Olá.
Antes de tudo não posso escrever palavra alguma sem primeiro agradecer às doces amigas que pacientemente leram meu novo texto, mesmo se questionando, talvez, porque não era um capitulo novo dessa fic ao invés de um texto que nada tinha a ver com ela. Obrigada por lerem e mandarem suas impressões... E AINDA ESTAMOS AQUI acabou me soando inacabada, como uma fic que queria acontecer, se desdobrar em capítulos e capítulos e ainda estou tentando manter em uma jaula. Quem sabe um dia.
Mas obrigada... Embora obrigado não seja o bastante, é o que me sinto capaz de dizer agora. Obrigada mesmo.
Esses momentos finais de VIDAS E ESPÍRITOS estão realmente sendo mais árduos para a revisão do que imaginava que fossem. Muita coisa vai acontecer nesse capítulo, espero que tudo acabe ficando claro o suficiente. Por favor, me avisem se algo lhes soar estranho. Fico grata.
Ah... rememorações em itálico dessa vez... esse site da fanfic ainda vai me enlouquecer...
Agradecimentos breves hoje... breves...
Lady-Liebe – Minha querida amiga Liebe e escritora de talento, que reserva parte do seu precioso tempo para mim. Obrigada.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Misao, me escreveu, e prometeu... e ainda acredito... Porque as palavras que ela escreve só podem me despertar esperança e alegria. Obrigada pelas reviews. Sinto-me honrada por uma escritora como você apreciar o que escrevo.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" desmembra-se como pétalas de rosa. Meu coração está apertado pela expectativa que ainda envolve o casal... e ao mesmo tempo se apaixona cada vez mais pelas palavras que saem dessa mente genial da Myri. Obrigada pela review amiga, e pelo apoio.
Nimrodel Lorellin – Fabulosas "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Nim dispensa qualquer comentário que possa fazer. Doce amiga a quem não esqueço e sempre me presenteia com belas palavras de incentivo e iluminação. Dedico e dedicarei sempre esse texto a ela, que saboreia cada palavra, que se apaixona até pelos meus deslizes, apenas porque tem um coração bom, um coração que é capaz de ver muito além do que eu mesma vejo no que escrevo. Doce Nim. No entanto, não pense que essas palavras a isentam de me presentear com o próximo capítulo das CRÔNICAS... Muito pelo contrário...
Vicky Weasley: "BITTERSWEET" um silêncio triste...
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – Super Ju... Super texto... Pronto para quem ainda não leu... Pronto para quem quer lê-lo novamente. Vale a pena. Eu já fiz. E farei várias e várias vezes.
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Mais um silêncio triste. Estarão as vozes daquelas que podem fazer nossos personagens ainda mais reais se calando? Triste.
Kika-Sama: "APRENDENDO". Silêncio... Triste...
Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Um silêncio diferente... O silêncio da expectativa. Aguardo. Obrigada pela review maravilhosa, minha amiga. Obrigada.
Erualmar Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Mais silêncio... Triste...
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Kiannah me mandou uma review sincera e gentil. Super obrigada. Espero que sua mente brilhante esteja trabalhando em um novo presente para nós.
Amigas...
Syn, the time keeper. Deixou-me só dessa vez. Mas perdôo também... Sinto que todos andam mesmo muito atarefados.
Regina – Regina apareceu!!
Botori – Querida amiga. Super gentil, super sincera. Obrigada por me presentear com sua atenção mais de uma vez dessa vez. Beijos.
Aeka – Continua me deixando sem notícias... Vida corrida decerto. Beijos.
Leka – Leka me mandou um e-mail lindo sobre E AINDA ESTAMOS AQUI. Foi muito importante para mim. Você é gentil demais. Beijos e obrigada.
Soi – Soi das belas palavras. Obrigada. A Soi vai escrever!! Ela vai sim!! Estou esperando, mande o texto para mim primeiro, mande!!! (pensamento totalmente egoísta...). Aguardo e fico muito feliz.
Lali-chan– Ainda está me ajudando, lendo e opinando. Obrigada.
Veleth– Sem palavras para agradecer as poesias em forma de review que recebo da Veleth. Eu é que agradeço a Iluvatar por ganhar, mesmo sem merecer, um apoio tão importante quanto o seu. Obrigada!
Belle Malfoy – Espero que ainda esteja gostando.
Pink na – Disse que leu e gostou. Mas ainda não deixou review. Tudo bem. Eu perdôo. Mas não perdôo ainda não ter recebido sua fic. Beijos.
Daphne Pessanha "Arabella" – Estará Daphne ainda lendo os árduos primeiros capítulos. Obrigada Daphne.
Roberta – Ainda fica o agradecimento
Pitybe – Palavras bonitas que tocam o coração da gente. Doce surpresa. Muitos beijos.
34
O rei caminhava em volta da fogueira do acampamento agora. Fizera aquele trajeto circular tantas vezes que mesmo sua passada leve já começava a deixar marcas visíveis. O discurso de Elrond fora breve e claro, porém lhe trouxera mais agonia do que esclarecimentos ou certezas. Um jogo cruel parecia estar se armando contra ele, mas esse não era o ponto maior, ele apreciava os jogos de guerra, e ter um inimigo à altura só o incentivava ainda mais a querer encarar tal combate de uma vez por todas. Sim, um bom combate diário era o que sempre o motivara, mil estrelas por um combate justo, fosse contra quem fosse, fosse quem fosse o vencedor. Porém, o espinho que o incomodava, a ponta de pensamento que escurecia suas certezas era exatamente essa: seria de fato um inimigo à altura o que estava se fazendo ameaça? Estaria realmente este disposto a um combate justo?
A sua volta seus elfos agora se mesclavam ao grande grupo que Elrond trouxera. Ele os olhou um a um e recebeu a sincera retribuição que esperava deles. Nos olhos de cada soldado aquela certeza não enfraquecera: eles lutariam ao lado de seu rei com amor e dedicação, mesmo que fossem respirar o ar pesado de Mirkwood pela última vez.
Thranduil suspirou, parando finalmente em frente à fogueira e laçando os dedos atrás das costas. O queixo alto levava os olhos até as nuvens negras que ainda adornavam o céu, enquanto uma brisa gelada voltava a arrepiar-lhe as idéias.
"O vento da tempestade." Disse Elrond para si mesmo enquanto sentava-se cansado em uma grande raiz exposta e apoiava as mãos por sobre os joelhos.
"Que venha!" Desafiou Thranduil enchendo o peito com aquele ar de luta e risco. "Elfo algum teme o que a natureza lhe reserva."
Elrond soltou um novo suspiro e voltou a encarar o valente rei da Floresta Negra, a quem o ambiente a volta deles parecia despertar mais amor do que receio.
"A natureza não está nas mãos de Iluvatar dessa vez, pelo que parece." Disse Elrohir sentando-se ao lado do pai. "Essa diabrura que estamos enfrentando já não curva seu respeito ao criador."
"A natureza sempre está nas mãos de Iluvatar, jovem Elrohir." Retrucou o dirigente de Mirkwood com os olhos fixos nas chamas que ardiam a sua frente. "E por esse motivo não temeremos o conflito."
"Precisamos ter a cautela como nossa aliada e fortaleza." Aconselhou Elrond apoiando uma mão no ombro do filho e lançando-lhe um olhar cheio de significados. O rapaz entendeu o pedido do pai e silenciou os pensamentos que queria propagar. Glorfindel já havia temperado o rei com insinuações ofensivas demais. Não era prudente arriscar-se mais com o temperamento tão explosivo de Thranduil.
"Somos guerreiros, Peredhel!" Bradou o rei erguendo ligeiramente a voz. "Não há espaço para a diplomacia e para belas palavras aqui."
Elrond fechou os olhos. Dialogar com Thranduil era a tarefa mais árdua a qual fora destinado.
"Eles têm um trunfo nas mãos, Thranduil." Lembrou o curador. "E certamente têm planos para ele."
Thranduil encheu os pulmões.
"Eles acham que têm um trunfo, mas nada têm."
Elrond franziu as sobrancelhas.
"Decerto não pretende ignorar o fato de que estão com seu filho."
"Eu não tenho mais filho algum, Peredhel." Comunicou o rei fechando os punhos para reforçar a meia verdade que dizia. "E mesmo que fosse dado valor a essa criatura que um dia chamei de filho, eu nunca colocaria a segurança e soberania do meu reino em risco por ele."
"Nem Legolas aceitaria tal fato, majestade." Bufou Elrohir, deveras contrariado com as palavras que ouvira.
Thranduil sequer direcionou seu olhar para o filho de Elrond, o nome do príncipe soou-lhe como uma surpresa estranha, despertando-lhe reações que não queria ter.
"Pelo menos ele herdou algo de seu, não é mesmo, OropherionProvocou Glorfindel recostado em uma árvore há poucos passos deles.
Thranduil também ignorou mais esse comentário. Ficar naquele acampamento estava se tornando um desafio. Por essas e outras razões, ele sempre acreditara que a resolução de qualquer questão através das armas acabava sempre por ser muito mais 'civilizada'.
"Mas de algo estou certo..." Suspirou Elladan em uma voz baixa, como se falasse consigo mesmo. Thranduil voltou-se para ele e viu que os olhos do primogênito de Elrond eram sinceros. "Se a situação fosse inversa... Legolas daria tudo o que poderia ou não poderia para evitar que qualquer mal lhe atingisse, majestade. Ele o ama acima de tudo que possa existir em seu mundo... O senhor pode não saber... mas não é dono só da vida dele... o espírito dele lhe pertence também." Elladan baixou então os olhos, incapaz de encarar a possível reação do lorde de Mirkwood, na verdade temia ver o descaso, a insensibilidade ou até mesmo a repulsa no olhar do rei. Ele não suportaria ter a certeza, depois de tudo o que Legolas passou, de que os temores do amigo tinham fundamento.
Mas se o amável Elladan tivesse se arriscado a enfrentar suas dúvidas, se tivesse resolvido encarar os olhos do rei após a declaração que fizera, teria tido algumas surpresas...
"Bem... então não herdou realmente nada." Declarou Glorfindel em tom de descaso. "Pelo menos não há muito que lamentar pela perda do rapaz então."
"Quer se calar de uma vez por todas, criatura das sombras?" Exacerbou-se Thranduil prendendo novamente o olhar do guerreiro de Imladris no seu. "Não pense que não compreendo o jogo no qual quer me envolver."
"Não creio que compreenda absolutamente nada do que está a sua volta, elfo arrogante e presunçoso." Decretou o louro guerreiro parecendo não se intimidar com o tratamento recebido. "Se realmente compreendesse, aquele rapaz não estaria na situação em que está."
Thranduil apertou os punhos com tanta força que seus dedos perderam a cor e franziu o rosto em uma careta de revolta e indignação.
"Aquele ser infeliz estava sob os cuidados do seu reino." Retrucou.
"Infeliz de fato, pois se a sorte tivesse lhe sorrido ele teria nascido sob um teto abençoado pelo amor e pela tolerância e não em um covil de rancor e ódio como é o seu palácio."
"No meu palácio inimigo algum pisou para tomar o que é meu." Insinuou o rei sem tirar o olhar do guerreiro.
"Estou certo que não." Respondeu Glorfindel em moeda de igual valor. "Haja vista que os inimigos se criam por ali mesmo. Afinal, pelo que pude entender, esses dois elfos que agora estão com seu filho, são cria da raça de Mirkwood."
Thranduil encheu os pulmões e voltou a se aproximar do lorde louro. Os soldados a volta do grupo começaram a sentir o clima de guerra se instaurar. Uma guerra estranha, por certo, mas uma legítima guerra.
"Os inimigos que se criam no meu palácio ou em qualquer parte do meu reino são identificados e lhes é dado o castigo merecido, o que não ocorre em Imladris, que preserva e protege um semeador de discórdias como você. Realmente Peredhel é muito tolo por julgá-lo uma pessoa de confiança. Muito me admira que Mandos tenha permitido sua volta, pois, pelo que sei, apenas aos de coração puro, livre do rancor ou de qualquer outro sentimento nocivo, é dada essa segunda chance. Com certeza procurou ver-se livre de você, criatura indigesta."
"Por Varda e todas as estrelas do céu." Gritou Elrond erguendo-se. A paciência exaurida na face contorcida pelo cansaço e duvida. "Meus nobres lordes, cujos anos de existência nessa terra corrompida, provavelmente lhes proporcionou sabedoria o suficiente para enfrentarem os mais complexos problemas, hão de concordar que temos assuntos mais sérios a tratar, providências a tomar, mapas a ver, planos a traçar." Ele dizia andando aflito pelo acampamento e gesticulando os braços com veemência. Os dois outros elfos lançaram-lhe um olhar surpreso e confuso. Era um dos raros momentos, talvez único para alguns, no qual o curador mostrava-se terrivelmente farto dos que o rodeavam. Thranduil deu de ombros e voltando a caminhar em volta da fogueira e Glorfindel apertou os lábios insatisfeito. Elrond tinha razão, mas, mesmo assim, ele gostaria muito de continuar seu assunto com o tolo rei de Mirkwood.
"Mapas... planos... providências..." Repetiu o rei olhando novamente as chamas da fogueira acesa. Aquelas cores queimando a sua frente estavam lhe trazendo uma sensação desagradável a qual não conseguia traduzir. "Como eu gostaria de ter o pescoço de quem quer que esteja por trás disso ao alcance da minha espada... Tudo seria muito simples então."
"A espada..." Repetiu Elrond angustiado. Os caminhos da violência ainda eram os mais fáceis.
Nesse momento o acampamento voltou a se desestabilizar, o som de animais se aproximando despertou os soldados que se puseram de pé a espera de quem quer que estivesse ousando aproximar-se. Logo foram vistos dois cavalos malhados que corriam em direção ao grupo. Sobre os animais, dois elfos morenos mantinham-se quase eretos lhes gritando ordens de comando e olhando várias vezes para o caminho do qual tinham vindo.
"São meus batedores." Alertou Elrond ao sentir o ar de desconfiança no rei e seus soldados. "Alguma notícia ruim parece conduzi-los, infelizmente."
Thranduil mordeu o lábio inferior um tanto apreensivo e fez um sinal a seu grupo de elfos para que aguardassem. Glorfindel e os gêmeos se posicionaram ao lado de seu líder.
"Meu senhor!" Gritou o cavaleiro à frente assim que pôde perceber que seria ouvido.
"Diga, soldado!" Respondeu Elrond dando alguns passos adiante.
O jovem elfo saltou de seu cavalo e correu em direção ao mestre. Seus olhos estavam muito abertos e os pulmões trabalhavam ferozmente.
"A floresta, senhor." Gritou o rapaz colocando-se diante do curador. "Está em chamas!"
"Onde, criatura?" Gritou Thranduil tomando a frente e olhando para todos os lados. "Nem sequer sentimos cheiro de fumaça!"
O pobre soldado sobressaltou-se ao ver o rei de Mirkwood e a voz fugiu-lhe dos lábios secos. A fama e reputação daquele valente e audacioso líder o precediam e qualquer soldado sentia uma insegurança indescritível diante desse elfo em particular. Thranduil exasperou-se e agarrou o jovem pelos ombros.
"Que batedor estúpido você é, menino tolo? Não é capaz de responder-me uma pergunta?"
"Deixe o pobre rapaz falar, Thranduil." Pediu Elrond colocando-se entre os dois. O soldado afastou-se alguns passos confuso, em seguida baixou a cabeça envergonhado.
"Está tudo bem, menino." Assegurou o mestre em um tom de paz. "Diga-nos a informação que tem."
"A floresta, meu senhor. Ela arde."
Thranduil bufou impaciente. Quanto tempo até que algo relevante fosse dito? Aqueles elfos de Imladris eram mesmo incompetentes demais, não conseguiriam prolongar seus dias nem por uma vida da lua se morassem em Mirkwood.
"Onde ocorre o incêndio, rapaz?" Indagou Glorfindel aproximando-se do soldado e colocando uma mão em seu ombro.
"Ao norte, meu senhor," Ele engoliu a pouca coragem que tinha e olhou o rei uma vez mais. "Próximo aos... aos grandes portões..."
Thranduil sentiu um frio correr-lhe por toda a espinha. Os grandes portões eram mais do que a entrada de seu reino. Eram a única saída segura. Aquele era, sem dúvida, um incêndio de grande risco. Em um ponto crucial, fatal até. Um incêndio que não traria apenas perdas físicas, mas que poderia ser o último que o povo de Mirkwood veria. Ele não pensou duas vezes ou sequer olhou a sua volta. Soltou um longo silvo e correu em direção ao animal que já atendia a seu chamado. Era um bom cavalo, não tão bom quanto aquele que perdera na última batalha, mas era um animal de valor.
Elrond voltou-se a tempo de ver o rei partir com seus soldados a segui-lo. O curador suspirou e uma nova mistura de sentimentos se tornou complemento para seus pensamentos. Thranduil não pedira ajuda, e certamente nem mesmo esperava por ela. Era um elfo de grande orgulho, um orgulho estúpido talvez, mas também de muita coragem. Então se voltou para os filhos e para o amigo louro. Glorfindel apertou os lábios mais uma vez e balançou a cabeça inconformado. Seus olhos claros determinavam as idéias que lhe ocorriam como se pudessem emitir som. Tantas palavras vieram daquele elfo naquele momento, sem que seus lábios se movessem. Elrond engoliu a saliva e acenou positivamente. Um entendimento sempre se transmitia entre os dois. Logo estavam todos sobre seus cavalos seguindo o caminho do rei de Mirkwood.
&&&
"Oh, Valar" Disse Legolas agarrando-se instintivamente na cintura do amigo a sua frente com mais força.
"O que houve, mellon-nîn?"
Mas o elfo não respondeu. Ele ficou em pé sobre o cavalo e agarrou-se a um dos galhos acima subindo a copa da grande árvore sob a qual passavam. Estel observou-o desaparecer confuso, as indagações escapando-lhe da mente enquanto a figura do franzino amigo fazia com que as folhas secas daquela árvore velha desprendessem-se e caíssem levemente por sobre ele.
"Legolas?" Ele gritou, sem receber resposta. LEGOLAS!" Gritou então mais alto. Mas um silêncio terrível foi sua resposta e não era realmente a resposta que ele gostaria de ouvir. Legolas estava fraco, cansado, não podia ou devia estar se arriscando em empreitadas como aquela. "LEGOLAS!" Chamou mais uma vez, agarrando-se instintivamente na crina de Espírito que ergueu levemente o pescoço.
Mas o vazio ainda era o único a imperar no momento e a agonia do guardião passou a se tornar insuportável. Ele não podia perder Legolas novamente, ele não suportaria vê-lo ferido ou sofrendo uma vez mais. Tentou apurar os ouvidos, desvendar os sons da mata para tentar localizar o amigo. E se tivesse partido? Ele se movimentava por sobre as árvores com uma agilidade invejável. Poderia já estar longe.
"Não..." Balbuciou o guardião deslizando o olhar pelas copas verdes que o cobriam. "Onde ele se meteu?" Indagou a si mesmo, sem perceber que prendia a respiração agora de tão aflito que estava. "LEGOLAS!"
Foi então uma idéia lhe veio à mente, uma idéia terrível, de uma certa covardia até, mas ele estava realmente preocupado e era tudo o que lhe ocorria fazer.
"LEGOLAS!!" Ele gritou mais uma vez, a voz disfarçada em um puro tom de tirania. "DESÇA AGORA!! DESÇA!! ESTOU MANDANDO!!"
Aragorn engoliu seco, esperando pela resposta. Sabendo que, infelizmente, ela viria. E veio. O ligeiro elfo voltava pelo caminho que fizera e deslizava pelo último galho caindo em pé no chão seco. Seus olhos grandes voltados para ele, brilhando, enquanto lágrimas escorriam pelos cantos do rosto. Aragorn ficou mudo, entorpecido pela ira de ver o amigo em tal situação, finalmente lhe ocorrera que, assim como ele, qualquer um poderia fazer com que o príncipe seguisse os passos que lhe fossem ordenados. Ele então se arrependeu mais do que tinha feito.
"Perdoe-me. Estava preocupado" Disse estendendo a mão para que o amigo retomasse seu lugar atrás de si. "Onde foi? Você não devia ter sumido assim."
Mas Legolas não demonstrou reação. Seu corpo tremia como se lutasse contra si mesmo, contra as atitudes que devia tomar e não desejava. Uma batalha cruel parecia se dar no interior do príncipe elfo. Uma batalha que lhe tomava todas as forças.
Aragorn franziu a testa preocupado. "Venha, Las." Insistiu.
Legolas deixou que seus lábios soltassem o ar pesado que segurava em seus pulmões e seus olhos ganharam um outro brilho. Aragorn desceu vagarosamente do cavalo e estendeu as duas mãos para o amigo.
"Está tudo bem, mellon-nin."
Mas o arqueiro recuou.
"Sou eu... Estel... Venha..."
Era inútil. A cada passo dado por ele, o elfo recuava um outro instintivamente. Olhos fixos no humano à frente e uma inquietação grande em seu coração.
"Las... Eu não... eu não vou lhe fazer mal."
"Fogo..." Veio a palavra dos lábios do príncipe, saída quase num suspiro, como se buscasse o ar para se manifestar.
Aragorn intrigou-se e sua expressão tornou-se ainda mais rígida.
"Fogo? Onde?" Ele indagou parando onde estava, temendo que o amigo se distanciasse demais dele. "A floresta queima?"
"Arde... calor..." Disse Legolas laçando os braços em volta de si. Os cabelos louros escorreram por seu rosto escondendo os olhos e as expressões do príncipe.
Aragorn balançou a cabeça confuso.
"Você viu?" Indagou. "Lá de cima?"
"Aqui." Respondeu o arqueiro colocando a mão por sobre o peito. "Ela arde aqui."
O guardião aproximou-se agora bem lentamente. Legolas mantinha a mão por sobre a região do coração massageando-a como se o peito doesse. Os cabelos ainda cobriam as feições escondidas na cabeça baixa, seu peito movia-se rapidamente, os pulmões trabalhando como nunca, como se tivessem sido exigidos em uma corrida de milhas. Ele parecia estar se desesperando.
"Legolas." Chamou finalmente o amigo, quando conseguiu segurar o elfo pelos ombros. "Está tudo bem."
"NÃO!" Surpreendeu o arqueiro gritando e sacudindo-se como se enfrentasse um poderoso inimigo. Aragorn continuou a segurá-lo com mais força e agradeceu a Iluvatar que o jovem príncipe não estivesse com todas as suas habilidades físicas prontas para atendê-lo, caso contrário ele já teria sido vencido. O elfo finalmente cedeu caindo de joelhos enquanto o guardião o segurava em um firme abraço.
"Liberte-me..." Soluçava agora balançando levemente a cabeça. "Liberte-me, por favor."
Aragorn estava mais confuso do que nunca. "Sou eu Las, está tudo bem." Ele disse encostando o rosto na parte superior da cabeça do amigo. "Não vou lhe fazer mal."
"Não... não... por favor..." Dizia o jovem elfo encolhendo-se, percebendo finalmente que não conseguiria escapar daquele a quem julgava ser seu opressor. "Eles vão morrer. Deixe-me ir. Deixe-me ajudá-los..."
"Legolas!" Chamou mais uma vez o confuso guardião. "Eu vou ajudá-lo, só preciso que se acalme e olha para mim. Olhe para mim, Las!" Ele ordenou virando levemente o amigo para que pudesse olhá-lo nos olhos. O elfo obedeceu, mas havia algo de muito errado com o modo com que Legolas o estava encarando. Estaria delirando?
Aragorn apoiou uma mão na face do arqueiro e sentiu-o tremer devido ao toque, seu corpo estava rígido e seus olhos guardavam um brilho de desespero.
"Legolas... Sou eu..." Ele acrescentou temeroso do olhar que recebia.
"Liberte-me, por favor." Implorou o jovem elfo direcionando seus olhos azuis para o amigo, mas parecendo não vê-lo.
"Legolas..." Aragorn suspirou. Uma impressão estranha em seu coração. "Legolas... quem sou eu?"
A imagem do elfo a sua frente chegava a parecer irreal. Algo além do que o guardião conhecia. Como se fosse um outro alguém.
"Me...mestre..." Balbuciou o elfo em resposta. Sua voz perdida fugia daqueles lábios trêmulos e sem cor.
Aragorn fechou os olhos por alguns instantes e deixou-se levar pelas mais tortuosas conclusões que vinham a sua mente.
"Legolas... eu não sou seu mestre..." Ele disse reabrindo os olhos e segurando o amigo pelos ombros. "Legolas olhe para mim... Sou eu... Estel."
O príncipe fixou seus olhos brilhantes nos do amigo uma vez mais e novas lágrimas voltaram a escorrer por eles. Estel entristeceu-se infinitamente. Já perdera a conta de quantas vezes vira Legolas chorar nos últimos anos.
"Está tudo bem, mellon-nin." Ele disse enxugando o rosto do amigo. "Sou eu... Estel. Eu vou ajudá-lo... vai ficar tudo bem..."
"Es...Es...Estel..." Hesitou o elfo virando levemente o rosto, como se o som daquele nome lhe fosse familiar, mas ele não estivesse reconhecendo o amigo a sua frente. Aragorn voltou a franzir o semblante e seu coração se apertou no peito.
"Legolas... Las... resista..." Ele pediu em uma voz repleta de aflição. "Não deixe que ela lhe roube a razão."
O arqueiro respirou fundo então e ergueu uma das mãos trêmulas encostando-a levemente na face do amigo. Aragorn franziu a testa, estranhando a atitude.
"Você era um menino..." disse o elfo deslizando os dedos pelos traços do rosto a sua frente e despertando um pequeno sorriso nele pelas palavras proferidas. "Muito pequeno..."
"Eu era..." Concordou o guardião. "Agora não sou mais."
"Você sempre foi um bom arqueiro...." Declarou o elfo descendo os dedos pelos contornos dos olhos de Estel, acompanhando uma ruga que lhe partia os sinais do rosto. "Sempre foi um bom amigo..." Ele parecia estar vivendo momentos misturados de sua vida agora, imagens do passado distante e próximo pareciam desfilar pelos olhos do atordoado príncipe.
"Eu o guardo em meu coração, mellon-nin." Declarou o guardião segurando finalmente a mão do amigo em suas ambas e prendendo aquele olhar no seu. "Em um lugar que só pertence a você."
Novas lágrimas voltaram a deslizar pelo rosto de Legolas e Aragorn não compreendeu se foram despertadas pelo que ele dissera, ou pela subida mudança que os traços do amigo agora apresentavam. O príncipe enrijecera subitamente a face e seus lábios permaneciam entreabertos como se seu espírito escapasse levemente por ele e não estivesse mais no ser que ali se encontrava. Aragorn sentiu seu próprio corpo perder o calor, banhado pelo frio constante daquelas dúvidas que lhe perseguiam, então puxou o amigo para si e abraçou-o com força, mesmo sem sentir seu abraço ser retribuído. O arqueiro agora se assemelhava a uma árvore seca e fria, criando um desespero maior naquele que ainda preocupava-se infinitamente com ele. Aragorn procurou esquecer sua aflição. Procurou prender-se a esperança que sentia ainda pulsar. Ele então se ergueu e tentou colocar o amigo de pé.
"Venha." Pediu trazendo o elfo que caminhava cambaleante. "Temos que achar ada... ele vai ajudá-lo... você vai ver."
"Lorde Elrond..." Disse o elfo quando Aragorn o ergueu colocando-o por sobre o cavalo.
"Isso." Respondeu o guardião subindo atrás do amigo e enlaçando-o nos braços. "Nós vamos achá-lo e ele vai lhe dar uma daquelas ervas de gosto horrível que parece reservar só para nós." Tentou brincar enquanto forçava o arqueiro a se recostar nele e apoiava uma das mãos por sobre a sua face.
"Ele está lá..." Disse o elfo fechando os olhos e relaxando finalmente nos braços do amigo. O que quer que o incomodava parecia ter subitamente desaparecido.
"Onde?"
"No centro..." Disse o rapaz em um tom quase inaudível. "Bem no centro..."
"No centro de onde?"
O elfo apertou ligeiramente os olhos. "Do calor... das chamas..." Ele disse.
Aragorn sentiu seu coração crescer no peito e pular tão ensandecido que ele podia jurar que Legolas, recostado a ele como estava, também sentia aquela batida descompassada. O que quer que estivesse acontecendo, delírio ou não do amigo entorpecido, parecia ser bastante real.
"Ele está lá..." repetiu o príncipe fechando os olhos, sua voz não parecia refletir a ansiedade que despertara no amigo. Muito pelo contrário, era uma voz de sono e paz. "Mas não está só..."
&&&
"Não temos escolha!!" Gritou Glorfindel batendo um grande galho em uma moita que ardia... "Temos que abandonar o local... O vento está contra nós!"
"Mas não podemos deixar que se alastre para onde deseja ir!" Gritou Alagos atirando uma grande quantidade de água por sobre a mata, mas não obtendo nenhum resultado. "Logo atingirá os grandes portões e meu povo ficará ilhado."
"Não há o que fazer, meu jovem." Gritou Glorfindel em retorno. "A não ser que queira fazer parte das cinzas."
Alagos ignorou o último conselho, agarrando o novo recipiente que um de seus elfos lhe passara, na corrente de soldados que fizeram e atirando seu conteúdo por sobre as chamas. Nenhum resultado. Thranduil chegou a cavalo e direcionou um olhar confuso para o seu grupo.
"Já se alastrou para o outro lado." Gritou o rei olhando seus elfos. Uma agonia indescritível transformava seu belo rosto em um retrato de terror. "Não há como resistir."
"O nosso povo ficará preso, senhor." Retrucou Alagos desesperadamente. "Não podemos deixá-los... as chamas logo atingirão o centro das cavernas e o grande Hall. Eles ficarão presos, serão engolidos por elas... Ou... ou serão obrigados a enfrentar o caminho proibido...""Acha que não tenho olhos, menino insolente?" Gritou o rei descendo do animal que montava, agarrando o rapaz pelo ombro e atirando-o para longe das chamas. "Acha que não vejo o fim nos abraçar?" Ele continuou empurrando cada soldado seu para longe do fogo violentamente. Seus olhos brilhavam de ira. "Eu disse para saírem daqui... Saiam agora!! Sou o rei e lhes exijo obediência."
Os soldados se entreolharam compartilhando um sentimento de agonia e desespero e depois voltaram a olhar para seu rei. Thranduil respirou fundo e não pode deixar de ver um pouco de Legolas em todos eles. Olhos desesperados precisavam de uma palavra de consolo, algo que os ajudasse a dar as costas a seu reino e suas famílias. Eles precisavam de uma palavra de conforto, mas Thranduil não conseguia pensar em nenhuma. Palavras de consolo, quantas vezes o filho precisou delas, quantas vezes aquilo pareceu ser tudo o que o rapaz queria. E ele não pôde dar, ele não soube dar.
"Está há cinco dias nesse quarto, Legolas." Ouvia-se a voz do curador de Mirkwood. "Acha que consegue me enganar? Estou perdendo minha paciência com você menino."
"Já lhe disse que não tenho nada, nobre Faernestal." Retrucou a voz do príncipe.
Thranduil, que vinha passando pelo corredor e não pode deixar de ouvir o desentendimento dos dois elfos, aproximou-se e pode ver a cena pela fresta da porta entreaberta. Legolas estava sentado no peitoril da varanda, as costas encostadas na parede e as pernas encolhidas, joelhos envoltos pelos braços apertados. A cabeça ligeiramente pendia para o lado fazendo com que seu rosto desaparecesse sob os cabelos soltos. Seus pés estavam descalços como ele preferia ficar quando estava em casa.
"Legolas Thranduilion." Chamou o curador em tom de ameaça. "Eu cuidei de seu avô e de seu pai quando era mais novo do que você. Não me ofenda subestimando minha inteligência."
Legolas encheu o peito de ar contrariado.
"Não há nada de errado. Por que insiste em fazer-me repetir a mesma sentença?"
"Porque não me conformo em ver com que freqüência consegue fazer com que a mesma mentira se passe por verdade."
Legolas aborreceu-se e jogou as pernas para fora caindo em pé e indo parar direto no chão, traído pelos joelhos enfraquecidos. Faernestal agachou-se perto dele e colocou uma mão em seu ombro.
"Ainda insiste?" Indagou.
"Deixe-me em paz, Faernestal." Disse o príncipe aborrecido. "Minha patrulha sai amanhã, não torne minha vida mais difícil do que é."
"Pelo que me julga, criança teimosa?" Exacerbou-se o curador. "Crê em sua mente de menino que vou deixá-lo ir a qualquer lugar amanhã?"
Legolas ergueu os olhos e lançou um olhar irritado ao lorde elfo. Por que aquele curador ainda estava ali? Por que ninguém o obedecia? De que adiantava ser um príncipe se não conseguia ser atendido em ordens tão mínimas?
"Não me impedirá de fazer o que devo." Ameaçou o rapaz.
"Não apostaria nisso se fosse você." Retribuiu o curador não conseguindo mais manter seu tom austero e oferecendo um sorriso amável ao arqueiro. Ele sentia que o rapaz enfrentava algum conflito interno, mas não queria se abrir como fazia quando era mais jovem. "O que o incomoda, Las?" Ele tentou uma vez mais. "Se está ferido... o que tenho certeza que é fato... porque não me disse? Por que não me permitiu ajudá-lo? Bem sei que seus soldados voltaram feridos do ataque que sofreram... Ouvi dizer até que você salvou a vida de alguns."
Legolas enrubesceu com as palavras do amigo do pai.
"Não quero que ele saiba, Faernestal." Ele admitiu finalmente. "Não conte a ele, por favor."
O curador respirou fundo e sorriu apoiando uma mão no rosto do príncipe.
"Por que? Ele é seu pai."
"Ele é o rei..." Disse Legolas virando o rosto. "E tudo o que não precisa saber é que seu capitão se deixou abater."
"E seu capitão se deixou abater?" Indagou o outro.
Legolas suspirou.
"Eram muitas... não consegui conter todas elas..."
Faernestal torceu o nariz.
"Muitas?"
"Aranhas..." Admitiu o rapaz tentando se levantar e sendo auxiliando pelo amigo agora. "Muitos já haviam sido feridos. Aquela criatura repulsiva me pegou desprevenido."
"Legolas..." Preocupou-se o curador. "Legolas, você foi picado?"
O príncipe acenou positivamente enquanto o elfo o ajudava a sentar-se em sua cama. "Mas tomei o antídoto." Esclareceu com naturalidade. "É sempre assim, sempre demora um pouco mais para fazer efeito comigo."
"Legolas! Eu não acredito!" Exacerbou-se o curador uma vez mais. "Não pode... não podia ter me escondido algo dessa gravidade. Vamos..." Ele ordenou puxando os laços da camisa do rapaz. "Mostre-me os traços desse ferimento".
O príncipe, porém, segurou o tecido impedindo o curador de fazer o que lhe era devido. "Deixe-me. Eu já disse que estou bem."
"Se não me deixar vê-lo agora, eu farei com que seu pai me ajude."
Legolas apertou os lábios irritado.
"Não me ameace, Faernestal!"
"Não me obrigue, menino." Avisou o lorde elfo tentando novamente fazer com que a imagem que precisava ver fosse-lhe revelada. "Não me obrigue." Ele repetiu com austeridade. "Sabe bem o quão sério eu falo."
Legolas rolou na cama e ergueu-se do outro lado, escapando assim das garras do curador. Faernestal deu a volta e tentou cercá-lo antes que atingisse a porta.
"Deixe-me ir. Eu não vou permitir!" Disse o príncipe buscando passagem pelo insistente curador. "Eu tenho que sair com minha patrulha amanhã."
"Cinco dias sem comer e provavelmente sem dormir?" Retratou Faernestal surpreendendo-se com sua própria pouca paciência. "Eu juro Legolas que vou informar seu pai. E não me importo se ele resolver tirar a sua pele. Você bem o merece, elfo teimoso. Não se cansa de arrumar problemas?"
Legolas estagnou-se finalmente e Faernestal sentiu-se arrependido do tom que usara. O rapaz tinha de fato o dom de tirar as pessoas do sério. Até mesmo a ele que sempre tivera a paciência como sua aliada.
"Não entende que é exatamente o que não quero, não é?" Indagou o rapaz com tristeza. "Estamos sendo atacados todos os dias. Já perdi a conta de quantas vezes voltei ferido, envenenado, ou sofri perdas irreparáveis em meu grupo." Ele admitiu baixando os olhos e fazendo com que o curador franzisse os olhos intrigado.
"Então sempre me esconde seus ferimentos?" Concluiu surpreso. "Mas porque Legolas?"
O príncipe balançou a cabeça. "Porque não quero que ele saiba..." Admitiu em um tom triste. "Nosso povo é nossa família. O rei tem filhos demais com quem se preocupar..."
"O rei só tem um filho, Legolas. O rei só tem a você... Não o faça correr o risco desnecessário de perdê-lo."
Legolas balançou a cabeça com tristeza.
"A única coisa que o rei não pode perder é Mirkwood, Faernestal. E eu sairei amanhã para ajudá-lo a evitar que isso aconteça... uma vez mais."
"Legolas."
"É a única coisa que nos une agora... você não entende?" Declarou o rapaz com os olhos úmidos. "Quando estou em patrulha... Quando os trago de volta a salvo... Quando até sou abençoado com a oportunidade de salvar algumas vidas... é que me sinto fazendo algo por ele... é que me sinto realmente de alguma valia na vida dele..."
Faernestal fechou os olhos, profundamente tocado pelas palavras daquela criança confusa e triste.
"Legolas..." Ele disse tentando mais uma vez tocar o rapaz que se afastou instintivamente. "Legolas... eu prometo que não vou impedi-lo de ir... só me deixe ver como está esse seu ferimento."
O arqueiro sacudiu a cabeça encostando-se tristemente na parede muito branca do quarto agora. Faernestal aproximou-se mais, mas Legolas encolheu-se abraçando o próprio corpo.
"Vá embora..." Ele disse com os olhos no chão. "Meu pai mesmo diz que sou ruim demais... E eu bem sei que elfos ruins não morrem... Mandos não os quer em seus Halls... Ele só aprecia a companhia de bons elfos... como a minha mãe."
Faernestal nunca sentiu o coração pesar tanto quanto daquela vez. O que diria para combater os anos de dúvidas e tristezas que o jovem vivera desde que a mãe morrera. Ele baixou os olhos e voltou-se para a porta sem saber que decisão tomar. Tratar as feridas do corpo era infinitamente mais fácil do que sequer encarar os sofrimentos da alma. Foi então que o curador encontrou uma figura em pé a poucos passos dele.
"Thranduil." Ele não pode conter a admiração e a surpresa.
Legolas arregalou seus dois grandes olhos quando sentiu a presença do pai. Há quanto tempo estaria ali?
O rei não ofereceu nenhuma reação. Apenas aproximou-se do filho olhando-o bem fundo nos olhos claros que possuía.
"Tire a camisa e deite-se para que Faernestal o examine." Ordenou
"Ada..." Quis explicar-se o rapaz.
"Agora, Legolas." Reforçou o pai. "Quando um capitão meu sai em patrulha ele deve estar inteiro. Não vou arriscar que meus elfos saiam sob seu comando sem ter certeza de que é capaz."
O rapaz obedeceu silenciosamente, sentando-se, mas não retirando a camisa que usava.
"Tire!" Ordenou o rei.
Legolas baixou os olhos e laçou os braços em torno de si. Faernestal apiedou-se dele, mas preocupou-se ao mesmo tempo. Era evidente que o que Legolas buscava esconder deveria ser de uma certa gravidade.
Thranduil aproximou-se e segurou os braços do filho com brutalidade abrindo-os novamente e puxando os laços da camisa para abri-la também e dar instintivamente um passo para trás. O peito de Legolas estava adornado por milhares de linhas de um roxo escuro, minúsculos traços corriam por todo o tórax do rapaz. Raízes do veneno que se espalhava. Thranduil voltou-se para o curador preocupado, mas Faernestal já não os encarava mais. Estava em um canto somando algumas ervas em uma mistura cujo cheiro era muito forte.
"Elbereth, Legolas." Disse ele retornando com a mistura e oferecendo-a para que o rapaz bebesse. "Pudera o seu antídoto não ter efeito algum. Que tamanho tinha a aranha que enfrentou?" Ele indagou por fim.
O rapaz segurou a caneca com ambas as mãos, mas não bebeu. Sentia-se tão constrangido que o ar chegava a faltar-lhe. A humilhação de estar assim diante do pai o estava enlouquecendo.
"Beba, menino!" Ordenou o curador preocupado. "O tempo ainda está a seu favor, mas não abuse da sorte."
O príncipe apertou as mãos em volta da caneca um pouco mais e Thranduil franziu a testa.
"O que ele tem que fazer depois de beber?" Indagou.
"Nada." Respondeu o curador. "Apenas deitar-se e procurar dormir. As ervas da mistura o ajudarão nisso também. Mas ele precisa de alguns dias, meu senhor. Não pode sair amanhã em hipótese alguma."
"Não!" Explodiu Legolas olhando para o pai nos olhos agora. "Eu bebo." Ele disse desesperadamente. "Mas amanhã estarei melhor... Por favor, senhor, não deixe que minha patrulha vá sob outro comando..."
Thranduil apertou os lábios, em seguida fez um sinal para que o curador os deixasse. Faernestal curvou-se levemente e saiu.
"Acha que é o único habilitado aqui, menino?" Ele indagou colocando a ponta do indicador embaixo da caneca que o filho segurava indicando, com um leve movimento, que ele deveria obedecer e beber seu conteúdo.
"Eles são minha responsabilidade, senhor. Por favor." Retrucou o rapaz não colaborando.
"Tolice!!" Irritou-se o pai puxando o menino para que se deitasse agora e tomando-lhe a caneca das mãos. "Beba já!" Ordenou erguendo a cabeça do rapaz e pressionando a caneca em seus lábios. Legolas obedeceu, bebendo o conteúdo devagar. Em seguida virou-se na cama e agarrou-se a um dos travesseiros ficando de costas para o pai.
"Não vou agüentar se algo acontecer a eles..." Admitiu finalmente procurando conter os soluços que lhe brotavam da garganta. Não vou agüentar vê-los feridos... Vê-los mortos..."
Thranduil respirou fundo, sentindo como se uma dor sua estivesse sendo vagarosamente pintada em um quadro muito branco. Ele então apoiou uma mão nas costas do filho que se voltou confuso. O rei sentou-se na cama com seriedade.
"O senhor também teme, não teme..." Indagou o rapaz lendo os traços da fisionomia do pai. "Teme perder seus elfos, seu povo." Completou erguendo o olhar e encontrando os olhos claros do pai.
Thranduil suspirou imperceptivelmente, mas não respondeu. Oh Elbereth, como os olhos do filho o faziam lembrar-se de Elvéwen. Instintivamente o rei ergueu uma das mãos e deslizou os dedos por uma mecha dos cabelos do rapaz. Legolas enrubesceu baixando os olhos, seu pai não lhe tocava assim desde quando ele era uma criança.
"Ada..." O rapaz quis dizer algo, mas o poder das ervas já lhe roubava a razão, já lhe confundia os limites da lucidez. O rei, porém, sabia do que se tratava. Ele apoiou a mão por sobre a testa do filho e lançou-lhe um olhar grave.
"Eles ficam..." Decretou. "Esperam por seu capitão."
Legolas ergueu a ponta dos lábios em um ensaio de sorriso e esvaziou os pulmões aliviado, deixando-se finalmente conduzir para o sono da cura.
Quando o filho finalmente adormeceu, o rei ergueu-se com pesar. Sentia a corpo doer pelo cansaço daquelas dúvidas. Ele jogou a manta por sobre o rapaz e se permitiu observá-lo dormir por alguns instantes.
"Eu temo." Disse por fim para a figura adormecida. "Temo perder a todos a quem amo."
"Iluvatar tenha piedade de nós." Disse o rei fechando os olhos para aquelas lembranças, mas não conseguindo fechar os ouvidos para os gritos dos elfos que estavam do outro lado da catástrofe e tentavam agora impedir que as chamas invadissem o Hall. Ele encheu o peito de ar. Precisava pensar. Encontrar uma alternativa. Um meio de evitar o inevitável.
"Há outra saída?" Indagou Glorfindel aproximando-se, mas Thranduil estava longe demais para sequer compreender a pergunta que lhe fora feita. "Há outra saída, Thranduil?" Perguntou então agarrando o rei pelos ombros. Thranduil voltou-se surpreso. Olhos claros que se encontravam de forma diferente agora. A consciência do quanto o ódio era mais fácil do que a simpatia nunca estivera mais forte. Thranduil puxou o braço soltando-se e deu alguns passos confuso. "Não há outra saída, elfo tolo?" Indagou o guerreiro com mais força agora, fazendo com que o lorde de Mirkwood voltasse a olhar para ele.
"Sim." Disse o rei respirando fundo. Seus olhos refletiam as chamas que via. Uma fogueira imensa a qual seus pés não podiam dar um fim. "Mas o risco é muito maior. É um caminho já tomado pelos inimigos... eles não têm muitas chances."
"É uma armadilha então?" Disse Elrohir olhando para todos os lados. "Uma armadilha para obrigá-los a fazerem tal trajeto?"
Thranduil fechou os olhos balançando a cabeça. Suas conclusões mais negativas soavam ainda muito piores na voz de um outro alguém.
"Elbereth." Exclamou Elladan aproximando-se do rei e olhando o triste quadro se agravar. "Deve haver algo que possamos fazer. O reino inteiro vai se perder."
O líder de Mirkwood, que permanecia com olhos e punhos fechados agora, não respondeu. Ele sabia que não havia resposta alguma que coubesse naquela situação na qual estavam. Era uma enorme teia de aranha. Uma teia mortal que fora traçada às escuras e agora se fazia terrivelmente arma e cela. Ele não tinha mais nada a dizer, nada a oferecer, apenas o silêncio, o silêncio por respeito à natureza que se manifestava, à coragem dos que ainda bravamente lutavam, por aqueles que logo os deixariam.
"Que Iluvatar lhes dê uma boa morte, ionath-nin." Disse o rei dando alguns passos em direção as chamas, parecendo olhar através delas, parecendo ver o povo que amava. Os olhos inundados pelas lágrimas que infelizmente não eram suficientes para superar aquela catástrofe. "E que tenha compaixão dos que precisam ficar para trás." Ele completou caindo de joelhos no chão seco e apoiando ambas as mãos naquela terra-pó. Há alguns passos dele, seus elfos faziam o mesmo, derramando suas lágrimas naquele chão.
Elrond fechou os olhos. Seu coração gritava e ele sabia que não podia atendê-lo, que não deveria atendê-lo. Não havia ajuda naquele momento que fosse suficiente para impedir tamanha dor e sofrimento. Nem mesmo os poderes que a ele foram atribuídos seriam capazes de deter mal tão intenso e avassalador. Ele uniu as mãos nervosamente e segurou aquele que poderia ser o instrumento da salvação daquele povo. Mas como o faria? Como? Como salvaria aquelas criaturas sem colocar em risco tudo o que criara, sem colocar em risco aqueles a quem amava?
"Iluvatar..." Clamou voltando seus olhos para o céu, para aquelas nuvens negras que agora se dispersavam como que movidas pelo grande mal, indispostas a oferecer-lhe o que eles tanto precisavam. "Iluvatar... olhe para esse seu servo... ajude-me a encontrar a saída desse abismo..."
E o som das dores e do desespero se fez pior, se fez intolerável. Elrond voltou a encarar as terríveis chamas a sua frente.
"Fogo..." Ele disse em um tom alto, um tom de agonia. "Como uma obra do criador pode servir a tamanho mal?".
Foi quando percebeu que, naquelas chamas que ardiam, havia mais do que calor. Elas escondiam mais do que os gritos de desespero dos que ainda não haviam desistido de tentar. Elrond franziu os olhos e seu coração deu um grande salto no peito. Naquelas chamas havia um rosto.
"Elrond..."
E uma voz...
Fugiram então todas as idéias, todas as palavras. E o silêncio da dúvida tomou conta do coração do curador.
"Elrond... Céu de estrelas..."
Os lábios do lorde de Imladris se desprenderam levemente e ele virou o rosto confuso, dando um passo para trás.
"Elrond...".
Os olhos acinzentados então se voltaram receosos para as chamas, o coração amarrado pelas dúvidas que o invadiam sem sobreaviso. Estaria enlouquecendo? Elrond deu alguns passos para próximo daquele calor, questionando o que seus ouvidos captavam, precisando encontrar a certeza nas linhas que se formavam naquela parede de cores e brasas.
E a certeza se fez, apenas para seus olhos e para os de mais ninguém.
"Elrond, mellon-nîn." A imagem disse. Lábios de chamas que se moviam cordialmente, a serenidade em meio ao desespero. "Elrond..."
"Heru en Amin... (meu senhor)" Disse o curador desprendendo os lábios e apertando os olhos. Ninguém compreendia aquelas palavras que ele agora proferia em um tom quase inaudível. Thranduil ergueu os olhos ao perceber que o líder noldoriano se aproximava das chamas de forma preocupante. O rei olhou a sua volta. Elladan e Elrohir estavam sendo segurados por Glorfindel.
"Ele não pode, pode?" Indagou Elrohir com os olhos preocupados ainda cravados no pai.
"Não pode!" Respondeu Elladan quase gritando e balançando muito a cabeça. "Se o fizer libertará o rio... Encherá nosso vale... Ele não vai conseguir concentrar seu poder em dois lugares diferentes."
Thranduil ergueu-se confuso e deu alguns passos na direção do lorde de Imladris.
"Não, Elrond!" Ele gritou, julgando finalmente compreender o que se passava e trazendo a atenção do curador para si. "Não há propósito em sacrificar um povo em prol de outro. Eu o proíbo de fazê-lo."
"Não tem energia o suficiente para isso, adaGritou Elladan preocupado, seu braço ainda firmemente seguro por Glorfindel. Elrond virou o rosto em direção dos filhos, encarando os olhos escuros e assustados das crianças a quem amava, depois se voltou para o fiel amigo louro. Glorfindel lhe sorriu. Anos de experiência nas causas mais tristes o tornaram um elfo amargo, mas um elfo muito sábio.
"Não estou só..." Disse então se voltando novamente para as chamas e aproximando-se mais delas. Os filhos gritaram entre outras vozes, vozes de agonia, vozes de protesto, vozes de incompreensão, e um grande alvoroço surgiu. Mas Elrond as ignorou, caminhando lentamente para próximo do fogo, as chamas quase o abraçavam tornando o momento ainda mais angustiante. Foi quando eles finalmente entenderam o porquê das palavras estranhas que ouviram. Eles entenderam porquê Vilya seria capaz de vencer dois obstáculos ao mesmo tempo. O anel poderia fazê-lo, porque seu portador estaria lá para vê-lo feito. Das chamas incandescentes uma imagem saiu, envolta em um azul celeste de brilho intenso, os cabelos escuros e lisos desfeitos por sobre ombros e costas, um leve sorriso. O queixo de quase todos os presentes caiu e os filhos de Elrond colocaram-se em seus joelhos diante da figura que viram.
"Sábio..." Disse Glorfindel curvando-se respeitosamente.
Thranduil deu um passo à frente receoso. Em seu coração palpitava a certeza de que aquela era mais do que uma simples visão. Era um sinal. A figura voltou-se para ele. Olhos de sabedoria e paz fixaram-se nos dele e um sorriso diferente surgiu. Um sorriso de satisfação.
"Oropherion." Disse a voz. "Orgulho de seu pai..."
Thranduil deixou o queixo cair, enquanto sua mente buscava reunir os pedaços daquele momento estranho que se fazia. E então ele sentiu seus joelhos tremerem pela primeira vez em toda a sua vida.
"Mestre Gil-Galad."
O sábio elfo lhe sorriu uma vez mais e balançou levemente a cabeça, voltando-se agora para o antigo arauto e amigo a sua frente. Elrond respirou fundo e recebeu o olhar do mestre como quem se banha em águas frescas em um dia de calor. Há muito tempo aquele olhar não lhe abençoava, não lhe oferecia a garantia do caminho correto. Eram tempos remotos, mas tempos que pareciam de repente querer rebrotar, renascer como a fênix sagrada em ninho ardente. Então aquele longo manto deslizou-se para perto do curador e as mãos do mestre e do discípulo se uniram uma vez mais.
"Elrond..."
"Heru en Amin..."
"Que se faça o que foi da vontade da natureza." Disse a voz do sábio e poderoso elfo, em um tom que a todos tocou e pareceu poder ser ouvido por toda a Arda. "E não o que surgiu da perversidade dos seres."
E os olhos de ambos se fecharam e o dia virou noite. Nuvens muito escuras se abraçaram no céu cobrindo completamente os raios do sol, os gritos de pavor subitamente desapareceram, emudecidos por uma esperança que ressurgia. Thranduil não os via, mas sabia que agora seu povo todo tinha seus olhos voltados para o céu, unidos em uma expectativa que lhes parecia improvável, mas que batia compassada a seus corações.
E não tardou até que a expectativa se tornou realidade, uma realidade úmida a princípio, e encharcada em poucos segundos. O céu desmoronou por sobre a cabeça de todos, pingos grossos e pesados que deixariam qualquer um sem ar, que fariam com que qualquer um corresse em busca de abrigo. Mas ninguém correu, ninguém correria, todos continuaram onde estavam, sendo encharcados e abençoados por aquela água doce que lhes atingia, que lhes libertava, lavando suas roupas, suas almas, livrando-os do mal.
Thranduil voltou a ajoelhar-se quando finalmente ouviu o som que vinha do outro lado daqueles portões. Ele quis ignorar, julgar que estava sonhando, mas não estava. Se sonhasse, estaria vivendo o sonho bom. Mas não... Era real, era verdade. Seu povo ria, ria alto e cantava, cantava velhas canções, canções das quais até ele mesmo se esquecera. O cansado rei colocou ambas as mãos no rosto e deixou o corpo relaxar naquele chão úmido, sentindo-se seguro como uma criança sendo abraçada por seu pai, sentindo que, naquele momento, suas preocupações todas estavam nas mãos de Iluvatar.
Quando finalmente a chuva cessou e ele pôde erguer mais uma vez o olhar, o céu estava limpo e alguns pontos luminosos anunciavam que o entardecer tornava-se vagarosamente um anoitecer estrelado. Ele então se ergueu e olhou para a direção onde as chamas anteriormente ardiam. Mas lá só restava um alguém. Elrond. Sozinho. Como se tudo tivesse sido uma ilusão. Suas roupas sequer estavam molhadas. Mas Thranduil não questionaria o que vira, nem se suas roupas e cabelos úmidos não atestassem por si só a veracidade do ocorrido.
Elladan e Elrohir aproximaram-se vagarosamente do pai, que se voltou quando os filhos estavam a passos dele e sorriu.
"O senhor está bem, ada?" Indagou o mais velho.
"Nunca estive melhor em toda a minha existência, ion-nîn." Respondeu o curador sem sorrir. Seu rosto não guardava mais nenhum sinal do cansaço e das dúvidas que tinha. "Abençoados somos nós quando precisamos de alguém que nós ofereça uma chama de luz e esse alguém nos presenteia com um dia inteiro de sol."
Os gêmeos sorriram e abraçaram-se ao pai. Glorfindel se aproximou e pousou uma mão no ombro do amigo.
"Hannon le." Disse o lorde de Imladris olhando agora para o amigo louro que franziu o semblante um tanto confuso.
"Pelo quê, mellon-nin?" Indagou.
"Por acreditar." Respondeu o outro com um leve sorriso. "Antes de todos, e acima de tudo."
Glorfindel sorriu, apertando um pouco mais a mão ainda pousada no ombro do amigo. Elrond retribuiu e voltou-se então para todos os seus elfos que, quando viram o olhar do mestre sobre eles, curvaram-se em um só movimento, mais de cem elfos prostrados em seus joelhos, num sinal de puro respeito e da mais alta estima. Elrond deixou os lábios partirem-se surpreso, mas depois sorriu fazendo sinal para que seus soldados se erguessem. Foi quando Thranduil se aproximou. Elrond analisou os indecifráveis olhos do líder de Mirkwood.
"Somos livres uma vez maisDisse o rei curvando-se levemente com a palma por sobre o peito. O ar mais austero permanecia em sua face, mas em seus olhos, Elrond pode encontrar a sinceridade. "E tenho uma dívida agora."
O curador sacudiu a cabeça.
"O que houve aqui não se compara ao que Legolas fez por mim e meu há muitos anos..." Ele admitiu vendo o rei reagir inconscientemente ao ouvir o nome do príncipe. "Eu tinha um poder... algum poder..." Continuou o elfo. "E tive ajuda para salvar seu povo... Mas Legolas arriscou sua vida, e fez-se luz sem que a ele tivesse sido oferecido brilho algum..." Elrond suspirou comovido com as recordações. "Ele se fez luz por seu próprio valor e força."
Thranduil desviou seu olhar, perdido em uma conversa distante que tivera. E a voz do rapaz voltou a sua mente.
"Mas havia um animal..." Disse o príncipe em um tom cheio de significados. "Um animal que carregou o infortúnio..." Ele completou fazendo o pai franzir as sobrancelhas, buscando compreensão. "E animais chegam a qualquer lugar... até a Florestas Escuras... a palácios... E ameaçam a todos por igual... amigos e inimigos... cada qual a sua vez..."
O rei fechou os olhos para aquelas novas lembranças. Muito tempo se fizera até que as palavras do rapaz se tornassem claras como deveriam ser.
"O que pretende fazer agora, Thranduil?" Indagou o curador aproximando-se do rei receoso e intrigado.
O rei ergueu os olhos e encarou a mais brilhante das estrelas. Aquele certamente tinha sido o combate de sua vida.
"Vou encontrá-lo." Ele respondeu. "Vou encontrar meu filho Legolas."
