Olá, como vão as coisas? Espero que esteja tudo bem com vocês.
Esse capítulo começa um pouco confuso, mas se vocês continuarem lendo logo entenderão o que está acontecendo, está bem? Espero que tudo fique claro. Qualquer dúvida por favor perguntem, certo?
Queria agradecer em especial as reviews do capítulo passado. Era um capítulo sobre o qual eu estava muito insegura (bem... estou insegura sobre todos mas...) e vocês foram muito gentis em seus comentários. Super obrigada mesmo, de verdade, a todos os que me mandaram emails ou deixaram suas reviews.
Só reforçando, existem duas voltas ao passado nesse capítulo e elas acontecem de maneira distinta, se algo ficar para trás ou confuso, por favor, me avisem.
Agora agradecimentos... sempre, sempre, sempre....
Lady-Liebe – saudades, saudades, saudades. Liebe, cadê você?
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Misao, amiga, ainda estou aguardando. Por favor, atualize!!
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" está emocionante. Mal acabo um capítulo e já fico aguardando ansiosamente por outro. Aos que ainda não leram eu aconselho a fazê-lo. Leiam e digam o que acharam. Tenho certeza de que vão ficar surpresos. Myri é uma das mais talentosas escritoras que conheço, de uma criatividade invejável, capaz de criar um universo inteiro do mais completo vazio. O Brasil devia dar mais espaço a escritores de talento como ela. Myri, esse capítulo é para você. Adivinha quem está dando o ar da graça nele?
Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" cujo capítulo mais recente está lindo demais. Nosso Estel é um ser encantador e parece que realmente encontrou um par a altura (Arwen que me perdoe, embora para mim ela sempre será "a elfa"). Bom trabalho como sempre, Amiga!! Obrigada pelas reviews maravilhosas que você sempre me manda. Você não imagina como elas fazem o meu dia.
Vick Weasley: "BITTERSWEET" ainda não foi atualizada. Continuo sofrendo de saudades. Vick!!!!
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Nossa Ju atualizou sua fantástica aventura e finalmente o teimoso Legolas parece estar caindo em si de que o mundo real é melhor que a fantasia. Mas em compensação algo muito tenebroso parece aguardar por ele. Ju é uma escritora como poucas pessoal e parece que todos estão finalmente descobrindo isso. Leiam esse trabalho e mandem suas impressões para ela. Às vezes o que falta é o incentivo para que um bom trabalho aconteça. Parabéns, nossa Ju!!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Ainda sem atualizações. Continuo sofrendo de saudade... Essa fic é linda, pessoal. Quem ainda não leu precisa fazê-lo. Obrigada pela review. Saber que a fic agrada a alguém de talento como você me faz super feliz.
Kika-Sama: "APRENDENDO". A Kika ainda não atualizou, mas deve fazê-lo logo, assim espero. Beijos amiga.
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Ainda é minha dica. Mas adianto que boas notícias logo virão da Chell. Amiga, espero notícias suas. Obrigada por sua review, sempre.
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Amiga, cadê o capítulo? Cadê, você??
Kiannah – A ESTRELA SILENCIOSA Outro texto que não pode ser perdido. Correm boatos que haverá novidades vindas da Kiannah em breve. Vamos aguardar.
E a grandes amigas:
Syn, the time keeper. Obrigada hoje e sempre.
Regina – Fico feliz por ter notícias suas e por saber que minha fic ainda está entre suas favoritas. Lamento pela sua perda amiga. Estamos aqui para o que você precisar. Beijos.
Botori – Outra pessoa para quem só posso agradecer. Obrigada.
Leka – Outra de quem sempre aguardo as reviews. Obrigada de verdade.
Aeka – Estou triste por não saber de você. Está tudo bem?]
Soi – Amei sua última review. Fiquei super comovida com o tempo que você dedicou e com as belas palavras que escreveu. Super obrigada mesmo.
Mas vamos ao novo e confuso capítulo. Uma virada nos acontecimentos está para começar.
29
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Elrond andava em círculos como um animal preso em uma jaula estreita e fria. O eco do som dos seus passos povoava a solidão do seu espírito. Ele estava angustiado, sentindo o tempo corroer-lhe as entranhas, devorar-lhe os sentidos, invadir todo o seu ser para deixá-lo irreversivelmente vazio.
"Ele virá." Ecoava a voz em sua mente. "Trará a luz, encerrará as trevas com suas próprias mãos."
E ele acreditava. Apegava-se àquela voz como se fosse um náufrago que se debate em um mar agitado. Ele queria acreditar com todas as suas forças, queria fazer daquilo a verdade, nem que para isso tivesse que oferecer sua própria existência.
Passos curtos, o robe jogado por sobre o sofá, um calor corroia seu ser agora e até mesmo a túnica fina lhe parecia roupa demais.
"Tudo se resolverá, mellon-nîn," Veio a voz da cama próxima. Elrond voltou-se para o elfo que jazia quase imóvel ali. O rosto pálido, os olhos claros cercados por profundas sombras tristes, os louros cachos desfeitos por sobre o travesseiro e um sorriso fraco nos lábios. "O destino sempre gostou de nos pregar muitas peças."
O curador quis sorrir, tanto quanto queria acreditar, mas a cada minuto que se perdia, que se esvaia no ontem, sem forças para permanecer ainda o hoje, parecia carregar algo dele mesmo consigo.
"Estamos ficando sem tempo, mellon-nîn." Respondeu o mestre como se estivesse falando consigo mesmo, enquanto deslizava seus olhos cor de chumbo pela frágil figura imóvel, para depois voltá-los para o segundo leito do quarto. Outro quadro de dor estava ali e nem sequer tinha forças para lhe sorrir mais, olhos perdidos observavam o nada com uma profunda paz. Seria dessa forma a morte de seus amigos? Seria aquele o dia final de tudo o que ele julgava mundo?
Elrond colocou ambas as mãos por sobre o rosto e sentiu o desespero vir abraçá-lo com uma força voraz, tomando-lhe o ar, a sanidade, o sentido da existência. E em sua fraqueza o mestre de Imladris finalmente se sentou. Não havia mais o que fazer a não ser aguardar. Alguém iria chegar. Alguém traria a cura para todo aquele mal, a luz que devastaria com toda aquela escuridão.
"Acha que Mandos vai me deixar voltar mais uma vez?" Indagou Glorfindel. Apesar do tempero agradável que o enfraquecido elfo queria acrescentar às suas palavras, a pouca força com que as proferira só tornaram o desespero de seu amigo ainda maior. Elrond apoiou ambas as mãos no rosto e o poderoso guerreiro enfermo que enfrentara dragões e outras feras não soube como enfrentar o pranto de seu amigo curador. "Elrond...mellon-nîn..." Ele apenas disse com a pouca energia que lhe restava, fazendo com que o amigo que se sentia estagnado se visse obrigado a erguer-se de imediato como se sentisse que algo lhe escapava naquele momento, algo que não poderia deixar esse lugar. Elrond correu para a cama para averiguar o que já era uma certeza antes mesmo que um músculo seu tivesse se movido. Glorfindel também se fora, aprisionado como o fiel Erestor a seu lado nas garras de um coma cruel, caminho certo para a partida final.
"Ah, mellon-nîn." Desesperou-se o senhor de Imladris segurando o rosto do amigo e colando sua testa a dele. "Espero que Mandos não tenha que reencontrar aquele que enfrentou a mais poderosa das bestas... E que Iluvatar tenha piedade de mim e não me deixe só sem meu povo."
Foi quando a porta se abriu e três figuras entraram. Elrond ergueu os olhos e encontrou o que temia. Os três filhos estavam a sua frente. Olhos pesarosos, lágrimas e desespero davam-lhes às faces um ar de desamparo, de desesperança, de tragédia.
"Ada..." Tentou dizer Elladan. O jovem elfo agarrava-se a cabeceira da cama do conselheiro Erestor como se esperasse que uma rajada de vento forte fosse tentar carregá-lo dali. "Nós não conseguimos encontrar..."
"Fomos em todos os lugares, ada." Acrescentou a voz amargurada de Aragorn. O guardião aproximou-se da cama de Glorfindel e ajoelhou-se ao lado do guerreiro tentando descobrir a gravidade do estado do grande e sábio elfo. Seus temores estavam mais do que concretos agora. O valoroso guerreiro elfo caminhava agora ao lado do fiel amigo Erestor pela escura estrada do nada.
Elrond silenciou-se acompanhando descrente toda a narrativa do filho mais velho. Elladan traçava todos os trajetos que haviam percorrido em sua mente, descrevendo ao pai cada passagem, cada atalho que tinham tomado, cada desilusão que os surpreendera. Ele, bem como os irmãos, estava exausto. O curador olhava os filhos com preocupação. Sabia o peso que levavam em seus já tão carregados ombros. Mas ao mesmo tempo não compreendia o porquê do insucesso do grupo. Depois do término do triste relato ele voltou-se instintivamente para o silêncio de Elrohir. O mais novo dos gêmeos tinha parado na entrada onde estava, a mão na maçaneta mantendo a porta escancarada, permitindo que uma brisa suave entrasse pelo quarto e escapasse pela porta da sacada, seus lábios estavam trêmulos. Elrond temeu pelo estado de seu filho.
"Elrohir?" Ele indagou.
"Somos amaldiçoados." Disse o jovem olhando para os corpos imóveis nas camas, enquanto a imagem de toda a Imladris desfalecendo devagar, dos inúmeros elfos que se encontravam no mesmo estado daquelas duas poderosas criaturas, chicoteava-lhe a mente e a razão. "Por que não sou eu que estou aí no lugar de Glorfindel? Por que não sou eu que durmo o sono da morte no leito de Erestor?"
Elrond respirou fundo adiantando-se ao encontro do jovem elfo e o recebendo nos braços. A resposta para aquela pergunta era bastante clara para eles e Elrohir não a fizera buscando realmente por tal esclarecimento. O sangue humano que corria em suas veias, herança do pai, o protegia, bem como ao irmão e poupava também o corajoso Estel de tal desventura. Mas qual condenação poderia ser pior: a da morte ou a de ser dela espectador?
"Eu não quero, ada!" Gemeu o rapaz com o rosto escondido na túnica do pai. "Não deixe que eles morram."
Era a idéia de todos. Mas o não querer de todo o coração não era o bastante e tudo o que podia ser feito já o fora. Elrond sabia que agora só havia o esperar e aquele esperar seria a pior prova pela qual ele e seus filhos passariam. Eles teriam que esperar pelo pior com humildade, permitir que Mandos abraçasse um por um de seus queridos elfos, um por um de todos os integrantes do reino que Elrond um dia vira supremo e belo, um por um de todos a quem queriam bem.
"Vocês eram minha última esperança." Admitiu o curador fechando os olhos agora e balançando a cabeça inconformado. "A última patrulha já regressou e trouxe apenas mais doentes com ela. A região está toda coberta por esse veneno cruel. Às portas de Rivendell abrigam o mal e quem as cruza corre um grande risco."
"Mas não há elfos doentes em nenhum outro lugar, ada." Disse Elladan inconformado. "Por que só nós? Por quê?
O curador soltou-se dos braços do filho e dirigiu-se então para a grande porta da sacada da sala de estudos, agora transformada em enfermaria. Elrond revivia o passado mais uma vez, relembrava as duras horas intermináveis. Ele passara dias e noites lá usando seus próprios amigos como cobaias para suas experiências, enquanto tentava em vão adiar o que não podia ser adiado. Ele tentara de tudo, todas as ervas, todos os polens, toda pétala de flor, todo veneno de animal e nada surtira efeito. Até que finalmente percebera algo que não tinha visto. O grande eucalipto secava rapidamente, vítima de um mal assolador e totalmente desconhecido. E a descoberta se fez. A árvore fora envenenada e agora envenenava tudo a sua volta com igual crueldade. Ela morria e levava o povo de Imladris consigo.
"Quantos ainda estão em pé?" Indagou Estel preocupado com o silêncio do pai. O guardião transpirava indignação e fúria e ainda não se sentia derrotado.
"Alguns." Respondeu o curador mantendo o olhar perdido na triste imagem da grande árvore. Eles haviam pegado o cerne da armadilha. Um pequeno animal entrara no reino. Uma criatura ensinada que tinha um destino certo e o cumprira com exatidão para morrer a poucos metros de sua vítima. "Mas definham rapidamente."
"Ada." Disse o guardião aproximando-se e segurando o pai pelos ombros. "Não pode desistir. Temos que tentar. Deve haver uma saída".
"É ada." Insistiu Elladan contagiado pela teimosa esperança do caçula. "Aquela erva não pode ser a nossa única opção. Temos que continuar tentando."
Elrond voltou a cobrir os olhos com uma das mãos. Pensar naquele pesadelo já era um tormento, mas traduzir a terrível situação em que se encontravam para os filhos era algo que estava além de suas forças. O pranto começou a dominá-lo novamente. Subindo-lhe a garganta e forçando passagem por seus lábios selados. O curador apoiou a mão por sobre a madeira fria da sacada e deixou-se apanhar finalmente pela dor que o assolava.
"Ada." Desesperou-se Estel abraçando o pai. Elladan e Elrohir correram para fazer o mesmo. Eles nunca haviam visto o nobre elfo tão debilitado assim e aquilo os assustava terrivelmente. O pranto do pai era a confirmação do que eles mais temiam. Era a confirmação de que a esperança também apanhara o barco que jamais regressaria.
E os quatro ficaram parados por sob aquele entardecer rosa. A noite aproximava-se silenciosa e cruel trazendo consigo as garras da morte inegável. Elrond chorava num tom quase inaudível, acompanhado agora pelos filhos que sofriam. Eles não tinham coragem de voltar para o quarto, não tinham forças para presenciarem o inevitável.
Enquanto isso a dor emudecia os últimos gemidos do povo conformado, ajoelhado agora à cabeceira dos que partiriam para esperar por sua vez. Muitos ansiavam estar no mesmo lugar de seus entes queridos, para que não tivessem que presenciar tamanha dor e sofrimento.
E o mesmo nada cruel agora invadia o quarto e as mentes de Elrond e seus filhos, abençoados dessa vez apenas pelo brilho das estrelas. Era um silêncio fatal, impossível de ser interrompido, impossível de ser assimilado.
Mas veio o desafio.
"Lorde Elrond?" Soou uma voz no quarto escuro. O anoitecer surgira e ninguém se importara com os lampiões.
Elrond voltou-se devagar, mas nada viu. Ele e os filhos haviam permanecido na sacada fria, apegados à força das estrelas que pareciam ser as únicas companheiras que lhes restariam. Mas uma voz parecia não ter sido calada. Sons de passos receosos então surgiram e todos franziram suas sobrancelhas em busca de alguma evidência de que não estavam ouvindo as vozes de seus próprios pensamentos. Foi quando uma luz estranha brilhou no meio das trevas que haviam se formado. Uma luz que ganhou forma e porquê. Cabelos dourados e uma alva pele iluminaram-se, repentinamente atingidos pelo brilho das estrelas e um olhar de dúvida e comoção alcançou a todos os presentes.
"Príncipe Legolas?" Indagou o mestre elfo totalmente confuso agora.
"Lorde Elrond... Eu cheguei tarde?" Perguntou o rapaz numa voz de pura agonia e preocupação. Os caminhos vazios em toda Rivendell e o estado de desespero em que se encontravam os amigos transmitiam-lhe uma mensagem que ele temia confirmar. "Eu encontrei uma patrulha e eles me disseram o que havia acontecido e então eu... Eu tentei ser rápido... Mas... eu tinha que ir até... tinha que ir muito longe... Eu tentei ser rápido..."
Elrond franziu mais ainda as sobrancelhas tentando compreender. Foi quando seus olhos deslizaram-se pela figura do trêmulo arqueiro para finalmente verem o que o rapaz trazia em suas mãos. Um verde vivo que inundava o ambiente era acompanhado por uma doce fragrância que o curador conhecia muito bem. Era um cheiro real... o cheiro da esperança. Então ele não pensou duas vezes e correu, apanhando as ervas da mão do menino.
"Onde? Como?" Indagou com urgência, mas sem esperar resposta. Enquanto falava já caminhava novamente para dentro do quarto acendendo os lampiões e jogando todos os conteúdos de cima de sua mesa de trabalho no chão, para que tivesse o espaço que precisava. Seus ouvidos estavam mais uma vez atentos ao som da respiração dos dois amigos que ainda não cessara. A esperança lutando bravamente.
"Eu conheço um lugar..." tentou explicar o príncipe enquanto os três filhos de Elrond passaram por ele em uma mesma urgência que o curador. Elladan correu para o lado do pai enquanto Aragorn e Elrohir checavam o estado de Glorfindel e Erestor. Legolas ficou parado na sacada, sem coragem de regressar para dentro do lugar. Ele sentia que o tempo parecia castigar os amigos de tal forma que o mero fato de terem-no como obstáculo no incessante caminho que traçavam agora dentro do cômodo poderia ser fatal. "Trago mais comigo... deixei na entrada e..." Ele tentou continuar, mas subitamente sentiu que não era necessária mais nenhuma observação. Mesmo porque talvez nem estivesse sendo ouvido. Ele apenas apoiou uma das mãos no batente da grande porta e encostou o corpo naquele apoio seguro.
Minutos torturantes se passaram até que o som de um doce riso se fez. Elrond olhou para os filhos. Um pequeno frasco estava em suas mãos. Tudo estava quase pronto. Então o curador voltou-se devagar. Ainda havia necessidade da prova final.
"Vá, Elrohir." Gritou o pai estendendo o frasco para o rapaz. "Você é o mais rápido. Jogue esse conteúdo nas raízes de nossa amiga e peça, peça com fé que o tempo nos tenha sido complacente."
O jovem elfo obedeceu de imediato, transformando-se em um vulto de luz que ganhou o corredor e as escadas em um tempo inacreditavelmente curto. Todos correram novamente para a sacada, passando novamente por Legolas que os acompanhava confuso, as costas encostadas agora na grande porta aberta. Eles pareciam estar em busca de uma visão acalentadora, de uma renovação de todas as forças.
Foi um esperar cruel até que, lá debaixo, um gesto traduziu a confirmação de que sonhos podem se tornar realidade. O jovem Elrohir lhes acenava sorrindo em frente da velha árvore que, como num passe de mágica, rejuvenescia verde e brilhante. Elrond apertou o restante da erva que ainda trazia nas mãos e fechou os olhos agradecendo antes de tudo, antes de qualquer atitude, antes que a energia que sentia pela dádiva recebida fosse extinta pelo tudo que ainda precisava ser feito. Então ele voltou-se e encontrou o rosto cansado do arqueiro de Mirkwood. Olhos azuis gentis aguardavam pacientemente, herói calado e servil, sentinela incansável do bem. Poucos tinham sido seus dias ao lado do príncipe que há muito tempo não via, mas seu coração já o amava como se fosse um dos seus.
Foi quando a mesma voz voltou a lhe repetir. "Trará a luz...encerrará as trevas com suas próprias mãos."
O curador sorriu para o rapaz, acalentado pela certeza do que fora fato, e sentindo mais uma vez o doce prazer de perceber que suas visões e impressões podiam surpreender-lhe positivamente.
"Vai funcionar." Ele garantiu ao jovem príncipe. "Funcionou com a grande árvore, ela fará o mesmo por nossos amigos agora."
"Assim espero, meu senhor." Disse o arqueiro esvaziando os pulmões. Havia algo errado com sua voz. "Todos nós precisamos de ajuda."
Elrond pendeu a cabeça sem entender, percebendo finalmente algo que deveria ser obvio para ele, mas que a ansiedade pela solução do problema maior o impedira de ver. Há alguns passos dele o príncipe fraquejava finalmente, escorregando ele também pelas lisas pedras da correnteza do mal, agarrado também cruelmente assim que entrara em Rivendell. Estel correu e segurou-o antes que atingisse o chão.
"Legolas!"
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A melodiosa harmonia de sons de Imladris era tão característica que mesmo que todos os seus sentidos lhe tivessem sido roubados, restando-lhe apenas a audição, Legolas saberia onde estava. Ele franziu levemente o rosto tentando ouvir todos aqueles sons, o canto afinado dos pássaros, a música do vento nas folhas, o balançar dos galhos das árvores. Tudo era música, tudo era uma canção que, associada a outras, formava uma sinfonia de afeto e tranqüilidade.
Um toque leve acariciou-lhe o rosto, afastando alguns fios de cabelo de sua fronte.
"Abra os olhos, criança." Disse a voz do curador. "Os instrumentos são tão belos quanto a doce canção que executam."
O jovem elfo soltou um suspiro e abriu os olhos devagar. O quarto estava protegido da luz pelas verdes cortinas. O calor da lareira acesa dava-lhe uma confortante sensação de retorno ao lar. Legolas deslizou seus olhos azuis tentando confirmar onde estava. Era o quarto que lhe fora oferecido e gentilmente decorado nas cores de sua terra para que nele o rapaz se sentisse em casa. Ele já sabia. O ranger suave dos galhos de sua amiga árvore vinham saudá-lo lá de fora. A sua frente Elrond oferecia-lhe um sorriso de paz.
"Olá, lorde Elrond. A que hora do dia estamos?" Disse o rapaz num sorriso tímido e constrangido que comoveu o curador. Legolas agia como se tivesse acabado de acordar de uma noite de sono tranqüila e não esperasse que alguém o estivesse aguardando.
"Na mais abençoada de todas, pen-neth." Ele respondeu voltando a alisar a testa do rapaz. "Estamos no raiar de um novo dia. O sol acaba de despertar, juntamente com você."
O príncipe sentiu-se comovido com a manifestação de carinho do poderoso elfo de Imladris, a quem admirava do fundo de sua alma, e suspirou mais uma vez, fechando os olhos e esfregando o rosto no travesseiro, sentindo uma agradável sensação.
"É tudo tão belo aqui em Imladris." Ele disse mantendo as pálpebras fechadas.
Elrond riu, mas seus olhos enchiam-se de lágrimas. Era comovente ver aquele jovem despertar depois de tudo o que passara. O príncipe também, antes de encontrar a cura como os demais, tivera que passar por todos os estágios de dor e suplício que o veneno mortal, tão eficazmente combatido pelo forte eucalipto, destinava-se a concretizar. Mas mais comovente ainda era o fato de que o arqueiro ainda não perguntara nada a respeito do mal que os afligira.
"E graças a você tudo continuará muito belo." Disse o curador ainda deslizando os dedos pela fronte do rapaz, aguardando que os olhos do menino se reabrissem, mas ele não parecia intencionado a fazê-lo.
"Não..." Respondeu o jovem mantendo as pálpebras cerradas, parecia estar saboreando ainda as agradáveis sensações que o abençoavam. "Quem conhecia a fórmula era o senhor, mestre."
Elrond riu. Era a primeira vez que o rapaz o chamava assim e ele não entendia o porquê.
"O que faz um carpinteiro sem martelo e prego, criança?" Ele indagou ainda saboreando aquela estranha, porém agradável, sensação de felicidade.
"Pede a um de seus humildes servos que os tragam." Respondeu o rapaz prontamente, olhos fechados ainda e um sorriso nos lábios. "Pedido que estes últimos executam com prazer, pois servo algum faz as camas e cadeiras, eles só admiram e usufruem o trabalho final."
"Iluvatar..." Disse o curador fechando ele também os olhos agora para reabri-los em seguida. Que poder tinha aquele menino? "Você não faz idéia do que fez, não é criança? Não faz idéia do que ia nos acontecer?"
"Nada..." Respondeu o rapaz com simplicidade, ainda com suas janelas fechadas para o mundo, parecendo ignorar intencionalmente tudo a sua volta. "Rivendell é abençoada... nenhum mal por aqui prevalece por muito tempo... Um caminho ou outro iria surgir..."
Elrond não resistiu, ele segurou o rosto do jovem com ambas as mãos agora. Legolas finalmente reabriu os olhos e encontrou o olhar do curador.
"Abençoada é Mirkwood, Legolas Thranduilion." Ele disse com seriedade, infinitamente satisfeito, sentindo-se preso agora a aquele jovem destemido e bom como se o rapaz fizesse parte dele. "Abençoado é seu pai por ter uma luz como você sob seu teto."
"Mestre..." O rapaz quis retrucar. Mas Elrond não permitiu.
"Lá fora... em todos os lugares de Imladris, cada elfo canta uma canção em sua homenagem, criança. Cantam em homenagem à luz que nasceu das trevas, que os resgatou da escuridão, que os livrou do mal... E eu... e eu, criança, engrosso em meu pensamento esse coro de vozes... eu também louvo a nosso salvador."
O pobre arqueiro apertou os lábios sem saber o que responder. O brilho das lágrimas surgiu então em seu olhar confuso e perdido. Para Legolas, Elrond parecia ver algo nele que apenas o curador de Imladris era capaz de enxergar. Algo que poderia nem mesmo estar ali, mas que agradava muito ao príncipe imaginar que estivesse. Sentindo as mãos do poderoso elfo em seu rosto, o jovem desejou pela primeira vez alimentar um sonho diferente, ser um outro alguém e assim poder ficar em Rivendell, poder chamar Elrond de pai e esquecer-se de Mirkwood e da pouca fé que o rei depositava nele. Mas seus sentidos remexiam-se incessantes dentro de seu coração.
Mas com o passar dos dias e conforme o príncipe se recuperava, toda aquela satisfação e desejos reverteram-se para a Floresta Escura mais uma vez, e o arqueiro abraçou seus amigos, despedindo-se com um sentimento antagônico no coração e galopou de volta. Apesar de tudo ele estava ansioso para ver o pai. Sentindo o coração incomodado pela saudade que mal cabia dentro dele, o jovem príncipe pediu à Iluvatar que o rei não tivesse conhecimento de sua aventura e do grande risco que correra para salvar um povo por quem Thranduil, decididamente, não tinha a menor simpatia.
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Iluvatar era bom e atendera o jovem príncipe em praticamente todos os pedidos sinceros que fizera, porém daquela vez ele parecia ter reservado uma dura lição ao rapaz. Conforme cruzara os grandes portões de Mirkwood sozinho o arqueiro teve um mau pressentimento e seu coração apertou-se ao ver o pai a sua espera na escadaria do palácio. Thranduil nunca se importara com suas partidas e chegadas, nunca calculava quanto tempo ele se ausentava ou sequer questionava-o sobre o motivo ou objetivos de suas viagens. O que estaria fazendo ali parado? Estátua imponente de puro brio e força. Olhos de um eterno verde esmeralda, transformados agora em torrentes de um espírito em conflito.
Legolas pediu a seu animal que parasse a poucos metros da entrada e desmontou cautelosamente, seus olhos não deixavam os do pai embora o medo gelasse todos os cantos de sua alma agora. Um dos servos aproximou-se então e levou o companheiro eqüino do príncipe, deixando-o só no meio do pátio e retirando-lhe assim qualquer outra alternativa que não fosse caminhar ao encontro das dúvidas que surgiam em sua mente, dúvidas que ele não estava bem certo se queria esclarecer. Ele subiu então a escadaria até ficar frente a frente com o rei de Mirkwood.
"Acha que pode entrar?" Indagou o pai. Sua voz firme e seu questionamento intrigante deixaram o príncipe confuso e assustado.
"Não... posso, senhor?" Ele perguntou receoso.
Thranduil fechou os olhos com força e depois agarrou o braço do filho puxando-o impiedosamente para dentro do palácio, para dentro de seu gabinete e empurrando-o para um dos cantos do cômodo. Legolas perdeu o equilíbrio com a violenta atitude do pai e bateu na parede escorregando para o chão, onde permaneceu sentado, sem coragem de se levantar.
"Por que deveria permitir que regressasse?" Indagou o rei furioso. Seus olhos faiscavam, eram de um verde bandeira agora, forte e tenebroso como as tempestades de um rigoroso inverno. "Depois do que fez? Por que não ficou com aquele meio-elfo maldito, já que arriscou sua vida para salvar aquele povo que já tem tudo nas mãos?"
Legolas fez uma careta de dor, ajeitando-se no chão duro.
"Senhor... eles não tinham chance... não havia como..." Ele arriscou, surpreso por ver o quão a par dos acontecimentos o pai parecia estar.
"O povo de Imladris? Não tinha chance?" Ironizou o rei franzindo os olhos de uma forma assustadora agora. Uma ira incontrolável parecia ser a energia daquele olhar. "Nós não temos chances." Afirmou então enfatizando o sujeito daquela sentença de forma inquestionável. "Lutamos aqui sozinhos onde a escuridão penetra até em nossas almas! Nós não temos chances e não temos quem ou o que nos favoreça."
Legolas balançou a cabeça entristecido. Era uma razão forte a que temperava os pensamentos do rei de Mirkwood, mas ainda havia detalhes que o pai precisava saber para se apegar definitivamente a tal opinião.
"O senhor não compreende..." Tentou explicar o rapaz. "Um grande mal veio ameaçar o povo de lorde Elrond. Uma ameaça que nem mesmo o curador conhecia. Eles precisavam da erva verde que nasce nas cavernas..."
"Eu não sou tolo, Legolas!" Retrucou o rei erguendo uma palma e fechando os olhos como se o som da voz do arqueiro lhe despertasse algum mal-estar. "Se o fosse não seria o rei."
"Senhor..."
"EU NÃO SOU TOLO!!" Gritou o pai extremamente irritado. "Sou um governante e como tal estou a par de tudo o que se passa. Não me julgue um inútil como você. Não subestime minha capacidade de liderança."
Legolas fechou os olhos e engoliu todas as palavras que queria dizer em sua defesa. Há muito tempo não se lembrava de ver o pai tão fora de si quanto estava naquela tarde. Um silêncio tomou conta do ambiente até que o rei afastou-se, aproximando-se da grande mesa, apoiando-se por sobre ela e respirando fundo. Ele parecia tentar refazer os pedaços de si que pareciam embaralhados como um cruel quebra-cabeças. O príncipe voltou a olhá-lo com ternura. Ele lamentava profundamente todas as vezes que via o pai assim transtornado e seu lamento ainda era maior por reconhecer-se o causador de tal suplício.
"Ada," Ele chamou receoso. "Perdoe-me, mas se o senhor me permitisse contar o que houve..."
Thranduil sequer se deu ao trabalho de virar-se novamente. Legolas só pôde perceber as costas do pai arcarem-se como se ele esvaziasse os pulmões com grande esforço. O jovem arqueiro conhecia o rei muito bem e temia pelo estado de espírito dele agora.
"Eu não sou tolo." Repetiu o rei elfo uma derradeira vez. Sua voz estava desprovida de qualquer sentimento agora. "Sei de tudo. Sabia de tudo antes mesmo que sua sombra infeliz cruzasse os portões do meu reino." E dizendo isso ele finalmente se voltou. "Eu sei de todos os passos que você deu, sei de todos os passos que dá, todos os lugares aonde vai e todas as coisas estúpidas que faz."
O príncipe fixou seus olhos nos do pai por alguns instantes. Incrédulo que estava, mal conseguiu disfarçar o ar de decepção e abandono que se estampava em sua fronte. Então o pai mandava segui-lo? Vigiava seus passos e suas atitudes? Mas por quê?
"O senhor está me espionando?" Indagou o jovem incrédulo. Sua voz mal continha o sentimento de total incompreensão que assolava a alma do rapaz. "Desconfia de mim a ponto de mandar que alguém me siga?"
Mas nem o tom daquelas palavras nem a seriedade do que indagavam impediram Thranduil de exasperar-se uma vez mais com as insinuações do filho. O inconformado rei avançou sobre ele e agarrou-o pela gola da túnica colocando-o em pé.
"Você é um jovem tolo." Reafirmou o rei a frase que Legolas parecia ter ouvido sua vida inteira, enquanto olhava o filho nos olhos com um ar indecifrável. Legolas apertou os lábios e retribuiu o olhar do pai, sentindo-se preso nele agora. "Acha que preciso perder meu tempo com atitudes desse tipo? Acha que tem algum poder?" Indagou o pai invadindo subitamente todos os cantos da mente do rapaz enquanto ele tentava inutilmente impedi-lo. "Acha que pode me esconder algo?"
"Ada... Pare, por favor..." Implorou o arqueiro, sua voz voltava a expressar o mesmo tom de submissão e reverência.
"Eu sei de tudo sobre o que é de minha responsabilidade. Meu coração bate dentro da floresta, meus pulmões respiram o verde de Lasgalen, minha alma divide-se em quantos pedaços forem o número dos súditos que tenho." Reforçou Thranduil fechando finalmente os olhos e libertando o filho. Legolas esvaziou os pulmões aliviado e só não caiu porque o pai o estava segurando.
"Se sabe, senhor." Disse o arqueiro procurando conter a desagradável sensação de vazio que sempre lhe restava quando o rei agia de tal forma. Aquelas eram as poucas vezes em que odiava o pai. Quando a demonstração de poder do rei roubava-lhe a liberdade e semeava nele dúvidas sobre quem era e do que era capaz. Um sentimento estranho o dominava agora e obrigava seu tom de voz a adquirir um ar sério, uma mistura de decepção e descrença que o rei nunca tinha percebido antes. "Sabe também que não podia negar-lhes a ajuda da qual necessitavam. Um lugar como Imladris não pode morrer depois de tudo o que lorde Elrond enfrentou para concretizá-lo."
Aquela decididamente não era a afirmação que Thranduil queria ouvir. Ele não esperava que, depois do que fizera, Legolas ainda tivesse coragem de desafiá-lo. O rei voltou a franzir os olhos e o príncipe sentiu uma ponta de arrependimento pelas palavras que escolhera.
"Perco meu tempo com você." Disse o lorde buscando o olhar do filho que fugia dele agora, receoso que o pai intentasse repetir o castigo que lhe aplicara há pouco. "Elfo tolo que nada herdou de meu... Elfo tolo..." Ele então sacudiu o rapaz para fazê-lo olhá-lo nos olhos, mas o arqueiro não atendeu, apertando mais as pálpebras cerradas. "Acha que é alguém? Que tem um destino? Pois eu lhe digo o que fez..." O rapaz abriu finalmente os olhos, movido pelo medo do que fosse ouvir. Mas o pai não lhe tomou os sentidos mais, apenas permitiu que o filho sentisse a decepção e repulsa que sentia por ele. "Você fez o que fará sempre em sua vida... foi servil... um animal domesticado que atende aos chamados de seu dono... que pula obstáculos e faz piruetas..."
Legolas voltou a fechar os olhos, arrependido por tê-los aberto, arrependido por estar onde estava e completamente atingido pelas palavras do rei. Thranduil sentiu o coração fraquejar por alguns instantes, tomado pela piedade que sentia por aquela criatura que, apesar de adulta, ainda guardava algumas qualidades que apenas as crianças, seres que há muito tempo não pisavam mais a Terra Média, possuíam. O rei então parou para recuperar o fôlego perdido, tentando engolir a ira que sentia, a repulsa que o corroia por imaginar que por causa de Elrond e daqueles malditos elfos noldorianos ele quase perdera seu filho único, como perdera o pai há tanto tempo no passado. "Por que ainda me importo com você, criatura confusa que não sabe quem é?" Ele perguntou inconformado, dando uma leve sacudida no rapaz agora. "Por que me importo com alguém como você?"
Apenas o silêncio foi a resposta. Legolas estava dominado, enlaçado novamente pelo pai, mas de uma forma diversa agora, ele estava preso nas dúvidas que o rei semeara em sua mente. O príncipe voltou a abrir os olhos que adquiriram um estranho brilho e pequenas lágrimas desceram devagar por sua face. Thranduil o soltou então e deu-lhe as costas num rompante. Ele lamentava o que dissera, mas não voltaria atrás.
"Não sairá do seu quarto até que eu o autorize." Disse numa voz fria, voltando a apoiar-se em sua mesa de trabalho, enquanto procurava desesperadamente trazer seus pensamentos de volta aos assuntos que tinha que resolver. Depois de alguns momentos ele finalmente ouviu o filho obedecer silenciosamente, alcançando a porta e abrindo-a devagar. "E reze para que esse dia chegue." Ele completou amargurado, tentando deixar claro ao rapaz o quanto estava aborrecido. "Porque por mim você não sairia de lá nunca mais... o que me pouparia de vê-lo e enfrentar os absurdos que diz e faz."
Legolas baixou os olhos e puxou a porta, abrindo-a completamente e passando pela passagem que se fizera. Mas antes de ir ele se voltou e encontrou os olhos do pai que havia se virado atraído pela atitude do filho. Thranduil sentiu um estranho pesar ao encontrar-se naqueles espelhos de tristeza e dor.
"Mas havia um animal..." Disse o príncipe em um tom cheio de significados. "Um animal que carregou o infortúnio..." Ele completou fazendo o pai franzir as sobrancelhas, buscando compreensão. "E animais chegam a qualquer lugar... até a Florestas Escuras... a palácios... E ameaçam a todos por igual... amigos e inimigos... cada qual a sua vez..."
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Celeborn fechou os olhos e os reabriu apoiando-se em um dos móveis do grande salão.
"Sente-se bem?" Indagou uma voz. Um toque firme em seu ombro agora.
O lorde elfo voltou-se devagar para encontrar o olhar preocupado do líder de Imladris.
"Sim." Respondeu o outro retomando o ar e voltando a posicionar-se de forma ereta, sem o apoio com o qual contava anteriormente.
"Que mal o assolava, mellon-nîn?" Indagou o curador com um olhar preocupado. Certas evidências eram obvias demais para serem desprezadas.
"Lembranças..."
"Lembranças tristes?"
"Lembranças que não me pertencem."
"E a quem pertencem?"
"A muitos..."
Elrond silenciou-se por alguns instantes. Aquele jogo de enigmas e charadas próprio dos que detêm a sabedoria e desejam fazer com que seus discípulos sintam o gosto de descobrir a verdade, ao invés de simplesmente serem presenteados por ela, não estava se mostrando muito apropriado naquele momento.
"Celeborn..." Pediu o lorde elfo cansado. A noite estava próxima do fim e a pouca alegria que o curador conseguira guardar dela parecia estar se desfazendo naquele discurso entroncado do amigo.
O líder de Lorien suspirou cruzando as mãos nas costas. Seu olhar percorria o salão agora. Poucas pessoas restavam nele. A maioria dos convidados já se retirara, excetuando os filhos de Elrond, Legolas e uns serviçais que tentavam colocar alguma ordem no local.
"Pensava em um animal, cuja origem ainda nos é uma incógnita até hoje." Ele disse por fim.
Elrond conteve a pergunta que ardia em sua garganta. Apenas aguardava a resposta que sabia estar a caminho.
"Um animal que quase encheu os halls de Mandos com uma quantidade de elfos excepcionalmente grande... Um reino inteiro eu diria."
O curador empalideceu, chicoteado por uma lembrança que havia aprisionado a sete chaves. Ele voltou instintivamente seu olhar para o príncipe de Mirkwood. O jovem Legolas estava sentado a alguns metros deles. Parecia feliz conversando com Estel e os gêmeos. Elladan e Elrohir estavam jogados displicentemente em um tapete a frente dele e Estel o acompanhava no grande sofá em que estavam. Todos os jovens haviam abandonado seus robes e sapatos e riam bebendo os últimos goles do doce vinho de Rivendell agora. Legolas abraçava os joelhos e apoiava seu queixo sobre eles, rindo muito de alguma coisa que Elrohir dissera. Estel mantinha um dos braços em volta do arqueiro, escondendo o rosto no ombro do amigo como se estivesse inconformado com as palavras que ouvia do irmão. Era um quadro feliz aquele, mas Elrond não conseguia captar tal felicidade, amarrado como estava nas recordações que Celeborn o obrigara a reviver.
"Legolas nos fez muito bem..." Disse finalmente fixando seus olhos no príncipe dos cabelos dourados que agora sacudia muito a cabeça parecendo compartilhar da indignação do amigo humano, mas ainda mantendo um sorriso nos lábios. "Curioso como temos a tendência de afastarmos de nós experiências infelizes. Não nos apercebemos que, ao fazê-lo, afastamos também dados singelos e agradáveis que as acompanhavam."
"Uma descoberta por dia ao menos." Respondeu Celeborn sorrindo agora com a pequena confusão que os rapazes armavam. Estel havia se atirado por sobre o gêmeo mais novo e ambos se atracavam no chão para o deleite dos outros dois jovens, que se limitavam a abanar suas cabeças e rir muito mais. "Uma descoberta... e a vida vale a pena."
Elrond concordou abanando a cabeça. Mas depois voltou a olhar o sogro com desconfiança.
"O que há por trás do passado que viu, nobre Celeborn?" Ele indagou franzindo as sobrancelhas. "Por que agora essas imagens de tanto tempo resolveram preencher os vazios de sua paz?"
O líder de Lothlorien perdeu o sorriso que enfeitava seu rosto e um ar preocupado tomou seu semblante.
"Algo que ele disse." Respondeu o elfo olhando ainda para o príncipe de Mirkwood. "Os propósitos para a existência dessa doce criatura ainda são um grande enigma que tento há anos decifrar. Mas, por algum motivo, sinto que dessa vez estou mais perto do que imagino..."
Aquelas palavras soaram tenebrosas para o lorde de Imladris que não se sentia disposto o suficiente para tentar compreender o que estaria por trás delas. Ao ouvir Celeborn proferi-las e notar o modo com que agora olhava para o menino, Elrond teve que conter o instinto que bateu em seu peito de correr e esconder o rapaz antes que o poderoso elfo da Floresta Dourada fizesse o que quer que julgasse necessário no momento.
"Algo que está dentro dele..." Completou o lorde dos cabelos claros voltando-se para o genro. "Seu frágil protegido é portador da chave de uma grande porta... a porta das respostas."
Elrond franziu ainda mais as sobrancelhas olhando para o jovem filho de Thranduil e novamente para Celeborn. Uma preocupação o invadia e ele temia que aquela noite guardasse ainda mais revelações.
"Quais respostas?" Indagou.
Mas o sábio lider não respondeu. Enchendo novamente os pulmões e indo ao encontro do animado grupo. Elrond acompanhou-o sentindo um estranho frio correr-lhe a espinha. Estel que estava no chão segurando Elrohir pelo pescoço soltou o irmão de imediato ao ver os dois elfos se aproximarem e quis se levantar, para só então perceber o quanto o que havia bebido já inibia seus sentidos. Ele então ficou no chão lançando um olhar questionador para os gêmeos que não pareciam muito mais senhores de si do que ele.
"Passaram um pouco dos limites, crianças?" Indagou o nobre elfo sentando-se agora ao lado de Legolas. O príncipe ofereceu um sorriso tímido ao líder de Lorien colocando as pernas para fora do sofá e tentando sentar-se de uma forma mais civilizada naquele confortável lugar. Mas ele também havia apreciado um pouco mais do saboroso vinho oferecido do que mandava sua precaução.
"É o final da noite." Disse Elrohir arrastando-se para perto do avô e apoiando a cabeça em seu colo. "Até as estrelas já foram dormir, grande ada."
O lorde elfo permitiu-se sorrir deslizando os dedos pelos negros cabelos desfeitos do mais novo dos gêmeos. Elrohir decerto era aquele que tinha ido mais longe na doce e púrpura maré dos prazeres da bebida. Celeborn poucas vezes ouvira o jovem guerreiro dirigir-se a ele com tal tratamento. Elrond balançou levemente a cabeça olhando para Elladan agora.
"Não me olhe assim, ada!" Defendeu-se o mais velho tentando disfarçar a oscilação presente também em sua voz. "Eu não tenho nada a ver com isso."
"Claro que tem." Retrucou o mais novo ainda nos braços do líder de Lorien, que se divertia um pouco em sentir-se apenas um simples elfo com sua família. "Foi idéia dele embebedar o Legolas..."
"É mentira ada." Defendeu-se Elladan olhando para o pai que lhe franzia as sobrancelhas surpreso e depois para Legolas cujo queixo caíra ao ouvir a declaração. "Não me olhem assim..." Continuou o elfo erguendo ambas as mãos em sua defesa, mas não conseguindo conter o riso. "Vocês sabem que Elrohir não é confiável..."
"Vocês não viram nada." Riu o mais novo abraçando as pernas do avó e ajeitando melhor a cabeça em seu colo. "Nós teríamos conseguido se o Legolas não fosse quem é... esses elfos da floresta parecem ter nascido bebendo o mais forte dos néctares!"
"Isso não é verdade!" Retrucou o príncipe ainda inconformado com a recente descoberta. Ele de fato sentia-se ligeiramente atordoado pela bebida.
"O que não é verdade?" Indagou Elrohir erguendo agora a cabeça com dificuldade e tentando focar seus olhos no amigo ao lado do avó. A imagem do louro príncipe se multiplicava a sua frente de uma forma mágica. "Que vocês bebem desde que vieram a esse mundo, ou que vocês estão realmente bêbados?"
Legolas riu franzindo as sobrancelhas graciosamente e inclinando o rosto. Ele queria responder, mas o tom de Elrohir e suas palavras quase incompreensíveis simplesmente não o ajudavam a manter a seriedade.
"Nem a primeira, nem a que a segue..." Respondeu o elfo encostando-se agora no sofá e fechando os olhos. Ele não iria admitir o quão perto os gêmeos haviam chegado de seus objetivos.
Celeborn sorriu afastando carinhosamente o neto de si. Elrohir obedeceu deitando-se então no colo do irmão, que o recebeu abanando levemente a cabeça com indignação, mas sorrindo depois, apoiando ambas as mãos no rosto do mais novo. Elrond deu a volta no grupo agachando-se perto de Estel e segurando o rapaz pelos ombros.
"O que foi, ada.?" Indagou o jovem com um meio riso.
"Nada." Respondeu o pai forçando o guardião a apoiar-se em seu peito e enlaçando o corpo do filho nos braços. Estel admitiu o abraço com satisfação e se deixou ficar ali por alguns instantes. Foi quando uma sensação estranha o dominou e ele se voltou para onde Legolas e Celeborn estavam. O lorde de Lorien havia se sentado mais próximo do príncipe agora e colocava seus dedos nas têmporas do rapaz.
"Ada..." Explodiu o guardião tentando se levantar, mas sendo impedido pelo pai.
"Está tudo bem." Garantiu o lorde segurando firme o filho e acenando para o preocupado Elladan.
Legolas abriu os olhos num sobressalto e encontrou a figura do poderoso elfo de Lorien há poucos centímetros dele. Os olhos acinzentados do elfo invadiram-no sem sobreaviso, sem atentarem para suas queixas e objeções.
"Não!" Disse o rapaz segurando os punhos de Celeborn agora. Mas o sábio elfo não cedeu, apoiando as palmas no rosto do menino e não permitindo que a conexão se desfizesse.
"Preciso entrar, criança." Disse o lorde elfo. "Permita-me e confie em mim."
"Por favor, senhor..." Implorou o rapaz segurando involuntariamente o ar dentro dos pulmões.
"Eu preciso, menino... Você vai entender..." Garantiu Celeborn com tristeza enquanto anestesiava todas as reações do rapaz agora. Legolas deixou os braços caírem por sobre o colo e desprendeu levemente os lábios, totalmente entregue às investidas do poderoso elfo. O líder de Lorien sentia-se dividido, não costumava prestar-se àquele papel, mas no momento era necessário e ele não podia perder a oportunidade que os netos lhe concederam de encontrar o filho de Thranduil excepcionalmente vulnerável pelo estado em que estava. "Eu preciso de uma informação que você não sabe que guarda."
E os olhos do grande líder da floresta dourada se transformaram em duas órbitas de gelo puro, enquanto um leve gemido escapou dos lábios do príncipe, totalmente preso agora.
"Ada, não permita..." Implorou Estel tentando se desfazer dos braços do pai.
"É importante, ion-nîn." Respondeu o lorde elfo forçando as palavras boca à fora como se não fossem suas. Ele também, apesar de reconhecer que Celeborn não faria tal investida se não fosse absolutamente necessário, lamentava ver os poucos momentos de descontração e alegria do jovem príncipe serem tão bruscamente interrompidos.
"Ele ainda não está bem..." lamentou-se o guardião fixando seus grandes olhos azuis no lorde de Lorien, a espera que ele ouvisse seu apelo. Mas nem Celeborn, nem Legolas ouviam o que se passava ao redor deles agora, estavam ambos muito além dali, Legolas revivendo um momento do passado que queria esquecer e Celeborn aceitando o amargo papel de expectador da tormentosa rememoração.
"Elrond!" Vibrou forte então o chamado do lorde de cabelos prateados.
O curador sobressaltou-se, gastando alguns momentos para tentar entender o porquê do apelo ouvido. O corpo de Legolas começava a tremer agora. Elrond por fim soltou-se do filho e sentou-se no sofá ao lado do príncipe, envolvendo-o em seus braços para ser então também tragado para o pesadelo que os outros dois elfos agora compartilhavam.
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"Vamos elfo tolo, diga e não sofrerá mais." Dizia uma encapuzada criatura que segurava os cabelos do príncipe. O corpo de Legolas estava coberto de sangue e o pobre elfo tremia encolhido e preso às grossas correntes que lhe prendiam os pulsos e tornozelos. "Quantos dos seus ainda vou ter que torturar e matar para que deixe essa sua devoção estúpida de lado e pense em si e nesses poucos amigos que ainda lhe restam?"
Legolas apertou os olhos e encolheu-se ainda mais, o que enfureceu seu agressor de forma evidente.
"Eu vou matar todos eles, principezinho estúpido." Ameaçou a criatura forçando novamente o rosto de Legolas a reerguer-se. "E aquele rei tolo que você ainda tem coragem de chamar de pai. Mandosvai ter seus halls cheios de criaturas inúteis como você."
Legolas abriu finalmente os olhos furioso. Seu corpo refletia uma cena de tortura e tormento, mas seu espírito ainda fazia-se forte e corajoso.
"Ah!" Deliciou-se o inimigo numa gargalhada abafada pelo manto que preservava sua face num enigma intrigante. "Vejo que duas mortes ainda não conseguiram quebrar esse espírito teimoso. Mas não se preocupe, bravo Legolas..." Disse então segurando o queixo do rapaz e apoiando uma das mãos por sobre uma queimadura viva que ardia no peito do arqueiro. "Nós temos muito tempo."
Incapaz de assimilar a dor que o surpreendera, o enfraquecido elfo se viu obrigado à entregar-se à escuridão uma vez mais, caindo imóvel e não atingindo o chão graças as correntes que o seguravam.
"Hum..." gemeu a criatura erguendo mais uma vez o rosto do desacordado elfo e alisando-lhe a face manchada de sangue. "Mesmo assim tão ferido ainda é muito belo. Peça rara de fato. Um grande desperdício."
"Deixe-o em paz." Surgiu uma outra voz na escuridão. "Já lhe disse que ele é meu. O mestre me presenteou."
"Ora, ora..." Ironizou o primeiro voltando-se para o outro ser que se aproximava igualmente vestido e escondido. "O mestre disse que podia ficar com seu brinquedo assim que ele tivesse falado. Mas parece que o filho de Thranduil herdou alguns dos defeitos do pai."
"Ele vai nos ser útil mesmo assim." Retorquiu o outro puxando o príncipe para seus braços e alisando-lhe os cabelos manchados de lodo e sangue. "E depois de tudo, vai ser meu."
"Mudaram-se os planos?" Indagou a primeira voz num tom surpreso.
"Sim." Respondeu a segunda. "Vamos deixar que fujam. Ele e os outros dois sobreviventes. Thranduil tem procurado por ele. Apesar de tê-lo exilado o tolo rei ainda tenta proteger sua cria à distância. É um fraco mesmo e essa fraqueza será sua ruína... o mestre já previu isso... e será fato... O primeiro dos três pólos em breve vai cair."
Duas gargalhadas musicais então soaram e a criatura que segurava o corpo de Legolas aproximou seus lábios do ouvido do rapaz.
"Vá, meu brinquedo." Ele disse puxando o capuz para que pudesse encostar seu rosto no do arqueiro e revelando finalmente alguns fios dos finos cabelos cor de terra. "Nosso mestre encontrou um papel mais útil para você... e para mim..."
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E regressaram então os lordes elfos. Elrond refocou seu olhar a tempo de segurar o corpo de Legolas que caia sobre ele completamente imóvel. Celeborn manteve suas mãos erguidas mesmo depois de libertar o rosto do rapaz.
"O que houve, ada?" Indagaram Elladan e Estel em uníssono.
Elrond lançou-lhes um olhar triste voltando então a observar o rapaz em seus braços. Legolas estava sem forças, esgotado pela torrente de emoções que havia varrido seu interior. Ele abriu os olhos para o mestre com um grande esforço.
"Não... não eram..." Tentou dizer. "não eram orcs..."
"Shh, está tudo bem ion-nîn.." Disse o curador tentando acalmar o arqueiro, cujo peito arfava de agonia agora. Ele também se sentia confuso com o que vira, mas ao alisar instintivamente os cabelos do príncipe para tentar perceber se o rapaz estava bem, não pôde deixar de conjeturar sobre o quão diversas eram as emoções que o jovem de Mirkwood despertava nas pessoas. Inimigos ou não ele parecia ter o dom de atrair uma estranha simpatia dos que o rodeavam, mas uma simpatia que parecia sempre querer mostrar-se de forma possessiva e autoritária.
Celeborn, por sua vez, lamentou a poderosa maré de dúvidas e dor que ele deslocara. Ele colocou uma mão no peito do rapaz, olhando o príncipe com afeto. Legolas, cujo esforço para se manter desperto parecia estar se tornando um grande suplício, retribuiu o olhar do nobre elfo oferecendo-lhe a garantia que o líder precisava, a de que o rapaz compreendera o que fizera e não guardava ressentimentos. Os cantos dos lábios do líder se ergueram num leve sorriso então e ele apoiou a mão por sobre os olhos do arqueiro, forçando-os gentilmente a se fecharam e conduzindo o rapaz para o sono mortal de que ele precisava no momento.
"Você os conhece, Elrond." Veio então a sentença do lorde de Lorien, e não era uma indagação. Elrond voltou-se para o amigo com pesar, acenando com a cabeça.
"Quem?" Indagou Aragorn impaciente.
"É uma longa e triste história." Lamentou-se o curador erguendo-se e trazendo Legolas nos braços. "A qual lhes contarei daqui a algumas horas, quando todos estiverem descansados e reunidos."
"Ada!"Indignou-se o caçula tentando se levantar.
"Deixe-o, Aragorn!" Disse Celeborn ajudando o guardião a colocar-se de pé e observando junto a ele o triste caminhar de Elrond que agora carregava o filho do rei de Lasgalen de volta para o quarto. O senhor da Floresta Dourado só pôde lamentar o término que dera a celebração que o bondoso Elrond organizara e que, definitivamente, não correspondera às expectativas do curador. "Ajude Elladan a levar Elrohir para a cama." Ele pediu colocando a mão por sobre o ombro do guardião. "E vamos dar tempo ao coração de todos para se acostumarem com as descobertas dessa noite, boas e más".
