Olá.
Eu sinto muito pelo atraso. Essa semana houve um evento na Universidade e eu tive que correr atrás de coisas, redigir coisas, ouvir coisas etc etc... Depois tive um problema colossal com meu computador.
Enfim... foram dias difíceis.
Para ajudar ainda o capitulo estava se enrolando, as idéias eram muitas e pareciam se entrelaçarem em um emaranhado confuso... Que pesadelo! Espero que esteja tudo claro.
Depois desse, acredito que mais dois ou três fechem de vez a fic, se nenhuma inspiração divina ou maligna me fizer estender mais um desses capítulos e eu me veja obrigada a dividi-lo em dois como me andou acontecendo...
Nesse capítulo também existe uma rememoração "sob encomenda" que eu achava que sofreria muito para encaixar no texto, mas inacreditavelmente acabou se abraçando a ele como se já tivesse sido escrita ali. Espero que gostem e compartilhem da minha opinião.Nem preciso dizer que uma certa menininha aqui em casa é responsável pela minha "mudança nos cursos", mas também podem culpar a uma certa escritora talentosa chamada Nim. (Nim... sua rememoração!!)
Agradecimentos:
Lady-Liebe – Querida amiga Liebe. Escritora de talento por quem tenho grande estima e admiração. Beijos amiga.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" No último capítulo cometi um deslize. Disse que a Misao não havia atualizado e era uma inverdade. Nossa escritora talentosíssima havia nos presenteado com um capítulo maravilhoso e o site da fanfiction tinha feito o grande favor de me deixar desinformada. Desculpas Misao!! Seu capítulo iluminou novamente aquele texto que todos amamos. Parabéns!!
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" está criando polêmicas. Gente... não tenho mais o que dizer desse texto que não seja: LEIAM!!! É uma fic fantástica que ainda vai reservar-lhes muitas surpresas. Simplesmente adoro o modo como Myri escreve e nos cutuca e provoca, a idéia de mundo tão real que ela transmite chega a fazer com que os sentidos da gente aflorem. Você lê o texto e sente os cheiros... sente as dores... ouve os suspiros... Você se transporta. Grande Myri. Reverências minhas para você. Sempre!
Nimrodel Lorellin – Fabulosas "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Minha irmãzinha de coração. Responsável por eu estar onde estou com o meu trabalho. Tudo o que posso dizer ainda é pouco para agradecer ao apoio que essa alma gentil me dá. Nim é uma amiga sábia, que tem uma visão do mundo que me agrada demais e me faz muito bem, por isso seus textos são tudo o que há de bom... Espera um pouco... Textos... Textos?... Textos!!! Nim!! Cadê o próximo capítulo???
Vicky Weasley: "BITTERSWEET" um silêncio triste...
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – Quem não leu o texto da super Ju ainda devia fazê-lo. E quem já o leu, devia dar uma olhada no projeto novo ao qual ela está se dedicando. Eu já abri minha mente e li... e gostei muito do que li. Parabéns Ju. Continue a escritora corajosa que você sempre foi.
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Lali me escreveu!!! Ela vai atualizar!! Boas notícias!!! Obrigada pela review Lali! Por favor, não suma!
Kika-Sama: "APRENDENDO". Infelizmente a Kika informou-nos que essa bela fic vai ficar um tempo "engavetada". Uma notícia que me entristeceu muito. Só posso esperar que os bons ventos retornem e que nossa talentosa escritora nos presenteei com o fim dessa intrigante fic.
Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Chell continua atualizando. Grande Chell! Obrigada pelas reviews maravilhosas que você me manda. Eu ganho o dia quando as leio.
Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Opa!! Outra boa notícia. Nossa amiguinha desaparecida aqui também vai atualizar!! Estou esperando!! Beijos!!
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Kiannah, amiga, super obrigada pelas palavras gentis. Aguardo ansiosamente pela atualização dessa sua grande fic. Beijos.
Soi – "IDRIL NÚMENESSË". Nossa Soi finalmente resolveu se revelar. E que revelação. Uma fic que promete. Leiam e verão!! Beijos amiga! Parabéns.
Amigas...
Syn, the time keeper. Syn, doce Liah que dedicou seu tempo para mim dessa vez. Eu sabia que não ia me esquecer. Super obrigada por todo o trabalho que tem para ler minha fic. Fico comovida. Espero que aprecie o final e que goste do novo projeto que vem depois.
Regina – Regina cadê sua fic? "Eldar e Edain". Eu gostei tanto!! Cadê??
Botori – Oi, que bom que você aprovou a aparição do mestre Gil-Galad na fic. Obrigada por seus comentários. Adoro receber suas reviews.
Aeka – Continua na vida corrida. Beijos.
Leka – Super obrigada pelo e-mail! Gosto muito de suas reviews. Beijos.
Lali-chan – Super obrigada pela review. Fico muito feliz por receber sua visão da história. Sobre o Las e o pai se encontrarem, infelizmente você vai ter que esperar um pouco mais, não muito. Beijos.
Veleth – "Creio que nosso nobre rei e nosso nobre curador são a maneira mais bela e perfeita de seres capazes de transformar a vida sofrida de Las em uma vida de amor." Nossa, eu tinha que reescrever essa sua frase aqui. Realmente acho que você tem razão. Espero então que o fim da fic venha de encontro ao que você espera. Mas uma vez obrigada pelas belas palavras.
Belle Malfoy – Também fiquei sem notícias.
Pink na – E ai? Cadê sua fic?? Beijos!!
Daphne Pessanha "Arabella" – Daphne, em que capítulo está agora?
Roberta – Postou uma review!! Nem acreditei! Super honra. Obrigada!!
Pitybe – Beijos de agradecimento pela ajuda que me dá. Hoje e sempre.
Peço, que qualquer um que tenha me mandado uma mensagem nos últimos dias o faça de novo, por favor, pois perdi tudo o que estava no meu Outlook. E que os demais amigos me mandem um e-mail para confirmarem seus endereços porque o meu Outlook foi mesmo embora com todos os endereços que eu tinha. Em troca prometo responder enviando um desenho que achei e tem tudo a ver com essa rememoração de hoje. Prometo! Obrigada!
E aqui está o terrível capítulo 35, graças a Iluvatar!
35
Thranduil olhou mais uma vez para as últimas estrelas do fim da madrugada, uma sensação atípica estava correndo-lhe a espinha, arrepiando-lhe os pêlos do corpo, suspirando-lhe sons indecifráveis no ar frio. Apesar da magia do ocorrido, alguma coisa ainda não se aquietara em seu coração. A figura daquele elfo traidor com seus olhos muito abertos, com um líquido escuro asqueroso espalhado pelas costas, manchando a grama muito verde, não saía de sua mente, mas o que mais o intrigava era o olhar daquele infeliz, um olhar surpreso, um olhar realmente surpreso.
Elrond aproximou-se, observando o rei com cuidado. Sentado pensativamente diante da lareira acesa, Thranduil parecia ser um outro alguém. Era como se o rodamoinho que o apanhara tivesse lhe roubado algo, algo importante e que estava lhe fazendo muita falta.
O rei ergueu o olhar e encontrou os olhos do curador. Em outra situação este já seria motivo suficiente para que explicações fossem exigidas, mas, cansado como estava, amarrado à pensamentos que lhe roubavam a paz, o dirigente de Mirkwood simplesmente voltou a baixar os olhos, esperando que o visitante fosse embora. Entretanto, contrariando as expectativas, Elrond não o fez, muito pelo contrário, ele aproximou-se mais e esperou. Seu coração ardia e ele sentia que, por algum motivo, encontraria respostas para algumas questões realmente terríveis naquele lugar frio, com aquela figura exaurida que simplesmente se negava a repousar.
"Logo será dia." Ele disse.
"Os dias vem e vão." Respondeu o rei.
"Não vai dar a seu corpo o descanso que merece?" Indagou Elrond. A figura do curador dentro dele fazendo mais uma vez seu indiscutível papel.
"Meu corpo não merece descanso algum. A batalha não foi ganha por mim." Respondeu o rei, fitando as chamas que ardiam na lareira a frente, como se rememorasse os acontecimentos sem ainda crer no que seus olhos viram.
Elrond suspirou, seus olhos seguiam a mesma direção das do outro elfo, mas seu coração não compartilhava das dúvidas que atormentavam o líder de Mirkwood.
"Você faz alguma idéia de quem possa estar manuseando as peças desse estranho jogo?" Indagou receoso de como essa pergunta cairia no fervilhar do temperamento do rei.
"Por que haveria de fazer?" Veio a indagação óbvia, em um tom de pura impaciência. Mas Thranduil não se voltou.
Elrond baixou os olhos em silêncio.
"Não faço." Disse o rei baixando também os seus. Sua voz enfraquecida mesmo contra sua vontade. Estava realmente exausto para investir em uma nova discussão, mesmo porque, depois do ocorrido, ele julgava que deveria preservar a temporária paz que tão arduamente tinham conquistado. "Eram gente do meu povo, admito." Disse por fim apoiando o rosto nas mãos. "Mas algo me faz crer que não há sangue dos primogênitos correndo nas veias de quem quer que esteja por trás de toda essa sujeira."
"Acredita que ainda têm interesse em investir contra o seu reino?" Indagou o curador apenas para manter o elo da conversa que tinham. Aquela era uma situação totalmente nova para ele.
Thranduil ergueu-se e foi até a mesa lateral do grande salão onde se encontravam e apanhou uma garrafa de vinho tinto e duas taças.
"Nada posso concluir ainda." Disse observando o líquido vermelho escorregar sutilmente do velho invólucro e encher os recipientes. Ele amava o gosto do vinho de sua terra, mas naquele momento o valor daquele vermelho estava trazendo-lhe estranhas sensações.
Elrond voltou seu olhar para o lugar onde estavam. Ele visitara Mirkwood uma única vez, acompanhando Celeborn, mas não fora uma visita da qual guardara realmente boas recordações. Quando Celebrian estava ainda lhe fazendo companhia ela costumava trazer os gêmeos e a pequena Arwen para passarem temporadas com o filho do rei, a quem a bondosa elfa considerava uma criança muito só. Celebrian e Elvéwen desenvolveram então uma amizade que ele e Thranduil não seriam capazes de efetivar nem em um milênio de anos.
"Nesse lugar já desfrutamos de bons momentos." Disse Thranduil como se lesse os pensamentos expressos pelo olhar triste que curador deslizava pelas paredes e quadros, pelos móveis e folhagens. Um olhar de quem via o que havia por trás do tudo e nada que ali existia. Elrond voltou-se e encontrou a figura do rei já próxima dele, estendendo-lhe a taça cheia. O curador aceitou e agradeceu, acenando levemente com a cabeça.
"É muito belo." Ele disse. "Tem muito das mãos de Elvéwen nele."
"De fato." Disse simplesmente o rei cujos olhos não necessitavam da mesma vistoria que o curador fizera, para reconhecerem a beleza e a doçura de Elvéwen em cada canto daquele lugar. "Mas os momentos difíceis nos abraçaram." Lamentou-se então voltando a dar as costas ao visitante e retomando seu lugar diante da lareira. "Não há mais espírito para comemorações em Mirkwood há muito tempo."
"Lamento ouvir tal fato, embora conheça as razões de suas palavras."
Thranduil continuou em silêncio. Parecia perdido novamente nas chamas que via a sua frente. Revivendo emoções diversas e reais. Analisando detalhes que anteriormente lhe haviam passado às escuras. Elrond molhou os lábios. Até o vinho de Mirkwood era de um sabor mais amargo do que o de Imladris. Bebeu então um novo gole e deixou o gosto da bebida tomar-lhe a alma. Era um gosto realmente amargo, mas estranhamente bom. Parecia representar a estranha contradição do povo da floresta.
"Não pretendia deixá-lo..." Declarou o rei. Olhos ainda perdidos a sua frente.
Elrond franziu a testa.
"Não compreendo..."
"Não pretendia deixá-lo... Mas ele sempre estava além do meu alcance... escorregando entre meus dedos... O destino sempre o levava para longe de mim... para além da minha proteção."
Elrond aproximou-se e sentou-se em uma poltrona próxima.
"Sempre escorregando entre meus dedos..." Repetiu o rei baixando os olhos.
"Ele sabe que você nunca lhe quis mal." Disse o curador apreensivo, mas satisfeito pelo assunto ter finalmente emergido.
"Eu saí apenas para averiguar um problema. Não julgava que fosse demorar... Não tinha a intenção de deixá-lo naquele lugar terrível... Era apenas... era apenas um castigo provisório".
"Ele nunca se questionou sobre a veracidade de seu amor, Thranduil." Afirmou o curador ansiando que suas palavras fossem ouvidas, mas sentindo que, de alguma forma, o rei parecia estar falando consigo mesmo. "Ele só quer estar a seu lado novamente..." Disse por fim. "Poder chamá-lo de pai."
Thranduil apertou os olhos e voltou a esfregar o rosto com força.
"Nunca volto atrás em minhas decisões, Peredhel." Respondeu por trás das palmas. "Que regente seria se o fizesse? Legolas merece a sentença que lhe destinei. Na verdade fui até complacente."
Elrond sacudiu levemente a cabeça. Um fino fio de seda... fino demais. Ele pensou.
"Ele errou, Thranduil. Mas você sabe que suas intenções foram nobres." Afirmou o curador procurando não transmitir a indignação que as palavras do rei de Mirkwood haviam despertado nele.
"Sempre há um porque para tudo. Mas nós, que temos o poder, não podemos nos apegar a evasivas e desculpas."
"Nem para com aqueles a quem queremos bem? Nem a esses podemos dar crédito?"
"Não se faça de desentendido." Exacerbou-se finalmente o rei erguendo-se e voltando a caminhar pelo grande salão. "Meu povo é minha família. A todos eu quero bem. Se suas teorias fossem verdadeiras que espécie de governo eu faria?"
"Um governo justo." Concluiu o curador enlaçando os dedos das mãos e preparando-se para as conseqüências de suas palavras. Elas viriam. Ele sabia.
"Eu sou justo." Afirmou Thranduil erguendo sua voz um tom. "A única coisa na qual falhei foi na criação do filho que tive."
Elrond silenciou-se baixando a cabeça. As palavras formigavam em sua língua, querendo escapar de sua boca semi-aberta, mas ele as conteve. Estavam todos cansados demais para aquele conflito.
"Vou encontrá-lo..." Disse Thranduil de costas. "Meu filho ele é e não posso permitir que nenhum mal lhe aconteça..."
"E depois?"
"O depois dele não está ligado a Mirkwood... nem a mim..."
Elrond soltou o corpo e um suspiro.
"Então não pretende oferecer-lhe uma segunda chance?"
Thranduil fechou os olhos e o silêncio se fez uma resposta amarga.
"Não o ama, Thranduil? Não tem orgulho de sua criança por tudo o que ela já fez?"
"Você tem que colocar as coisas nesses planos, não é Peredhel?" Disse o rei aproximando-se. Elrond ergueu-se em um instinto e os dois se encararam de muito perto. "Elfos noldorianos desgraçados. Esses sentimentos levaram meu pai para aquela maldita guerra. Uma guerra que não era nossa... E perdemos... E fomos esquecidos..."
"Não perdemos..." Quis retrucar o curador.
"Perdemos!" Exclamou o rei em uma voz mais alta. "Perdas irrecuperáveis... insuperáveis... inadmissíveis..." Ele voltou a andar pelo salão. "Porque tínhamos que nos envolver... Tínhamos que ajudar... ajudar... ajudar... É o que move aquela criatura tola... todo o tempo... contra tudo o que eu desejo e sempre desejei..."
Um vento forte então invadiu o recinto e carregou as palavras do rei e todas as outras que ele parecia querer dizer. Thranduil caminhou até a grande porta aberta e a fechou. Depois apoiou uma palma por sobre ela e a testa por sobre a mão fria. Elrond assistiu aquela cena com um coração confuso. Tão diferentes eles eram e tão parecidos se faziam pai e filho em certas situações.
"Apesar de compartilharmos da imortalidade que nos foi dada pelo criador, meu caro Thranduil." Disse o curador com seriedade. "Nem sempre dispomos de todo o tempo de Arda para resolvermos uma determinada situação."
"Às vezes, nem a vida de uma estrela é tempo o suficiente para que uma situação se resolva. Às vezes simplesmente não há saída." Foi a resposta amarga do rei que voltou então a abrir a porta por ele fechada há pouco e saiu em seguida sem se despedir. Parecia que a tempestade que se armava novamente lá fora era mais convidativa do que a tempestade que o curador fazia despertar no interior dele.
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O dia amanheceu e o grupo de Elrond se reunia para retomar as buscas. O curador acariciava a crina de seu animal sussurrando-lhe palavras doces de estima e consideração, enquanto os elfos faziam os arranjos finais. A seu lado Elladan parecia ligeiramente incomodado.
"O que aflige sua alma nessa bela manhã, ion nin?" Indagou o pai estendendo a mão para que o filho a segurasse por alguns instantes.
"Nada." Respondeu o mais velho dos gêmeos aceitando a mão oferecida e dando-lhe um leve aperto. A resposta vazia não convencia, mas parecia ser derradeira.
"Passaram bem a noite?" Indagou o curador, juntando as peças de seu quebra-cabeças.
Elladan riu soltando a mão do pai que continuou segurando a dele, não permitindo assim que o contato se quebrasse.
"A tempestade incomodou você e seu irmão?" Indagou o pai fazendo o rapaz corar ligeiramente e desviar os olhos para as planícies distantes. Mais uma peça se unia ao grupo. A imagem começava a se formar na mente de Elrond.
"Sabe que não temo mais as tempestades, ada." Retrucou o outro.
Elrond riu batendo levemente no pescoço de seu cavalo que entendeu o pedido e aproximou-se um pouco mais do cavalo do filho. "Sei também que estamos vivendo dias difíceis e os acontecimentos de ontem não foram, como posso dizer, acontecimentos que vivenciamos todos os dias."
Elladan enrubesceu ainda mais e olhou para Elrohir, cujo olhar perdido não parecia contemplar visão alguma. Elrond seguiu o olhar do filho e prendeu-se um pouco na figura do gêmeo mais novo. Um outro sorriso enfeitou os lábios do pai.
"Passaram a noite em claro, não passaram?" Indagou em um tom leve, mas firme.
Elladan não respondeu. Elrond soltou a mão do filho e envolveu-o em seus braços, vencendo a distância imposta pelos cavalos. Elladan surpreendeu-se, mas aceitou o abraço encostando a cabeça no ombro do pai. Depois os dois se desprenderam e voltaram a se olhar.
"Nós o víamos em todo o lugar..." Admitiu o rapaz. "Em cada raio que caia... ele estava lá."
"Quem?" Indagou o pai franzindo a testa.
"O... mestre, ada... o rei elfo..." Ele sequer conseguia mencionar o nome que lhe povoava o coração e a mente naquela manhã.
"Gil-Galad." Completou Elrond esquecendo os títulos e formalidades, tentando assim fazer com que a figura que parecia agora assombrar aos filhos pudesse ser aceita com mais naturalidade.
Elladan voltou a olhar para o irmão que permanecia imóvel por sobre o cavalo, sem sequer ouvir a conversa que se estabelecia.
"Diga-me, ion-nin..." Pediu o curador. "Por que alguém, por quem guardo grande estima e admiração, poderia fazer-lhes tamanho mal?"
"Ele não nos fez mal algum, ada." Apressou-se o filho em sua defesa. "Nós apenas... não conseguíamos esquecer... e..."
"E agora temos que ficar de olho em vocês." Completou a voz irônica de Glorfindel que se aproximava também montado em seu cavalo. "Se não acordar seu irmão agora eu vou fazê-lo." Ele ameaçou com um sorriso. "Vou gostar muito de vê-lo no chão."
Elladan franziu os olhos e voltou-se novamente para Elrohir, para só então entender porque o rapaz ainda não havia se manifestado na conversa que tinham. O gêmeo mais novo mantinha seus olhos sem brilho abertos, mas seu espírito ajudava o corpo a recuperar um pouco das energias. Ele fazia o sono élfico.
"Ah..." Reclamou o mais velho irritado. "Pelo menos ele consegue fazer isso, enquanto eu fico aqui sentindo falta do descanso que não pude ter."
Glorfindel não pôde conter o riso alto que lhe acometeu. Elrond a princípio não quis acompanhar o amigo, mas não resistiu. O passado vinha trazer-lhe algumas doces recordações.
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"A tempestade está forte essa noite." Disse Glorfindel olhando pela fresta da janela entreaberta.
Elrond sorriu. Tantos anos e ainda não compreendia por que as tempestades incomodavam tanto ao amigo. Por que um guerreiro, com a experiência daquele elfo de Gondolin, poderia comparar meros pingos d'água com grossas correntes de metal.
"Ela faz bem ao verde." Disse apenas, percebendo então a insatisfação do louro elfo tornar-se mais do que evidente.
"Tudo aqui já está mais do que molhado..." Retorquiu o outro aborrecido.
"Logo a natureza se encarregará do fim desse processo todo." Garantiu o curador adiantando-se para sair do recinto, antes que recebesse o olhar devastador que sabia que seu amigo lhe direcionaria. Ele não apreciava usar os poderes de Vilya em vão e, por mais que a tempestade estivesse ainda muito longe de derramar sua última gota, iria deixar que a natureza seguisse seu curso. Quer seu amigo gostasse de sentir-se aprisionado por ela, quer não.
Elrond permitiu-se então sorrir para si mesmo enquanto ganhava as escadas, afastando-se por fim dos pequenos problemas que imperavam por causa de algumas gotas de chuva. Mas sua satisfação durou pouco. Ele se esquecera de que tempestades como aquela costumavam fazer outras vítimas. Andando pelo corredor encontrou, como prova de que seus receios estavam corretos, um par de olhos claros que lhe lançavam um olhar provocador. Elrond sorriu recebendo bem a mensagem que lhe era destinada.
"Onde eles estão?" Indagou em um sorriso enquanto segurava a mão da esposa.
"Não faço a mínima idéia." Riu Celebrian olhando discretamente para a porta do quarto que ela e o marido compartilhavam.
Elrond também riu. Afinal, aonde mais iriam? Ele então se adiantou lentamente, sendo seguido de perto pela esposa. Quando chegou em frente à porta voltou-se para sua acompanhante e sorriu.
"Deixe-me falar com eles." Ele pediu.
Celebrian ofereceu-lhe um sorriso amável e segurou-lhe uma das tranças.
"Não vá se aborrecer." Ela pediu deslizando suavemente seus dedos pelos cabelos do marido. "Sabe como eles são impossíveis."
"Se todos os aborrecimentos da minha vida ocasionassem momentos como esse," Ele sorriu segurando a mão da esposa nas suas. "seria de minha vontade enfrentar as terríveis tormentas do destino, apenas para sentir seus suaves dedos me aconselhando com esta doçura de sempre."
Celebrian sorriu, mas acenou a cabeça em desaprovação.
"Nunca vai mudar, não é mesmo meleth-nín." Ela disse. "Sempre esconderá de mim o que o aflige por trás das belas palavras que me diz."
"Não tenho culpa, estrela minha." Elrond retrucou beijando-lhe os dedos. "Sua beleza é uma fonte indiscutível de inspiração. Nada mais posso fazer diante de você se não louvar todas as suas qualidades."
"Elrond!" Ela tentou fingir aborrecimento, mas acabou apenas balançando mais uma vez a cabeça e recuando um passo, soltando assim as mãos do marido. "Incorrigível."
"E apaixonado... sempre." Ele completou com um sorriso provocador.
Celebrian suspirou completamente vencida. "Sim. E a isso eu dou graças." Ela sorriu. "Pela paz que me transmite, meleth-nín." Mas seu sorriso mudou de forma e então voltou a olhar para a porta do quarto. "Porém." Soltou uma risada doce. "Espero que essa paz lhe favoreça agora também. Você sem dúvida vai precisar."
Elrond fechou os olhos por alguns instantes, lembrando-se subitamente do que o aguardava, depois suspirou e acenou em concordância, voltando-se para a porta e entrando vagarosamente.
O quarto estava escuro, com apenas um lampião provendo a luz mínima, para que desavisado algum colidisse com os móveis em uma caminhada qualquer. Vez por outra os raios da insistente tempestade escapavam pelas frestas desprotegidas, iluminando o local de forma a proporcionar-lhe um brilho inteiramente novo. Elrond suspirou olhando a sua volta. Onde estariam escondidos?
"Vamos, ionath-nin." Ele disse colocando as mãos na cintura. "Eu sei que estão aqui, mesmo com minhas constantes advertências para que não estivessem."
Silêncio.
"El..." Ele chamou com um tom de voz um pouco mais forte.
Silêncio.
"Certo." Disse finalmente, dando as costas e apanhando o lampião que estava sobre a cômoda. "Já que não há ninguém aqui, não há porque haver luz."
"Não, ada!" Surgiram então duas vozes em uníssono. Elrond sorriu ao reconhecer a quem pertenciam. Ele se voltou para encontrar dois pares de olhos escuros lançando-lhe olhares suplicantes do outro lado da cama.
"Embaixo da minha cama?" Indagou o curador caminhando devagar e fazendo o máximo para parecer contrariado, algo que, na situação na qual se encontrava, era praticamente impossível. Mas sua atitude, apesar de pouco convincente, pareceu fazer o efeito desejado, os dois elfinhos se encolheram um atrás do outro e fecharam seus olhos em pura agonia. Ele suspirou e agachou-se diante das duas pequenas figuras idênticas, que pareciam tentar se confundir com parte da mobília naquele momento. "O que fazem aqui, ionath-nin?"
Os olhos do pequeno elfo da frente, o mais velho, se abriram por míseros segundos e a palavra "tempestade" escapou-lhe dos lábios.
"E por que, em Arda, precisam se esconder aqui? Por que não foram para junto de sua mãe?" Indagou o pai inconformado. Mas em seu íntimo ele bem sabia que as duas crianças não responderiam àquela pergunta, como jamais responderam em todas as vezes anteriores nas quais a cena se repetiu. Por um motivo completamente desconhecido para ele, os pequenos gêmeos, que temiam a tempestade como se esta fosse de fato um ente vivo vindo diretamente das trevas, tinham algum tipo de ilusão sobre aquele lugar, julgando que somente ali estariam protegidos dos tormentos que aconteciam do lado de fora da casa.
Elrond suspirou e olhou mais uma vez para os filhos. Eles eram apenas elfinhos assustados que dariam suas vidas para não saírem daquele lugar sagrado.
"Está tudo bem, ionath-nin." Disse finalmente àqueles olhos apertados que agora julgavam ter duas coisas a temer. Mas as crianças tremeram ainda mais ao ouvir a voz do pai. "Está tudo bem." Repetiu com carinho. "Não estou zangado." E suas palavras despertaram suspiros de alívio nos pequeninos, que ergueram as pálpebras inseguros. Elrond sentiu seu coração leve ao encontrar os olhares dos dois filhos e sorriu, estendendo as mãos para proporcionar aos meninos a certeza que lhes faltava de que as palavras ouvidas eram verdadeiras. Os irmãozinhos se atiraram nos braços do pai que os recebeu com um abraço apertado, erguendo-se então e acomodando-se na cama com cada um sentado em uma de suas pernas. O mais velho passou imediatamente os bracinhos em torno da cintura do pai e escondeu o rosto o máximo que pode no robe escuro que Elrond usava. O mais novo porém, apenas segurou a mão que agora o pai lhe oferecia e fixou seus olhos nele.
"Seu irmão está incomodado com a batalha da natureza novamente, meu guerreiro?" Indagou o curador ao mais novo dos filhos com um leve sorriso.
"Ele é um elfinho bobo." Respondeu o mais novo usando com certeza palavras que não eram suas. Elrond riu percebendo o tom de Glorfindel cada vez mais evidente no discurso de Elrohir. "Elfinhos bobos temem a tempestade." Ele afirmou erguendo o queixo tempo o suficiente para que um grande estrondo fosse ouvido e outro raio clareasse o quarto parcialmente, fazendo com que ele também se abraçasse ao pai em um sobressalto.
Elrond riu, acariciando os cabelos dos filhos. "Vocês sabem que não têm o que temer." Ele garantiu. Mas os pequenos tremiam mais, agarrados ao pai como se suas vidas dependessem disso. Elrond suspirou. Chegava a se arrepender por ter pedido a Celebrian que não o acompanhasse. A bela elfa naquela altura já teria encontrado algo divertido para dizer e arrancar sorrisos dos filhos. O espírito leve e o bom humor da mãe eram sempre a garantia de paz em situações como aquela. Mas, intrigantemente, a esposa aceitara sem ressalvas ficar do lado de fora durante um conflito tão árduo. Isso se fazia a certeza de que a elfa julgava aquela questão como sendo inteiramente da ossada do marido. E se sua sábia esposa tinha essa convicção iluminando suas decisões, quem seria ele para contrariá-la.
"São apenas os poderosos elfos lutando por nós." Ele arriscou então. Na esperança de que, uma história bem contada, pudesse superar qualquer amargura que estivesse tentando infectar o coração puro de seus filhos.
E o resultado veio demonstrar exatamente o quão certo o senhor de Imladris poderia estar. Os escuros olhos dos pequenos elfos surgiram novamente, prontos para, aliados a ouvidos atentos, desvendar quaisquer mistérios que lhes fossem propostos. Crianças eram, sem dúvida, dádivas de Iluvatar.
"Quem, ada?" Indagaram os pequenos elfos em uma só voz.
Elrond sorriu, ligeiramente satisfeito consigo mesmo. O primeiro passo tinha sido dado na direção correta. "Elfos poderosos." Ele repetiu adicionando emoção a sentença. "Em batalha por nossa segurança."
"Elfos poderosos?" Indagou Elrohir com os olhos bem abertos.
"Estão lutando onde, ada?" Perguntou Elladan.
Elrond sorriu, colocando então os filhos na própria cama, lado a lado. Os pequeninos se aninharam bem próximos um do outro, mas continuaram mantendo seus olhos no pai.
"O senhor vai contar a história deles para nós, ada?" Perguntou o mais velho segurando uma parte do robe do curador entre os dedos e depois apertando o punho para prender firmemente o tecido. Ele parecia temer que o pai resolvesse, por um motivo qualquer, se levantar e sair. Elrond percebeu isso e segurou gentilmente a mão do filho, fazendo com que ele abrisse os dedos e aceitasse a mão do pai.
Elrohir parecia entusiasmado. "Eles são guerreiros poderosos, com grandes espadas que brilham e podem derrubar um Troll com um só golpe, não são ada?" Indagou o menino encarregando-se de deixar a história mais interessante antes mesmo de ouvi-la.
Elrond ajeitou-se melhor em seu lugar e suspirou. "Sim, ion-nin." Ele disse baixando levemente o tom de sua voz e adicionando agora um ar de mistério a história. Na verdade o que mais queria era que Glorfindel estivesse lá para ajudá-lo, pois não havia em toda a Arda um contador de lendas e histórias melhor do que o guerreiro louro. Mas ele tinha que tentar. "Eles estão lutando por nós. Lá em cima entre as estrelas. E se fazem luz e força por nós, para o nosso bem, a nossa salvação."
E ele riu mais uma vez ao ver os pequeninos olharem ao mesmo tempo para a sacada fechada, quando um novo raio encheu de luz o terraço. A porta fechada aprisionava os raios e seus trovões do lado de fora da casa, do lado de fora do quarto do pai.
"Eles não querem que os monstros entrem aqui, não é ada?" Indagou o pequeno Elrohir. O elfinho parecia realmente entusiasmado com a história que ouvia e esticava o corpo como quem fosse pular a qualquer momento daquela cama e correr para a sacada para assistir a luta do lugar mais privilegiado do mundo. "São muito poderosos!! Guerreiros elfos com suas espadas!"
"Isso, ion-nin." Riu o curador uma vez mais ao ver o brilho de contentamento nos olhos do filho mais novo. Depois se voltou para o primogênito e seu sorriso enfraqueceu. Elladan continuava encolhido segurando a mão do pai. A história não parecia tê-lo convencido como convencera ao irmão. Elrond olhou mais uma vez para o elfinho, cujos olhos muito abertos deslizavam suas pupilas escuras por todo o quarto temendo o novo brilho, o novo tremor. O coração do curador de repente doeu muito em seu peito e a brincadeira ganhou um sentindo estranho, uma importância que anteriormente não tinha.
"Sabe quem está lá, Dan?" Ele fez uma nova tentativa, aproximando-se do rosto do menino e arrancando dele finalmente o olhar de absorção que desejava.
"Quem, ada?" Indagou o elfinho erguendo a mão e apoiando a palma no rosto do pai.
"Meu mestre, Gil-Galad." Ele disse com respeito, colocando a mão por sobre o peito. "Um grande rei em seu tempo, o maior de todos para mim."
E os olhos de Elladan cresceram ao ouvir o pai abrir seu coração daquela forma.
"E seu mestre pode lutar no céu, ada?" Indagou o pequeno gêmeo. "Pode enfrentar qualquer monstro?"
Elrond desprendeu os lábios e encheu o peito de ar, para depois soltar um longo suspiro que não conseguia disfarçar a tristeza proporcionada pela pergunta do filho. Era muito difícil tentar transmitir a alguém uma certeza que não se tem.
Elladan apertou o maxilar e encolheu os joelhos percebendo a tensão que invadira o coração do pai. O sábio curador, por mais que tentasse, jamais conseguia impedir que essa conexão entre ele e seu primogênito se rompesse. Se seu coração estivesse disposto a chorar, o filho, com certeza, seria capaz de ver as lágrimas antes mesmo que estas brotassem de seus olhos ainda secos.
"Uma vez ele enfrentou um grande monstro..." Ele disse por fim.
"E foi vencido?" Indagou o filho com tristeza, ansiando ouvir uma resposta que o surpreendesse.
Elrond desviou seu olhar por alguns instantes e percebeu que Elrohir já se afastara da cama e olhava curiosamente pelas frestas da porta, como se quisesse espiar o espetáculo, roubar cenas das tais batalhas, gravá-las na memória. Ele sorriu olhando seu pequenino guerreiro esticar os pezinhos descalços para ver melhor por uma fresta mais alta. A guerra para o pequeno Elrohir já estava ganha. Mas ainda restava convencer o cético Elladan.
"Foi, ada?" Insistiu o menino.
Elrond voltou-se.
"Foi." Ele declarou. "E Mandos o abraçou e o levou, porque ele era bom e justo." Completou vendo o menino voltar a se encolher. "Mas a criatura também não sobreviveu." Acrescentou recebendo novamente a atenção daqueles olhinhos brilhantes. "Ele foi vencido..." Lembrou o elfo baixando os olhos. "Meu mestre se foi, mas a esperança da terra livre do mal não se foi com ele. Por que ele acreditava e nos ensinou a acreditarmos também."
Elladan suspirou.
Elrond voltou a encher o peito de ar. Seus olhos não conseguiam se desviar da figura de Elrohir que, já insatisfeito com a visão que tinha, tentava vencer o trinco da grande porta para abrir uma fresta maior e poder ver o que seus olhos perdiam. Diferentes eles eram, seus dois gêmeos, mas uma coisa não os diferenciava, ambos eram corajosos, ele podia sentir. Elladan só guardava no peito a eterna busca pelos porquês que o incomodavam. Ele precisava de respostas, enquanto o afoito Elrohir só precisava de motivos. Iguais, porém diferentes.
"Era um grande mau..." Ele disse baixando então os olhos.
"Aquele que foi destruído?" Indagou o filho cruzando então as pernas e aproximando-se mais do pai.
"Sim... e não..." Disse Elrond puxando o menino para seu colo. "Uma parte dele foi destruída... mas outra... outra desapareceu... E até hoje não se sabe aonde possa estar." Completou o curador com pesar, confuso pelo rumo que sua conversa com os meninos tomara. Ele sabia que não era apropriado relatar fatos de tamanha gravidade a uma criança tão pequena e desconhecedora da maldade do mundo. Mas, deixando-se guiar por seus instintos, não pôde ver rumo melhor para tomar.
Elladan abriu um pouco mais os olhos com tal descoberta, mas segurou a mão do pai ao sentir o quão difícil parecia ser o assunto que agora estava sendo-lhe confidenciado.
"Por isso eles ficam ali..." Concluiu o menino e seus olhos se iluminaram com o novo raio que iluminou o quarto, mas ele não mais tremeu. "Por isso ainda não se foram... Ainda não têm paz..."
Elrond ergueu os olhos confuso.
"Ali?"
O elfinho apertou os lábios e olhou novamente para onde o irmão estava. O valente Elrohir já havia conseguido vencer mais um obstáculo e colocava parte de sua cabecinha para fora da porta entreaberta, parecendo importar-se pouco com os raios que ainda iluminavam o céu.
"Ali..." Disse o primogênito olhando para a porta semi-aberta, mas parecendo ver muito além. Parecendo ver finalmente a batalha cruel que aqueles poderosos e valentes guerreiros estavam travando. "Estão tomando conta de nós... Todo o tempo..."
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Elrond, finalmente desperto de suas divagações, sentiu o coração invadido pela descoberta do que afligira o filho durante a noite. Não eram dúvidas. Eram certezas. Após aquela conversa que tivera com os filhos há tantos anos, os gêmeos nunca mais voltaram a temer a tempestade. Mas provavelmente aquela "história de dormir" contada pelo pai, ficara gravada na mente dos dois, especialmente na de Elladan, por todos esses anos. E agora, finalmente, contrariando tudo o que o rapaz imaginava ver um dia, ela fizera-se verdade a olhos vistos, diante não só dele, mas de um grupo considerável de guerreiros. Gil-Galad viera comprovar a teoria que o jovem Elladan criara para apaziguar seu coração quando criança. Ele viera para mostrar que a natureza realmente era aliada dos elfos nas batalhas que enfrentavam.
O curador desprendeu os lábios comovido e se virou para questionar o filho sobre a veracidade de suas descobertas, mas o rapaz já estava longe, conversando com o cavalo de Elrohir, enquanto os animais de ambos trotavam lado a lado. O bom Elladan decidira afastar o irmão das vistas de Glorfindel, temeroso de que o elfo realizasse a brincadeira que tinha ameaçado.
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"Por favor, ada... Permita que eu tenha paz... por favor..."
"Legolas? Legolas acorde, mellon-nîn."
"Por favor... diga que me perdoa..."
Aragorn fechou os olhos e apertou-os sem coragem de reabri-los. Quando aquele pesadelo ia terminar?
"Por favor... antes que seja tarde..."
Um suspiro e o guardião reabriu os olhos e franziu as sobrancelhas, voltando-se então para o elfo adormecido. Legolas estava enrolado na capa do amigo, mas parecia tremer levemente como se sentisse frio. Os olhos fechados pelo cansaço ou por outro motivo talvez pior acrescentavam um ar mais grave a cena.
"Legolas." Ele disse aproximando o rosto do ouvido do arqueiro. "Legolas acorde."
"Estel..." Disse o príncipe ainda de olhos fechados.
"Sou eu mellon-nin, acorde vamos, é só um pesadelo."
"Estel... Estel peça a ele... Por favor... peça a ele que me perdoe... antes que seja tarde... Por favor..."
Aragorn respirou fundo dessa vez. Como ele queria sacudir aquele rei de Mirkwood. Ter o poder de fazê-lo ver pelo que o filho estava passando. Ele não se conformava em perceber que, como sempre, nos piores momentos de sua vida, a primeira palavra que parecia vir à mente do arqueiro ainda era o nome do pai.
"Legolas..." Ele tentou inutilmente chamar o arqueiro, deslizando agora a palma pelo rosto contorcido do rapaz. "Legolas venha para a luz, mellon-nin".
"Estel... por favor..."
Aragorn não suportou mais. Ele ergueu o corpo do elfo e o abraçou, mantendo-o em seus braços mesmo sabendo que o amigo ainda estava adormecido. O corpo do arqueiro estava quente, mas mesmo assim ele tremia como se um estranho frio o estivesse incomodando. Aragorn apertou-o mais junto ao peito e apoio seu rosto por sobre a cabeça do príncipe. Legolas então se encolheu no abraço que recebia e pareceu aquietar-se.
"Vai ficar tudo bem..." Disse Estel para o amigo adormecido e, de certa forma, para assegurar a si mesmo. Ele então se aquietou, saboreando a sensação da respiração do elfo que finalmente voltava a se acalmar. Seus olhos também se fecharam como os do arqueiro e ele se permitiu relaxar por alguns instantes, elevando seu coração em uma pequena prece, na qual pediu, como sempre o fazia, que a luz da razão fosse sua aliada em mais esse conflito.
"As sombras..." Surgiu mais uma vez a voz do elfo entrecortando aquele breve momento de paz. "Tome cuidado com as sombras, Estel... nunca lhes dê as costas..."
"Iluvatar..." Lamentou o guardião voltando a fechar os olhos. "Luz, não trevas, por misericórdia".Ele completou olhando para a paisagem lá fora enquanto sentia um frio correr-lhe a espinha devido àquelas últimas palavras. O que mais queria no momento era que Legolas despertasse para que eles seguissem viagem. Mas ele entendia porque o amigo ainda estava adormecido. Depois de tudo o que se passara, esta era a primeira oportunidade que o elfo tinha para descansar e ele custara tanto a fazê-lo, balbuciando palavras sobre um incêndio e sobre figuras lendárias. Aragorn sacudiu mais uma vez a cabeça com a lembrança. Parecia que Iluvatar estava reservando-lhes um pesadelo diferente para cada dia.
"Estel?"
Aragorn baixou a cabeça e encontrou os olhos azuis de Legolas. O príncipe lhe ofereceu um sorriso tímido.
"Não dormiu, mellon-nin?" Ele perguntou preocupado.
"Dormi... essa floresta tem cavernas com camas muito boas, você não sabe?" Ironizou o guardião rindo e tentando esconder o alívio que sentia por ver o príncipe, novamente desperto, se desprender de seus braços e sentar-se devagar.
"E desde quando um guardião busca pelo conforto de camas em plena Mirkwood?" Brincou o outro esfregando o rosto e olhando a sua volta.
"Desde do momento em que ele não consegue dormir porque um certo arqueiro fica lhe contando histórias fantásticas que lhe tiram o sono."
Legolas voltou-se para ele. Os lábios entreabertos e a pele sem cor fizeram o guardião se arrepender da brincadeira que fizera. "Não deixei que dormisse?" Ele indagou entristecido.
Aragorn suspirou, tomando-lhe as mãos. "Estava dizendo coisas estranhas, mellon-nîn." Ele disse então, optando pela verdade já que dissera um pouco mais do que de fato pretendia.
Legolas baixou os olhos e um doloroso silêncio se fez. O elfo direcionou seu olhar para a saída da caverna onde estavam, parecendo ter a mente repleta por estranhas recordações.
"Tenho sede." Ele disse então voltando-se para Aragorn que franziu a testa intrigado. Não era costume do amigo deixar questões desse tipo mal resolvidas. "Você tem um pouco de água para me dar, Estel?"
Aragorn lhe estendeu o cantil. Legolas agradeceu e entornou o recipiente bebendo a água em pequenos goles, mas sentindo um par de olhos preocupados analisando todos os seus movimentos. Estel era um bom amigo. O melhor amigo que tivera.
"Posso beber mais um pouco?" Ele indagou indeciso, olhando novamente para a paisagem que coloria a saída da caverna. Não reconhecia bem o lugar onde estavam. Não sabia o quão distante estava o próximo riacho ou lago.
Aragorn se permitiu sorrir.
"Pode, poço louro." Ele brincou gesticulando para que o amigo prosseguisse. Legolas retribuiu ao sorriso e voltou beber.
"Por que estamos em uma caverna, Estel?" Ele perguntou depois de devolver o cantil do amigo.
"Porque choveu." Respondeu o outro com simplicidade arrastando-se alguns centímetros para alcançar uma pequena vasilha que estava no chão. "Bem... não foi de fato uma chuva." Ele completou olhando para o conteúdo do recipiente. "Foi a pior tempestade que me lembro em toda a minha curta vida humana."
Legolas respirou fundo e um leve sorriso se fez em sua face como se uma lembrança doce o estive abençoando.
"No que está pensando?" Indagou Aragorn com um contentamento na voz. Era tão raro ver o arqueiro perdido como estava em alguma lembrança de paz.
O elfo abraçou os joelhos e apoio o queixo sobre eles direcionando seus olhos claros para o amigo. Aragorn sorriu. Ele sabia que a resposta não viria.
"Como está sua cabeça." Indagou o elfo lembrando-se do ferimento que o amigo sofrera.
"Confusa." Respondeu o outro sorrindo. Ele entendera bem o questionamento do amigo, mas precisa desesperadamente erguer os ânimos naquela manhã cinzenta.
Legolas riu balançando a cabeça.
"Se Elrohir estivesse aqui, você ouviria uma daquelas terríveis provocações..."
Aragorn também riu muito agora, colocando a mão no peito como se quisesse manter a imagem do irmão dentro do coração.
"E você não se atreva a querer tomar o papel dele!" Ele ameaçou em tom de brincadeira.
"Não... Mal desempenho os papéis que me foram designados..." Disse o príncipe baixando os olhos. "Não me atreveria a tentar exercer qualquer outra função..."
E a seriedade voltou ao semblante do guardião, que apoiou uma mão no ombro do amigo e sorriu com sinceridade.
"Na minha vida, Legolas, ninguém poderia fazer o seu papel melhor do que você."
Legolas fechou os olhos comovido, depois sorriu.
"Claro..." Ele riu balançando a cabeça. "Quem mais teria a habilidade de colocá-lo em tamanha confusão? Eu sou mesmo muito eficiente nesses aspectos... Criar confusão..."
"Legolas!" Advertiu o guardião irritado.
"E tirar as pessoas do sério." Completou o arqueiro com um sorriso.
Aragorn o agarrou então, apertando-o com força em um dos braços e desalinhando-lhe os cabelos soltos com a outra mão, algo que ele sabia que o príncipe odiava que fizesse.
"Estel! Pare!" Pediu o arqueiro entre risos, enquanto tentava escapar das garras do amigo.
"Ah, nem pensar..." Provocou o guardião satisfeito por ouvir depois de tanto tempo o agradável riso do amigo. "Você merece uma punição!" Ele completou apoiando a mão por sobre o rosto do arqueiro enquanto lhe imobilizava os braços em um abraço apertado. "Diga que se rende! Elfo bobo!" Ele ordenou.
"Estel!" Protestou o elfo com o rosto completamente escondido por baixo da grande palma do guardião.
"Diga 'eu me rendo', principezinho da floresta!" Ele provocou uma vez mais.
"Eu me rendo." Respondeu o arqueiro com um sorriso. "Grande guerreiro e futuro rei dos homens! Quem sou eu para enfrentar tamanho poder?" Ele completou em uma forçada ironia, fazendo com que Estel o soltasse e lançasse para ele um olhar revoltado que só fez o príncipe rir mais ainda.
"Você é impossível." Ele disse tentando se mostrar ofendido. "Vamos, pegue isso." Disse estendendo a vasilha para o amigo, nela havia algumas frutas que tinha pego enquanto o elfo dormia. "Precisa comer algo."
Legolas franziu o rosto ao olhar as frutas vermelhas como se sentisse algum mal estar.
"O que foi?" Indagou o dunedain preocupado.
"Não tenho fome..." Respondeu o príncipe apertando os lábios e engolindo a saliva com dificuldades.
"Não me interessa se tem fome, elfo teimoso." Respondeu Aragorn com um sorriso disfarçado nos lábios e olhando a sua volta, enquanto voltava a oferecer uma fruta vermelha ao amigo de Mirkwood. "Ande! Coma!" Ele ordenou tentando não rir.
Legolas esticou o braço e apanhou a fruta, olhando-a com um ar indecifrável. Aragorn ergueu-se e foi preparar a sela de Espírito.
"Devo admitir que nem eu sei bem onde estamos." Declarou amarrando a sela do cavalo enquanto buscava traços na paisagem que despertassem alguma recordação produtiva. Ele olhou a sua volta. A tempestade finalmente lhes dera uma trégua o que era de alguma vantagem.
Subitamente Estel ouviu um estranho som. Ele voltou rapidamente para dentro da caverna e encontrou Legolas de joelhos tossindo muito com a mão no peito. Correu para acudi-lo.
"O que houve, mellon-nìn?" Indagou apoiando a mão nas costas arcadas do príncipe. "Comeu depressa? Como conseguiu engasgar-se com uma fruta tão macia?"
Legolas fechou os olhos e voltou a franzir o rosto como se estivesse enjoado. Aragorn olhou a sua volta. A ameixa recebera apenas uma pequena mordida.
"O gosto está estranho." Admitiu o elfo virando rapidamente o rosto quando o amigo mostrou-lhe seu achado.
"Como assim?" Indagou o humano confuso. "Eu mesmo comi algumas."
Legolas levantou-se apoiando a mão no estômago e Aragorn voltou a se preocupar com ele, se lembrando mais uma vez da terrível galenolas e do mal que poderia estar circulando pelo organismo do amigo. Tudo aquilo só conduzia a uma conclusão: Eles estavam ficando sem tempo.
