Olá. Espero que todos estejam bem.

Tenho que começar tomando para mim um dos hábitos de Legolas. Pedindo desculpas. Eu me atrasei mais uma vez com o capítulo que era para ser semanal. Na verdade estava pronto, revisado e tudo mais. Só que agora, que a fic chega à uma hora derradeira eu começo a ficar com mais e mais receio. Tenho vários pontos ainda para salientar, vários traços da personalidade de certos personagens para mostrar e sempre acabo me deparando com o temor do capítulo acabar soando confuso ou longo demais. Foi o que aconteceu com esse.

Também peço que os grandes leitores do mestre Tolkien me perdoem se algumas ou muitas vezes eu fujo da veracidade dos fatos. Eu não li a obra completa do professor, o que me deixa em grande desvantagem quando quero me referir ao passado ou presente da estória que escrevo. Agradeço a paciência e as correções que vocês me enviam.

E por falar em agradecimentos...

Lady-Liebe – ainda sinto saudades da nossa escritora de short fics. Uma melhor que a outra. Leiam as fics da Liebe, quem ainda não leu.

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Misao, amiga, continuo aguardando. Por favor!!

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN". Está em um momento decisivo (pelo menos ao meu ver). Nossa Cabelos Negros mostrou-se uma mulher de força e decisão superando todas as minhas expectativas e indo além, tendo um povo e suas tradições por trás dela. Myri tem talento de sobra (vou pedir um pouco emprestado, quem sabe não escorrego nos fatos como tenho feito) e aqueles que ainda não leram a PAIXÃO podem começar a fazê-lo porque, já de antemão eu lhes comunico que (Myri... não fique zangada), a nossa talentosa escritora tem uma outra fic a caminho, mas que vocês terão mais dificuldades para apreciarem se não tiverem tido o prazer de ler essa maravilhosa fic que está sendo postada agora. Por isso mexam-se!! Parabéns, Myri e obrigada por corrigir os meus capítulos.

Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" ainda não foi atualizada. Quem não está acompanhando essa minha "fic de cabeceira" não tem perdão. Deixar de ler as doces palavras dessa escritora de talento que é a Nim chega a ser um sacrilégio. Deixem de lado tudo o que estiverem fazendo e venham ler as CRÔNICAS, aposto que não vão se arrepender. Quem lê as reviews que a Nim deixa para mim já tem uma idéia do quão habilidosa ela é com as palavras. Amiga. Obrigada.

Vick Weasley: "BITTERSWEET" foi atualizada, mas já está me matando de saudades de novo. Porém, pelo que andei lendo, parece que a nossa talentosa Vick anda favorecendo as fics de sua outra paixão. Entrem na página dela e verão. Mas, de qualquer forma, tudo o que a Vick escreve é sempre muito bom. Aproveitem. Vick!!! :-)

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". As coisas estão se complicando para o rebelde Legolas da Ju e sua amada. De volta a Mirkwood eles encontraram com um problema que não julgavam ter de enfrentar. Fantástica narrativa, super cativante. Muito bem, Ju!!!

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Continua me deixando na saudade. Mas eu não me canso de elogiar esse trabalho incrível da Lali e espero que ela volte a nos brindar com sua doce e corajosa personagem que roubou o coração de alguém, mas que, sem dúvida, o merece mais do que ninguém. Saudades Lali!!

Kika-Sama: "APRENDENDO". A Kika está judiando de nós. Kika cadê as atualizações? Ainda não voltou de férias? Estamos com saudades!! Beijos amiga.

Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Está sendo reescrita. Logo a Chell vai nos presentear com seu texto revisado e com a continuação que ela estava nos devendo. Vale a pena acompanhar. Amiga, obrigada por sua review, suas opiniões são sempre uma alegria na minha caixa de e-mails. Espero ansiosa pela sua nova fic.

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Capítulo 3 no ar. Leiam. É uma idéia muito bela. Vamos esperar para ver se o Legolas consegue corrigir os erros que cometeu. Bom trabalho, amiga.

Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". A Kiannah nos surpreendeu essa semana, mostrando-se a escritora de coragem que eu sempre julguei que fosse e assumindo finalmente o amor pela bela personagem que ela criou. Leiam essa linda fic e saberão do que estou falando. Obrigada, amiga. Você nos deu um belo presente.

E a grandes amigas:

Syn, the time keeper. Espero que esteja tudo bem com você.

Regina – Grata pelos seus comentários, amiga. Fico feliz em saber que finalmente sua fic vai sair da gaveta. Espero ansiosamente.

Botori – Doce amiga. Sempre, sempre presente, sem nunca falhar. Obrigada.

Leka – Que bom que você conseguiu entender a complicação que fiz no último capítulo. Obrigada pela review.

Aeka – Continua sumida. Onde está você, amiga?

Soi – Continuo amando suas reviews. É tão bom saber nos mínimos detalhes o que as pessoas que lêem sentem e pensam a respeito do que a gente escreve. Sou super grata por você gastar um pouco do seu tempo comigo. Beijos e obrigada.

Agora vamos dar uma espiada no que o nosso elfo louro vai aprontar dessa vez. Vocês bem sabem que ele não consegue ficar quieto, não é mesmo?

Capítulo 30

"Ele não pode sair de Imladris." Atestou Celeborn em um tom grave. "Deve ficar sob a sua proteção até que se descubra quem é o responsável que se esconde por trás dessas pobres criaturas iludidas."

"Pobres criaturas iludidas?" Repetiu Aragorn julgando ter ouvido mal.

"É..." Acompanhou Elrohir a indignação do caçula ainda com mais veemência. "Aqueles desgraçados torturaram dois elfos na frente de Legolas!! E lideraram um grupo para assassinarem o rei! Estas 'pobres criaturas iludidas' estão atentando contra a vida de membros de sua própria espécie!!"

Ao ouvir aquelas duras palavras, Legolas, que permanecera calado desde que entrara na sala de estudos para a reunião que Elrond e Celeborn convocaram, encolheu-se instintivamente, como se tentasse se esquivar da lembrança que Elrohir acidentalmente despertara. O gêmeo mais novo arrependeu-se de imediato, estendendo a mão para o amigo que se contorcia na poltrona.

"Perdoe-me, mellon-nîn." Desculpou-se o rapaz buscando o olhar do príncipe que no mesmo momento ergueu o rosto, revelando a tristeza de um semblante cansado.

Legolas limitou-se a receber a mão estendida, dando-lhe um leve aperto e sorrir um sorriso vazio, que não ajudou o filho de Elrond a sentir-se melhor.

Emoções diversas corriam por aquela sala, as palavras pareciam ter caído em um poço vazio e escuro e estarem sendo aprisionadas ali. Celeborn, que estava sentado confortavelmente em um pequeno divã ligeiramente afastado dos demais, olhou os presentes com pesar e finalmente se levantou, estendendo a mão para a jovem Arwen que o acompanhou até a sacada.

"Gostaria de ficar mais um pouco." Disse a moça em um tom baixo, sentindo todas as intenções do avô, enquanto ambos observavam o quanto o frio característico dos dias de outono estava comprometendo o pouco verde que restara na paisagem.

"O futuro é incerto," Respondeu o lorde de Lorien sem olhar para a neta. "Temos uma estranha batalha pela frente e quero que esteja ao lado de sua avó, vai haver necessidade de sua presença lá."

A moça soltou um suspiro triste olhando ligeiramente para Estel, que permanecera sentado ao lado do pai. O guardião deixou-se ficar por alguns momentos envolvido pelo brilho daquele olhar, receando que o tempo ainda fosse percorrer um longo e árduo caminho até que uma sensação daquelas fosse concedida a seu coração uma vez mais.

"Elrond e Glorfindel nos acompanham até Lothlorien." Completou Celeborn sem se voltar, mas libertando a mão da elfa a seu lado.

O curador franziu as sobrancelhas e olhou para o louro guerreiro que estava em pé encostado em uma das estantes. Assuntos graves sempre deixavam o amigo em estado de alerta e a mais árdua das tarefas era fazer o bravo Glorfindel sentar-se em uma reunião como aquela. Ambos não se moveram, trocando olhares indecifráveis e permitindo que aquele silêncio se fizesse o sim da concordância, mesmo não entendendo as intenções do lorde dos cabelos prateados.

"E quanto a nós?" Surgiu repentinamente a voz de Elladan, falando pela primeira vez. O gêmeo estava sentado ao lado do irmão e parecia subitamente preocupado com o fato do pai se ausentar novamente de sua terra.

"Você e seu irmão acompanham Aragorn e os dunedain às terras do norte. Precisamos saber o que se passa nas vilas da região e tentarmos descobrir se estas notícias sobre possíveis ameaças aos povos de lá realmente se efetivam. Estamos em um momento no qual qualquer informação é imprescindível".

A última sentença fez Legolas saltar em sua poltrona.

"E o que farei?" Indagou o príncipe olhando finalmente para o grupo. "Terei que ficar? A ninguém acompanharei?"

Celeborn olhou mais uma vez para a neta e depois voltou para dentro do cômodo, parando próximo ao grupo e enlaçando as mãos atrás das costas.

"Você tem que ficar, Thranduilion." Ele disse olhando o rapaz nos olhos. Legolas desviou o olhar incomodado ainda com os acontecimentos da véspera. "É uma peça muito importante desse estranho jogo para se arriscar a ser capturado ou abatido."

O príncipe baixou os olhos, entristecido. O ar de Celeborn e suas palavras o faziam se lembrar muito de seu pai. Ele amargou então o mesmo sentimento cruel que amargava quando discutia com o rei, sentindo-se incapaz, uma criança que precisa de proteção e cuidados. Porém, no fundo de seu coração, o jovem sabia bem que questionamentos ou queixas não fariam com que a situação tomasse rumos diferentes dos traçados pelo lorde da Floresta Dourada, por isso baixou os olhos e resignou-se ao silêncio uma vez mais.

Mas Celeborn, com toda a sua experiência, sabia que a incompreensão dos fatos em sua totalidade, quando não bem controlada ou conduzida, pode levar qualquer um a trilhar um atalho de conclusões totalmente diferente do seguro caminho da verdade.

"Assuntos de guerra não são sempre agradáveis, capitão." Disse o lorde lendo mais uma vez as emoções que emergiam dentro do rapaz. "Nem sempre o destino se faz claro como o dia aos nossos olhos." Completou agachando-se em frente ao menino e despertando um ar de surpresa nos presentes. "Na guerra os elfos transformam-se de simples criaturas a peças de um perigoso jogo de infortúnios."

A dureza daquelas sentenças despertou, de uma forma inesperada, um sentimento que Legolas não sentia há muito tempo e que ele se lembrava ter vivenciado apenas com os elfos de sua patrulha, aqueles por quem era chamado de capitão. E a gravidade dos fatos finalmente o atingiu diretamente no peito, fazendo seu coração doer de preocupação e impotência.

"Eu farei o que me for pedido, senhor." Respondeu o rapaz para a satisfação do elfo que o observava atentamente agora.

"Essa é uma promessa que espero ver cumprida, meu bom guerreiro." Completou Celeborn apoiando uma mão por sobre o joelho do rapaz e voltando a se levantar. Algo dentro dele saltava em rodamoinhos de angústia e dor quando ele olhava para o filho de Thranduil, mas ainda não estava bem claro que mensagens essas sensações queriam lhe transmitir. "Ainda nos reuniremos em breve..." Profetizou então o lorde com seus olhos claros voltados para uma imagem que só ele parecia ver. "Não nesse lugar... e, infelizmente, não nessas circunstâncias...".

&&&

E o destino assim se cumpriu. Elrond e Glorfindel acompanharam a comissão de elfos de Lothlorien de volta a Caras Galadhon e os gêmeos e Aragorn cumpriram os objetivos traçados por Celeborn, mas poucas informações conseguiram obter daquele povo sofrido, que se escondia nas casas e cavernas das regiões abaladas pela guerra e pela fome.

Muitos dias se passaram e tanto o primeiro quanto o segundo grupo trilharam árduos caminhos de escassas descobertas e incertezas. Elrond agora suspirava em seu cavalo acenando mais uma vez para Arwen e lamentando afastar-se da filha como sempre fora fadado a fazer. Ele regressava a Imladris amargando as cenas dos diversos encontros que tivera com os senhores da Floresta Dourada e das promessas que tivera que fazer a eles. A seu lado o fiel amigo Glorfindel cavalgava calado, deslizando os dedos pela crina do animal que montava enquanto tentava juntar as peças de um futuro complicado que se mostrava à frente deles.

"Se Celeborn estiver certo." Disse o elfo depois de um longo silêncio, quando ele e o amigo se despediam do grupo de Lothlorien que os havia escoltado e se encontravam agora com os batedores de Rivendell. "As trevas realmente decidiram tentar nos abraçar de uma forma pouco peculiar dessa vez."

Elrond não respondeu. Seus olhos estavam distantes, ansiando por chegar em casa e verificar se tudo estava como ele havia deixado. Ficar longe dos filhos se tornava cada vez mais um sofrimento sem descrições. Ele sentia seu coração apertado, revivendo imagens que vira e que pertenciam a um futuro ao qual temia demais. Sua mente estava tão perdida que ele mal percebeu quando finalmente o grupo cruzou os portões de Imladris.

"É bom estar de volta!" Exclamou Glorfindel saltando de seu cavalo e olhando tudo ao redor com prazer. Aquela terra era o único lugar onde o elfo sentia-se em casa, sentia-se seguro e do qual jamais sairia se lhe fosse dada tal opção. Elrond desmontou não com o mesmo entusiasmo, mas repetiu o gesto do amigo, enchendo os pulmões com o ar fresco da terra que criara.

"Mae govannen." Saudou uma voz da escadaria principal.

Elrond voltou-se e sorriu para o amigo Erestor que o esperava com um ar de boas vindas expresso na face.

"Como foi a viagem, mellon-nîn?" Indagou o conselheiro descendo pacientemente os degraus em seu robe preto.

"Sem grandes eventos." Respondeu distraidamente o lorde de Imladris ainda percorrendo todos os cantos da cidade com olhos atentos. "E aqui? Alguma novidade?"

"Não." Respondeu simplesmente Erestor observando enquanto Glorfindel subia as escadarias e se atirava em um dos sofás almofadados. "Foi uma viagem cansativa?" Ele perguntou ironicamente ao amigo que se esticava no pequeno divã. Glorfindel lançou um sorriso cínico e não respondeu, fechando apenas os olhos e mantendo os lábios curvados naquela sensação de prazer que parecia congelada no tempo.

"Meus filhos?" Indagou Elrond desistindo de tentar encontrar algum dos rostos que procurava.

"Os gêmeos e Estel ainda não regressaram. Mas mandaram notícias. Parece que estarão aqui nos próximos dias." Respondeu Erestor apoiando uma mão por sobre o ombro do amigo e o conduzindo amavelmente para dentro de casa. "Parece cansado, mellon-nîn." Ele disse enquanto subiam os degraus. "Vá banhar-se que pedirei que lhe sirvam algo em seus aposentos."

Foi então que Elrond finalmente parou onde estava. Seus passos se estagnaram comandados por uma estranha sensação que lhe invadira sem que ele soubesse de onde.

"Onde está Legolas?" Ele indagou finalmente.

O amigo perdeu levemente a cor, mas logo se recompôs. O silêncio entrecortado por um leve suspiro foi tudo o que aqueles lábios produziram. Glorfindel, sentindo algo estranho no ar, também se levantou aproximando-se da dupla imediatamente.

"Por Iluvatar, Erestor." Ele disse num rompante. "O que aconteceu agora com esse menino a quem a sorte parece ter esquecido?"

"Glorfindel!" Reprimiu Elrond indignado com a sinceridade inapropriada do guerreiro.

"Peço desculpas, mellon-nîn." Disse o elfo em um sincero arrependimento.

"Não aconteceu nada." Atestou Erestor ignorando o pequeno desentendimento dos dois amigos. "Ele apenas..."

E a frase se perdeu mais uma vez, deixando Elrond mais intrigado do que gostaria de estar.

"Erestor, onde está Legolas?" Indagou em um tom compassado que retratava seu estado de espírito no momento.

"Está na estrebaria." Declarou o conselheiro dando as costas aos dois amigos agora. Por algum motivo Elrond sentia que havia algo mais naquela história. Algo que o prudente Erestor parecia tão sabiamente estar escondendo. Mas Elrond não esperou por respostas. Ele apenas se dirigiu novamente para a escadaria e desceu alguns degraus antes de ouvir a voz do amigo clamar por sua atenção mais uma vez. Elrond voltou-se cravando seus olhos cor de chumbo nos do silencioso elfo que o aguardava.

"O que quer me dizer, Erestor?" Ele indagou em um tom impaciente. "Eu pedi a você que olhasse por ele. Por favor, não me diga que não pôde cumprir o que me prometeu."

Erestor franziu a testa, ligeiramente ofendido.

"Você conhece bem o irrequieto animal disfarçado de gato manso que destinou aos meus cuidados." Ele disse em um tom descontente e insatisfeito. "Ele sem dúvida é um elfo da floresta. Livre e capaz de atirar-se em qualquer idéia que julgue sensata."

As sobrancelhas de Elrond se arcaram e ele subiu novamente os degraus aproximando-se do conselheiro mais uma vez. Todas as indagações que tinha em mente estavam expressas em seu olhar agora, implorando para serem respondidas.

Erestor respirou fundo, vendo-se então cercado por Elrond e Glorfindel.

"O que a criança de Thranduil fez agora?" Indagou o louro lorde de Imladris saboreando as inúmeras conjecturas que tinha em mente.

Aquelas palavras não agradaram a Elrond que as engoliu com dificuldades, entendendo bem o porquê do amigo sempre insistir em lembrá-lo filho de quem Legolas era. Glorfindel, apesar de sentir carinho pelo rapaz, não deixara nunca de pensar que Legolas era um problema muito grande que o curador havia trazido para Rivendell.

"Ele está na estrebaria..." repetiu o conselheiro enfrentando o olhar impaciente dos amigos que aguardavam mais do que uma informação da qual já tinham conhecimento. "Está trabalhando com os empregados."

"Como assim?" Indagaram os outros dois lordes no mesmo instante.

"Trabalhando..." repetiu desnecessariamente o conselheiro, como quem busca palavras em um vocabulário que desconhece. "Cuidando dos cavalos, dando-lhes banhos, cuidado de suas feridas..."

"Eu sei o que se faz em uma estrebaria, Erestor." Indignou-se Glorfindel, cuja paciência não conhecia limites muito vastos. "O que, por Mandos, o menino está fazendo entre os empregados sendo ele quem é? Quem permitiu isso?"

"Foi escolha dele." Respondeu o outro um tanto quanto alterado. Estava vivenciando o sentimento que julgava que fosse assolá-lo e que temia mais do que qualquer coisa. Sentia-se culpado por algo, mesmo sabendo que fizera de tudo para impedi-lo. "Ele simplesmente foi e não aceitou meus protestos."

"Mas e o mestre dos cavalos?" Indagou Elrond finalmente encontrando as palavras que pareciam ter-lhe escapado por um labirinto cruel. "Como permitiu?"

"Ele não sabe quem o rapaz é." Informou Erestor tentando dar a estranha informação um ar simples, como se tratasse-se de uma das questões mais óbvias que pudessem ser transmitidas."

"Claro!" Enfezou-se o grande guerreiro louro. "E eu posso me parecer com uma criatura das trevas, quem sabe? Nem me atreverei a entrar na estrebaria por medo de ser abatido, haja vista que o mestre dos cavaleiros e cavalos que lá trabalha, não consegue mais reconhecer a realeza nem quando esta se encontra a dois passos dele."

Elrond levou as mãos à testa esfregando-a avidamente. Certas vezes ele se lamentava pelos amigos que tinha, cujos diálogos eram tão complexos que pareciam sempre lhe exigir mais energia do que a necessária para compreendê-los.

"O pobre elfo não o reconheceu porque o príncipe não permitiu ser reconhecido." Disse Erestor com indignação, enfrentando o olhar de incompreensão dos outros dois lordes. "Não sei o porquê da admiração." Ironizou levemente o elfo, em um tom que não lhe era peculiar. "Pelo que ouvi o rapaz é um mestre nos disfarces e se não me falha a memória, enganou os próprios filhos de Elrond durante um bom tempo."

O curador ergueu novamente o olhar e encarou o amigo, aborrecido. Os ânimos pareciam estar realmente alterados e ele não julgou conveniente acrescentar mais sal a uma mistura que já demonstrava estar com um tempero forte o suficiente. Apenas balançou a cabeça e dirigiu-se mais uma vez para o local, seguido agora pelos dois amigos. Erestor e Glorfindel acompanhavam seu líder ainda trocando algumas breves palavras em tom de ironia, o que fez com que Elrond voltasse a esfregar as têmporas. Toda aquela situação o estava exaurindo, tomando dele a agradável sensação de estar em casa que o invadira quando chegara.

Chegaram finalmente à estrebaria, para onde seus animais também haviam sido trazidos e estavam agora sendo tratados. Quando Elrond e os dois amigos entraram o mestre dos cavalos veio saudá-los.

"Mae govannen, meu senhor." Disse o bom elfo curvando-se levemente e escondendo as mãos sujas atrás das costas.

Elrond olhou para ele com simpatia. Eram amigos de longa data, mas há muito tempo não conversavam. Em tempos de paz Elrond costumava vir à estrebaria e ficar horas escovando os cavalos ao lado do fiel servidor. Ele também amava os animais e cuidar e conversar com eles era um doce passatempo. Mas os momentos difíceis o obrigaram a deixar certos hábitos e certos amigos para trás.

"Mae govannen, Elrochian, mellon-nîn." Cumprimentou o lorde com simpatia pousando uma mão no ombro do amigo, enquanto olhava os três elfos que estavam na estrebaria sem encontrar o príncipe. Os três jovens, cada qual ocupado com sua tarefa, estavam igualmente vestidos e penteados, usando aventais de um laranja avermelhado e tranças de serviçais nos cabelos. Um deles a poucos metros de Elrond esfregava o belo cavalo branco de Glorfindel, tentando remover as marcas da terra vermelha pela qual haviam passado na véspera. O outro, um pouco mais adiante, já havia terminado de banhar o cavalo do curador e agora escovava docemente o animal, enquanto o terceiro elfo, bem próximo do segundo, verificava as patas do cavalo do capitão da guarda, aplicando com delicadeza algumas ervas em um pequeno ferimento que encontrara. Elrond olhou para os três repetidas vezes, percorrendo os sinais das faces, as tranças dos cabelos, os movimentos dos membros, mas terminou duvidando definitivamente do que seus olhos viam e voltando-se derrotado para Erestor a espera de um sinal. O amigo, entretanto, fingiu incompreensão, tentando disfarçar o brilho desafiador que tinha em seu olhar. Ele mal podia conter a satisfação que sentia em perceber que, sem sua ajuda, o amigo curador não reconheceria o príncipe de Mirkwood.

E era fato, os três rapazes eram idênticos para qualquer um que os visse. Jovens de rostos angelicais e mãos hábeis que deslizavam suas escovas pelos pêlos brilhantes dos animais, cantando suaves canções para acalmarem as doces criaturas a quem o merecido descanso, após a longa jornada, estava sendo oferecido.

Elrond voltou mais uma vez o olhar para os dois companheiros que agora não conseguiam conter o riso. Elrochian, por usa vez, olhava os lordes elfos confuso, não costumava receber visitas tão ilustres em sua estrebaria há tempos. Elrond olhou os rapazes uma vez mais, todos tinham cabelos negros como a noite da lua morta e nenhum se parecia de fato com Legolas. Estaria o príncipe realmente entre eles ou o amigo Erestor decidira pregar-lhe uma peça?

"Elrochian, mellon-nîn." Ele chamou deslizando uma última vez o olhar pelas três figuras idênticas.

"Sim, meu senhor." Respondeu o elfo ainda tentando compreender.

"Estou procurando um de seus empregados."

"Qual deles, meu sábio líder?"

"Um que há pouco tempo está lhe prestando serviços."

"Ah." O rosto do chefe da estrebaria se iluminou em um belo sorriso, enquanto se voltava para o segundo elfo, que escovava justamente o animal de Elrond. "Aquele ali, meu senhor?" Ele indagou apontando para o rapaz que realizava distraidamente seu trabalho sem ter se apercebido da presença ilustre que agora o observava. "Bom rapaz. Muito eficiente. Os animais o adoram. Sou-lhe grato por tê-lo me mandado."

Elrond respirou fundo e acenou levemente com a cabeça, mantendo seus olhos no jovem cujo perfil ainda não retratava quem realmente era. Legolas era um exímio fingidor de fato, um mestre nos disfarces, como o amigo Erestor tão bem descrevera, embora essa não fosse uma qualidade realmente positiva. O curador balançou a cabeça, inconformado, sem voltar a encarar os amigos, enquanto tentava assimilar a recém descoberta cuja veracidade era surpreendente. Legolas parecia um servo. Sua altivez de príncipe, seus ares de nobreza estavam mais uma vez desaparecidos atrás daquele manto de simplicidade.

"Como se chama o rapaz, Elrochian?" Ele perguntou mantendo seus olhos ainda fixos na figura que agora acariciava a crina do animal, falando-lhe qualquer coisa que o curador não conseguia compreender.

"Nunca lhe perguntei o nome, senhor." Lamentou-se o elfo julgando ter cometido algum erro grave. "Perdoe-me."

"Não é necessário desculpar-se, meu bom e fiel mestre." Respondeu Elrond com carinho dando agora alguns passos na direção ao jovem em questão. "Mas vou precisar levá-lo agora, lamento."

"Como quiser, lorde Elrond." Concordou o elfo baixando a cabeça e colocando novamente a mão por sobre o peito ao perceber que seu líder se afastava agora.

Elrond fez um leve sinal aos amigos que entenderam bem o recado e ficaram onde estavam, a espera do que viria a acontecer. O curador caminhou cautelosamente para não ser ouvido até estar a poucos passos do rapaz, depois parou por alguns instantes, tentando ouvir o que o menino dizia ao seu amigo eqüino.

"Pronto, mellon-nîn." Assegurou o jovem ainda acariciando a crina do animal que parecia deliciar-se com o toque amável da voz e das mãos daquele elfo em particular. "Está belo de novo e já pode servir a seu mestre uma vez mais." Ele riu então quando o cavalo virou bruscamente a cabeça e encostou o focinho em seu rosto. "Certo, certo..." Disse o menino esfregando-lhe a face esquerda agora. "Somos felizes, não somos?" Ele indagou como se a pergunta fosse para si mesmo, ou talvez não fosse uma pergunta. "Temos um bom mestre que nos quer bem." O cavalo subitamente pareceu entusiasmar-se com as palavras de seu benfeitor e agitou-se ainda mais. O jovem riu não compreendendo o porquê da alegria repentina expressa pelo amigo eqüino, foi quando se voltou e entendeu finalmente que aquela alegria era, na verdade, uma saudação do cavalo que sentira a aproximação de seu mestre.

Elrond quis sorrir ao ver o constrangimento que tomou conta da bela face de Legolas, mas sua dor foi maior do que seu prazer por rever o príncipe depois de sua longa ausência. Era estranho vê-lo com roupas de serviçais, mas mais estranho do que tudo era não lhe reconhecer o rosto emoldurado por cabelos escuros que não eram dele. Cabelos iguais aos de seus filhos.

"Me... mestre..." Disse o arqueiro baixando imediatamente os olhos.

O curador manteve a seriedade e não fez qualquer menção de se aproximar mais ou dizer uma palavra sequer. Ele apenas afastou o corpo, abrindo passagem para o jovem, para depois, com um gesto, indicar que queria que ele o acompanhasse para fora da estrebaria. Legolas obedeceu em silêncio, passando por Elrochian com um leve aceno de cabeça, que foi correspondido e finalmente por Erestor e Glorfindel, a quem não se atreveu a olhar.

Andaram por todo o caminho de volta no mais completo silêncio. Elrond abriu a porta da grande casa e esperou que Legolas passasse. O rapaz obedeceu. Em seguida o curador olhou mais uma vez para os dois amigos que acabaram decidindo ficar por ali, sentando-se no sofá da varanda. Elrond então caminhou pela grande sala puxando o príncipe pelo cotovelo agora, até que finalmente os dois alcançaram a sala de estudos e o curador entrou, depois de Legolas, fechando a porta atrás dele e girando a chave como sempre fazia quando esperava não ser interrompido.

"Pode deixar destrancada, mestre? Por favor?" Indagou o jovem receosamente. Ele mal podia esconder o pavor que sentia de lugares trancados.

Elrond aceitou o pedido, girando novamente a chave no sentido contrário. Em seguida aproximou-se do elfo e segurou-lhe uma das tranças. O arqueiro baixou os olhos envergonhado, enquanto o mestre desfazia lentamente as duas tranças do rapaz, libertando seus cabelos que tinham perdido o brilho mágico que possuíam.

"Se o vir novamente usando essas tranças, Legolas." Disse o lorde elfo num tom amargo que fez o rapaz tremer apertando os olhos. "Vou me esquecer que de fato não é meu filho e dar-lhe uma boa lição."

Legolas ergueu os olhos, surpreso com a ameaça ouvida e encontrou o olhar amável de Elrond que agora lhe oferecia um pequeno sorriso. O arqueiro sentiu-se confuso. Elrond não estava zangado?

"Perdoe-me, senhor. Eu só queria fazer algo útil."

"Legolas... porque suas sentenças direcionadas a mim começam sempre com um pedido de perdão?" Indagou o mestre segurando ambos os ombros do rapaz e fazendo-o enrubescer muito.

"Talvez porque eu não consiga fazer nada da forma correta..." Assumiu o jovem elfo com tristeza.

"Talvez..." Concordou o mestre deixando seu sorriso morrer nos lábios enquanto erguia o rosto do rapaz para que olhasse para ele. "O que colocou em seus cabelos para mudá-los de cor?" Indagou olhando novamente para os cabelos desalinhados do elfo. "Andou folheando leituras proibidas novamente?"

"Não, meu mestre".Apressou-se em defender-se o arqueiro. "É uma fórmula que usamos em Mirkwood quando precisamos nos disfarçar em terras estranhas..."

"E quando vou reencontrar o jovem príncipe de Mirkwood novamente?" Indagou o elfo com pesar, seus olhos fixos nos de Legolas.

O rapaz esquivou-se das mãos do curador e lhe deu as costas. Elrond franziu a testa, mas não se aproximou mais. Assim de costas para ele o rapaz parecia um total estranho, nem um reflexo do príncipe se fazia presente na pequena sala onde estavam. Elrond não pôde deixar de se lembrar de um momento muito semelhante que ocorreu em um passado não tão distante no tempo, naquele mesmo lugar.

"Pelo menos seu disfarce não foi para nos enganar dessa vez." Ele disse com seriedade.

"Nem o foi da última vez, senhor." Informou o elfo sem se voltar. "Não tinha a intenção de reencontrá-los um dia."

Elrond engoliu a saliva contrariado. A estafa da viagem o estava impedindo de deixar de levar em consideração aquelas palavras. "Mas veio para Imladris." Disse por fim em um tom estranho que fez com que Legolas voltasse a olhar para ele. "Não parecia saber muito bem que rumo tomar... Algo que não parece ter mudado muito ainda."

O príncipe respirou fundo. "Busco algo que perdi." Ele disse então. "Mas não sei onde encontrar."

"Não está se buscando, rapaz." Corrigiu o elfo apertando as mãos umas nas outras. "Está fugindo de si mesmo. E esse é um caminho perigoso, pois, ao fazê-lo, pode se perder e nunca mais se encontrar."

Legolas baixou os olhos em silêncio. Perder... Perder-se... Esse era um verbo que parecia fazer parte de sua vida em todas as conjugações possíveis. Elrond esvaziou os pulmões com tristeza. Sabia que sua indisposição e cansaço acabariam sendo um empecilho muito grande naquela conversa que estavam tendo. Ele realmente não se sentia disposto o bastante para aquele conflito que estava se armando a sua volta.

"Por que não vai se banhar?" Sugeriu tentando desviar o curso do rio bravo que os ameaçava. Na verdade buscava adiar a resolução de um problema que, se os bons ares ajudasse, poderia por ventura solucionar-se por si só com o tempo. "Gostaria de vê-lo inteiro novamente para me acompanhar no jantar."

Mas surgiu então a voz amargurada do príncipe, oferecendo uma alternativa que o mestre não esperava.

"Por favor, mestre..." Ele disse em um tom quase inaudível, os olhos baixos agora trilhavam os encaixes da madeira do assoalho, tentando afastar-se do poderoso olhar que Elrond lhe lançava "Eu quero ser quem sou agora. Quero cuidar dos cavalos e servi-lo, não quero mais ser quem era, não quero..."

O rosto do líder de Imladris se contorceu de dor e suas sobrancelhas formaram seu profundo v. "Não acredito no que estou ouvindo".Ele disse ainda olhando Legolas fixamente, embora seu olhar não fosse retribuído. "Legolas..."

"Por favor." Disse aquele par de olhos azuis que ganhavam um brilho esmeralda agora, envoltos pela cascata de cabelos negros desalinhados que caiam rebeldemente por sobre eles.

Elrond balançava a cabeça atônito, enquanto se aproximava novamente do rapaz e voltava a segurá-lo pelos ombros. "Não pode estar falando sério." Ele repetiu.

"Eu preciso, senhor. O senhor me fala em sentir-se completo... mas não posso... não posso se não cumprir o papel que meu pai me designou a realizar."

Um suspirou de cansaço foi a resposta de Elrond, que já não conseguia mais se deparar sempre com o mesmo problema. Por mais que quisesse ele não podia deixar de nutrir um sentimento de revolta muito grande pelo rei de Mirkwood que, mesmo distante, ainda torturava o filho com seus preceitos e ideais.

"Legolas," Ele disse esfregando mais uma vez as têmporas que já estavam avermelhadas pelos maus tratos do curador. Ele precisava encontrar um caminho. Um caminho rápido. "Por quê..."

"Senhor..."

"Por que, Legolas? Por que faz isso comigo? Por que trai minha confiança?" Indagou o elfo baixando agora os olhos e cobrindo-os com uma das mãos."

"Como assim, senhor?" Assustou-se o rapaz procurando ele agora o olhar do curador. "O que fiz para trair-lhe a confiança, meu mestre?"

Elrond soltou um novo suspiro. Ele sabia que faria o menino sofrer com as palavras que intentava proferir, mas não havia escolha. Afastou-se do arqueiro em direção da mesa principal para servir-se de uma taça de vinho. Ele precisava beber algo com urgência, sentir um doce sabor que lhe tirasse aquele amargo da derrota, que mais uma vez esbofeteava-lhe as faces. Que luta cruel enfrentava. Quanto tempo mais agüentaria? Legolas seguiu-o de perto, com um olhar triste e arrependido, apesar de não entender o que o mestre tinha insinuado.

"Mestre... por favor..." implorou o rapaz. "Eu não tenho a intenção... O que fiz para trair-lhe a confiança?"

O curador respirou fundo, sentia a cabeça girar em um mar de dúvidas e apreensões, enquanto enchia dois copos com o vinho vermelho de Imladris. "Respondeu a pergunta..." Ele disse enfim, tocando novamente em uma ferida que sabia estar aberta. "Respondeu-a mais de uma vez..." Ele reforçou apoiando o copo cheio na mesa, mas sentindo-se sem forças para erguê-lo agora. "Mas nunca acreditou..."

Legolas prendeu o ar dentro dos pulmões involuntariamente enquanto sentia a rosto enrubescer por completo. Ele então compreendera do que o mestre estava falando. E era a mais pura verdade. Ele de fato negava a sua própria identidade após ter prometido várias vezes não fazê-lo. Era realmente um grande ato de covardia.

"Perdoe-me, meu senhor..." Ele lamentou baixando os olhos e esfregando o rosto com ambas as mãos.

Elrond sentiu subitamente o sangue subir-lhe, fervendo como um vulcão que quer explodir sem permissão. "Perdão? Novamente Legolas? Quantos mais?" Disse então se voltando subitamente para o rapaz. Seus olhos enegreciam-se de pesar e mágoa. "Quantos outros?"

"Senhor..." Tentou explicar-se o rapaz ainda com o rosto escondido atrás das palmas abertas, mas Elrond não parecia disposto a ouvir mais nenhum pedido de desculpas.

"Por que, Legolas?" Ele interrompeu, insistindo na questão que formulara.

"Eu queria..." O rapaz olhou finalmente para o mestre, mas mordeu os lábios, sem coragem para continuar. Seus olhos estavam úmidos. "Queria não ser tão... diferente..." Ele finalmente assumiu segurando uma mecha dos cabelos. "Ser igual a qualquer elfo de Rivendell..."

Elrond soltou um longo suspiro e apoiou as mãos na mesa atrás dele, colocando o peso do corpo naquele apoio seguro e baixando um pouco a cabeça. Ele estava exausto. Muito do que acontecera nos últimos dias haviam tragado suas energias.

"Meu amigo Glorfindel têm os cabelos abençoados como um dia de sol também... assim como os seus..." Alegou o curador, tentando mostrar ao rapaz a insensatez de suas palavras. "Essa não é uma boa desculpa, Legolas."

"Mestre Glorfindel..." Repetiu Legolas rindo um riso triste enquanto seu olhar perdia-se em algum lugar muito distante. "O guerreiro que regressou dos braços de Mandos?"

"Glorfindel é um bom guerreiro, Legolas. Mas ele não é diferente de nenhum de nós."

"O senhor acha que posso ser comparado ao mais valoroso guerreiro élfico da Terra Media?" Questionou o arqueiro sentindo de repente um desespero vir tomar-lhe a alma. Queria ser compreendido, mas sentia como se estivesse falando uma língua desconexa que seu mestre não entendia.

"Legolas... Por Iluvatar! Quando vai deixar de julgar-se uma aberração e ver-se como realmente é? Em minhas concepções de valor e honra não há diferenças entre você e qualquer elfo a quem prezo, entre eles Glorfindel."

Legolas balançava a cabeça com mais força agora enquanto caminhava pela pequena sala, sendo seguido pelo olhar preocupado de Elrond.

"Como pode?" Ele indagava em seu trajeto circular, a respiração ofegante. "Como pode saber quem sou de fato se nem eu mesmo sei?" Ele perguntou parando perto da porta e voltando a encarar o curador. "Eu não aceito tal comparação. Mestre Glorfindel é alguém que merece a atenção e o respeito de todos. Mas eu... quem sou eu para tal?"

"Essa foi a pergunta que lhe fiz..." Respondeu Elrond sentindo as rédeas da situação escapar de suas mãos. Há tempos não se sentia tão fora de si. "Pergunta esta a qual julgava que você já soubesse a resposta. Mas pelo que vejo você agiu como um elfinho que decora as lições de seu mestre, mas jamais as aprende."

Elrond mal terminara a sentença que dissera e já se sentia profundamente arrependido. O olhar que Legolas lançou-lhe nunca fora tão doloroso e triste. O arqueiro apertou os punhos como se o ato pudesse impedir as lágrimas que se formaram em seus olhos de caírem.

"Diga agora..." Disse o jovem elfo com um olhar estranho.

"Dizer o quê, criança?" Indagou o curador alterando seu tom de voz enquanto tentava buscar o caminho de volta no estranho labirinto o qual penetrara.

"Diga que sou um perdido..." Disse Legolas num tom de revolta e tristeza, a palavra 'perder' invadindo novamente seu vocabulário e sua vida enquanto seu tom de voz subia contra sua vontade. "Diga que não sei quem sou... Que sou uma farsa... Que não mereço o título que tenho... que não mereço ser filho de quem sou... Diga, senhor... diga para mim o quanto eu lhe faço mal..."

Elrond pendeu um pouco a cabeça buscando compreensão. Aquelas palavras não faziam sentido. Foi quando ele percebeu, pelo olhar do rapaz, que havia um problema maior por trás daquelas duras sentenças, que na verdade não pareciam realmente direcionadas para ele. "Legolas..." Ele disse aproximando-se do menino que se esquivava agora, dando passos desnorteados pelo lugar. "Legolas pare..."

"Diga!"

"Não direi!" Irritou-se Elrond como nunca se irritara antes. "Não farei minhas as palavras inconseqüentes de seu pai!"

Legolas perdeu então o controle, desviando-se mais uma vez de Elrond. A menção de Thranduil roubara o pouco de paz que lhe restara.

"Meu pai não diz inconseqüências!" Bradou o rapaz para a surpresa do curador a sua frente. "O senhor é quem me engana..." Ele acrescentou com veemência, balançando a cabeça, olhos voltados para o chão. "Não há diferença entre Rivendell e Mirkwood. Não há diferenças entre seus dirigentes e elfos." Ele parou alguns instantes, peito arfando, olhos apertados de dor. "Não me iluda mais!" Continuou baixando o tom com tristeza. A verdade batendo bruscamente a sua porta. "Não há diferenças... Está tudo certo... Tudo em seu lugar... Menos eu... Eu sou o problema!"

"Legolas!" Exacerbou-se o curador com as insinuações que o rapaz propunha enquanto o segurava pelos ombros com força. "Deixe de dizer barbaridades."

Legolas quis se desprender mais uma vez dos braços que o seguravam, mas Elrond não permitiu.

"Deixe-me ir." Disse o rapaz com amargura. Seu coração parecia partido irremediavelmente.

"Legolas..."

"Deixe-me ir!" Gritou então o príncipe lançando um olhar de pura revolta para Elrond. Um olhar que não parecia seu. Que não parecia ver quem estava a sua frente. Um olhar perdido em um mundo de sombras e agonia. "Não sou prisioneiro aqui, sou?"

Elrond sentiu-se agredido pelas palavras do menino. Como tudo chegara onde estava? Mas percebeu então que usava de violência agora, apertando muito os ombros do príncipe para que ele não conseguisse escapar-lhe, enquanto fazia das palavras armas mais afiadas e contundentes do que qualquer outro punhal ou espada que pudesse confeccionar. Estava agindo à imagem de alguém a quem abominava. Sendo pior do que Thranduil.

"Não, ion-nîn." Ele disse soltando os braços do rapaz que fechava os olhos agora, tentando conter o desespero que tentava dominá-lo. "Não é meu prisioneiro." Ele respondeu afastando-se e abrindo a porta para o menino. "É livre para ir aonde quiser. Para ser quem quiser ser."

Legolas umedeceu os lábios secos e manteve-os entreabertos em busca de um pouco de ar. Depois baixou a cabeça voltando a encher o peito. Seu corpo todo tremia e seu rosto expressava uma palidez assustadora. Elrond encostou a cabeça na porta que abrira, enquanto ainda segurava a maçaneta e se deixou ficar a espera do pior. Se Legolas saísse, ele não poderia impedi-lo, não sem agir como o pai do rapaz, não sem sentir-se repetindo as mesmas brutalidades que Thranduil fazia. Naquele momento, mais do que em qualquer outro, ele sentiu que entendia o rei de Mirkwood, que compreendia porque muitas vezes o amor pode transformar as pessoas em seres que elas mesmas desconhecem.

"Peço autorização para me retirar então, senhor." Disse a voz do príncipe em um tom que despertou uma nova confusão na mente do curador. Elrond ergueu os olhos para o rapaz. Ele ainda estava parado, cabeça baixa, uma cascata de cabelos negros cobrindo-lhe o rosto, enquanto apertava as mãos fechadas tentando afastar os tremores que ainda o torturavam.

"Aonde vai?" Indagou o mestre apreensivo.

O príncipe respirou fundo. "Banhar-me..." Ele respondeu sem erguer a cabeça. "E já que não posso me desculpar... vou apenas tentar não envergonhá-lo mais."

O curador soltou os braços ao lado do corpo. Uma mistura de alívio e tristeza invadiu-o e ele caminhou a passos largos puxando o jovem elfo para perto de si.

"Você nunca pára de dizer tolices, menino?" Indagou em tom amável, buscando ao máximo afastar toda a amargura da conversa que tiveram, enquanto forçava o rapaz a ficar em seus braços. Legolas endureceu o corpo a princípio, sentindo-se envergonhado pelo que fizera, mas depois se deixou levar encostando finalmente a cabeça no ombro do mestre.

"Estou tão confuso, meu senhor." Assumiu finalmente o príncipe apoiando mais a cabeça no ombro do amigo. "Não quero lhe fazer mal... Prefiro a morte... Mas me sinto tão perdido que mal posso respirar quando começo a tentar encontrar o meu caminho."

"Então não tente, ion-nîn... não agora..." Aconselhou o lorde deslizando seus dedos pelos cabelos do arqueiro. A estranha pigmentação havia mudado não só a cor, mas o brilho e a textura dos fios da cabeça do jovem elfo.

"Agora o senhor entende, não é?" Indagou o rapaz erguendo a cabeça e afastando-se um pouco do mestre.

"Entendo?"

"Como meu... como o rei se sente..." Disse o príncipe com um profundo pesar. "O mal que posso fazer... Eu lhe tirei do sério como faço com ele. Mesmo que não queira, mesmo que não tenha a intenção acabo por fazê-lo."

"Legolas..."

"Que maldição é essa minha, meu mestre? Como posso combatê-la?"

O príncipe subitamente ajoelhou-se, sentando-se no chão como se tivesse sentido alguma dor. Elrond acompanhou-o preocupado, agachando-se também e apoiando as mãos em seu rosto.

"Legolas... Legolas não se torture mais, criança."

O arqueiro quis responder, mas um nó surgiu em sua garganta ao ouvir seu mestre chamá-lo de criança uma vez mais. Seu olhar se cruzou com os do curador e ele e Elrond foram envolvidos em uma imagem do passado que surgiu coberta por uma névoa de saudades...

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Thranduil aproximou da porta silenciosamente, encostando o rosto próximo dela, como se tentasse ouvir o que se passava dentro do cômodo.

"O príncipe está no quarto?" Indagou para um dos criados que seguia pelo corredor.

"Sim, majestade. Quando entrei para levar-lhe o jantar o príncipe estava acendendo a lareira."

O rei franziu a testa preocupado, não fazia um frio que justificasse tal ato. Ele então bateu na porta compassadamente, algo que não costumava fazer. Como rei julgava que todos os lugares lhe pertenciam e por eles poderia ir e vir, mas o quarto do príncipe sempre fora um ambiente que ele procurava respeitar. Bateu mais uma vez, mas não houve resposta. Estaria mesmo ali?

Com um leve suspiro de impaciência ele girou a maçaneta da porta que sabia estar destrancada, haja vista que o rapaz sequer possuía a chave dela, e entrou. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pelas chamas da lareira ainda acesa. Ele girou os olhos apertados pelo cômodo. A porta da sacada estava fechada, bem como a da sala de banhos, a cama estava vazia, nem sequer fora desfeita. Deu então alguns passos para dentro do quarto que sempre parecera não pertencer a ninguém, para encontrar finalmente quem procurava, porém a dúvida da imagem que via encheu-lhe de consternação. Legolas estava ajoelhado em frente da lareira, não deixara suas armas ou tirara as roupas da patrulha ainda, estava apenas sentado abraçado a seu arco. Thranduil franziu a testa aproximando-se devagar.

"Legolas?" Ele indagou sem obter nenhuma resposta. Um frio estranho correu-lhe a espinha. O rapaz continuava imóvel em frente às chamas que ardiam criando um reflexo diferente nas paredes. O rei ajoelhou-se ao lado do rapaz que parecia nem piscar. "Legolas?" Ele tentou mais uma vez tocando levemente o ombro do filho. O príncipe finalmente se voltou e olhou o pai, mas havia algo de errado com aquele olhar.

"Majestade." Ele disse voltando a encarar as chamas a sua frente e fazendo Thranduil, ao ouvir o tratamento que recebera, procurar instintivamente se recompor, tentando ainda assim entender o que se passava.

"O que está fazendo, capitão?" Ele indagou em um tom austero então, buscando talvez assim despertar o rapaz que parecia estar vivendo algum tipo de pesadelo.

"Estou de guarda, meu rei." Ele respondeu sem se voltar.

O louro líder franziu novamente as sobrancelhas.

"De guarda?"

"Sim." Disse o rapaz enchendo o peito de ar e apertando o arco mais próximo de si.

Foram necessários mais alguns instantes de silêncio nos quais Thranduil buscava entender o que se passava. O menino parecia perdido, representando um papel como fazia quando era pequeno. Mas algo decididamente estava errado.

"Você sabe onde está, capitão?" Ele tentou mais uma vez trazer o rapaz para a realidade.

"Perto de suas terras, majestade." Ele respondeu. "Mas ainda há perigo, sempre há perigo."

O rei voltou a sacudir a cabeça levemente. Um ímpeto de sacudir o menino o acometeu, mas ele se conteve. Legolas não poderia estar brincando com algo dessa gravidade.

"Pode dormir, capitão." Ele disse então sabendo que parecia absurdo o que estava fazendo, mas não vendo alternativa melhor. "Um seus soldados ficará no seu lugar."

"Não posso, senhor meu rei." Respondeu o rapaz em seu transe. Olhos cercados por profundos anéis escuros. "Perdi dois elfos quando deixei um dos soldados de guarda. Nenhum outro vai nos deixar sob meu comando."

Thranduil mordeu o lábio inferior apreensivo. Ele finalmente começava a entender. Lembrava-se da última patrulha na qual um dos elfos que estava de guarda havia se distraído com algo e o grupo fora atacado, ocasionando a morte de dois bons soldados. Ele se lembrava do quão duro havia sido com o filho em sua repreensão. Teria o rapaz tomado à guarda desde então? Teria ficado acordado durante todos os dias em que estivera fora? Thranduil voltou a analisar as feições do filho. Ele realmente parecia exausto, olhos fundos, rosto cansado e abatido.

"Pode dormir, capitão." Ele repetiu tocando o ombro do rapaz mais uma vez. "Você tem bons elfos sob seu comando."

Legolas estremeceu sob o toque do pai e apertou ainda mais o arco em seus braços como se temesse que alguém o fosse tomar de suas mãos. "Meus elfos precisam dormir..." Ele disse em uma voz fraca. "Não posso perder mais nenhum... Sou responsável por eles."

Thranduil fechou os olhos e esvaziou os pulmões baixando levemente a cabeça. O filho repetia as palavras que ele lhe dissera na dura repreenda que fizera.

"Considera-me um bom guerreiro, capitão?" Ele disse então fazendo o rapaz voltar-se para ele. Os olhos do filho estavam sem brilho, como se o rapaz dormisse o sono élfico, mas seu corpo tremia pelo cansaço que não estava sendo sanado.

"Sim, meu rei." Ele respondeu categoricamente. "Sois o melhor de todos os guerreiros, majestade."

O líder elfo voltou a fechar os olhos diante daquelas palavras de devoção."Então confiaria a mim a segurança de seu grupo?" Ele indagou procurando manter a firmeza de sua voz, apesar de seu coração apertar-se no peito ao ver o estado em que o filho estava.

"Sim, senhor." Respondeu o rapaz com firmeza, usando o tom que qualquer soldado usaria para com seu líder.

"Então pode dormir, capitão." Ele disse deslizando a mão pelo braço do filho para finalmente libertá-lo. "Eu me encarregarei da segurança agora. Nenhum mal assolará o seu grupo enquanto eu estiver de guarda."

Os olhos de Legolas pareceram subitamente ganhar um novo brilho. Thranduil julgou que o rapaz finalmente estivesse despertando, mas quando olhou melhor percebeu que eram lágrimas que se formavam.

"Pode dormir." Ele reforçou tentando conter a estranha emoção que sentia no peito, mas mostrando-se incapaz. "Eu carregarei seu fardo por essa noite, menino." Ele disse então, como se as palavras tivessem fugido de sua boca sem autorização.

"Mas..." Disse o rapaz retomando seu doce tom habitual. Como se finalmente estivesse falando com seu pai. "O senhor me acordará se sentir algum perigo?"

Thranduil engoliu o nó que se formou em sua garganta devido às palavras do filho. Ele apenas balançou a cabeça, sentindo-se incapaz de dizer qualquer palavra sem demonstrar as emoções que experimentava e que não queria demonstrar. Legolas então, para a surpresa do pai que julgava que o rapaz fosse finalmente se deitar em sua cama, apenas se encolheu no tapete onde estava, deitando-se abraçado a seu arco e ainda com suas armas presas ao corpo. Ele realmente acreditava que estava em um acampamento. Thranduil voltou a balançar a cabeça em uma mistura de indignação e admiração que o confundia demais. Ele esperou mais alguns momentos e quando percebeu que o filho finalmente adormecera, arrastou-se para um pouco mais perto dele e pegou cautelosamente o precioso arco que o menino abraçava. Depois lhe ergueu o corpo e desfez as fivelas que prendiam seu armamento, retirando aquele peso que o rapaz provavelmente carregava há dias sem descanso. Por fim ele tomou o filho nos braços e levou-o até a grande cama do quarto.

"Você é um bom guerreiro e um dos meus melhores capitães." Disse o rei ajeitando o rapaz no colchão macio com cuidado, temendo que o filho despertasse. Em seguida aproximou-se lhe beijando a testa. "Nunca deixe que eu te convença do contrário." Ele disse ao ouvido do arqueiro que dormia com seus olhos fechados pelo cansaço extremo. "Nunca."

Thranduil ainda ficou mais alguns minutos sentado ao lado do menino, verificando se ele realmente dormia sem que nenhum sonho ruim o estivesse atormentando. Então finalmente se levantou arrastando seu robe branco pelo chão brilhante do quarto e foi sentar-se mais uma vez em frente à lareira. Disposto a cumprir a promessa que fizera ao filho.

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Legolas voltou a piscar, refocando os olhos úmidos e encontrou o olhar confuso de Elrond.

"Foi há muito tempo." Disse o rapaz encolhendo-se e abraçando o próprio corpo. "Não sei porque me lembrei disso..." Ele disse em um leve sorriso. "Foi um dos sonhos mais belos que tive."

Os lábios de Elrond se ergueram amavelmente enquanto ele balançava a cabeça. "Não foi um sonho, menino." Ele disse. "Foi verdade."

"Mestre..." Duvidou o rapaz em um tom pesaroso, como se não gostasse da brincadeira que julgava ouvir.

"Legolas." Ele reforçou fazendo o rapaz olhá-lo novamente. "Eu não poderia ter visto se não fosse real. Eu só posso ver fatos da sua vida e sempre com sua permissão, mas não posso participar de ilusões que porventura crie. Essas são imagens que só você vê."

O rosto do arqueiro empalideceu subitamente e de seus olhos voltaram a correr fios de água. Elrond condoeu-se por ele, admirando-se novamente da ingenuidade que habitava o coração do rapaz, que se questionava tanto a ponto de duvidar das próprias recordações que tinha.

"Nunca perguntou a ele, não é mesmo?" Indagou o curador apoiando uma mão na face úmida do rapaz. "Nunca perguntou se ele tinha estado mesmo lá, não é?"

O príncipe balançou a cabeça atônito, mas não disse palavra alguma. Elrond aproximou-se um pouco mais o envolvendo em seus braços. Um sentimento confuso o estava castigando. Estaria sentindo ciúmes? Ciúmes do afeto que o rapaz descobrira no tão ausente pai que ele julgava que não o amava? Pensando nisso o curador apenas apertou o menino um pouco mais junto a si, sentindo-o relaxar finalmente e percebendo que, daquela vez, não tinha sido ele quem proporcionara o alívio que o jovem agora sentia. Legolas tinha sido abençoado por uma outra força que parecia querer amenizar a dor do rapaz. O próprio Iluvatar parecia ter oferecido ao tão jovem elfo, a sua primeira visão da realidade, e era uma visão doce, diferente da que a maioria dos elfos vivencia. Legolas era realmente especial.

"Iluvatar sempre foi bom para mim." Disse enfim o rapaz como se ouvisse os pensamentos do curador que o mantinha nos braços e deslizava os longos dedos por seus cabelos. "Eu queria poder fazer ao senhor, mestre, tanto bem quanto o senhor faz para mim."

Elrond sorriu apoiando a palma por sobre a face do rapaz. "Quantas bobagens você ainda vai dizer hoje?" Ele provocou sentindo o menino balançar a cabeça e rir com leveza em seus braços.

"Mesmo assim queria poder continuar lhe servindo... escondido como estou..." Lamentou-se o jovem voltando a segurar uma mecha dos cabelos escuros.

"Legolas..." Advertiu o curador em um tom de insatisfação.

"É bom cuidar dos cavalos."

Elrond puxou-o então e seus olhares se reencontraram. "Bom é poder ser você mesmo, criança. Não há nada melhor do que isso."

O príncipe baixou os olhos conformado. Mas Elrond sentia que algo ainda estava mal resolvido no coração do rapaz.

"Venha aqui." Disse então levantando-se e fazendo com que o príncipe o acompanhasse.

Legolas ergueu-se com um gemido abafado ajeitando-se distraidamente, para só então perceber que Elrond adiantara-se até a frente de uma das estantes e o aguardava. O rapaz deu alguns passos indecisos em direção ao lorde elfo que, quando o teve perto de si, puxou-o para a frente de um grande espelho emoldurado que refletia parcialmente a paisagem oposta a ele na pequena janela. Era o mesmo espelho no qual Legolas fora obrigado a se encarar há muito tempo atrás, em uma situação muito semelhante. O príncipe, colocado frente a frente com sua nova face, se esquivou de imediato, como se tivesse se assustado, mas Elrond não permitiu que ele se movesse de onde estava, mantendo as mãos nos ombros do arqueiro e impedindo-o assim de sair do lugar.

"Eu faço um acordo com você, ion-nîn." Ele disse carinhosamente, olhando a figura no espelho que sofria para encarar a própria imagem. "Se você conseguir me oferecer a resposta que não pode ser esquecida, encarando-se em frente a esse espelho, eu aceito que permaneça com seu disfarce.

Elrond nem tinha terminado sua sugestão e o corpo de Legolas já havia começado a tremer muito. Seus olhos se inundaram novamente de lágrimas e ele esquivou o olhar virando o rosto. Uma maré tempestuosa de recordações de todos os tipos parecia castigá-lo.

"O senhor me tortura, mestre." Disse o jovem elfo em um tom amargo e triste.

Elrond franziu as sobrancelhas diante da sinceridade do rapaz. Era essa, entretanto, a sensação que mais apreciava em suas conversas com Legolas, o como ele sempre se mostrava disposto a dizer o que pensava, o que se passava em seu coração. Ele virou então o rapaz para si, erguendo-lhe o rosto e fitando aquele par de cristais azuis dos quais lágrimas continuavam a cair.

"Sabe que não lhe quero mal, não sabe, ion-nîn?" Ele indagou olhando-o no fundo dos olhos e sentindo o tremor aumentar no corpo que segurava.

"Sei, meu mestre." Respondeu o arqueiro baixando os olhos mais uma vez.

"Então, entende porque acredito que esse disfarce não vai te ajudar?"

"Não acredita que possamos nos acostumar, senhor?" Tentou o jovem.

"Não creio..." Sacudiu levemente a cabeça o curador. "Não conseguiria vencer as saudades..."

"Saudades?"

"Saudades de um certo príncipe cujos cabelos cor de ouro já foram uma luz nos meus dias difíceis, mais de uma vez."

Legolas riu um riso triste, mas conformado. Ele não sabia bem o que queria para si, mas tinha passado bons momentos naquela estrebaria, cuidando dos cavalos e sendo ignorado por todos os outros elfos.

"Perdoe-me." Lamentou-se o rapaz arrependido por sentir-se mais uma vez obrigado a repetir a expressão que Elrond condenava.

"Perdoá-lo, Legolas?" Indagou o curador balançando a cabeça, inconformado. "Perdoá-lo por estar perdido? Por não saber mais quem é? Por recear o futuro incerto que se forma a sua frente? Por querer cumprir as metas que seu pai traçou para sua vida? Por ter medo? Perdoá-lo por sentir-se fraco diante de uma situação a qual eu mesmo não estou certo se conseguiria enfrentar?"

Um grande suspiro saiu dos lábios do arqueiro agora. Como se ele buscasse fechar uma grande porta brigando contra um vento terrível que insistia em mantê-la escancarada. "Eu só queria um pouco de paz, mestre..."

Elrond voltou a abraçar o menino. Seu tom era mais triste do que o habitual e o curador continuava a preocupar-se com ele.

"A paz está deixando de nos sorrir há tempos, ion-nîn." Ele disse com sinceridade. "Eu também queria voltar a sentir essa agradável sensação que te faz falta.