Olá. Caminhamos para os momentos finais de VIDAS E ESPÍRITOS.
Esse capítulo é dedicado a uma excelente escritora americana chamada Ithilien, cuja idéia principal que utilizei é criação puramente de sua mente talentosa e não aparece em parte alguma da obra do professor. Agradeço a você, Ithilien, apesar de saber que não poderá ler o meu português, a generosidade de me permitir utilizar a sua galenolas com toda a história que acompanha essa planta mortal. Para os que lêem inglês, Ithilien tem fics fabulosas que merecem ser lidas. A concepção da galenolas e sua história foi retirada de um desses trabalhos fantásticos chamado HEART OF DREAM, que, apesar de alguns momentos um tanto pesados (fãs do Aragorn e do Legolas em especial talvez não apreciarão), mostrou uma concepção de bem e mal muito diferente da que eu conhecia. Vale a pena ler, com a mente aberta, e atentando especialmente para a fantástica Galadriel da Ithilien.
Também quero aproveitar para dedicar a minha rememoração a duas pessoas também muito importantes: A minha filha Beatriz (que se deliciou ao descobrir finalmente porque Legolas escolheu ser chamado de Squirrel quando se disfarçou) e a maravilhosa Nim (que me pediu um momento desses há muito tempo. Amiga, eu não esqueci!).
Mas dedicações e agradecimentos, se fossem feitos como meu coração manda, deveriam incluir uma lista imensa, pois todos vocês são parte desse texto que escrevo e reescrevo, cada comentário que leio acrescenta algo ao capítulo seguinte. Por isso só posso agradecer àqueles que reservam um tempo para compartilharem suas opiniões ou apenas para me fazer saber que ainda estão acompanhando. Qualquer palavra vinda de vocês me traz grande felicidade.
Obrigada.
A essas incríveis e corajosas escritoras:
Lady-Liebe – Sinto saudades amiga, de verdade. Ainda recomendo, sem restrições, as short fics fantásticas da Liebe.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Misao me disse que está com cinco capítulos engatilhados dessa maravilhosa fic. Não agüento a expectativa e acredito que muitos também não agüentem. Curioso como a cena do pássaro do meu capítulo anterior fez com que muitos se lembrassem dela. Eu comentei isso com ela e acho que a motivação despertada pela certeza das saudades que temos de seus textos, agora a motivou de vez a continuar. Estamos aguardando, amiga.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN". Momentos decisivos parecem estar fazendo parte de todas as fics. Haldir está pagando seus pecados para ter sua Darai (minha eterna Cabelos Negros) de volta. Resta-nos saber se o nosso orgulhoso elfo vai se prestar a um papel que difere totalmente de sua cultura e princípios para conseguir que a mãe de seus filhos volte para Lothlorien. Myri, uma das escritoras mais fantásticas que já tive o prazer de conhecer, está se superando nesses momentos de suspense e tensão. Quem de vocês ainda não leu a Paixão?? Acho que todos já estão acompanhando, não estão? Se não, corram, estão perdendo os melhores momentos dessa grande fic. Parabéns, Myri e meus eternos agradecimentos pela sua sempre tão sincera e dedicada ajuda.
Nimrodel Lorellin – O capítulo novo de "CRÔNICAS ARAGORNIANAS" está para sair entre hoje e amanhã. Minha fic de cabeceira está cada dia melhor. Nim é sinônimo de poesia e paixão. Seu Estel e seus gêmeos são indescritíveis, adoráveis e inesquecíveis. Não sei o que será de mim depois que essa fic acabar. Vou me sentir incompleta. Lembre-se disso Nim!!! E vá pensando na sua continuação ou em outra fic para me compensar o prejuízo de ter que deixar as maravilhosas crônicas para trás. Eu leio e releio esses capítulos sem nunca me cansar e vocês, com certeza, devem sentir o mesmo. Quem ainda está de bobeira e não deu atenção a essa fabulosa escritora realmente não sabe o que é ter com o que sonhar. Leiam as Crônicas e descubram. Beijos, minha querida amiga!!
Vicky Weasley: "BITTERSWEET" ainda não foi atualizada. Tudo bem, Vicky, já li tudo o que você escreveu. Agora não me resta mais nada a não ser me preocupar com o seu silêncio. O que está havendo, amiga? Escreva-me e não desapareça. Não podemos aceitar que uma fantástica fic como a sua fique sem atualização por tanto tempo. VICKY!!!
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE". Continua me deixando sem ar. O capítulo mais recente superou-se. O presunçoso Legolas da Ju parece finalmente estar começando a entender o que existe por trás das aparências. Espero que não seja tarde para isso. Ju está cada dia melhor. Seus textos, suas descrições, a emoção em cada letra, em cada palavra, nos deixa sem saber o que dizer. Adoro sua fic, amiga. Parabéns.
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Continua me deixando na saudade. Lali!!! Cadê você? Isso é algum complô? Pessoal, temos tão poucas fics do SdA, não podemos ficar parados, temos que nos mexer ou esse fantástico trabalho vai se perder. Vamos Lali, sua fic é fabulosa, continue!!
Kika-Sama: "APRENDENDO". Com certeza é um complô. O que essas escritoras andam fazendo? Kika!!!
Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Continua sendo reescrita. Eu prometi dar o tempo que a Chell precisa, mas confesso que estou me desesperando de curiosidade. Não demore, amiga!! Beijos.
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Continuamos aguardamos ansiosamente pelo capítulo 4. O Legolas precisa resolver seus problemas ou vamos morrer na expectativa. Não demore, amiga.
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". O que será que vai acontecer com essa elfa corajosa? Ainda aguardando. Não demore, amiga!!! Super obrigada pelas suas belas palavras na review.
E a outras pessoas tão especiais quanto:
Syn, the time keeper. Review maravilhoso você me mandou. Agradeço suas palavras e a emoção que você me transmitiu. Espero que o meu personagem corresponda a suas expectativas. Agradeço sempre sempre sempre sua consideração. Beijos e obrigada.
Regina – Regina sumiu de novo... Espero que você esteja bem, amiga. E sua fic? Desistiu? Espero que não.
Botori – Oi! Você apareceu!! Que bom. Ficaria muito triste em pensar que minha melhor leitora, uma das primeiras, estava deixando minha fic de lado. Que bom mesmo que não foi nada disso e que você ainda está comigo. Super obrigada.
Aeka – Que bom que você apareceu!! Fico super feliz. Espero que suas férias tenham sido boas e que continue acompanhando esses momentos finais. Obrigada pela review.
Leka – Me deixou sem sua review dessa vez, amiga. Espero que esteja tudo bem. Beijos
Soi – Que continua me mandando reviews maravilhosas. Fiquei feliz em ver o quanto o meu capítulo te tocou fazendo com que você até se identificasse com o hábito do Las. Confesso que eu mesma tive uma pontinha de inveja do Elrohir. Afinal, por acidente ou não, deve ser muito bom ser abraçada por esse elfo louro.
Lali-chan– Fiquei sem seus comentários dessa vez. Ainda aguardando um final feliz? Beijos.
Veleth– Uma leitora nova cujas reviews me agradam demais. Eu gosto muito do jeito que você vê a minha fic. Espero que ela continue correspondendo as suas expectativas. Obrigada mais uma vez.
Belle Malfoy – Espero que a fic continue te agradando. Beijos
Pink na – Uma nova leitora que me deu o prazer de deixar sua review. A Pink pessoal é uma fã incondicional do HP que está com uma fic engavetada e precisa de incentivo para deixar que tenhamos o prazer de lê-la. Vamos lá, Pink!! Eu conheço bem seu potencial. Tenho certeza de que vai valer a pena. Beijos e obrigada pela review.
Daphne Pessanha "Arabella" – Uma nova leitora que começou a ler a fic agora. Que coragem! E eu pensando que no capítulo 30 ninguém mais iria ter coragem de começar... Que bom engano, que engano agradável. Obrigada pelos seus comentários Daphne. Aguardo sua fic também.
Roberta – Alguém a quem admiro muito e me surpreendeu por reservar um tempo em sua atribulada agenda para ler minha fic. Super obrigada, amiga pelo seu incentivo e comentários. Sua opinião pesa muito para mim.
Bem, vamos ao capítulo agora. Em Valfenda, nossa amada Rivendell, um grupo aflito pensa em como resgatar um certo elfo louro...
OBS: a censura desse capítulo subiu para R. não devido à cenas fortes, mas mais por precaução por causa de algumas insinuações que ocorrem. Agradeço a compreensão.
32
"Ada!!!" Surgiram as vozes desesperadas dos três filhos, e Elrond, sentado a mesa, deitou a testa por sobre as mãos sobrepostas, antes mesmo que aqueles rostos aflitos aparecessem na sala de estudos. Como iria explicar o que tinha acontecido a eles?
Em instantes os gêmeos e Aragorn entraram seguidos por Halbarad e Skipper. Porém, ao sentirem o clima que imperava no local, eles não ousaram proferir todo o discurso que estava sufocando seus corações angustiados.
"Ada..." Disse Elladan com cautela, enquanto se aproximava do pai, que continuava imóvel na posição onde estava.
Halbarad pigarreou e olhou para Skipper, aquela subitamente parecia ter se transformado em uma situação de família.
"Bem..." Disse o velho guardião. "Eu e Skipper vamos esperar lá fora." Ele completou colocando a mão no ombro do amigo e dirigindo-se para a porta.
"Espere, mestre Halbarad." Pediu Elrond erguendo o rosto e encarando finalmente os presentes. "Peço desculpas por meu estado, meu bom amigo." Ele esfregava o rosto com as palmas da mão agora. "Fomos pegos de surpresa e ainda estamos discutindo que atitude tomar. Fiquem e perdoem-me por minha fria recepção."
"Não há o que perdoar, meu bom senhor de Imladris." Disse Halbarad ainda com a mão apoiada no ombro de Skipper. "Nós também guardamos em nossos corações um grande carinho pelo príncipe Legolas, portanto entendemos bem sua amargura."
Elrond suspirou e de seu olhar escapou enfim o brilho do desespero que o corroia, mas o curador apenas ergueu as mãos indicando que os visitantes podiam se acomodar. Elladan puxou uma cadeira e sentou-se perto da mesa, segurando a mão do pai. Ele estava preocupado com Legolas, mas também lamentava os momentos difíceis que Elrond estava passando. Todos os problemas diplomáticos continuavam tirando-lhe a paz e, desde que Legolas surgira em suas vidas, ele se transformara em um dos poucos pontos fracos do líder de Imladris.
"Nós vamos achá-lo, ada." Garantiu o rapaz.
Mas infelizmente aquelas eram palavras de esperança nas quais o lorde elfo não conseguia se apoiar. Ele ainda não se perdoava pelo que tinha acontecido com o rapaz sob o seu teto. Não fora para aquilo que Elrond o havia retirado de Mirkwood. Não fora para aquilo que ele o havia afastado do pai e da terra natal.
"Nós vamos, ada." Reafirmou o filho. Mas Elrond sentia a conflito do ouvir aquelas palavras de certezas em um tom de total descrença. O curador olhou finalmente para o rapaz e, sentindo a angústia nos olhos escuros do filho, limitou-se a apoiar a palma no rosto dele e oferecer-lhe um sorriso de concordância. Uma máscara que à poucos convencia.
Glorfindel entrou sem bater e surpreendeu-se em encontrar a sala cheia.
"Mae govannen." Disse o lorde louro baixando os olhos e caminhando por entre os presentes. Ele também, como muitos elfos, não apreciava o convívio com humanos, por melhores que fossem seu caráter.
"O que está fazendo, lorde Elrond?" Indagou Aragorn cumprimentando brevemente Glorfindel enquanto se controlava ao máximo para preservar sua imagem de guardião. Ele confiava em Skipper, mas ainda não se sentia seguro o bastante para lhe revelar certos segredos.
"Escrevendo uma mensagem." Respondeu o pai voltando a apoiar as mãos por sobre o papel a sua frente e soltando um breve suspiro.
"Para quem?" Indagou o guardião.
Elrond voltou a esconder o rosto atrás das palmas e Elladan colocou uma mão em seu ombro preocupado.
"Ada, o senhor precisa descansar." Aconselhou o filho. "Erestor disse que o senhor não dormiu desde sua chegada de Lothlorien. É uma viagem muito cansativa."
"Estamos todos cansados, ion-nîn." Admitiu o pai apoiando os cotovelos na mesa e esfregando as têmporas. "Mas o tempo nunca correu tanto contra nós como está correndo hoje."
"Como assim, ada?" Indagou Elrohir que ficara em pé próximo a Glorfindel. O louro guerreiro apoiava uma mão em seu ombro agora. "Ada, o que o senhor sabe e não está nos dizendo?"
"Saber, eu pouco sei, ion-nîn. Mas minhas conjecturas não são das melhores."
"Para quem o senhor está escrevendo?" Indagou novamente o guardião que nunca esquecia uma pergunta feita.
Elrond lançou-lhe um olhar cansado. Em seguida voltou a encarar o papel a sua frente.
"Para o rei Thranduil, Strider." Admitiu Elrond com tristeza, enquanto deslizava os olhos pelas mal-traçadas linhas que com muito custo conseguira preencher no papel amarelado.
"Como assim?" Surgiram tantas vozes em questionamento que o lorde elfo sequer conseguiu atribuir de quem seriam. Elrond apenas ergueu os olhos e encarou os presentes uma vez mais. Todos lhe lançavam olhares de indignação e repulsa e franziam suas testas profundamente, demonstrando de forma clara, que havia uma concordância involuntária unindo aqueles seres tão diferentes.
"Parece que o pai de Legolas não é muito popular." Comentou Glorfindel colocando-se dessa vez de costas para os presentes para que não pudessem ver o ar de satisfação que enfeitava seu rosto agora.
"Não estou escrevendo para o pai de Legolas." Declarou Elrond não conseguindo esconder sua insatisfação com a atitude dos presentes, embora conseguisse compreender o motivo óbvio de tudo aquilo. Encostou-se na cadeira, voltando a pressionar as têmporas.
"Certamente não está, se essas linhas que escreve se destinam ao rei da Floresta Negra, meu nobre Elrond." Adicionou Halbarad que sempre deixara claro sua antipatia pelo rei de Mirkwood. "Aquela figura arrogante decididamente não pode ter relação alguma com a doçura e nobreza do príncipe Legolas. Se não soubesse da excelente reputação da mãe do rapaz eu me apegaria a pensamentos mais mórbidos que esses, com certeza."
"Halbarad!" Indignou-se Aragorn julgando a atitude do amigo deveras insensata para a situação em que se encontravam.
"Sou obrigado a concordar." Arriscou-se Skipper com os olhos baixos enquanto coçava a barba curta e esfregava um dos pés no chão. A impaciência e o constrangimento do velho capitão tinham muitos porquês. "Essa criatura não pode ser de grande ajuda, meu sábio e bom anfitrião."
Elrond desprendeu os lábios para responder, mas sentiu seu coração indignar-se ainda mais ao ouvir o riso abafado do amigo louro, cujo rosto ainda estava voltado para a fria e cinzenta paisagem que entristecia aquela nova manhã.
"Glorfindel! Estamos em uma situação muito delicada." Exacerbou-se o lorde elfo apoiando ambas as mãos por sobre a mesa e olhando para os presentes com gravidade. O amigo guerreiro, porém, não se intimidou, permanecendo na mesma posição.
"Peço desculpas, lorde Elrond." Declarou enfim Halbarad procurando apoiar aquelas palavras no desejo de fazer com que o cansado Elrond se sentisse um pouco melhor e não no significado delas propriamente; porque, na verdade, ele realmente não lamentava palavra alguma que dissera, muito pelo contrário, havia um vocabulário inteiro de expressões e idéias ainda piores que ele gostaria de utilizar para referir-se ao rei de Mirkwood.
Skipper tossiu um pouco e finalmente se sentou no lugar proposto por Elrond. Ele sabia que devia seguir o bom exemplo de seu comandante e também se desculpar, mas, diferentemente de Halbarad, o bom caçador não tinha espírito para ironias e brincadeiras. Ele julgava que, se realmente surgisse à necessidade de reencontrar o rei de Mirkwood, seria somente para colocar ambas as mãos em seu pescoço e nada além disso.
"Por que motivo escreve para o pai de Legolas, ada?" Indagou Elladan voltando seus olhos para o papel por sobre a mesa.
Elrond olhou uma vez mais para Elladan, tentando entender porque o filho fingira não ter ouvido a última afirmação que fizera.
"O que quer com o pai de Legolas, ada?" Repetiu a pergunta o mais velho dos gêmeos olhando diretamente para o pai agora. Elrond deixou-se prender naqueles olhos escuros por alguns instantes e finalmente entendeu o que seu primogênito queria transmitir-lhe. Legolas tinha um pai e Elrond não podia mais tomar aquele lugar que não era dele. Era realmente chegada a hora de informar não só ao rei de Mirkwood que suas terras corriam perigo, mas também ao pai do príncipe que seu filho fora seqüestrado.
"Levaram o príncipe de Mirkwood." Disse então o curador com grande pesar. "Mas sabemos que, apesar desses estranhos inimigos terem intenções obscuras para com o rapaz, eles também o querem para usá-lo como peça principal em um jogo muito maior. E esse jogo envolve o reino da Floresta Escura e, assim sendo, envolve o seu dirigente."
"Não entendo" Elrohir aproximou-se. "Legolas já demonstrou não ter intenção nenhuma de ajudar a esses canalhas. O que esperam dele? Como acreditam que podem fazê-lo mudar de idéia?"
"Essa é uma dúvida que me atormenta, ion-nîn. E parte de um grande temor que sinto crescer dentro de mim. Um temor que se baseia em certas conjecturas que tenho e que, apesar de desejar que sejam improváveis, continuam a me perseguir."
"Do que está falando, Elrond?" Voltou-se finalmente o guerreiro louro dando um passo para perto do amigo curador. "Teve mais alguma visão?"
"Não, meu caro Glorfindel." Respondeu o curador erguendo-se e parando em frente ao lorde louro de Imladris. "Ainda amargo a visão que compartilhamos."
"E o que seus olhos virão que aos meus fugiu?"
Elrond baixou a cabeça e se dirigiu até a janela apoiando ambas as mãos no parapeito.
"Ada..." Impacientou-se Elrohir traduzindo o grito que todos pareciam conter em suas gargantas naquele instante. "O que o senhor viu?"
Elrond sentiu todos os presentes se levantarem de seus lugares e um leve tumulto surgir. Uma mistura de emoções parecia dominar o local e o ar estava cada vez mais pesado. O curador voltou-se então e enfrentou novamente os olhares conhecidos a sua frente.
"Conte-nos o que sabe, senhor." Insistiu Aragorn. Seus olhos azuis refletiam agora o triste e mórbido cinza que a tempestade deixara no céu e continham uma grande apreensão, um desejo de abraçar-se ao pai que parecia realmente abalado. "Divida esse peso conosco para que possamos ajudá-lo."
Elrond acalentou-se com as palavras do filho e encheu os pulmões.
"Essas criaturas." Ele começou apreensivo. "Heron e Hawk."
"Sim." Indignou-se Halbarad ao ouvir aqueles nomes. "Sulistas miseráveis. Bem sabemos que não devemos confiar em qualquer desgraçado que venha de tal região."
"Não são sulistas, mestre Halbarad." Revelou Elrond sentindo que aquela afirmação somava-se desastrosamente a já tão violenta torrente de emoções que inundava o local. "Queriam que pensássemos que o eram... Eles são semeadores..."
"Semeadores?" Indagaram alguns.
"Semeadores do pior tipo..." Completou Elrond sentindo novamente a coragem lhe faltar.
"Semeadores da discórdia." Finalizou Glorfindel adivinhando o pensamento que afligia o amigo.
"Charadas..." Bufou Skipper zangando-se por não compreender coisa alguma desde que entrara no local.
"São uma farsa." Tentou esclarecer Elrond. "Querem que pensem que são sulistas, querem que pensem que são humanos..."
"Não são humanos?" As vozes novamente indagaram em uníssono.
"O que são estas pestes?" Impacientou-se Halbarad dando um passo à frente e apoiando-se na mesa principal. "Que diabruras são eles? Que seres das profundezas podem se disfarçar tão bem a ponto de enganar-nos?"
Elrond baixou os olhos entristecido. As palavras "seres das trevas" nunca tiveram tal associação".
"Quem foi que o enganou durante todos esses anos, meu amigo Halbarad?" Esclareceu então o curador sentindo que a comparação seria muito injusta, embora fosse verdadeira. "Quem se escondeu em seu grupo, defendeu os objetivos dos dunedain com bravura sem que qualquer um de vocês questionasse sua origem?"
"Squirrel" Respondeu Skipper mordendo os lábios e irritando-se mais uma vez por se sentir cada vez mais perdido. "Mas o que Squirrel tem a ver com..."
"Elfos??" Indagou Elladan e Elrohir em uníssono. "Eles são elfos?"
O silêncio fúnebre da confirmação se fez e todos sentiram o amargor de uma grande decepção. Elladan voltou a sentar-se e Elrohir apoiou uma mão no ombro do irmão. Glorfindel, a quem a verdade já havia sido revelada anteriormente, limitou-se a se aproximar dos dois e oferecer sua presença como um sinal de apoio.
"Não podem ser..." Disse Elladan balançando a cabeça e apertando um dos braços da poltrona em agonia. "Que elfo se proporia a tal veleidade... a ato tão... vil..."
"Nenhum, ion-nîn." Respondeu Elrond agachando-se em frente ao filho e buscando o olhar do rapaz. Elladan sentia-se sem rumo, como se tivesse sido acertado inesperadamente e sequer conseguisse compreender onde lhe doía. "Nenhum... apenas..."
"Pobres criaturas iludidas..." Repetiu Elrohir a fala que ouvira e não compreendera e que agora soava em sua mente como um sino descompassado, que dobrava em momentos alternados e inesperados."
"Iludidas?" Repetiu Aragorn aproximando-se também e apoiando uma mão no ombro do irmão mais velho, que continuava parecendo ter dificuldades para digerir tão indigesta informação. Elladan ainda sacudia a cabeça e as órbitas de seus olhos giravam como se ele lesse uma grande parede de hieróglifos e os tentasse decifrar.
"Como se ilude um ser do Belo Povo?" Indagou Halbarad confuso, sentindo como se houvesse caído de seu cavalo em uma terra distante cuja língua e costumes eram completamente diferentes dos seus. "Como enganar alguém com tamanha vivência e sabedoria."
Elrond ia responder, mas Elladan ergueu-se de súbito, como se tivesse sido atingido por um raio e passou a correr as estantes. Ele estava dominado por uma idéia que o afligia de tal forma que seu corpo parecia brilhar.
"Ser nenhum pode enganar a um elfo a ponto de fazê-lo agir contra a sua vontade." Disse o jovem curador ainda envolvido em sua busca. Seus olhos corriam os títulos antigos e sua respiração ofegava. "O que pode acontecer é que se faça com que..." Ele parou com receio de que, ao proferir tal pensamento sinistro, pudesse transformá-lo em realidade.
"O quê?" Insistiu Elrohir com os olhos fixos nas costas do irmão que parara subitamente sua busca e apoiava a mão por sobre um lugar vazio na estante.
"Com que a pobre criatura se iluda com seus próprios pensamentos." Completou o elfo com uma súbita tristeza. A consciência do pesadelo real o abatia em cheio agora.
"Já descobriu, ion-nîn." Afirmou Elrond não conseguindo disfarçar o orgulho que sentia pelo conhecimento que o filho acumulara durante todos esses anos.
Elladan, voltou-se receoso para encontrar o que temia. Elrond segurava em suas mãos o exemplar que ele buscava. Era a confirmação de que histórias tristes do passado podem saltar das páginas de um livro e se transformarem na mais cruel das realidades.
Em uma esperança vã, o filho ainda lançou um olhar de angustia ao sábio curador. Um pedido desesperado de que o pai o despertasse de um amargo pesadelo. Mas Elrond pressionou os lábios fechados, em um reflexo que dizia mais do que muitas palavras. Elrond atestava a realidade crua que Elladan via com todos os detalhes, demonstrando que, de sua boca, nada poderia ser dito para provar o contrário.
"Galenolas" A palavra fugiu da boca do jovem elfo junto a um suspiro. "Diga que estou enganado, ada. Diga que não estão... que não usaram... que não vão usá-la com..."
Elrond baixou os olhos voltando a colocar o livro por sobre a mesa. Seus dedos deslizaram pela capa dura e depois encontraram novamente a carta que tentava escrever. Havia tanto a ser feito e eles estavam sem tempo. Era um momento de duras escolhas no qual deixar algo para trás poderia significar perdê-lo para sempre, no qual desviar-se de um caminho poderia advir no risco de nunca mais encontrá-lo e ignorar aos avisos do destino, a certeza de surpreender-se com ele impreterivelmente.
"Acredito que não tenhamos tempo para cartas..." Ele disse por fim.
"Como assim?" Indagou Glorfindel franzindo a testa.
"Não escreverei mais, mellon-nîn. Junte os elfos, forme o exército. Enviarei o aviso a Celeborn também. Estamos em um momento derradeiro. Não há mais espaço para a diplomacia."
"Mas Elrond..." Quis argumentar o guerreiro, entretanto o ar de decisão do amigo aplacou todos os ânimos do nobre soldado. Glorfindel apenas se curvou em uma reverência e saiu, Elladan acompanhou-o, ambos compartilhavam agora da mesma sensação de agonia e desespero que Elrond tentava com muito custo ocultar.
Aragorn acompanhou a saída repentina dos dois elfos intrigadíssimo e buscou esclarecimentos nos olhos do irmão, mas Elrohir compartilhava a mesma sensação de ignorância do caçula.
"O que é galenolas?" Surgiu então a questão esperada. Mas Elrond já estava voltado novamente para papel e tinteiro. Ele escrevia uma mensagem para o sogro. "ADA!!!" Gritaram os dois em uma só voz. Aragorn esquecera-se por vez de quem era, mas isso passara completamente desapercebido por Skipper, que também buscava a ponta do fio que o levasse para fora do entroncado labirinto onde estava.
Elrond sobressaltou-se manchando o papel com a pena. Em seguida fechou os olhos e esvaziou os pulmões. Aquele era um dos piores dias de sua vida.
"Galenolas, ionath-nin." Iniciou então, satisfeito por Skipper não conhecer a língua élfica, quando ele mesmo deslizava em seus pronomes de tratamento. "Galenolas é um instrumento de sedução... que tem uma longa e triste história em seu passado."
Todos sabiam que aquele não era um momento para contos ou qualquer outro tipo de relato histórico que os elfos tanto apreciavam, mas, como se fossem movidos por um estranho instinto, os integrantes do grupo se aquietaram e buscaram seus lugares para ouvir as explicações da voz sábia de Elrond.
"Morgoth" continuou ele "roubou a planta dos jardins de Yavanna. Ele transformou sua natureza, transformou tudo o que esse presente de Iluvatar tinha de realmente bom." O curador parou amargando suas próprias palavras, depois soltou mais um leve suspiro e encheu novamente os pulmões. "Dizem que ele fez uso dessa planta para seduzir os elfos que capturou, para levá-los para dentro da escuridão."
Elrohir mexeu-se em sua cadeira visivelmente incomodado. Sentia a mesma sensação que tinha quando era pequeno e os mais velhos contavam e cantavam histórias ao redor da fogueira.
"Em Quênia essa planta é chamada de eglanasolas" Informou o mestre. Todos sentiram que o simples ato de pronunciar o nome já fora um grande sacrifício para o sábio elfo. A planta dos sonhos proibidos... das esperanças abandonadas..."
"Não sei se estou compreendendo, Elrond, meu amigo." Halbarad confessou, visivelmente confuso.
"Elfos, meu caro Halbarad, não toleram a corrupção... Poucos conseguem resistir ou vencer quando seus corpos e almas são tomados por algo além do bem e do amor. A maioria perece..." Ele completou com amargura, criando em sua mente a imagem do tão triste passado que os precedia. "Para outros… resta apenas o ódio... Morgothsemeou esse sentimento nos prisioneiros que fez. Ele o usou em todas as suas formas, sondando os cantos mais obscuros das mentes de seus elfos cativos, perseguindo-os e torturando-os até que, depois de muitos anos, alguns começaram a aceitar, aceitaram o ato corruptor e passaram a não morrer mais no mesmo instante. Foi quando o processo tornou-se ainda mais lento e doloroso. Muitos continuaram a morrem..."
"Eles aceitavam o que, ada?" Indagou Elrohir receoso.
"Aceitavam o que seus desejos escondidos, seus sonhos obscuros lhe exigiam... desejos que muitas vezes lhes eram implantados, sendo sequer seus verdadeiramente... Eles os aceitavam, cediam e os realizavam... Porém, depois do fato consumado, fosse ele da gravidade que fosse, muitos ainda não conseguiam viver com o que tinha acontecido. E continuavam a perecer... e morrer..."
"Que história triste..." Lamentou-se Skipper entrelaçando nervosamente os dedos. "Mas qual era a intenção dessa criatura das trevas?"
"Uma das piores possíveis, mestre Skipper." Informou Elrond baixando os olhos. "Quando ele os fez cobiçarem… em sonhos… Quando finalmente conseguiu fazê-los desejar o que lhes acontecia, o mal que os abraçava. Não houve mais resistência. Porém quando acordavam e se lembravam dos pesadelos reais que tinham vivido, dos atos que na verdade não correspondiam a um desejo de seus corações, mas sim aos laços do mal que os havia abraçado, eles seguiam dois caminhos: ou morriam, ou cresciam na ira. Com o tempo muitos sucumbiram ao ódio. Foram transformados pela própria fúria. Essa foi uma das ferramentas que Morgoth usou para criar um povo ao qual conhecemos e abominamos".
"Orcs." Disse Elrohir baixinho, apertando os punhos para tentar colocar todas as lembranças que o faziam sentir uma repulsa indescritível por essas criaturas no fundo de sua mente. Mesmo ouvindo a história triste do pai, ele ainda não conseguia fazer crescer em si qualquer sentimento de solidariedade para com essa raça."
"Quanto tempo?" Indagou Aragorn recebendo o olhar questionador do pai. "Quanto tempo para que esses elfos desgraçados se transformem nessas criaturas nojentas?"
Elrond desprendeu seus lábios e apoiou-se na mesa como se tivesse sido golpeado. As palavras duras de Aragorn tinham uma razão que as alimentava, mas mesmo assim, tudo o que ele sentiu naquele momento, foi o desejo de dar um rápido corretivo no filho que parecia ter se esquecido com que povo crescera e aprendera tudo o que sabia.
"Palavras duras, Aragorn, filho de Arathorn."
Skipper torceu o nariz mais confuso ainda. E Halbarad mais uma vez agradeceu pela ignorância do velho caçador que vivera quase toda a sua vida na floresta.
"Filho de quem?" Indagou o Skipper.
"Em outra oportunidade, meu amigo." Respondeu o líder incomodado agora com o fato de não estar completamente certo do quão alheio ao mundo o velho Skipper era.
Aragorn sentiu as palavras de Elrond, ele sabia bem em quais circunstâncias o pai as usava, mas não se intimidou. Ele levantou-se. Uma fúria indescritível o estava tomando, um ódio por ter seu amigo raptado, por não saber o que fariam com ele, por não ter certeza do quanto mais o pobre Legolas ainda poderia agüentar. Tudo aquilo era mais importante para ele do que preservar a moral dos primogênitos de Arda.
"Todos os povos erram... meu nobre senhor de Imladris." Afirmou o guardião estufando o peito. "Todos têm seus traidores."
E em seu coração o corajoso guardião sabia que aquilo era verdade. Ele não estava apenas proferindo aquelas palavras movido pelo descontrole emocional que as circunstâncias despertavam. Afinal, vivera a vida toda amargando o fato de sua descendência, da fraqueza e falta de confiabilidade de seu povo. Ouvira tudo resignadamente. Sofrera todos os tipos de descriminações, para só agora fazer uma descoberta que não imaginava que fosse possível. Para só agora descobrir que a perfeição realmente era uma característica que pertencia apenas ao próprio Iluvatar.
Elrond segurou seu olhar no do filho. Sentindo um desejo enorme de contrariá-lo, de dizer-lhe o quão errado estava. O quão diferente elfos e humanos eram. Mas as palavras subitamente não faziam mais sentido para ele. As explicações, por mais plausíveis, não passavam de meras ofensivas que só acrescentariam mais ira, mais revolta aos presentes. Afinal ali estavam eles, elfos e humanos dividindo a mesma sala, compartilhando das mesmas informações, sofrendo a mesma angústia e tentando traçar um mesmo plano. Lá estavam eles pensando em como salvar alguém que amavam, um mesmo alguém, cuja amizade despertou o poder de unir esses seres tão diferentes. Sim, elfos e homens eles eram, mas todos tinham algo em comum. Todos queriam ver o nobre Legolas a salvo e livre uma vez mais.
"Tem razão..." Foi a resposta do curador.
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"Vamos, meu brinquedo." Dizia a voz musical de Hawk. "É só dizer o que quero ouvir e toda a dor vai passar."
Mas do corpo imóvel no chão, não vinha som algum. Ouvia-se apenas o som da mata na qual se escondiam, da natureza protestando contra os maus tratos aplicados a uma de suas mais belas criaturas.
"Esqueça um pouco dele, Hawk." Reclamou Heron sentado em frente a fogueira que ardia, enquanto remexia alguns vegetais em um pequeno caldeirão. "O mestre deve ter se enganado. Podemos dominar o corpo dele, mas a mente está inalcançável."
"Não." Retrucou o outro elfo sentando-se agora bem próximo ao príncipe e envolvendo-o nos braços. "Mas confesso que é muito bom vê-lo assim tão receptivo."
A risada de Heron foi uma amarga resposta que o irmão não queria ouvir.
"Receptivo? Ele é um morto-vivo. E pare de dar mais dessas ervas para ele por enquanto. Estão fazendo um efeito estranho, não está sendo como foi conosco. Ele não vai nos ser útil em nada morto ou semimorto."
"Mas também não o será se não aceitar o que dizemos a ele como verdade. Se não acreditar que é o rei de Mirkwood e que deve obediência e devoção a nosso mestre."
"A Floresta Escura será nossa por bem ou por mal. Não entendo porque ainda precisamos desse seu bibelô. Estou ficando farto dele e do dom que tem de sempre surpreender-nos de forma desagradável. Estou realmente farto disso. Por mim já teria fincado meu punhal no coração desse elfo. Mirkwood não precisa de um rei, Mirkwood sequer precisa existir."
"Deixe de tolices, Heron. Nunca estivemos mais próximos, nem com a morte de Oropher."
"Não sei que apego tolo ainda te prende a essa terra que não é mais nossa. Desde o exílio vivemos alheios a tudo. Thranduil sequer reconheceu-nos."
"Porque ele era ainda uma criança quando o pai dele nos condenou..." Hawk tinha um olhar sinistro agora, relembrando cada momento de agonia que passara desde então. "Se não fosse o mestre... o que teria sido de nós?"
"Reconheço." Admitiu Hawk. "Mas não entendo porque não arruinamos o reino da floresta de uma vez por todas. Porque poupar aquelas criaturas que nos deram as costas?"
"Porque somos seus dirigentes agora. Somos seus mestres." Disse Hawk alisando os cabelos de Legolas cuja cabeça mantinha-se pousada no peito do elfo, enquanto este o abraçava protetoramente. "Não é verdade, meu brinquedo?" Ele disse puxando o queixo do rapaz para que olhasse para ele. "Você é o rei."
"Thranduil." Surgiu a voz daqueles lábios entreabertos que mal pareciam capazes de se mover.
Heron riu alto mais uma vez. "Decididamente perdemos nosso tempo." Disse o elfo soprando o caldo da ponta da colher, intentando esfriá-lo para poder provar-lhe o tempero. "Quando quiser que eu o torture mais me avise. Já estou ficando com saudades de ouvi-lo gritar."
"Existem vários tipos de tortura." Disse Hawk apertando os lábios para conter o ódio que sentia por perceber o quão dura seria sua batalha contra o filho de Thranduil. "Ele vai ceder. Ele não tem porque sentir devoção por um pai que negociou sua própria liberdade."
"Ah... tolices... Essa criatura pomposa de Mirkwood deve ter feito lavagem cerebral no filho. Nunca vi devoção mais estúpida em todos os meus dias nessa terra seca." Indignou-se Heron experimentando finalmente uma colherada do caldo que fizera, para então engasgar-se e cuspir tudo no chão próximo.
"O que foi?" Riu-se Hawk da atitude que nunca vira o educado irmão tomar. "Colocou temperos demais?"
"Está..." Balbuciou o outro se erguendo com a mão no peito. "Está com um gosto horrível."
"Claro que está." Concordou Hawk colocando Legolas no chão e levantando-se para sentar-se logo em seguida em frente a fogueira e a panela do almoço. "Do jeito que você cozinha! Admirou-me de nunca ter-nos envenenado."
Mas Heron não se sentia muito receptivo às brincadeiras do irmão. Um estranho mal estar o estava dominando. Ele tinha fome, mas aquela comida não era do que precisava.
"Está com um gosto bom, Heron." Disse o irmão provando a sopa. "Está bom demais até para algo que você fez." Ele completou enchendo uma pequena travessa. "Vou ver se o nosso príncipe come um pouco dela."
Heron olhou o irmão intrigado enquanto este se erguia novamente e retomava sua posição inicial ao lado de Legolas. Hawk tomou o jovem elfo nos braços e passou a alimentá-lo como a uma criança pequena.
"Viu?" Provocou Hawk tentando manter o bom humor enquanto oferecia mais uma colherada ao elfo louro que desprendia os lábios aceitando o conteúdo. "Receptivo."
"Corpo..." Respondeu Heron aproximando-se do lago e deslizando os dedos por sua face que aparecia refletida nas águas límpidas. "Mas não espírito..."
"Não ainda..." Retrucou Hawk olhando o irmão com preocupação. Algo parecia incomodá-lo. "Mas em breve."
"É... Talvez." Respondeu o outro encarando ainda o próprio rosto refletido. Algo nele estava diferente, mas ele não conseguia saber o que seria. Foi quando um reflexo surgiu na água e ele se atirou no exato instante para dentro do lago, exatamente como estava vestido.
"Heron!" Assustou-se o outro elfo erguendo-se de imediato e correndo ao encontro do irmão. "Heron o que houve?" Indagou olhando para a água que voltava a se acalmar. Nem um sinal do irmão era visível. "Heron!" Ele gritou retirando então os sapatos e preparando-se para entrar na água. Mas logo a água voltou a inquietar-se e a figura de Heron reapareceu. Hawk sentiu um alívio que durou apenas alguns instantes. Depois ele piscou várias vezes julgando estar tendo uma visão. Heron saia do lago como se nada tivesse acontecido, destroçando com a boca um peixe vivo que pegara. Hawk observou atônito o irmão jogar-se na lama suja da beira do lago e continuar comendo o animal que ainda se debatia. Seu estômago deu várias voltas, mas ele não sabia o que dizer. "Heron..." Chamou por fim, encolhendo-se perto do elfo e tocando-lhe o braço. "Heron, você está bem?"
"Estou ótimo!" Respondeu o outro mastigando descuidadamente, sangue fresco da vítima ainda corria pelos cantos de sua boca. "Isso sim é que é comida, não aquele monte de mato que comemos." Ele completou quebrando o animal ao meio e oferecendo a metade ao irmão. "Vamos! Experimente!"
Hawk virou o rosto enojado. "Você deve estar brincando." Ele disse num reflexo. "O que te deu? Isso é asqueroso."
Mas Heron não lhe deu ouvidos, ele continuou destroçando com os dentes a criatura. Hawk franziu as sobrancelhas e apertou o maxilar com tal força que julgou que fosse quebrar um molar. Um sentimento estranho o invadiu. O conflito dos que temem e não compreendem sequer do que têm medo.
"Heron..." Ele tentou mais uma vez. "Isso não é nem um pouco engraçado."
"Não é mesmo." Respondeu o outro antes de se dar ao trabalho de engolir, restos de carne caíram de sua boca aberta. "Deixe-me em paz. Se não quer apreciar o que não conhece, vá comer seu mato como o bom eqüino que é."
Hawk franziu as sobrancelhas, mas nem conseguiu se zangar com a ofensa. Apertou as mãos e olhou ao seu redor. Todo aquele sentimento de segurança que sempre fora seu aliado parecia tê-lo deixado. Há tempos ele percebia uma mudança sutil acontecendo com o irmão. Um gosto pela violência e pelo sangue, um prazer em oferecer um fim ao que quer que se movesse, fosse frente a frente ou pelas costas. Mas aquilo realmente fugia a todas as expectativas mais macabras que poderia criar.
"Heron..." Ele lembrou-se então de um outro fato. "Heron, o que fez com o elfo da guarda? Aquele a quem aprisionamos para capturarmos o príncipe?"
"Cortei-lhe a garganta." Respondeu o elfo com simplicidade, dando mais uma mordida na carne crua.
"Assassinou-o?" Espantou-se Hawk. "Um elfo? Em um conflito desigual? Um elfo desarmado?"
"Era uma guerra."
"Não, não era Heron." Retrucou o outro. "Não estávamos em guerra. Era uma operação de seqüestro. Não havia interesse em deixar cadáveres para trás. Em despertar a antipatia do povo de Rivendell. Como vamos conseguir que sejam nossos aliados agora? Mesmo com o príncipe nos comandando?"
"NINGUÉM VAI ME COMANDAR!!" Gritou Heron em resposta, subitamente enervado com o rumo da conversa. "Nem você, nem aquele príncipe que mal sabe que rumo dar a sua própria vida."
Hawk franziu mais ainda as sobrancelhas colando-as como se fossem um único traço. Sua mente queria entender o que se passava com o irmão que jamais hesitara em obedecer a uma ordem sua.
Foi então que Heron distraiu-se do que estava fazendo e da conversa amarga que tinha. Seus olhos estavam dessa vez voltados para aquela que na certa parecia ser a sua próxima vítima. Há poucos metros dele Legolas mantinha seus olhos fixos em seus opressores. O arqueiro agoniava. Preso no abismo em que estava, ele infelizmente tudo podia ver, observando e sentindo o que acontecia, mas simplesmente não conseguia reagir. Era como se seu corpo e sua mente houvessem se separado e cada qual servisse a um mestre diferente. Mas ele ouvira a conversa dos irmãos e compreendera vagamente o que se passava e quais eram os objetivos para aquele sofrimento. Ele sabia que eram seus pensamentos que o estavam enganando, o fato dele sentir-se incapaz, e todas as outras limitações que julgava ter estavam se tornando sua prisão. Tudo o que ele acreditava ser, tudo o que ele sabia que seu pai julgasse que ele fosse. Tudo aquilo se revertia em realidade para seu corpo que, por fim, acreditara nos pesadelos que sua mente criara e agora simplesmente não conseguia despertar. Heron lançou longe o resto da presa e levantou-se, seu olhar lascivo fixo no príncipe.
"Belo de fato..." Dizia o elfo aproximando-se devagar. Hawk custou algum tempo para perceber quais eram as intenções do irmão. Finalmente desperto pelas perspectivas que se apresentavam, ele correu para impedir o que julgava que fosse acontecer.
"Heron!" Disse ele tomando a frente do alucinado elfo que não recuava, continuando a caminhar e forçando o irmão a uma caminhada contrária.
"Nada disso." Reclamou Heron. Seus olhos ainda fixos em Legolas. "Vai dividir o prazer. Afinal eu o ajudei a capturá-lo."
"Não!" Gritou Hawk apoiando finalmente suas mãos nos ombros do irmão. "Nem eu o toquei ainda."
"Que eu seja o primeiro então. Não faz diferença."
"Ele é meu! O mestre disse que era meu presente."
"Poupe-me de seu egoísmo, Hawk" Disse Heron forçando a passagem agora, quase em frente ao príncipe.
"O mestre nos proibiu. Não antes que tudo seja resolvido. É arriscado." Alertou o mais velho tentando chamar o irmão para a razão.
"Não me importo com ele." Declarou friamente o elfo ainda olhando por cima do ombro do irmão. "Que definhe e morra depois... pouco me importo..."
Hawk arregalou os olhos incrédulo. Nem ele mesmo, com todo o ódio que alimentava pela linhagem de Oropher, e saboreando as novas sensações que seu corpo jamais se permitira sentir antes, conseguia conceber fazer tamanho mal a criatura alguma, especialmente àquele rapaz por quem tinha um grande afeto.
Heron forçou mais uma vez a passagem e Hawk finalmente temeu que talvez não houvesse como impedi-lo. Ele tentou mais uma vez impedi-lo, apertando as mãos que apoiara sobre os ombros do irmão.
Heron então, como uma fera desperta pelo toque do irmão empurrou-o para longe com uma força que até então lhe era desconhecida. Hawk caiu por entre uns galhos e ficou desacordado.
"Ah..." Disse então o elfo ajoelhando-se em frente a Legolas e avançando sobre ele. "Vanima (bonito)… Vanima ve' tindome (bonitocomo uma noiteestrelada)... Ele disse abraçando o príncipe e deslizando seus dedos pelos cabelos do rapaz. Legolas gemeu levemente, tentando se desvencilhar do agressor, mas não conseguindo achar o rumo para o retorno a si mesmo."Algost, cunn lend" (não tenha medo, docepríncipe)...
"Us nin er... Us nin... (deixe-me empaz... deixe-me...)" Replicava a voz quase inaudível do arqueiro enquanto seu corpo inerte parecia aceitar os afagos do elfo.
"Shh... alrhinc (não se mova)" Disse a voz de Heron.
Legolas sentiu então as mãos do elfo remexerem suas roupas enquanto aquele rosto, ainda manchado com o sangue do peixe que ele havia abatido, ficava cada vez mais próximo dele. O arqueiro, sentindo o destino escapar-lhe das mãos, apenas fechou os olhos esperando pelo pior. Se Heron concretizasse o que intentava fazer nada mais restaria de si para enfrentar a realidade. Ele tinha que reagir, fazer algo a respeito, retornar pelo árduo atalho de pedras que aqueles irmãos o fizeram trilhar. Ele tinha que acreditar em si novamente. Acreditar que tudo era sonho. E que todas as palavras de Elrond eram reais. Que ele era capaz de ser um bom líder, de cuidar de sua própria vida mais uma vez. Ele tinha que acreditar. Acreditar que tinha aquela energia dentro de si. Que era capaz. Mas como? Como voltar quando não se sabe onde tudo principia? Legolas apertou os olhos. Ele tinha que buscar a chave. Um momento que continha uma informação, a informação que precisava... um momento no passado que ainda guardava uma certeza... uma certeza que ele precisava ter... a certeza de que seu pai ainda o amava.
"Ada..."
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"Ada!!!" Surgiu o pequeno Legolas correndo escada abaixo seguido pela mãe. Thranduil voltava cansado de uma jornada difícil. As fronteiras estavam cada vez mais perigosas e até uma mera cavalgada de reconhecimento podia transformar-se em uma aventura imprevisível.
"Olá, pequeno esquilo cheio de energia." Disse o pai recebendo o menino nos braços. "Acho que vou levá-lo para a próxima patrulha, assim quem sabe sua mãe tem um pouco de sossego."
"Isso não é engraçado, hervenn-nín (meumarido)" Disse Elvéwen sorrindo para o rei que agora apoiava carinhosamente a palma em seu rosto. "Ele não dormiu todos esses dias. Dizia que você estava em perigo. E é essa a recepção que lhe dá?"
Thranduil franziu a testa. O menino estava abraçado a ele com todas as suas forças, a cabeça apoiada no ombro do pai.
"O que é isso, meu soldado?" Indagou forçando o pequeno principezinho a olhar para ele. "Assustando sua mãe? E deixando de dormir como lhe é devido? Isso não esta certo."
Legolas mordeu o lábio inferior e baixou os olhos. Era apenas um elfinho, mas o pai gostava de tratá-lo como a um adulto e muitas vezes ele também apreciava tal tratamento. Mas nem sempre.
"Ada está bem?" Indagou o menino com uma voz trêmula. "Las viu muitos... muitos… todos ao redor de ada…" Ele queria continuar, mas seus olhinhos azuis o traiam e um soluço escapou-lhe da garganta. Fora um pesadelo terrível e tinha sido tão real.
Thranduil olhou novamente para a esposa. Elvéwen suspirou e apertou os lábios. Os olhos do marido não mentiam. O sonho do pequeno Las tinha sido real.
"Eu estou bem. Foi só um sonho ruim." Respondeu o rei enxugando as lágrimas do filho com as costas da mão. "Nunca mais assuste sua mãe com essas bobagens, entendeu?"
Legolas baixou os olhos envergonhado e seu rosto enrubesceu. Elvéwen apiedou-se da figura do filho. Thranduil era muito duro com ele.
"Venha, Las." Disse ela com ternura, enquanto esticava os braços para o filho. "Vou colocar você na cama para que durma então, agora que sabe que seu adaestá bem."
Thranduil sentiu uma estranha sensação ao ouvir a voz da esposa. Ele sabia que ela o condenava por sua atitude. Tolices de elfas. Se ele agia como agia era justamente para poupar-lhes. Se o menino realmente tinha o dom da clarividência, melhor seria que não lhe fosse dado ouvidos em situações como aquelas, onde nada podia ser feito e a insistência no cultivo de tais dúvidas e pressentimentos, só agravariam mais o estado de ansiedade dos que esperam pelo retorno daqueles que lhes eram caros.
"Eu o levo para cama." Disse o rei apoiando a palma aberta nas costas da criança em seus braços. Legolas instintivamente voltou a deitar-se no ombro do pai. Ele lamentava se o decepcionara, mas estava contente por vê-lo de volta.
"Ada fica comigo?" Perguntou com a voz abafada pelo manto do rei.
"Deixe que eu o leve, Thranduil." Insistiu a esposa apreensiva. Ela temia que o ânimo do cansado rei não fosse exatamente o que seu pequeno Las precisava no momento.
"Sabe que não gosto de ser contrariado." Respondeu o louro elfo passando pela esposa e subindo as escadas em direção ao quarto do filho.
"Thranduil…" Elvéwen insistiu uma vez mais. O marido voltou-se no topo da escada para olhar para ela.
"Sou o rei." Retrucou com austeridade. Mas depois um leve sorriso se fez em seus lábios e, por algum motivo qualquer e totalmente inexplicável, Elvéwen sentiu uma segurança que não sentia normalmente. "Sou o dirigente… mas também sei ser pai."
A bela elfa sorriu. E depois passou a ouvir de longe o diálogo que se fazia pelo corredor.
"Ada me conta dos… dos… não sei o que eram e que não estavam querendo que ada passasse?" Ela ouviu a voz do filho perguntar.
"Não havia ninguém, menino. Já disse que foi um sonho." Retorquia a voz do pai.
"Certo… mas ada me conta? Me conta como conseguiu passar?"
"Elfinho teimoso." A voz já distante no corredor queixava-se.
"Conta, ada?" Insistiu
"Conto." Concordou a voz do rei que, para a esposa que ainda forçava a mente a se concentrar no que os ouvidos já perdiam, parecia conter um riso agora.
"O senhor me ama, ada? Indagou o rapazinho quando a porta se abriu. "Sentiu saudades do Las?
"Você sempre pergunta isso, elfinho tolo." Reclamou o pai fechando a porta. E a resposta quase se perdeu. Elvéwen subiu rapidamente alguns degraus querendo resgatá-la, eram apenas sussurros.
"Amo, meu esquilo cheio de energia." Responderam os restos de voz do rei. "Sinto saudades de você e de suas perguntas tolas… Sinto sempre saudades de você, pequenino."
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Legolas fechou mais uma vez os olhos. Aquele passado era o que realmente fora real. Ele então ergueu um dos braços e deslizou-os pelas costas de Heron. O elfo, ocupado com os laços da túnica do rapaz, não percebeu a reação inesperada que ocorria agora. Era um tempo de guerra, no qual qualquer distração poderia significar vida ou morte. No qual qualquer deslize poderia se transformar em… sangue…
Os olhos de Heron ergueram-se subitamente, encarando o príncipe a sua frente com um misto de susto e desespero. Aqueles olhos azuis repletos de mistério.
"Sempre… cheio… de surpresas… desagradáveis…" Lamentou o elfo caindo em seguida. Olhos muito abertos e um líquido escuro escorrendo agora de sua boca, mesclando-se ao sangue do animal que matara, criando um contraste estranho e apavorante.
Legolas voltou o olhar para sua mão, a mão que decidira se rebelar. Nela estava um velho conhecido seu. O punhal que Skipper havia lhe dado. A adaga de Glower que Heron insistira em manter consigo mesmo sem lhe pertencer. A adaga de Glower voltava agora a seu antigo dono. Legolas quis sorrir da ironia que o destino mais uma vez pregava. A peça que ele lamentara ter perdido estava exatamente onde deveria estar. As trilhas do destino guiando não só os seres, mas seus pertences também. Era mesmo muito irônico aquilo tudo, tão irônico que o príncipe realmente quis sorrir, sentindo-se mais uma vez abençoado, como se o próprio Iluvatar o carregasse pelas mãos.
Mas pensamentos estranhos vieram perturbá-lo. Ele acabara de matar um elfo. Um crime terrível aos olhos de qualquer membro do Belo Povo que pisasse esse reino. E ele o fizera pelas costas, sem qualquer chance de defesa. Esse pensamento o entristeceu profundamente.
"Que Iluvatar tenha piedade de mim." Disse o príncipe baixando os olhos para finalmente constatar algo que não havia percebido. O líquido que estava em sua adaga tinha uma cor estranha. Legolas fechou os olhos e os apertou julgando que as ervas estivessem finalmente corrompendo sua mente também. Mas talvez não. Talvez não fosse uma visão o que ele estivesse tendo. Mas se não o fosse, se aquilo não representasse apenas um distúrbio do pesadelo todo que vivera, seria certamente algo muito pior do que os sonhos macabros que se tem quando se está cansado demais. O jovem príncipe baixou os olhos para a arma uma vez mais e aquela imagem se cravou em sua mente deixando-o realmente confuso. O sangue de Heron era escuro. Era negro. Negro como o sangue do povo orc.
