Olá. Estou postando dois capítulos muito próximos para compensar o atraso. Por favor não me odeiem. Levem o tempo que for. Quem não me disse nada ainda sobre o 35 pode também ler com calma. Eu só peço por favor que, além de mandarem os e-mails maravilhosos que recebo, coloquem sempre que possível algumas reviews no site. Por que, como eu já disse, eu perdi tudo o que tinha de vocês, só fiquei com as reviews do site, o que me deixou menos triste.
Aliás, essa minha sensação com as reviews não vem de hoje. Eu vejo tão poucas nas fics que leio. É muito triste porque não posso deixar de pensar naquelas pessoas que olham a página da net e dizem.. "Ah.. ninguém está lendo essa fic" ou "Ah, quase ninguém leu esse conto". "Deve ser ruim." E muitas vezes deixam de apreciar tamanha arte porque contam como a opinião de outro alguém. Como pontos da coluna do leitor, sabe? Índices tolos do ibope. Não custa, gente. Apenas um "Oi, eu li e está muito bom!" E o autor já se sente animado em prosseguir. Não falo só por mim, eu até sou abençoada por amigos que não se cansam de me motivarem e a quem eu nunca seria capaz de agradecer o suficiente. Mas por outras obras de talento, as quais vocês podem até estar lendo e gostando e as escritoras vão acabar terminando o último capítulo sem saberem disso. Pensem nisso com carinho, por favor. Amanhã podem ser vocês essas escritoras. Aliás é o que eu espero, que quem ainda não tentou que tente passar para o papel seus pedaços de ilusão e fantasia. Estamos aqui sempre esperando e ansiando por idéias frescas.
Super beijos.
Agradecimentos (breve, breve, breve):
Lady-Liebe – Querida amiga Liebe e super escritora. Saudades suas. Beijos.
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Grande Misao com seu trabalho magnífico... Ainda fico admirada e toda vez que falo acabo indo lá ler outra vez. O que será que vai acontecer em Rivendell? Atualize logo, please!
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" explodindo emoções e corações. Até montou-se um perfeito júri para a defesa do pobre Haldir. Defesa esta, aliás, feita com maestria pela nossa talentosa advogada Kika-Sama. Quem precisar é só contatá-la. Mas é claro, a responsabilidade toda é da Myri. Como criar tamanho conflito sem ter talento de igual grandeza? Quem leu a review que a Myri me deixou não vai negar o que estou escrevendo aqui. Novas reverências, amiga.
Nimrodel Lorellin – Divinas "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Minha irmãzinha de coração me surpreendeu mais uma vez. Quem não leu o maravilhoso capítulo ESPERANÇA realmente está deixando de viver emoções indescritíveis. Gente, leiam!! Deixem reviews! Obrigada, irmãzinha, flor de talento e bondade. Super beijo.
Vicky Weasley: "BITTERSWEET" Vicky? Cadê você?
Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – Para os que estão começando a ler SdA, não deixem de ler a fic já prontinha da nossa grande Ju. Obra prima de esforço e coragem. Beijos, amiga!
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Lali talentosíssima! Por favor, estou esperando atualização!
Kika-Sama: Kika parou com alguns projetos, mas disse que vai retomá-los (eu vou cobrar isso, amiga). Mas quem gosta de ler bons contos não pode deixar de visitar a página dessa excelente advogada que, nas horas vagas, nos presenteia com grandes textos. Super talentosa, apesar de achar o meu Legolas um chorão hehehe... (tudo bem, eu perdôo).Beijos e obrigada pela review, foi muito bom voltar a falar com você.
Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Chell me deixou sozinha dessa vez. Estou triste!! Tudo bem amiga? Me escreva!! Beijos.
Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Obrigada pela review, mas... Cadê a fic?? Beijos!!
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Kiannah, amiga. Também me deixou só. Esse povo está mesmo muito ocupado. Espero que a Kiannah esteja também ocupada com a atualização. Beijos.
Soi – "IDRIL NÚMENESSË". Já leram? Deviam. Muito bonita, mesmo mesmo. Parabéns, Soi!!
Amigas...
Syn, the time keeper. Que bom que você gostou da minha última rememoração. Os gêmeos estão mesmo conquistando corações. Eles novinhos são de fato uma graça. Obrigada por todo o apoio que você me dá sempre.
Regina – Regina cadê sua fic? Cadê??
Botori – Não fique com pena do Las, logo o sofrimento dele vai ter uma trégua. Não me odeie depois desse capítulo. Confie em mim. Tem final feliz por aí.E não está longe. Obrigada pela review. Beijos.
Aeka – Continua na vida corrida. Beijos.
Leka – Minha mistura de Elrohir e Elladan! Foi muito bom falar com você. Obrigada pela review. Beijos.
Lali-chan – Aquela que gosta do poço louro, e quem não gosta... Obrigada pela review. Beijos.
Veleth – Fiquei sem a mestre das palavras dessa vez. Mas espero que tenha gostado do capítulo anterior. Beijos.
Pink na – FIC FIC FIC?? Beijos!!
Daphne Pessanha "Arabella" – Daphne, sumiu?
Roberta – Ainda ficam os agradecimentos! Super honra. Obrigada!!
Pitybe – Outros agradecimentos que não podem faltar.
Nanda –Nova leitora com excelentes idéias e um jeito todo especial de me escrever suas reviews. Estou encantada com sua bondade. Agradecimentos eternos.
Vamos ver então qual é a tempestade que vai apanhar o nosso grupo agora... Não me odeiem... esse é um capítulo triste...
36
O sol descia no céu fazendo seu caminho de despedida enquanto os tons de rosa do horizonte se misturavam ao azul escurecido do final de tarde. O grupo cavalgava em silêncio, os batedores que haviam se espalhado à frente começavam a se reagrupar agora, movidos pela insegurança da perda luz, que descia o horizonte se escondendo atrás das colinas.
Glorfindel, que cavalgara a frente junto com os primeiros guardas, decidiu finalmente retornar alguns metros e reencontrar seu amigo e os gêmeos. O guerreiro louro vinha em seu cavalo parecendo ligeiramente tomado por um estranho mal estar. Elrond ficou examinado-lhe as feições enquanto ele se aproximava.
"Não foi um dia muito produtivo, não é mesmo, mellon-nin?" Ofereceu, em um tom triste, a tradução mais exata do que corroia o coração do amigo.
Glorfindel balançou sua cabeça, desmontando ao mesmo tempo que o lorde de Imladris, enquanto a tropa todo se reorganizava. Alguns soldados já livravam seus animais da carga extra que levavam, permitindo-lhes que pastassem serenamente agora, em busca da pouca grama verde que nascia na região de mata fechada na qual se encontravam.
"Onde estará Estel?" Indagou-se Elladan descendo de seu cavalo.
"A pergunta não é essa..." Disse Glorfindel olhando o céu que parecia estar novamente sendo tomado por desagradáveis nuvens negras. "A pergunta é: com quem ele está?"
Elrond ergueu também seus olhos e sentiu as palavras do amigo trazerem nova inquietação a seu coração. Estel era um guerreiro experiente agora, mas o que o incomodava era a incerteza. O grupo havia encontrado o corpo da criatura repugnante que o carregara, golpeado e estendido no chão, mas não havia nenhum sinal do filho, nenhum sinal que esclarecesse o que lhe havia ocorrido.
Em instantes o cavalo branco do rei aproximou-se e Thranduil saltou dele de imediato, dando algumas ordens a seus elfos. O grupo de soldados mantinha os olhos em seu dirigente sem quase piscar e obedeciam assim que a compreensão era atingida.
"Onde ele estava?" Indagou Glorfindel com uma careta. "Não o tinha visto desde que partimos. Cheguei a achar que não tinha vindo." Ele fez uma pequena pausa e suspirou. "O que teria sido uma grande benção."
Elrond balançou a cabeça.
"Foi com os soldados de trás. Recebi apenas um recado dele, dizendo que ficaria na retaguarda, haja vista que havia líderes demais à frente do exército".
"Uff." Foi a resposta do guerreiro louro, olhando mais uma vez para o rei de Mirkwood. Thranduil agitava o acampamento, fazendo seus elfos se mexerem, indicando direções, estipulando tarefas e turnos. Era estranho e ao mesmo tempo admirável perceber que, pela primeira vez, depois de tantos anos, elfos noldorianos, sindarinos e silvestres estavam unidos por uma só causa, com um só objetivo. Glorfindel suspirou inconscientemente, mas não era o alívio que lhe esvaziava os pulmões, era a sensação da total vulnerabilidade na qual ele sabia que aquela relação se encontrava.
"Não o provoque mais, Glorfindel." Veio a voz de Elrond, preocupado com o que se passava na cabeça do amigo, cujos olhos pareciam não conseguirem se distanciar da cena que se dava no centro do acampamento.
O lorde louro virou-se para ele e franziu a testa em desaprovação.
"Eu não o provoco, mellon-nin." Defendeu-se. "Apenas digo o que todos querem dizer, tentando fazer com que esse teimoso arrogante veja o que todos desejam que lhe seja revelado."
Elrond riu.
"Sim." Ele ergueu uma palma em sua defesa e baixou os olhos. "Mas... só por um dia ou talvez dois, mellon-nin. Deixe Thranduil em paz."
Foi a vez de Glorfindel deixar uma risada amarga lhe escapar.
"Paz? Esse elfo amargurado nem sequer reconhece a existência dessa palavra, quem dirá seu significado."
"Glorfindel!" Aborreceu-se enfim o curador. "Deixe Thranduil em paz! Fui claro com você ou preciso recorrer a alguma língua antiga para que me compreenda?"
O guerreiro louro abriu muito os olhos e apertou os lábios e os punhos. Elrond arrependeu-se baixando a cabeça e pressionando as têmporas com os dedos.
"Perdoe-me, mellon-nin." Ele disse encostando-se em uma árvore próxima. "Estou atordoado com tudo o que nos aconteceu. Ontem tudo parecia tão claro, as luzes iluminavam cada canto escuro da minha alma... As palavras se encaixaram todas em uma harmonia quase divina..." Ele parou alguns instantes lembrando-se da cena que se dera, da visão do irreal que se convertera em salvação e da promessa do rei. A esperança batia novamente em sua porta. "Mas o hoje..." As palavras do rei durante a tempestade ecoaram então em sua mente e a certeza do quanto a esperança ainda era um frágil fio de seda lhe atingiu. "O hoje está novamente envolto pelas sombras."
Glorfindel aproximou-se e segurou o amigo pelos ombros.
"Eu sei no que apóia suas expectativas, Elrond." Ele disse olhando-o nos olhos. "E temo que se decepcione mais uma vez. Muito mais fácil é manter aquele rebelde elfo silvestre em seu quarto em Rivendell, do que fazer com que este que se diz pai do rapaz tenha olhos para o sofrimento daquela criança."
Elrond acedeu, mas em seus olhos ainda havia algo, ainda havia um brilho. A esperança não morreria tão cedo e aquele sentimento era tão evidente que Glorfindel chegava a senti-lo em seu próprio peito. O guerreiro riu.
"Ás vezes acho que Mandos me mandou de volta para que eu pudesse admirar outras faces da coragem e da devoção." Ele disse voltando seus olhos para o horizonte agora. "Faces que eu nunca vi... esperanças que nunca tive..."
O curador fixou seus olhos acinzentados no amigo, atraído pelas palavras enigmáticas que ouviu.
"Acredite-me, Elrond." Disse o louro elfo encontrando o olhar do lorde de Imladris. "Esse menino é muito mais seu filho do que de Thranduil. Se o encontrarmos, melhor mesmo será que o levemos de volta para Rivendell e façamos com que ele se acostume a viver entre os noldorianos."
Elrond apertou os olhos e inclinou levemente a cabeça parecendo questionar-se do que os seus ouvidos captavam.
"O que está me dizendo, Glorfindel? Estou compreendendo bem as palavras que me diz?"
"Está."
"Mas você foi o primeiro..."
"Elrond..." O guerreiro fez o amigo então se voltar novamente para a cena que se dava no acampamento. "Olha para essa triste figura élfica ali." Ele pediu apontando para Thranduil que agora explicava para um de seus elfos quantos turnos seriam feitos durante a noite. O rei gesticulava, baixando e sacudindo a cabeça diversas vezes em sua total impaciência. "Ele tem a sutileza de um oliphant... A sabedoria de um orc... e o coração de um troll..."
Elrond riu, dando as costas para o rei enquanto tentava se conter. Glorfindel era mestre em colocá-lo em situações perigosas como aquela.
"Falo sério." Disse o amigo também de costas para a cena do acampamento agora.
"Pare, mellon-nin." Implorou o curador cobrindo o rosto com ambas as mãos e balançando a cabeça enquanto ainda não conseguia conter o riso. "Se ele sonhar que estamos falando esses absurdos sobre..."
"Falo sério." Repetiu o louro lorde. Glorfindel não tinha mais sorriso algum em seus lábios. Elrond o olhou intrigado.
"O que se passa com você hoje, mellon-nin?" Indagou enfim enquanto tentava decifrar a mensagem oculta que se fazia presente nos olhos do guerreiro, cujo tom de azul voltava a mesclar-se com o verde da mata.
"Você o quer..." Respondeu o guerreiro encarando o amigo com um olhar que raramente direcionava a ele. Um olhar de força, de imposição. "Quer levar o rapaz..." Ele continuou erguendo levemente a voz. "Não vai ter paz enquanto ele não estiver sob sua guarda... você quer protegê-lo..."
"Pare Glorfindel..."
"Você ama o menino! E quem não é capaz de amar aquela criatura?"
"Glorfindel!"
"Eu o ajudarei a resgatá-lo. Mas me prometa que não vai deixá-lo com o pai."
"Mas eu vou viver mais cinco mil anos e não o entenderei, Glorfindel de Gondolin!" Exasperou-se o curador olhando diretamente para o guerreiro agora. "Legolas tem tanto medo de se aproximar de você que enfrentaria um Balrog para não fazê-lo. Você nunca lhe demonstrou afeto algum... De onde surgiu tamanha preocupação agora?"
Os olhos do guerreiro de Gondolin mudaram mais uma vez de tom, representando um sentimento contraditório que só fez confundir mais o amigo a sua frente.
"Faça o papel que quiser, Elrond." O louro elfo deu-lhe então as costas, intentando afastar-se, mas foi segurado pelo punho.
"Glorfindel!" Ele chamou eu um tom grave, como se tentasse despertar o amigo de algum pesadelo que vivia. As palavras que ouvira realmente não faziam sentido para ele. "Só me responda. Por que?" Insistiu o curador prendendo os olhos do guerreiro a sua frente nos seus.
"Elfo tolo." Repetiu o outro. "Não é por aquela criatura causadora de problemas." Ele admitiu envolvido agora em uma fúria repentina. "Não é por ele... não é por aquele elfinho confuso e desprotegido, que por fim já se mostrou capaz de enfrentar situações as quais nem eu mesmo sei se seria capaz. Não tenho a menor preocupação com aquela criatura ambígua que foge completamente de minha compreensão. Não é por ele." Ele fez mais uma longa pausa sentindo o aperto do amigo se afrouxar em uma expectativa estranha. "É por você, Elrond." Completou por fim "É por você."
Elrond soltou então o braço que segurava, mas continuou analisando o azul-esverdeado mais intensificado ainda pela fúria que agora escurecia os olhos do guerreiro. Por mais claras que aquelas palavras fossem, ele simplesmente não as conseguia compreender.
"Quantos anos, Elrond?" Completou o lorde louro. "Você sempre comenta e todos lamentam muito pelo tempo que o rapaz passou na floresta, exilado pelo pai, perdido, privado de sua identidade, prisioneiro do acaso... Disfarçado..." Ele balançou a cabeça contrariado. "Mas eu via algo diferente naquela época. Eu via você, via Elrohir e Elladan apreensivos, preocupados com o que poderia ter acontecido com aquela criatura fugitiva... receosos das surpresas do destino... Foi o que eu vi..."
"Por que fala dele com tanta amargura, Glorfindel? Que mal o menino lhe fez?"
"Ele desfrutou de uma vantagem que você e seus filhos não tiveram." Disse o guerreiro com gravidade, enfrentando corajosamente o olhar questionador do amigo. "A vantagem e o privilégio da escolha. Movido pelo motivo que fosse, nobre ou não, banhado de coragem ou covardia, eu ainda me questiono... Ele pôde escolher... Ele se atirou naquela vida de riscos e privações porque assim se fez a vontade dele... Mas e você e seus filhos?"
"Eu sei aonde quer chegar, mellon-nin..." Interrompeu o curador contrariado. "E não posso aceitar..."
"E você e seus gêmeos... suas crianças?" Insistiu o guerreiro. "E você e aqueles que são de fato seus filhos? Que chance de escolha vocês tiveram? Arriscaram-se por ele, acolheram-no, ofereceram-lhe o amor de família que ele nunca teve... Eu mesmo vi. Presenciei cenas comoventes. Seus filhos o amavam como a um legítimo irmão. E o que receberam em troca? O que você e sua família, você e os filhos que teve com Celebrian, ganharam em troca? Foram jogados em um rodamoinho de dúvidas e preocupações..."
"Mellon-nin..." Elrond respirou fundo, como se aquelas palavras todas fossem conteúdo demais para seus ouvidos cansados. "Não sejamos injustos... Ele fugiu para nos proteger."
"Ele fugiu porque é um fraco." Respondeu o outro com brutalidade agora. "Tremia da cabeça aos pés só em ouvir o nome do pai. E sabe por quê? Porque ele teme qualquer conflito. Não foi capaz de chegar até a você e dizer que queria partir, de assumir, olhando em seus olhos, que preferia viver na floresta como se fosse um animal, do que compartilhar o amor que você e seus filhos tinham para lhe oferecer."
"Glorfindel!" Indignou-se o curador, aquelas palavras lhe doíam muito mais do que ele gostaria de admitir.
"Ele é uma perda de tempo." Completou o guerreiro esvaziando os pulmões. "Só faz temer... Ele não queria e não quer ser amado... Na verdade ele não quer ser ninguém... Ainda está vivo porque provavelmente não tem sequer coragem de se entregar aos braços de Mandos."
"Glorfindel, pare!" Indignava-se cada vez mais o lorde elfo.
"É verdade, Elrond. Ele é um elfo vazio, todos o amam porque podem se projetar nele de tão vazio que é... Aquela criatura ali sugou tudo o que o rapaz tinha... tudo o que podia vir a ser, ele abortou o futuro do filho, matou-lhe as esperanças... Foi isso que aquele ser desprezível ali conseguiu ensinar àquela criança... Ele conseguiu convencer o filho que é melhor não ser ninguém, não ser nada. Foi mesmo muito eficiente nisso."
Elrond respirou fundo então, procurando acalmar seu espírito e deixou que as palavras amargas do amigo caíssem como o orvalho da manhã em seu coração. Ele sabia o que movia Glorfindel a fazer as declarações que fazia e, por esse motivo, por saber o quanto o guerreiro de Gondolin amava a ele e a seus filhos, procurou relevar o acesso de indignação que presenciara.
"Thranduil não fez isso. E você sabe que não. Ele ama o menino, de uma forma particular, mas ama. A situação em que os silvestres vivem obrigou-o a ser como é e nada o fez ver que, às vezes, esse modo de agir e pensar é inapropriado para certas ocasiões. Legolas não teme o pai, Glorfindel, ele teme perder o amor dele, teme decepcioná-lo."
Glorfindel bufou.
"Iluda-se o quanto quiser, mellon-nin." Ele disse voltando a olhar o céu encoberto. Aquele cinza parecia espalhar-se agora, saindo da paisagem e invadindo o coração dos que ali estavam. "Mas leve aquela criança perdida com você. Pelo menos vai ter paz sabendo onde aquela criatura está. Quem sabe pode ensinar-lhe a gostar um pouco mais de si e devolver-lhe a alma que lhe foi roubada."
Elrond baixou os olhos e balançou a cabeça vencido.
"Eu lamento que pense isso dele." Disse por fim. "Agora entendo melhor porque Legolas teme tanto estar perto de você."
"Porque eu o vejo como ele realmente é."
"Porque você o vê da mesma maneira que Thranduil..." Corrigiu o curador voltando a olhar o amigo, mas procurando não esboçar sentimento algum. "Porque você, assim como o pai dele, só vê o que quer ver."
Glorfindel encheu os pulmões dolorosamente, mas não quebrou a conexão que os olhares dele e de Elrond criaram.
"Leve-o para sua casa, Elrond." Ele repetiu por fim. Sua voz melódica fazendo parte da brisa que a tempestade trazia de volta. "Proteja essa criatura a quem você inexplicavelmente parece amar mais do que aos seus filhos."
"Essa criatura já o salvou da morte, Glorfindel."
"Ele nem sabe o que fez. Nem sabe o que faz... nem de bom, nem de mal... É uma alma perdida... e sempre o será."
Elrond deu-lhe as costas enfurecido. Por que Glorfindel estava fazendo aquilo? Porque a crueldade estava temperando as palavras de seu sempre tão sábio amigo? Quando voltou o elfo louro não estava mais lá. O curador baixou os olhos tristes. Glorfindel nunca havia deixado uma conversa entre eles inacabada. Aquela seria a primeira vez.
Mas, olhando um pouco melhor para o acampamento, Elrond pôde finalmente perceber que, se houvesse uma primeira vez para que um desentendimento separasse aqueles dois amigos, com certeza não seria aquela. Glorfindel não abandonara a conversa que tinham, ele saíra em resposta a alguma coisa que ouvira. Há alguns metros vários elfos corriam por uma clareira na mata e o elfo de Gondolin era o primeiro deles, seguido ironicamente pelo rei de Mirkwood, ambos empunhando suas espadas.
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"Ei, ei, ei... Aonde vai?" Gritou Aragorn enlaçando Legolas pela cintura antes que o elfo pulasse do cavalo para a árvore mais próxima como fizera na véspera. Aquela era uma boa hora para ele agradecer por ter decidido manter o elfo cavalgando a sua frente e não atrás de si como no dia anterior.
"Liberte-me, Estel. Preciso ver o que está acontecendo." Reclamou o príncipe tentando se ver livre do amigo que o envolvia com os dois braços agora.
"Do que está falando?" Indagou o guardião confuso enquanto o amigo ainda se debatia. "Pare de se mexer assim e me conte o que está acontecendo."
"Como posso contar se não permite que eu vá averiguar?"
"Você não vai subir em árvore alguma. Diga o que está ouvindo, Legolas!"
"Deixe-me ir, Estel!" Gritou agora o príncipe com os olhos cheios de água. "Eles estão sendo atacados. São muitos..."
Estel respirou fundo tentando se acalmar. Legolas começava novamente a mesma ladainha incompreensível do dia anterior, o que o fazia crer que aquela seria mais uma noite de vigília.
"ESTEL!!" Gritou o príncipe tão alto que o guardião se sobressaltou.
"PARE LEGOLAS!" Respondeu Aragorn com dureza. "Você não vai começar com tudo aquilo outra vez." Ele disse dando uma leve sacudida no amigo que ainda se debatia. "EU DISSE PARE!!"
Legolas obedeceu prontamente, envolvendo os braços em volta do corpo e fechando os olhos. Aragorn voltou a arrepender-se ao sentir o corpo do amigo tremer e ouvir soluços saindo de sua garganta. Ele nunca se odiava tanto quanto naqueles dias. Sentindo que forçava o amigo a fazer suas vontades, aproveitando-se sem intenção dos poderes que a planta lhe concedia. Ele envolveu o arqueiro um pouco mais forte em seus braços e encostou o queixo em seu ombro.
"Perdoe-me, mellon-nin." Sussurrou seu arrependimento com os lábios próximos do ouvido do amigo. "Não chore, por favor. Está tudo bem. Nada vai acontecer."
"Deixe-me ir... por favor..." Implorava o elfo em um tom quase inaudível enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto.
Aragorn encheu os pulmões e o apertou o amigo em seus braços encostando seu rosto ao dele. O tom amargurado do arqueiro estava se tornando algo que ele não suportava mais ouvir. Legolas estava irreconhecível. O mal se acumulava nas costas daquele elfo franzino e ele demonstrava bem claramente que não podia mais agüentar o peso de tamanho fardo. Se já era demais até para quem estava próximo dele, quem dirá para alguém que já tinha passado por tudo o que o pobre Legolas passou. O guardião sentiu-se repleto por um sentimento estranho, como se o mal se espalhasse feito peste e o estivesse contagiando, seu coração acelerava-se e ele queria fazer algo, queria fazer algo rapidamente, nem que fosse virar o mundo inteiro em seu perfeito avesso, se isso pudesse fazer o príncipe feliz novamente.
"Legolas... Não sofra mais..." Pediu em uma voz plácida, procurando trazer a paz que o amigo precisava. "Eu não vou lhe fazer nenhum mal... não quero te causar dor ou sofrimento. Diga-me apenas o que você ouve, mellon nin. Indique-me para onde ir e eu nos levarei até lá."
O elfo respirou fundo, mas em instantes ergueu a cabeça, novamente incomodado com seus arredores, suas sobrancelhas franzidas e o rosto mais uma vez contorcido pela dúvida.
"O que foi, mellon-nin?" Indagou o guardião preocupado.
Mas a sensação durou poucos instantes, logo o rapaz voltou a relaxar o corpo e encostou sua cabeça no ombro do amigo.
"Sorte..." Ele suspirou fechando levemente os olhos.
Aragorn franziu a testa.
"Por Iluvatar, Legolas!" Clamou ainda olhando a sua volta. "O que..."
Mas ele não teve tempo de terminar sua questão. De dentro da mata a resposta aparecia em forma e cor, trazendo ao guardião uma mistura de prazer e angústia. Aragorn surpreendeu-se, para depois sorrir e agradecer.
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"Elrohir!!! Atrás de você!!!"
O gêmeo virou-se e sua espada decepou a cabeça de uma horrenda criatura. Fora um ato tão instintivo que o rapaz quase sentiu vontade de rir. Mas olhando a sua volta ele percebeu que não havia motivos para descontração. Mais uma vez o mundo inteiro parecia envolvido em uma terrível batalha. Muitos orcs, wargs e outros seres transformados, outras aberrações ainda piores das que ele já conhecia, envolviam o grupo em um conflito cruel e mortal.
"Iluvatar." Disse o jovem elfo para si mesmo segurando firme a espada que carregava nas mãos. "Quem por Mandos está por trás desse pesadelo todo?"
Glorfindel enfrentava bravamente dois seres gigantescos que empunhavam machados e marretas, oscilando-os no ar em movimentos desconexos e abrutalhados. O lorde louro balançava a cabeça e desviava-se dos golpes com leveza e agilidade. Em sua mente questionava-se sobre o tão despreparado exército que enfrentara. Seria um conflito fácil ao extremo, até desleal, se o número de combatentes se igualassem. Mas infelizmente essa não era a realidade que viviam. Apesar de irracionais e desprovidos de qualquer habilidade de guerra, o desengonçado e monstruoso grupo estava em número suficiente para combater os elfos de Elrond e Thranduil com certa facilidade. Eles precisavam ter muita sorte. Mas o guerreiro de Gondolin não temia. Ele acreditava que a sorte sempre fora sua aliada.
Elladan cruzou a clareira, olhando ao redor ele se preocupava por não avistar mais o pai. A cada instante criaturas repulsivas vinham em sua direção e eram derrubadas sem piedade pelo valente guerreiro.
"El!!" Gritou o irmão para o gêmeo mais novo que agora também cruzava a clareira a pé. Elrohir voltou-se atendendo ao grito de guerra do mais velho. A forma que o pai encontrara, quando os gêmeos eram crianças, para chamá-los ao mesmo tempo quando estava zangado, acabara por transformar-se em um sinal de perigo que ambos usavam em campo de batalha. Um código especial que apenas eles conheciam e compreendiam. "ADA!!" Ele gritou. "Onde ele está?"
Elrohir abriu os braços e girou o corpo. Seus olhos buscavam todos os cantos enquanto ainda podia manter-se distante dos inimigos, que bloqueavam os poucos caminhos livres naquele lugar sombrio. A noite já se fazia cada vez mais presente e logo a escuridão os abraçaria impiedosamente. Eles sabiam que deviam ser rápidos.
Logo mais um enorme ser avançou para ele impedindo-o de encontrar a resposta à pergunta que o irmão fizera. A criatura asquerosa, aproveitando-se da momentânea desorientação do inimigo, conseguiu derrubá-lo no chão e erguia agora a espada para descê-la por sobre o elfo impiedosamente. Elrohir ergueu ambas as mãos, mas não houve necessidade de uma tática de defesa de emergência. A cabeça da criatura caiu por sobre o estômago do rapaz e o corpo imenso pendeu para o lado espatifando-se também no chão de folhas secas. Atrás do monstro restou o olhar irônico de Glorfindel a erguer-lhe uma única sobrancelha.
"Devia ter dormido." Sorriu o elfo estendendo a mão para o jovem guerreiro.
Elrohir riu aceitando a oferta e erguendo-se devagar.
"Culpe Elladan." Defendeu-se o gêmeo inclinando-se levemente depois de levantar-se e apoiando a mão por sobre o estômago.
"Está ferido?" Indagou o lorde louro mudando completamente seu tom de voz.
"Ai... não, não..." Lamentou-se o gêmeo com uma careta que apenas preocupou seu mentor ainda mais.
"Tem certeza?" Indagou Glorfindel apoiando uma mão por sobre aquela que Elrohir mantinha cobrindo o abdome.
O gêmeo riu um riso fraco.
"Tenho..." Ele disse esticando o corpo com dificuldade. "Quanto pesa a cabeça de um desgraçado daqueles?" Ele indagou massageando agora a região ofendida.
Glorfindel riu musicalmente, ainda observando o conflito a sua volta.
"Não devia pesar muito." Respondeu retomando seu tom irônico de sempre. "Porque, pela habilidade que têm, com certeza deve ser mais oca que as montanhas de Moria."
"Ai..." Lamentou-se o jovem elfo voltando a curvar-se levemente. O riso despertado pelo mentor não se adequava à situação de seu abdome. "Imagino então o que deva haver dentro dela... Argh..."
Glorfindel riu mais uma vez, enlaçando a cintura do menino e ajudando-o a afastar-se do centro do combate. Ele tentava disfarçar a preocupação que lhe crescia no peito.
"Nem pense nesse detalhe" Brincou "Não vai ajudar a situação do seu estômago."
Elrohir concordou procurando evitar o riso e apoiando a cabeça levemente no ombro de Glorfindel enquanto ambos se afastavam.
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Do outro lado do conflito o jovem Alagos caia finalmente ao chão. O golpe certeiro colocara o elfo em uma condição extremamente desvantajosa. O sangue escorria por sua cabeça como uma cascata, obrigando seus olhos a se fecharem. Fosse o que fosse que o houvesse derrubado, agora teria a oportunidade certa para terminar o que tinha começado. Ele ergueu uma das palmas para se proteger e aguardou o inevitável. Mas nada aconteceu. Os sons de guerra continuavam ao seu redor. Gritos de afronta mesclando-se a outros de dor e angústia. Foi quando alguém se ajoelhou perto dele e tomou-lhe a mão erguida. Ele então enxugou os olhos e, ao abri-los, viu-se obrigado a voltar a fechá-los e reabri-los várias vezes.
"Precisa se esconder, Alagos. O combate acabou para você capitão."
"Majestade..."
Mas ele não teve tempo de retrucar. Thranduil tomou-o em um dos braços e partiu para um emaranhado de árvores próximas, subindo em alguns galhos e acomodando o jovem capitão em um dos pontos mais altos.
"Fique aqui." Disse o rei segurando o rosto do soldado com ambas as mãos, enquanto checava brevemente a gravidade do ferimento na cabeça do elfo. "Entendeu capitão?" Ele indagou rasgando um pedaço da própria túnica. "É uma ordem!"
"Majestade... não posso ficar aqui..." Quis retrucar o rapaz enquanto o rei apertava o tecido no ferimento aberto, colocando em seguida a própria mão do rapaz para segurar o curativo improvisado.
"Silêncio!" Retrucou o rei voltando a descer pelo caminho difícil que traçara. "Não serei contrariado."
Mas Thranduil teve uma desagradável surpresa ao fincar seus pés no solo. O grupo de inimigos havia crescido mais do que o imaginado. Outras criaturas horrendas surgiam do meio da floresta. Um verdadeiro exército de monstruosidades e aberrações.
"Malditos."
"Malditos somos... mas seremos vencedores." Surgiu uma voz atrás dele.
Thranduil voltou-se e encontrou um rosto familiar. A beleza dos primogênitos de Iluvatar mesclada agora às anormalidades do inimigo."Qual deles você é?" Indagou o rei erguendo a espada. "Qual dos filhos de Maeoneth?"
Hawk apertou os lábios ao ouvir, depois de tantos anos, o nome do pai. A amargura de todos aqueles dias de desespero voltou a assombrá-lo. Tudo o que ele tinha guardado na lembrança era o longo cabelo louro do conselheiro que fizera questão de dar-lhe as costas no dia de seu exílio.
"Não me associe ao nome desse elfo estúpido."
"Estúpido de fato." Respondeu Thranduil dando alguns passos na direção do inimigo. "A sabedoria o favoreceu no dia em que baixou seus olhos e permitiu a partida dos ingratos filhos que tinha." Adicionou o rei apertando muito a espada no punho. "Eu sei... histórias sobre ele foram cantadas... Baixou os olhos, mas depois definhou até a morte devido a vergonha pelo que vocês fizeram. Elfo estúpido de fato. Vocês não valiam a lágrima de qualquer pai, quem dirá o sacrifício de uma vida."
Hawk deu um passo para trás. Seu rosto contorcido pela descoberta que seu coração queria ignorar.
"É mentira!" Ele disse apertando os olhos brilhantes de fúria. "Ele foi para Valinor. Eu sei."
"Você nada sabe, criatura das trevas." Declarou o rei sem sentir remorso algum no coração pelas palavras que proferia. "Nem esse chão que pisa é do seu conhecimento agora, nem esse chão no qual pretende ver derramado o sangue do seu povo."
"Pretendo ver derramado o seu sangue!!" Gritou Hawk partindo para cima do rei.
As espadas se encontraram e o brilho das poucas estrelas que começavam a surgir refletiu nelas como se um poder maior estivesse ali sendo proclamado. Hawk, enfurecido como nunca se sentira em sua vida, avançava por sobre o rei tentando levá-lo para onde gostaria que ele estivesse. Sua mente procurava voltar a raciocinar, reencontrar o equilíbrio tragado por Thranduil. Mas o dirigente de Mirkwood tinha, em momentos de guerra, o poder indiscutível de associar-se a plenitude da paciência que lhe faltava nos dias corriqueiros. Ele era o guerreiro mais frio de toda a Terra Média. Seus movimentos nunca eram antecipados, suas idéias e soluções para os conflitos no campo de batalha surgiam como bênçãos por ele recebidas pelos próprios Valar.
Hawk sabia disso. Ele sabia. E por esse exato motivo precisava fazer com que Thranduil caísse na armadilha que planejara. Precisava recobrar sua energia para que não colocasse tudo a perder.
"Desista, criatura desprezível." Ordenou o rei. "Não quero sujar a minha espada com seu sangue escuro."
Hawk apertou os olhos.
"Não sou um orc!" Ele exclamou.
"Não é um elfo... não é mais nada... Desista para não morrer em uma poça de lama escura como aquele infeliz de seu irmão".
Hawk voltou a se enfurecer. Era inacreditável a habilidade que aquele elfo tinha de tirá-lo do sério.
Mais uma vez as espadas se encontraram e a escuridão começou a dominar o local tornando tudo ainda mais difícil.
&&&
Os golpes de Hawk vinham tão enlouquecidos por sobre o rei que Thranduil, instintivamente recuava alguns passos sem perceber que traçava o atalho já escolhido pelo inimigo. Dentro da entroncada trilha Hawk gingou o corpo, fez retiradas e evasivas atraindo o rei para longe do combate. Thranduil, experiente guerreiro, percebeu então o que o covarde inimigo tramava, mas não estava em posição de oferecer outro tipo de atitude. Quando deu por si estavam ambos travando uma luta voraz a beira de um enorme precipício e seu inimigo não era mais apenas o desprezível Hawk, mas mais seis figuras repugnantes que avançavam violentamente sobre ele. Thranduil desviou os olhos já sabendo o que ia encontrar. Lá embaixo o grande rio corria mais agitado do que nunca, parecendo espelhar a tempestade que voltava a se armar acima.
"Não consegue me vencer em um duelo justo, ser amaldiçoado?" Indagou o rei percebendo que o oponente agora tentava fazer.
"Você não é digno de um duelo justo." Retrucou o outro. "Eu só vou cumprir a visão do seu pai. Entregá-lo para aquele em quem seu nome foi inspirado."
"Lave sua boca imunda antes de sequer pensar na figura do meu pai." Retrucou Thranduil entre golpes e giros de corpo. "Foi pela piedade dele que você agora vive essa oportunidade de saber como é ser um ser asqueroso das trevas."
Hawk apertou os lábios. A figura do irmão não lhe saia da cabeça e as palavras do rei, somadas a ela formavam uma visão que já o assombrava há algum tempo. Thranduil continuou travando bravamente seu duelo contra os cinco outros oponentes que lhe restavam enquanto Hawk baixou sua espada, incrivelmente incomodado com as sensações que sentia. O ódio que o alimentava não era mais o mesmo. Ele não queria apenas matar Thranduil, ele queria ver aquela carne sangrar. Iluvatar. Ele queria sentir o gosto daquele sangue fresco. Hawk sacudiu a cabeça e afastou-se alguns passos. O que estaria acontecendo com ele? Estaria sendo assolado pelo mesmo mal que enlouquecera Heron?
Ele voltou então ao conflito. Thranduil já derrubara mais dois oponentes e agora dedicava-se arduamente a encerrar aquela luta de uma vez por todas. Hawk fixou seus olhos nele, nos cabelos cacheados que esvoaçavam com a mesma violência dos golpes que proferia, nos lábios ligeiramente abertos, no peito ofegante, nas roupas manchadas por um sangue escuro. E seu coração encheu-se de ódio. Não era só Thranduil que estava vencendo aquele combate. Era Oropher por trás dele, era aquele líder elfo miserável que o atirara à vida que hoje levava, que forçara ele e o irmão a se desviarem da conduta normal dos elfos, a se entregarem ao único sentimento que lhes restava, a alimentarem o ódio, cada dia de suas vidas. Quando os dois oponentes caíram Thranduil nem soube o que o atingiu. Sua cabeça sangrava e o último inimigo estava sobre ele. O rei apertou o punho vazio, a espada caíra longe demais deixando suas mãos desarmadas, a adaga fria do elfo perdido estava agora em seu pescoço e pesados joelhos prendiam-lhe ambos os braços.
"Vá encontrar com seu pai!" Disse a voz alterada de Hawk. "Seu reinado acabou."
Thranduil soltou o ar dos pulmões tentando ignorar a vertigem que a dor agora lhe causava.
"Vou." Ele disse respirando fundo. "E ele me receberá de braços abertos, porque fui justo e não traí aqueles a quem devia proteger. Infelizmente você não terá a mesma sorte. Se Mandos o receber, o que eu duvido, terá que enfrentar as costas de seu pai uma vez mais."
Hawk fixou seus olhos enfurecidos nos claros olhos do rei, que agora como que para provocá-lo, pareciam ainda mais claros. A pele alva de Thranduil refletia o brilho das estrelas, direito que a galenolas há tempos havia lhe roubado. Aquele rei desgraçado tinha razão. Ele não era mais um elfo e ele não sabia mais quem era. Ele aceitara um destino, mas fora enganado, e agora padeceria o final dos seus dias sofrendo essa metamorfose horrível que o estava assolando.
"Eu vou dar um fim a cada um dos seus elfos." Ameaçou então o arqueiro, procurando assim fazer com que os últimos momentos do rei fossem os piores possíveis. "Cada um até que não sobre ninguém para passar adiante sua triste história."
Sim. Era o que Hawk queria. Se ele conseguisse fazer com que seu passado inteiro desaparecesse, se na terra não restasse mais nenhum dos primogênitos de Iluvatar, ele talvez encontrasse a paz, encontrasse um novo destino, aceitasse a si mesmo como era e voltasse a acreditar que havia um futuro.
Mas alguém parecia não compartilhar de sua opinião. A risada de Thranduil nunca pareceu mais mortal. Hawk fixou seus olhos incrédulo, mas era verdade: lá estava o rei olhando-o com o ar mais sarcástico que já enfrentara em sua vida. Hawk não acreditou no que via. Um movimento de sua mão faria da jugular daquele elfo tolo um rio vermelho de morte e mesmo assim aquela criatura arrogante parecia não se importar.
"Do que está rindo, elfo estúpido? Não acredita que farei verdade as ameaças que lhe digo?"
"Não acredito que sequer saiba quem é, criatura confusa e perdida." Ele riu ainda mais, revirando o jogo da forma mais estratégica que conhecia. "Vamos, termine logo o que começou! Ou nem para isso tem coragem? Termine, apague a minha luz, mas não se iluda, nós somos muitos e, quando menos você esperar, outro de nós vai surgir para lembrá-lo do que um dia você foi e no que se transformou. Você é um condenado."
"Cale-se!" Ordenou o alterado elfo apertando tanto o punhal na garganta do rei que qualquer movimento dele seria fatal.
"Pensa que não sei da história do mal que você consumiu?" Continuou o rei. "Galenolas..." ele falou pausadamente trazendo arrepios ao inimigo. "Já sente os efeitos, não sente?" Arriscou. "Primeiro o gosto pela carne e pelo sangue. Depois sua pele vai perder a vida. Por último já não saberá quem é ou o que quer, será mais um dos escravos de quem quer que o esteja guiando."
"CALE SUA MALDITA BOCA!!!" Gritou o arqueiro erguendo o punhal. Ele não queria mais degolar o rei, ele queria abrir-lhe o peito inteiro, beber o sangue que escorresse, fazer daquele corpo um emaranhado de carne disforme, ele queria que nada restasse para ser louvado daquele líder desprezível.
Mas o mal atraía o mal e o bem atraia o bem, seja onde estiver, mesmo que um desperte dentro do coração do outro.
"Hawk!"
O arqueiro se virou e encontrou a última visão que julgava ter.
"Legolas?"
A poucos passos dele o príncipe vinha se aproximando devagar, as mãos erguidas e o olhar cansado. Hawk teve um prazer indescritível ao vê-lo. Ele não sabia porque, mas sentia que Legolas era o último elo que possuía com o mundo que amava e perdera. Ele simbolizava a ingenuidade e pureza de sua raça, cuja beleza não se transformava mesmo diante de um grande mal.
Thranduil voltou-se e todas as suas certezas fugiram a cavalo. O filho não podia estar ali, não podia presenciar o que ia acontecer. Não podia ser vítima daquele mal que os estava abraçando.
"Legolas!" Ele gritou. "Legolas fuja!"
E se chamar pelo filho já fora difícil, enfrentar o olhar que este lhe lançou foi o pior dos martírios. Legolas voltou-se para o pai e seus lábios se entreabriram, as palavras fugiram-lhe, perdidas pelo distante caminho até a boca.
"Senhor..." Ele disse. A única forma que se julgava autorizado a se direcionar ao pai agora.
"Vá embora, menino tolo. Antes que algum mal te aconteça!" Gritou o rei com o resto de voz que lhe saia pela garganta. Era como se as palavras tivessem espinhos. O olhar do filho o desarmara, mas o tratamento que o rapaz lhe destinara se fazia um sinal ainda maior de tristeza e dor.
"Não se preocupe..." Disse o príncipe voltando a olhar para o inimigo que ainda prendia o rei com seu peso e força fora do normal. "Meu mestre não vai me fazer mal" Ele completou dando mais alguns passos na direção do elfo.
Hawk franziu a testa, mas depois sorriu vendo o menino se aproximar. Iluvatar como ele gostava daquele rapaz! Então finalmente galenolas tinha feito o efeito que ele desejava. Tanto tempo ele passara infiltrando as informações na mente do jovem elfo e agora finalmente elas vinham à tona como era o seu desejo.
"Isso, meu brinquedo." Ele disse ao rapaz que continuava se aproximando. "Seu mestre está aqui. Venha para perto de mim."
"Meu mestre." Repetia o arqueiro em um mantra.
"Isso. E quem é você?"
"Seu brinquedo, mestre." Completou o príncipe.
Hawk mordeu os lábios, se deliciando com as palavras que ouvia. O que ele mais queria era agarrar aquele menino agora, ali, na frente do pai, mostrar para aquele arrogante Thranduil que sua perda era maior do que ele julgava. Mas, observando toda a ironia praticamente desaparecer da bela face do rei, Hawk percebeu que, provavelmente, ele não tinha nada para mostrar que o dirigente de Mirkwood já não conjeturasse por si mesmo. Thranduil franziu a sobrancelha e seus lábios se desprenderam de pavor. Então era verdade, então já era tarde para o filho também.
"Legolas!" Ele chamou mais uma vez, mas agora o rapaz sequer olhaou para ele.
Hawk riu alto. Segurando novamente a adaga no pescoço do rei.
"Isso, venha aqui, venha, meu brinquedo. Eu tenho uma tarefa para você."
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No outro lado do conflito uma figura reaparecera.
"Ada!" Gritou Estel correndo ao encontro do pai. Elrond surpreendeu-se e puxou o rapaz para trás de uma grande árvore.
"Estel! Estel você está bem?" Ele disse olhando o guardião da cabeça aos pés. "Por onde andou?"
Aragorn comoveu-se com a recepção do pai. "Estou bem, ada."
"Estávamos a sua procura, ion-nin." Respondeu o curador apoiando uma mão no peito do filho adotivo. Ele precisava sentir o arfar daqueles pulmões cansados e o bater compassado daquele coração para acreditar que o filho estava bem.
Aragorn apoiou uma mão por sobre a do pai e prendeu seu olhar no dele. Era um momento difícil aquele que enfrentavam, um momento de ações e não palavras, o tempo escorria por entre as frestas do acaso e tudo o que tinham eram meros atalhos escuros pelos quais trilhar, que ainda não se faziam caminhos certos para a salvação. Mas ele precisa dizer o que estava em sua alma, pois esse mesmo tempo escasso poderia roubar-lhe qualquer outra oportunidade.
"Eu te amo, ada." Ele disse sentindo as lágrimas em seus olhos reforçarem as palavras que dizia. "Perdoe-me por..."
Mas Elrond não o deixou terminar, ele puxou o filho para os braços ainda mantendo olhos cautelosos vigiando os arredores. Tanto mal se espalhava e tanto bem explodia em lugares inesperados. Ele não veria seu filho martirizar-se pelos sentimentos que demonstrara e que tinham uma razão de ser.
"Meu coração sempre se orgulhará de você, esperança minha." Ele revelou ao ouvido do filho que escondeu ainda mais o rosto na ombro do pai, incapaz agora de olhá-lo nos olhos. "Estou feliz por vê-lo e poder tê-lo em meus braços uma vez mais." Ele completou afastando o rapaz de si e buscando aquele olhar fugitivo. "Mas estamos em perigo e sua ajuda é muito bem vinda."
Aragorn despertou com as palavras do pai e voltou a olhar para todos os lados.
"Ada." Ele disse olhando novamente para Elrond cuja atenção dispersava-se, direcionando seu olhar para o conflito cada vez mais cruel que se armava. "Ada, eu perdi Legolas no meio da batalha."
"Legolas?" Elrond franziu muito as sobrancelhas voltando a encarar o filho. "Legolas está aqui?"
"Sim. Ele me salvou da criatura que me capturou."
Elrond desprendeu os lábios. Algo estava errado, aquela informação parecia estar estranhamente fora de lugar.
"Mas ele está estranho, ada." Reforçou o guardião apertando levemente os braços do pai para que olhasse novamente para ele.
"Como assim, Estel?"
"Estranho. Tem delírios, vê coisas... e..."
"E... o que, ion? Diga-me tudo o que viu."
"E recebe... recebe ordens..." Ele completou sentindo um aperto no peito. "Por Iluvatar, ada. Ele obedece a nosso comando de voz. Dependendo do tom que usamos... É... muito triste..."
"E muito perigoso..." Concluiu o curador olhando novamente por trás da grande árvore. O conflito nunca estivera tão desigual. As criaturas das trevas pareciam brotar do próprio chão, ou caírem das árvores como frutos maduros. "Temos que encontrá-lo..." Ele declarou agoniado, vendo-se dividido em várias partes. No meio do conflito. Glorfindel combatia seis enormes adversários com destreza, mas até quando a energia desses bons guerreiros ia durar? "Mas estamos amarrados por essas criaturas das trevas." Lamentou-se o curador ainda mantendo os olhos fixos na dura batalha do amigo louro. Ele precisava ir até lá. Quando se mexeu para executar seu plano, foi mais uma vez impedido pelo filho.
"Não se preocupe, ada." Disse o guardião. "Uma vez você e seu exército surgiu do nada para nos ajudar." Ele disse recebendo o ar interrogativo do pai. "Chegou a minha vez de retribuir."
E como se ouvissem as palavras de um de seus líderes, saiu da mata fechada um grande número de soldados. Elrond olhou-os como se estivesse tendo uma ilusão. Na frente deles, seguia o corajoso Halbarad, ao lado do fiel Skipper. Ambos mostravam seus dentes em ira e revolta e avançavam por sobre um inimigo que se surpreendia ao sentir-se subitamente cercado.
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"Venha, meu brinquedo." Disse a voz cruel do elfo perdido, quando Legolas já estava a alguns passos dele. "Você é o rei agora."
"Eu sou o rei." Repetiu o príncipe, parando em pé a um passo deles.
Thranduil mantinha seus olhos no filho, mas o desespero roubava-lhe as palavras e as idéias. Como Legolas poderia ter caído em tão injusta armadilha? Como Iluvatar, entre tantos elfos em toda Arda, pôde permitir que uma figura tão pura fosse infectada com tamanho mal. Legolas não olhava mais para ele, não olhava para ninguém, seus olhos estavam fixos em uma imagem que só ele parecia ver.
"Ajoelhe-se aqui, brinquedo." Disse Hawk sorrindo ao ver Legolas obedecer de imediato e se colocar ao lado dele. "Agora você vai selar seu destino e dar um fim a essa figura medonha que transformou sua vida em um pesadelo constante. A esse ser que te ignorou, que ignorou suas dores, seu sofrimento, que te atirou às trevas... Você vai se vingar."
"Vou me vingar."
"Isso."
Legolas então olhou finalmente para o pai e Thranduil percebeu algo que não imaginava. A mente do rapaz estava aberta para ele, sem qualquer tranca ou reserva e o rei sentiu um enorme calafrio ao perceber o que estava se mostrando para ele ali, a revelação que lhe era confidenciada. Dentro daqueles olhos, seu filho lhe sorria estranhamente em paz.
"Legolas..." Ele disse lendo devagar aqueles pensamentos que lhe eram transmitidos. "Legolas, não..."
"Não adianta implorar-lhe afeto agora, elfo insano." Riu-se o inimigo sem compreender de fato o significado das palavras do rei e oferecendo um outro punhal ao rapaz. "Vamos, meu brinquedo. Dê um fim a essa criatura."
Mas ao voltar-se novamente para o rei de Mirkwood, uma idéia estranha passou a perturbar a mente daquele elfo traidor. Por que Thranduil concentrava tanto seu olhar em Legolas? O que estaria tramando? Ele percebeu que o príncipe retribuía a esse olhar e temeu a influência que o pai pudesse ainda ter sobre o filho. Ele não podia arriscar. Seu coração dividiu-se em angústia e dúvida. Estaria sendo enganado? Mas ele precisava muito ver aquela cena, precisava saborear a cena do príncipe dando um fim a vida do próprio pai. Sim, ele a veria, ele veria tal cena nem que pegasse a mão do menino e o obrigasse a fazê-lo. Ergueu então a mão esquerda e acertou um murro certeiro no queixo do rei elfo que, totalmente pego de surpresa, pendeu o rosto inconsciente sem nada poder fazer em sua defesa. Hawk riu alto então e voltou-se para o príncipe que permaneceu imóvel.
"Pronto, meu brinquedo." Ele disse estendendo novamente o punhal a Legolas. "Mande-o para Mandos, que é o lugar dele."
"Hawk..." O príncipe lançou-lhe um olhar estranho sem tocar na arma oferecida.
Hawk franziu a testa.
"Vamos, Legolas!" Ele gritou, o comando de ordem que faria o rapaz obedecer.
Legolas estremeceu e apanhou finalmente a arma, apertando-a nas mãos e olhando agora para a figura desacordada.
"Lembra-se, brinquedo?" Provocou o insano elfo. "Ele o ignorou... atirou-o naquela floresta fria... afastou seus amigos de você." Ele puxou então o rapaz pelo braço. Legolas não tirava mais os olhos do pai. "Vamos, não vou forçá-lo a nada muito difícil, apenas uma ofensiva, um golpe e estará tudo acabado... e seremos livres."
Legolas ergueu então o punhal e seus olhos ganharam um estranho brilho.
"Hawk..." Ele perguntou então, paralisado por uma dúvida repentina. "Hawk, o que vai ser de nós?" Indagou então com os olhos parados. "O que vai ser de nós depois?"
Hawk apertou os olhos e sacudiu levemente a cabeça. Por que aquele menino estava fazendo perguntas em um momento daqueles?
"Vamos ser livres, meu brinquedo. Você vai governar Mirkwood. Todos os elfos te amam. Os de sua terra, os de Rivendell, os de Lothlorien. Você vai unir todos os reinos e nós teremos o poder total... total." Ele completou deleitando-se com as palavras que fizera sua mente decorar.
"Não..." Respondeu o jovem elfo balançando a cabeça.
"Não?" Repetiu o outro.
"Não foi isso... que perguntei..." Alegou o príncipe baixando ambas as mãos por sobre as pernas dobradas. "O que vai ser de nós? No que vamos nos transformar?"
Hawk engoliu a saliva e as dúvidas que tinha. Não. Aquela criança não viria com conjeturas agora. Ele não ia permitir.
"Vamos ser como o povo da lama?" Indagou novamente o rapaz. "Vamos perder nosso brilho? Nossa luz?"
"Cale-se, menino!" Ele disse segurando fortemente o braço do rapaz e fazendo seu olhar voltar-se para o dele. Mas Legolas não o fez. Seus olhos fugiam dos do elfo como se temessem algo. "Nós vamos ser nós mesmos... sempre..."
"Hawk..."
"Vamos, Legolas! Não temos tempo."
"Fui eu... Fui eu Hawk."
"Foi você o quê, menino?"
"Heron..." Legolas baixou a cabeça, deixando a adaga que segurava deslizar para o chão a sua frente. A imagem do que tivera que fazer ainda trazia-lhe um grande pesar. "O sangue dele era... escuro..."
Hawk sentiu o coração apunhalado. Ele julgava que o irmão tivesse sido morto pelos amigos que haviam resgatado o príncipe. Mas não. Legolas o havia feito. Mas como? Como se a galenolas circulava livremente em seu sangue? Como ele conseguira? Ele consumira tanto da planta, desde a época dos acampamentos, onde discretamente Hawk temperava um pouco da comida do elfo. E ele consumira uma dose maciça quando estava em seu poder. Seu organismo estava mais do que dominado. Ele não podia ter sido capaz.
"O sangue era negro." Repetiu o rapaz. "Vamos ser como eles, não vamos?" Ele indagou encolhendo-se e abraçando o próprio corpo. "Vamos nos curvar ao que é medonho e nos tornar meio monstros meio bichos... não vamos?"
Hawk apertou os lábios. Aquelas palavras novamente. Aquele pesadelo lhe sendo oferecido, imposto. Ele não acreditava no que estava acontecendo.
"Pelo fogo que arde em nossas almas agora, Legolas!" Ele exasperou-se. "Eu... eu vou fechar meus olhos para o que você fez com meu irmão. Ele estava fora de si... e até me atacou. Mas... mas... por Mandos, deixe de me fazer questionamentos e faça o que lhe mando."
Legolas baixou os olhos para a figura do pai mais uma vez. E um leve sorriso se fez em seus lábios. Um sorriso de despedida. Em seguida ergueu o rosto e encarou mais uma vez aquele que se fizera seu mestre.
"Vamos salvar nossas almas, Hawk." Ele disse então.
"O quê?"
"Vamos." Ele ergueu-se dando alguns passos em direção ao precipício. "Vamos nos entregar a Mandos, ele há de nos perdoar."
Hawk ergueu-se incrédulo. O príncipe estava a apenas um passo do desfiladeiro.
"Legolas. Legolas saia daí."
"Venha, Hawk." Ele ergueu então uma mão em direção ao outro elfo. "Vamos juntos."
Hawk sentiu uma estranha sensação invadir-lhe o coração. Estaria o rapaz certo? Encontraria então redenção? Mas só em pensar em tal hipótese sua cabeça doía e seu peito contraia-se como se quisesse se partir. Ele tinha chegado ali. Estava tão perto. Não poderia permitir..
"Não." Ele disse parando então em frente ao rapaz. "Mandos não vai nos receber. Somos condenados. Logo saberemos o que é viver nas trevas." Seus olhos se enchiam de lágrimas. As lágrimas da contradição. "Mas não se preocupe... Vamos dar um fim a todos esses seres iluminados malditos. Seremos uma nova raça."
Legolas fixou seus olhos nele. Então ergueu uma palma e tocou o rosto de Hawk. O arqueiro estremeceu, a mão do príncipe estava fria e não quente como deveria estar. Ele franziu os olhos e a descoberta bateu em seu coração como uma revelação assoladora.
"Você... você não..." Ele quis dizer, mas um movimento chamou sua atenção. Thranduil voltava a si, erguendo o corpo devagar. Hawk apavorou-se e apertou o punhal nas mãos partindo para cima do rei elfo. Mas tudo se transformou em apenas uma intenção, ele sentiu seus braços serem segurados e o mundo inteiro girou. O céu cinzento acima, as pedras, a mata triste de Mirkwood. Legolas o havia puxado de repente e ambos caíram pelo desfiladeiro.
Thranduil ergueu-se a tempo de ver a cena se concretizar. Um grito emergiu de sua garganta, mas foi como se ele não fosse dono de sua voz. Ele quis erguer-se, porém sua cabeça ainda girava confusa. Então se arrastou para perto da beira do abismo julgando que talvez estivesse tendo um pesadelo. Mas era real e era pior. Legolas realmente havia caído, uma das mãos do filho, entretanto, segurava em uma pequena saliência alguns metros abaixo.
"Legolas?" Ele gritou. Implorando a Iluvatar que o filho conseguisse compreendê-lo. "Legolas, segure minha mão." Disse agoniado tentando esticar-se o máximo possível, mas percebendo logo que a distância ainda o desfavorecia. Legolas precisava tentar escalar alguns centímetros. Ele escorregou o corpo mais um pouco, porém sentiu que ir além seria muito arriscado. "Legolas!"
O rapaz finalmente ergueu a cabeça, de sua testa escorria um fio de sangue. Ele voltou seus olhos para o pai e sorriu.
"Senhor." Veio a voz pacata. "Meu sangue ainda é vermelho."
Thranduil sentiu seu peito doer imensamente.
"Sim. É claro que é, meu capitão." Ele respondeu, tentando manter seu tom firme. "Venha, vamos, você precisa subir um pouco, não consigo alcançá-lo."
Mas os olhos de Legolas diziam tudo o que o filho escondia por trás dos lábios selados. Ele não tinha forças para obedecer às ordens de seu comandante. Thranduil encheu o peito com aquele ar de angústia e dor. "Legolas!"
Subitamente o rei sentiu uma presença, alguém segurava em suas pernas.
"Vamos, Thranduil." Surgiu a voz de Glorfindel. "Estique-se mais!"
Ao lado dele os olhos preocupados de Elrond brilhavam. O curador desprendeu os lábios em pura agonia ao tomar conhecimento da situação. Lá de baixo porém, o olhar do príncipe já o encontrará. Elrond acenou com a cabeça. Em seu pensamento ele só pedia que o menino tivesse força, que agüentasse onde estava. Eles dariam um jeito de alcançá-lo. Atrás de si, os dois irmãos idênticos não pararam para pensar, saindo rapidamente em busca de algo que pudesse auxiliá-los no resgate.
Aragorn também se jogou ao chão incrédulo. Vasculhando os caminhos do desfiladeiro. Pedras lisas, impossíveis de serem escaladas.
"Iluvatar." Ele clamou. "Precisamos fazer algo."
"Vamos, Legolas!" Gritou novamente o pai, esticando-se ao máximo que a ajuda do guerreiro de Gondolin o possibilitava, mas ainda não conseguindo ir adiante o suficiente. "Você precisa subir um pouco."
Legolas olhou finalmente para o pai. Pares de olhos claros se encontrando.
"Senhor... Por favor..." Ele disse.
"Vamos, Legolas!" Repetiu o rei tentando se esticar ainda mais.
"Por favor..." Continuou o rapaz.
E então Aragorn arregalou seus olhos muito azuis e uma estranha sensação lhe veio à mente. Ele já ouvira o elfo dizer tais palavras naquele mesmo tom.
"Vamos, Legolas, você vai conseguir." Gritou mais uma vez o pai.
"Senhor." Legolas então apertou seus olhos e lágrimas escorreram deles. "Perdoe-me."
Aragorn fechou os olhos. "Não... não... não..." Ele disse baixinho, como quem quer acordar de um pesadelo. Como se quisesse imaginar-se vivendo um sonho horrível e tentar despertar. "Não pode ser.. não pode estar acontecendo."
Thranduil apertou os lábios sentindo o desespero subir-lhe garganta acima.
"Venha até aqui e eu o perdoarei, elfo tolo." Ele tentou mais uma vez, recorrendo ao triste vocabulário que o menino conhecia. "Venha até aqui agora!"
"Por favor, senhor... Antes que seja tarde... Permita que eu tenha paz... Diga que me perdoa..."
"Legolas..." Thranduil quis chamar-lhe a atenção, mas outra mão apoiou-se em sua perna. Ele virou levemente o rosto e encontrou os olhos úmidos de Elrond. O cinza frio do olhar do curador era o retrato da própria tristeza e mais do que isso, era um estranho aviso.
"Diga a ele, Thranduil." Pediu o lorde de Imladris baixando os olhos depois disso, mas mantendo a mão na perna do rei.
O rei elfo fechou os olhos com medo de encarar a possibilidade que se tornava certeza. Não, não podia ser. Ele então se voltou para o desfiladeiro e encontrou o rosto suplicante do filho. Os dedos finos escorregando lentamente da pedra lisa, inalcançável, traçando seu destino irremediável.
"Eu..." Ele disse segurando o ar dentro dos pulmões. "Eu te perdôo, menino."
E o rosto de Legolas se iluminou. A escuridão forte não lhe roubava o brilho, Thranduil via-o bem, seu filho estava feliz.
"Por favor..." Pediu o rei balançando a cabeça, recusando-se a acreditar. "Segure-se mais um pouco, criança..."
Mas o príncipe não parecia preocupado. Seus olhos refletiam a alegria de quem encontra algo há muito tempo perdido. Lágrimas já não caiam mais de seus olhos azuis que ganharam um brilho completamente novo, um brilho que o rei só se lembrava de ter visto nos olhos do filho quando este ainda era um elfinho.
"Obrigado..." Foram as palavras do rapaz, mas em seus olhos outra expressão se fazia real e Thranduil a leu com amargura e agonia. Os olhos do filho diziam adeus.
E aquele adeus se fez de forma silenciosa, Legolas deslizou como uma folha levada ao vento, sua luz logo foi consumida pelas trevas daquele abismo, cujo fundo era impercebível durante a noite. O som de seu corpo atingindo algumas pedras ainda foi ouvido até que ele ganhou o rio, a água que o aguardava. Thranduil fechou os olhos e os reabriu na esperança de estar tendo uma ilusão, mas não estava. Os gritos de Aragorn e dos gêmeos eram a real certeza de que o pesadelo era o cenário verídico de sua desgraça. Seu corpo subitamente perdeu a energia e ele se deixou resgatar pelo guerreiro de Gondolin.
