Olá. Aqui seguimos com os momentos finais dessa minha fic. Ainda devem ser postados quatro ou talvez cinco capítulos até o derradeiro, depende da edição final que pretendo lhes dar.

Esse capítulo em especial me soou um pouco confuso. Muita informação acumulada em cenas distintas. Por favor, se algo não ficar muito claro eu peço por gentileza que me informem para que eu possa melhorá-lo.

Agradeço a grande Cassia (mellon chronicles), por oferecer-me um belo nome para o meu curador de Mirkwood.

Não vou perder tempo dessa vez com introduções, pois o capítulo, para variar, ficou maior do que eu previa.

Agradecimentos de sempre.

Lady-Liebe – Minha querida amiga Liebe reapareceu. Estou muito feliz com sua review e seu e-mail. Super obrigada, Liebe. Você não sabe a falta que faz. Pessoal que ainda não leu as short fics fantásticas da Liebe, não percam mais tempo!!

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Misao, ainda estou esperando ansiosamente que você cumpra a promessa que me fez. Não há como suportar tanto tempo assim sem uma fic da qual se gosta tanto. Tenha piedade!!!

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" entrou em uma encruzilhada que gerará ótimos frutos. Uma Arwen fabulosa surgiu me fazendo apaixonar-me ainda mais por essa personagem de quem tanto gosto. E um Aragorn também totalmente "pé-no-chão" adicionou mais magia ainda a esse já tão cativante texto. Idéias super originais sempre surpreendem a gente, por mais que confiemos nos autores que estamos lendo. E Myri me presenteou com uma agradável surpresa essa semana. Apesar de não acreditar que ainda haja quem não lê a Paixão, continuo recomendando. Parabéns novamente, Myri e obrigada pelas valorosas informações sobre o nosso Glorfindel, que me ajudaram muito a reformular meu capítulo.

Nimrodel Lorellin – Reverências mil a essa autora fantástica das inesquecíveis "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". O capítulo recém lançado foi muito além do que eu podia imaginar. E olhem que, em relação a Nim, eu sempre posso imaginar o melhor possível. "Passolargo", o capítulo mais recente, debochou de nós, nos amarrou em frente ao computador e nos deixou com um gosto de "quero mais" na boca. O Estel da Nim já era adorável, mas o homem no qual ele se transformou é indescritível, é apaixonante. Nim extrapolou, revelou-se e surpreendeu-nos... Estou sem palavras até agora... Quem as tiver que as diga. Eu só me curvo em sinal de admiração e repito "mestra, mestra, mestra". Beijos, minha querida amiga!!

Vicky Weasley: "BITTERSWEET" ainda não foi atualizada. Realmente algo deve ter acontecido com a Vicky, pois nem suas reviews eu recebo mais. Vicky?? O que houve amiga??

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" chegou ao fim. Fiquei tão perplexa que deixei a review mais pobre e sem sentido possível no site... O que dizer sobre a Ju? O que dizer sobre uma escritora de fibra como ela que encarou e superou todas as dificuldades para nos presentear com um texto maravilhoso como foi o Rosas? A poderosa Ju tem projetos mais ambiciosos nos quais tenho certeza que se sairá tão bem quanto nesse, e aos quais, se me for concedida a honra, farei questão de ler. Só espero que sobre um tempinho nessa vida atribulada dessa competente escritora para mais algumas linhas com nossos amados personagens. Grande Ju. Parabéns!

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Lali!!! Cadê você? Vamos Lali!! Não vou me cansar de chamar por você!! LALI!!!

Kika-Sama: "APRENDENDO". Kika!!!

Chell1: "MEM"RIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Continua sendo reescrita. Mas já que estou torturando as escritoras caladas hoje, vou castigar a minha querida Chell também. CHELL!!!!!!! Beijos.

Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Mais uma escritora calada!!! Gente o que é isso????

Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". KIANNAHHHHH!!!!

Pessoas especiais, muito especiais mesmo:

Syn, the time keeper. Outra review que nunca deixo de receber. Super obrigada, Syn. Seus comentários são sempre tão positivos e percebo que a fic está mesmo te agradando. Fico feliz demais. Você tem razão, O Hawk ainda é mais elfo do que o irmão... mas por quanto tempo?? É uma questão difícil. Beijos amiga!!

Regina – Regina sumiu mesmo. Regina?? Cadê você? Espero que tudo esteja bem.

Botori – Minha super leitora! Obrigada pela review. Realmente o Thranduil tem seu lado bom... a gente é que custa a ver... mas o Las vê bem direitinho. Obrigada por me dedicar esse tempo que dedica sempre, amiga. Beijos.

AekaMe deixou sem review!! Mas perdôo... deve estar novamente atrapalhada com dezenas de coisas que tem para fazer. Espero que tudo esteja bem. Beijos.

Leka – Leka também lembrou de mim!! Obrigada!! Você comentou coisas muito interessantes. A contradição é mesmo uma característica do meu Thranduil. Ele em si é muito confuso, né? Beijos e obrigada.

Soi – Querida Soi que me manda lindas reviews. Eu adoro ler o que você me escreve, uma linha ou dez... não se preocupe. Realmente concordo que o Las é um elfo injustiçado e que o Heron ficou mesmo parecendo o Gollum... todo mundo achou... que fazer né? Orcs, golluns... todos são mesmo um quadro muito triste... como o próprio Heron. Super obrigada pela review.

Lali-chan– Lali lembrou de mim!! Obrigada amiga. Não se preocupe. O nosso poço louro vai encontrar um final feliz para esses dias difíceis que está tendo. Beijos e super obrigada.

Veleth– Poesias em forma de reviews. Amor mesmo pelos personagens... dá para sentir em cada palavra. Sou abençoada pelas leitoras que tenho e que sempre reservam um tempo para mim. Obrigada mesmo!

Belle Malfoy – Que me mandou um e-mail muito gentil e que está acompanhando também minha fic. Super obrigada. Continue me escrevendo o que acha. Beijos.

Pink na – Acabou de me deixar uma doce review. Obrigadinha!!! Continuo esperando sua fic engavetada. Vamos lá, Pink!! Deixe de desculpas e comece já!!! Vai ser demais.Beijos.

Daphne Pessanha "Arabella"Em que capítulo estará minha nova leitora? Espero que continue gostando do que lê. Obrigada pelos seus comentários Daphne. Aguardo sua fic também.

Roberta – A Roberta ainda não chegou a esse capítulo também, mas nem era para se admirar. Atarefada como ela é,nem consigo acreditar que esteja lendo minha fic. Foi um grande presente que recebi. Obrigada mais uma vez amiga.

33

O por do sol enfeitava o horizonte, mas não era bem vindo. O grupo esperava ter conseguido trilhar um caminho mais longo até que a luz não pudesse abençoá-lo mais, porém as asperezas do trajeto mostraram-se obstáculos maiores do que os imaginados, colocando os integrantes em posição desvantajosa em relação a que gostariam de estar.

Aragorn cavalgava cabisbaixo, regurgitando todas as informações que ouvira do pai, traçando a história com seus cenários e dores e colorindo-os com as cores ácidas da amargura e do sofrimento de seu próprio coração. Era como se visse os olhos de Elrond ainda a observá-lo com aquela expressão amarga. Ele sentia o remorso das palavras que dissera, cutucando insistentemente o pequeno pilar no qual apoiava todas as suas poucas certezas.

"As palavras depois de proferidas mudam de dono. Elas passam a pertencer ao destino." Surgiu uma voz ao seu lado.

Aragorn voltou-se para encontrar os olhos claros de Glorfindel. Por que esses elfos têm sempre uma frase pronta e repleta dos mais amargos e verídicos sentidos na ponta da língua? Foi a indagação do guardião ao encarar o sorriso leve do lorde louro que parecia ler todas as linhas que seu pensamento pudesse criar.

"Não me arrependo do que disse." Afirmou categoricamente. "Muito já ouvi sobre a minha espécie, a minha 'raça'." Ele frisou a última palavra como se ela tivesse mais do que as meras duas sílabas que tinha. "Ouvi comentários dos quais gostaria de esquecer. Gostaria de nunca tê-los ouvido."

Glorfindel permaneceu impassível. Mãos apoiadas nas pernas enquanto o cavalo executava seu trajeto sem precisar de qualquer instrução do mestre. Aragorn olhou-o com rancor. A alma condimentada com as mais amargas ervas.

"Muitas dessas insinuações vieram de seus lábios, Mestre Glorfindel." Declarou por fim o guardião, irritado com o ar tranqüilo no qual o guerreiro parecia esconder todas as suas intenções. Ele não acreditava que finalmente tivera coragem de dizer o que dissera, de traduzir em palavras sentimentos que o incomodavam há tanto tempo e, além de tudo, de destiná-las àquele a quem considerava um dos responsáveis pela aversão que criara para com a sua própria raça.

As feições do nobre guerreiro não se alteraram, porém, contrariando as previsões de Aragorn, que já conjeturava sobre como escaparia da grande espada do poderoso elfo uma vez que o tivesse conseguido irritar.

"Quantas vezes ouviu isso de Elrond, jovem Estel?" Disse o lorde louro fixando dois grandes olhos azuis no guardião ao seu lado." Quantas vezes ouviu tais insinuações daquele a quem você chama de pai?"

Aragorn engoliu aquelas palavras com uma enorme dificuldade. Glorfindel tinha conseguido mais uma vez, como sempre conseguira. Ele odiava quando o louro elfo o fazia e ele voltava sempre a repeti-lo, incansavelmente, com uma invejável habilidade. Lá estava o guerreiro, desbancando mais uma vez as poucas certezas do confuso Estel. Lá estava ele enchendo-o das dúvidas mais cruéis que poderiam perturbar um espírito desavisado. Porque Glorfindel não ia incomodar um outro alguém? O pensamento cruzou a mente do cansado dunedain. Aquele elfo não tinha mais o que fazer?

"Nunca ouvi nada dele que atestasse o contrário." Respondeu Aragorn com simplicidade, tentando escapar da emboscada que o amigo do pai lhe armara. Ele não iria ceder, não depois de todo o conflito ter tomado finalmente forma e cor. Ele abrira seu coração, expusera suas dores e angústias. Não voltaria a fechá-lo.

"E o que esperava que Elrond dissesse?" Veio a indagação fatal. "Será que qualquer coisa que ele pudesse dizer ao povo que guia poderia ter mais significado do que permitir que uma criança humana o chamasse de ada?"

"Basta, Glorfindel." Explodiu o guardião com exasperação, apertando as pernas no cavalo e jogando o corpo levemente para a frente para que o animal apressasse o passo e afastasse-o daquela voz tormentosa.

Mas o hábil guerreiro louro já o estava cercando antes mesmo que o animal tivesse a oportunidade de cumprir a ordem daquele que o conduzia. Aragorn irritou-se com a nova emboscada do amigo de Elrond.

"Saia do meu caminho, Glorfindel! Não estou vivendo a melhor fase da minha vida." Queixou-se o guardião contraindo os traços da face e evitando o olhar do lorde.

"Acredite-me, Elessar." Respondeu o guerreiro em tom solene. "Essa é uma das fases de sua vida da qual provavelmente sentirá saudades."

Aragorn agarrou-se nervosamente as rédeas de seu cavalo. Aquelas sete letras soavam-lhe aos ouvidos como se tivessem o peso de dez oliphants.

"Sentirá saudades depois do adeus definitivo." Completou Glorfindel encontrando finalmente o olhar do guardião. "Depois que os ventos levarem aquele que você chama de pai para as Terras Imortais. Espero que até lá, você tenha aprendido o significado das palavras compaixão e gratidão e tenha oportunidade de colocar em prática tal conhecimento."

Aragorn baixou os olhos soltando os braços e sua guarda cedeu. As palavras do guerreiro louro o confundiam ainda mais. Compaixão versus gratidão. Seriam esses os laços simples que o ligavam à família de Elrond? Seria somente isso? Seus olhos encheram-se subitamente de lágrimas do mais puro desespero e Glorfindel surpreendeu-se, percebendo finalmente que ele também se excedera na lição que queria fazer entendida.

"O que se passa?" Surgiu a voz preocupada de Elrond, que já retornava em direção aos dois quando notara o tom alterado da voz do filho.

"Nada..." Respondeu prontamente o guardião, enxugando as lágrimas com as mangas da camisa e fazendo com que seu cavalo apressasse o passo, passando assim pelo pai e pelos outros membros que o acompanhavam e posicionando-se próximo a um dos batedores que estava muito à frente do grupo. Os gêmeos, que também vinham retornando, movidos pelos sons que ouviram viram o caçula passar por eles e se entreolharam intrigados. Elladan buscou o olhar do pai, mas o curador limitou-se a balançar a cabeça em sinal de incompreensão e voltar-se para o louro amigo, que alisava agora a crina do cavalo no qual montava como se nada houvesse acontecido.

"Glorfindel." Soou a voz impaciente de Elrond.

O nobre elfo louro sempre invejara a paciência que o curador possuía nas situações mais adversas, mas não podia deixar de se admirar ao constatar como essa infinita paciência se reduzia a delicados grãos de areia quando o assunto passava a ser os filhos.

"Não, Elrond." Respondeu o guerreiro.

E o estranho diálogo se encerrou deixando confusos àqueles que estavam à volta da estranha dupla de amigos. O curador afastou-se cavalgando para onde o caçula agora seguia sua marcha e Glorfindel lançou um olhar indagador aos filhos de Elrond, que ainda o olhavam a espera de alguma informação.

"Glorfindel..." Iniciou Elladan.

"Não, Elladan." Repetiu novamente o guerreiro acompanhando agora um bando barulhento de pássaros que cruzava o céu.

O gêmeo mais velho bufou visivelmente e balançou a cabeça afastando-se também, mas Elrohir permaneceu onde estava, cavalgando lado a lado com o mentor. Ele não aceitaria as desconversas do amigo do pai. Glorfindel sempre fora mais do que um instrutor para o jovem elfo e, em um momento como aquele, o mestre sabia que o discípulo não se afastaria sem ter tido a sua lição.

"O jovem Estel." Disse por fim o louro lorde de Imladris colocando a mão por sobre a espada que carregava.

"O que tem ele?" Indagou Elrohir preocupado. Seus olhos acompanhavam o intrigante movimento do mestre. "O que tem Estel?"

"Vai ser atacado." Continuou o guerreiro puxando a arma, batendo as pernas no cavalo para que este acelerasse sua marcha e passando como um trovão pelo atônito Elrohir que custou mais alguns segundos para assimilar a inesperada informação que recebera. Quando ele deu por si o grupo estava cercado por um considerável número de soldados orcs, cujas espadas brilhavam em luta sangrenta, mas os olhos pareciam mesclar a confusão e surpresa do encontro inesperado.

Aragorn mal tivera tempo de perceber o que o abatera. Acordava agora no chão, o ouvido zunindo e a vista embaçada. A poucos metros dele o pai bradava ferozmente sua espada contra um grupo de três ou quatro orcs, ele não conseguia distingui-los envolvidos como estavam na estranha cortina de sua pouca lucidez. Uma mão forte segurou seu antebraço e um estranho odor invadiu-lhe os sentidos. Ele tentou debater-se, mas a figura colocou-o de pé e em seguida ele sentiu-se carregado para fora do campo de batalha naqueles ombros largos que não conseguia identificar. A pouca visão do que tinha a sua volta agora estava sendo engolida por uma densa escuridão...

&&&

"Orcs..." Bradava o guardião balançando levemente a cabeça e sentindo-a doer ainda mais depois disso. "Orcs malditos."

"Está tudo bem agora." Garantiu uma voz ao longe. "Tente dormir mais um pouco."

"Orcs..." Repetia sem saber o porquê. "Eles querem... querem guerra."

Um suspirou foi ouvido e Aragorn sentiu finalmente uma mão em seu ombro.

"Guerra é o que sempre querem..." Respondeu a voz uma vez mais. "Durma agora."

As idéias ainda estavam confusas em sua mente. O que havia acontecido? O ataque inesperado. O conflito, a contusão. Ele lembrou-se então que fora carregado e que os demais integrantes do grupo estavam em perigo. Tentou finalmente abrir os olhos, mas já era dia novamente e a luz do sol o estava torturando.

"Quem... quem me tirou do grupo?" Ele indagou confuso colocando a palma por sobre os olhos para proteger-se da luz.

"Quem o quis levar está agora morto. Não se preocupe com isso."

Aragorn franziu a testa, seus sentidos pareciam despertar lentamente. Ele afastou a mão da frente de seu rosto e encontrou finalmente o dono da voz distante que tentava consolá-lo.

"Legolas?" Indagou incrédulo ao amigo que lhe oferecia um sorriso preocupado.

"Devia dormir mais um pouco." Respondeu o elfo apoiando uma mão por sobre a testa do amigo. "Não sou curador. Não sabia o que fazer por você a não ser colocar ervas cicatrizantes no corte que tinha."

Aragorn sacudiu mais uma vez a cabeça e mais uma vez arrependeu-se.

"Você foi..." Ele disse confuso enquanto tentava se levantar e era impedido pelo arqueiro, que gentilmente apoiava ambas as mãos por sobre seu peito agora. "Seqüestrado... Como... como conseguiu..."

"Eu estou bem, Estel." Garantiu o elfo ainda com os olhos fixos no ferimento que adornava a testa do guardião. Seus olhos azuis brilhavam de preocupação.

Aragorn finalmente se permitiu relaxar naquele chão duro e frio. Ele fechou os olhos buscando reencontrar seu equilíbrio para finalmente perceber onde estava. Legolas o havia levado para cima de uma grande árvore.

"Onde estamos?" Indagou olhando tudo a sua volta.

Legolas sorriu com tristeza.

"No meu flat." Ele respondeu. "Voltamos ao ponto onde tudo já foi um dia o começo." Disse então cobrindo o rosto e massageando-o com ambas as mãos. "Eu morei aqui..." Ele confidenciou, a voz abafada por trás das palmas abertas. "Morava aqui quando Lorde Elrond me encontrou."

Aragorn finalmente se sentou. As ervas que Legolas havia colocado em seu ferimento realmente fizeram um bom efeito para conter o sangramento, mas a dor ainda estava muito presente. Ele retirou algumas folhas da pequena bolsa que sempre carregava consigo e as mastigou. Legolas acompanhou os movimentos do amigo com pesar.

"Sente dor, não é?" A pergunta era mais uma constatação. "Lamento não ter sabido como contê-la." Ele finalizou em voz baixa.

Aragorn finalmente pôde olhar e ver o amigo a sua frente. O príncipe permanecia encolhido naquele chão improvisado, laçando agora os braços em volta de si mesmo como sempre fazia quando se sentia confuso ou temeroso. Seus cabelos estavam desfeitos e os pés descalços.

"Perdoe-me, Estel." Ele lamentou olhando-o nos olhos.

"Legolas..." Aragorn finalmente encontrou as palavras que lhe fugiam. "Como... como está aqui? O que aconteceu?"

"Um ser estranho o estava carregando." Disse o príncipe desviando seu olhar para a paisagem e depois olhando para o chão abaixo deles. Parecia temeroso de que fossem surpreendidos. "Não sei o que era ao certo... mas não era um orc, talvez mais uma das estranhas mutações que andam surgindo nesse lugar que um dia já foi belo e de paz."

Aragorn acompanhou os movimentos e olhares do amigo e ele também se viu espelhando as mesmas atitudes do preocupado príncipe.

"Você o matou?"

"Quem?" Questionou inocentemente o rapaz enquanto olhava a sua volta, ainda aguçando seus sentidos para receber os avisos que a natureza queria lhe dar.

"A tal criatura que me carregava."

"Sim." Ele respondeu com naturalidade, sem voltar a encarar o companheiro. "Covardemente, devo admitir. Acertei-o de surpresa com meu punhal... Acertei-o em uma cruel emboscada."

Aragorn não pôde evitar o riso que lhe fugiu. Legolas havia derrubado o perigoso inimigo, que o carregava só mesmo os Valar saberiam para onde e estava desmerecendo seu ato de amizade e coragem com detalhes tolos e irrelevantes.

"Não me diga!" Brincou o guardião. "Isso é uma vergonha, Legolas! Você deveria tê-lo pego a unhas como bom guerreiro que é."

O arqueiro sorriu amavelmente e baixou a cabeça, mas Aragorn podia sentir que aquele sorriso era apenas mais um ato de camaradagem do valoroso companheiro. Legolas inquietava-se no lugar onde estava sentado, suas mãos agarravam a própria túnica com força. Finalmente voltou seus olhos amargurados para o amigo.

"O que foi, Legolas? O que o está incomodando?" Indagou o guardião apoiando levemente a mão na perna do arqueiro.

"Vocês foram atacados?" Ele finalmente indagou em um tom estranho. As palavras escapavam-lhe rapidamente pelos lábios como se ele estivesse sem ar, ou sentisse que a oportunidade lhe faltaria. "Era um grupo muito grande? Quem estava com você, Estel?"

Aragorn sentiu-se então finalmente desperto e uma preocupação visível se fez em seu rosto. O que teria acontecido aos outros? A imagem do pai lutando contra mais de um inimigo veio enfim esbofeteá-lo e o ar fugiu de seus pulmões desobedientemente.

"Valar!" Exclamou em desespero. "Precisamos ir encontrá-los. Saber o que houve."

Legolas franziu a testa, mas voltou a apoiar o rosto nas mãos.

"Legolas, o que foi?"

"Quantos eram?" Indagou.

Aragorn segurou-lhe então os punhos e fez com que o amigo voltasse a olhar para ele.

"Está ferido, Las?" Interrogou preocupado. "Não parece bem."

"Não." Respondeu o outro com simplicidade.

"Por que parece tão agoniado?" Insistiu o amigo não se dando por satisfeito com a resposta monossilábica do príncipe.

"Porque estou agoniado, Estel." Admitiu o arqueiro voltando a esfregar o rosto e voltando a preocupar o guardião a sua frente. "Vocês estavam a minha procura não é mesmo? E foram atacados."

Aragorn balançou a cabeça e estalou os lábios. Aquele era o Legolas que ele tão bem conhecia. Preocupado como sempre com aqueles a quem amava e esquecendo de seu próprio valor.

"Pare já com isso, elfo teimoso." Ele ordenou com veemência. "Estávamos indo a Mirkwood, alertar seu pai. Você bem sabe que Heron e Hawk não o levaram com eles por causa de sua bela face."

Legolas encolheu-se mais uma vez, visivelmente transtornado com a brincadeira do amigo. Aragorn apertou os olhos e uniu suas sobrancelhas enquanto um receio sombrio veio visitá-lo. Em seguida ergueu o rosto do amigo para analisar-lhe os traços. Legolas aceitou os olhares que o guardião lhe lançava e permaneceu imóvel.

"Fizeram-lhe algum mal, mellon-nîn?" Indagou por fim receoso.

O olhar do príncipe encontrou os do guardião e um brilho inexpressivo o invadiu.

"Responda-me, mellon-nîn." Insistiu o outro.

"Obrigaram-me a comer algo." Declarou por fim o rapaz. Seu rosto permanecia sem cor ou expressão. "Não sei o que era."

Aragorn sentiu o sangue gelar em suas veias. Os olhares dos irmãos e do pai, a preocupação que inundou aquela sala quando a história da planta das esperanças abandonadas... dos sonhos proibidos foi revelada, se transformaram em imagem real a sua frente. O temor de todos tinha um motivo.

Legolas lançou-lhe um olhar confuso. Ele parecia querer questioná-lo sobre o porquê da súbita reação de agonia do guardião, mas um silêncio estranho se fez, como se algo o estivesse calando. Aragorn encarou a figura franzina a sua frente. Algo estava realmente errado com o amigo, cujo olhar não se desviava do seu, mas parecia, de certa forma, não estar realmente vislumbrando visão alguma.

"Quer me perguntar algo, Legolas?" Ele arriscou.

"Quero." Respondeu o arqueiro em um tom amargurado.

Aragorn franziu a testa.

"Por que não pergunta?"

"Não... não sei."

Aragorn ergueu então a mão apoiando-a no rosto do amigo. Estava com uma temperatura estranha. Ele não sabia distinguir se quente ou fria, mas com certeza totalmente diferente de qualquer elfo. Idéias terríveis começaram então a assolar seu pensamento.

"Legolas. Pergunte o que quer perguntar." Ele disse.

"Que planta é essa?" Indagou então o arqueiro instintivamente.

Aragorn engoliu a saliva com dificuldade.

"É chamada galenolas" ele explicou, atendo-se apenas aquelas palavras e deixando o resto da explicação se perder. Precisava fazer um teste.

Legolas apertou os lábios e as mãos em volta de si, mas não disse mais nada. Aragorn aguardou por alguns instantes que pareceram horas nos quais o amigo elfo apenas continuou segurando seu olhar. Os músculos da face do arqueiro tremiam levemente.

"Quer perguntar mais alguma coisa, mellon-nin?" Arriscou mais uma vez o guardião, na esperança de que talvez suas conjeturas fossem apenas fruto de um dia difícil.

Mas não eram.

"Sim." Veio novamente a resposta automática.

"Mas não pode." Retorquiu o guardião em um tom amargo. "Não pode e não vai perguntar mais nada sobre isso, certo?"

E uma das visões mais tristes se fez diante dele. Os olhos de Legolas encheram-se de lágrimas. Lágrimas de angústia e desespero, mas seus lábios se calaram, selados quase que involuntariamente em um ato de obediência forçada.

"Certo Legolas?" Ele insistiu.

"Certo." Respondeu o elfo com firmeza

Mas uma lágrima descia solitária por seu rosto.

"Por que está chorando, Legolas?"

"Porque preciso saber." Respondeu o elfo apertando mais uma vez o próprio corpo.

"Precisa saber o quê?"

"A resposta da pergunta que não posso mais fazer." Respondeu rapidamente o arqueiro baixando muito a cabeça agora, como se fosse ser castigado por dizer o que dizia.

Aragorn respirou fundo. O mal provara sua força. E era maior do que ele imaginava. Ele arrastou-se um pouco então e puxou o elfo para perto de si. Legolas apoiou a cabeça no peito do amigo e aceitou o abraço. Mas até naquelas atitudes Aragorn sentia que o amigo estava sendo induzido.

"Galenolas é uma planta que te impede de distinguir o que é sua vontade e vontade dos que o rodeiam, Legolas." Ele disse então. "Eu te impedi de questionar-me porque estava testando o quanto ela já o havia afetado. Lembra-se de quantas folhas comeu?"

"Não me lembro." Respondeu o arqueiro ainda nos braços do amigo.

"O que está sentindo?"

"Nada."

"Legolas." Preocupou-se o guardião fazendo o elfo voltar a olhar para ele. "Legolas me conte tudo o que está sentindo de diferente em você. Por favor."

"Não sinto nada, Estel." Respondeu o rapaz inocentemente. "Só..."

"Só?"

"Frio." Respondeu o elfo voltando a aninhar-se nos braços do amigo.

&&&

"Meu senhor!" Gritou então a voz de um dos batedores.

O grupo saiu então de dentro da densa floresta para atingir a clareira de onde o chamado viera. O assustado elfo estava agachado agora, próximo a um corpo cujas feições eram assustadoras.

"Ele foi golpeado, meu senhor." Disse o elfo em uma voz contrariada. "Pelas costas."

"Esse rosto me é familiar." Soou a austera voz do rei que se posicionava próximo ao cadáver. Ele tentava vasculhar os cantos escuros de suas lembranças para encontrar a memória a qual aquela infeliz criatura pertencia.

"É Harnien, majestade." Disse uma voz surpresa a poucos metros do rei. Thranduil voltou-se para a direção dela e encontrou o olhar aflito do curador do grupo. "Pensei que estivesse..."

"Harnien?" Repetiu o rei elfo confuso. "Harnien... nunca ouvi falar nessa criatura."

"Harnien, irmão caçula de Rhunoir..." Completou o curador de Mirkwood apertando os lábios em pura apreensão. Ele parecia lembrar-se muito bem dele. "Os filhos do conselheiro..."

Thranduil franziu impossivelmente as sobrancelhas e voltou a encarar o cadáver que jazia com seus olhos voltados para o céu. Ele se lembrava agora da história dos irmãos exilados pelo pai, mas não conseguia associar aquele rosto à lembrança da ocasião.

"Refresque minha memória, sábio Faernestal." Pediu o rei ainda com seus olhos voltados para a infeliz cena que se fazia no local.

O nobre curador voltou-se para o corpo aproximando-se devagar e franziu a testa apreensivo.

"Criadores de conflitos..." Ele disse olhando o rosto pálido do elfo. "Semeadores de discórdia. O rei fez bem e exilá-los... sequer o pai dessas criaturas foi contra tal procedimento."

Thranduil balançou a cabeça insatisfeito. Aquelas palavras não o estavam ajudando como deveriam. Era inútil buscar no passado algo que parecia pertencer ao presente. A imagem que tinha em sua mente não possuía os anos de existência que ele tentava atribuir-lhe.

"Eu o conheço..." Disse o rei para si mesmo. "Só não consigo encontrar o elo que o une as recordações que tenho."

"É o homem do punhal!" Disse uma outra voz saindo apressada do meio dos outros elfos que agora se juntavam a volta de seu rei. Era Alagos, cujo rosto pálido parecia ver um terrível fantasma. "Mas... mas não era... ele não era um... um..." Ele tentava prosseguir enquanto seus olhos fixavam-se nas intrigantes pontas que as orelhas do cadáver possuíam.

"Punhal?" Indagou o rei irritado por sentir-se mais confuso do que gostaria. "Que punhal?"

Mas o rapaz se calou. Para continuar a explicação que esclareceria o fato ele teria que tocar em um assunto que agora era proibido. Thranduil ficou a espera da resposta que não surgiu, mas, depois de alguns minutos ela se fez completamente desnecessária. Uma das imagens contra as quais lutara com fervor para fazer desaparecer, ressurgiu em sua mente clara como o dia. A imagem daquela criatura ameaçando uma pessoa a quem ele queria esquecer.

"Legolas." O nome escapou-lhe dos lábios e um desconforto se fez entre os presentes, como se estivessem em uma sala fúnebre velando um ente querido.

Thranduil sacudiu levemente a cabeça, ignorando o mal estar que criara e voltou a encarar a figura esticada em solo verde. Faernestal estava agora agachado perto dela, observando o corpo sem tocá-lo. Parecia intrigado.

"O que o perturba, sábio amigo?" Indagou o rei sentindo um estranho frio na brisa que os atingia. Era um pressentimento que sempre o acompanhava. Quando o ar da floresta que amava se tornava um elemento incômodo em sua vida, aquele era sinal de que uma iminente tempestade estava se formando.

"Algo não está certo, meu nobre senhor." Respondeu o curador voltando seu olhar para o amigo, mas sem se levantar.

"O que, criatura?" Impacientou-se o rei como lhe era de costume. "O que se passa? Não temos toda a eternidade para esclarecermos o que aconteceu aqui."

Faernestal não se intimidou. Conhecia Thranduil desde que nascera e acompanhara a triste trajetória que lhe roubou a juventude, o pai e a liberdade, atirando-o incondicionalmente no trono de Oropher após sua morte. Ele entendia toda a verdade que se fazia esconder nas lacunas e vazios da fala do rei. Com um suspiro de quem buscava mais espantar a aflição que o sufocava do que resgatar o pesado ar do qual precisava, o curador virou então o cadáver, expondo ao rei a intrigante realidade que o estava perturbando.

Os olhos de Thranduil se transformaram em duas luas cheias, mas sua reação durou apenas alguns segundos. Sua vida na Floresta Escura já lhe proporcionara experiências estranhas o suficiente para muni-lo do preparo necessário para aceitar qualquer situação bizarra que surgisse. Mas os soldados a sua volta não puderam conter as mais diversas expressões de surpresa, inquietação e pavor que apareceram como uma cascata pelo local.

"Sangue negro." Atestou o curador erguendo-se finalmente.

"Sangue orc." Alagos deixou escapar.

"Mas como?" Algumas vozes diziam para si mesmas, enquanto olhares assustados buscavam os esclarecimentos do rei.

Thranduil soltou os ombros e apoiou a mão por sobre a espada. "Galenolas" Ele disse em voz baixa olhando para a grande árvore perto da qual o corpo se encontrava. A natureza e seus mistérios, os dons que podem ser transformados em maldição. Ele estendeu as mãos e apoiou-as por sobre o grande tronco não conseguindo evitar que sua mente voltasse a ser preenchida com a imagem do filho, a quem ele tinha certeza de que corria um grande perigo. "Pássaro..." Ele disse em um suspiro. "Pássaro dos meus pesadelos."

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"Ela não canta mais, ada..." Disse o menino encolhido no canto do jardim.

"Legolas, por que está aqui? Sabe há quanto tempo eu estou a sua procura?" Indagou o pai se aproximando. Ele parecia bastante insatisfeito pelo filho tê-lo feito empreender tamanha busca por praticamente todo o reino.

O rapazinho encolheu-se mais ainda ao ver o pai se aproximar.

"Não se zangue, ada." Ele pediu abraçando os joelhos.

Thranduil franziu os lábios e balançou a cabeça.

"Pois devia." Ele disse agachando-se perto do filho para poder olhá-lo nos olhos. "Você torna as coisas muito difíceis para mim."

"Eu vim ouvir a árvore da nana. Mas ela não canta mais para mim, ada. Por que? Ela também sente saudades dela?"

Thranduil ergueu então os olhos. A "árvore amarela", como Legolas gostava de chamá-la e cujas flores Elvéwenadorava, estava seca e triste. Naquela época do ano ela costumava estar repleto de florzinhas com as quais a esposa gostava de enfeitar os cabelos.

"Ela sente saudades... não é ada?" Insistiu o menino apoiando o queixo por sobre os joelhos e direcionando seus grandes olhos azuis para o pai.

Thranduil ergueu-se e deu dois passos em direção à árvore, apoiando ambas as mãos nela. Seus olhos entristeceram-se.

"A árvore morre, Legolas."

O menino arregalou seus olhos e se levantou, correndo para perto do pai. Ele também colocou suas pequenas mãos perto das do rei e recebeu a mesma constatação. Seus joelhos então se dobraram e uma sensação de dor indescritível encheu-lhe a alma. Thranduil agachou-se perto do filho e ficou alguns instantes vendo o menino chorar. Desde que a mãe se fora eles quase não conversavam e perceber que o rapazinho buscava consolo em lembranças perdidas de Elvéwen, ao invés de procurar por ele, era mais um dos espinhos que ele tinha que enfrentar.

"Alguns não agüentam a tristeza da perda." Ele disse por fim sem tocar no menino próximo a ele.

"Eu queria ir com ela." Respondeu o pequeno elfo entre soluços. "Mas ela me disse que não posso..."

Thranduil franziu os olhos. "Quem te disse?"

"Nana." Respondeu o menino enxugando as lágrimas com a palma das mãos. "Ela me disse que o senhor precisa de mim." Ele completou enrubescendo levemente e olhando uma vez mais para o pai. "É mentira dela, não é ada?" Ele arriscou mesmo sabendo que enfrentaria a ira do pai por estar questionando as palavras da mãe. "Ela só diz isso porque quer que eu fique aqui e não a acompanhe no Hall de Mandos, não é?"

O queixo de Thranduil caiu e ele se viu pela primeira vez totalmente sem palavras. Aquela avalanche de informações e emoções o estava confundindo e desgastando de forma assustadora. Em um rompante ele se levantou dando alguns passos para longe do menino como se temesse a proximidade do filho agora.

"Você não a ouviu dizer nada, elfo tolo." Ele disse por fim, surpreendendo-se por não usar mais o diminutivo com o filho, mesmo sabendo que ele ainda não atingira a fase adulta. "Você ouve o que quer ouvir. Deixe a memória de sua mãe em paz no Hall da Espera. Deixe-a em paz. Não pense mais nela."

Legolas fechou os olhos assim que o tom de voz do pai mudou e não os reabriu nem mesmo quando o rompante de fúria de Thranduil extinguiu todas as palavras possíveis. O rei arrependeu-se do que dissera. Legolas ainda era um elfinho, um elfinho tentando se fazer de adulto, mas ainda um elfinho. Uma das últimas crianças de Mirkwood pelo o que os tempos difíceis indicavam e, provavelmente, uma criança que não deveria sequer ter nascido. Ele devia saber. Seus pressentimentos já lhe diziam que a sutileza e devoção de Elvéwen iriam imperar no caráter do gentil Legolas e essas eram características das quais a Terra Média não precisava mais.

"Volte para o palácio." Ordenou ao filho. "E nunca mais saia de lá sem que alguém o acompanhe, fui claro menino?"

"Sim, senhor." Disse o rapazinho erguendo-se com dificuldade e cruzando o jardim em direção ao portão central. Thranduil sentiu um gosto de fel na boca ao ouvir o menino tratá-lo por 'senhor' daquela forma.

"Legolas." Ele chamou mais uma vez. O menino parou diante do portão de saída e ofereceu-lhe um olhar terrivelmente triste. Thranduil deu alguns passos em sua direção. "Ela não mentiu." Ele disse respirando fundo e prendendo o olhar do filho no seu. Elvéwen nunca mentia."Você ainda é meu soldado." Completou inseguro das palavras que proferia e do significado que teriam para o futuro do rapaz. Mas eram as palavras de seu coração. "E Mirkwood precisa de você."

"Sim, senhor." Repetiu o rapaz incorporando o papel que o pai lhe atribuía agora, mas seu tom não convenceria nem ao mais desavisado dos elfos. Thranduil aproximou-se mais e colocou as mãos nos ombros do filho.

"Ela nunca mentiu para você, Legolas." Ele reforçou recebendo um leve aceno como resposta.

"A árvore vai morrer." Lamentou o menino baixando a cabeça com tristeza. "E toda a memória dela vai desaparecer."

"Memórias são memórias, menino." Disse Thranduil por fim. "Não é preciso que nada nesse mundo as despertem... Elas têm vida própria".

Legolas engoliu a saliva e soltou os ombros sentindo o peso das mãos do pai, sentindo o peso da responsabilidade que elas lhe passavam agora e para a qual não sabia se estava suficientemente pronto.

"O senhor tem boas lembranças às quais se apegar?" Indagou por fim, reencontrando os olhos claros do pai que franziu a testa, intrigado com o questionamento.

"Tenho." Respondeu o rei soltando finalmente o filho numa indicação de que o assunto deveria se encerrar ali. Legolas obedeceu afastando-se e abrindo o portão, mas voltou-se mais uma vez e percebeu que o pai ainda olhava para o ipê com grande pesar.

"Quando nos separarmos, ada." Ele disse enfim, as palavras criando vida em sua própria boca, pensamentos rebeldes que não queriam ser calados. "Espero que o senhor tenha recordações boas nas quais se apegar também."

Thranduil sentiu o impacto daquelas palavras. Sentiu significados escondidos atrás delas e que eram de fato preocupantes. Ele se voltou para encontrar o portão aberto, oscilando em um vai e vem triste, embalado pela brisa fria que passava por ele. O pequeno príncipe se fora sem esperar por uma resposta sua, ou talvez temendo qual resposta pudesse receber.

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Thranduil fechou os olhos e sentiu uma mão em seu ombro.

"Devemos voltar ao palácio, o senhor parece cansado."

Era Faernestal. O dedicado curador fazendo suas funções melhor do que ninguém.

O rei recompôs-se imediatamente, ligeiramente incomodado por demonstrar-se inquieto e indeciso em relação ao que fazer.

"Os fatos ainda não se esclareceram, nobre Faernestal. Muitas indagações ainda estão desprovidas de uma resposta convincente em minha cabeça."

"O que o preocupa mais, meu senhor?" Indagou o curador de Mirkwood.

"As intenções dessas duas criaturas. Eu as conheci e acredito que não tenham sido deixadas de lado."

"Acredita que Harnien e o irmão tinham intenções perversas para com nosso povo?" Adiantou-se o curador, apegando-se a má reputação da complicada dupla de elfos.

"Sim." Respondeu o rei com simplicidade. "Vamos vasculhar a área." Gritou então para seus elfos que pareceram despertar de um pesadelo, retomando suas posturas e posições. "Quero saber do paradeiro do outro traidor."

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"E Hawk, Legolas?" Indagou o guardião enquanto a dupla descia vagarosamente a grande árvore na qual o flat do príncipe fora construído, após ouvir o término da triste história que o arqueiro lhe contava. "Você deu-lhe o mesmo destino merecido que deu ao irmão."

Legolas deslizou pelo último galho e atingiu o chão caindo subitamente de joelhos. Aragorn veio ajudá-lo.

"O que foi, mellon-nin?" Ele indagou colocando o elfo novamente em pé e olhando preocupadamente a sua volta.

"Nada." Respondeu o amigo voltando a esfregar o rosto.

Aragorn afastou as mãos do elfo para tentar sentir como o ele estava. Legolas parecia cansado, um cansaço estranho, um cansaço da alma. Ele não estava deprimido ou agoniado como das outras vezes em que estivera abatido. Ele só parecia realmente cansado.

"Não o matou, não é verdade?" Indagou buscando uma confirmação que de fato já tinha.

"Não podia." Disse o rapaz confuso, voltando a esfregar o rosto com força. "Já havia matado um elfo pelas costas..." Ele assumiu demonstrando o grande pesar que aquele ato em si despertava nele. "Não podia matar um elfo desacordado."

Aragorn puxou o amigo para perto de si. Era terrível percebê-lo assim tão frágil e confuso.

"Tudo bem, mellon-nin." Disse o guardião apoiando uma palma na face do arqueiro. "Foi sorte aquele desgraçado não ter acordado e..." Mas uma idéia veio incomodá-lo. "Legolas... como você chegou até aqui? É uma distância razoável deste lugar que mencionou até o ponto onde estamos..."

Legolas sorriu e ergueu seus olhos para o céu. O contraste do dia ensolarado com o azul dos olhos do arqueiro eram de um encanto maior do que tudo, como espelhos de uma mesma beleza.

"Por Iluvatar." Disse o rapaz soltando em seguida um silvo longo.

O som de um trotar surgiu após alguns instantes e não era um trotar qualquer. Era um trotar que Aragorn conhecia muito bem e que fez com que um largo sorriso surgisse em sua face. Momentos depois um belo corcel negro apareceu por entre as matas e dirigiu-se até eles com seu caminhar descompassado para enfim encostar a cabeça no peito do guardião.

"Espírito! Meu bom amigo!" Exclamou o dunedain feliz com a agradável surpresa. "Foi em busca daquele a quem escolheu seu senhor?" Ele indagou esfregando agora o nariz do cavalo que parecia apreciar muito as demonstrações de afeto do guardião. "Fico só me lembrando de que disseram a Halbarad que o sacrificassem quando nasceu." Ele confidenciou ao amigo a seu lado que também escorregava seus longos e finos dedos pela crina do cavalo. "Que desperdício de dedicação e afeto teria sido."

"Sei dessa história triste." Respondeu o elfo olhando o animal nos olhos agora. "Temos muito em comum."

Aragorn puxou o amigo para perto de si mais uma vez, abraçando-o pela cintura.

"Têm sim, mellon-nin." Ele disse dando-lhe um leve aperto. "São muito amados pelos amigos que têm."

Legolas voltou a sorrir. Um sorriso autêntico dessa vez.

"Somos mesmo." Ele concordou se desfazendo dos braços de Aragorn e ajeitando a cela de Espírito.

"Eu guio." Disse o guardião tomando as rédeas das mãos do elfo e subindo no animal. Em seguida estendeu a mão para o acompanhante que a aceitou um pouco contrariado e se acomodou atrás do dunedain.

"O que foi?" Indagou ao silencioso elfo enquanto colocava o animal em movimento.

"Nunca mais vai confiar em mim?" Inquiriu o arqueiro apoiando o queixo no ombro do amigo a sua frente.

Aragorn sorriu pendendo levemente a cabeça para que seus rostos se encostassem levemente e segurou uma das mãos do príncipe que estava sobre sua cintura.

"Confiaria minha vida a você se preciso fosse, Legolas, mellon-nin." Ele disse com seriedade depois. "Só me deixe cuidar das coisas enquanto você ainda está abatido."

"Você também está ferido, Estel." Discordou o elfo.

"Mesmo assim..." Ele retrucou. "Mesmo porque, graças a você, já estou muito melhor."

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"Algum sinal?" Indagou o irmão lá embaixo.

"Nenhum... até onde minha visão me favorece..." Respondeu Elrohir apoiando-se um pouco mais adiante enquanto seus olhos buscavam inutilmente algum sinal do caçula. "Essa floresta é mais densa do que uma nuvem de gafanhotos."

"Não vá cair daí!" Preveniu o mais velho preocupado com a posição desvantajosa em que se encontrava seu gêmeo. Elrohir subira na mais alta árvore da região e agora se esticava como uma serpente em um de seus últimos galhos.

"Não... não por vontade própria." Riu o outro escorregando um pouco mais adiante. "Mas se cair deixo meu cavalo para você." Ele brincou enquanto apertava mais os olhos.

"Quer calar essa boca." Aborreceu-se Elladan com a brincadeira. "Se não tem nada para me dizer desça logo daí."

"Ah!!" Gritou o gêmeo escorregando pelo galho e segurando-se agora com uma só mão, como se fosse um chimpanzé.

"RO!!!" Gritou Elladan colocando ambas as mãos na árvore para escalá-la.

"Nossa!! Que visão!! Riu o outro provocativamente, ainda olhando para a floresta com a mão firmemente laçada no único galho que lhe servia de apoio, enquanto seu corpo gingava no ar como uma corda mal amarrada.

Elladan enervou-se como nunca se enervara na vida.

"Elrohir... você devia se envergonhar por assustar as pessoas dessa forma." Resmungou o elfo baixando a cabeça e apoiando as mãos por sobre o tronco forte a sua frente. Seu coração descompassado tamborilava enlouquecido no peito. "Eu devia te dar um belo corretivo quando descesse daí."

"Então não descerei." Provocou o outro. "Que tal vir me buscar, hein?"

"Que tal você calar essa sua boca grande... enorme... gigantesca...?" Sugeriu o mais velho visivelmente contrariado. Mais uma das inúmeras vitórias do terrível Elrohir.

"O que se passa?" Surgiu Elrond colocando a mão por sobre o ombro do filho mais velho que se sobressaltou afastando-se subitamente do pai para depois enrubescer ao perceber de quem se tratava.

"Desculpe, ada!!" Disse o mais velho reforçando o nome do pai para prevenir o irmão acima dele de que suas experiências como malabarista deveriam ter um fim imediato agora.

"Onde está seu irmão?" Indagou o curador. "Já estamos levantando acampamento."

"Estou aqui, ada." Disse o jovem elfo caindo em pé a poucos passos do pai. Elrond olhou o filho com desconfiança. Conhecia os ares do gêmeo mais novo e sabia decifrá-los como ninguém.

"Pode ver alguma coisa lá de cima em suas manobras como elfo da floresta?" Indagou o pai apagando completamente o sorriso do filho do meio. Ele sabia o quanto o rapaz detestava esse tipo de comparações. Elrohir, mais do que ninguém, era o primeiro a perturbar o próprio Legolas com brincadeiras que sugeriam a superioridade dos elfos de Rivendell em relação aos elfos da floresta de Mirkwood.

"Não." Aborreceu-se o jovem elfo como resposta. "Essa Floresta Negra," resmungou o rapaz reforçando o triste nome do lugar, "é inabitável, intragável e indecifrável. Não consigo conceber que alguém ainda queira viver aqui."

"Elfos noldorianos apreciam mesmo o conforto dos lares com telhados sobre suas cabeças." Uma voz conhecida surgiu. "Esqueceram-se de suas origens."

Uma grande agitação se fez no acampamento e várias armas foram apontadas para a direção do inesperado visitante.

"Como péssimo diplomata que sou." Disse a voz do rei de Mirkwood que não se intimidou com a agressiva recepção. "Vim até aqui sozinho saber porque estão em minhas terras, ao invés de mandar meus soldados tratarem do assunto como deveria ser feito."

Elrond suspirou baixando finalmente a arma que também erguera. Era impressionante como aquele elfo de Mirkwood havia conseguido entrar em um acampamento com quase cem elfos sem ser visto. As habilidades de guerra de Thranduil eram de fato inquestionáveis. Mas algumas perguntas vinham martelar sua mente. Perguntas cujas respostas não eram visíveis nos belos traços do rosto do rei, mas que estavam de certa forma escritas ali, como hieróglifos antigos e difíceis de serem decifrados.

"Viemos a sua procura. Precisamos conversar, Thranduil." Declarou o curador guardando a espada novamente em sua bainha, gesto que foi espelhado por todos os outros elfos, menos um.

"Thranduil Oropherion." Saudou uma voz não muito amigável. Uma voz que o rei de Mirkwood não desejava ouvir.

"Glorfindel de Gondolin" Saudou o rei colocando a mão por sobre o peito, mas não se inclinando como lhe era devido. "Estou com presenças ilustres caminhando por entre as minhas árvores."

"Pelo que pude perceber, outras pessoas anseiam muito em chamar esse emaranhado verde confuso de seu." Respondeu o lorde louro com desdém, retribuindo ao tom sarcástico do rei.

Thranduil desviou seu olhar por milésimos de segundos buscando compreender aquelas insinuações escondidas por trás da ironia tão característica daquele que enfrentou a mais terrível das feras. Mas seu olhar caiu por sobre os filhos de Elrond que já substituíam o ar inquieto que sua presença despertara, pelo riso disfarçado provocado pelo bom humor inadequado do rebelde lorde noldoriano.

"Vejo que tem informações que desconheço, Mestre Glorfindel." Afirmou o rei sem tirar os olhos de Elladan e Elrohir que voltavam a perder a tranqüilidade gerada pelo amigo do pai e passavam a se impacientar mais uma vez, sentindo o quão difícil era enfrentar o olhar inquisidor do rei de Mirkwood.

Elrond analisava toda a situação intrigado. Estaria a preocupação com o paradeiro de Estel inibindo seus sentidos, ou aquele encontro com o rei da Floresta Negra estava sendo muito mais amigável do que imaginaria suas mais otimistas expectativas? Thranduil era uma pessoa temperamental e imprevisível. Mas não tanto. Alguma coisa havia movido o sagaz dirigente de Mirkwood para dentro do campo inimigo.

"De fato temos." Confirmou Glorfindel erguendo levemente as pontas dos lábios em uma indiscutível demonstração de prazer pelo que dizia. "Informações que não o agradarão."

"Legolas foi seqüestrado, Thranduil." Declarou Elrond decidindo jogar todas as suas cartas de uma única vez antes que Glorfindel tornasse a situação impossivelmente pior. Era a ação mais inapropriada que poderia tomar nas circunstâncias em que se encontravam, mas exatamente por julgá-la imprevisível, esperava que essa imprevisibilidade também surpreendesse ao líder de Mirkwood, obrigando-o a demonstrar alguns sentimentos que não demonstraria em seu estado de espírito natural.

E Elrond nunca esteve tão certo.

"Como assim?" Bradou o rei dando um passo à frente e ficando a um palmo do curador. "Levaram-no de dentro de Rivendell? Debaixo do seu teto?"

Elrond respirou fundo. A vergonha invadiu-lhe o coração, mas fora acompanhada por um outro sentimento que muito o agradava, a certeza de que Thranduil ainda se importava.

"Mas o que lhe importa, não é mesmo Thranduil?" Provocou Glorfindel suficientemente insatisfeito com o tratamento que o rei destinava agora ao amigo. "Ele é um problema em forma de elfo. Tê-lo longe chega a ser um alívio."

E nunca uma situação se invertera tão rapidamente. Quando Glorfindel deu por si já estava contra uma grande árvore com o punhal do rei em sua garganta. Os elfos do acampamento empunhavam mais uma vez suas armas e o clima tornou-se por demais pesado.

"Acha que Mandos vai querê-lo de volta?" Indagou o rei com os olhos vermelhos de fúria. "Sente saudades de seus parentes de Gondolin que aguardam pacientemente no Hall da Espera após o triste fim que tiveram?"

Glorfindel apertou os lábios e os gêmeos viram pela primeira vez seu nobre mestre e tutor demonstrar inquietação e tristeza.

"Logo seremos iguais, caro Thranduil." Respondeu o lorde louro com amargura. "Logo você também não terá parente algum nessa Terra Média com quem se preocupar. O que presumo ser a sua vontade."

Thranduil apertou mais a mão que segurava o punhal e seus olhos ganharam um brilho assustador.

"Minha vontade no momento, elfo maldito. E ver se seu sangue é realmente vermelho."

"O meu com certeza é." Retrucou o elfo tentando conter a ira que apenas Thranduil parecia ser capaz de fazer brotar nele. "Mas esse a quem um dia você chamou de filho em breve estará dividindo as refeições em um brejo junto ao marcado povo orc."

Thranduil soltou finalmente a vítima que tinha capturado e deu as costas dando alguns passos desnorteados pelo acampamento. As peças do quebra cabeças se uniam formando um desenho tenebroso.

Elrond baixou a cabeça e apertou os punhos. Realmente havia várias maneiras de se dar uma notícia difícil a alguém, mas Glorfindel era sempre de uma criatividade fora do normal no que dizia respeito a inovações. Ele voltou a juntar sua energia e se aproximou do rei.

"Meu amigo Glorfindel não tem muito tato para revelações." Disse o curador colocando-se ao lado do dirigente de Mirkwood, mas evitando o olhar do louro elfo. "Entretanto o que ele diz é verdade Thranduil. Legolas corre perigo e junto a ele, o seu povo também. Nós realmente precisamos conversar."