uma atitude decisiva na vida.

Kiannah – A ESTRELA SILENCIOSA continua sendo minha recomendação. Não percam.

E a grandes amigas:

Syn, the time keeper. Cujas palavras doces me encantaram e iluminaram minha semana. Obrigada!

Regina – Espero que esse capítulo te agrade.

Botori – Nunca falha. Também acho que o Legolas fica lindo de vermelho. Obrigada.

Leka – Fiquei feliz por saber que o último capítulo ficou entre os seus favoritos. Eu gosto muito dele também. Obrigada de verdade.

Aeka – Ainda sem notícias suas amiga. Cadê você?

Soi – Esse capítulo é para você que queria ver o pessoal voltar a aparecer. Aí estão... com direito a coadjuvantes e tudo mais.

Mas vamos a fic, ver se a confraternização que o nosso Elrond organizou vai sair exatamente como ele queria que fosse... Boa sorte ao lorde elfo...

28

O Hall do Fogo nunca esteve tão iluminado. O brilho das chamas da grande lareira, os castiçais nas paredes, as belas roupas dos elfos, tudo fazia daquele lugar um dos mais belos. Elrond caminhava distraidamente por entre seus convidados agora. Impecavelmente vestido e penteado ele fora alvo de muitos elogios fato com o qual estava acostumado e pelo qual não se deixava levar. Sua mente vagava por um terreno de receios e antecipações enquanto curvava levemente a cabeça diante de cada rosto conhecido.

Aquela era a primeira confraternização que promovera desde o dia em que se despedira de seus filhos e que descobrira o disfarçado príncipe de Mirkwood. Portanto, embora o curador não ansiasse por fortes emoções, ele não podia deixar de cultivar grandes expectativas para aquela noite.

O anunciador apareceu então. Um esguio elfo vestido de branco e com negros cabelos muito longos, presos no padrão dos serviçais. Sua função, ao entrar no Hall, era anunciar a chegada dos convidados. O curador respirou fundo e sorriu levemente ao criado aguardando como bom anfitrião.

"Atenção." Disse o alto elfo à porta. "Lorde Elladan e Lorde Elrohir, filhos de Lorde Elrond, nosso amado anfitrião."

Elrond deixou que a alegria o acalentasse ao ver entrar as imagens dos dois filhos igualmente vestidos e penteados como sempre faziam. Embora o pai pedisse, implorasse pelo contrário, os gêmeos nunca o atendiam. Diariamente já era difícil fazê-los distinguir-se por uma trança sequer, mas em recepções ou outros grandes encontros era praticamente impossível. Naquelas ocasiões eles faziam questão de não só vestirem-se da mesma forma, mas usarem o mesmo tom de voz e postura. Os jovens elfos chegavam a ensaiar e riam muito no final de cada confraternização comentando sobre quantos haviam enganado. Elrond olhou-os com doçura. O tempo passava carinhosamente pelos filhos, não lhes roubando a inocência apesar de oferecer-lhes sabedoria.

Os gêmeos pararam à porta por alguns instantes, observando o salão que estava mais cheio do que o habitual. Muitos os cumprimentaram, curvando-se respeitosamente aos filhos do mestre. Então os dois deram alguns passos na direção do pai que lhes antecipou o movimento aproximando-se também.

"Meu coração se enche de orgulho ao vê-los, ionath-nin. Estão belos tal qual o entardecer hoje." Disse o curador com o coração leve, agradecido por ter os filhos por perto.

Os gêmeos usavam robes azuis com finos bordados em prata, uma cor que lhes caia muito bem. Seus cabelos negros como uma noite sem luar escorriam displicentemente pelos ombros, presos em parte apenas por uma solitária fivela cujo formato era o de uma pequena estrela prateada. Guerreiros que eram, se recusavam a trançar os cabelos em ocasiões festivas e de paz.

"Obrigado, ada." Disse Elladan olhando ao redor. Sentia-se agradecido por finalmente deixar de ser o alvo das atenções. Os elfos já voltavam as suas conversas enquanto alguns ouviam as suaves canções que estavam sendo executadas próximas à lareira.

"Esse cerimonial todo dá enjôo, ada." Queixou-se Elrohir pegando uma das taças que estava sobre a mesa e provando o vinho da casa discretamente. "Podíamos dispensar essas saudações."

Elrond sorriu colocando um dedo por sobre a taça do filho antes que ele bebesse o segundo gole.

"Tradições fazem um povo, ion nîn." Ele disse. "Estou te achando um tanto afoito hoje. Algum segredo que está guardando apenas para si?"

O jovem elfo estagnou-se boquiaberto e empalideceu ligeiramente. Ele odiava quando o pai fazia isso. Sentia-se completamente transparente, como um livro aberto para que qualquer um o lesse.

"Estou tão evidente assim?" Ele indagou após recuperar-se da surpresa que tivera.

"Não." Respondeu o pai com um sorriso amável. "Eu é que anseio sempre por alguma graça maior quando o vejo assim. Diga-me, menino. Pretende nos abençoar com sua voz essa noite?"

Elrohir indignou-se agora, apertando os lábios desapontado. Sentia-se pego como uma criança em uma travessura.

"O senhor não pode parar de supor um pouco, ada?" Ele disse. "Poderia ao menos me dar a chance de surpreendê-lo de vez em quando.

Elrond riu deslizando o dedo pelo rosto do aborrecido elfo, que se emburrou ainda mais, dessa vez apenas encenando um dos seus inúmeros papéis. Elrohir guardava em si a mistura doce da jovialidade e da sabedoria que faziam dele um ser único e especial. Elrond jamais deixaria de admirá-lo e orgulhar-se dele extremamente.

"Não sabe o quanto desejo ouvi-lo cantar, criança." Ele disse olhando para Elladan agora que acenava a cabeça em concordância. "Há muitos anos esse direito me é negado. Só desejo saber o que despertou em você a força maior para opor-se a tudo em que acredita e favorecer-nos hoje. O coração de quem você pretende acariciar?"

O mais novo dos gêmeos estalou os lábios descontente. Sua surpresa estava indo por terra. O pai tinha que fazer aquilo! Ele virou então a taça de vinho e apanhou outra.

"Acho que vou mudar de idéia." Disse ameaçadoramente.

"Não vai." Desafiou o pai em um sorriso malicioso. "Nada no mundo o faz desistir de uma idéia trabalhada. Nem mesmo eu."

"Dan, faça ele parar!" Queixou-se o gêmeo tentando esconder o sorriso agora. O pai era o único capaz de retirar-lhe a guarda assim com tanta facilidade.

Elrond virou a face levemente e conseguiu captar os olhos do filho mais uma vez. Elrohir apertou os lábios insatisfeito, tentando ao máximo não ceder às provocações recebidas, mas não alcançando grande sucesso. Elrond sorriu, divertindo-se ao ver o filho corar. Depois lhe beijou a testa e voltou a dar alguma atenção a seus convidados.

E o elfo anunciador tornou a surgir na grande porta da entrada. Era a indicação de que algum novo convidado chegara. Elrohir franziu o rosto aproximando-se mais do irmão.

"Se eu jogar uma pedra nele será que colocam outro em seu lugar?" Indagou ao ouvido do gêmeo. Elladan engasgou-se com o primeiro gole que tomava.

"Ro, não é justo." Reclamou o irmão verificando se algum líquido se derramara em seu robe novo. "Se eu tivesse manchado a roupa que ada me deu eu juro que te faria trocar comigo aqui mesmo."

"Atenção." Pediu o elfo. "Lorde Aragorn, membro dos dunedain das Terras do Norte."

"Eu odeio quando o chamam assim." Queixou-se novamente o mais novo.

"Ele tem que ter sua identidade, Ro. Você sabe disso. É o melhor para ele."

"Mas precisam dar tantos detalhes de nossas vidas desse jeito? Eu me sinto nu toda vez que entro em alguma confraternização dessas."

Elladan procurou conter um riso que lhe escapava pela garganta, limitando-se a puxar o braço do irmão enquanto ambos caminhavam agora ao encontro do caçula.

Estel entrou vagarosamente atraindo a atenção de todos para si. O jovem guardião não se intimidou com os olhares que recebeu, atendo-se apenas a retribuir a um deles. Em pé próximo à porta, Elrond, sua grande ligação com todo aquele mundo élfico, aquele que tornara sua vida uma angústia mais tolerável, o esperava com a mão por sobre o peito.

"Mae govannen, Aragorn, filho de Arathorn." Saudou o lorde de Imladris, sentindo seu coração doer levemente ao se ver obrigado a chamar o filho assim.

Estel sorriu altivo, retribuindo a saudação recebida e oferecendo em seguida uma das mãos ao pai, que a aceitou dando-lhe um leve aperto. O guardião estava muito belo em roupas impecavelmente alinhadas. Sua postura aproximava-o indiscutivelmente mais dos elfos do que dos Numenorianos. Elrond havia escolhido para ele roupas em um tom verde musgo que se mesclava discretamente a outros tons de verde mais claros e estava satisfeito em perceber o quanto fora feliz.

"Está muito bem, senhor." Disse o guardião olhando para os lados disfarçadamente. Ele odiava tratar o pai com tanta formalidade, mas havia muitos elfos de fora naquele momento, além de outros humanos que não conheciam sua história.

"Grato por sua bondade." Respondeu o curador soltando finalmente a mão do filho, embora não quisesse fazê-lo. Ele passara muito tempo com Legolas e sentia falta do contato com sua criança dunedain também.

"Onde ele está?" Indagou Estel em um tom quase inaudível, demonstrando o motivo que o impedia de estar completamente à vontade agora. "Ele vem, não vem?"

"Ele me disse que viria." Disse Elrond pensativo.

Elladan e Elrohir se aproximaram deles agora.

"Legolas vem, não vem, ada?" Indagou o mais velho.

"Espero que sim, ion nîn."

"Só espero que não seja no final da festa." Comentou Elrohir.

E mais uma vez ouviu-se o chamado.

"Atenção." Pediu o elfo despertando o riso involuntário de Elladan que se lembrava novamente da cena anterior. Ele olhou para o gêmeo que lhe lançava um sorriso malicioso agora. "Nosso valoroso guerreiro Lorde Glorfindel e o conselheiro de Imladris Lorde Erestor."

"Ah." Sorriu Elrond com satisfação, saindo de perto dos filhos e indo saudar os queridos amigos. Estel acompanhou o movimento do pai e sentiu-se feliz por vê-lo entre os fieis companheiros. Aquele era um dos raros momentos em que o curador deixava de ser quem era para tornar-se simples, mais um elfo conversando com velhos conhecidos. Glorfindel e Erestor eram sempre um porto seguro no qual o pai podia atracar durante qualquer tempestade.

Estel então se voltou para os irmãos esfregando levemente as mãos. Embora apreciasse a oportunidade de rever alguns amigos, ele não se sentia muito à vontade naquele ambiente de pompa e requinte. Elladan ofereceu-lhe uma taça de vinho a qual o guardião aceitou, virando seu conteúdo no mesmo instante.

"Devagar, Aragorn." Advertiu o mais velho com um olhar de reprovação. "Não vou carregar ninguém hoje." Ele sorriu.

"E eu não vou segurar a sua cabeça para você vomitar." Completou Elrohir infinitamente contente por aquela oportunidade de provocar o irmão em público, ciente de que ele não poderia revidar.

Estel franziu as sobrancelhas terrivelmente fazendo com que o gêmeo mais novo sentisse seu prazer dobrar de intensidade agora, mas decidindo por fim afastar-se para conter o desejo que tinha de rolar com ele ali mesmo naquele chão. O guardião não pôde deixar de sorrir enfim, divertindo-se ao imaginar como seria a cena toda se ela realmente se efetivasse. Seus olhos deslizavam pelo retrato imaginário dos olhares atônitos que lhes lançariam os convidados e amigos do anfitrião, completamente boquiabertos com o teatro que ele e Elrohir poderiam armar. Aquilo na certa lhes valeria alguns dias sem receberem sequer um olhar do pai como punição. Estel sorriu mais uma vez e sacudiu levemente a cabeça inconformado com as loucas idéias que tinha, enquanto caminhava decididamente pelo salão agora. Havia pessoas com as quais ele queria conversar também. De longe, um velho conhecido lhe acenava com um sorriso nos lábios. O guardião retribuiu, agradecendo por Halbarad e seus homens estarem na festa.

E a voz conhecida voltou a desfazer as conversas de todos.

"Atenção."

Um longo momento se fez. O formalíssimo elfo aguardou pacientemente por alguns instantes até que todos se silenciassem. Era o sinal de que alguém muito importante iria entrar. Elrond sorriu, pedindo licença aos amigos e adiantando-se para cumprir mais uma vez seu papel.

"Atenção." Repetiu o elfo. "Lorde Celeborn, senhor supremo de Lothlorien, a Floresta Dourada e nossa formosa Lady Arwen Undomiel, filha do lorde de Imladris."

O copo escorregou dos dedos de Aragorn naquele momento, estilhaçando-se no chão e ele se sentiu petrificado, inconsciente de si mesmo e de onde estava. De longe pôde ver as duas figuras entrarem enquanto muitos elfos se curvavam e outros se ajoelhavam em sinal de respeito. Celeborn impecavelmente vestido em um robe prateado brilhante trazia a Estrela Vespertina pela mão. A moça inclinou-se levemente diante do pai com um sorriso pelo qual o guardião tiraria uma árvore inteira do chão com raízes e tudo o que a acompanhasse.

"Afortunados estão sendo meus momentos." Disse Elrond segurando as mãos da filha. Sua felicidade estava completa enfim, sentindo finalmente todos os filhos ao seu redor naquela noite. "Diga-me Undomiel. Que injustiças fizeste com nossas amigas lá fora? Deixaste algum brilho para as pobres estrelas ou apagaste a todos com sua eterna beleza? Diga-me se me resta o que apreciar nesse anoitecer de hoje."

A moça riu mantendo seus claros olhos fixos no curador. Depois apoiou uma palma por sobre seu peito com carinho.

"Ada." Ela disse apenas.

E logo duas figuras idênticas se aproximaram roubando aquela visão dos olhos do pai. Os gêmeos e Arwen sentaram-se em um canto do salão. A moça entre os dois enquanto ambos lhe diziam gracejos fazendo-a rir e corar graciosamente. Ela usava um vestido púrpura com flores bordadas em um rosa claro e brilhante. Seus longos cabelos negros estavam praticamente soltos caindo-lhe pelos ombros em belos cachos. Elrond conduziu então o senhor de Lothlorien para próximo de Glorfindel e Erestor e o grupo embalou-se em mais uma intrigante conversa, temperada com poucos risos e muitos olhares indecifráveis.

Do outro lado do salão Estel caminhava na direção dos irmãos, rodeando-os sem coragem de se aproximar. Há muito tempo não via aquela que elegera como dona de seus sonhos e seu coração parecia descompassado, perdido em um mar de dúvidas e deduções. Ele enfim se sentou ao lado de Halbarad novamente, desistindo de sua investida. O velho guardião riu do ar que agora dominava o rosto do amigo. Tão altivo e confiante que era, ele parecia completamente perdido como um adolescente agora.

"Vá até lá, homem!" Disse sorrindo.

Aragorn ignorou-o. Ele não podia pensar em outra coisa naquele momento que não fosse naquele rosto angelical, naqueles cachos escuros cujas curvas pareciam infinitas. Ele passaria horas deslizando seus dedos por eles sem se cansar, enrolando-os despretensiosamente, sentindo-lhes o cheiro doce e a maciez. Arwen estava ainda mais bela, embora isso parecesse impossível. Olhar para ela fazia com que seus momentos se transformassem em longas horas de angústia. Como ele queria aproximar-se ao menos o suficiente para sentir-lhe o perfume, para ouvir o suave gingar de seu vestido, para memorizar todos os movimentos daquele rosto e lábios angelicais. Mas quem era ele para receber tal dádiva? Quem era ele para ser privilegiado por um olhar sequer daquela criação divina? Quem era ele? Ele mesmo não sabia mais a resposta para aquela pergunta.

"Quem sou eu, Halbarad?" Indagou então engolindo todo o amargo que sentia em sua boca. Ele precisava de uma confirmação agora, alguém que lhe dissesse que ele era alguém e não um perdido como estava se sentindo naquele momento, olhando a luz da sua existência sorrir levemente, apoiando agora a palma no rosto de Elladan, parecendo retribuir alguma palavra doce que ouvira do irmão.

"Um tolo apaixonado." Respondeu o amigo dando uma grande mordida em um pedaço de torta.

E toda a doçura daquele sonho que criava em sua mente sumira por vez, desfeita, despedaçada pela brincadeira cruel do velho dunedain. Aragorn franziu a testa voltando-se zangado para o amigo que quase se engasgou ao ver o ar que despertara no companheiro. Seu riso não se conteve, porém, nem com o olhar ameaçador do jovem guardião.

"Isso... divirta-se com minha desgraça." Queixou-o o homem apoiando ambos os cotovelos nos joelhos agora e o queixo nas mãos, perdendo assim totalmente a compostura. Se o pai o visse sentado dessa forma na certa enrubesceria por ele.

Halbarad balançou a cabeça, recuperando-se do acesso que tivera e apanhando mais um pedaço de torta do prato que lhe fora trazido.

"Será que ela cozinha bem também?" Ele perguntou em um tom provocador enquanto abocanhava mais um grande pedaço.

"Halbarad!!" Exasperou-se o guardião ainda mais.

"É claro. Porque uma mulher que não cozinha..."

"Ela não é uma mulher! É uma elfa! E não vai ficar cozinhando para mim..."

"Claro que não... você cozinhará para ela então..."

"Ora, mas que tolice você está..." Ele ia retrucando quando, para sua surpresa, teve uma visão que não esperava ter. Do outro lado do salão sua divina luz, a presença que era o céu na terra, a união de todas as estrelas do universo, o ar que lhe faltava em todos os momentos de sua vida, a sua Arwen, estava lhe sorrindo. "Iluvatar" Ele disse em uma voz trêmula, totalmente perdido novamente.

Halbarad voltou-se intrigado para onde o amigo olhava e sorriu.

"Linda pérola..." Disse o velho em um suspiro, fazendo uma sutil reverência quando ela também olhou para ele. Era chegada a hora de deixar de provocar o amigo. "Nem todos os tesouros do mundo se comparam a essa rara beleza."

Aragorn já não o ouvia novamente. Apenas prendera seus olhos nos da bela rosa assim que ela o abençoara com sua atenção mais uma vez, encontrando forças apenas para retribuir-lhe o sorriso com um mais largo ainda e deixar-se ficar ali, ignorante do tempo e do espaço, entre o nada e o tudo, apenas apreciando aquela visão e se permitindo sonhar. A moça enfim gesticulou levemente com a cabeça para o lugar vago ao lado dela, Elrohir havia se afastado agora e Elladan, ao perceber o que se passava, levantou-se e fez o mesmo. Ele não acreditava no que estava acontecendo. Sua Arwen o estava chamando, autorizando-o a se aproximar. Era tudo o que ele mais queria e o que menos esperava que ela fosse fazer, haja vista que na frente da família era muito raro que se sentassem juntos ou sequer conversassem.

O guardião respirou fundo então, erguendo o corpo e caminhando indeciso pelo salão com aqueles olhos claros como guia, como a luz de um porto distante. Ao chegar perto da moça ele voltou a encher os pulmões com o ar que teimosamente parecia negar-se a servi-lo e colocou a mão por sobre o coração, fazendo uma breve saudação. Ela então se levantou, o suave perfume invadindo os sentidos do indefeso amado, e deu-lhe um leve beijo no canto dos lábios como fazia com seus irmãos. Em seguida apoiou a mão na orelha esquerda do guardião e a contornou com os dedos carinhosamente, demorando mais tempo do que o necessário, tempo que usava para oferecer-lhe um singelo sorriso. A confiança mais uma vez selada. Estel voltou a sentir-se como um Troll pego de surpresa pelo sol, petrificado pela luz e calor intensos emanados pela beleza em forma feminina que estava a sua frente. Ele ficou imóvel, sem saber como agir, sem saber o que fazer naquele momento. Se o mundo inteiro se transformasse subitamente em um grande abismo ele seria pego sem qualquer resistência, pois estava amarrado e amordaçado agora. Preso covardemente pelos laços de uma esperança que se formava teimosa contra a vontade de muitos.

Mas subitamente uma estranha sensação lhe assolou. Voltando seu rosto devagar ele encontrou a figura do pai. Elrond amargava a dor de um futuro incerto agora e queria fazer algo a respeito, mas o olhar aflito do filho roubou-lhe mais uma vez a coragem. O jovem dunedain parecia implorar por um momento de felicidade sequer, por uma alegria que era rara em sua vida, fazendo por fim com que o pai adiasse o momento inadiável, fazendo-o oferecer um leve sorriso ao casal e dar-lhes as costas, escondendo assim seu pesar e poupando-se de presenciar algo que não lhe faria bem. Celeborn, que observava a cena ao lado do genro, limitou-se a apoiar uma mão no ombro do lorde de Imladris solidariamente e fazer o mesmo.

Estel, fixou aquela triste imagem nas paredes de suas recordações e sentiu uma amargura indescritível. Seu coração dividia-se como se uma espada afiadíssima o tivesse transpassado. Ele queria fazer a vontade do pai, mas não encontrava forças para tal, porque naquele momento sentia-se vivendo uma situação que nunca vivera, encontrava-se caminhando em seus próprios sonhos, andando pelo mais belos de todos os caminhos. Foi quando sentiu algo que finalmente afastou o restante de hesitação que ainda insistia em perturbar-lhe. Arwen segurava uma de suas mãos. O guardião voltou-se para a moça e sentiu-se cativo novamente, escravo de mãos suaves e gentis, de olhos claros e decididos. Arwen estava diferente. Algo dentro dela havia mudado. A moça então o conduziu a se sentar a seu lado e, para uma surpresa maior, não soltou mais a forte mão que segurava. Foi quando Estel desistiu de olhar ao redor, pois sabia que muitos olhares naquele momento estariam voltados para eles e o guardião não queria estragar um momento sequer daquela felicidade que ele sabia que duraria pouco.

"Meu coração se alegra infinitamente por vê-la, Arwen Undomiel, minha estrela vespertina." Ele enfim encontrou as palavras que lhe fugiam. "Muitos invernos se passaram desde nosso último encontro e meu espírito tinha sede de um momento de alegria a seu lado".

A filha de Elrond não respondeu. Apenas fixou seus olhos claros nos dele e apertou a mão fria do guardião com mais força entre as dela. A ausência de Estel também a castigara durante todos esses anos e a moça lamentava encontrar o dunedain tão abatido.

"Seus olhos estão tristes." Ele finalmente falou ao notar o silencio da amada.

"E os seus estão cansados" Foi a resposta da bela elfa. Sua voz doce, porém poderosa.

"São momentos difíceis. Eu temo que dias mais difíceis virão."

"Momentos são para serem vividos, meu querido Estel. Para serem vividos e não aguardados."

Ele sorriu e trouxe a mão da moça para perto do rosto beijando-lhe os dedos delicadamente.

"Fico feliz pelo destino me dar a oportunidade de viver alguns momentos a seu lado hoje, minha Arwen." Ele disse atrevendo-se a encostar a mão da moça em sua face, sentindo o calor e a fragrância suave daquela senhora de seus dias.

A moça sorriu-lhe também e estendeu um dos dedos deslizando-o pelo rosto do amado para depois trilhar uma cicatriz nova que o adornava agora. O guardião enrubesceu levemente, sem saber se seu constrangimento era pelo fato da moça o estar tocando na frente de todos ou por ter descoberto mais uma marca de sua mortalidade.

"Não estaria aí se eu fosse um elfo".Ele disse baixando os olhos.

"E eu não estaria aqui a seu lado se você não fosse o meu ela ainda fazendo caminhos com seus longos dedos pelo rosto do amado, trilhando singelamente mais uma nova cicatriz que encontrara. "Mesmo porque, gosto delas".

Ele não pode conter o riso.

"Por quê?"

Ela desviou o olhar da marca que achara para fixá-los nos olhos do guardião novamente. Seus olhos claros brilhavam como nunca brilharam antes e um sentimento transformado parecia habitar o interior deles.

"Porque me contam como foi sua vida." Esclareceu a bela elfa, não quebrando mais o contato que estabelecera com os olhos daquele a quem amava. "Porque me lembram que o tempo passa e que preciso estar com você. Lembram-me do quanto é urgente viver".

Estel emocionou-se e voltou a beijar os longos e finos dedos da moça. Aquelas palavras eram muito mais do que ele imagina ouvir da amada um dia. Por tanto tempo ele esperou que ela lhe abrisse uma pequena janela e ali estava a jovem elfa, mostrando-lhe um caminho inteiro por onde seguir.

"Eu a amo, minha senhora Arwen." Ele não se conteve. Revelando-se inteiramente agora. Afirmando o que vivia ardentemente dentro de si. "Eu a amo com todas as minhas forças... Amo-a mais do que tudo nesse mundo... E a amarei por todos os meus dias... pelo resto da minha vida".

Foi a vez da moça sorrir.

"E me basta... e me basta, meu querido Estel..."

&&&

Muito tempo se passou e muitas canções foram então cantadas. O anoitecer completou-se, invadindo as paisagens das janelas entreabertas e o coração do lorde curador, que caminhava com tristeza agora, carregando um peso enorme nos ombros enquanto arrastava seu robe dourado pelo brilhante ladrilho do salão. Aquela noite parecia não estar proporcionando-lhe o prazer das outras festas que promovera. Ele se sentia cansado e indisposto.

"Confie, Elrond." Surgiu uma voz fazendo-o voltar-se. O lorde de Lorien fixava seus enigmáticos olhos nele, olhos que guardavam a sabedoria de muitos séculos de dores e descobertas. "Confie em todos os filhos que têm. Sejam seus ou de seu coração."

O curador, mestre das palavras de consolo e dos remédios que apaziguam a dor, sorriu por ver-se precisando mais uma vez do que costumava oferecer. A imagem daqueles a quem amava coloria as paredes de sua memória e de seu coração, porém enchia seu ser de temores e preocupações.

"Todos eles seguem seus rumos sob esse sol de Arda com o coração leve e corajoso, a ninguém querendo magoar. Mas têm suas escolhas a fazer. Cada uma das cinco criaturas que compõe sua doce família agora." Completou o louro elfo apoiando uma mão por sobre o ombro do amigo que oferecia-lhe um sorriso triste, somando a imagem dos gêmeos e Arwen às fortes e valorosas figuras de Estel e Legolas. "Algumas dessas decisões, no entanto, são tão difíceis para eles quanto o serão para você que os elegeu seus filhos ou simplesmente foi eleito pai deles pela sabedoria de Iluvatar... Mas confie." Ele repetiu com veemência agora, apertando levemente o ombro que segurava. "Todos reservam agradáveis surpresas para o seu coração."

Elrond permaneceu em silencio por mais alguns instantes. Olhos perdidos na grande lareira acesa onde concentrava suas energias agora. Aquelas chamas brilhantes oscilavam de forma estranha, criando imagens que se tornavam cada vez mais nítidas, visões que ele não queria ter. Elladan e Elrohir acenavam para ele da praia. Os olhos úmidos, a mão do avô por sobre seus ombros, uma decisão a ser tomada os torturava enquanto a distância apagava suas imagens. Aragorn deitava-se em seu leito de morte aceitando corajosamente que os braços da ventura selasse enfim seus dias em Gondor. Arwen caminhava sozinha por uma floresta envelhecida e triste, como o espírito da moça naquele momento. E finalmente o jovem e doce Legolas, cujo destino incerto confundia o mestre ainda mais, sentava-se na areia de uma praia muito branca enchendo as mãos com aqueles grãos e apertando-os entre os dedos. Seus olhos buscavam o horizonte oscilante, mas suas mãos fincavam seu corpo em terra, impedindo-o de seguir aos chamados que o torturavam.

"São tempos difíceis." Disse o curador apertando os olhos cheios de lágrimas. "Queria ter esperanças em tempos melhores, mas não vejo nada que não seja dor e mais dor."

Celeborn apertou novamente a mão que apoiava no ombro do lorde de Imladris e sorriu complacentemente.

"Os tempos difíceis assolam apenas aos poderosos, àqueles que podem enfrentá-los, desafiá-los e muitas vezes, impedi-los de obterem o êxito para o qual são destinados."

"Minha longa experiência de vida, sábio Celeborn." Disse o mestre elfo com amargura. "permite-me afirmar que muito pouco se pode fazer para se modificar o destino de um ou de muitos."

"Isso é uma meia-verdade, mellon-nîn." Retrucou o elfo de cabelos prateados. "A maior prova disso é que você, contra o desejo e as expectativas de todos, criou sob seu teto aquele que modificará o destino de muitos."

Elrond suspirou. Aquela era uma sentença que cabia bem em qualquer lugar, tivesse ele o tamanho que fosse. Talvez o sogro tivesse razão. Talvez as manobras da sorte não o pegassem desprevenido como no passado, quando o elfo amargou a perda de seu sábio mentor Gil Galad e a triste traição do então amigo Isildur. Naqueles dias as visões e pressentimentos de muitos não foram o bastante para neutralizar uma grande dor. Mas há pouco tempo, porém, ele mesmo tivera uma prova de que suas visões podiam conduzi-lo por outros caminhos que não fossem apenas o da dor e da perda. Sim, ele se lembrava de ter visto Legolas em seu corcel negro, e daquela torturante imagem abrir-lhe um caminho que o levou a salvar não só os filhos, mas outros guerreiros valorosos do povo de Lasgalen. Sim. Aquela era uma doce recordação, embora ela também fosse seguida de outras tristes imagens. Nem tudo era de fato perfeito, mas nada o impediria de tentar, hoje e sempre.

"Nada, meu caro Elrond." Reforçou mais uma vez o lorde de Lorien. "Nada é tão grande que não possa ser superado. Eu só peço a você que creia que em seu futuro e no daqueles a quem você ama, não haverá apenas espinhos, mas também rosas de uma beleza inesquecível. E seria uma perda muito grande se seus olhos estivessem voltados de tal forma para os danos causados pelo primeiro grupo que não fossem capazes de ver a ternura oferecida pelo segundo".

Os olhos de Elrond se fecharam mais uma vez diante das sábias palavras que ouvira e ele sentiu seu coração amarrado, confuso. O curador apertou as têmporas acenando em uma concordância, mas não parecendo transparecê-la inteiramente.

"O amanhã é difícil meu amigo, o amanhã é dos espinhos." Declarou Celeborn fazendo com que Elrond voltasse a olhar para o salão. Ele obedeceu procurando descobrir o que o lorde de Lorien esperava que visse. Foi quando a resposta lhe saltou aos olhos. Sentados bastante próximos Arwen e Estel sorriam de mãos dadas em uma conversa despretensiosa e simples. Há poucos metros deles Elladan ria muito com as duas mãos no rosto enquanto Elrohir falava animadamente apontando de forma discreta para um estranho grupo de elfos muito bem vestidos que permanecia isolado dos demais. De uma forma ou de outra a vida parecia estagnada, presa em uma suave teia de felicidade e paz. "Mas o hoje, meu bom Elrond," completou o sábio elfo com um agradável sorriso enquanto ele também se deixava cativar pela poesia do que via. "O hoje pertence às flores."

O curador sorriu mais uma vez. Compreendendo e agradecendo as palavras do sogro. O mundo ainda era um ambiente tolerável graças à boa vontade de alguns, boa vontade que não conhecia limites. Ele apanhou então uma taça de vinho e ofereceu-a ao amigo.

"Você é o melhor anfitrião que conheço. Já lhe disse isso?" Indagou o lorde de cabelos acinzentados sorrindo.

"Sempre é bom ouvir uma vez mais." Respondeu educadamente o curador.

"Então vá." Instruiu Celeborn. "Suas qualidades vão ser mais uma vez requisitadas."

Elrond franziu a testa, mas não pode pensar melhor na informação que recebera. O elfo anunciador de quem Elrohir parecia não ter conseguido se livrar voltara a aparecer.

"Atenção." Ele gritou e esperou.

Elrond sentiu seu coração gelar. As horas haviam corrido de forma cruel e algumas de suas esperanças pareciam ter se extinguido junto ao entardecer.

O silencio se fez enquanto uma estranha sensação palpitava no coração de alguns.

"Atenção. Príncipe Legolas Thranduilion, de Eryn Lasgalen."

E diferentemente das outras vezes ouviu-se um furor. A porta se abriu e Legolas entrou. Ele usava as roupas que o mestre lhe dera e conseguira trançar os cabelos com o padrão de Mirkwood. Elrond sentiu seu coração apertar tanto no peito que parecia doer. O rapaz permitira ser apresentado como quem era e escolhera por sua vontade ainda representar sua terra. Duas coisas que o curador não esperava ver acontecer tão cedo. Apesar de abatido, a beleza do elfo era estonteante e, diferentemente das outras vezes, os olhares dos presentes pareciam não querer deixar o novo visitante. Elrond caminhou então e tomou o menino pelas mãos, trazendo-o para perto de si e finalmente afastando alguns olhares curiosos dele.

"Perdoe-me o atraso, meu mestre." Disse o rapaz procurando manter seu rosto indiferente aos olhares que ainda recebia.

"Não me chame de mestre aqui, menino." Pediu o curador carinhosamente. "Você é o príncipe de Mirkwood. Não tem nenhum senhor."

"Lamento, lorde Elrond." Respondeu o rapaz com tristeza.

"Não lamente." Sorriu o curador trazendo-o consigo para perto do grupo onde estava. Mas Legolas endureceu subitamente o corpo parecendo incomodado com o caminho que seguiam.

"O que foi, criança? Venha cumprimentar Celeborn."

Os olhos do jovem elfo não pareciam incomodados com a presença do lorde de Lorien, o problema era o elfo ao lado do líder de Caras Galadhom, e que já fixava novamente seus olhos nele.

"Lorde Glorfindel está com ele." Queixou-se o rapaz com sinceridade, fazendo seu anfitrião rir involuntariamente.

"Deixe de tolices. Glorfindel não lhe quer mal algum."

"Ele não gosta de mim, mestr... lorde Elrond..."

O curador voltou a sorrir, enlaçando o rapaz pelos ombros e puxando-o novamente consigo. Quando se aproximaram do grupo os três amigos de Elrond já lhe sorriam.

"Mae govannen, jovem Legolas." Saudou Celeborn com a mão por sobre o coração. Seus olhos demonstravam um grande carinho pelo príncipe de Mirkwood. Um carinho que também tinha pelo pai do rapaz. "Uma agradável surpresa vê-lo aqui entre nós."

Legolas curvou-se abaixando o corpo e apoiando-se em um dos joelhos com um grande respeito. Celeborn comoveu-se ao ver o menino demonstrar tamanha consideração na posição em que estava. Ele, como filho de Thranduil, não tinha necessidade de realizar tal reverência.

"Erga-se, menino." Disse o lorde apoiando uma mão por sobre o ombro do jovem elfo. "Embora vinda de você ela não me surpreenda, a humildade não é um traço peculiar de sua família."

O rapaz obedeceu calado. Discordar ou concordar com o mestre de Lorien não o levaria a lugar algum naquele momento. Mesmo porque ele não queria conversar sobre o pai com aqueles elfos. Ele apenas apoiou a mão por sobre o coração e se curvou para os outros dois convidados de Elrond.

"Príncipe Legolas Thranduilion." Saudou Glorfindel com um sorriso amável.

"Estamos felizes por vê-lo recuperado, jovem príncipe. Está muito elegante." Completou Erestor também sorrindo.

Legolas tentou retribuir a cordialidade, mas nenhuma palavra lhe ocorria naquele momento. Ele apenas sorriu um riso triste e baixou a cabeça o quanto pôde. Celeborn olhava para ele agora e o rapaz podia sentir o elfo bater em suas portas com sutileza, mas ele não o deixaria entrar, ele sabia o quão poderoso aquele elfo era e o quão difícil seria guardar seus segredos para ele, mas enquanto pudesse, simplesmente se trancaria para qualquer de suas investidas.

"Estamos felizes por você ter finalmente decidido juntar-se a nós." Comentou Glorfindel fixando seus grandes olhos claros no rapaz. Legolas sentiu o corpo gelar e o ar ficou subitamente irrespirável. Foi quando uma mão firme tocou-lhe o ombro e ele agradeceu aos Valar pelo sorriso que recebeu.

"Os meus sábios senhores vão me desculpar a intromissão." Disse Aragorn apertando levemente o ombro do amigo elfo agora. "Mas preciso privá-los da companhia desse requintado príncipe por alguns momentos."

Legolas sorriu fazendo uma leve reverência que foi retribuída pelos lordes presentes e se afastando finalmente do grupo. No caminho ele segurou o braço do amigo humano com força fazendo-o franzir o rosto de dor.

"Isso é por me chamar de príncipe requintado."

"Ai." Reclamou o guardião puxando o braço levemente. "Eu o salvo de se tornar um alvo fácil e é assim que você me agradece?"

Legolas sorriu novamente e Estel sentiu um desejo imenso de abraçá-lo ali mesmo. O sorriso do rapaz não convencia ninguém e, ao vê-lo rodeado por aqueles poderosos elfos, ele não pôde conter o impulso de tirá-lo dali.

"Hannon le, mellon nin." Ele ouviu o arqueiro dizer enquanto este se aproximava mais agora, caminhando compassadamente ao lado dele.

"Disponha." Retribuiu o amigo. "Alguém quer te ver." Ele disse passando por um grupo de elfos e finalmente regressando ao lugar que deixara. Legolas parou alguns instantes diante da surpresa e voltou a curvar-se em uma grande reverência mantendo a cabeça baixa em um elevado sinal de respeito. Uma mão suave ergueu seu rosto então e seus olhos encontraram os de Undomiel. A moça ficou alguns instantes acariciando a pele alva do amigo, até finalmente deslizar seus longos dedos pelo contorno da orelha do rapaz.

"Folha Verde." Ela disse em um sorriso singelo e bom. "A brisa da aurora matinal ainda acompanha seus passos, mas os raios do sol quente de Lasgalen não brilham mais em seu olhar."

O rapaz quis baixar novamente o rosto tocado pelas palavras da moça, mas ela não permitiu.

"Continua um guerreiro valoroso, mellon-nin." Ela disse. "Enfrentando com grande habilidade as tempestades que o povoam."

"Estrela Vespertina." Ele disse cedendo finalmente aos carinhos da moça que ainda deslizava os dedos por seu rosto devagar. Seus olhos se embaçaram pelo sentimento que ela despertava nele agora. "Não sou tão forte quanto gostaria de ser." Ele disse por fim.

A bela elfa sorriu abanando levemente a cabeça e segurando com a ponta dos dedos uma lágrima que corria pelo rosto do rapaz.

"É o mais forte de todos nós." Ela disse com sinceridade. "O mais jovem e o mais sábio."

"E o mais elegante." Surgiu uma voz conhecida agora. "Não quero mais que freqüentemos a mesma festa." Reclamou Elrohir aproximando-se junto com o irmão. "Está roubando todas as atenções!"

Legolas tentou recompor-se, oferecendo um sorriso tímido ao amigo e olhando novamente para o robe que usava.

"Presente de seu pai." Ele disse enfatizando as duas últimas palavras em uma leve brincadeira enquanto deslizava os dedos pela grande folha bordada na manga direita.

Arwen aproximou-se, colando seu rosto ao dele e sussurrou-lhe ao ouvido em uma voz doce e meiga.

"Nosso ada." Ela lembrou beijando o canto dos lábios do arqueiro para a surpresa dos irmãos. Legolas voltou a comover-se abaixando a cabeça e colocando a mão por sobre o peito.

"Muito me honra, mais bela de todas." Ele disse. "Tenho uma dívida para com lorde Elrond a qual daria quantas vidas imortais eu tivesse para pagar, se não a considerasse impagável. Faço parte da casa do senhor de Imladris agora."

E ouvindo isso Arwen voltou a sentir uma tristeza estranha no amigo a quem tanto amava. Ela olhou para os irmãos e para Estel, o guardião apertou os lábios apreensivo, aquelas palavras também não haviam passado por ele desapercebidas. A moça então segurou as mãos do príncipe nas suas fazendo-o voltar a olhar para ela.

"Daria sua vida por nosso pai, eu bem sei." Ela disse fixando seus olhos nos dele. "Mas seu coração ainda amarra-se a outro alguém por quem daria seu espírito se preciso fosse." Ela reforçou mudando ligeiramente seu tom de voz e erguendo novamente o rosto do rapaz antes que seu olhar fugisse do dela. "Não pertence a lugar algum que não seja ao lado desse alguém... nós sabemos... Por isso mesmo não faz parte da casa do senhor de Imladris, Legolas gwador-nin".Completou. "Mas faz parte do coração dele... e do nosso."

O rapaz não respondeu. Apenas deixou-se prender por aqueles olhos claros sentindo um cansaço diferente abater-lhe enquanto os irmãos se juntavam à sua volta, bastante próximos agora, fazendo-o se sentir parte de algo novamente, fazendo-o sentir-se alguém.

"Com licença?" Surgiu uma voz de fora do círculo. Elladan e Elrohir se afastaram um pouco e a figura de Halbarad apareceu. O velho guardião estava bem vestido naquela noite, um casaco de couro novo e a barba aparada. "Preciso ganhar uma aposta aqui." Ele disse segurando o braço de Legolas e puxando-o com uma certa urgência.

Aragorn estranhou a atitude do velho dunedain e protetoramente segurou o pulso que prendia o braço de Legolas. Ele não desconfiava do amigo, mas queria saber o que se passava antes de permitir que o guardião levasse o jovem príncipe consigo.

"Tudo bem, Estel." Disse Legolas deixando-se conduzir pelo antigo líder agora. Ele não o havia visto e estava feliz por reencontrá-lo.

Halbarad não ofereceu mais esclarecimentos voltando a puxar o rapaz com ele por todo o salão. Legolas o acompanhava com um meio riso, tentando entender. Estel ofereceu um olhar de desculpas para sua amada e afastou-se seguindo os dois. Apesar do bom coração do velho guardião, ele temia que Halbarad pudesse involuntariamente fazer algo que ferisse ou magoasse o amigo elfo.

Quando chegaram finalmente no outro lado do salão, próximos a saída principal Legolas pode reconhecer outras duas figuras muito conhecidas. Skipper e Fowler estavam sentados em um grande sofá. Pareciam ter ganhado roupas novas e estavam satisfeitos com suas taças de vinho e a comida farta de Imladris. O príncipe sorriu ao vê-los, mas os dois simplesmente olharam para ele com uma estranha interrogação em seus rostos.

Halbarad riu tão alto que muitos elfos viraram seus pescoços para ver o que acontecia e Legolas olhou a sua volta confuso.

"Não te reconhecem assim tão bonito e cheio de pompas." Ele disse ao rapaz apoiando uma mão por sobre seu ombro.

"Como assim, Halbarad?" Indagou Fowler curioso. O menino esticou o corpo e pendeu levemente a cabeça, voltando a olhar para o belo elfo que acompanhava o velho guardião.

"Do que está falando, homem?" Reforçou o pai que, em uma atitude completamente oposta a do filho, simplesmente baixou os olhos e continuou bebendo o vinho vermelho que tinha nas mãos. Elfos não eram uma raça pela qual o experiente caçador sentisse um grande apreço. O bom homem, no entanto, acompanharia seu líder a qualquer lugar que lhe fosse pedido.

O príncipe sorriu novamente, entendendo então o que se passava. Ele deu mais alguns passos e ajoelhou-se devagar à frente dos dois. Skipper sentiu-se estranho, tentando desviar-se do olhar do jovem, enquanto sua precaução crescia ainda mais. Fowler, porém franziu muito as sobrancelhas tentando reconhecê-lo.

"Quem é você?" Indagou finalmente o rapazinho. Seus olhos puros e brilhantes despertavam um sentimento inexplicável no príncipe de Mirkwood. Fowler era a prova concreta de que a bondade e a pureza também eram qualidades encontradas em uma raça que muitos julgavam inferior e a qual Aragorn estava destinado a guiar e proteger.

"Alguém que sabe o quão bom caçador você é." Disse Legolas sorrindo para o menino. "E o pai valoroso que tem."

Skipper afastou por fim o copo que pretendia levar a boca mais uma vez, mas seus lábios permaneceram separados. Aquela voz lhe remetia a algo, a alguém, mas quem seria? Então uma luz se iluminou no rosto do velho caçador que se voltou na mesma hora para o rapaz, fixando seus olhos nele. Legolas oferecia a face sem objeções, mas seus olhos azuis tinham o brilho das lágrimas que ele derramara. O pobre homem enfim compreendeu todas as mensagens que seus sentidos lhe enviavam e ergueu a mão trêmula apoiando a palma no rosto do elfo.

"Não pode ser..." Ele disse. "Squirrel?"

E pela primeira vez aquele nome soou suave e saudoso para os ouvidos de Legolas. Para ele Squirrel era agora um passado muito distante do qual ele não sabia se sentia saudades ou não.

"SQUIRREL!!" Gritou então o menino atirando-se nos braços do elfo a sua frente e libertando-o de suas angústias e dúvidas. Legolas não se constrangeu, abraçando o rapaz e os dois ficaram ali ajoelhados por alguns instantes enquanto o jovem Fowler não conseguia conter as lágrimas e soluçava nos braços de seu benfeitor. "Sentimos saudades..." Ele disse em uma voz embargada apertando os braços em volta do amigo como se não fosse largá-lo nunca mais. "Pensamos que estava preso..."

À volta deles uma leve comoção se despertou e Elrond não pode deixar de sentir-se preso a ela também, voltando a pensar no que Celeborn lhe dissera sobre as rosas. Mais uma vez as palavras do sábio elfo de Lorien mostraram-se mais do que verdadeiras, mostraram-se acalentadoras.

"Ele é mais humano do que você, Elrond." Provocou Glorfindel como lhe era peculiar, apoiando a mão forte sobre o ombro do amigo e observando o jovem príncipe levantar-se agora e sentar-se entre caçador e filho que o abraçavam, como se achassem que ele iria desaparecer em pleno ar.

"Não." Discordou Celeborn bastante sério atrás deles. "Ele é mais elfo do que todos nós."

&&&

A noite corria agradável. O grupo de Halbarad uniu-se novamente aos filhos de Elrond e a Legolas e todos ficaram confortavelmente sentados conversando sobre assuntos banais. Arwen e Aragorn sentaram-se um pouco apartados deles, a uma distância suficiente para ouvi-los conversarem, mas se permitindo, ao mesmo tempo, desfrutar de um pouco de privacidade. Os dedos do casal estavam entrelaçados e seus olhares cruzavam-se a todo o momento. Aragorn sentia-se tão feliz que poderia se deitar para nunca mais se levantar de novo depois daquele dia, porque tudo o que vivera naqueles poucos momentos já compensara a pena de seus dias de solidão.

Foi quando Elrohir suspirou profundamente. O jovem olhou a sua volta. Sentado a seu lado estava o gêmeo mais velho, seu amigo e confidente, que fielmente aceitava sempre o ingrato papel de cúmplice calado em todos os seus planos. A celebração estava enfraquecendo e o cansaço já abatia alguns, mas mesmo assim Elladan não o havia questionado sobre as idéias que tinham compartilhado anteriormente. O rapaz então estendeu o braço e tocou discretamente a mão do irmão. Elladan voltou seus olhos para ele e ambos trocaram olhares cheios de significados, mas que não foram percebidos por mais nenhum dos presentes. Então o gêmeo mais velho ofereceu-lhe um pequeno sorriso e Elrohir ergueu-se se afastando do grupo. O jovem elfo cruzou o salão e, ao perceberem que o rapaz se dirigia para a lareira, todos os olhares começaram a acompanhá-lo. Vozes leves sussurravam percepções e desejos e uma ligeira agitação se fez. Legolas percebeu a agitação e também ele sentiu-se envolvido por uma repentina expectativa. O arqueiro olhou para Elladan descrente do que seus olhos viam e mais descrente ainda do que sua mente supunha, levantando-se então no exato momento em que muitos faziam o mesmo.

"Diga-me que não estou sonhando." Ele pediu aproximando-se do primogênito de Elrond agora. Seus olhos ainda acompanhavam a figura do amigo que seguia decididamente o seu caminho. "Diga que ele vai cantar."

Elladan riu percebendo sua família se aproximar. Legolas olhou ao seu redor. Elrond, Estel e Arwen estavam a seu lado agora. Um grande frio correu-lhe a espinha, mas o príncipe ignorou-o. Tudo o que ele queria naquele momento era saborear a poderosa voz do filho de Elrond.

Distante alguns passos agora, o jovem guerreiro posicionou-se ao lado dos músicos silenciosamente para só então erguer os olhos e encarar a pequena multidão que se agrupava para ouvi-lo. Ele simplesmente odiava e amava aquilo, eram sentimentos tão diversos que só podiam despertar sempre nele o estranho desejo de fugir. A música corria-lhe nas veias, mas o transformava em alguém que ele temia ser, ela o tornava poderoso demais e ele sabia que, no momento em que viviam, ele devia ansiar por outro tipo de poder, o poder das armas e não o das palavras. Mas estava ali agora, dominando todo o seu ser e ele nada faria para ignorar aquele apelo. Então o jovem elfo simplesmente percorreu os olhos pela multidão, despertando uma emoção diferente em cada um, para finalmente estacioná-los no motivo de sua inspiração. Do outro lado, cercado por aqueles que o amavam, Legolas desprendia os lábios receoso, entendendo finalmente o que estava para acontecer.

"Eu quero receber alguém dentro do meu coração." Disse o belo filho de Elrond. Sua voz soava diferente. Tinha agora um intrigante poder. "Mostrar-lhe o quanto é importante para mim e para os meus. Agradecer-lhe por manter-se de pé por nós, por oferecer-nos também o seu amor."

E um grande silêncio se fez, transformando a todos em estátuas do mais puro mármore, petrificadas pela expectativa de um momento que viria. Enfim Elrohir deixou que as palavras e melodias começassem a traduzir as emoções, fechando seus olhos e levando a todos para uma bela viagem.

"O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o amor antigo, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

E ele se calou, reabrindo os olhos e encontrando o que esperava. Legolas tinha o rosto banhado por lágrimas e seus olhos estavam fechados. Elrohir se aproximou ficando em frente do amigo que baixou a cabeça em total silencio. O príncipe tinha um modo diferente de reagir, difícil era decifrar-se o que sentia. Teria gostado? Mas então Legolas ergueu o olhar, subitamente invadido por uma coragem que ninguém pôde perceber de onde viera, e Elrohir sentiu-se totalmente desamparado, perdido em poças azuis rasas. O arqueiro deu um passo para trás e finalmente curvou-se se ajoelhando diante do filho de Elrond e despertando novamente a surpresa no rosto de todos.

"Não sou digno de sua homenagem, nobre senhor das belas palavras." Ele disse no chão. Cabeça baixa, a testa quase encostada no joelho. "Posso apenas me curvar humildemente demonstrando minha gratidão, admiração e respeito. Meu coração não esquecerá esse dia de hoje nem quando todas as estrelas do céu tiverem se apagado."

E Elrohir sentiu o jogo se inverter. O peito vazio parecia comportar apenas um alucinado coração cujo ritmo ecoava naquele nada que se formara. Ele segurou Legolas pelos ombros fazendo-o levantar-se na mesma hora. Aquele não era o lugar para alguém como ele, príncipe ou não, aquele não era lugar para alguém como Legolas.

"Hannon le" Os lábios do arqueiro disseram movendo-se silenciosamente quando os olhares dos dois amigos se encontraram e Elrohir finalmente o abraçou, segurando-o firme e sentindo enfim o quão bem tinha feito ao valoroso príncipe. O corpo de Legolas não estava mais frio, muito pelo contrário, emanava o calor dos dias de primavera e a energia do nascer do sol depois de uma noite de tempestades. O gêmeo enfim afastou o amigo de si e sorriu, fixando então algo na gola do robe do rapaz. Legolas baixou os olhos para ver o que era. Era um broche com o símbolo de Rivendell. Uma peça realmente muito bela.

"É o símbolo de nossa família." Disse Elrond aproximando-se devagar. Ele também lutava contra as emoções que a cena despertara. "Da esperança que tive um dia quando vi que nesse vale uma cidade brotaria." O curador lembrava-se com carinho agora daqueles momentos difíceis nos quais ele, apesar de ter descoberto até onde a maldade era capaz de se transformar em ruína e dor, conseguia ainda enxergar as rosas. "Indica que você é um dos nossos," Ele completou afastando aquelas imagens. "Que pertence a essa família. A minha família."

Legolas voltou seus grandes olhos para o lorde de Imladris sentindo-se subitamente esquecido da própria língua, de quem era ou do que tinha passado. Ele havia renascido e a sua volta o mundo inteiro ganhava um novo valor. Embora seu coração estivesse povoado pelos rostos, aromas e cânticos de sua terra, ele quis pela primeira vez esquecer Mirkwood, fazer exatamente o que ele julgava que Elrond quisesse que fizesse. Segurou o broche com força então, tentando parecer decidido, mas ao baixar os olhos o significado da mistura das cores que vestia se fez ainda mais claro, se fez cruel. O príncipe ergueu a mão esquerda instintivamente apoiando-a por sobre o peito, por sobre a verde túnica que ganhara, enquanto uma imagem surgiu de onde parecia nunca ter saído. Uma imagem que jamais poderia ser esquecida. E novas lágrimas o obrigaram a se lembrar de tudo, se lembrar de quem era e de todas as palavras ásperas que seu idioma poderia traduzir, principalmente nos lábios de um austero rei. Mas junto com a dor que voltava a sentir surgira finalmente uma grande certeza: a de que seu coração estaria, daquele dia em diante, eternamente dividido entre duas fronteiras.

"A sua família eu pertenço agora, senhor." Foi a resposta que o príncipe ofereceu sem voltar a olhar para o mestre. O rosto baixo ainda escondia as lágrimas que derramava e que tinham um outro porquê diferente das que ele derramara há pouco. Aquelas palavras criaram um sentimento ambíguo nos presentes, incluindo no próprio Elrond. "Espero não decepcioná-los e poder lhes oferecer ao menos um décimo do bem que a mim foi destinado durante todos os meus dias em Imladris".

Elrond sorriu, mas em sua fronte leves rugas de preocupação pareciam formar-se enquanto ele observava o rapaz soluçar em um tom quase inaudível agora, enquanto deslizava os longos dedos pela pequena peça que ganhara. À volta dele o curador pôde ver todos os filhos acompanharem o amigo em um pranto que mesclava alegria e dor, fazendo-o lembrar-se novamente das palavras de Celeborn, dos espinhos e das rosas. Elladan mantinha uma mão no ombro do gêmeo e Aragorn abraçava Arwen com ternura. Havia espinhos, perigosos espinhos, mas ainda havia as rosas. Os espinhos poderiam ser removidos com o tempo, mas as rosas eram efêmeras demais para serem ignoradas. Então o lorde de Imladris também decidiu esquecer de quem era naquele momento, para apreciar as belas rosas antes que o amanhã as consumisse e o tempo não fosse capaz de substituí-las. Ele se aproximou vagarosamente e puxou o príncipe para os seus braços, ignorando os presentes e o protocolo e desejando uma vez mais que o futuro amargo que vira fosse com sorte um fruto de uma árvore que nem sequer fizera-se semente ainda, ou, quem sabe, nem mesmo chegasse a germinar.