Olá. Espero que vocês estejam todos bem.

Presumo que estejam bastante zangados comigo nessa altura dos acontecimentos. Peço desculpas e pedirei outras. Fim de ano, época de provas, entrega de papers finais, de pré-projetos, novos problemas com o computador, problemas, problemas, problemas.... Enfim. Eu lamento muito pelo atraso, por todos os atrasos... lamento mesmo.

Sobre o capítulo final... Bem, não é esse... e não será também o próximo... Ai... agora estão zangados, não estão? Mas me deixem explicar. O capítulo final, com suas devidas correções e outros detalhes que julguei necessários ficou com praticamente 80 páginas (sabem que sou exagerada... eu tento me policiar mas... Bem, eu tive que dividi-lo ou então enfrentaria outros tipos de reclamações muito justas também).

Os capítulos agora estão definitivamente prontos, mas vou dar um intervalo para que vocês possam ler e revisar cada um se possível (revisem e me apontem os erros, por favor, pois nessa correria acho que deixaria passar até um "nóis vai"). Mas, falando sério, sinto-me mais segura assim, pois, de repente, algum engano em uma parte pode repercutir nas outras e assim sendo tenho tempo de arrumar. Espero que tenham tempo para ler também, mas se não tiverem eu vou entender.

Aviso... esse é um capítulo triste... A tempestade que precede a bonança.

Agradecimentos:

Lady-Liebe – Finalzinho Liebe!!! Beijos.

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Obrigada pelo apoio de sempre. Ainda me admiro relendo essa grande obra que você escreve. Grande beijo.

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" / "DAROR E MÍRIEL" – Encerrou-se um grande texto, uma das melhores fics que já li. Mas é como eu vinha dizendo, quem se encantou pela bela e forte Darai vai se apaixonar pelo poderoso Daror. Peçam para que os elfos que habitam o coração de vocês dêem espaço também para o maravilhoso povo Haradrim. Eu o fiz e não me arrependo. Adoro esse texto com todas as minhas forças e acho que vocês também vão gostar e vão se encontrar de verdade em uma das várias personagens femininas que a Myri tão bem está desenvolvendo. Parabéns, amiga.

Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Minha fic de cabeceira. Continua bela e poética. A doce Ivy encontrou finalmente um novo amor... e quem poderia ser?? Bem, não vou contar!! E quem ler vai se surpreender em ver o que um belo elfo moreno é capaz de fazer quando ama. Leiam!!! Beijos para minha talentosa amiga e irmãzinha do coração.

Vicky Weasley: "BITTERSWEET" Obrigada pelo e-mail Vicky. Estava preocupada com você. Espero que as coisas melhorem e que você volte a atualizar sua bela fic. Obrigada por ainda estar lendo minha fic mesmo com tudo o que anda preenchendo sua vida. Beijos.

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – LEIAM!!! Completinha. E a poderosa Ju continua produzindo como nunca. Parabéns e obrigada pelo apoio e pela sua maravilhosa review. Fico tão contente quando leio suas opiniões sobre minha fic. Beijos.

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Lali!!!

Kika-Sama: "APRENDENDO" Foi atualizada. Bela fic, mergulha fundo nos sentimentos e contradições de cada personagem. Adoro e agradeço a Kika por ter reservado um tempo para nos presentear. Agradeço também por seu apoio e valorosas opiniões. Beijos.

Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" É fato. Está sendo reescrita e muito bem reescrita. Chell!!! Eu revisei o maravilhoso, fabuloso, divino capítulo que você me mandou, mas não consigo mandá-lo de volta para você. Sua caixa está sempre cheia.

Gente!! Larguem desse Hotmail e abram uma caixa no Yahoo... é bem maior, bem maior!!! Diga-me para onde mandar amiga! Super beijo.

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". A fic favorita da minha filha. Ela fica perguntando sempre quando será atualizada. Parabéns pelo texto doce e singelo, amiga. Estou lendo sua nova fic do HP e logo te mando as revisões. Beijos!!

Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Atualização!!! Sim!!! Texto divino da talentosa Kiannah. Leiam agora, pois é o que vou fazer. Obrigada por suas reviews e por dizer coisas que só podem mesmo sair de uma mente privilegiada como a sua. Beijos.

Soi – "IDRIL NÚMENESSË". Lindíssima fic da Soi que está sendo até retratada em desenhos. Amiga, quero ver!!! Leiam, vale a pena. Obrigada por tudo, pelo apoio, pelo carinho. Beijos.

IamAGreekLeaf – "RÚNYA" – Continuo recomendando.

Nanda –Nanda, minha amiga e conselheira para assuntos de Mirkwood. Super obrigada, sua ajuda caiu do céu e sua amizade foi um presente dos anjos. Fico feliz por ter te conhecido e ainda espero ansiosamente pela publicação de seu texto incrível. Beijos.

Regina – "ELDAR E EDAIN". Regina finalmente publicou. Belo texto, envolvente, profundo. Li os capítulos como quem devora o mais saboroso dos pratos. Grande talento tem a nossa Regina. Agradeço a oportunidade de ler o texto antes da publicação e admiro muito sua maneira de escrever. Recomendo, recomendo e recomendo a todos esse belíssimo texto. Beijos, amiga.

Amigas...

Syn, the time keeper. Adoro suas reviews. Muito obrigada por não me deixar nunca. Estou no final totalmente agradecida pelas amizades que encontrei. Beijos.

Botori – Outra grande amiga que está comigo há muito tempo. Esse capítulo é para você e sua irmã. Espero que gostem. Obrigada por tudo Bot. Adoro você.

Leka – Doce Ellahir. Capítulo escrito para vocês duas. Agradecimentos nunca seriam suficientes. Beijos.

Lali-chan – Outra pessoa por quem agradeço a fic ter se estendido, pois assim eu a conheci. Super obrigada pelas reviews, seus últimos comentários me encantaram e me motivaram demais. Beijos.

Veleth – Poetisa maior. Uma das minhas mestras. Agradeço os pedaços de beleza que você me manda. Obrigada pelo carinho e pela paciência, amiga.

Pink na – Agradeço por gostar do meu texto. Beijos.

Roberta – Agradecimentos, sempre. Beijos!

Naru-sami – Que bom que gostou do capítulo 38, fico muito feliz por receber sua opinião. Obrigada. Beijos

Pitybe – Obrigada pelo valoroso apoio e por suas palavras doces. Seus comentários são minha segurança. Beijos!

Alice (amiga da Soi) – Obrigada por ler. Espero que esteja gostando. Beijos.

Lilith (amiga da Nim)- Obrigada por ler. Espero que esteja gostando. Beijos.

Lele – Obrigada pelos e-mails e pelas palavras gentis. Senti-me privilegiada por receber sua review e sua amizade. Beijos.

Phoenix Eldar – Obrigada pela dedicação para com a minha fic. Prometo atualizar e ajeitar o blog que você quer que a fic tenha assim que tudo estiver revisado e atualizado. Agradeço imensamente mesmo, amiga. Beijos.

Karina – Obrigada pela review. Deixe seu e-mail por favor, para que eu possa me comunicar e mandar meus agradecimentos. Fico super feliz por você ter revisado e agradeço demais por ler minha fic. Beijos.

Izabelle Malfoy – Que bom saber que você continua lendo minha fic. Obrigada pelo e-mail. Super beijos.

39

O céu escureceu, manchas de nuvens deslizavam suavemente tocadas por uma brisa fresca e contínua. O rio estava calmo. A água corria ao longe, abraçando as pedras do meio do rio, envolvendo-as em um brilho estranho e fugaz. Ele fechou os olhos algumas vezes para só então perceber que o brilho que abençoava aquela imagem telúrica que via não era de fato real, mas sim um efeito criado pelas lágrimas de seus olhos. Ele os apertou forçando-os a uma obediência indesejada, sufocando-os para calar suas próprias angústias.

O dia nascera e ele nem percebera. A solidão e o frio da noite davam lugar agora a uma distante agitação. O acampamento despertava devagar acompanhando os primeiros raios do sol. Aquele nascer do dia tinha sido perdido, ele suspirou em seus pensamentos. Amava o nascer do sol e jamais perdera um sequer se seus olhos não estivessem cerrados pelo cansaço do dia anterior. Mas aquele amanhecer fora diferente. Fora o amanhecer das lágrimas.

Estel encolheu as pernas que havia esticado no chão momentos antes. Estava sentindo o sangue ácido voltar a correr pelos músculos cansados. Atrás de si o emaranhado verde da Floresta Escura agitava-se levemente acariciado pela brisa. O guardião afastara-se do acampamento durante a noite. Incapaz de dormir ou ordenar seus pensamentos na clareira escura onde seu grupo se abrigara, optara então pela reaproximação daquele mesmo rio, daquele instrumento de angústia que carregara alguém a quem não conseguia esquecer. Ele não queria abandonar aquele lugar e o fato de seu pai fazer com que o grupo permanecesse ali, parecia indicar que o sábio lorde de Imladris também estava sentindo dificuldades em deixar aquele triste passado para trás.

Estel suspirou mais uma vez e tentou reencher os pulmões, mas sentiu que a angústia parecia amarrar-se às portas de seu peito como um obstáculo imenso e forte. O guardião sentiu um arrepio subitamente correr-lhe o corpo, obrigando-o a envolver o corpo com seus próprios braços e encolher-se ainda mais. Apertou então os lábios enfrentando instintivamente tal sensação sombria e segurou os joelhos com um pouco mais de força.

De repente a luz tímida do início do dia pareceu esvaecer-se estranhamente e o guardião percebeu que a sombra que seu corpo projetava no chão avultava-se sem razão. Foi quando a voz de Legolas soou em sua mente. "As sombras... Tome cuidado com as sombras, Estel... nunca lhes dê as costas..." Os olhos azuis do dunedain arredondaram-se então em um sobressalto e ele se voltou. Foi o instante exato e o tempo suficiente para esquivar-se de uma foice muito brilhante que reluzia em sua direção. Ele escorregou, rolou no chão duro, escapando de muitos outros golpes, mas quando se ergueu, espada em punho, olhos em um misto de surpresa e ódio voltaram a se arregalar em uma total incompreensão. Fosse o que fosse que tivesse investido contra ele, não estava mais ali, desaparecera no ar. O guardião franziu a testa profundamente, apertando o maxilar, enquanto a forte energia que a adrenalina espalhara em seu sangue dava espaço ao amolecer proporcionado pela sensação do perigo distanciado.

Estel deixou-se cair trêmulo por sobre os joelhos, mas seus olhos claros como o céu daquela manhã, ainda continham o brilho da dúvida não esclarecida e continuavam a correr a paisagem entroncada da triste floresta escura. Aquele sem dúvida era um local propício para vultos estranhos e imagens desconexas, mas o que quer que o tivesse atacado, não se parecia com nada que Mirkwood costumasse abrigar.

O guardião sentou-se então por sobre seus calcanhares e fechou os olhos por alguns instantes, atitude totalmente insensata, mas a qual ele se sentiu estranhamente compelido a tomar. Em seus pensamentos um vento forte soprava as idéias que queriam se firmar, deixando os pensamentos do cansado Estel mais confusos e questionáveis. Ele passou a sentir sua mente esvaziar-se como um tonel de vinho com um furo enorme.

Então vieram os sons. Sons estranhos como uma canção antiga cujas palavras não fazem o sentido do que dizem, apenas das sensações que transmitem. E naquele cantar estranho uma voz se fez mais forte. Uma voz poderosa e meiga, nem masculina e nem feminina, que começou a lhe repetir coisas que não faziam sentido algum.

"És o guardião." Disse a voz. "O guardião." Ela repetiu. "Ninguém deve tocar aquele a quem tu proteges, bravo guardião."

Estel sacudiu levemente a cabeça, analisando aquelas palavras e julgando-se envolto em um sonho estranho.

"Tirá-lo do caminho eles vão querer." Continuou a voz. "Para alcançarem aquele que é puro Mas tu es forte guardião. Tu deves protegê-lo."

"Proteger?" Indagou o dunedain tentando reabrir os olhos pesados. "Proteger a quem?"

Mas um estranho silêncio imperou até que...

"Estel?"

O guardião moveu a cabeça. A voz mudara subitamente de tom?

"Estel? O que houve? Está dormindo sentado?"

Estel abriu subitamente os olhos e se reencontrou ajoelhado no chão úmido beira rio com o olhar intrigado do irmão a erguer-lhe ambas as sobrancelhas.

"Elrohir?" Ele indagou virando ainda mais o rosto como se a imagem do gêmeo mais novo lhe parecesse um estranho desenho difícil de decifrar. Elrohir franziu os lábios e apoiou as duas mãos nas pernas dobradas.

"Não... sou Elladan." Ele brincou escondido atrás de sua seriedade forçada. "Como pode nos confundir ainda assim, humano bobo?"

Estel sentiu-se caindo mundo adentro. Tragado pelo comportamento provocador do jovem elfo.

"Elladan jamais me chama de humano bobo." Ele lembrou sem sorrir, embora sentisse um pequeno desejo de fazê-lo.

"É porque ele é um elfo bobo." Entregou-se o outro sem hesitar enquanto voltava a se endireitar e estendia a mão para o caçula. "O que por Mandos você está fazendo tão distante assim do acampamento?" Indagou com uma pequena marca de indignação na voz. "Ada preocupou-se quando não o viu entre nós."

Estel aceitou a ajuda e colocou-se de pé sacudindo ainda a cabeça levemente e voltando a olhar a sua volta. Enquanto isso Elrohir batia a palma no casaco de couro do irmão fazendo uma pequena nuvem de poeira e terra se formar.

"Andou rolando por esse chão, humano imundo? Quando vai crescer?" Ele provocou mais um pouco, enquanto continuava a limpar as roupas do irmão usando de um pouco mais de força do que a necessária justamente para enervar o já tão desassossegado guardião.

Mas Estel parecia não se importar com atitude alguma do moreno elfo ao seu lado. Ele mantinha os intrigados olhos azuis circulando pelo estranho cenário a sua volta, tentando encontrar o ponto exato onde a realidade virara sonho e o sonho voltara a ser real.

Elrohir finalmente percebeu que algo mais além de um mero pesadelo havia afetado seu irmão caçula.

"O que te incomoda, Estel?" Ele indagou apoiando uma mão no ombro do caçula.

Aragorn apertou os lábios fazendo-os quase desaparecerem pela pressão do maxilar. Ele não tinha uma resposta efetiva para dar, embora quisesse incrivelmente tê-la.

"Tive um estranho pesadelo." Admitiu. "Estranho... Estranhamente real."

Elrohir suspirou soltando os braços ao lado do corpo e voltando a olhar para as calmas águas que seguiam seu curso como se ignorassem a existência de elfos ou humanos. Ele nunca se sentira tão pequeno em toda a sua vida.

"Ele se foi, não foi Estel?" Lamentou-se pensando que talvez a nuvem de seus próprios pesadelos fosse a mesma que escurecia os pensamentos do caçula.

Aragorn voltou-se para a mesma direção do irmão e enlaçou-o carinhosamente com o braço direito.

"O que você acha?" Perguntou. "O que você sente em seu coração élfico?"

"Nada." Apressou-se em responder o gêmeo, baixando a cabeça em segundos. "Elladan tem certeza que..." Ele suspirou. "Ele tem certeza... mas eu... eu não sei..."

Aragorn balançou a cabeça em concordância, sentindo-se obrigado a ficar preso no espaço incômodo entre as certezas do irmão mais velho e as angústias do outro. Ele também mastigava, a contra gosto, o amargo grão de um passado estranho que parecia semear um futuro ainda pior.

"Estamos levantando acampamento." Uma voz gritou.

Os dois se voltaram sobressaltados e encontraram o olhar triste de Elladan que nem sequer aproximou-se dos irmãos, permanecendo a alguns passos deles, apoiando a mão esquerda em um largo tronco cujas cascas já forravam o chão. O primogênito de Elrond não ofereceu olhar algum ao gêmeo ou ao caçula, fixando os escuros olhos nas mesmas águas que os irmãos encaravam há pouco. Em todo o seu rosto, tanto Elrohir quanto Estel, podiam ler com clareza as linhas da amargura e da incerteza.

"Aonde vamos?" Indagou Estel tentando afastar aquelas sombras que pairavam sobre os três.

"Não sei." Respondeu o mais velho com simplicidade, dando as costas e retomando o caminho de onde viera. "Ada ainda não nos informou de seus planos." Ele completou baixando a cabeça para passar por um emaranhado de galhos que não parecia estar lá há pouco. A floresta crescia e se comprimia em caminhos e estranhos atalhos, formando alguns, encerrando outros. "Venham. Ele os deve estar esperando para esclarecer-nos o que será feito hoje."

&&&

"Thranduil..."

O rei fechou então os olhos por alguns instantes, desperto por aquela voz, depois os reabriu sentindo uma imagem se formar nitidamente a sua frente. Os olhos preocupados de Faernestal o olhavam bem abertos. Ele sentiu-se estranho. Sem saber onde estava, mas aos poucos as imagens do início da noite da véspera lhe vieram à mente e ele se viu de volta a seu tempo e seu lugar. Então ergueu levemente a cabeça do travesseiro e percebeu que o filho ainda estava abraçado a ele, a cabeça apoiada em seu peito, os braços ao redor de seu corpo. Ele sentiu-se ligeiramente constrangido pelo curador o estar vendo em uma situação não tão peculiar como lhe era cabido em sua posição, mas o olhar estranho que Faernestal lhe oferecia não parecia conter algum questionamento ou insinuação tola.

"O que se passa, Faernestal?" Ele indagou em voz baixa, desconhecendo-se por sentir receio em acordar o menino em seus braços. Falava baixo, a voz mansa para que o peito não arfasse demais.

O curador suspirou forçadamente.

"Legolas..." Ele disse.

"O que tem ele?" Indagou o rei apoiando em um instinto a mão na cabeça do filho que continuou imóvel. "Está dormindo, não está?" Completou sua questão tentando erguer um pouco a cabeça.

Os olhos de Faernestal brilharam de forma estranha e se desviaram do rei para voltarem a olhar o príncipe nos braços do pai. Thranduil franziu as sobrancelhas imediatamente enlaçando o rapaz mais uma vez em seus braços como se sentisse que alguém o fosse tirar de lá.

"O que se passa, Faernestal?" Ele voltou a indagar, dessa vez em seu tom habitual, que surpreendentemente não despertou o filho.

O curador apertou os lábios e apoiou uma palma por sobre o rosto do rapaz para tirá-la em poucos instantes. Thranduil repetiu o gesto do amigo e um grande frio correu-lhe a espinha. Legolas não tinha mais febre. Muito pelo contrário. Seu corpo estava frio como um dia de inverno.

"O que ele tem, Faernestal?" Sobressaltou-se o rei erguendo o corpo e retirando levemente o filho de cima de si para apoiá-lo no travesseiro ao lado. O rosto de Legolas tinha um tom azulado estranho, como se fosse feito de cristal. Thranduil voltou a deslizar a palma por sobre ele parando por alguns instantes na face do filho como se tentasse oferecer-lhe algum calor, mas Legolas mantinha os olhos dolorosamente cerrados, os lábios soltos e a respiração quase imperceptível. "O que ele tem?" Repetiu o pai em um tom ainda mais alto.

Faernestal sentou-se do lado oposto do divã perto do príncipe.

"Eu não sei, Thranduil." Admitiu. "Há dias está travando essa estranha batalha... Mas dessa vez..."

"Dessa vez o quê, elfo tolo? Não me deixe com meias informações."

"Está... custando mais a acordar... Cada vez... depois de cada febre... seu organismo leva mais tempo para se estabilizar..."

"Como assim?"

"Não sei..."

"Como não sabe?" Enervou-se o rei erguendo-se no divã. Era a primeira noite de sono tranqüilo que tivera. Por que o despertar tinha que ser tão devastador?

"Thranduil..." Inicio o receoso curador com seus olhos ainda voltados para o paciente. "A galenolas... ela é... uma planta mortal... Você bem sabe disso... O pouco que conhecemos a seu respeito não é... não é o suficiente para..."

O curador deixou a sentença no ar, negando-lhe um final apropriado. Mas o rei começou a atribuiu-lhe todos os finais possíveis, agradáveis ou não. Thranduil calou-se por alguns instantes, seus olhos parados enquanto a mente dissecava cada letra das palavras que ouvira. O que Faernestal estava insinuando? Que depois de tudo, passados os tormentos, as incertezas, as mágoas, ele seria separado do filho definitivamente?

"Faernestal..." O rei balançou a cabeça confuso percebendo uma imagem triste formar-se dentro de seu coração.

"Eu... estou tentando, criança..." Defendeu-se o curador docemente. Sabia que a notícia que queria fazer certeza ao rei de Mirkwood não era algo para o qual Thranduil estivesse preparado, não depois de tudo pelo que ele e o filho passaram. "Mas... você precisa começar a... conjeturar a idéia... a idéia de..."

E mais uma frase ficou sem seu complemento. Algumas palavras estavam de certa forma negando-se a cumprir seus papéis. Thranduil sentou-se no divã com o corpo torcido para que pudesse ainda olhar o rapaz que permanecia em seu sono aterrador. Aquele mesmo sono que proporcionara ao pai o alívio na véspera, agora parecia ser o caminho da angústia de todos.

Faernestal voltou a apoiar uma mão por sobre a testa do príncipe, em seguida apoiou-a no peito do rapaz fechando os olhos por alguns instantes. Ele buscava compreensão, mas não conseguia encontrá-la e aquilo era uma das piores confissões que um curador, que há tanto tempo pisava nessa terra, poderia fazer.

"Eu..." Ele disse fechando os olhos mais uma vez, mas com um objetivo diferente agora.

Thranduil franziu as sobrancelhas dobrando as pernas sob si e encarando o amigo com um ar assustador. Faernestal não teve coragem de olhar para seu líder, permanecendo cabisbaixo e silencioso.

"Pelos Valar, Faernestal..." Disse o rei sentindo que aquela ausência de sons ou palavras tinha um dos piores significados que já tivera em toda a sua existência. "Eu... eu vou colocar uma pilha de pedras por sobre seu corpo se deixar Mandos levar o príncipe... Eu... eu juro que vou..."

O curador suspirou cansado, fechando novamente os olhos com profundo pesar.

"Eu mesmo desejarei ter essa pilha por sobre meu corpo se for obrigado a presenciar o último suspiro dessa doce criatura..."

Thranduil sentiu-se atingido por aquelas palavras como se levasse um golpe de um Troll e fosse arremessado há metros de distância. Ele ergueu-se em um rompante, mas só conseguiu dar dois passos pelo quarto, antes de voltar a encarar o filho na cama. Escondeu então o rosto sob as mãos. O vendaval das novas e desesperadoras informações era o pior que já enfrentara. Ele tinha tanto o que fazer e simplesmente não conseguia se mover. Não conseguia deixar o filho onde estava.

"Iluvatar..." Ele clamou esfregando o rosto com força. O que mais temia se efetivara. Estava amarrado, preso e amordaçado por um sentimento do qual fugira sua vida inteira. Estava atado pelo medo, o medo da perda de algo insubstituível. Ele deu as costas à cena mantendo agora as mãos por sobre o rosto para tentar impedir os olhos de reconhecerem o lugar onde estava, a situação na qual se encontrava, para talvez então fazer com que sua mente se esquecesse, enganasse o coração ferido e latejante. Ele tinha que se recompor.

"Senhor?" Uma voz o despertou em um sobressalto, fazendo-o virar-se em um instinto para encontrar mais uma vez os olhos claros do filho encarando-o preocupado. Ele voltou-se para Faernestal em alguns segundos, mas, contrariando a expectativa que tinha, o olhar do curador ainda guardava a mesma consternação anterior. Ele sabia que aquela era apenas mais uma das batalhas ganhas pelo valoroso príncipe, mas não era, em hipótese alguma, a garantia de que a guerra estivesse próxima do fim.

Faernestal esvaziou os pulmões diante do súbito silêncio de pai e filho e apoiou uma mão na perna de Legolas para atrair-lhe a atenção. O rapaz desviou seus olhos para o curador em um movimento lento com a cabeça. "Tem que voltar para seu quarto agora, menino." Disse o elfo mais velho tentando afogar as dúvidas e pressentimentos que aquele olhar azul brilhante lhe transmitia. "Seu pai tem seus afazeres e aqui não é um local apropriado para sua recuperação."

Legolas fechou os olhos por alguns instantes e depois os reabriu. O ato em si já parecia exigir-lhe muito mais energia do que possuía. O rei olhou-o com preocupação, já imaginando que o rapaz, em sua teimosia, provavelmente não aceitaria ser removido de onde estava. Mas Legolas apenas acenou com a cabeça positivamente, voltando a fechar os olhos e reabri-los com dificuldades.

"O senhor... vai mandar a tropa até... a floresta das árvores tortas, não vai?" Indagou receosamente o príncipe olhando para o pai mais uma vez. O rosto pálido, a cabeça perdida nos vários travesseiros.

Thranduil suspirou enlaçando os dedos das mãos, enquanto vestia vagarosamente a couraça que até o dia anterior julgava ser intransponível. Ele encheu os pulmões e deu as costas ao filho para que o rapaz não visse seus olhos se apertarem pela dor imensa que o estava consumindo.

"Sim, e irei também." Decidiu-se naquele instante. "Se algo de tamanha importância for mesmo enfrentar nossas forças, eu devo estar lá".

Faernestal franziu as sobrancelhas, mas Legolas apenas virou o rosto um pouco para o lado e seu olhar voltou a se perder na passagem distante de onde um feixe de uma luz clara escapava teimosamente. Ele tinha certeza de que o pai tomaria tal atitude e também sabia que depois de uma decisão de guerra tomada, ninguém jamais convencia o rei a mudar seus planos.

O curador por sua vez pensava diferente e se aproximou, puxando levemente seu líder para longe do filho.

"Sabe que não deve ir." Ele sussurrou nervoso. "Deve estar aqui com ele... Eu... eu não sei... não há tempo... eu não posso garantir..."

Thranduil apertou os punhos e ergueu o queixo enrijecendo os músculos dos ombros e costas em um estranho ritual. Faernestal soltou os braços vencido. A resposta já estava dada.

"Despeça-se dele então, Thranduil." Disse o curador com amargura, mesmo ciente das reações que suas palavras poderiam despertar. "Eu não posso lhe garantir que ele..."

"Ele estará aqui quando eu voltar." Interrompeu o rei categoricamente, os olhos novamente encarando a figura pálida no divã que voltava agora a fechar seus olhos para não abri-los mais. "Eu o conheço, tolo Faernestal..." Completou. "Enquanto eu não voltar... ele irá esperar por mim... E o tempo me será aliado... Sim... Será o único aliado do qual posso dispor..."

&&&

E o grupo partiu temeroso, vestidos para uma guerra da qual pouco sabiam e sentindo seu líder estranhamente abatido a sua frente. Nunca um caminho para o combate fora tão árduo e doloroso. Passaram pelo emaranhado verde, cruzaram pequenos rios, desligaram-se do mundo em seus cavalos de tempos em tempos, mas o rei não permitiu que parassem para acampar. Aquela parecia de fato ser a missão de suas existências. Ao lado do líder o jovem Alagos cavalgava silencioso há tempos, vez por outra seu olhar cruzava-se com o de seu líder, uma pergunta ia e vinha em sua mente tal qual um inseto inconveniente a lhe azucrinar. Ele precisava fazê-la, cuspir aquela indagação como o veneno maligno que era para finalmente ter paz.

Mas Thranduil continuava seu cavalgar totalmente alheio a tudo e a todos. Os olhos esverdeados ganhavam um estranho tom indo contra a luz como o grupo fazia no momento. Suas mãos não estavam apoiadas nas pernas como ele sempre cavalgava, mas sim, firmemente enlaçadas a crina de seu cavalo branco. A angústia calada do rei podia ser algo que não fosse discutido em palavras ou cantado em versos, mas não era algo que os elfos a sua volta pudessem ignorar.

"Estamos próximos, majestade." Disse então o jovem capitão. Aquela era uma informação óbvia, mas o que ele queria era sentir se o rei ainda reagia às palavras que lhe eram ditas. Thranduil, porém, continuou mostrando-se a incógnita de sempre. Seus olhos apenas percorreram a pequena clareira sem que nenhum som surgisse de sua boca. Depois de mais alguns metros ele finalmente parou o cavalo e desceu, estagnando-se em pé e aguardando que seus soldados fizessem o mesmo, posicionando-se a sua volta.

"Vamos verificar o que nos aguarda." Ele finalmente ordenou.

Subiram então as grandes árvores tortas. De longe, mesclados ao verde da mata podiam avistar o ponto ao qual tinham que atacar. Thranduil ficou observando a entrada com olhos de guerra, redesenhando prazerosamente o mapa que o filho traçara, relembrando a coragem e determinação daquele que era seu herdeiro, seu sangue. Sim, Legolas sempre o surpreendera, deslizando habilmente entre a figura adorável do eterno elfinho e a de um grande e habilidoso guerreiro. Era como se condenasse o pai a um eterno confiar desconfiando, um infinito não saber pelo que esperar, mas ao mesmo tempo ansiar por isso com satisfação. Thranduil sacudiu a cabeça, ciente de que seu destino seria ter o rapaz sempre em sua mente, preso às paredes de seus pensamentos como uma pintura que nunca descolore, mas que pode, a qualquer momento, revelar-lhe uma nova cor, uma nova imagem diferente a qual ele não sabe se vai apreciar ou não. Seu destino era preocupar-se eternamente com ele.

Era verdade, uma verdade inegável. Ele já havia se preocupado muito. Preocupara-se durante muitos anos.

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Ela fechou os olhos e dessa vez e Thranduil temeu que fosse para sempre. Mas logo aquelas esmeraldas voltaram a surgir oferecendo-lhe mais um triste olhar. Estavam sentados na pequena varanda do quarto, em um sofá. Elvéwen apoiava a cabeça no ombro do marido enquanto ambos viam o pequeno Legolas correr pelo jardim atrás de alguma coisa que não conseguiam ver de onde estavam, mas sabiam bem do que se tratava.

"Borboletas..." A mãe disse com uma voz fraca, mas um doce sorriso em seus lábios.


Thranduil sacudiu a cabeça.

"Sempre faz isso..." Ele mostrou-se ligeiramente indignado. "Não sei porque as persegue se não tem intenção de pegá-las."

Elvéwen repetiu o ato do marido, mas seu inconformismo tinha outro porquê.

"Já perguntou a ele?" Ele indagou virando levemente a cabeça para olhar o marido.

Thranduil apenas deu de ombros e acenou negativamente, seus olhos ainda voltados ao menino que corria pelo jardim agora em direção oposta a primeira. "Ele já está crescido para esse tipo de brincadeiras, não acha?"

Elvéwen baixou os olhos.

"É apenas um elfinho, mal recebeu suas primeiras lições sobre a filosofia e a história." Ela defendeu o filho.

"E sobre armas..." Completou o pai.

A bela elfa voltou a sorrir, apiedando-se do ar de decepção que se fazia na face do marido.

"Ele é pequeno..." Ela voltou ao mesmo argumento.

"Já fez a escolha."

"São armas, Thranduil. O tutor disse que ele é muito bom com o arco e com as flechas, um dos melhores que já viu na idade que tem."

"Não me admiro..." Disse o rei com amargura. "Ele tem tudo de seu... seus cabelos, o porte franzino de seu povo... o que podia esperar?"

"Era o seu temor, não era?" Ela indagou de imediato, uma súbita tristeza temperou sua voz, enquanto voltava-se mais para encarar o marido. "Agora está adivinhando o futuro inteiro de seu filho porque ele optou pela leveza do arco e flecha ao invés de sua poderosa espada sindar."

"A arma faz o elfo." Declarou o rei. "Ele sabe disso."

"Todos entre nós são arqueiros... e bons arqueiros."

"Todos os silvestres..." Respondeu com amargura. "Os sindar aprendem a utilizar arma tão útil, mas defendem-se primeiramente com uma boa espada."

Elvéwen suspirou balançando a cabeça. Algumas certezas nunca a abandonariam.

"Era o que temia, hervenn-nín?" Indagou a elfa. "Quando tomou a camponesa como esposa, aquela cujo sangue não carregava realeza alguma... a elfa silvestre... O grande príncipe sindar, filho do nobre e poderoso Oropher, temia por seus herdeiros... pelos herdeiros que a elfa plebéia podia lhe dar... os herdeiros da raça inferior..."

Thranduil sobressaltou-se. A indiscutível verdade esbofeteando-lhe a face. Elvéwen nunca pronunciara tais idéias. Mas era fato. Ele se encantara por ela, mesmo sabendo a cota o destino lhe reservaria de imprevistos e dor se ele seguisse o que latejava em seu peito. Seu coração a amara desde a primeira vez em que a vira por sobre as árvores, sorrindo com as crianças. Ele a observava de longe, mas fingia ignorá-la como ela o fazia, tentando enganar o que tudo sabe, aquele que tem as respostas antes mesmo que a mente pense nelas. Sim. Seu coração a amava tanto que chegava a doer no peito. Fora então uma união que, a princípio, não satisfez nem a seu pai e nem a seu povo, mas que depois, como presente do próprio Iluvatar, acabou mostrando-se, para a surpresa de muitos, como o firme elo que fizera com que os elfos silvestres amassem ainda mais a seu rei e ao rei que a este sucederia.

Elvéwen suspirou fechando novamente os olhos, acalmando o pesado coração. Ela queria uma certeza que sabia que o marido não podia lhe dar no momento, a não ser que lhe mentisse, e Thranduil nunca mentia.

"Vai cuidar dele, não vai, hervenn-nín?" Ela indagou receosa pelo silêncio que vinha do marido.

E foi a vez do rei fechar seus olhos.

"Você vai cuidar dele..." Ele tentou mais uma vez, atribuindo-se um poder maior do que realmente tinha, para quem sabe, fazê-la crer na farsa, obrigá-la a não tomar o rumo ao qual estava destinada. "Sabe que é sua função, Elvéwen."

O esposa ofereceu um sorriso singelo, mesmo presa à palidez e tristeza do distanciamento de tudo o que amava agora.

"Não tenha medo." Ela disse rindo um pouco mais ao enfrentar a indignação que suas palavras fizeram despertar no olhar do marido. "Ele ainda vai te trazer muitas alegrias."

Thranduil não respondeu. Seus olhos ardiam, lágrimas teimosas insistiam em abandoná-los, mas ele não permitiria. As últimas imagens que Elvéwen teria dele não seriam a de um rei em prantos.

"Legolas o ama, hervenn-nín." Ela disse enfim, a voz enfraquecendo enquanto encostava-se mais no marido. Seus olhos ainda voltados para o filho que agora os vira de onde estava e olhava-os com curiosidade. "Por favor, tire tudo o que quiser tirar dele... mas não o convença de que esse sentimento não é mútuo..."

Thranduil emudeceu sentindo a pele da esposa esfriar-se gradativamente junto a sua. Ele queria oferecer a ela às certezas das quais a elfa tanto precisava, tanto quanto queria oferecer-lhe o calor que fugia daquele corpo frágil. Mas ambos os desejos se mostraram impossíveis e o rei temeu mais, temeu que se proferisse tais palavras, se proporcionasse à esposa tais garantias, ela sentiria que já podia partir. E ele não poderia permitir. Ele não responderia, para que assim ela fosse obrigada a ficar.

Mas o endurecimento de seu coração e a falta das palavras de conforto em seus lábios, não foram o suficiente para manter a amada junto a ele, muito pelo contrário, só fizeram com que, durante todos os anos, ele carregasse aquela culpa, a de não ter dito a ela o que a esposa desejava ouvir e que, de fato, não deixava de ser a mais pura verdade. Ele lamentou profundamente não ter dito a ela o quanto amava aquele pequenino, o quanto se orgulhava de seu coração bondoso e, além de tudo, o quão graças dava por ao menos tê-lo como uma doce lembrança dos bons momentos que passara com aquela que seria única em sua vida.

Mas de certa forma ela sabia, ela sempre soube. Pois quando seus olhos se fecharam para não mais se reabrirem, as últimas palavras que soaram de seus lábios foram essas:

"Elfo tolo... ele vai te mostrar... vai te mostrar o quanto você o ama..."

E um sorriso se fez naquela face pálida e ela ainda pôde olhar para sua pequena criança uma vez mais antes que a luz a deixasse para sempre.

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Thranduil suspirou imperceptivelmente ao deixar-se levar por aquelas tristes recordações, enquanto a imagem triste da esposa em seu leito de morte se convertia vagarosamente à imagem do filho doente, os mesmos olhos claros e fundos, a pele pálida como a dela, enfrentando tão bravamente o castigo da planta maligna. O rei sentiu seu coração encher-se de ódio. Não. Ele não permitiria que o destino tirasse o rapaz de sua vida também, não depois de tudo o que acontecera. Ele não permitiria.

"Senhor?" A voz de Alagos o despertou. "Vamos colocar nossos planos em prática agora?" Indagou o rapaz olhando firmemente para a entrada da caverna de onde saíam e entravam alguns orcs e outras criaturas estranhas.

Thranduil não respondeu. O cenário mostrava em evidências que o filho tinha razão no que dissera. Se o grau do problema era exatamente o que Rhunoir havia descrito, isso ainda era uma dúvida, mas a certeza de que o inimigo se alojara naquele lugar sombrio já se fazia inquestionável.

"Temos que esperar por uma oportunidade." Disse o rei fazendo sinais para que alguns mantivessem o posto de espera enquanto outros o acompanhavam de volta ao solo. "A entrada é muito vigiada."

"Logo vai anoitecer, majestade." Preocupou-se Alagos colocando ambos os pés de volta ao chão. "Nosso brilho nos fará um alvo fácil."

"Temos que nos organizar, capitão." Thranduil endureceu a voz. "Tantos anos amargando as perdas e danos que os conflitos nos trazem e ainda se mostra um soldado apressado diante de uma situação de guerra?"

O rapaz baixou os olhos envergonhado.

"Perdoe-me, majestade." Ele disse em voz baixa. Ser repreendido pelo rei diante de seus homens não era uma experiência das mais agradáveis.

Thranduil apoiou a mão aberta na árvore da qual acabara de descer. E contou um pouco com aquele apoio para descansar o corpo e oferecer tempo a sua mente.

"Mas no final de tudo vamos ter que nos arriscar..." Disse por fim. "E desejar que Iluvatar torne nossas capas proteção suficiente contra o brilho do luar que hoje infelizmente nos é luz e maldição."

"Deixe-me ajudar." Surgiu uma voz de trás de uma grande árvore. "Humanos não são tão visados por aquelas criaturas quanto o são os elfos."

Thranduil sobressaltou-se ao encontrar o olhar decidido do guardião dunedain. Atrás dele vinham pessoas que ele julgava já estarem distantes. Elrond, os filhos, Glorfindel e os e alguns elfos de Rivendell ainda estavam em suas terras.

O rei desprendeu os lábios surpreso. A ajuda, apesar de indesejada, era impossível de ser dispensada.

&&&

"Faernestal... por que não vai descansar um pouco, meu bom amigo?" Indagou o príncipe de seu leito. O curador ergueu os olhos do livro que lia para encontrar os do rapaz encarando-o com compaixão. O bom curador não dormia há dias e aquilo estava se tornando mais do que evidente. "Eu não vou a lugar algum..." riu o rapaz enchendo vagarosamente o peito de ar. "Acho que dessa vez não conseguiria tamanha façanha."

O curador voltou a sorrir, erguendo-se de sua poltrona e aproximando-se do príncipe para sentar-se no leito diante do rapaz. Ele nem precisaria responder tal proposta, o jovem elfo bem o sabia.

"Algumas horas de sono não lhe farão mal." Disse o príncipe sorrindo suavemente e fazendo o curador acompanhá-lo.

"Essa frase me pertence." Riu Faernestal segurando a mão fria do rapaz.

Legolas riu também, apertando levemente a mão do amigo e voltando a fechar os olhos. Faernestal apoiou a palma no rosto dele e satisfez-se em ver que a febre ainda não tinha voltado. Ele temia pelo novo acesso, não sabia se o príncipe ia ter energia suficiente para agüentar. O jovem arqueiro soltou um leve suspirou e voltou a abrir os olhos.

"Durma naquela cadeira mesmo, Faernestal." Propôs então. "Se eu me sentir mal você acordará, tenho certeza."

O curador ia responder quando alguém bateu na porta do quarto e a figura franzina de uma elfa cujos cabelos eram muito claros, surgiu. Faernestal olhou-a intrigado. Era a cozinheira, uma boa amiga, a quem os longos anos de existência na Terra Média quase se comparavam aos seus.

"Sim, Nildiele?" Ele finalmente perguntou.

A elfa suspirou um tanto constrangida, mas sorriu. Depois se voltou para Legolas também sorrindo, mas sem conseguir esconder uma ponta de tristeza no olhar. O príncipe retribuiu o sorriso, feliz por vê-la depois de tantos anos e estendeu-lhe a mão. A cozinheira hesitou por uns instantes, mas o olhar do curador lhe assegurou de que ela podia ir adiante. Então a bela elfa apressou-se na direção do jovem príncipe, pois a saudade também a torturara. Ela segurando-lhe a mão e passou a alisar-lhe os cabelos como fazia quando ele era uma criança.

"Meu amado principezinho." Disse carinhosamente beijando a testa do rapaz. "As flores vão voltar a nascer em meu coração agora que você está novamente entre nós."

Legolas suspirou com o carinho recebido e inclinou o rosto apoiando-o levemente na mão da cozinheira. Ele nunca se esquecera dela, nobre amiga e confidente de sua mãe e um grande apoiou quando ele se vira sem chão após a partida de Elvéwen.

"Doce Nildiele." Disse o rapaz em um tom baixo, fazendo a fronte da elfa franzir levemente de preocupação. "Sentir saudades só é bom quando reencontramos aqueles a quem amamos. Agora estou mais feliz."

Os olhos da elfa brilharam e ela abraçou o menino com cuidado. Legolas retribuiu como pôde, cansado como estava não podia dispensar a querida amiga todo o carinho que desejava.

"Logo estará bom." Ela disse sorrindo enquanto se sentava em frente ao rapaz. "Então vou fazer seu prato favorito e você cantará para mim as novas canções que a natureza lhe ensinou."

O príncipe sorriu fechando levemente os olhos.

"Eu sempre cantarei pensando em você e em nana, querida Nildiele." Ele respondeu em um suspiro. "Não importa onde eu estiver."

A elfa segurou a mão do menino mas não respondeu. O temor pelo que parecia se fazer inevitável a consumia. Então lançou um olhar preocupado para Faernestal que apenas baixou a cabeça em uma indicação de que as perspectivas de futuro eram realmente sombrias.

"Meu principezinho..." Ela disse sorrindo amavelmente, enquanto o rapaz fechava os olhos e retribuía o sorriso. "preciso roubar o nosso amado curador por alguns instantes. Acha que pode ficar só enquanto isso?"

Legolas riu.

"Nildiele..." Ele disse. "Sempre achei que você e Faernestal formavam um belo casal."

E ambos riram da súbita mudança de cor na face do curador, que primeiro empalidecera para depois enrubescer incrivelmente.

"Deixe de bobagens, menino!" Ele defendeu-se enquanto a elfa ria com uma das mãos sobre os lábios finos. Ele não se importava com as brincadeiras do príncipe, embora achasse que, às vezes, a habilidade de premonição que abençoava o rapaz se mostrava deveras inconveniente.

Mas Legolas não se intimidou com a reação forçada do amigo. Ele apenas ofereceu ao casal mais um sorriso adorável que fez com que ambos enrubescessem agora e voltou a fechar os olhos.

"Podem ir, meus amigos." Disse o arqueiro virando o rosto e ajeitando-se melhor no leito. "Como eu dizia a Faernestal agora a pouco, não tenho intenção de ir a lugar algum."

O curador franziu os lábios com a brincadeira e depois direcionou um olhar acusador a elfa. Embora ele apreciasse a companhia da amiga de tantos anos e até ansiasse por alguns momentos em particular com ela, aquela era uma hora demasiadamente imprópria para que ela o tirasse daquele quarto. Mas Nildiele balançou levemente a cabeça demonstrando uma visível urgência e preocupação, enquanto aproveitava-se que o jovem não estava mais voltando sua atenção para eles. Faernestal voltou a franzir as sobrancelhas, mas aceitou a mão da elfa e ambos saíram do quarto.

Legolas reabriu os olhos e finalmente encontrou-se sozinho. Ele esvaziou os pulmões e voltou sua atenção para a varanda. Uma brisa suave entrava por ela trazendo o doce aroma das flores que estavam na entrada. Faernestal as trouxera em pequenos vasos a pedido do príncipe que se sentia muito só sem nenhum pedaço de natureza ao seu redor. Legolas fechou os olhos e deixou que os pulmões se fartassem com aquele ar agradável que, infelizmente, não amenizava as preocupações de seu coração. Ele pensava no pai e na difícil tarefa que o rei estava prestes a enfrentar.

Foi quando a porta se reabriu, mas Legolas não se voltou para ela, permanecendo a encarar a pequena visão de mundo que tinha de sua varanda.

"Nobre príncipe Legolas Thranduilion." Veio então uma voz conhecida lhe saudar. Legolas estremeceu voltando-se, para encontrar um olhar paciente e amável que ele não esperava ver novamente. Em pé diante da porta fechada, em roupas simples e com a serenidade de sempre, estava alguém que lhe enchia o coração de alegria.

"Me... mestre?" Ele deixou o queixo cair, mas em seguida ofereceu um sorriso largo.

Elrond ergueu as pontas dos lábios e apoiou a mão no coração fazendo uma leve reverência, mas permaneceu onde estava. O corpo ereto, as mãos cruzadas respeitosamente atrás das costas. O sorriso de Legolas morreu então e o príncipe preocupou-se com a formalidade toda que seu amigo agora lhe direcionava.

"Mestre?" Ele indagou receoso ao ver que Elrond não parecia ter a intenção de sair do lugar onde estava, permanecendo em pé a olhá-lo com um ar estranho. "Mestre... está zangado comigo?"

Elrond fechou então os olhos, sentindo seu coração bater descompassado. Ele passara todo o trajeto desde o ponto de encontro com o rei doutrinando seu espírito para aquele momento, agradecendo pelo milagre do rapaz ter sobrevivido, mas dizendo a si mesmo que agora as coisas não poderiam ser mais como eram. Os olhos de Thranduil lhe haviam dito mais do que muitas palavras...

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Thranduil encarou o grupo com um olhar indecifrável, ele percorreu as faces uma a uma até finalmente encontrar o olhar do lorde de Imladris. Elrond franziu as sobrancelhas, com uma interrogação latejando na ponta de sua língua. Os líderes ficaram em silêncio, como se quisessem ler as mentes opostas. Thranduil por fim desviou seu olhar para o capitão a seu lado.

"Alagos." Ele disse. "Você volta daqui."

O jovem guerreiro intrigou-se, mas aguardou. Thranduil voltou a fixar seu olhar em Elrond.

"Vai conduzir o lorde de Imladris a Mirkwood."

Um grande alvoroço de vozes se fez então, mas foi logo contido por um simples gesto do curador. Elrond deu um passo à frente. Uma impaciência jamais vista estava em seu olhar, enquanto a pequena questão que o incomodava, se transformava agora em uma cadeia imensa de interrogações que fazia o rumo de seus lábios rapidamente. Interrogações que vinham, porém, acompanhadas por supostas respostas nas quais ele não ousava tentar acreditar.

"Diga-me, Thranduil." Pediu o curador pressionando as mãos unidas. "Por que minha presença em suas terras se faz necessária?"

Os olhos do rei brilharam de uma forma que Elrond não imaginava que fosse ver um dia, seus lábios se entreabriram, mas a resposta não surgiu. Ela não surgiria. Não surgiria porque precisaria conter algo que o poderoso rei de Mirkwood não seria capaz de dizer, sua resposta tinha que conter uma súplica de ajuda.

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Elrond suspirou levemente. Ele sabia que, agora em casa e novamente aceito pelo pai, o príncipe não teria mais um porquê para oferecer-lhe o mesmo grau de devoção que oferecia e mesmo que o tivesse, ele não poderia permitir que o rapaz o fizesse.

"Não estou zangado, príncipe Legolas." Disse enfim apertando as mãos nervosamente ao ver as sobrancelhas do rapaz se contorcerem de dúvida e dor. "Agora você está de volta a seu reino... a seu povo... Merece ser tratado com a formalidade que lhe cabe."

Legolas apertou os lábios e sentiu seu corpo tremer. Ele não queria ser tratado com formalidade alguma.

"Mestre..."

"Não sou mais seu mestre..." Disse Elrond receoso. "Príncipe Legolas... Um príncipe não tem mestre algum."

Legolas agarrou-se instintivamente aos lençóis que o cobriam. Ele entendia agora porque Elrond o estava tratando assim, mas não podia aceitar. As experiências que unem os corações por laços da amizade e devoção não são rastros que podem ser apagados por um título ou por uma mudança de cenários.

"Mestre... não tem... não tem mais carinho por mim?" Indagou então fazendo o curador desprender os lábios em uma visível inquietação.

"Príncipe Legolas..."

"Não tem mais carinho por mim porque sou novamente um príncipe, meu mestre?" Reforçou o rapaz em uma voz distante e fraca. Os olhos tristes brilhavam, mas ele não os afastava dos do curador. Elrond apertou os lábios, sentindo suas barreiras cedendo levemente a tão doce investida. Ele sabia que seria difícil, mas não imaginava o quão difícil seria.

"Nada em toda a Arda me fará deixar de amá-lo..." O curador disse então, sem conseguir encontrar as palavras certas que o ajudassem a prosseguir no ritual que tinha planejado. Ele temia pelo reencontro, pelo contato com o rapaz, temia comprometer o elo que finalmente se restabelecera entre pai e filho. "Mas... agora... você é o príncipe uma vez mais... Eu julgo que não seja prudente que se arrisque na posição que tão arduamente readquiriu. Penso que..."

"Eu o amo, meu senhor." Interrompeu o menino erguendo os dois braços na direção do curador, lágrimas escorriam por seu rosto. "Por favor, se o que sente por mim não se comprometeu por eu estar de volta a esse quarto triste, não recuse meu amor... Não se afaste de mim agora que o tempo não mais me favorece... Não... Não me deixe, mestre."

Elrond sentiu seus olhos se inundarem tão rapidamente que ele sequer percebeu quando as lágrimas começaram. Em instantes estava abraçado ao rapaz que se agarrou a ele com as poucas forças que tinha, encostando a cabeça em seu peito e segurando sua túnica.

"Eu jamais te abandonaria, criança amada." Disse a voz embargada do poderoso elfo enquanto beijava o topo da cabeça do rapaz em seus braços. "Jamais."

"Então... fique comigo, senhor. Prometa... por favor... prometa que ficará comigo até que tudo chegue a seu fim."

Elrond franziu a face, puxando o rapaz para olhá-lo.

"Não haverá fim algum, ion nin." Ele disse apoiando a palma no rosto do arqueiro. "Eu lhe garanto. Confie em mim."

Legolas ofereceu-lhe um sorriso triste enquanto enxugava as lágrimas que derramara.

"Poderoso o senhor é, meu mestre." Ele disse baixando os olhos. "Mas a galenolas não tem um inimigo à altura ainda... Não se martirize por mim, meu senhor... Estou conformado pois vou reencontrar alguém a quem amo... Só peço que fique a meu lado até que esse momento chegue."

Elrond balançou a cabeça involuntariamente.

"Criança tola." Respondeu voltando a abraçar o menino. "Está enganado. Existe um inimigo mortal para qualquer atrocidade ou aberração que exista aqui nessa Terra-Média. E é o amor, ion nin. O amor cura todos os males... você verá."

Legolas franziu a testa, apoiando o rosto no peito do curador e julgando que seu mestre o estivesse iludindo com histórias de crianças, mas se permitiu embalar-se e aquietar-se com aquela doce ilusão, a ilusão de que o bem poderia de fato vencer tão poderoso mal.

&&&

A noite se passou e Elrond e Faernestal permaneceram no quarto do príncipe. Eles discutiam em voz baixa que providências tomar. Elrond utilizara as ervas que conhecia quando a febre finalmente voltou e alcançara um resultado encorajador, mas não definitivo.

Faernestal conversava com o curador com respeito, tomando notas, partilhando conhecimentos. Elrond era detentor da melhor biblioteca de toda Terra-Média e seus conhecimentos eram inigualáveis, por isso o sábio curador de Mirkwood procurou valorizar ao máximo a oportunidade que tinha de conversar com alguém cuja bagagem de informações e experiência eram inestimáveis.

Elrond ouvia as impressões do outro elfo com igual atenção. A fama de Faernestal também o precedia e, apesar deste estar revestido em uma cautelosa modéstia, Elrond sabia bem o valoroso curador que tinha a sua frente, o que fez com que a união de ambos só viesse a ser mais um ponto positivo naquele incansável luta contra um mal tão arrebatador.

"Acha que haverá conflito?" Indagou o curador de Mirkwood tentando desviar-se um pouco do triste assunto que lhes tomava as horas e pensamentos, enquanto se colocava em pé diante da varanda.

"Não sei..." Respondeu Elrond sentado em uma poltrona ao lado da cama onde o príncipe dormia mais uma vez. "Se os planos de Legolas se efetivarem não haverá necessidade. Mas algo me diz que esconderijo tão valoroso não seria deixado sem uma forte guarda ao seu redor. A região infelizmente não favorece uma pesquisa de campo maior, o que nos deixa em uma desvantagem muito grande. Creio que esse seja o motivo que levou seu rei a esperar mais alguns dias para o ataque."

"Elrond..." Faernestal voltou-se intrigado. "Peço desculpas pelo meu questionamento indiscreto... mas..."

"Diga, nobre Faernestal."

"Como... por que... por que ainda estava em nossas terras?"

Elrond suspirou, voltando a olhar para o menino no leito.

"Há muito tempo não era abençoado por uma doce premonição." Ele disse deslizando os dedos levemente por sobre a mão do rapaz que descansava. "E como tudo o que é bom, veio acompanhado por algo não tão agradável."

Faernestal franziu a testa.

"Você o viu? Viu que Legolas ainda estava vivo?"

Elrond baixou os olhos.

"Eu o vi em seus dias no futuro... O que me fez crer que seu presente ainda se fazia."

Faernestal aproximou-se preocupado.

"Viu o futuro de Legolas?" Ele indagou.

Elrond apenas acenou com a cabeça.

"Mas nada que fizesse qualquer sentido... como todas as visões que tenho..."

"Diga-me, Elrond. Eu lhe rogo... Talvez seja um enigma que juntos consigamos decifrar."

Elrond ergueu-se se colocando em pé diante do curador, em seguida apoiou uma mão por sobre o ombro do elfo e ofereceu-lhe um sorriso simples e cansado.

"Realmente Faernestal." Ele disse. "Não creio que encontremos sentido em qualquer..."

"Por favor, eu lhe peço, Elrond." Insistiu o curador impacientemente.

Elrond suspirou e balançou a cabeça.

"E o vi..." Ele iniciou inseguro "e ele estendia os braços para uma... uma..."

"Uma?"

"Uma borboleta azul." Riu o curador sacudindo mais a cabeça, julgando-se um elfo a dizer tolices.

Faernestal teve um minuto de incompreensão absoluta, mas depois riu também.

"Todas as suas visões sempre fazem sentido?" Ele indagou incrédulo. Subitamente eles se sentiam como dois jovens elfos conversando sobre sonhos de criança.

"Sim... cedo ou tarde." Respondeu o curador de Imladris ainda balançando a cabeça. "Mas essa é a visão mais estranha que já tive."

"E o que mais viu?"

"Nada. Apenas a borboleta... bem azul... como os olhos do príncipe... E ela... voava... simplesmente..."

Faernestal voltou a rir.

"Se você não fosse um elfo de prestígio diria que anda experimentando um pouco daquela erva de fumo que anda sendo comercializado por essas redondezas."

Elrond franziu as sobrancelhas, mas em pouco tempo ambos estavam rindo novamente.

"Talvez seja minha primeira visão sem ligação alguma com a realidade." Ele ofereceu voltando a se sentar.

"Talvez." Concordou o outro por educação, ciente do quanto àquilo era improvável.

"Gosto de borboletas..." Veio então a voz do leito. Elrond voltou-se e encontrou o sorriso de Legolas.

"Devia estar dormindo." Queixou-se o lorde de Imladris com um sorriso. "O incomodamos com nossa conversa infrutífera?"

Legolas riu, sacudindo a cabeça.

"Como duas pessoas com tamanho conhecimento como vocês poderiam ter uma conversa infrutífera?" Ele indagou voltando a fechar os olhos.

"Acontece..." Brincou Faernestal procurando disfarçar a preocupação que tinha com seu paciente. "A cada mil anos... ou talvez mais..."

E os três elfos riram.

&&&

Havia um plano e se iniciara mesmo sem ser perfeito. Thranduil pensava nisso. Nos silêncios que precediam uma surpresa maior. Dois longos dias se passaram e eles ainda não conseguiam ter a certeza de seus arredores da qual necessitavam para se arriscarem em tal investida. Mas o prazo final dado por Legolas e a posição desvantajosa na qual se encontravam não os motivava a esperarem mais tempo.

"É hoje ou não será mais." Disse Glorfindel irritado. O poderoso guerreiro de Gondolin não se acostumaria nunca a seguir uma liderança qualquer, muito menos a daquele sindar presunçoso. "Não ficarei aqui mais nem uma brisa. Se não fizerem seu ataque eu o farei sozinho."

Thranduil bufou.

"Por isso que seu povo todo caminha pelos halls de Mandos agora." Disse o elfo sentado em uma pedra a poucos metros do guerreiro. "A impaciência faz dos fortes fracos."

Elrohir e Elladan se olharam e o gêmeo mais velho fez o que pode para não rir do olhar que seu irmão lhe lançara. Ele sabia o que Elrohir insinuava. Era impressionante como a palavra paciência que parecia sequer existir no dicionário de Thranduil se mostrava arma principal do rei em momentos de guerra. Ele era um líder incansável, capaz de vencer qualquer situação ou inimigo com seu raciocínio frio e lógico.

"Paciência..." Repetiu o guerreiro de Gondolin andando em círculos e se odiando por ter prometido a Elrond que ajudaria aquele povo infeliz. "Se ficar mais tempo aqui vocês terão que me arrancar com raízes e tudo o que tenho direito."

Os gêmeos riram, mas o rei não viu nada naquelas queixas senão uma visível afronta do outro elfo.

"Talvez queira ir embora." Sugeriu o elfo de Mirkwood. "Talvez esteja enfadado e queira tomar o rumo de casa."

"Talvez esteja apenas querendo que alguém que, diferentemente de qualquer elfo dessa Terra-Média, se intitula 'rei' de um povo... REI... tome alguma atitude "REAL"..."

"Como enfiar sua espada no peito de alguém cuja língua não cabe dentro da própria boca?" Disse Thranduil erguendo-se e colocando a mão por sobre a arma, demonstrando a nítida intenção de fazer o que descrevia.

Elladan ergueu-se no mesmo instante e colocou-se entre os dois elfos louros.

"Guardem suas energias, meus sábios líderes." Disse o elfo moreno erguendo ambas as mãos. "Não sabemos o que nos espera."

"Tenho energia suficiente para essa e quantas outras batalhas se fizerem necessárias." Garantiu Glorfindel dando um passo a frente e encurtando sua distância do rei de Mirkwood, tendo apenas o jovem Elladan como seu obstáculo. "Posso cuidar desse pequeno conflito aqui e de quantos outros se decorrerem."

Os olhos de Thranduil brilharam de ódio.

"Quando quiser, elfo estúpido." Disse então também se aproximando e fazendo o pobre filho de Elrond se sentir o recheio de um sanduíche bastante indigesto.

"Ótimo!" Gritou então Elrohir, ainda sentado no chão, com as costas coladas a uma velha árvore. "Poupemos os orcs de muito trabalho. Vamos encarregar-nos de nosso próprio fim aqui e agora e deixá-los livres para realizarem os atos vis que julgarem beneficiá-los."

Glorfindel bufou então o mais alto que pôde e deu as costas afastando-se do grupo. Thranduil fez o mesmo, seguindo em direção oposta. Elladan soltou os braços sentindo-se como um coelho que escapa de dois grandes predadores ao mesmo tempo.

"Às vezes me questiono sobre o que os torna assim tão habilidosos líderes de guerra..." Disse o mais novo olhando o irmão ainda em pé.

"A ânsia em guerrear... seja qual for à guerra, seja qual for o motivo..." Respondeu o primogênito dobrando os joelhos em seguida e caindo no chão por sobre eles, ali mesmo onde estava.

"O que foi?" Riu o irmão. "Está aliviado?" Ele ironizou "Assustou-se com tão eminente conflito?"

Mas Elladan não respondeu.

"El?" Brincou o outro se movendo levemente de onde estava.

O irmão não emitiu som algum e Elrohir preocupou-se mais ao vê-lo pender o corpo e apoiar ambas as mãos no chão agora.

"Dan!" Ele gritou alcançando o irmão em um segundo. "Dan, o que houve?"

E o corpo de Elladan caiu sobre os braços do irmão assim que este colocou as mãos nele.

"Dan!" Gritou o gêmeo olhando a sua volta. Eles haviam sido descobertos e o acampamento agora era brutalmente atacado. Elrohir assistiu a tudo perplexo, para só então perceber que, no pescoço do irmão, um pequeno dardo estava fincado. "Oh, Iluvatar!" Ele disse arrancando a peça venenosa e fazendo o possível para que sangue jorrasse daquela pequena ferida, enquanto ao seu redor, todo o acampamento se desintegrava em agonia e luta.