Olá. Como vão? Espero que estejam bem.
Nesse capítulo passado recebi as mais diferentes reviewse e-mails. Foi pelo que parece, um capítulo especial, pois despertou estranhas sensações em alguns. Fico agradecida, mas ao mesmo tempo receosa dos sentimentos que estou causando. Mas eu sei que é inevitável falar em emoções sem criar emoções. Mas isso também me fez sentir algo novo e especial. Uma confirmação de que sempre vale a pena falar em emoções verdadeiras, pois sempre haverá aquele que se identificará de alguma forma e entenderá e compartilhará suas emoções me ajudando a aprender cada vez mais. Eu só peço a vocês, novos reviewers e antigos também, que deixem seus e-mails para que eu possa responder aos comentários de vocês, é uma pena ler uma review tão linda e não poder sequer agradecer. Para aqueles que lêem e não deixam uma palavrinha eu peço também a gentileza de deixarem um comentário. Nem que seja um "alô" para que eu não pense que desistiram de ler a minha fic.
Como podem perceber, a apresentação da minha fic é por si só um texto tão grande que chega até a parecer um capítulo. Mas, como já disse e repito, não posso ficar sem meus agradecimentos, por favor leiam, pois assim também ficam sabendo o que está "rolando" por aí. Obrigada.
Lady-Liebe – O ano já está na metade. Espero que os estudos estejam bem adiantados, amiga. Saudades suas. Sempre é bom lembrar aos meus amigos da indicação das short fics da Liebe. Valem a pena. Beijos, amiga!
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Misao me escreveu e garantiu que o capítulo novo está saindo. Já estou me mordendo de expectativa. Vamos, amiga!!! Beijos.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN". Ainda continua nos matando aos poucos de ansiedade. O formoso Haldir parece finalmente tentado a resolver sua situação com a corajosa Darai (minha eterna Cabelos Negros), mas como nem tudo são flores, eu acredito que a situação deles ainda vá se complicar um pouco antes de ser resolvida. Em compensação estamos sendo presenteados com uma narrativa belíssima e um panorama perfeito de um povo super interessante, os Haradrin sobre o qual pouco se fala. Quem não leu, leia! E quem já leu deixe uma review. Elas são importantes para qualquer escritor e não dão tanto trabalho assim para o leitor, dão? Parabéns Myri, aguardo ansiosa pela próxima cena do elétrico casal. Beijos.
Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" se superou. Minha "fic de cabeceira" me deixou boquiaberta. O recente capítulo "Valle 2" trás tudo o que um bom capítulo tem que ter. Emoções de todos os tipos. O pequeno Estel enfrentando corajosamente o inimigo e ganhando a simpatia e o respeito de muitos. Os lindos gêmeos se revelando cada vez mais para nós e a doce e corajosa Ivy, que conquistou o coração de todos, inclusive o de nosso guardiãozinho. Ah pessoal, a Nim cometeu o sacrilégio de dizer que assim que terminar as crônicas vai ficar um tempo sem escrever. Nem pensar, Nim!!! Nós te proibimos!! Parabéns, amiga! Super bom trabalho. Obrigada pelas maravilhosas reviews e pelo apoio fantástico que você me dá. Beijos.
Vicky Weasley: "BITTERSWEET" ainda não foi atualizada. Por isso, com saudades que estava dos textos da Vicky, acabei me arriscando a ler os outros textos dela, sobre a sua segunda paixão e fiquei pasma. Todos são excelentes. Realmente Vicky pode escrever sobre qualquer assunto que seja. Parabéns, amiga. Atualize logo.
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Está me deixando sem ar. O que foi aquele último capítulo? Sem comentários Ju... Se você continuar a descrever cenas de ação de forma tão apaixonada acho que vou ter um ataque. Quem não leu perdeu, corram para ler. Nosso rebelde Legolas está realmente encrencado, mas parece que uma mudança na roda da fortuna está para acontecer, vamos aguardar. Parabéns, nossa Ju!!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Continua me deixando na saudade. Isso não é justo... o que houve com você, amiga? Não pode nos deixar sem seus elfos maravilhosos e sua personagem cativante. Saudades Lali!!
Kika-Sama: "APRENDENDO". A Kika abusou... Kika, cadê a atualização? Kika!!!
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Continua sendo reescrita. Estamos aguardando. Chell, não demore!! Beijos.
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Aguardamos ansiosamente pelo capítulo 4. Espero que o Legolas consiga resolver seus problemas a tempo. Não demore, amiga.
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Ainda não foi atualizada. Aguardamos ansiosamente. Não demore!!!
E a grandes amigas:
Syn, the time keeper. Que bom que você apareceu. Fiquei contente por saber que os últimos capítulos te agradaram. Gostei da relação que você fez entre as cenas do Elrond e do Thranduil. Ninguém havia comentado esse aspecto. Beijos e obrigada.
Regina – Oi. Onde está sua fic? Estamos esperando.
Botori – Oi! Onde está você? Está tudo bem? Mande notícias.
Leka – Obrigada pela review, amiga. A cena do Thranduil e do Legolas também foi a minha favorita. Imagens das quais a gente não esquece, não é mesmo? Obrigada por toda a consideração. Beijos.
Soi – Que me manda reviews maravilhosas. Eu nunca vou deixar de agradecer quando alguém se dispõe a mostrar seu interior como a Soi faz. Eu amo os comentários dela. Obrigada amiga. Espero que sua song fic saia logo. Estou aqui caso precise de algo. Não deixe a idéia morrer. Beijos.
Lali-chan– Que me presenteou com sua review e está lendo uma angst a espera de um final feliz. Prometo que terá. Obrigada.
Veleth– Que me deixou uma review linda, mas não me ofereceu oportunidade de agradecer. Fica meu agradecimento aqui, de coração e o desejo de que a fic continue te agradando e você continue lendo e comentando. Abraços.
Belle Malfoy – Outra fã do HP que me ofereceu a oportunidade de ter o meu texto lido por ela. Agradeço seu belo e-mail e espero que a fic continue te agradando. Abraços.
Vamos agora a fic. Sensações muitas vezes são presságios.
31
"Você se banha e eu o encontro para o jantar daqui a pouco." Disse Elrond enquanto caminhava pelo corredor principal ao lado do príncipe de Mirkwood. Legolas o seguia cabisbaixo, desatento das palavras que ouvia, tentando fugir do sentimento que o incomodava agora. Estava se sentindo cansado, indisposto e ainda não conseguira convencer-se de que tirar o disfarce que usava fosse uma boa alternativa. Elrond silenciou-se a dois passos da entrada do quarto do rapaz e ficou observando enquanto este segurava a maçaneta, apoiando a outra palma aberta na porta para finalmente encostar-se nela.
"Quer que eu fique com você enquanto se banha?" Propôs o lorde elfo se aproximando um pouco mais e pousando uma mão no ombro do rapaz, procurando tentar decifrar quais fantasmas atormentavam agora a mente daquele menino, que parecia temer entrar no próprio quarto.
"Já o importunei o bastante, mestre." Respondeu a voz fraca do príncipe com os olhos no chão. "O senhor está cansado."
"Estou." Concordou distraidamente Elrond tentando agora ajeitar alguns dos fios dos cabelos do rapaz. Aquele ato de crueldade que Thranduil fizera neles demoraria sem dúvida muito tempo para ser consertado e muito mais ainda, talvez, para ser esquecido. "Mas, como você, não me sinto disposto a ficar só."
O brilho do olhar interrogativo de Legolas atingiu então o curador que lhe sorriu.
"Posso me banhar mais tarde, então?" Respondeu o menino depois de perceber que Elrond não tinha intenção de esclarecer a afirmação que fizera. "Podemos dar um passeio pelo jardim."
"O que está adiando, ion-nîn?" Indagou Elrond realmente intrigado. "Entrar no seu quarto ou devolver a seus cabelos o brilho que lhes roubou?"
Um suspiro de insatisfação se ouviu e o lorde elfo ficou sem sua resposta. A mão do príncipe moveu-se e a maçaneta girou abrindo passagem. Legolas entrou em silêncio e não fechou a porta atrás dele. Elrond baixou discretamente os olhos soltando um leve suspiro e sentindo uma nova sensação de pesar e desconforto querendo dominá-lo. Era uma lástima que em um momento no qual o príncipe parecia precisar tanto de sua companhia e auxílio, ele se sentisse tão cansado e indisposto. Entrou, porém e fechou a porta silenciosamente, quando se voltou Legolas estava sentado na cama, palmas juntas, presas entre os joelhos e olhar perdido no chão, parecia tentar concentrar-se em algo, mas sem muito sucesso.
O quarto continuava mergulhado na mais total escuridão, o rapaz sequer abrira a porta da sacada para cumprimentar sua amiga árvore, atitude das mais intrigantes. Legolas começou a olhar a sua volta como se um sentimento de desconforto o estivesse incomodando. Elrond deu alguns passos e ascendeu o pequeno lampião que estava por sobre a cômoda.
"Diga-me, criança." Pediu o senhor de Imladris, apoiando ambas as mãos abertas sobre o móvel e encarando as chamas da luz acesa que brigavam desvantajosamente contra as trevas do lugar onde estavam. Muitas lutas são realmente injustas e cruéis.
"O que, meu senhor?" Ele ouviu a voz do rapaz responder em suas costas. Havia definitivamente uma inquietação naquele tom.
"Diga-me porque está parecendo um animal preso em uma armadilha." Ele disse voltando-se para encontrar as sobrancelhas torcidas e o olhar intrigado que o menino lhe lançava.
Legolas baixou os olhos novamente e apertou as mãos, em seguida voltou a laçar os braços em volta de si, ato que deixava mais do que claro que algo o estava incomodando, ou talvez mais do que isso.
"Não podemos mesmo ir até o jardim?"
"Podemos." Respondeu o curador em um tom leve, procurando aliviar a tensão da conversa que tinham, enquanto aproximava-se da porta da sacada, tocando a maçaneta para abri-la. "Depois que você se banhar."
"Deixe fechada, senhor. Por favor."
Aquele repente estourou nos ouvidos do lorde elfo de tal forma, que ele voltou-se ainda mais intrigado. Suas sobrancelhas se irmanaram e seus lábios desprenderam-se em total incompreensão.
"Legolas..." O curador aproximou-se se sentando na cama e tomando-lhe as mãos trêmulas. "O que está sentindo?"
"Nada, mestre." O rapaz balançou a cabeça dizendo, enquanto tentava soltar as mãos que o curador segurava, atitude que tomava também pela primeira vez. Elrond segurou-as com um pouco mais de força, mas as acariciou com os polegares enquanto o fazia.
"Legolas. Fale o que o está incomodando."
"Eu... só... não queria ficar aqui." Balbuciou o rapaz sentindo-se um pouco melhor depois de dizê-lo. Ele não sabia o porquê, mas aquele ambiente o estava incomodando tremendamente.
"Isso é bom sinal." Informou o lorde elfo tentando sorrir. "Há pouco tempo sequer queria que eu o tirasse daqui para levá-lo para almoçar."
O príncipe apertou os lábios, mas não sorriu e Elrond passou a olhar o quarto do rapaz. Era totalmente diferente dos quartos dos outros filhos. O quarto de Estel possuía mapas nas paredes os quais o guardião gostava de consultar enquanto aguardava o sono chegar, havia também pergaminhos antigos e alguns objetos que fora de seus pais. No dos gêmeos havia muitos livros, livros que Elladan carregava da biblioteca e nunca os devolvia. Muitas vezes quando o curador tinha alguma dúvida sobre ervas e medicamentos era mais fácil ir direto ao quarto do filho do que perder tempo com a possibilidade de encontrar a informação na biblioteca. E também havia os desenhos de Elrohir, o mais novo dos gêmeos gostava de desenhar cavalos e outros animais. Às vezes fazia desenhos dos irmãos nas situações mais constrangedoras apenas para provocá-los. Quando os filhos estavam em expedições muito longas o lorde de Imladris aquietava a saudade de seu coração visitando os quartos dos filhos, porque sempre havia um pedaço deles ali, sempre havia uma lembrança. Mas o quarto de Legolas não tinha nada dele, não tinha nada que fizesse o lorde lembrar-se do arqueiro além da árvore das flores vermelhas. Legolas não tinha livros, nem pertences pessoais, seu quarto embora tivesse sido decorado com as cores de Mirkwood para agradá-lo, nada mais era do que o quarto de hóspedes.
"Como era o seu quarto no palácio, jovem príncipe?" Ele indagou por fim, voltando seus olhos para encontrar um ar surpreso no rosto do arqueiro. Uma mudança brusca de assunto poderia talvez mudar o rumo daquelas sensações estranhas que estavam sentindo.
Legolas desviou o olhar sem responder. Já fazia muito tempo. Ele também correu os olhos pelo seu quarto em Rivendell, não se sentindo bem certo do que o lorde queria com a pergunta. Teria ele arrumado o ambiente de algum modo que desagradasse ao curador? Estaria em desordem ou algo do gênero e o mestre estaria fazendo alguma insinuação?
"Meu quarto não o agrada, senhor?" Ele arriscou.
Elrond riu dessa vez. Era impressionante a preocupação do príncipe em receber sua aprovação para tudo.
"Na verdade não, ion-nîn." Ele admitiu.
O rapaz empalideceu ligeiramente voltando a analisar o cômodo. Estava tudo em ordem para ele, não havia roupas espalhadas, nem objetos fora do lugar, estava tudo limpo e alinhado a seu ver.
"Peço desculpas".Ele disse confuso. "Diga-me então, por favor, no que devo me concentrar para fazê-lo do seu agrado e eu o farei, senhor".
Elrond suspirou. Eram palavras inacreditáveis aquelas ditas como se fossem obvias verdades. A cada dia o príncipe parecia uma incógnita maior para qualquer um que o observasse com cuidado, com afeto. Seus sentimentos eram como textos indecifráveis de uma escrita antiga.
"Senhor?" Insistiu o arqueiro com os olhos perturbados, a sensação de desconforto que sentia parecia ser parte do passado agora. Ele tinha uma nova preocupação: descobrir o que desagradava a seu mestre.
"Como era seu quarto em Mirkwood, jovem príncipe?" Elrond insistiu mais uma vez na pergunta.
Legolas pendeu ligeiramente a cabeça para a esquerda e seu olhar ganhou um brilho vago. Estava tentando se lembrar apenas para dar a resposta que o mestre queria. Mas não havia muito que contar.
"Eu não me lembro bem, lorde Elrond." Ele admitiu receoso enquanto as imagens da cena da lareira que vira voltavam a preencher seu coração. Aquela na verdade era a única imagem que guardava agora do local onde dormira por tanto tempo. "Lembro-me que as paredes eram brancas, e havia algumas plantas na janela e na sacada... Mas nenhuma árvore." Ele sorriu com tristeza, olhando para a porta fechada da sacada, mas não demonstrando intenção de ir abri-la.
"Continue." Pediu o curador parecendo querer dedicar uma atenção especial a descrição que o rapaz lhe oferecia. A imagem da visão que haviam compartilhado há pouco também estava fresca em sua mente.
Legolas baixou os olhos para as mãos que seguravam as suas. Ele sentia-se bem na companhia de lorde Elrond e entendia o que o amigo de Imladris estava tentando fazer, mas sentimentos confusos o estavam sufocando naquele momento.
"Não podemos conversar sobre isso no jardim?" O arqueiro insistiu uma última vez, mas um silêncio o fez balançar a cabeça, como se demonstrasse um sentimento de desaprovação para consigo mesmo por ter tentado de novo.
"Eu não me lembro ao certo..." Ele retomou o assunto desgostoso, sabendo que não havia alternativa. "Lembro-me da lareira porque costumava me sentar em frente dela quando era menino, fingindo que fosse uma fogueira de acampamento..." Ele riu um pouco com a lembrança. "Eu gostava de fingir que era um soldado. Dormia noites inteiras à frente dela. Algo que minha mãe desaprovava totalmente."
Elrond riu também, soltando as mãos do rapaz e cruzando as pernas. Recordações de infância eram sempre bem vindas aos ouvidos do lorde elfo.
"Não gostava da sua cama?" Ele brincou.
"Ah..." Legolas baixou os olhos um tanto constrangido. "Camas são para doentes e feridos." Ele exclamou oferecendo um sorriso simples, que iluminou-lhe a face. "Em Mirkwood pouco se dorme, mesmo porque há as árvores. Mas minha mãe sempre insistiu que eu dormisse..."
"E você não aprovava ficar na cama, queria dormir nas suas amigas árvores." Sugeriu o mestre.
"Isso." Sorriu o rapaz com a lembrança. Seu semblante totalmente alterado pelo sentimento doce que o invadia. "Sem travesseiros."
"Travesseiros?"
"É. Havia vários travesseiros por sobre minha cama." Ele riu de novo balançando a cabeça inconformado. "Sempre houve. Toda vez que eu voltava parecia haver mais travesseiros, vindos não sei de onde. Eu pensava que um dia decididamente deixaria de dormir lá por não haver espaço para mim."
O curador riu com mais prazer agora.
"Gosta de travesseiros?" Ele indagou.
"Nah, mestre" Suspirou o príncipe com um sorriso encabulado, tirando os sapatos e cruzando as pernas por sobre o colchão. "Sou normal. Durmo com no máximo dois travesseiros, porque gosto de me abraçar a algo quando estou dormindo. Hábito que, segundo Elrohir preciso perder..." Ele riu mais ainda.
"Por quê." Elrond atreveu-se a perguntar mesmo sabendo que, vindo do gêmeo mais novo, na certa seria pura perda de tempo interessar-se em saber.
O arqueiro apoiou ambas as mãos no rosto e voltou a balançar a cabeça tentando conter o riso. Elrond olhava-o com admiração e afeto. Um livro escrito em uma língua muito antiga e indecifrável o príncipe era, sem dúvida.
"Oh pelos Valar, Lorde Elrond. Tudo isso porque um dia, em um acampamento, ele se deitou muito próximo de mim e acredito que o senhor já possa imaginar o resto..."
Elrond rolou os olhos e sacudiu a cabeça, rindo inconformado.
"Onde foi que eu errei com esse rapaz." Ele se perguntou.
Mas as feições do jovem elfo subitamente se intensificaram em um ar bastante sério e ele voltou a segurar as mãos do mestre, dobrando as pernas abaixo de si e ficando ajoelhado por sobre o colchão.
"Elrohir é diferente de todos os elfos que já conheci, meu senhor." Ele disse fixando seus olhos azuis no mestre que estava a sua frente. "A alegria que ele irradia nas piores situações é uma benção. O senhor é o melhor curador da Terra Media e ensinou bem seus filhos a cuidarem de todos os males que podem afligir a alguém. Elladan tem um conhecimento que me surpreende e admira, ele conhece praticamente todas as ervas e outros medicamentos que podem amenizar a dor das pessoas. Estel, por sua vez, parece poder fazê-lo com as próprias mãos e Elrohir... ele pode curar qualquer um com sua mera presença."
Elrond ficou subitamente comovido com as palavras daquele jovem que voltava a olhá-lo bem dentro dos olhos. Toda a inquietação que aborrecia o rapaz estava agora adormecida atrás de um semblante de paz.
"O senhor tem os melhores filhos de todo o universo e deu a eles a melhor das educações," continuou o príncipe em uma voz clara e suave "pois lhes ensinou com respeito e afeição. Foi para eles o que nenhum pai foi para filho algum que eu conheça."
O lorde de Imladris ficou sem palavras diante da poética visão que Legolas criara agora. A imagem dos filhos um a um, como o arqueiro os havia descrito, foi-se desenhando em sua mente e os lábios do elfo se curvaram em um sorriso, orgulhando-se mais uma vez das crianças que criara sob seu teto. Ele estendeu a mão e tocou o rosto do jovem.
"Sou-lhe grato por alegrar meu coração em um dia difícil como o de hoje." Ele declarou.
"O que há, senhor?" O elfo louro insistiu. "Além do aborrecimento que lhe dei..." Ele completou baixando novamente os olhos em constrangimento."
Elrond ergueu-lhe o rosto. "O que mais se lembra do seu quarto em Mirkwood, ion-nîn?" Perguntou tentando resgatar o assunto abandonado para a insatisfação do jovem a sua frente.
Houve um breve momento de desconforto.
"Nada, meu senhor." Ele declarou por fim apanhando a mão que estava em seu rosto e a segurando nas suas. "Era um quarto de dormir. Tinha uma ante-sala com algumas poltronas de cujas cores eu não gostava muito. Não passava muito tempo lá."
"E onde passava seu tempo?" Inquiriu o elfo interessado.
"Treinando." Respondeu o arqueiro prontamente. "Nós infelizmente temos pouco a admirar na floresta negra, meu senhor, e o palácio não é abençoado com uma biblioteca da qualidade da de Rivendell. O povo do meu reino..."
Mas Legolas parou subitamente o que ia dizer. Seus olhos se entristeceram, porém ele retomou o pensamento sem pestanejar.
"O povo de Mirkwood não tem o prazer das festas e comemorações, não vê a beleza dos elementos ao seu redor mais, tudo o que fazem é trabalhar, vigiar, proteger-se e temer..."
Elrond lamentou o que ouvia. Embora já conhecesse essa realidade que assolava os elfos da floresta, ela parecia muito mais dura saindo dos lábios gentis do príncipe de Mirkwood.
"Treinamos..." Continuou o príncipe serenamente agora. Uma paz estranha envolvia-lhe de tal forma que Elrond chegava a senti-la ao segurar as mãos do rapaz. "E somos bons guerreiros." Ele sorriu por fim imaginando seu povo a quem amava e guardando aquela imagem em um lugar especial em seu coração. "Lutamos a batalha do dia-a-dia. Enfrentamos todos os tipos de luta e aprendemos sempre mais."
Elrond acenou com a cabeça concordando, enquanto afastava alguns fios dos rebeldes cabelos enegrecidos que insistiam em cair sobre os olhos de Legolas. "São os melhores." Ele finalizou lembrando-se de quanto o príncipe já demonstrara bem o significado que os elfos de Mirkwood dão para a palavra luta.
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"Não, ele pode sim." Gritou o pequeno Estel correndo escada abaixo. "Você está dizendo isso para me provocar!"
Elrohir o acompanhava pouco atrás. Um sorriso malicioso nos lábios enquanto sacudia a cabeça fingindo desaprovação.
"É claro que não pode!" Retomou o gêmeo em um tom sarcástico. "Você é que é um humanozinho teimoso."
Elrond, que estava na sala de jantar com Legolas e Glorfindel, ergueu-se de imediato e foi ver o que se passava.
"Estel!" Ele disse para o menino que já estava com a mão na maçaneta da grande porta principal. "O que se passa, menino? Por que rouba nossa tranqüilidade com essa gritaria sem propósito?"
"Ada!" Gritou o pequenino em sinal de surpresa, como se encontrasse quem realmente procurava. Ele correu na direção do pai atirando-se em seus braços. Elrond recebeu-o e abaixou-se para olhá-lo nos olhos. Estel chorava lágrimas finas de tristeza, mas a enxugava agora com as mangas da túnica tentando conter os soluços.
"O que houve, pen-neth?" Ele indagou puxando o menino para perto da mesa e sentando-se para depois colocá-lo em seu colo. "Quem feriu seu pequeno coração?"
Legolas e Glorfindel trocaram olhares preocupados.
"El..ro..hir..." Dizia o menino entre soluços apontando para a direção de onde ouvia-se a aproximação do irmão. "Ele.. ele.. gos..gosta de.. me pro...vocar."
Naquele momento o mais novo dos gêmeos acabava de entrar na sala e já recebia um olhar reprovador dos integrantes do lugar.
"Ora seu pequeno tratante." Disse o gêmeo fingindo aborrecimento. "Não é verdade, ada. Estel é que não gosta de ser contrariado."
"É mentira!" Gritou o menino do colo do pai.
Elrond soltou um longo suspiro quando os dois filhos voltaram a discutir.
"Basta!" Enfureceu-se o pai em segundos, levantando-se e colocando o filho caçula no chão. Tanto Estel quanto Elrohir calaram-se na mesma hora baixando suas cabeças. "Elrohir, admira-me muito. O sol projeta sua sombra nesse chão há dois mil invernos e você ainda consegue agir de forma mais infantil que seu irmão."
"Eu, ada?" Disse o gêmeo fingindo surpresa. Legolas e Glorfindel já não conseguiam mais conter o riso. Aquelas situações nas quais Elrond se via obrigado a fazer o papel de pai eram sempre hilárias demais. Tantos anos Rivendell passara anteriormente em uma paz solene. Elladan e Elrohir haviam crescido e a presença de crianças tornara-se apenas uma lembrança. As conversas em Imladris, as histórias contadas e cantadas, todas refletiam a paz e sabedoria dos tempos passados. Mas subitamente um novo ser encantado apareceu e o mundo todo se transformou devido a aqueles olhos azuis. Os gêmeos passaram a brincar com ele, a discutir por causa dele, a provocar e envolver o amigo Legolas, e o mundo ganhou uma nova cor. Ah, Iluvatar, quanto bem aquela criança trouxera ao lugar.
Elrond riu daqueles pensamentos colocando a mão por sobre o peito e voltando a se sentar.
"Pare de chorar e me diga o que se passa, jovenzinho." Ele disse por fim tentando trazer alguma seriedade àquela conversa, mesmo sabendo que não haveria qualquer, já que o assunto que tratariam envolvia Elrohir e Estel, duas figuras que sempre se mostraram as mais aptas a fazerem sua cabeça doer além do normal. Mas se o gêmeo estava provocando de fato o irmão caçula de forma a deixá-lo tão irado, aquele era sinal de que realmente não havia nada de muito sério e traumatizante com o que se preocupar, haja visto que o elfo amava seu irmãozinho humano muito além de todas as suas forças e jamais o envolveria em uma situação constrangedora ou conflitante, se não julgasse que poderia oferecer-lhe um grande divertimento no final.
"Elrohir me disse que Legolas não é o melhor arqueiro que há." Informou o rapazinho com grande pesar. Seus olhos estavam inundados por um brilho de tristeza, que machucava a qualquer um que se ativesse a eles. "Ele disse que os elfos de Rivendell podem vencê-lo em qualquer torneio e que só não o fazem porque o príncipe tem medo de participar de competições."
Legolas deixou o queixo cair e enrubesceu quando todos olharam para ele. Ele custou alguns instantes para se recompor, depois direcionou um olhar surpreso para o gêmeo.
"Não acredito que disse isso ao menino, Elrohir."
"É a verdade. Você tem medo de torneios." Disse o elfo com simplicidade enquanto pegava furtivamente um pedaço de pão da mesa do jantar e o desfazia entre os dedos.
"Eu não tenho medo." Indignou-se o príncipe apoiando ambas as mãos na mesa. "Apenas acho essas competições sem propósito."
Elrond olhou para Glorfindel que escondia o riso agora. Legolas finalmente fora pego em um dos jogos do gêmeo mais novo. Elrohir, que conseguia tirar quase toda a Arda do sério, parecia decidido a pegar o pobre príncipe como vitima naquela noite.
"Claro, claro." Disse o elfo moreno ainda olhando para os farelos que caiam de suas mãos. "Eu não disse, Estel. Pode desistir. Até Celboril atira melhor que um elfo de Mirkwood. E ele só conhece as panelas da cozinha."
Legolas respirou fundo. Ele sabia que Elrohir o estava provocando propositalmente, apenas por sentir-se enfadado e ter algo para fazer. Mas o olhar que o pequeno Estel lhe lançara partira-lhe o coração, impedindo que a paciência acalmasse as águas turbulentas de sua alma.
"Para de dizer tolices, Elrohir." Ordenou o louro príncipe tentando se controlar. "Você sabe que isso não é verdade. Nós em Mirkwood somos bons arqueiros e nossa ajuda lhes foi muito útil há séculos atrás."
Elrohir não se intimidou arrastando o pé para juntar agora a sujeira que fizera antes que o pai resolvesse lhe dar uma repreenda. "Claro... eu vou concordar. Mas que fique bem claro a todos que só o faço para que o príncipe de Mirkwood, filho do poderoso Thranduil, um dos maiores guerreiros da Terra Média, a quem espero nunca enfrentar, enfim... para que Legolas não fique mal diante de meu irmãozinho, que carrega uma grande ilusão quanto a suas habilidades."
"Por Mandos, Elrohir." Ergueu-se o príncipe em um tom austero e forte, atingido em cheio pela habilidosa soma de palavras que o amigo armara. Ele não sabia o que mais o irritava, os dizeres e insinuações do filho de Elrond ou o fato de saber que o elfo o estava colocando exatamente onde queria. "Diga logo o que tenho que fazer."
"Como assim?" Indagou o outro com uma inocência que não convenceu nem mesmo ao seu caçula.
"Diga logo!" Reforçou o arqueiro saindo da posição em que estava e tomando a mão de Estel, que havia arregalado dois grandes olhos azuis ao ouvir o príncipe gritar pela primeira vez. "Diga o que tenho que fazer para derrubar essa sua teoria tola."
Estel sorriu um riso largo, olhando para todos os adultos presentes.
"Eu disse..." Afirmou o menino segurando a mão de Legolas com suas duas agora. "Eu disse que ele não tinha medo."
"Medo ele pode não ter." Reforçou Elrohir olhando Legolas no fundo dos olhos. "Mas coragem não quer dizer habilidade."
"Eu devia pendurar você pelas duas orelhas, por isso, Elrohir." Ameaçou o príncipe utilizando-se de palavras que nunca usara na vida. O gêmeo decididamente tinha conseguido tirar o elfo do sério. "Vamos, diga logo e me poupe de suas provocações."
Os olhos de Elrohir percorreram todo o lugar verificando como estavam os ânimos dos presentes. Ele simplesmente adorava essas mudanças bruscas nos acontecimentos que conseguia ocasionar. Enfim, adiantou-se até a grande porta.
"Pegue suas armas e vá lá para fora que eu lhe mostro."
"Elrohir." Protestou o pai finalmente, incomodado com o rumo que aquela brincadeira agora tomava. "Já é noite. A escuridão não favorece ao uso do arco e flecha e você sabe disso."
"Ah, ada." Brincou o rapaz sorrindo e acenando para que Estel passasse pela porta. O menino soltou a mão de Legolas e obedeceu de imediato. Ambos pareciam estar se divertindo com aquele sentimento de expectativa. "Os elfos de Mirkwood são os melhores... imagine só o senhor do que eles são capazes sob a luz do luar."
O curador baixou a cabeça inconformado. Em seguida olhou para o príncipe que não parecia estar realmente envolvido no espírito lúdico de Elrohir. Elrond aproximou-se com um olhar solidário depois que os filhos haviam saído e fechado a porta.
"Não precisa fazer nada contra a sua vontade, príncipe Legolas."Ele disse em um tom paternal. "Sabemos de seus valores e não temos necessidade de prova alguma para confirmarmos essa verdade."
Legolas, finalmente livre dos sentimentos contraditórios que Elrohir fizera despertar em seu íntimo, soltou um leve suspiro abanando a cabeça.
"Essa é outra particularidade dos elfos de Mirkwood, meu senhor..." Ele disse com tristeza. "Quando pegamos nossas armas... é sempre contra nossa vontade... nunca por diversão."
E depois disso ele pediu educadamente permissão para se retirar e buscar seu equipamento, deixando Elrond e Glorfindel com um sentimento amargo em suas bocas. Minutos depois o jovem louro voltou, aljava presa nas costas, arco próximo ao peito. Suas feições não demonstravam mais a satisfação e paz características das vezes em que estava em Imladris. Ele parecia o capitão de sua patrulha, a caminho de uma difícil batalha. Elrond sentiu o coração apertado pelo rapaz, como se uma tristeza o tivesse invadido, e começou a pensar seriamente em que punição daria ao gêmeo mais novo quando tudo tivesse terminado.
A grande porta se abriu e o menino Estel estava atrás dela a espera de todos. O garotinho correu quando viu o arqueiro pronto para a prova e segurou-lhe a mão entusiasmado.
"Legolas, você vai conseguir, não vai?"
O elfo não respondeu, deixando-se apenas conduzir pelo menino que o puxava com vigor. Glorfindel e Elrond os seguiram também. Elrohir encontrou-os no meio do caminho. O gêmeo vinha ao lado do irmão, mas Elladan sentiu-se estranho ao perceber o ar do arqueiro.
"Está bem, Legolas?" Indagou o mais velho colocando uma mão no ombro do príncipe, mas não conseguindo encontrar seu olhar. O elfo de Mirkwood parecia inquieto, olhando tudo a sua volta com as sobrancelhas comprimidas e um ar preocupado.
"Estou." Respondeu com brevidade. "O que querem que eu faça?"
Elladan voltou-se para Elrohir que olhava o amigo com o mesmo interesse. Talvez ele tivesse de fato sido muito duro com suas brincadeiras, mas agora já era tarde para voltar atrás.
"Não sabe, arqueiro?" Ele indagou sorrindo, enquanto se aproximava de Legolas e caminhava a sua volta. "Estamos cercados. Não estamos, Estel?" Ele perguntou, envolvendo o menino na brincadeira para tentar tirar um pouco da seriedade do príncipe, que parecia estranhamente insatisfeito com a situação na qual se encontrava.
"Estamos!!" Bradou o menino totalmente envolvido pelo clima que Elrohir criara. "Você tem que acertá-los, Legolas." Ele disse aproximando-se do amigo e ficando a sua frente. "Eles estão em todas as partes. São horríveis..." Ele completou fazendo uma careta que fez com que todos rissem, até mesmo Legolas ergueu os cantos dos lábios. "Orcs horríveis com cabeças de melancia." Continuou o garoto erguendo as mãos e curvando os dedos ameaçadoramente. "Muito feios mesmo... consegue vê-los?"
Legolas deixou o leve sorriso que o menino lhe proporcionara nos lábios quando finalmente entendeu o que se passava. Os gêmeos haviam escondido as frutas a muitos metros de distância deixando apenas partes delas a mostra. Além de encontrá-las de onde estava, distinguindo o brilho delas do brilho do restante das folhas e flores que a lua abençoava, ele devia acertá-las em cheio. Era uma tarefa muito difícil.
"Quantas são?" Indagou o rapaz sem baixar os olhos do horizonte.
"São..." O menino ia responder, mas Elrohir segurou-lhe o braço.
"Você quer muitas facilidades, arqueiro." Provocou o rapaz mais um pouco. "Em uma batalha você pergunta ao seu líder quantos são os inimigos?"
E aquelas palavras pareceram despertar um ser dormente no corpo de Legolas. O príncipe puxou a primeira flecha e só houve tempo de Elrohir tirar Estel de caminho do arqueiro. A flecha voou em uma velocidade incrível e percorreu uma distância difícil de se calcular, acertando um alvo mole que se desfez em pedaços. Ninguém acreditou no que seria até que sentiram o cheiro da fruta fresca que a brisa trazia. Os lábios de Elrohir se entreabriram e seu queixo caiu enquanto segurava Estel perto de si. Legolas girou o corpo várias vezes e numa fração de tempo muito pequena ele destroçou dez melancias, as quais Elrohir escondera em locais absurdamente inviáveis. Não havia mais nenhuma, ele tinha destruído todas.
Um silêncio de espanto e admiração se fez, no qual os presentes se entreolharam surpresos. Até mesmo Glorfindel, um experiente guerreiro, não pôde conter a admiração que sentia. Estel pulou várias vezes, parecia ser o único para quem o feito não fora surpresa, ele tinha total confiança em seu amigo.
"Eu disse, não disse, elfo bobo?" Ele sorriu dando um leve empurrão em Elrohir que ria inconformado com as mãos na cintura e balançando a cabeça.
"Isso foi sorte." Provocou o elfo um pouco mais, não querendo se dar por vencido.
Mas Legolas ainda parecia ter dificuldades para compartilhar a alegria dos presentes. Ele baixou a cabeça apertando o arco contra o peito que arfava, como se despertasse de um pesadelo. Elrond, a quem nada passava desapercebido, aproximou-se devagar colocando uma mão em seu ombro, entretanto, para sua surpresa, o príncipe saltou assustado, afastando-se do grupo e olhando para todos com consternação.
"Legolas? O que foi, criança?" Indagou o curador preocupado, dando um passo na direção do jovem e surpreendendo-se uma vez mais ao vê-lo voltar a recuar. Olhos muito abertos e respiração ofegante.
Elrohir, percebendo o mal estar no amigo, tentou aproximar-se também, mas o príncipe repetiu a ação anterior.
"O que foi, mellon-nîn?" Indagou o gêmeo intrigado. "Ficou zangado comigo?"
"Eu não pergunto nada ao meu líder." Respondeu finalmente o elfo com um estranho brilho nos olhos. "Eu sou o líder."
Elrohir franziu a testa preocupado.
"É sim." Ele disse com tristeza. Sentindo que tinha feito algum mal ao tão querido amigo. "É um bom líder."
"Não sou." Respondeu o rapaz. "Deixe-me levar por você... poderia ter acertado alguém... E se não distinguisse as frutas? E se minha visão me tivesse enganado... se eu tivesse errado?"
Mal o elfo terminara suas conjecturas, todos ouviram um estranho barulho. Ao voltarem-se para ver, perceberam que saía agora de dentro do emaranhado de árvores um dos elfos da guarda que, na certa, havia ido verificar algum som estranho que ouvira. O bom soldado olhou para uma das frutas partidas no chão com um ar curioso, depois fez uma leve reverência aos lordes presentes e prosseguiu seu caminho.
Legolas fechou novamente os olhos e suas pernas fraquejaram como se visse um pesadelo tornar-se real. Elrohir desprendeu os lábios e um mal estar tomou a todos. Ninguém havia pensado naquela hipótese. Legolas sentiu uma sensação terrível vir abraçá-lo e seus olhos brilharam, banhados pelas lágrimas que se formavam. Envergonhado, o rapaz apressou-se em sair de perto do grupo, mas foi segurado por Elrond.
"Paz, criança." Disse o mestre mantendo o rapaz firme com as mãos nos ombros dele.
Legolas se debateu um pouco, mas logo sentiu que não havia como sair da situação onde estava, então ele ajoelhou-se no chão e deixou as lágrimas virem. O curador o acompanhou, mas não o segurou mais. Todos baixaram seus olhos lamentando o mal do qual tinham participado."Posso ser um bom arqueiro..." Disse o rapaz com tristeza, enquanto segurava seu arco mais perto do peito. "Mas não sou um bom líder... nunca serei..."
Elrond fechou os olhos com pesar, sabendo a que tipo de liderança o jovem se referia, sabendo em qual imagem ele estava se espelhando para dizer o que dizia e em quais conceitos se baseava. Ele queria responder algo, dizer alguma palavra de conforto ao príncipe, mas não pôde, não pôde porque por fim entendeu o quão diferente a vida dos elfos da floresta escura era, o quão difícil era a batalha de seu dia a dia e o quanto pesava qualquer erro que cometessem. Ele admirava o príncipe por ter descoberto falha dele sem que ninguém o tivesse informado e em uma situação na qual poderia simplesmente saborear o fato de ter se saído vencedor. Legolas a cada dia provava mais seu valor diante dos lordes de Imladris.
"Desculpe, Legolas." Surgiu então a voz amargurada do menino Estel, cujos olhos azuis muito grandes, que ganhavam um tom acinzentado agora, eram poças tristes de água. "Foi culpa minha."
Mas o príncipe estava tão abalado que não conseguiu responder ao pedido do rapazinho. Ele parecia ainda estar vivendo um pesadelo, o pesadelo do que podia ter acontecido. Abraçado ao arco, odiava-se por não conseguir conter os soluços que lhe brotavam da garganta.
"Desculpe..." repetiu o menino perturbado com o silêncio do rapaz. Ele nunca tinha visto Legolas assim, o arqueiro agarrava o arco com tanta força que as juntas de seus dedos estavam esbranquiçadas. "Eu não queria te ver chorar."
O príncipe, não suportando mais as lamentações do menino, ergueu um braço para ele sem levantar a cabeça. Estel entendeu o recado e arrastou-se para perto o abraçando com carinho e se deixando ficar ali nos braços do elfo, chorando baixinho junto a ele.
Um vento morno surgiu então e Elrohir jogou-se ao chão cansado e arrependido.
"Eu fui muito idiota." Disse o elfo balançando a cabeça e escondendo o rosto nas mãos. Ele temia ter posto uma amizade de muito tempo e de uma importância incalculável como a de Legolas a perder. O pobre príncipe não resistira a suas investidas, como ninguém de brio poderia resistir, o que fazia do gêmeo o causador daquela queda, o causador de todo o sofrimento pelo qual o rapaz não tinha a necessidade de passar. "Sou o maior idiota de toda a Arda."
"Não..." Veio a voz do príncipe. Legolas ainda mantinha a cabeça baixa e os braços envolvendo o caçula de Elrond. "Pelo menos ensinamos uma lição ao nosso Estel." Ele disse por fim, erguendo o rosto marcado pela dor e soltando o rapaz, que moveu-se levemente abraçando-se agora ao pai. Elrohir achou quase insuportável olhar para ele. "Ensinamos como líderes não devem agir."
"E líderes perdoam?" Indagou o gêmeo mantendo seu olhar preso no do príncipe.
Legolas sorriu com tristeza.
"Só aos amigos." Ele disse erguendo timidamente uma mão para Elrohir, que a pegou de imediato, arrastando-se para perto dele e tomando-o nos braços.
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"Vivemos em um clima de incertezas..." Disse enfim o curador, analisando a lembrança que lhe acometera e pensando no significado que teria. Isso vai mudar." Ele assegurou. "Um dia tudo será diferente."
Legolas baixou os olhos, soltando a mão do curador e ajeitando-se tristemente sobre seus calcanhares.
"Vai." Concordou com um toque de descrença. A cortina de cabelos negros cobrindo-lhe mais uma vez a face. "Quando todos tiverem ido para os portos cinzentos. Quando não houver mais lugar para nós. Quando o mal tiver vencido."
Elrond teve um sobressalto. Ele segurou o rosto do jovem e o fez olhar para si. E naquele instante viu algo que temia ver. Ele viu que o espírito do arqueiro estava cansado, que a esperança ameaçava deixar novamente seu coração."
"Legolas..."
"Perdoe-me".O rapaz disse puxando o rosto e caindo no colchão apoiado em uma das mãos. Ele sabia que o elfo havia visto algo que ele não devia ter mostrado. "Perdoe-me, meu senhor. Foi apenas um desabafo de alguém que está longe de seu povo e não pode ajudar". Disse por fim ainda sem voltar a olhar o mestre.
Mas Elrond não aceitou as palavras do rapaz.
"Venha aqui, ion-nîn." Ele disse puxando o rapaz pelo braço e fazendo-o deitar a cabeça em seu colo. O curador recebeu-o com carinho alisando-lhe o rosto e os cabelos com as duas mãos. Os olhos de Legolas tinham um brilho e uma cor diferente agora e Elrond não conseguia saber se isso se devia ao fato de estarem envoltos como estavam por aquela noite sem estrelas na qual se transformara os seus cabelos ou porque algo estava realmente se passando dentro do rapaz.
Eram de um azul profundo, um azul que lhe lembrava algo, lembrava-lhe algo que ele ainda não tinha conseguido esquecer, por mais que tentasse.
E aquele azul sem fim transformou-se novamente em uma visão... transformou-se nas águas do Anduin e Elrond viu mais uma vez o mesmo corpo de um elfo louro boiando em suas águas em direção a cachoeira. Ele piscou várias vezes e sua respiração se acelerou ligeiramente. Aquela visão continuava perseguindo-o e o curador ainda não havia conseguido encontrar um significado para ela. Mas uma certeza o estava cobrindo de preocupação.
"Você já viu uma pássaro com uma asa quebrada, criança?" Ele perguntou então.
"Já vi vários, meu senhor." O jovem respondeu fechando os olhos, parecia cansado.
"O que acontece a eles?"
"Morrem." Respondeu o arqueiro prontamente.
"Morrem sempre?"
"Não." O príncipe parou alguns instantes reabrindo os olhos, parecia estar se lembrando de algo. "Uma vez eu encontrei um pássaro azul ferido. Um gato do mato o pegara e sua asa estava quebrada em dois lugares."
"E o que aconteceu?" Indagou Elrond deslizando os dedos pelos cabelos negros do rapaz.
"Eu o levei para casa e o escondi no meu quarto. Cuidei dele, da asa quebrada, dei-lhe comida no bico."
"E ele melhorou?"
"Sim. Ele ficou bom e um dia voou pela janela e nunca mais voltou."
Elrond fechou os olhos, sentia um grande peso no coração com as palavras do jovem arqueiro.
"E você se entristeceu com isso?" Indagou.
"Sim." Disse Legolas. "Mas pensei que talvez ele tivesse uma família e que precisasse voltar para eles. Talvez fosse um pai de filhotes... pensei em algo agradável para me consolar. Sempre funciona..."
Elrond riu com a sabedoria que habitava aquelas palavras tão simples.
"Ele voou porque precisava se sentir livre..." Disse então sentindo a cabeça de Legolas se mover em um movimento de concordância. "Meu pássaro também vai voar." Declarou por fim.
"O senhor tem um pássaro do qual está cuidando?" O rapaz perguntou automaticamente olhando para o curador.
Elrond riu da ingenuidade do arqueiro e acariciou-lhe a testa com as pontas dos dedos.
"Tenho".Ele disse segurando agora algumas mechas escuras do cabelo do rapaz entre seus dedos. "E ele logo vai voar muito alto. Só que eu espero que volte para me ver".
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Elrond caminhava em sua sala de estudos com um livro na mão. Ele tentava amargamente fazer o tempo passar enquanto aguardava o retorno do príncipe que decidira se banhar. O curador já pegara aquele livro da prateleira para tentar distrair-se com algo há muito tempo, mas continuava a caminhar pela sala sem conseguir sequer sentar-se para abrir-lhe as primeiras páginas. Na verdade nem sabia qual livro estava em suas mãos, pois sempre pegava um livro qualquer a esmo quando se sentia agoniado. Achava que os livros lhe traziam mensagens do destino e ao pegá-los sem atenção das prateleiras, várias vezes eles lhes proporcionavam muitas respostas.
Resolveu finalmente verificar qual título o acaso havia reservado para ele nessa tarde de espera e angústia. Ergueu então o volume e passou os olhos pelas letras douradas do título: "Manual de Magia e Feitiços". Elrond franziu a testa. Não havia nada para ler naquele livro que ele já não soubesse de cor. Eram apenas receitas e poções, feitiços e encantamentos. Uma doce recordação de mãos amáveis que o acolheram em um momento difícil de sua vida e lhe ensinaram tudo o que ele sabia. Lembranças de seu amigo e mentor Gil-Galad. Parecia que o destino dessa vez pregara-lhe uma peça. O lorde dirigiu-se até a prateleira para colocar o livro no lugar quando este subitamente caiu de sua mão. Elrond tentou apanhá-lo antes que atingisse o chão, mas não conseguiu ser tão rápido quando desejara. Quando se curvou para retomá-lo, lembrou-se repentinamente de toda a história desse livro tão antigo e impressionou-se mais ao ver que o mesmo caíra aberto exatamente na página cuja receita Legolas usara para transformar-se em Squirrel.
Passando os longos dedos levemente sobre o papel o curador foi enfim sentar-se em sua poltrona pensando no jovem arqueiro outra vez. Parecia que o príncipe elfo estava destinado a habitar os pensamentos do lorde de Imladris naquele dia.
Elrond perdeu alguns instantes relendo cuidadosamente as letras manuscritas da página, acompanhando cada traço, cada palavra enquanto se lembrava da trajetória triste que o príncipe percorrera, depois dele também ter lido aquela receita e ter feito uso dela para desaparecer da vida de todos que o amavam. Foram momentos difíceis então, anos de agonia durante os quais o curador procurou pelo rapaz sem descanso, sentindo a esperança de encontrá-lo com vida se esvair como o vinho que escapa por um barril trincado. Elrond então soltou um suspiro de alívio e fechou os olhos agradecido por aquele desespero ter encontrado um fim, por saber que o rapaz agora estava novamente sob seus cuidados.
Virou então a folha e surpreendeu-se mais uma vez, pois logo na página seguinte apareciam as palavras que compunham o encantamento que ele usara para aprisionar o espírito do jovem elfo de Mirkwood, naquele dia infeliz de seu retorno a Rivendell. Elrond passou a preocupar-se com a coincidência excessiva dos fatos e receou continuar folheando o livro. Julgava já tinha lido o suficiente para alimentar seus pensamentos por aquele dia todo.
Fechou o livro e os olhos então, apertando-os ao ouvir o som oco das folhas se encontrando. Ficou um tempo segurando o volume entre as mãos, pálpebras cerradas, tentando fechar também seu coração para as sensações tétricas que o estavam espreitando. Mas um frio lhe correu a espinha e ele voltou a abri-lo, questionando-se qual seria o conteúdo seguinte. O elfo respirou fundo e virou cuidadosamente mais uma página amarelada daquele antigo livro.
O destino, porém, sempre prega as suas peças. E para a maior surpresa de todas a que tivera naquele dia, Elrond deparou-se com uma página ilegível, um enorme borrão negro cobria tudo o que um dia pôde ser lido, todas as idéias e sensações daquela página. O curador franziu as sobrancelhas intrigado, mas logo se lembrou do porquê daquele estranho acontecimento. Uma vez o livro encontrava-se aberto sobre a mesa e Glorfindel acidentalmente derrubara o tinteiro por sobre ele. Felizmente o papel era grosso o suficiente para que a tinta não comprometesse as outras páginas, mas infelizmente aquela página em questão havia ficado ilegível. Elrond tentava arduamente se lembrar do conteúdo dela, mas não conseguia. Olhar para aquele enorme borrão negro não lhe agradou nem um pouco.
Um toque leve fez-se ouvir e o rosto de Glorfindel surgiu atrás da porta entreaberta.
"Jantar, Elrond?" Ele convidou.
"Mellon-nîn" Chamou o curador sentindo algo o incomodar terrivelmente. "Por favor, ajude-me aqui."
O louro guerreiro entrou sem pensar duas vezes e se aproximou com olhos intrigados. Não havia gostado do ar que Elrond dera ao pedido feito.
"O que houve?"
"Você se lembra qual receita estava nessa página do livro do meu mestre?"
Glorfindel franziu a testa sem entender. Sentia-se como se tivesse interrompido a conversa que o amigo tinha com alguém e Elrond subitamente desejasse continuar o assunto que tratavam com ele então, mesmo sabendo que o amigo tinha acabado de entrar.
"Que livro? Que receita?" Indagou confuso enquanto puxava uma cadeira e se sentava ao lado do curador.
"Magias e Feitiços." Esclareceu o lorde de Imladris com os olhos fixos no borrão, como se julgasse que fosse repentinamente revelar-lhe seu segredo. "Lembra-se que derramou o tinteiro por cima dessa página e..."
"Ah, Elrond... você nunca se esquece disso? Ainda não me perdoou... eu estava passando e..."
"Não... não... Eu só quero saber se você se lembra de qual era o conteúdo dessa página... ao menos sobre que assunto seria."
Glorfindel parou por alguns instantes pensativo. Parecia vasculhar todos os cantos de sua mente em busca da informação que o amigo precisava. "Não me lembro, mellon-nîn." Ele admitiu envergonhado. "Eu lamento ter danificado um presente tão precioso... Eu já lhe disse quanto lamento, mas nunca é demais repeti-lo sempre que necessário."
Elrond apoiou uma mão no ombro do bom guerreiro balançando a cabeça, para assegurar-lhe que estava tudo bem, mas ainda não conseguia deixar de olhar a página, cuja informação parecia realmente estar perdida para sempre.
"Eu conhecia esse livro de cor." Ele lamentou deslizando dois dedos por sobre a mancha escura.
"Já perguntou a Erestor?"
"Não." Respondeu o outro quando seus olhos reencontraram os do louro elfo. "Mas o farei"
O lorde então se levantou para repor o livro no lugar, aborrecido com o ocorrido. Se ele tinha a intenção de encontrar paz naquela sala ele se enganara completamente, pois acabaria saindo de lá mais perturbado do que entrou.
"Sabe se Legolas já desceu?" Ele indagou voltando a sentar-se perto do amigo.
"Não o vi. Ele resolveu voltar a ser ele mesmo?" Indagou o lorde louro sorrindo com amabilidade. "Estava me acostumando a não ser o único elfo de cabelos claros em Imladris."
"Receou um pouco." Respondeu Elrond acompanhando o sorriso do amigo, mas não conseguindo disfarçar a inquietação que sentia agora. "Mas me disse que retiraria o disfarce dos cabelos."
"Menino confuso." Lamentou o guerreiro. "Está sofrendo do medo que lhe faltava. Já temeu tudo nessa vida. Agora parece temer a si mesmo."
Elrond suspirou. "Ele é um bom rapaz. Tem seus motivos para tentar buscar uma alternativa para a vida que leva."
"Isso é verdade. Mas me questiono sobre o porquê dessas alternativas sempre incluírem a pobreza e o isolamento. Ele deve sentir-se plenamente insatisfeito com a vida de nobreza que levava em seu reino... haja vista que parece inclinado a recusar um lugar em sua família para tornar-se um servo, guardador de cavalos."
"Ele só está em busca de um pouco de paz... julga que vai encontrá-la entre os simples... talvez esteja certo."
"Os simples têm nossa tão almejada paz porque lhes falta conhecimento, meu caro Elrond. E você sabe bem disso... A partir do momento que se conhece a verdade ela passa a nos perseguir... independente de onde estamos ou de quem somos ou desejamos ser."
O curador balançou a cabeça em concordância. Ele bem sabia da verdade por detrás das palavras do sábio amigo, e tinha certeza de que Legolas também amargava tal conhecimento. Realmente quanto mais os fatos se esclareciam, mais confusos pareciam ficar.
Nesse momento um dos elfos da guarda do pátio entrou afoito na sala. Elrond e Glorfindel olharam para ele de forma questionadora.
"O que se passa?" Indagou Glorfindel intrigado.
"Meus amados lordes," Disse o rapaz confuso, inclinando-se em sinal de respeito. A mão no peito tremia e o rosto estava totalmente sem cor. "Um dos nossos elfos foi morto."
Elrond arregalou muito os olhos e encarou os outros dois elfos por alguns minutos, como se julgasse não ter compreendido bem o que ouvira.
"Como assim?"
"Encontramo-lo morto atrás de uma grande árvore." Disse o jovem elfo contendo as lágrimas que queria derramar.
Os dois lordes voltaram a se olhar com mais gravidade agora e Elrond colocou a mão por sobre o peito sentindo o coração doer. Nunca ninguém havia morrido em Imladris e aquela era a pior notícia que recebera. Sentiu-se atordoado, sem saber o que fazer e quando se deu conta o amigo Glorfindel o estava puxando pelo braço para fora da biblioteca. Os dois já estavam quase na porta principal quando o curador teve um mau pressentimento.
"Soldado." Ele chamou parando por alguns instantes. O guarda fez o mesmo olhando para seu senhor. "Qual era o posto do elfo que perdemos?"
"A entrada sul, meu senhor, perto da parede dessa casa."
Elrond fechou os olhos por alguns instantes e um tremor lhe acometeu. Legolas, menino... diga que não abriu a porta da sacada.Ele pensou por um segundo, correndo depois escada acima e chamando pelo elfo em voz alta. Glorfindel não compreendeu, mas acompanhou o amigo subindo os largos degraus. Quando chegaram à frente da porta do príncipe Elrond percebeu que estava trancada. Ele voltou-se para os demais e fechou os punhos.
"Legolas não gosta de ambientes trancados, não é mesmo?" Indagou o lorde louro, apenas para confirmar a veracidade dos maus pensamentos que tinha, mas não esperou uma resposta, apanhou uma das adagas do guarda e, tomando uma pequena distância, atirou-se contra a porta sem pensar. Elrond entrou logo atrás dele.
"Iluvatar." Exclamou o curador. A porta da sacada estava completamente aberta e um vento forte entrava por ela.
Glorfindel entrou e vasculhou inutilmente o quarto. Elrond sequer o acompanhou. Ele sabia o quão tarde haviam chegado.
"O vento da tempestade" Constatou o senhor de Rivendell encostando-se no batente e colocando ambas as mãos por sobre o rosto. Como das outras vezes seus pressentimentos faziam sentido tarde demais. Tantas mensagens lhe haviam sido enviadas. O rapaz queria ficar disfarçado, temia ficar em seu quarto, temia abrir a porta da sacada. Legolas sabia, de certo recebera o aviso divino de que corria perigo e tentava encontrar uma solução dentro da simplicidade de alguém que começava agora a amargar os pressentimentos de um futuro infeliz.
"Dê o alerta." Gritou então Glorfindel e o elfo que ainda os acompanhava saiu rapidamente do quarto. Elrond caminhou finalmente até a sacada e segurou-se na madeira dura do peitoral, procurando conter o desespero que queria roubar-lhe a razão. O vento ficava cada vez mais forte e o céu cobria-se por espessas nuvens negras. Glorfindel apoiou uma mão em seu ombro. "Vamos encontrá-lo." Garantiu dando-lhe uma leve sacudida. "Ele na certa já tinha se banhado, está com os cabelos dourados novamente. Não vão conseguir tirá-lo daqui sem que o achemos."
Elrond acenou em concordância, mas seu coração não conseguia acreditar, algo dentro dele o encaminhava diretamente para aquelas visões horríveis que tivera. O pássaro não havia voado... Ele havia sido capturado.
"Se pelo menos soubéssemos quem eram..." Lamentou-se Glorfindel olhando também para o horizonte escuro. Nenhuma estrela conseguia fazer com que seu brilho transpassasse aquela densa camada de nuvens e tristeza.
Nesse momento uma folha seca da árvore do príncipe voou caindo no ombro do guerreiro que ergueu o olhar e sorriu com tristeza. "É minha amiga," disse o elfo encarando as poucas folhas que ainda restavam nela e que pareciam simbolizar os restos de esperanças que ainda permaneciam. "Se árvores falassem tenho certeza que você nos ajudaria a encontrar o seu mestre, não é?" Ele afirmou pousando uma mão firme no áspero tronco e sentindo subitamente algo que nunca julgou possível. "El...Elrond.." Ele balbuciou sentindo então a mão do amigo apoiar-se em seu ombro antes de ambos serem tragados para dentro de um outro tempo.
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"Olá, príncipe Legolas." Disse uma voz fazendo o rapaz que agora calçava os sapatos sobressaltar-se, erguendo-se de imediato. "Muito bom vê-lo de novo. Diga 'olá' para um dos membros de sua guarda, meu bom príncipe."
"Hawk... Heron..." Ele disse afastando-se um passo para trás. Heron mantinha um dos guardas sob a ameaça da sua adaga.
"Sentiu nossa falta?" Indagou o mais velho dos irmãos caminhando até a porta e girando a chave para depois guardá-la em um dos bolsos. Só aquele movimento já tomou o pouco ar que o arqueiro queria desesperadamente respirar. Legolas piscou várias vezes como se julgasse estar sonhando. Como eles haviam conseguido chegar até ali? "Não vai gritar, vai?" Indagou pressentindo as intenções do rapaz e aproximando-se mais dele. "Não quer que façamos esse inocente elfo aqui sofrer, quer?" Ele sorriu erguendo uma mão para tocar no rosto do príncipe que se esquivou no mesmo instante.
"Como... como chegou..." O rapaz quis perguntar.
"Eu gostaria muito de conversar com você, principezinho." Interrompeu Hawk com um sorriso. "Mas não temos muito tempo." Ele avançou então pressionando o rapaz contra parede e encostando uma folha de cor estranha em seu lábios. "Vamos, mastigue isso e eu deixo o elfo viver."
Legolas virou o rosto contrariado. "Como pretende sair daqui?" Indagou descrente.
"Não tenho tempo para conjecturas, meu brinquedo." Insistiu Hawk segurando agora os cabelos molhados do rapaz. "Não me obrigue a ter trabalho com você e sujar minhas mãos com mais sangue inocente. Você já não viu amigos o suficiente perderem suas vidas por sua causa?"
Aquelas palavras arremessaram o jovem elfo louro para um passado que ele queria esquecer, mas que ultimamente parecia persegui-lo, um passado que Celeborn recentemente o ajudara a descobrir. O arqueiro dirigiu seu olhar para o elfo prisioneiro, que parecia já ter desistido de se debater nos braços de Heron. O pobre soldado na certa fora golpeado, pois sangue escorria de sua cabeça fazendo tristes caminhos por seu rosto. O guarda, por sua vez, retribuiu ao olhar do elfo de Mirkwood com integridade, ele não transmitia receio ou temor, apenas a tristeza de sentir-se responsável pela situação em que estavam. O soldado moveu a cabeça quase imperceptivelmente, parecendo querer assegurar ao jovem príncipe que este poderia tomar a decisão que julgasse mais apropriada e que, se preciso fosse, ele morreria dignamente. Legolas fechou os olhos sentindo que parecia fadado a reviver sempre as mesmas terríveis emoções. Mas dessa vez a ameaça era dirigida apenas a ele e por isso não havia necessidade de arriscar a vida de um outro alguém. Se Heron e Hawk o queriam, na certa o levariam para fora de Imladris, mas se ele revidasse, se gritasse, atrairia outras pessoas para o quarto, pessoas que poderiam ser feridas. Ele temeu então pela segurança dos amigos, não sabia ao certo se os irmãos sulistas haviam trazido algum reforço.
"Prometa que vai deixá-lo ir." Disse então olhando novamente para o elfo prisioneiro.
Hawk sorriu trazendo o rosto para bem perto do de Legolas, que virou a face engolindo a saliva com dificuldade e tentando superar o mal estar que sentia com a proximidade daquele elfo.
"Sempre preocupado com os outros..." Ele saboreou as palavras. "Logo vai perceber que isso é uma tolice."
"Prometa." Repetiu o príncipe apertando os olhos ao sentir a mão de Hawk deslizando em seu peito, enquanto a outra aproximava a folha ainda mais de seus lábios.
"Coma e eu o libertarei."
Legolas voltou a fechar os olhos e esvaziou os pulmões, elevando seu pensamento a Iluvatar e pedindo apenas que nenhum mal fosse feito a Elrond e aos seus. Em seguida desprendeu os lábios para a surpresa dos dois arqueiros e Hawk colocou a folha dentro da boca do príncipe. Legolas mastigou-a tentando reconhecer-lhe o gosto, mas não conseguiu, a única coisa que sentiu foi uma estranha dormência em seu corpo e a sensação de que tudo virara sonho.
"Muito bem, jovem príncipe." Disse Hawk alisando-lhe os cabelos sem receber mais nenhuma reação de repulsa ou defesa. Os olhos de Legolas estavam opacos e suas pálpebras semicerradas. "Tudo vai ficar muito bem agora, venha." Ele terminou jogando um manto por sobre as costas do arqueiro e conduzindo-o até a sacada.
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A última imagem que os lordes de Imladris viram foi a de Heron oferecendo um sorriso cínico ao refém que fizera, antes de cortar-lhe a garganta e atirá-lo sacada abaixo.
