Olá! Bem, este era para ser o penúltimo capítulo, mas infelizmente tenho que informá-los que sou obrigada a estender a fic em um capítulo a mais... Desculpem-me, o capítulo final ficou com muitas coisas para serem resolvidas, então achei que seria melhor dividi-lo para detalhar melhor cada coisa e ele não ficar com cara de final de novela hehehe.

Espero que gostem desse capítulo... Foi muito esperado por algumas de vocês... espero não decepcionar... Afinal... vocês sabem como é um certo rei que nós conhecemos... Sejam sinceras... como sempre, por favor. Beijos.

Agradecimentos... curtos...:

Lady-Liebe – Saudades. Beijos.

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Esperando o novo capítulo ansiosamente. Essa fic ainda tem muito que surpreender. Grande Misao-dono. Obrigada pela review!

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" Encerrando-se... Minha tristeza só não é maior porque fui abençoada com os detalhes da nova fic da Myri... Um dos trabalhos mais bonitos que já li e que deve sair assim que a PAIXÃO terminar. Ainda bem que a Myri não vai nos deixar na mão. Obrigada pela review. Beijos, amiga!

Nimrodel Lorellin – Fenomenais "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Minha fic de cabeceira. Sou a leitora mais chata que conheço... fico cobrando cobrando e cobrando... Estou esperando Nim!!! Beijos Nim!!! Super obrigada por tudo.

Vicky Weasley: "BITTERSWEET" Vicky nos deixou??

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – LEIAM!!! Completinha para vocês! Beijos, amiga! Obrigada pelo e-mail. Parabéns pelo sucesso com sua nova fic.

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Lali cadê você?

Kika-Sama: Continua zangada com o meu Legolas... Mas é uma grande escritora, é só conferir. Obrigada pelas opiniões sempre tão sinceras.

Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Fic muito original. Super bela. Chell? Sumiu de novo?

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Capítulo novo essa semana ainda. Amiga, preciso dos seus detalhes para postar!! Perdi tudo... Beijos!! Obrigada pelo e-mail.

Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Doce Kiannah, adoro suas reviews. Obrigada por estar sempre enxergando poesia atrás de qualquer coisa simples que eu escreva... fico feliz por seus olhos amáveis darem atenção a minha fic. Obrigada.

Soi – "IDRIL NÚMENESSË". Atualizou, Soi!!! Ei, dêem uma olhada. Deixem uma review. Está uma graça a fic da Soi. Obrigada pelo e-mail amiga.

IamAGreekLeaf – "RÚNYA" – Vale a pena dar uma conferida. Não conheço a autora mas espero que ela atualize logo.

Nanda –A Nanda está me devendo um certo final de um conto fabuloso... Já disse que sou uma leitora chata e que fico cobrando cobrando. Obrigada pela grande ajuda com os detalhes sobre Mirkwood que eu precisava saber, amiga. Fico te devendo esse enorme favor.

Amigas...

Syn, the time keeper. Esse capítulo é para você. Acho que algumas das suas questões vão ser esclarecidas. Obrigada pela paciência e pelas reviews..

Regina – Regina voltou. Que bom. Obrigada pela review.

Botori – Obrigada pela review. Que bom que a cena do pai e filho impressionaram você. Espero que goste desse capítulo também. Beijos.

Leka – Obrigada pelo e-mail, Ellahir. Que bom que você está acompanhando. Beijos.

Lali-chan – A fã do poço me deixou uma review na hora do grito... Que bom!! Fiquei feliz. Beijos.

Veleth – Gente, já leram as reviews que a Veleth deixa para mim? São de tirar os pés do chão... Lindos poemas. Super obrigada, amiga.

Pink na – FIC FIC FIC??

Roberta – Agradecimentos, sempre. Beijos!

Pitybe – Agradecimentos super especiais...

Alice (amiga da Soi) – Espero que continue gostando. Beijos

Lilith (amiga da Nim)- Espero que continue gostando também. Beijos.

Letícia (amiga da Leka) – Espero que goste desse capítulo. Beijos.

Phoenix Eldar – Obrigada pelo apoio e pelo convite. Espero que esse capítulo não te traga os mesmos sentimentos dos capítulos anteriores. Beijos.

38

Thranduil parou em frente do palácio, no topo da grande escadaria e respirou fundo. O céu retomava o azul característico dos últimos dias do outono. As árvores estavam completamente nuas, semelhantes a espetos de morte apontados para o céu. Aquela paisagem não podia ser mais triste e desoladora. O rei forçou o ar para fora dos pulmões de forma dolorosa, olhando mais uma vez para o céu, que há dias parecia se recusar a trazer-lhes ao menos um azul digno de alguma esperança. Tudo lhe parecia cinza. Tudo lhe parecia sem vida. Tudo lhe parecia estranhamente vazio.

"A temperatura caiu bastante nesses últimos dias." Disse Faernestal posicionando-se ao lado do rei no topo da longa escadaria da entrada. Ele fizera o possível nos últimos dias para estar próximo de seu líder depois da perda que o reino tivera. Thranduil não era o tipo de pessoa que demonstrava suas angústias, mas só em estar perto dele o experiente curador sentia que o rei travava um batalha muito árdua contra o desejo de reencontrar sua esposa e filho, de entregar-se aos braços de Mandos.

"De fato." Vieram as palavras vazias com as quais Faernestal já estava bastante habituado.

O curador esticou o corpo, fingindo indiferença, mas se deixou ficar ali ao lado do amigo. Sua mente o incomodava com dúvidas crescentes. Thranduil, cujo hábito mais do que rotineiro era o de estar sempre à frente da grande e maciça mesa de mogno escurecido que pertencera ao pai, adquirira nos últimos dias o costume de permanecer em pé naquela escadaria, observando o horizonte de pedra e escuridão que os circundava ao invés de permanecer em seu gabinete. Farnestal estava apreensivo. Estaria o grande Thranduil Oropherion se sentindo sufocado entre quatro paredes pela primeira vez? Ou quem sabe, estivesse talvez desistindo daquilo que outrora movia cada músculo do seu corpo, impulsionava cada bombeamento de seu coração...

"Sente frio?" Arriscou o amigo.

Resposta alguma veio satisfazer a curiosidade do curador ou indicar-lhe um caminho melhor para direcionar suas conjecturas. Os olhos esmeraldas do rei continuavam perdidos, suas pupilas aprisionadas, congeladas em volta de um horizonte sem vida ou esperança.

"Parece cansado." Continuou o elfo cruzando as mãos nas costas pacientemente. "Percebo que não tem freqüentado seus aposentos ultimamente."

Mais silêncio. Legolas realmente tinha um porque hereditário para ter sido como fora. Aquela teimosia parecia ser uma característica marcante da família real.

"Precisa dormir." Disse enfim o curador, mesmo sabendo que seu conselho era inútil, por mais necessário que soasse a seus próprios ouvidos. "Seu reino precisa de você, Thranduil. Não pode deixá-los a mercê do que os espreita."

Thranduil enrijeceu os músculos, demonstrando finalmente estar presente naquela conversa unilateral. Mas Faernestal, ao receber o olhar que o rei lhe direcionou, chegou a desejar que o louro elfo continuasse admirando a estranha paisagem que apenas ele parecia ver.

"Não deixarei de cumprir minhas obrigações, Faernestal." Respondeu o líder de Mirkwood concentrando seu olhar no amigo a seu lado por meros segundos, para logo em seguida voltar-se novamente ao cenário a sua frente. No meio do pátio da entrada do palácio alguns elfos faziam seus estranhos trajetos desconhecidos e rotineiros. O rei deslizou seu olhar por entre eles, por aqueles rostos eternamente jovens, infinitamente condenados a uma vida como expectadores daquele tudo que, diferentemente deles, ainda tinha o direito e a oportunidade de crescer e se transformar.

"Eles precisam de você." Repetiu mais uma vez o curador, ciente do quanto irritaria o amigo. Naquele momento ele faria o que fosse preciso para tirar o rei daquela estranha letargia que parecia o estar assolando.

Thranduil finalmente mostrou uma visível irritação.

"Já disse que sei do porquê de meu amanhecer e anoitecer, elfo miserável!" Ele disse em um súbito acesso de ira. "Não preciso que me lembre disso a todo o instante."

Faernestal quis sorrir. Ali estava o rei que ele conhecia desde menino. Mas, para não deixar tão evidente a armadilha que acabara de armar, o sábio curador vestiu a esperada máscara da indignação, franzindo os lábios e apertando os olhos.

"Não preciso lembrá-lo de seu descanso também?" Ironizou enfim, tentando garantir que o temperamento do amigo não se aplacasse tão cedo.

E os traços de uma visível inflamação de ânimos desenharam-se nas faces alvas do rei que voltou a bufar alto, dando um passo na direção do curador para parar a centímetros dele. Essa era uma das atitudes que todos no reino caracterizavam como marca registrada de seu líder. Marca esta que absolutamente ninguém gostaria de presenciar ou, pior ainda, ser o motivo de sua manifestação.

Mas o sábio Faernestal vivera muito e vira de tudo uma parte sob esse sol que abençoava a Terra Média todos os dias. Ao apegar-se a sua experiência de vida ele já solucionara muitos conflitos, encontrara muitos caminhos, salvara muitas vidas. Não seria o olhar de um menino que se tornara rei que o tiraria de seu equilíbrio. Não, não seria o olhar de Thranduil, por mais tristeza que visse camuflada por traz daquela ira construída como fortaleza intransponível.

"Você tem o dom de me fazer querer erguer e fechar meus punhos, Faernestal!" Declarou o louro elfo fazendo exatamente o que descrevia. "Não tem mais nada a fazer nessa sua vida vazia a não ser disfarçar-se de sombra minha e tirar-me a pouca paciência que me resta?"

"Tenho." Respondeu prontamente o outro. "Mas nada tão divertido."

Thranduil apertou o maxilar e fez um estranho movimento de vai e vem com as sobrancelhas que acabou demonstrando ao bom curador que, se sua intenção era confundir a figura a sua frente, ele tinha sido por demais bem sucedido.

"Quer visitar as masmorras, elfo tolo?" Indagou o rei tentando disfarçar um furtivo sorriso.

Faernestal sorriu, apoiando uma mão no ombro do amigo.

"Não." Ele disse retomando um ar sério. "Só quero vê-lo inteiro novamente. Você precisa descansar, mellon-nin."

Thranduil moveu o rosto devagar, oferecendo um desconfiado olhar atravessado ao outro elfo. Ele piscou algumas vezes no mais completo silêncio, depois seus lábios ensaiaram um leve sorriso que durou apenas alguns poucos instantes.

"É de fato muito bom em sua ocupação, sábio Faernestal." Confirmou então retribuindo o gesto de camaradagem do amigo a seu lado.

E dessa vez o silêncio serviu ao curador, que apenas inclinou a cabeça em sinal de respeito. Thranduil respirou fundo olhando mais uma vez para os empregados que caminhavam pelo pátio. Faernestal tinha razão. Afinal sempre fora aquele grupo que movera seus dias, que incentivara suas manhãs e tardes, que o afastara de tudo o que não fosse sinônimo de precaução e cautela. Aquele grupo o afastara de tudo, até das coisas das quais ele não podia mais se aproximar.

"Mapas..." Disse o rei em um suspiro. "É como vejo minha terra agora..." Ele lamentou-se enchendo novamente o peito de ar para roubar o espaço no qual a tristeza queria se alojar.

Faernestal franziu as sobrancelhas.

"Não vá para o gabinete agora, Thranduil. Vá descansar." Ele aconselhou. "Algumas horas lhe serão suficientes."

O rosto do rei se contorceu com aquelas palavras, como se a idéia lhe parecesse um grande sacrifício.

"Meu corpo não sente necessidade de sono algum." Retrucou. "Voltarei para minhas obrigações."

Faernestal deu um passo para acompanhar o rei que já se voltava em direção à porta principal. Em seus lábios encadeava-se uma indiscutível seqüência de reclamações contra a decisão a ele apresentada, mas algo lhe chamou atenção e ele se voltou antes de terminar seu trajeto atrás do líder.

No meio do pátio, os elfos começaram a se entreolhar e um sentimento sombrio assolou a todos. Faernestal parou alguns instantes tentando entender o porquê daquela sensação de insegurança e medo tomar subitamente seus elfos. Lá embaixo os que carregavam algo soltaram seus pertences, os animais ergueram seus pescoços em uma estranha expectativa.

"Thranduil." A incerteza moveu o curador finalmente a alertar o rei que já estava cruzando a grande porta de entrada. "Algo fora dos caminhos do esperado parece estar acontecendo."

Thranduil se voltou intrigado e confuso.

"E eu não sei se é bom." Completou o curador adiantando-se até a beira da escada.

O rei voltou para perto do amigo a passos rápidos, a mão instintivamente segurando a espada.

"O que se passa?" Indagou olhando para todos os lugares. Os empregados pareciam fazer o mesmo, erguendo a cabeça como se tentasse captar algo. Thranduil percorreu todo o cenário com olhos atentos para finalmente fixá-los nos guardas próximos aos portões. O pequeno grupo se agitava visivelmente já com suas armas em punho. "O que por Mandos se passa aqui?" Indagou novamente, sacando a arma com violência.

"O que foi, Thranduil?" Inquiriu o curador vendo o rei aproximar-se do primeiro degrau da escada. Mas o rei não respondeu, parecendo disposto a ir verificar a resposta precisa por si mesmo. Faernestal o segurou rapidamente, antes que descesse o primeiro degrau. "Não!" Alertou. "Seja o que for não deve se arriscar. Seus elfos estão lá."

Mas aquele era o conselho que o guerreiro coração do rei de Mirkwood mais abominava. Tudo o que ele queria era ir até lá entender o que estava incomodando a seus soldados daquela forma.

"Deixe-me ir, elfo tolo." Disse então puxando o braço com violência. Fora um movimento rápido até para o experiente curador, mas o rei não prosseguiu em seu trajeto, parando em seguida, completamente atônito.

Faernestal sentir o coração gelar ao ver seu líder demonstrando uma inquietação que não lhe era peculiar.

"O que houve?" Indagou.

"Os...portões..." Balbuciou o rei totalmente tomado pelo sentimento da inquietação. "Estão rangendo..."

"Como assim?" Perguntou o curador bastante confuso.

"Quem... quem os está abrindo?" Indagou Thranduil como se aquela fosse a questão mais importante de sua vida e ele a estivesse dirigindo ao próprio Iluvatar.

Faernestal voltou seus olhos para a mesma direção do rei, para finalmente entender o que movia aquela consternação toda. Os grandes portões camuflados pelas folhas e árvores, que conduziam a entrada da caverna e eram uma entrada a qual poucos tinham acesso, moviam-se lentamente. A uma distancia razoável agora, o pequeno grupo de soldados aglomerava-se completamente tomado pela surpresa, empunhando suas armas, mas enfrentando um medo maior, o de não saber o que esperar naquela situação totalmente atípica. Eles nunca foram invadidos, nunca tiveram que enfrentar seus inimigos dentro dos limites do palácio. Aquela entrada sempre fora intransponível, além de muito bem guardada do lado de fora, sendo então considerada como uma das maiores certezas dos elfos naquele esconderijo solitário e triste. Ultimamente, esta talvez fosse uma das poucas certezas que lhes restavam, uma garantia que parecia estar sendo surpreendentemente questionada.

"Como..." Balbuciou o curador. "Como alguém pode... como..."

"Não há como..." Garantiu o rei com firmeza agora, sentindo a cobrança implícita no questionamento do amigo. "Não há como elfo algum..." Ele completou descendo o primeiro degrau da escada e tentando retomar sua compostura.

"Tem certeza?" Reforçou o curador, as mãos em punhos fechados, um frio na espinha.

"Tenho!" Enfezou-se o rei. "Sabe que não confiaria tal informação a ninguém... Sempre o fora dessa forma... Sempre... Somente os membros da casa real têm conhecimento de..., Somente eu e..."

Thranduil afogou o complemento de sua oração, não porque o tivesse esquecido, mas por trazer-lhe uma esperança que julgava morta e sepultada.

"E?" Insistiu porém o curador preocupado com a súbita perda de cor que se dera no rosto do amigo.

Mas a resposta ficou presa em algum lugar entre os lábios do rei e o ranger daqueles portões que agora escondiam uma dolorosa incógnita. Thranduil desceu então um degrau, mas uma mão em seu ombro o impediu de continuar.

"Espere pelas respostas primeiro." Aconselhou Faernestal apertando a mão que apoiara no ombro do amigo.

Um acenar quase imperceptível de cabeça foi a concordância expressa pelo rei, cujos olhos não se desprendiam daquele enorme portão totalmente aberto agora. Thranduil voltou-se para observar a atitude de seus soldados, já que a grande construção sólida o impedia de ver quem estava executado tarefa tão peculiar. Sentiu então seu coração parecer parar alguns segundos no meio do peito, ao perceber seus soldados se entreolharem confusos, as espadas ainda erguidas, mas o instinto de defesa inibido. Eles estavam transtornados, mas não pareciam se sentir ameaçados.

"Iluvatar." Clamou o rei apertando ainda mais a espada em sua mão. "Não... não pode ser."

E os grandes portões voltaram então a ranger, dessa vez traçando o caminho de volta, fechando-se obediente para revelar finalmente todos os porquês.

"É o príncipe!" uma voz solitária gritou, simbolizando a satisfação de um povo que julgava ter perdido um elemento que lhe era muito caro. "Príncipe Legolas!" Outras vozes não se contiveram. Thranduil deixou cair o queixo e a espada pela primeira vez em sua vida. Uma súbita dormência pareceu correr por todo o seu corpo como se seus pés não estivessem mais firmes no chão. Ele apertou o maxilar tentando sentir alguma dor, sentir algo que lhe fizesse crer que ainda estava acordado e não vivendo um sonho estranho.

Em instantes o povo, empregados do palácio e outros elfos que entraram acompanhando o príncipe, começou a se afastar abrindo caminho para um cavalo negro que carregava um elfo terrivelmente ferido. Legolas agarrava-se a crina de Espírito mas, por sentir a preocupação dos que estavam ao seu redor e murmuravam baixinho o seu nome, procurava manter o rosto erguido e camuflar sua dor. O pesar de seus irmãos e irmãs de Mirkwood doía-lhe a alma, mais do que a saudade que sentia deles. O cavalo percorreu uma pequena distância para parar a poucos metros da entrada do palácio. O povo ficou a volta dele, olhares perdidos, lábios cerrados forçadamente, a espera do que não se podia prever.

Legolas fechou os olhos com força, a emoção de estar de volta, mesclava-se a sensação estranha de receber os olhares do povo a seu redor. O arqueiro apertou os lábios e as mãos que ainda agarravam-se ao amigo eqüino. Seu povo estava por perto, aqueles a quem ele amava, porém ninguém ousava se aproximar, ou talvez não desejasse. O arqueiro os via, mas aquela dúvida parecia incomodar demais ao cansado príncipe que se viu sem ação, perdido exatamente no lugar onde devia sentir-se finalmente seguro.

Legolas voltou a abrir os olhos e girou a cabeça levemente para encontrar enfim o olhar que ansiava e temia ver. Descendo vagarosamente os degraus do palácio vinha seu pai com um ar indecifrável. Era impressionante o quão capaz Thranduil sempre fora de se esconder atrás de um escudo enigmático diante de seu povo. Legolas desviou seu olhar quando o rei estava a poucos passos dele.

Thranduil observou todos os detalhes da triste cena. O coração saltava no peito como se fosse um prisioneiro que decidira finalmente se rebelar e exigir sua libertação. Então o filho não morrera. Ele pensou fazendo de tudo para segurar o queixo que parecia querer pender e deixar sua boca completamente aberta uma vez mais. Um medo estranho invadiu-lhe então, a idéia tola de que talvez estivesse tendo uma alucinação. Estaria? Enlouquecera? Mas como? Como o menino podia estar ali? Como? Se ele mesmo o vira cair. Ele calculara inúmeras vezes todos esses dias a distância enorme de onde o filho caíra. Como aquele milagre poderia fazer-se real? Como? O confuso líder de Mirkwood sentiu uma revolução inteira armar-se dentro do peito. Uma revolução que ele não sabia como conter.

"Legolas..." Veio a voz preocupada de Faernestal a seu lado. "Está ferido... Ele está ferido majestade." Alertou o curador como se quisesse despertar o amigo de alguma espécie de transe.

Foi então que Thranduil por fim se sentiu completamente presente, livre de um terrível pesadelo. A verdade se fizera clara nas vozes de outrem e não apenas no clamor de sua consciência e de seus desejos. O louro elfo apertou os lábios e só então se deu conta de que estivera encarando o menino por um bom tempo sem dar-lhe qualquer sinal. O rosto de Legolas estava manchado de sangue, o corpo todo o estava. Faernestal tinha razão. O filho parecia muito ferido, o que não era uma grande surpresa, haja vista a queda inacreditável a qual fora submetido. O rei respirou fundo porém, tentando bravamente retomar seu lugar, sua posição e fazer o que era justo, o que era correto. Por mais que quisesse, ele não podia simplesmente agarrar aquele menino e levá-lo finalmente para o quarto que sempre fora dele e dizer-lhe o quanto louvava a Iluvatar em agradecimento pelo rapaz ter sobrevivido. Ele não podia. Poderia se não fosse quem era. Mas não podia.

Apertando os punhos fechados, como se o movimento simbolizasse o conter de suas próprias rédeas, ele deu alguns passos e ficou ao lado do negro animal que trouxera o filho. Deslizou os olhos pelo cavalo com curiosidade, tentando ganhar tempo, acalmar o coração inquieto e rebelde, quanto menos olhasse para o rapaz agora, melhor seria. Legolas apertou os pêlos que segurava entre os dedos, mas procurou engolir o medo devastador que sentia. Afinal, estava diante de seu povo e não envergonharia mais a seu pai.

"Não é esse o animal cujo andar estranho me chamou atenção há algum tempo?" Indagou a voz fria do rei ainda correndo os olhos pelo belo corcel.

O príncipe balançou a cabeça quase imperceptivelmente e passou uma mão trêmula por sobre o pescoço de Espírito. Ele esperava que o pai não ofendesse seu amigo de novo. Thranduil encostou a palma no pescoço de cavalo e a deixou ali.

"Como o chama?"

Legolas engoliu seco e os olhos do pai voltaram a encontrar os dele.

"Espírito, senhor." Respondeu receoso. A voz desaparecida dentro de seu peito parecia sequer ter alcançado a boca.

O rei acenou levemente com a cabeça e voltou a encarar o amigo eqüino do filho.

"Retiro todas as palavras e pensamentos amargos que direcionei a você, criação divina." Ele declarou batendo levemente a palma no couro do animal agora. O cavalo, parecendo de certa forma compreender ou mesmo apreciar o tratamento que lhe fora destinado, baixou o pescoço como se fizesse uma reverência. Thranduil ergueu as pontas dos lábios em uma sombra de sorriso. "Tem meu respeito e minha admiração." Ele completou.

Legolas sentiu o queixo cair. Aquelas eram palavras que ele jamais julgara ouvir em sua vida. Mas logo o sentimento desperto pelo rei foi engolido pelo olhar que o pai lhe direcionou.

"Existem outras fatos do passado que preciso reavaliar." Disse Thranduil com o olhar fixo no filho. Ele então se afastou à distância de dois passos. "Desça." Ordenou.

Faernestal quis objetar. Os ferimentos do rapaz eram visíveis, o que fazia da ordem do rei um ato de extrema crueldade. Mas a situação era por demais delicada para que o curador se arriscasse com seus conselhos e queixas.

Legolas respirou fundo e um medo devastador voltou a persegui-lo. Ele não compreendia o porquê do pedido, mas sabia que aquela era uma grande prova e não podia decepcionar ao pai. Jogou então dolorosamente o corpo para frente e deixou a perna ferida escorregar seguida pelo resto do corpo dolorido. Quando atingiu o chão toda a escuridão tomou-lhe o cenário e ele só pôde apertar os olhos e pedir a Iluvatar que não o levasse agora, que lhe oferecesse ao menos a chance e a energia para cumprir as instruções do pai.

Thranduil fechou os punhos mais uma vez e segurou o ar dentro dos pulmões ao ver o rapaz parar ali diante dele, agarrado ainda aos pêlos de seu animal. Era triste ver que, dentro do reino que o amava, entre irmãos e irmãs, a única criatura com qual o filho sentia que ainda podia contar era um eqüino que sequer era de Mirkwood.

"Venha." Ordenou em alto tom dando as costas e caminhando a passos curtos e lentos para perto da escadaria do palácio. Ele sentia como se arrastasse um coração pesado ao fazê-lo, mas não havia alternativa, a justiça tinha que ser feita sem nenhuma distorção.

Legolas voltou o olhar para a figura do pai que agora se distanciava dele. A seu redor, olhos pesarosos e amargurados o observavam, enquanto mãos se apertavam buscando um autocontrole que lhes parecia impossível. O povo temia por seu príncipe, mas sabia que não podia lhe estender a mão. Thranduil finalmente parou no pé da grande escada e juntou toda a energia que tinha para olhar novamente para o filho. "Venha." Ele repetiu.

O pai estava parado agora, esperando por uma atitude dele. Legolas voltou-se devagar, não havia um lugar sequer em seu corpo que não doesse terrivelmente. A lateral toda latejava, o joelho arruinado pela queda era um ponto de apoio praticamente inviável. O ombro deslocado parecia dormente de dor. Como ele ia se prosseguir sem ajuda? Como cruzaria aquele pátio? Como subiria aqueles degraus? Oh Iluvatar. E era o que seu pai queria que fizesse, parado ali a alguns metros dele, seus olhos sequer o olhavam, provavelmente o odiava e o odiaria ainda mais depois daquela demonstração de fraqueza. Legolas fechou os olhos e respirou fundo, procurando entorpecer o coração com a única decisão que lhe restava: nem que tivesse que se arrastar, usar todo o resto de energia que tinha, ele cumpriria a ordem do pai, ele não o decepcionaria uma vez mais. Tinha que seguir em frente sem pedir por misericórdia como seu coração suplicava que fizesse.

Engoliu então mais uma vez a dor e as dúvidas e reabriu os olhos, esperando que o caminho lhe parecesse menos árduo, menos doloroso. Mas a sua frente não havia mais caminho algum. A sua frente estava novamente a figura do rei, a distância de um braço. Legolas empalideceu, nem percebera a aproximação do pai. Thranduil mantinha os lábios selados, apertados por uma espécie de angústia ou revolta, o que fez com que o corpo de Legolas voltasse a estremecer visivelmente agora. O que estaria pensando? Não lhe dera sequer a chance de tentar. O que ia fazer com ele agora?

"Perdão, majestade." Disse o rapaz totalmente vencido, ciente de que seu destino de fato era decepcionar ao pai. Ciente também de que qualquer que fosse a decisão do rei era sua obrigação aceitar, súdito que era e detentor de uma grande dívida para com Mirkwood e seu líder. "Quero... quero cumprir o que me ordenas mas..." Ele quis explicar. Suas palavras pareciam transformadas pelo tom doloroso da voz em agonia.

Thranduil suspirou imperceptivelmente e deu um passo à frente, posicionando-se ao lado do filho e enlaçando-lhe levemente a cintura. Legolas percebeu o frio do inverno chegar a seus ossos, mesmo em um dia de final de outono.

"Tem que entrar no palácio sobre suas próprias pernas." Ele disse em um tom baixo, dando então um passo à frente e forçando o rapaz a acompanhá-lo.

"Meu joelho, senhor. "Gemeu o jovem elfo sentindo os caminhos das lágrimas começarem a percorrer-lhe a face, a dor estava insuportável, mas a vergonha ainda era pior do que a própria dor e ele baixou a cabeça para que não vissem o seu pranto silencioso. "Está muito difícil... é um apoio difícil..." Ele tentou mais uma vez argumentar, mas em sua mente ecoava a voz do pai que sempre lhe repetira "Sempre há uma explicação, não é Legolas?" O que fez com que aquela sensação de mediocridade o castigasse ainda mais. "Majestade... eu não.. não..."

"Tem que tentar." Insistiu o rei continuando a puxar o filho impiedosamente. Legolas passou a acompanhá-lo, a dor cegando-lhe os passos de tal forma que ele apenas se deixava guiar por um caminho de trevas e angústia que parecia não ter fim. "Olhos abertos!" Disse o rei em um tom quase inaudível ao qual Legolas obedeceu de imediato. Não importava mais, abertos ou fechados seus olhos nada viam a não ser a dor e a dor. Eles chegaram até as escadas e Thranduil começou a subir os degraus vagarosamente. Legolas sentiu seu corpo ser ligeiramente erguido e as costelas passaram a ser sua maior angústia então, Thranduil apoiava o braço forte sobre elas para auxiliar o filho a vencer os obstáculos. Legolas mordia os lábios com força agora para não gemer de dor, para não gritar, enquanto a escuridão clamava sua companhia a cada novo degrau alcançado. Que castigo era esse? Por que? Ele sabia que tinha cometido os piores crimes na visão de seu rei e seu reino, mas o pai nunca o torturara de tal forma. Seu coração encheu-se mais de tristeza, percebendo que, depois de tudo, o rei parecia cultivar em si um ódio ainda maior por ele.

Atingiram finalmente o último degrau e Thranduil o soltou devagar para que suas duas pernas se fixassem no chão. Mas foi em vão, Legolas não pode evitar e teve que se segurar no pai e respirar fundo várias vezes para tentar ao máximo espantar o desejo que tinha de permitir que a escuridão o levasse para o reino dos inconscientes, dos desvalidos.

"Erga a cabeça." Disse a voz do rei uma vez mais.

O jovem elfo estremeceu. Ele sabia o que Thranduil queria. Ele queria que o filho encarasse o povo, como naquele dia fatídico de sua condenação. Ele queria humilhá-lo, porque era o que o arqueiro merecia. Sim. Ele sabia que merecia isso, ele sabia.

"Erga a cabeça, menino!" Ordenou novamente a voz do rei e o rapaz sentiu a mão forte do pai apoiar em seu rosto e erguê-lo fazendo-o olhar para ele. Os olhos de Thranduil eram indecifráveis e o jovem elfo não pode impedir de se deixar prender por eles, encantado como sempre ficava quando o pai lhe direcionava alguma atenção. Legolas se deixou levar e sentiu então a mão do rei deslizar pela sua face, enxugando rapidamente as lágrimas que o filho derramara. Em seguida ele segurou o queixo do rapaz e seus olhos se apertaram de insatisfação ao ver a marca que o filho fizera no lábio inferior tentando conter o grito que queria romper-lhe garganta a fora. "Elfo tolo." Ele disse em um tom muito baixo, mas que transmitia algo além que o príncipe não conseguia compreender. "Logo vai acabar." Ele completou afastando um pouco o filho de si mas permitindo que o rapaz se segurasse nele.

O arqueiro franziu as sobrancelhas e a incompreensão de tudo o que ocorria em sua volta tornou-se ainda mais insuportável. Thranduil voltou o rosto para o meio do pátio e o filho espelhou a mesma atitude para sobressaltar-se em segundos ao ver que o local agora estava cheio de elfos. O povo se reunira, vindo de vários lugares, das passagens escuras, das entradas ocultas, movidos pela mesma angústia e ansiando que seu dirigente lhes oferecesse satisfações, algo que Thranduil jamais negara a eles e um dos grandes motivos que justificavam tamanha confiança, tamanha devoção. Legolas voltou a sentir um frio terrível gelar-lhe a espinha.

"Atenção." Gritou então o rei recebendo o silêncio total dos presentes e fazendo o filho estremecer uma vez mais. Thranduil suspirou levemente e aguardou o momento apropriado. Olhos de todos os tons se arredondavam atentos enquanto o silêncio pedido se fazia a presença maior. "Esse é Legolas." Ele disse olhando brevemente para o filho. O rapaz não retribuiu, apavorado por estar ouvindo novamente o mesmo encadeamento de palavras que o condenara duas vezes pela voz e mandamentos de seu pai. "Banido do reino de Mirkwood há muitos anos." Lembrou o rei. "Hoje ele entra por esses portões para ficar."

Um leve rumor começou e foi se expandindo, o povo se entreolhava incrédulo e curioso e alguns já exibiam um leve sorriso. Legolas apertou ainda mais o punho que segurava o robe do pai e tentou conter o rodamoinho que lhe sacudia as idéias. Ele ficaria? Como assim? O que seria dele em Mirkwood? A qual condenação seria encaminhado agora? Voltaria para as masmorras?

Thranduil voltou a encher os pulmões, sentindo algo que há muito tempo não sentia, sentindo como se tivesse uma chave importante em sua mão e que, ao girá-la, fosse libertar um elemento vital para seu povo, fosse prover-lhes algo que há muito lhes faltava. Fosse oferecer-lhes alguma felicidade.

"Legolas saiu desse reino como um traidor." Ele disse sem olhar para o filho, sabendo o quanto aquelas palavras pesariam e não querendo constatar suas certezas. "Mas salvou a vida de seu rei." Ele baixou o tom de sua voz. "Príncipe de Mirkwood ele volta a ser... Ganhou a redenção." Finalizou então voltando seu olhar para o filho ao seu lado

O pátio foi então tomado por uma grande festa. Os elfos passaram a chamar o nome do príncipe e saudavam sua chegada desejando-lhe boas vindas e gritando-lhe seus lamentos de saudades. Legolas ficou petrificado, esquecido completamente de toda a dor que sentia, de tudo o que tinha passado, tomado por uma imensa felicidade. Thranduil baixou a cabeça por alguns instantes, tentando ele também controlar algumas emoções que há muito não sentia. Ele saboreou uma estranha comoção ao encarar o brilho dos olhos do rapaz, brilho este que comprovava que os anos de solidão, exílio, tortura e perseguição não haviam roubado uma luz especial que só ao filho parecia abençoar.

"Agradeça a seu povo, príncipe Legolas." Disse então o rei procurando se recompor e não demonstrar o que habitava seu peito agora.

Legolas sacudiu a cabeça como quem cai em uma estranha realidade. Ele voltou o rosto para os elfos abaixo e as saudações se tornaram ainda mais altas e animadas quando o povo percebeu que tinha a atenção de seu príncipe. Legolas tentou sorrir e apoiou uma mão no coração fazendo uma pequena reverência. Ele queria agradecer, mas as dores não lhe permitiam, suas pernas, agora que o medo do pior dera espaço ao alívio da boa descoberta, fraquejavam seus cansaços visíveis. Thranduil percebeu e voltou a enlaçar a cintura do filho afastando-o agora em direção a porta do palácio. Faernestal os acompanhou. Quando a entrada se fechou o rei finalmente se viu livre para tomar o filho nos braços e apressar-se escada acima chamando pelo nome do curador que já o acompanhava de perto.

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"Um perdão roubado, Faernestal." Ele ouviu a voz do pai dizer. "Não podia funcionar assim, elfo tolo. Se eu o carregasse, se deixasse para depois, eles diriam que o rei foi condescendente, perdoou o filho porque estava ferido, perdoou-o por compaixão. A verdade seria obscurecida pelo tempo. Não seria mais absoluta."

"Certo." Respondeu a voz do curador "E qual seria o mal nisso?"

"Elfo estúpido!" Irritou-se o rei. "Se pudesse fazer tal ato, se pudesse ditar de tal forma o quando e o onde, o teria feito há anos! Sequer o teria exilado! Existem regras e você as conhece bem. Porque quer me roubar a sanidade em um momento como esse?"

"Só busco entender o sacrifício a que submeteu essa pobre criança." Declarou o outro com amargura.

"Não tem que compreender nada. Faça sua obrigação e eu farei a minha. Não diminuirei o mérito que honra o príncipe. Ele conquistou o seu perdão e não o ganhou de presente. Ele fez por merecer. Mostrou-se digno e forte diante de seu povo e não só diante de mim. E você me dizendo essas tolices só está fazendo com que o sacrifício do rapaz tenha sido um ato tolo."

"E o foi!" Aborreceu-se o curador. "Olhe para ele! Não faz idéia do quão ferido ele está? Quer que lhe dê os detalhes?"

"Cale-se." Aborreceu-se o rei. "Se o menino está ferido trate de colocá-lo em pé. Essa é sua função."

E o som de uma porta batendo violentamente encerrou a conturbada conversa, enquanto a escuridão o clamava uma vez mais.

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"Não... não... por favor, não temos tempo."

"Está tudo bem, Legolas. Você está no palácio. Durma agora."

"Não posso... precisamos... precisamos...

Faernestal estalou os lábios preocupado. Já havia se passado três dias e o príncipe não conseguira se entregar completamente a um sono tranqüilo desde que chegara. Nem mesmo as ervas que o curador o obrigara a tomar pareciam estar se encarregando de proporcionar ao rapaz o descanso do qual precisava.

"Faernestal..." O jovem chamou tentando abrir os olhos.

"Legolas." Preocupou-se o curador apoiando uma mão na testa do menino. "Legolas, você precisa dormir. Está ferido, está ferido demais, não conseguirá melhorar. Precisa urgente da ajuda do sono da recuperação."

"Por favor..." Dizia o rapaz apertando agora a mão do elfo.

O curador esvaziou os pulmões e retribuiu o ato do rapaz enquanto tentava calar o aflito coração, que insistia em lhe dizer que os rumos ali apresentados não pareciam ser os melhores.

"Certo." Decidiu o elfo procurando parecer tranqüilo apesar de muito daquela situação estar além do que ele conseguia compreender. "Diga-me o que posso fazer para que você descanse."

"O... rei..."

Faernestal baixou os olhos. De fato Thranduil sequer entrara naquele quarto depois que colocara o príncipe por sobre a cama. Ele parecia tomado novamente pela rotina desgastante que levara sempre, sem que qualquer lição tivesse sido apreendida do tomento que todos julgavam encerrado. Vez por outra um de seus mensageiros entrava no quarto e perguntava pelo rapaz a mando do pai, mas essa era a única demonstração de interesse que o rei lhes proporcionava. O curador lamentava, mas entendia, ele compreendia os receios do rei, o medo que o corroia, o medo de ter sua atenção desviada dos problemas que tinha para resolver, o medo de uma preocupação maior crescer tanto em seu coração que ele não tivesse mais espaço para cuidar daquele povo que tanto precisava de sua proteção e conhecimento.

"Legolas... seu pai está... está muito ocupado, menino. Ele virá assim que você estiver melhor..." Ofereceu o curador aquelas palavras que nem sequer o convenciam.

Legolas apertou os lábios. Ele conhecia bem o pai, sabia que aquele perdão que lhe fora oferecido atingia somente sua posição de príncipe e não a de filho, essa posição ele já perdera há muito tempo. Seu coração já desistira de tentar ganhar o afeto do pai. Mas o problema que o afligia era outro.

"Preciso... falar com ele, Faernestal..." Pediu então conseguindo finalmente abrir os olhos. "É importante... por favor... vá buscá-lo."

O curador sentiu uma agonia correr-lhe o corpo como uma febre ruim. Ele sabia que não conseguiria convencer Thranduil a dedicar-lhe algum tempo

"Legolas... ele... ele não virá, menino..."

O coração de Faernestal apertou-se no peito ao sentir o rapaz fechar os lábios para reprimir um soluço que lhe subia a garganta. Ele voltou a apoiar uma mão na testa febril do arqueiro, lamentando não haver mais nada que pudesse fazer.

"Há quanto tempo estou aqui?" Indagou o príncipe engolindo a dor que sentia e virando o rosto para fugir daquele olhar que o inspecionava a todo o instante.

"Hoje será a quarta lua." Lamentou-se o curador olhando pela porta entreaberta da varanda. Sim. Quatro dias era tempo o suficiente para tirar qualquer elfo da cama, mas Legolas não demonstrara um sinal convincente de recuperação.

Legolas abriu novamente os olhos sobressaltado.

"Quatro dias?" Ele repetiu em desespero tentando levantar-se mesmo com uma dor terrível enfrentando-o como inimiga à altura.

"Legolas, pare!" Zangou-se o curador apoiando ambas as mãos no peito do rapaz. "O que pensa que está fazendo?"

"Tenho que ver o rei!" Retorquiu o arqueiro.

"Deixe de tolices. Não vai levantar dessa cama nem por sobre meu corpo vazio." Ameaçou o outro elfo franzindo muito a testa e erguendo-se levemente para poder segurar melhor seu rebelde paciente. "Vou lhe dar um pouco mais de sedativos e você vai dormir."

"Não! Não, Faernestal." Apavorou-se o príncipe com os olhos muito abertos, em seu rosto traços visíveis da dor. "É importante! Eu... eu ..."

"Você nada, Legolas. Você não tem voz aqui, entendeu? Não vou tolerar sua rebeldia dessa vez, não ferido com está."

"Faernestal..."

"Falo sério menino. Vou amarrá-lo a essa cama se me obrigar."

"Nós..."

"Legolas..."

"Vamos ser atacados..."

"Legolas quer tratar de... Nós, o quê? Do que está falando, menino?"

Legolas finalmente aquietou-se em seu leito, aliviado por ter a atenção do curador que perdera totalmente a cor, voltando a sentar-se ao lado dela na cama.

"Vamos ser atacados, Faernestal..." Informou o rapaz sem conseguir fixar seus olhos no outro elfo. "Precisa me ouvir... preciso lhe contar para que você vá levar minhas informações ao rei já que ele não quer me ver mais..."

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"E você espera que eu acredite em uma informação cuja fonte é o traidor filho de Maeoneth?" Ironizou o rei voltando a sentar-se diante de seu mapa verde.

"Legolas parece convencido, Thranduil."

"Tolice. Legolas acredita em tudo e em todos. Está evidente que aquele traidor das trevas deixou plantada a sua última semente de discórdia antes de seu merecido fim."

"E se for verdade? E se o menino tiver razão. Se Rhunoir se redimiu e..."

"Se se se se..." Irritou-se o rei. "O 'se' habita os bons e maus caminhos... eu não quero 'se' algum decidindo meu destino..."

"E o que vai decidir o seu destino então, Thranduil?" Irritou-se também o curador.

"A minha espada!" Gritou o rei. Estava exausto, não havia dormido desde o dia que chegara e tudo o que não precisava era de um menino tolo e um curador irritante lhe dizendo que atitude tomar. "Quer experimentar o poder de minha arma?"

"Thranduil, não me falte com o respeito, menino! Não há ninguém aqui nessa sala conosco. Não vou tolerar!"

O rei apertou os lábios e seu rosto se contorceu em uma faceta aterradora. Ele odiava quando Faernestal recorria a tal tratamento para lembrá-lo que o conhecia desde criança.

"Então não me tire do sério, elfo estúpido e vá cuidar de suas obrigações."

"Thranduil!"

"Pare de repetir o meu nome, criatura! Por Mandos, deixe-me em paz! Não confia mais em meus julgamentos como líder de guerra? Não confia mais em mim? Se não confia vá buscar outro reino para viver e oferecer seus conselhos tolos."

Faernestal sentiu a paciência lhe fugir como um barco cujo vento forte abraça as velas. Naqueles anos todos ele apreendera a duras penas como lidar com a personalidade difícil do rei. Ele jurara fidelidade ao elfo assim como fizera a Oropher, mas naquele instante, com tanto a lhe preocupar, os ferimentos de Legolas, a dúvida que lhe estava corroendo a alma, simplesmente não conseguia tolerar os acessos de líder de Mirkwood. Ele balançou a cabeça desapontado, olhando agora para as costas que o rei lhe oferecia. Thranduil colocara as duas mãos na mesa e deixava a cabeça apoiada por sobre elas.

"Vou relevar o que disse, criança ingrata." Disse com tristeza. "Pois sei que sua teimosia o impede de ver o quão está cansado." Ele deu as costas então dando alguns passos na direção da porta.

"Lamento, velho amigo." Veio enfim a voz do rei que ergueu a cabeça e apoiou o rosto nas mãos abertas. "Estou tentando cavalgar esse animal rebelde e selvagem que o destino me concedeu... e... às vezes é muito difícil."

Faernestal se voltou surpreso. Era a primeira vez que ele ouvira o rei se desculpar. Voltou-se então vagarosamente e apoiou uma mão nas costas do líder elfo. Thranduil ergueu-se e afastou-se devagar, como se fugisse do ato de amizade do curador. Faernestal sorriu um riso leve, nessas horas ele entendia bem porque o caminho da vida tinha cruzado a estrada daquele elfo orgulhoso com a do doce Legolas.

"Descanse, Thranduil. Nem que seja nessa bendita cadeira. Pouco tempo lhe bastará, elfo teimoso."

Thranduil balançou a cabeça em concordância, ainda de costas, mas Faernestal sabia que o rei o fazia apenas para se ver livre daqueles conselhos que não o interessavam nem um pouco. O curador suspirou, mas decidiu que já tinha feito a sua parte. O restante tinha de fato que ficar a encargo daqueles que possuíam o conhecimento apropriado para a situação. Seu conhecimento era exigido em outro lugar agora, ao lado de um elfo ferido e adoecido que precisava de seus cuidados e que ele displicentemente deixara sozinho para cumprir essa tarefa infrutífera. Pensando nisso ele se voltou para sair uma vez mais e sobressaltou-se incrivelmente.

"Legolas?" Indagou incrédulo olhando o rapaz apoiar-se no batente da porta do gabinete. Ele mantinha uma perna erguida e o rosto camuflava as dores que o agoniavam. "Elbereth, como chegou aqui?"

Thranduil voltou-se surpreso também e seus olhos reencontraram os do filho.

"Preciso falar com o rei."

Faernestal aproximou-se, mas Legolas encolheu-se para que não fosse tocado, ele temia que o amigo o levasse de volta a força.

"Legolas, não pode estar de pé. Não posso permitir." Disse o curador segurando o rapaz agora contra a vontade.

"Faernestal, por favor." Pediu o príncipe sem forças para uma investida contra o outro elfo. Ele voltou-se para o amigo e fixou seus olhos muito azuis nele. "Já há muito o que me separa de meu rei, nobre amigo." Ele atestou com tristeza. "Não seja mais um obstáculo para mim... não tenho como transpor mais nada que se coloque a minha frente."

As palavras duras e tristes do jovem elfo tocaram profundamente o coração já experiente do curador. Faernestal voltou-se para Thranduil que mantinha seus olhos presos também no filho, um verde brilhante de tristeza e dúvida.

"Deixe-o." Disse então o rei se aproximando e enlaçando mais uma vez a cintura do rapaz para trazê-lo para um grande divã que ficava em seu próprio gabinete. Thranduil o mantinha lá para que se o cansaço o abatesse ele se deitasse por alguns momentos sem que tivesse que se dirigir ao quarto. Thranduil acomodou o jovem elfo que quis protestar ao ver-se obrigado a se deitar, mas obedeceu sem dizer palavra alguma. Thranduil sentou-se no mesmo divã em frente ao filho, em seguida olhou para o curador. Faernestal sorriu.

"Chame-me se precisar, senhor." Ele disse vestindo mais uma vez sua máscara habitual e deixando o local um tanto apreensivo.

Thranduil olhou pela porta da sacada. Era tarde ainda. Um entardecer rosa que coloria um céu finalmente azul.

"Como se sente?" Indagou após um longo silêncio. "As dores melhoraram?"

"Sim, senhor." Mentiu o rapaz, desviando seus olhos dos do pai.

"Bom." Thranduil fingiu acreditar. Não queria criar uma discussão por algo tão pequeno.

"Senhor..." Legolas quis ir direto ao assunto. Sabia que o rei não ficaria simplesmente sentado ali conversando com ele sobre assuntos banais.

"Faernestal já me contou sua história, Legolas."

"Não precisa me dar crédito, majestade." Respondeu o rapaz com uma convicção que surpreendeu ao pai. "Eu só peço que mande um grupo até lá. Existe uma entrada a esquerda, logo ao norte, atrás da floresta das árvores tortas...

"Legolas..."

"Se impedir de alguma forma que alguém possa utilizar tal saída, se fechar esse caminho para luz, acabará com o que quer que tenha intenção de sair de lá. Não há outra maneira se não essa, meu senhor."

"Legolas..."

"E se não eu tiver realmente sido enganado... Se não houver nada... Só terá perdido tempo... e aquela estranha munição que Mithrandir nos cedeu."

"Prometemos não usá-la, menino." Surpreendeu-se o rei com um meio sorriso, estranhamente entusiasmado com a idéia de fazer uso de tão estranha provisão de guerra.

"Eu me responsabilizo, meu senhor." Respondeu o rapaz baixando os olhos.

Thranduil apertou os lábios insatisfeito.

"Já não vem se responsabilizando por muito nesses anos todos, rapaz?"

Legolas fechou os olhos.

"Não pelas coisas certas pelo visto, majestade."

Thranduil suspirou, um tempero de apreensão e compaixão coloria-lhe a alma. Legolas mantinha o rosto voltado para os restos de céu azul que via da porta da varanda. Fechos de luz que escapavam de longe, venciam a caverna escura e ofereciam-lhe uma pequena paz.

"Não tenho como chegar a tal lugar sem um mapa atualizado, capitão." Disse o rei sentindo que precisava tirar o ar de tristeza que se instaurara nas faces do filho. "Seria muito arriscado. Nossos elfos não vistoriam tal região há muitos anos."

Legolas voltou-se para o pai com um leve sorriso. O fato de o rei atribuir-lhe de volta o cargo que exercia se fazia certeza de que realmente ele estava sendo aceito em seu reino de forma definitiva. Mas infelizmente, aquele não era o tratamento que ele tanto ansiava receber do pai.

"Eu conheço o lugar." Declarou em um tom triste, tentando afastar as tolas esperanças que vez por outra insistiam em renascer. "Morei naquela região... durante um tempo."

Thranduil não se alterou. Seus pensamentos já estavam perdidos, traçando caminhos e possibilidades. "Isso não nos ajuda." Declarou com frieza. "Já que não está em condições de ir até o campo de batalha."

Legolas voltou a baixar os olhos. O pai tinha razão. Thranduil ergueu-se e sentou-se novamente diante de sua grande mesa, puxando um novo mapa para cima dela e vasculhando-o com um olhar minucioso. Legolas se permitiu ficar ali observando o pai, lembrando-se de quando se escondia para vê-lo trabalhando. Aquela era uma das poucas vezes em que desejou que Thranduil se esquecesse dele, o deixasse ali onde estava, imaginando-se aquele elfinho uma vez mais...

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"Thranduil?" Uma voz chamou.

"Entre." Respondeu o rei.

A porta se abriu devagar e a figura esguia e leve de Elvéwen entrou olhando a sua volta. Thranduil franziu as sobrancelhas e acompanhou o gracioso movimento da esposa pelo gabinete, ela deslizava o olhar pelos cantos do cômodo com um leve sorriso nos lábios.

"Perdeu alguma coisa?" Indagou olhando ao redor também, porém sem saber o que buscar.

"Perdi." Disse ela sorrindo.

"Com certeza não perdeu aqui." Aborreceu-se o rei que não gostava de ser interrompido. "Sequer freqüenta meu gabinete."

"Verdade." Ela concordou ignorando o tom pouco cordial do marido. "Eu não o freqüento... Mas alguém parece estar querendo freqüentar."

Thranduil apertou os olhos sem entender e começou a sentir a exasperação correr-lhe a espinha. Ele tinha muito o que fazer. O que Elvéwen queria ali afinal?

"Preciso trabalhar." Ele disse.

"Eu sei." Ela respondeu continuando sua busca, olhando agora por debaixo dos móveis com os joelhos ligeiramente dobrados.

"Então porque não me diz de uma vez o que está buscando e lhe direi se está aqui ou não. Conheço cada pedaço desse lugar maldito, se um inseto entrar aqui eu saberei."

Elvéwen endireitou o corpo finalmente e lançou um olhar triste ao esposo. Ele raramente usava com ela o mesmo tom rude com o qual costumava tratar as demais pessoas que o rodeavam, mas aquele parecia ser um dos momentos em que o rei precisava ser lembrado de com quem estava falando.

"Se isso fosse fato teria percebido que não esteve só durante o dia todo, elfo tolo e presunçoso." Ela respondeu pacientemente, colocando as mãos na cintura e oferecendo um pequeno sorriso.

Thranduil apertou os olhos e suas sobrancelhas se fundiram incrivelmente, mas ele nada questionou, apenas ergueu-se e apanhou a mão que a esposa lhe estendeu para ajoelhar-se no chão conforme ela o instruía. Embaixo de um grande armário de madeira maciça e cristal no qual o rei guardava armas antigas e outros objetos de valor, os dois puderam avistar algo inesperado, uma luz dourada cujo centro era abençoado por um par de brilhantes azuis.

"Tem certeza que esteve só, hervenn-nín(meu marido)?" Ela brincou estendendo as mãos para o vulto que se mexia levemente agora embaixo do grande móvel.

Thranduil apertou os olhos e quando finalmente conseguiu distinguir a figura a qual Elvéwen se referia sentiu-se embaraçado.

"Não acredito, Elvéwen!" Ele se indignou. "Não olha mais por nosso filho?"

A esposa fechou os olhos, mas ignorou as palavras rudes do marido uma vez mais.

"Olho." Ela respondeu com simplicidade. "Aliás estou procurando por ele há horas. Mas parece que não é do meu olhar que ele está sentindo falta." Ela terminou franzindo levemente as sobrancelhas ao perceber que o elfinho não parecia ter a intenção de vir ao encontro dos braços que ela lhe estendia.

Thranduil voltou a franzir todo o rosto e olhou outra vez para o par de olhos azuis que se encolhiam ainda mais em seu esconderijo escuro. Então percebeu do que a esposa estava falando. Ele ergueu os braços com receio para o filho e notou uma reação, uma indecisão entre o atender ou não ao pedido que lhe era feito.

"Venha aqui, esquilo." Chamou com vigor. "Não quero você embaixo de um móvel de tanto peso assim, elfinho tolo. O que lhe deu na cabeça?"

"Ada..." A voz triste do menino surgiu. "Não brigue com o Las..."

Elvéwen desviou os olhos e o olhar dela se cruzou com o do marido. Thranduil franziu os lábios e voltou-se novamente para a figura escondida.

"Não estou zangado, esquilo. Vamos. Saia daí."

E ao receber este sinal de paz o elfinho obedeceu, arrastando-se devagar, até que o pai alcançou um dos braçinhos do menino e puxou-o o resto do trajeto.

"Que beleza!" Ironizou o rei erguendo-se com o filho nos braços enquanto limpava-lhe a roupa empoeirada. "Lembre-me de pedir um pouco mais de atenção aos serviçais na limpeza de certos... cantos escuros..." Ele sorriu recebendo um aceno e um sorriso de Elvéwen também.

Legolas esfregou o nariz com a palma da mão e logo em seguida espirrou, fazendo os pais rirem ainda mais.

"Decididamente isso aqui precisa de uma limpeza." Elvéwen declarou deslizando os dedos finos pelas maças rosadas do rosto do filho. "Por que estava escondido aqui, tithen pen?(pequenino)".

Legolas baixou o rosto forçando o queixo contra o peito e ganhando um ar ainda mais adorável que só trouxe novos sorrisos aos lábios dos pais.

"Estava vendo ada trabalhar." Ele declarou para a surpresa de Thranduil.

"O dia todo?" Indagou a mãe. "E não ficou cansado?"

"Não..." Respondeu o elfinho deitando a cabeça no ombro do pai e bocejando involuntariamente, fazendo cair por terra a resposta dada.

A mãe riu uma vez mais, mas Thranduil sentiu-se ligeiramente incomodado com aquilo.

"Ada também não ficou, nana..." Declarou então o menino abraçando o pescoço do pai e acomodando-se mais no ombro largo. "Ele trabalha muito sabe..." Disse fechando e abrindo os olhinhos que perdiam o foco devagar. "mas nunca fica cansado..." Completou adormecendo em poucos instantes.

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Legolas virou-se para que o pai não visse as lágrimas que derramara involuntariamente. Mas ele sabia que não precisava se preocupar. Quando o rei estava envolvido em um projeto ou problema ele raramente tinha olhos para o que estava a sua volta.

"Precisamos de um mapa melhor." Disse o rei erguendo-se de repente. "O que posso fazer é mandar uma equipe de batedores e cartógrafos para mapear melhor a região. Eles sairão amanhã com o nascer do sol."

"Não!" Protestou o príncipe. "O tempo não é nosso aliado, meu senhor. Só temos onze luas... Não é tempo suficiente para que o grupo vá, volte com as informações e..."

"Não tenho outra escolha, Legolas." Ele retrucou. "Não posso arriscar meus melhores elfos em um campo que desconheço."

"Já estivemos lá..."

"Não fizeram mapa algum."

"Eu conheço a região... a conheço bem, senhor." Insistiu o rapaz.

"Não entende mais nossa língua, elfo tolo? Ficou tanto tempo fora assim?" Irritou-se o pai. "Não pode acompanhar o grupo e não vou deixar meus melhores elfos seguirem meras descrições de um lugar que desconheço. É uma missão muito arriscada para ser feita baseada apenas em dados orais."

"Mas senhor..."

"Ponto final, elfo teimoso. Não me tire do sério." Ele disse enfim abrindo a porta do gabinete. "Não vou demorar."

Legolas suspirou e fechou seus olhos. A tempestade, que o girava em eternos círculos de dúvidas e temores, parecia que nunca aplacaria. Era na certa algum castigo eterno que lhe perseguiria até seus último dias na Terra-Média. Oh Iluvatar como ele queria poder descansar. Dormir de fato sem os pesadelos que tinha, sem aquele calafrio da febre estranha que o assolava vez por outra e sem a preocupação com o dia de amanhã.

&&&

Thranduil passara muito mais tempo do que planejara conversando com todas a suas patrulhas, procurando alguém que se lembrasse do local, colhendo informações. Quando regressava para o gabinete já sentia seu coração preocupado com o filho. Sempre que se ausentava mais do que o necessário em qualquer situação costumava colher frutos muito amargos.

Abriu a porta devagar e deu alguns passos silenciosamente, olhando para o grande divã, na expectativa de encontrar o filho descansando. Mas tal expectativa não se efetivou, ao entrar no gabinete tudo o que viu foi o divã onde deixara o filho incomodamente vazio. Legolas não estava nele. Thranduil sentiu um terrível frio na espinha e circulou o cômodo inteiro em segundos para finalmente encontrar o rapaz, sentado em sua cadeira em frente à mesa que fora de seu pai.

"Pesadelo de meus dias..." Ele disse, franzindo a testa em irritação ao mesmo tempo em que esvaziava os pulmões aliviado, e se aproximou devagar. "Quer me tirar os restos de paz que ainda me abençoam?"

Mas eu sei íntimo Thranduil saboreava a cena, saboreava ver o filho ali, tomando o lugar que era dele, uma esperança que há muito tempo ele cultivara, mas que agora sabia ser bastante improvável. Sacudiu levemente a cabeça e estranhou não receber nenhuma resposta. O jovem elfo mantinha uma das mãos por sobre a mesa e o rosto deitado de lado por sobre ela. O braço esquerdo continuava encolhido por sobre o colo, provavelmente poupando o ombro machucado. Quando o rei aproximou-se o suficiente percebeu que o filho tinha os olhos fechados e os lábios levemente soltos, parecia dormir. Por sobre a mesa havia um novo mapa desenhado com todos os detalhes que o pai precisava, a floresta das árvores tortas, a grande gruta, as pequenas montanhas.

"Certas lembranças nos vêm em horas muito apropriadas." Thranduil riu correndo os dedos pelo mapa, havia se esquecido o quão bom cartógrafo o filho era, aprendera apenas observando o pai trabalhar, por mais que Thranduil não gostasse daquilo. "Bom trabalho, menino." Ele disse para si mesmo ainda correndo os olhos por cada detalhe que lhe era visível, o grande comandante traçando involuntariamente novos planos de batalha.

Ficou perdido naquele ambiente desenhado pelo filho por alguns instantes, percorrendo os cenários, subindo e descendo colinas em seu cavalo. Despertando apenas com um leve gemido. Ele voltou-se para o filho adormecido e só então perceber que o rosto do arqueiro contorcia-se de dor. Thranduil amaldiçoou-se por não dar atenção ao rapaz tão mal acomodado naquela posição absurda. Rapidamente ele estendeu a mão apoiando-a nas costas do jovem elfo que despertou com um grito de dor.

"Não! Não!" Legolas gritou erguendo-se depressa demais para desequilibrar-se com a dor, em seguida e ser segurado pelo pai antes que caísse.

"Quieto." Ordenou o rei enlaçando a cintura do filho e segurando o punho que o rapaz instintivamente ergueu em sua defesa. "Nenhum mal vai lhe ameaçar."

Legolas caiu então na realidade de seus arredores, finalmente desperto de mais um pesadelo terrível. O pai não esperou por resposta alguma, conduzindo-o novamente para o divã onde estava anteriormente e apoiando suas costas em alguns travesseiros. Legolas olhou-o com consternação, ele esperava que o rei elfo se zangasse, mas tudo o que Thranduil fez foi voltar rapidamente para o mapa que o filho desenhara e seus olhos se perderam uma vez mais entre linhas e idéias. Legolas riu um riso triste, mas sentiu-se satisfeito por ser útil pelo menos uma vez.

"Falta uma das montanhas..." Ele admitiu.

O rei ergueu os olhos.

"Não se lembra delas?"

"Lembro-me, senhor." Respondeu o rapaz corando ligeiramente. "Mas não consigo desenhá-las."

Thranduil estranhou as palavras do filho e, apanhando mapa e tinteiro, aproximou-se do leito estendendo o pergaminho por sobre o colo do rapaz. Legolas baixou os olhos envergonhado.

"Ficou um bom trabalho." Disse o rei sentando-se novamente em frente ao filho. "Havia me esquecido o quão eficiente você é nesse tipo de tarefa, capitão."

Legolas comoveu-se com o elogio do pai. Thranduil sempre fora honesto com seus soldados e empregados. Não era adepto a palavras gentis, mas um elogio merecido sempre saia de sua boca em qualquer que fossem as circunstâncias.

"Ainda... falta.. a montanha detrás..." Ele repetiu com insegurança.

"Desenhe-a então, menino." Disse o pai oferecendo-lhe a pena e segurando o tinteiro.

Legolas estremeceu e seus olhos ganharam um brilho que preocupou o pai. Ele então ergueu a mão, mas esta tremia tanto que o rapaz sequer conseguia segurar a pena. Thranduil empalideceu.

"Vou chamar Faernestal." Ele disse levantando-se.

"Não, por favor, senhor." Gritou o jovem quando o pai já estava quase à porta. "É a febre... ela vem e vai... dê-me mais um tempo, majestade..."

Thranduil ergueu o queixo e lançou um olhar desconfiado para o filho.

"Deixe de tentar enganar a seu rei, elfo tolo." Ele disse ainda com a mão na maçaneta.

"Não quero mais mentir para ninguém, meu senhor." Admitiu o rapaz. "Especialmente para o meu rei."

Thranduil soltou os braços por alguns instantes e fitou o filho com mais carinho do que gostaria. O rapaz tinha seus olhos cercados por círculos escuros e a pele mais pálida do que o mais alvo dos elfos. Seu rosto era um reino de cicatrizes e o corpo uma floresta de bandagens e hematomas. O rapaz fizera muito em erguer-se e fazer o que tinha feito. Faernestal reivindicaria sua alma se soubesse que havia deixado o rapaz sozinho por tanto tempo.

"Por favor, majestade." Repetiu o arqueiro. O que menos queria naquele momento era a figura de Faernestal lhe fazendo beber aquelas ervas do sono, que só faziam aprisioná-lo dentro de seus pesadelos sem sequer oferecer-lhe a chance do despertar. "Vai passar..."

Thranduil acenou com a cabeça como se compreendesse os temores do jovem arqueiro e aproximou-se devagar, sentando-se dessa vez ao lado do filho. Legolas estranhou ao ver o pai ajeitar-se também por sobre os mesmos travesseiros, seu ombro colado ao dele.

"Posso fazer os traços que suas mãos se recusam a fazer." Ofereceu o pai apoiando ambas as pernas por sobre o divã também e colocando o mapa sobre seu colo. "Mas você precisa me guiar." Ele completou olhando para o filho, que há muito não estivera tão próximo dele assim e entregando-lhe o tinteiro para que segurasse."

Legolas não pode evitar o leve sorriso que lhe veio aos lábios e acenou veementemente com a cabeça como uma criança convidada a uma nova brincadeira. Thranduil fez o possível para aprisionar o sorriso que ele também queria oferecer e disfarçou-se em sua postura séria. Legolas procurou acompanhar a seriedade do pai, mas logo estava sorrindo novamente.

"Diga-me então." Disse o rei.

O príncipe obedeceu, oferecendo os traçados, os caminhos, as alturas e distâncias e o rei as passava para o papel com destreza. Legolas era um grande cartógrafo, mas Thranduil era o melhor deles. No meio do trabalho o pai passou o braço pelas costas do jovem elfo puxando-o suavemente para se encostar mais nele.

"Venha mais para perto." Ele disse ignorando a emoção que despertara no filho a seu lado. "Assim pode ver melhor se estou realmente sendo fiel. Sabe da importância desse mapa."

"Sim, senhor." Disse o rapaz em um tom quase inaudível. Ele queria que o pai não percebesse que seu coração agora parecia bater em plenos lábios, quase lhe escapando boca a fora, mas estava muito difícil fazê-lo. Thranduil por fim ergueu a mão que estava no ombro do rapaz e gentilmente conduziu o filho a apoiar a cabeça em seu ombro. Ele sabia o quão cansado o arqueiro estava, Faernestal queixava-se de que o menino simplesmente não dormia por mais dopado que estivesse, Thranduil alimentava agora a ligeira esperança de conseguir acalmar o filho a tal ponto que o sono lhe favorecesse sem que ele precisasse daqueles terríveis sedativos. Legolas obedeceu sentindo o corpo finalmente relaxar ali, nos braços do pai, o último lugar em Arda onde ele julgava um dia adormecer. Seus olhos pesavam, o desenho estava pronto. Thranduil apenas perdia algum tempo refazendo linhas, melhorando detalhes que já eram óbvios, tão óbvios quanto a intenção do pai de ganhar tempo e ficar onde estava, até que seu propósito se concretizasse. Um senhor de guerra, vencendo mais uma batalha...

"Senhor..." Surgiu a voz cansada do príncipe, cujos olhos já estavam fechados.

"O que é?" Indagou o rei tirando o tinteiro da mão do rapaz e colocando-o no chão ao seu lado.

"O perdão que o senhor concedeu..." Ele arriscou temeroso em abrir os olhos mais uma vez.

"O que tem ele?"

"Foi somente... somente para o príncipe..." Inquiriu o rapaz. A voz trêmula denunciando a incerteza que lhe castigava a alma. "ou... foi para o... para o filho também..."

Thranduil fechou seus olhos também. Ele sabia o que o filho queria saber. Ele queria saber se ia poder usar novamente a palavra que ele proibira. E como ele gostaria de ouvir aquela palavra agora, sem lembrar-se da cena que se dera, sem lembrar-se de um certo elfo cujos sentimentos antagônicos de gratidão e ódio se mesclavam aos outros pesadelos que o atormentavam. Sim. Ele queria ouvir o filho usar aquela palavra mais uma vez, mesmo com as lembranças que a acompanhavam.

"Eu perdoei o príncipe." Disse o rei buscando um pouco de ar para seus pulmões também cansados. "O perdão do filho... esse virá..." Ele suspirou.

"Quando?" Indagou o rapaz finalmente abrindo seus olhos e encarando o pai com coragem. "O que tenho que fazer para merecer seu perdão, senhor?

Thranduil olhou para o filho, a seriedade de sempre em seus traços, mesmo a centímetros de distância. Em seguida ele voltou a apoiar a palma por sobre o rosto do rapaz, conduzindo-o mais uma vez a deitar em seu ombro e fechar os olhos.

"Dormir." Ele disse. "E ficar bom."

Legolas sentiu um nó correr-lhe garganta acima e ele usou o máximo que pode de suas forças para não chorar com as palavras do pai. Seu corpo estremeceu e Thranduil o enlaçou com os dois braços agora fazendo com que o menino deitasse por sobre seu peito. Legolas retribuiu o abraço e o calor que seu pai lhe oferecia e finalmente adormeceu um sono sem sonhos.

Quando Faernestal entrou muito tempo depois, movido pela preocupação que lhe tirava a paz ele sentiu um grande alívio em ver que ambos, pai e filho dormiam profundamente naquele pequeno divã, abençoado pela luz das estrelas que começavam a surgir no céu da eterna Greenwood.