Olá. Penúltimo capítulo... Pois é... O que dizer?...

Disseram-me para não dizer nada não... Pelo menos uma vez, não fazer a minha longa apresentação... Deixar um pouco as desculpas e esclarecimentos... Ficar apenas nos brevíssimos agradecimentos...

Pois bem... eu prometi então.... só dessa vez... mas já estou arrependida... Mas no último capítulo não vou conseguir... não vou mesmo...

Às grandes escritoras as quais vou dispensar o agradecimento pessoal dessa vez, mas que meu coração agradece todos os dias por ter conhecido.

Lady-Liebe – Short fics... pelo prazer de rir muito, muito mesmo.

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Ainda aguardo o final daquele capítulo lindo que você me deixou ler...

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" / "DAROR E MÍRIEL" – Aquela capaz de transformar o real em pura fantasia... Maga Myri.

Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Irmãzinha. Doce presença na minha vida e uma escritora fabulosa.

Vicky Weasley: "BITTERSWEET" De quem sinto muita saudade.

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – Escritora corajosa e competente.

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Outra de quem a saudade não me deixa esquecer.

Kika-Sama: "APRENDENDO" Atualizada e fabulosa fic. Grande escritora que não tem olhos para o talento que têm.

Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Ainda sendo reescrita. Linda fic. Chell, não consigo falar com você... Outro e-mail por favor!

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Doce fic de uma escritora que promete.

Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Atualizada e adorável. Kiannah dispensa comentários. Uma estrela de talento e criatividade.

Soi – "IDRIL NÚMENESSË". Linda fic. Outra escritora que promete.

IamAGreekLeaf – "RÚNYA" – Continuo recomendando.

Nanda – Escritora de um super talento. Nanda ainda está me devendo o final de um conto magnífico. Já disse que vou postar sem sua autorização se você não me mandar esse final.

Regina – "ELDAR E EDAIN". Recomendadíssima fic. Leiam. Regina. Uma revelação.

Amigas...

Syn, the time keeper. Adoro suas reviews e fico muito feliz por ter te conhecido.

Botori – Minha Elladan. Grande sorte para você, amiga!!!

Leka – Minha Ellahir. Que a sorte também te acompanhe e que você e sua irmã consigam seus objetivos.

Lali-chan – Agradecimentos também Lali, obrigada por me dar sua importante opinião. Beijos.

Veleth – Minha poetiza e mestra. Beijos.

Pink na – Beijos. Saudades

Roberta – Obrigada pelo apoio. Beijos!

Naru-sami – Fico feliz por você estar me acompanhando. Obrigada. Beijos

Pitybe – Super beijos, prometo fazer sua short fic assim que puder.

Alice (amiga da Soi) – Obrigada por ler. De verdade.

Lilith (amiga da Nim)- Obrigada por ler. Espero que aprecie o final.

Lele – Obrigada pela sua doce amizade. Beijos.

Phoenix Eldar – Obrigada pelo apoio. Beijos.

Karina – Obrigada pela review, pelos emails. Fico feliz por ter te conhecido agora no finalzinho da fic. Beijos

Izabelle Malfoy – Espero que goste desse finalzinho. Beijos.

Shinigami – Agradeço imensamente sua review. Beijos.

E aí vai o último capítulo... com sabor de capítulo final. Desculpe pelos erros (ih.. eu disse que não ia me desculpar...). Estou ansiosa para saber o que acharam. Obrigada por tudo.

40

"Não!! Não!!" Gritou Legolas despertando aterrorizado e sentando-se no leito. Seus olhos azuis muito abertos em círculos brilhantes de dor e angústia. Elrond correu até ele e enlaçou-o em seus braços.

"Está tudo bem, criança." Ele disse em uma voz pacificadora. "Você está em casa, está em Mirkwood..."

"Não... mestre... mestre eles... eles foram descobertos." Balbuciou o rapaz deixando-se cair nos braços do curador, os olhos voltados para o nada e as mãos trêmulas.

"Foi um pesadelo, criança." Assegurou o líder elfo apoiando a mão por sobre o rosto do menino para tentar transmitir-lhe a certeza de que estava desperto, livre dos sonhos maus que o perseguiam.

"Mestre..." Agarrou-se o rapaz na túnica do amigo.

"Estou aqui, ion nin." Afirmou o outro deslizando mais uma vez em seus pronomes de tratamento, mas não se importando muito naquele instante cruel, no qual qualquer palavra de conforto não poderia ser dispensada. "Volte a dormir, criança Não vamos deixar que pesadelo algum o oprima."

Legolas apertou mais forte entre os dedos a pequena parte da vestimenta do curador que segurava. Elrond suspirou sentindo que as palavras que proferia não correspondiam exatamente a uma promessa que pudesse de fato cumprir.

"Mestre... não... não é um sonho negro... não é..." Tentava dizer o rapaz enquanto seu corpo voltava a tremer. Legolas fechou os olhos agoniado. Sentindo a realidade se transformar repentinamente em um poço cujas paredes eram muito escorregadias. "Mestre... me ajude..."

Elrond o apertou forte em seus braços em um reflexo imediato, no mesmo instante em que o corpo do príncipe começava a tremer mais. "Legolas?" Chamou apoiando a mão cansada na testa do rapaz e constatando uma verdade que temia comprovar.

"Oh Iluvatar..." Ele lamentou em um tom quase inaudível, olhando para Faernestal.

"A febre..." Disse o curador de Mirkwood repetindo o ato do outro elfo e sentindo o porquê do desespero que ali se fazia um mal presente e contagioso. "Parece ter voltado muito mais poderosa."

Elrond sentiu a razão faltar-lhe por alguns minutos, como se a angústia lhe anestesiasse a mente, lhe entorpecesse o coração. Mas ele sacudiu a cabeça, respirando fundo, colocando o rapaz de volta no leito e correndo para a mesa que improvisara com suas ervas e outros medicamentos.

"Apresse-se Elrond!" Implorou o elfo de Mirkwood segurando o príncipe que continuava a tremer muito. Legolas perdera a pouca cor e seus lábios se arroxeavam. "Ele vai... ele..."

"Não... não..." gritou mais uma vez o rapaz começando a sacudir-se em amargo delírio. Faernestal passou a sentir dificuldades em mantê-lo quieto.

"Elrond!!"

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"Estel!!!" Gritou Elrohir com o irmão nos braços, olhando por todo aquele campo de batalha, mas não conseguindo avistar o caçula. "Oh Elbereth." Ele clamou voltando a encostar-se a Elladan. "Ai, Dan... não sou curador, Dan... Não sei mexer com ervas... Bem que você me disse que não devia ter desistido... "Ai, Dan..." Lamentou-se o gêmeo apertando o pequeno orifício com mãos trêmulas e fazendo o sangue sair com mais força. "Por favor, gwador nin... me ajude... não sei o que fazer..."

Mas Elladan sequer movia os olhos por sobre as pálpebras fechadas. Elrohir respirou fundo tentando acalmar-se, mas era inútil, a situação não pedia sua calma, pedia sua urgência, sua adrenalina de guerreiro, sua fúria de lutador. Ele voltou a olhar ao redor, os pobres elfos de seu grupo não eram suficientes para o número estrondoso que compunha o exército inimigo. O gêmeo empalideceu e algo em seu coração começou a gritar-lhe que aquela talvez fosse a sua hora, fosse a sua vez... e a de seu irmão. Ele fechou os olhos por alguns instantes, depois se abaixou e beijou o irmão no rosto, sorrindo com tristeza.

"Se formos, irmãozinho." Ele disse em voz baixa. "Que levemos muitos conosco."

Foi então o tempo exato para tudo, o tempo da despedida e do último suspiro antes da adrenalina tomar o elfo como um todo, fazer o coração do jovem e corajoso Elrohir bombear toda energia que lhe restava, em correntes de uma certeza que se fazia do nada absoluto. O rapaz levantou-se a tempo de ver três enormes criaturas seguirem em sua direção. Aquele era o pior ataque que sofreram e não parecia haver possibilidade alguma de qualquer socorro vir auxiliá-los.

Várias figuras medonhas começaram a se aproximar, Elrohir sacou sua espada e procurou esquecer-se do que prendia seu coração, esquecer-se do irmão sem destino cujo corpo deixava-se ficar naquele chão frio. Ele encheu o peito de ar e ira, obrigando os pensamentos e emoções a se apertarem em um canto escuro, obrigando-se a se esquecer de sua metade, esquecer-se um pouco de si mesmo, enquanto se entregava a uma batalha que já lhe parecia perdida.

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Muitos já haviam caído, vitimas dos dardos e de outros ataques até mais ferozes. Thranduil arrastava agora o corpo do guerreiro de Gondolin para trás de uma grande árvore. Glorfindel também caíra vítima de um daqueles ferrões cruéis. O rei ajoelhou-se diante do elfo louro e puxou o espinho maligno da perna da vítima, abrindo mais o ferimento com seu punhal e fazendo o sangue jorrar. O elfo gemeu mas não despertou.

"Lamento, nobre guerreiro." Disse o rei apertando o ferimento com ambas as mãos agora, enquanto ainda olhava cautelosamente a sua volta. Ele não podia ficar ali. "Tais armas covardes não deviam ser usadas em batalha alguma. Mas o que podemos esperar de um povo tão repugnante?"

Thranduil enfim ergueu-se, após ter camuflado o corpo do outro elfo com sua capa. Escondido atrás da árvore ele encarava o combate, analisava suas possibilidades. E eram poucas, quase nenhuma. Como podiam ter sido descobertos tão bem camuflados como estavam? Era a pergunta que lhe atormentava a mente, que lhe tirava a razão. Aquilo tudo parecia estar se tornando um hábito, eles sempre eram pegos em momentos onde a situação se mostrava a mais frágil possível.

Seu coração povoou-se com aquele sentimento de contrariedade, de indignação e ele voltou a olhar para a cruel cena que se formara. Por todo o território se ouviam gritos de dor e agonia, armas caídas ao chão, brilhos se extinguindo, enquanto o anoitecer já vinha impor-se como novo inimigo cruel. Eles perdiam gradativamente a batalha que travavam, estavam em total desvantagem. O rei voltou-se então para a grande árvore e escalou-a com rapidez, parando no topo e analisando o grande trajeto até a caverna.

"Por Mandos, dunedain infeliz." Ele disse para si mesmo ao olhar o triste emaranhado de pedras que abrigava um covil das criaturas mais perigosas. "Não permita que esses desgraçados recebam a ajuda desses seres das trevas que ainda estão entocados nesse lugar maldito."

Mas longe dali, alguém não podia ouvir os clamores do rei de Mirkwood, porém camuflava-se na floresta eficazmente e já estava bastante próximo do ponto que o rei lhe indicara como sendo o melhor para sua investida. Aragorn arrastou-se por baixo de uma moita e fixou seus olhos na grande entrada da caverna. A sorte precisava lhe sorrir.

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"Não está fazendo efeito, Elrond." Desesperou-se Faernestal apoiando as mãos cruzadas no próprio peito, como se tentasse impedir o desesperado coração de saltar de sua morada. "Ele já teve duas convulsões" Lamuriou-se respirando fundo. "Não vai agüentar uma terceira."

Elrond deslizava a palma pelo rosto e cabelos úmidos do rapaz desacordado. A cena angustiante que presenciaram, e que parecia fadada a se repetir em breve, roubava-lhe a habilidade de raciocinar. Ele queria pensar, encontrar uma alternativa para neutralizar o sofrimento que se enraizava naquele corpo sem forças. Mas o próprio curador já estava ofegante, agoniado e, pior do que tudo, sem arma alguma agora para utilizar.

"Por Iluvatar, Elrond." Clamou o curador lendo as linhas no rosto cansado do amigo. "Não me diga que se esgotaram todos os seus recursos?"

Elrond baixou os olhos por alguns instantes, engolindo o desespero que reivindicava seu corpo e sua alma, enquanto suas mãos ainda deslizavam sem rumo pelo rosto e peito do rapaz. Ele se sentia um cego tateando em busca de uma resposta que seus olhos e sua mente não podiam lhe oferecer. Ele tinha que pensar... pensar... pensar... e pensar muito rápido.

"Elrond?"

"Nobre Faernestal..." Disse enfim o curador segurando agora o rosto do rapaz em ambas as mãos, mas mantendo os olhos fechados, sem coragem de encarar o príncipe ao dizer o que tinha que dizer. "Comece a pedir... comece a implorar pela salvação dessa criança... pois minhas mãos agora estão vazias... e minha mente também..."

O curador de Mirkwood emudeceu e ele se viu obrigado a sentar-se na poltrona atrás dele para não ganhar o chão. Elrond sentou-se na cama diante do menino. Seus olhos enchiam-se de lágrimas. Ele balançava a cabeça com força, como se quisesse sacudir as próprias ideais, encontrar algo no qual não houvesse pensado.

"Iluvatar, Elrond." Disse Faernestal com a voz trêmula. "Pense em algo".

"Estou tentando, meu bom amigo." Assegurou o curador ainda com seus olhos fechados. "Estou revirando minha mente, minha casa, minha existência inteira em busca dessa luz... em busca dessa... luz..."

Faernestal acenou com a cabeça positivamente, apenas por não saber mais o que fazer. Ele uniu as mãos e apertou-as com força. Queria ajudar, queria fazer algo para que aquele peso não recaísse apenas sobre as costas já arcadas do cansado Elrond. Mas o destino atara-lhe as mãos e o atirara à ingrata posição de mero espectador daquele show de horrores.

"Por Eärendil e a esperança que nos transmite, meu sábio amigo." Ele disse por fim mantendo os olhos fixos no lorde de Rivendell. "Essa resposta deve estar em algum lugar... só está... escondida..."

Elrond acenou em concordância, sentindo-se sacudido pelo nome da estrela de seu passado. Seu espírito queria acreditar, embora sua mente já demonstrasse o cansaço dos derrotados.

"Lembre-se de seus livros, dos mais antigos, lembre-se deles..." Incentivou o curador da Floresta Escura sentindo que nada mais lhe ocorria a dizer a não ser o óbvio, o qual Elrond provavelmente já executava. "Deve haver algo... escondido atrás da mais escura das prateleiras..."

Elrond fechou os olhos, ele sabia o que Faernestal lhe aconselhava, mas, como o amigo do reino de Thranduil imaginava, ele já o fazia há tempos, traçando cada prateleira, cada livro, cada figura, cada letra... e não conseguindo encontrar nada.

"Pense... nem que seja no mais antigo quênia..." Continuou a tagarelar nervosamente o desesperado curador louro. "Nem que seja na linguagem dos que já se foram... no início de todos os tempos..." Extrapolou então sentindo o rosto banhado pelas lágrimas que sequer percebera ter derramado.

Elrond apertou mais os olhos e cobriu o rosto com as mãos.

Então o pobre Faernestal suspirou, compreendendo o que aquela atitude significava. Ele olhou para Legolas e tomou-lhe a mão nas suas, desistindo de esperar pela resposta do curador de Rivendell... "Oh Iluvatar... tenha piedade dessa criança..." Começou a pedir então, a clamar por uma ajuda superior. "Ele não merece tal destino... Ele não merece... Ele já sofreu o suficiente..."

Elrond voltou a fechar os olhos e passou a repetir mentalmente todas as palavras do valoroso amigo do príncipe. Era tudo o que podia fazer, enquanto sua mente ainda vagava pela biblioteca de sua casa, pelos últimos livros, pelas páginas amareladas, pelos pergaminhos antigos, até que uma capa com letras douradas lhe surgiu.

"Magias e Feitiços..." Disse o curador ainda de olhos fechados, mas com as sobrancelhas dolorosamente unidas.

"O que?" Indagou Faernestal supondo ter ouvindo mal.

Elrond não respondeu. Ele apenas se ergueu e começou a caminhar desesperadamente pelo quarto.

"Sim.. sim... a página... Iluvatar... a página escura... a página escura... o que havia nela?... O que?"

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"Abaixe-se, menino!" Elrohir ouviu uma voz gritar-lhe e obedeceu de imediato, observando em seguida duas enormes cabeças saltarem de seus corpos e rolarem no chão. Ele voltou-se surpreso e encontrou os olhos de Thranduil.

"Gra... grato..." Balbuciou o rapaz transtornado.

Mas o rei nem sequer o ouviu, já corria alguns metros para ajudar outro soldado que se via encurralado por duas grandes criaturas. A Elrohir, por sua vez, não restou muito tempo para admirar a coragem e destreza do líder de Mirkwood, pois logo outro grande grupo avançava sobre eles. A situação era caótica.

Já perto da grande caverna, Aragorn continuava seu difícil trajeto em pele de animal rastejante. Ele chegara a um ponto onde não havia mais saída a não ser erguer-se e torcer para que ninguém o visse terminar a tarefa a qual fora designado.

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"Oh, Elbereth..." Lamentou-se subitamente o curador alcançando a varanda e procurando encher os pulmões de ar. Faernestal o acompanhou.

"Lembrou-se? Lembrou-se Elrond?"

"Não... não... não consigo..." Sacudia agora violentamente a cabeça segurando as têmporas o senhor de Rivendell, não conseguindo reconhecer-se naquele estado de angústia e desespero. Faernestal apoiou as mãos em seus ombros e baixou a cabeça.

"Esse lugar escuro não é mesmo muito inspirador..." Lamentou-se o elfo.

Elrond então abriu os olhos. Lugar escuro. Ele repetiu em sua mente. Lugar escuro. Página escura. Lugar escuro. As trevas. A dor. A discórdia. A guerra. E enquanto aquelas palavras encadeavam-se em sua mente as linhas da enegrecida página do passado voltavam a se traçar a sua frente, como se as mãos de seu escritor as estivessem reescrevendo. E a resposta finalmente surgiu, contendo a própria guerra em seu nome, em seu nome em sindarim, em seu nome em quênia.

"Não..." Ele disse sem conseguir trancar novamente os lábios.

"O que foi, Elrond?" Indagou Faernestal colocando-se em frente ao amigo.

"Eu..." Tentou explicar o curador concentrando-se nos olhos claros do louro elfo de Mirkwood, mas ainda vendo as mesmas letras e a imagem que a descrição que ofereciam formava em sua mente.

Faernestal franziu a testa, mas de repente as rugas da dúvida deram espaço a palidez de uma constatação.

"Lembrou-se, não foi?" Indagou o súdito de Thranduil. "Lembrou-se do que havia lá?"

"Sim..." Disse o lorde de Imladris em um tom quase inaudível. "Mas receio que minha memória não me tenha presenteado com a informação que gostaria."

Faernestal soltou os lábios, não conseguindo disfarçar a decepção da informação que ouvira.

"Então não é de serventia? A página que queria ver decifrada?"

"Sim..." Respondeu o curador olhando novamente para o rapaz no leito. Legolas já voltava a tremer. "Mas... não acredito que possa..."

"Elrond..." Desesperou-se o outro subindo repentinamente o tom de sua voz. "Pelos Valar.. Qualquer coisa... Se eu puder ajudar... Diga-me.... Daria minha vida pelo rapaz."

Elrond fechou os olhos. Talvez um sacrifício de igual valor fosse necessário.

"Você conhece, nobre Faernestal..." Ele iniciou cauteloso, segurando agora o amigo louro pelos ombros e fazendo-o desviar sua atenção do príncipe para si. "um animal que vive nas cavernas... um... um ser perigoso. O que tem de pequeno tem de mortal..."

"Um ser..." Quis entender o atento curador.

"Ele é conhecido pelo nome de... de dagorlavan em sindarim ou othalaman em Quênia..."

"Por Mandos, Elrond." Arrepiou-se o curador dando um passo para trás. "O que quer com tão abominável criatura?"

"Preciso dela..." Informou Elrond com convicção, voltando a segurar o amigo. "Nós precisamos... e precisamos de uma delas viva."

Faernestal franziu o cenho.

"Temos... eu... Eu sei como conseguir um espécime... mas... mas..." Ele voltou a olhar o rapaz no leito com preocupação. "Elrond... por Varda e a luz que nos ilumina... Você vai precisar me dizer para que a quer."

"Ela é poderosa." Disse o lorde de Imladris, seus olhos se escureciam pela dúvida e preocupação.

"Bem sei... suga vidas..."

"Suga o néctar... mas assume primeiro o que é ruim para depois partir para o que é bom..."

Faernestal desprendeu os lábios e sentiu seus joelhos fraquejarem. A imagem que formava agora em sua mente era pior do que qualquer pesadelo que tivera em todos os seus dias naquela floresta triste.

"Não pretende... não... Ele não vai agüentar tamanha provação Elrond..."

O curador acenou positivamente.

"Como pretende impedi-la de roubar do príncipe mais do que o veneno que nele habita?"

Elrond ergueu a mão direita e um leve brilho se fez. Faernestal voltou a sentir seus joelhos lhe faltarem. Se caísse agora, será que seria capaz de se levantar?

"E eu que já vivi tanto..." Lamentou-se o curador olhando para o anel do lorde de Imladris com respeito. "Não pensei que viveria tão intensas emoções ainda."

Elrond baixou a mão e o brilho voltou a desaparecer.

"Acha que sozinho pode conter tamanho poder? Acha que pode fazer a maldita criatura parar no momento exato?"

"Não." Respondeu o curador de Rivendell para a surpresa do outro elfo. "Creio não ser capaz de usar o pouco poder do qual posso dispor aqui em Mirkwood em tão grande prova... Mas..."

"Mas?"

Elrond suspirou.

"O que vem depois do 'mas' fica a seu critério, nobre Faernestal... Confio em seu poder de conjeturar a respeito do óbvio..."

Faernestal apertou as têmporas e encheu os pulmões. Depois se voltou mais uma vez para Elrond. Ele tinha tantas perguntas. Mas não havia tempo. Se aquele era o dia das escolhas e das provações, que esses tormentos começassem de uma vez por todas.

E pensando nisso o nobre curador saiu com rapidez, deixando o lorde de Imladris parado onde estava, consumindo-se por pensamentos desesperadores. Em poucos instantes Elrond foi novamente despertado. O pobre príncipe voltava a tremer muito em seu leito de febre e dor.

&&&

Thranduil corria por entre as árvores atrás de uma criatura repugnante que acabara de assassinar friamente um de seus elfos. Ele estava exausto, mas colocara em sua mente que não desistiria enquanto não visse aquela cabeça rolar. E foi o que fez, chutando o crânio há metros de distancia, mas sentindo subitamente um gosto amargo e um terrível mal estar.

"Legolas..." Ele disse apoiando-se em uma das árvores enquanto a sensação enfraquecia em seu peito, como se o rapaz quisesse dizer-lhe algo, mas não fosse capaz. Thranduil sacudiu a cabeça e afastou os cabelos soltos que encobriam seus olhos. A figura do rosto do príncipe surgiu então por trás de uma neblina rala que de tão real parecia fazer com que o rei sentisse suas roupas úmidas. "Legolas..." Ele repetiu vendo o filho ainda lhe encarar, lábios selados, olhos lacrimejando. Thranduil esticou o braço sentindo que poderia tocá-lo, mas a imagem se desfez, deixando atrás dela o triste cenário da guerra que se fazia. Thranduil apertou os olhos por alguns instantes, amargando os muitos significados que aquela visão poderia ter.

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"Onde?" Gritava o rei enervado, desesperado em sua busca que já durava horas. "Onde o viram pela última vez?"

O grupo de soldados se entreolhou confuso. Aquela não era a primeira e nem a segunda vez que o rei repetia a mesma pergunta, como se não acreditasse na resposta que recebia.

"Pelos halls escuros e tristes daquele que a nós todos pretende levar, suas crianças tolas!" Ele gritou avançando por sobre os soldados que recuaram alguns passos assustados com a atitude atípica do rei. "Por que permitiram? Quantos são vocês? Como deixaram o príncipe ser abatido?"

Um esguio soldado que estava atrás do grupo tomou finalmente à frente, encarando o rei com um estranho olhar. O amigo a seu lado segurou-lhe um dos braços discretamente. Mas Thranduil já vira o que precisava e sabia para onde dirigir suas investidas. Ele franziu as sobrancelhas até que se unissem e fez com que seus olhos se congelassem no pobre elfo que parecia um tanto arrependido do que intentava fazer.

"Diga, Thavanian!" Ordenou o rei aproximando-se.

O elfo baixou os olhos e suspirou.

"Ele... salvou... salvou minha vida, majestade." Admitiu o rapaz empalidecendo visivelmente.

"Ele o que, elfo?" Indagou o rei aproximando-se e deixando seu sentimento de indignação mostrar-se mais do que evidente. "Você é o guarda pessoal dele! Por todos os cantos escuros dessa caverna maldita!" Gritou o rei olhando novamente para o úmido lugar no qual se encontravam. "Como pôde permitir?"

O rapaz puxou a capa e mostrou receoso então o braço para o rei. Thranduil desceu seus olhos e sentiu o estômago dar algumas estranhas voltas. A mão e o braço esquerdo do rapaz estavam cobertos por feridas enormes e o antebraço provavelmente estava quebrado. O rei apertou os lábios inconformado, desacreditando que o pobre soldado ainda pudesse estar de pé com a dor que sem dúvida aquele ferimento estava lhe causando.

"Corremos." Continuou o rapaz com os olhos úmidos" E a caverna desmoronou... Estavam todos em liberdade, mas Legolas... o príncipe..." Corrigiu o elfo. "Ele voltou... ele voltou para me ajudar e..."

Thranduil ergueu uma mão. Ele já havia ouvido o suficiente.

"Levem esse menino para o curador..." Disse o rei olhando o rapaz nos olhos. "A culpa não está sobre os seus ombros, Thavanian." Completou então em um tom baixo mas firme, cuja intenção o elfo compreendeu inteiramente. Thranduil não pedia desculpas, mas a consideração com que tratava seus bons soldados era um presente maior para qualquer um que a ele servisse.

O elfo baixou a cabeça e se deixou conduzir para fora da caverna.

"Já vasculhamos tudo, senhor." Soou a voz do último soldado ao regressar do amontoado de pedras que agora obstruía a escura passagem para dentro daquele lugar sombrio.. Thranduil apertou os olhos ainda deslizando as verdes pupilas por aquelas rochas, por aqueles cantos escuros, por aquela ausência de sons.

"Está soterrado" Ele ouviu uma voz murmurar ao longe. "O príncipe está morto."

"Alagos!" Gritou o louro líder enfurecido, voltando-se para o capitão da guarda com olhos que derrubariam um oliphant. "Como ousa atestar o destino do príncipe? Como ousa fazer-se senhor de todas as verdades?"

O rapaz empalideceu, colocando-se imediatamente de joelhos.

"Lamento, meu rei amado..." Ele disse em uma voz trêmula, a testa encostada no joelho erguido. "Que Mandos venha me levar se ofendi a meu líder..." Ele completou erguendo uma mão em clemência. "Eu... eu só..."

Os soldados a volta se constrangeram em ver seu capitão obrigado a se subjugar de forma tão evidente, mas sabiam que o rei tinha razão em sua ira.

"Ninguém sela o destino de ninguém aqui..." Atestou o enfurecido líder aproximando-se do soldado que se encolheu levemente. "Apenas eu!" Ele ergueu a voz um tom e apoiou a mão por sobre a espada. "Apenas eu ofereço a clemência... ou o fim."

Alagos engoliu o amargo que se criava em sua garganta e fechou os olhos, mas nada aconteceu, então se ergueu e encontrou a mão estendida do rei.

"O fim." Repetiu Thranduil em um tom triste. "Ou a clemência." Ele completou estendendo um pouco mais a mão.

O capitão aceitou a ajuda de seu líder receoso e ergueu-se devagar sem olhar o rei nos olhos. Thranduil também não teceu comentário algum, dando as costas e voltando a olhar para o começo do nada que parecia ser aquele lugar vazio. A poeira gerada pelo desmoronamento ainda imperava e o líder louro não conseguia conter a mente, que cavalgava enlouquecida tentando entender como tudo aquilo ocorrera. Aquela caverna tinha tantos anos de existência quanto o mais velho dos elfos que conhecia e nenhum abalo que justificasse o estranho desmoronamento havia sido sentido em lugar algum.

"Não faz sentido." Disse o rei para si mesmo.

"Não é seguro aqui, meu senhor." Arriscou o jovem Alagos com um olhar triste.

Thranduil baixou então a cabeça levemente e moveu o corpo em direção a saída. Ele sabia que o capitão de sua guarda tinha razão. Embora custasse a fazer seu coração aceitar, aquele amontoado de pedras se fazia fim e sepulcro para seu filho. Ele deu alguns passos pela caverna, mas um estranho aperto em seu peito o fez parar subitamente, apoiando a mão em uma das paredes úmidas.

"O que foi, meu senhor?" Veio a voz de Alagos. "Sente algo?"

Thranduil sentia algo, definitivamente, mas estava incapacitado de discernir o que seria. Ele respirou fundo, fechando os olhos, e o vazio daquele lugar voltou a preencher sua alma, um vazio quase tão grande quanto o que nela já habitava. O absoluto vazio que subitamente parecia ser invadido por um som muito distante. Thranduil franziu a testa e calou os soldados a sua volta, sem voltar a abrir os olhos.

"Ada... não vá... não me deixe..." Ele ouviu enfim.

"Legolas..." Ele disse abrindo novamente os olhos e saindo do meio do grupo que se formara ao seu redor. Os soldados ficaram atordoados observando o rei, enquanto o louro elfo avançava novamente para perto do amontoado triste de pedras.

"Todos já verificaram, senhor." Insistiu Alagos dando alguns passos na mesma direção do rei, mas parando receoso, acreditando que estaria forçando demasiadamente a sua sorte se insistisse em contrariar seu líder uma vez mais.

Thranduil não deu ouvido, ele mesmo aproximou-se das pedras e começou a removê-las não se importando com o perigo que corria em um lugar ainda instável. Os soldados passaram a se aproximar vagarosamente e em pouco tempo todos ajudavam o rei a retirarem as pedras de uma determinada região. Eles não compreendiam, mas não queriam ver seu líder naquele trabalho árduo sozinho.

Eram pedras de diversos tamanhos, mas não muito grandes. Thranduil as atirava longe com força, como se simbolizassem os obstáculos de sua vida que ele não temia transpor. Foi quando surgiu um brilho por entre o pó e cascalhos, um brilho que ele conhecia.

"Iluvatar! O rei tinha razão!" A voz de um dos soldados afirmou involuntariamente, enquanto todos direcionavam suas energias e atenção para aquela região, retirando as pedras e descobrindo finalmente, o corpo do príncipe soterrado.

Thranduil manteve-se em silêncio o processo todo, mal se ouvia o arfar de seus pulmões. Quando o rosto de Legolas surgiu, ele apenas segurou-o entre as mãos enquanto os soldados terminavam de desenterrá-lo.

As pálpebras do príncipe se ergueram então e todos suspiraram aliviados, mesmo que em seus corações ainda residisse a surpresa e a descrença pela cena que viam. Legolas piscou algumas vezes e finalmente encontrou os olhos do pai.

"Não diga nada, capitão." Advertiu o rei soltando o rosto do filho, embora não desejasse fazê-lo, embora desejasse imensamente abraçá-lo e retirá-lo dali. "Guarde suas forças, logo estará fora daqui."

Os soldados então correram. Cada qual providenciando o que era necessário para que a promessa do rei ao filho se efetivasse. Legolas ficou sozinho com o pai naquela caverna fria, seus olhos ainda presos aos dele.

"Ouviu?" Indagou o rapaz quase sem desprender os lábios ressecados pelo pó daquele lugar. "Ouviu-me... chamar... pelo senhor?"

Thranduil olhou a sua volta uma vez mais, os soldados improvisavam uma maca agora e da entrada da caverna vinha rapidamente o preocupado Faernestal, sendo acompanhado pelo capitão da guarda. Ele se voltou para o filho e suspirou, eram poucos os seus momentos de pai, então apoiou a mão por sobre a testa do menino que fechou os olhos novamente, sentindo o toque seguro daquele a quem tanto amava.

"Eu sabia..." Disse o príncipe expelindo o ar dos pulmões com dificuldade e contorcendo-se levemente onde estava. "Sabia que o senhor... não... não ia me deixar."

Thranduil não respondeu deslizando apenas o polegar pelas sobrancelhas do filho várias vezes enquanto calava seu coração angustiado. Felizmente Legolas compreendia bem tanto suas palavras quanto seus silêncios.

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Thranduil sacudiu a cabeça diante daquela estranha recordação. Tudo parecia ter significados ocultos ultimamente e a vida estava se tornando um estranho quebra-cabeça.

"Agüente mais um pouco..." Ele disse em voz baixa "Espere pelo meu retorno, menino."

E ao finalizar seu pedido solitário o bravo rei retomou o caminho de onde viera para encontrar seu grupo mais encurralado do que nunca. O jovem Elrohir já caíra ao chão, mas defendia-se ainda com sua espada, girando por sobre as folhas mortas e fazendo o possível para tornar-se um alvo difícil. Thranduil correu para ajudá-lo mais uma vez, mas foi interceptado por um grupo de quatro seres que tinham quase o dobro de seu tamanho.

"Malditos!" Ele gritou brandindo sua espada com eficácia. "Por que não voltam para as profundezas dos lugares escuros de onde vieram?"

Mas ao grupo somaram-se mais dois, e depois mais dois, até que o rei se viu cercado como nunca estivera, completamente sem ação. Em pouco tempo tudo estaria terminado.

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Aragorn erguido agora, caminhava pela lateral da caverna silenciosamente, com as costas coladas à parede fria, carregando a estranha munição que o rei lhe oferecera. Quando estava próximo da entrada começou a escalar as grandes pedras até chegar ao topo dela onde enfim descarregou sua bagagem, enchendo as frestas das rochas com o estranho pó apertado em chumaços de palha de diversos tamanhos.

"Thranduil... Thranduil..." Ele balançou a cabeça incrédulo acertando alguns fios que funcionariam como pavios. "Espero que esteja certo sobre essa coisa estranha que me apresentou."

"Não vai ter tempo para descobrir, nobre dunedain." Uma voz surgiu por trás de uma grande rocha. Aragorn voltou-se com dificuldades, mas não acreditou no que viu.

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"Elrond..." Balbuciou Faernestal trêmulo. Atrás dele os olhos arregalados de dois elfos que seguravam uma grande caixa refletiam a mesma incompreensão, somada a um temor em uma dose até mais elevada do que a do curador. "Tem certeza?"

"Não..." Disse o lorde apertando as mãos e fechando momentaneamente os olhos. "Não tenho certeza de mais nada nesses meus dias..." Ele terminou abrindo passagem e pedindo que os jovens elfos trouxessem a caixa para perto do leito.

Os soldados olharam mais uma vez para o curador de Mirkwood. Não confiavam em Elrond e por isso tentavam ao máximo ler a sanidade sempre presente no rosto do sábio Faernestal. No fundo, porém, o que mais desejavam e instintivamente buscavam encontrar era algo de insensato nele, um argumento qualquer que os fizesse desistir de ajudar aquele excêntrico par de curadores que agora esperavam deles uma das atitudes mais estranhas que julgavam um dia serem obrigados a fazer.

"Quando eu dizer agora, crianças." Disse Elrond engolindo o temor que fechava sua garganta. "Vocês abrem e viram a caixa. Compreenderam?"

Não. Os elfos não compreendiam, mas obedeceriam pois para isso eram designados. No entanto, em seus corações, eles juravam por tudo o que brilhava e tinha cor que cortariam as cabeças daqueles curadores perturbados se algo de mais grave acontecesse a seu príncipe.

"Andem, meninos." Encorajou-os Faernestal com um olhar que não convencia nem sua imagem no espelho. "Vai dar tudo certo..."

Elrond se posicionou em frente a Legolas e abriu-lhe a túnica. Os dois elfos se assustaram com o tom azulado que tomava conta do peito do rapaz. A pele enrugava-se em uma casca estranha. Eles se entreolharam perplexos e a gravidade do que ocorria atingiu-os em cheio. Teria o príncipe sido realmente envenenado? Mas não havia tempo para questionamentos.

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Aragorn arregalou os olhos perplexo. Aquele rosto, que agora o ameaçava com duas flechas armadas em sua direção, era o de alguém que ele jamais imaginaria ver contra ele. Não em um momento como aquele.

"Alagos?"

"Não se dirija a mim, dunedain!" Ordenou o elfo visivelmente insatisfeito em ouvir o próprio nome na boca daquele humano. "Vamos," Ele disse apontando para o caminho o qual o guardião percorrera. "Volte por onde veio e não se atreva a terminar o que começou."

"Você não entende, Alagos." Tentou mais uma vez Estel erguendo ambas as mãos para mostrar-se como uma não ameaça. "Estou aqui a mando do seu rei. Cumprindo uma missão para ajudar a seu povo. Não lhes quero nenhum mal."

"Cale-se vamos, humano desprezível!" Ele gritou puxando a corda de seu arco mais alguns milímetros. "Não tenho tempo a perder com você! Solte o que quer que ainda esteja em seu poder e cumpra o que lhe foi ordenado!"

Aragorn franziu o semblante profundamente insatisfeito com o tratamento que o amigo de Legolas lhe dirigia. O que por Mandos teria acontecido com ele?

"Alagos!! Por Iluvatar!! Seu povo está sendo ameaçado! O que aconteceu que te fecha o coração e os ouvidos para as palavras que lhe digo?"

"Suas palavras não me interessam! Nunca me interessaram e nunca me interessarão. Cale sua maldita boca e obedeça."

Aragorn irritou-se profundamente enfim.

"Pois então atire suas flechas, elfo estúpido!" Ele disse. "Mas o faça logo, pois se o juízo e o bom senso lhe faltam, a mim eles inundam e eu vou terminar o que seu rei me instruiu a fazer."

"Dunedain! Eu falo sério! Não me faça ter que carregar o seu corpo e jogá-lo em frente ao rei como o traidor que é!"

"Não sou traidor! Por todas as sombras que ainda habitam essa terra esquecida! Por que me faz repetir centenas de vezes o que já lhe disse em linguagem que sei que compreende? Como se não me conhecesse, Alagos! Somos amigos, Legolas e eu, e você bem sabe disso... Por que acha que poderia querer algum mal ao povo do príncipe?"

Alagos apertou os olhos abertos e suas pupilas se dilataram ligeiramente. Aragorn foi surpreendido por um súbito pensamento ao qual não se sentiu compelido a acreditar. Mas o semblante do elfo, a postura arrogante e autoritária o levava cada vez mais a crer que seus instintos lhe diziam uma triste verdade.

"Alagos..." Ele disse baixando as mãos. "Você não...não pretende trair a seu povo... pretende?"

O elfo apertou os olhos e seu semblante ganhou um tom irônico e cruel.

"Devo lhe explicar o significado da palavra trair, guardião? A você? Herdeiro de quem é? Herdeiro do maior de todos os traidores?"

Aragorn sentiu o queixo cair. Em outra ocasião aquelas palavras lhe tomariam a razão, mas a surpresa de constatar que de fato Alagos era uma ameaça, um fera sutilmente disfarçada em pele de cordeiro manso, lhe tomava os sentidos.

"Alagos... Como sabe quem sou?" Indagou Estel retomando sua postura, enquanto pensava em uma explicação plausível para tudo o que ocorria.

O elfo torceu o nariz em desgosto.

"O reino tem paredes... paredes de pedras frias e tristes... mas tem paredes..." Ele informou.

Aragorn ergueu então mais as mãos, intentando fazer com que seu inimigo relaxasse ao vê-lo em uma posição de submissão.

"Alagos... o que... o que pretende fazer? Por que... por que não quer que eu termine a tarefa que seu rei me ordenou, por que não quer impedir que essa força cruel que se aloja dentro desse lugar se manifeste?"

O arqueiro apertou levemente a arma que segurava, mas não respondeu. Em seus olhos a dúvida era uma lição que poderia lida e relida por qualquer um que neles mirasse. Aragorn procurou manter-se preso a eles, buscar um elemento ao qual se apegar, um lugar no qual se agarrar para não deslizar nesse abismo de dúvidas que se fazia a sua frente.

"Não lhe devo satisfações." Disse finalmente o elfo dobrando ligeiramente os joelhos e trazendo sua mira para o meio do peito do guardião agora.

"Alagos... Legolas... é seu amigo... o povo de Mirkwood..."

"Amigo?" Bufou o rapaz tentando não fazer com que sua risada sarcástica fosse um retrato de si mesmo. "É... Legolas preza muito a amizade..."

"Ele é seu amigo!" Indignou-se o guardião julgando que o chefe da guarda real estivesse questionando a devoção do príncipe para com aqueles a quem bem queria. "Já demonstrou isso várias vezes!"

"Diga-me então, já que quer conversar, dunedain. O que acha que o doce Legolas, que tanto preza a amizade, vai sentir quando vir o seu amigo dunedain sem vida e souber que toda a Mirkwood, inclusive seu pobre rei e pai, foram derrotados por causa de traição dele?"

"Do que está falando?" Indagou o guardião baixando levemente os braços e franzindo muito as sobrancelhas.

"O que acha, dunedain? Diga-me? Pobre principezinho frágil... Não saberá governar seu reino... pobre principezinho que a todos obedece como um animal bem adestrado... Ele saberá então prezar minha amizade... ele saberá..."

Aragorn olhou para o elfo louro descrente e boquiaberto. Uma angústia se fazia visível no semblante de Alagos, como se ele mesmo não acreditasse no que dizia, como se conversasse consigo mesmo para convencer-se em um diálogo insano.

"Alagos... como... como pode? Thranduil o tem como a um filho... e Legolas como a um irmão... Quantas vezes tanto rei quanto príncipe já salvaram sua vida?"

O arqueiro fechou os olhos momentaneamente.

"Thranduil..." Ele disse com desprezo. "Thranduil terá o que merece."

"Como assim? Ele guia e protege seu povo? É um rei preocupado e dedicado!" Disse o guardião colocando-se enfim em uma posição que jamais se imaginaria estar em toda a sua vida, elogiando o pai de Legolas sinceramente.

"É um traidor!! Um covarde!!" Gritou Alagos abrindo muito os olhos. "Ele e aquele arrogante que se dizia pai dele nos moveram de perto dos nossos, nos trouxeram para essa floresta miserável... Aquele maldito Oropher nos trouxe para um pesadelo, nos atirou em uma guerra que não era nossa... Maldito seja ele... que Mandos o tranque em algum lugar escuro e frio!!"

Aragorn sobressaltou-se então e sentiu sua cabeça dar mais voltas do que jamais dera em seus dias de novato e aprendiz. Do que aquele elfo estava falando?

"Pelos Valar, Alagos." Disse então. "Seu povo, e não foram tantos assim, seguiram ao rei Oropher, pelo que sei... por livre e espontânea vontade... Por dedicação e devoção... E segundo me foi ensinado, eles eram muito amados pelo líder que tinham... E Thranduil... Thranduil era apenas um príncipe quando...".

"Thranduil..." Repetiu o elfo parecendo sequer ouvir os argumentos do guardião. "Ele se julga rei... mas nunca souber sê-lo... nunca... Ele nunca fora sequer um príncipe de verdade..."

Aragorn ouvia intrigado agora, calando seus protestos para tentar compreender o que enervava assim o tão devoto chefe da guarda real de Mirkwood. Aquele elfo ganhara a posição que tinha exatamente por ser em quem Thranduil mais confiava, como podia estar dizendo as coisas que dizia?

"O que ele fez, Alagos? Ajude-me a entender..." Pediu o guardião se vendo obrigado a tentar ganhar tempo até que alguma idéia lhe ocorresse. Tempo que não tinha.

"Ele se esqueceu!" Gritou o elfo com os olhos brilhantes. "Se esqueceu de quem era, se esqueceu do sangue que circula em suas veias... Ele até... ele até se casou com uma maldita camponesa... uma inferior cuja beleza sequer lembrava a beleza dos sindars... E depois de tudo... depois de tudo a infeliz ainda..."

O guardião franziu a testa, incrédulo do que ouvia, abismado com as cores que Alagos acrescia a uma louca verdade que só o elfo parecia ver.

"O que?" Indagou inconformado com o rumo que aqueles acontecimentos os levavam. "O que a pobre rainha Elvéwen lhe fez, Alagos?"

Alagos travou os músculos do pescoço como se quisesse engolir algo enorme sem mastigá-lo antes.

"Maldita... Mandos sabe bem a quem levar..." Ele disse com os olhos perdidos em uma imagem que sua mente criava para si mesmo. "Logo ele terá a família toda ali a seu dispor, o rei farsante, sua rainha camponesa e aquele maldito filho mestiço que ela lhe deu..."

"O que?" Indignou-se finalmente o confuso guardião. Nunca em sua vida ele ouvira alguém direcionar palavras tão cruéis ao príncipe. "Como ousa dizer..."

"Eu sou o dono da verdade!" Gritou o elfo totalmente transtornado então, envolto em um estranho transe criado por sua ira e confusão. "Eu sou a raça pura dos sindars, minha mãe e meu pai seguiram o rei fielmente e veja o que aconteceu? Somos restos de um povo supremo... perdidos em meio a esses elfos que nem sequer conheciam as artes do criador quando aqui chegamos."

Aragorn franziu a testa procurando retomar a razão que se transformava em um cavalo selvagem completamente avesso a ser montado ou sequer guiado. Mas todo bom animal merece que se dedique a ele um pouco de paciência, e o jovem Estel aprendera muito bem o quão prudente era se deixar levar, quando cavalgando um animal em disparada, até que esse por si só se mostrasse inclinado a voltar a obedecer.

E a razão cedo ou tarde se mostra obediente e auxiliadora.

"De quem são tais palavras, Alagos?" Questionou finalmente o guardião vendo o elfo a sua frente empalidecer. "Nem sequer você ou Legolas eram nascidos em certos momentos que você me narra agora... De quem são essas idéias corruptoras? Quem semeou a discórdia em sua mente que sempre fora tão fiel?"

"Cale-se..."

"Diga-me! Responda-me, pois se vou morrer e me passar por ovelha de sacrifício nesse seu ritual primitivo, eu mereço saber! Quem é esse seu mestre? Quem lhe infestou a alma com idéias tão vis?"

Alagos apertou o maxilar e seus olhos ganharam um brilho estranho.

"Seu pai? Seu pai é o mentor de todo esse plano das trevas?" Arriscou o guardião.

O elfo riu.

"Meu pai é isento de qualquer culpa!"

"Então ele não sabe?" Disse o guardião forçando um tom de surpresa na voz. "Não sabe a vergonha que seu filho o faz passar?"

"Cale sua boca imunda, humano infeliz." Aborreceu-se o capitão mais uma vez. "Não sou o príncipe. Não tenho apreço algum por covardia e abnegação. Ele sempre soube de minha indignação, mas se calou ausentando-se de qualquer comprometimento. Ansiava apenas por tomar aquele maldito barco... Desistiu de tentar... Mas eu não... eu nunca desistirei..."

Aragorn perdeu a linha de seu raciocínio, sentindo-se novamente sem chão.

"Então quem, por Mandos?" Ele voltou a irritar-se profundamente. "Quem está manuseando as peças? Quem puxa as cordas da marionete a qual você se faz passar, elfo tolo?"

Alagos arregalou os olhos irado.

"Quer morrer agora mesmo, humano imundo e perdido? Quer que além de transpassar duas flechas em seu corpo ainda decepe-lhe a cabeça? Sim. Talvez leve apenas sua maldita cabeça... em uma caixa para o pobre príncipe... em uma caixa..."

"Precisa dele, não é?" Disse o guardião com ironia agora, ignorando as ameaças do outro elfo. "A raça inferior que você quer governar não vai aceitar o puro sindar... não é fato? A raça inferior quer o seu príncipe mestiço..."

Alagos apertou o arco que segurava com mais força. Se seu mestre não tivesse lhe pedido para descobrir mais sobre o maldito guardião, ele já teria acabado o que começara.

"A sorte não te favorece como você julga, dunedain das trevas!" Ele advertiu. "Não force passagem por onde não é bem vindo."

Mas Aragorn não se intimidou.

"Precisa dele como todos precisam..." Ele continuou impiedosamente sua investida. "O pobre principezinho mestiço e inferior guarda a chave do domínio e da glória..."

"Você quer morrer...só pode ser isso..." Admirou-se o outro, sentindo que aquela conversa o estava tragando devagar e precisava ter um fim. "Não perderei mais meu tempo! Vamos!" Ele disse inclinando o arco e indicando ao guardião que deveria descer novamente a pequena porção da caverna a qual tinha subido. "Alguém tem e deseja perder tempo com você... e esse alguém não sou eu..."

Aragorn enrijeceu os músculos da face, mas depois sorriu um sorriso estranho perturbando o elfo que o vigiava atentamente. O jovem Estel sabia que não teria chances de sair vivo daquele lugar, mas estava decidido, a caverna tombaria e desapareceria levando todos aqueles seres infelizes com ela.

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O grito de Legolas foi tão assustador que Elrond e Faernestal chegaram a se surpreender pelo rapaz ainda ter forças para tal. O ser repugnante cujo corpo viscoso, disforme e escorregadio prendia-se agora em todo o peito do rapaz emitindo um som angustiante, parecia cumprir sua tarefa com satisfação, erguendo o corpo medonho como se arfasse de prazer. Legolas debatia-se, os braços segurados firmemente pelos dois elfos cuja cor já lhes abandonava os preocupados rostos, enquanto Faernestal apoiava-se por sobre as pernas do arqueiro. Elrond ficou em pé, olhos fechados, mão direita na testa úmida do rapaz, esperando o momento apropriado, pedindo a Iluvatar que fosse favorecido com toda a gama de sorte da qual precisava.

"Elrond!! Elrond!! Quando?" Desesperava-se Faernestal.

"Tempo... tempo..." Repetia o lorde de Imladris ainda de olhos fechados, procurando se concentrar em algo que sequer conhecia.

"Pelos Valar ele está sangrando!!" Gritou o curador louro observando um viscoso liquido escuro escorrer do peito do rapaz, deslizando debaixo do repulsivo corpo que a ele se agarrava. "Oh, Iluvatar... o sangue dele é escuro Elrond.... é tarde.... é tarde demais!!!

Mas Elrond não respondeu. Ele agora também observava a perda daquele líquido estranho que o rapaz estava sofrendo, mas aguardava silenciosamente, como se sequer respirasse. Esperava por um sinal, concentrava seu coração e sua fé nessa esperança, na esperança de que sua ignorância fosse recompensada por um entendimento maior, que sua ignorância fosse substituída por um conhecimento valoroso.

"Elrond!!!"

E o tom alarmado do curador de Mirkwood foi o alerta que lhe faltava. Quando Elrond se voltou novamente percebeu porque o curador lhe chamava a atenção. Da junção entre a asquerosa criatura e o peito do arqueiro corria agora um sangue totalmente vermelho, um sangue vermelho vivo.

Elrond ergueu então a mão direita e fechou os olhos apoiando-a firmemente no meio da criatura, que imediatamente começou a grunhir, a gritar um grito agudo, a tremer e debater os músculos, mas não cessava seu trabalho, não queria largar o príncipe.

Legolas, já sem forças nem sequer era mais segurado, parecia entregue ao destino que o aguardava. Elrond usava de toda a sua concentração, de toda a sua energia e força, mas não conseguia fazer com que o ser deixasse sua maligna tarefa, libertasse sua presa.

"Vamos Legolas!" Gritou então o curador. "Vamos criança, ajude-me."

Mas o rosto pálido do rapaz não demonstrava compreensão do que estava ocorrendo a sua volta. Parecia totalmente perdido. Entregue a seu destino fatídico.

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Thranduil sentiu um golpe acertar-lhe as costas trazendo-o ao chão. Um líquido víscido corria delas agora, ele podia sentir, mas não havia como fazer algo a respeito. Caído ao chão sentiu vários rostos se aproximarem dele e uma espada encostar-se em seu pescoço.

"O belo rei vai visitar Mandos!" A voz grotesca da enorme criatura disse entre risos medonhos.

"Mandos vai ter muita companhia do "belo povo". Completou a criatura ao lado com um sorriso que mostrava os dentes podres e negros.

"É, ele vai." Concordou o primeiro erguendo finalmente a espada. "E vamos fazer o mestre muito feliz. Vencemos o poderoso Thranduil sem a ajuda da escolta da caverna".

E aqueles risos se confundiram na cabeça do rei, que fechou os olhos cansado, aguardando o final de seus dias. Ele morreria sem dizer adeus ao filho, assim com Elvéwen tinha feito. Glorfindel tinha razão, afortunado Legolas teria sido se outro lar tivesse sido abençoado com sua presença que não o dele. Sim. O menino teria sido feliz, tão feliz quanto merecia ser.

"Que Iluvatar guie seus passos, ion-nin." Disse Thranduil fechando finalmente os olhos. "E proteja nosso povo um pouco mais..."

E fez-se um estranho silêncio, o silêncio das expectativas, e o cansado rei julgou já estar no Hall de Mandos, no local da eterna espera. Mas o ar a sua volta mudou de temperatura, como seu um vento forte o atingisse em cheio. Ele abriu os olhos sacudido pelo estrondoso barulho de uma grande criatura que tombou a seu lado. Ao lado dela tombaram outras duas. O rei ergueu-se com dificuldades apoiando em seu cotovelo e assistindo incrédulo enquanto um a um todos aqueles seres cruéis ganhavam o chão, ecoavam naquela terra seca, naquelas folhas que se amontoavam. Ele olhou a sua volta, forçando a vista embaçada a tentar distinguir alguma coisa. Foi quando uma mão o fez deitar-se novamente e ele pôde ver um rosto oferecendo-lhe um sorriso assegurador, enquanto apressava-se em conter a hemorragia que o estava enfraquecendo.

"Meus olhos iludem-se devido à dor e a angústia." O rei afirmou confuso. "Só pode ser isso... só pode ser isso..."

"Descanse, parente meu." Disse a voz firme mas serena do elfo de cabelos prateados enquanto oferecia ao amigo uma folha para mastigar. "Estamos aqui e estamos a seu lado."

"Celeborn..." Thranduil disse tentando manter os pesados olhos abertos... "Há outros...outros... Precisa socorrê-los..."

"Somos muitos." Sorriu o sábio elfo apoiando a mão nos olhos do rei para que se fechassem. "Somos muitos e estamos em toda a parte..."

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Aragorn agora deslizava colina abaixo agarrado ao surpreso capitão da guarda real. Alagos não imaginava o nível de ousadia que temperava o caráter daquele dunedain. Em um momento de distração ele já havia sido agarrado, flechas voaram longe e inúteis, o arco caíra colina abaixo.

"Humano maldito!" Ele praguejou apoiando-se por sobre o corpo do guardião para finalmente encostar uma adaga na garganta de Estel. Ele não se importava mais se seu mestre queria ou não aquele miserável vivo. "Por que me faz perder meu tempo com você?"

Estel não se acovardou, mostrando os dentes e tentando ao máximo se ver livre do forte capitão elfo, cuja habilidade e poder se mostravam, pela primeira vez, um grande inconveniente.

Alagos forçou mais o braço até que a arma brilhante alcançou novamente seu objetivo, deslizando pelo pescoço do guardião, mas fazendo apenas um leve corte na altura do ombro da vítima. O elfo aborreceu-se com sua falta de sorte e tentou uma nova investida.

"Alagos." Chamou o guardião em uma última tentativa. "Alagos pare... não é isso que você quer..."

"Cale-se... Cale-se... Já me deu muito trabalho...Vá para seu criador humano amaldiçoado..."

Aragorn ainda tentou se defender, mas a força do inimigo era incomparável. Ele buscou mais uma vez o olhar do elfo. Mas Alagos parecia transtornado, seus olhos tinham um brilho estranho, macabro.

"Diga-me humano." Ele indagou com o olhar fixo na presa abaixo dele. "Para onde vão vocês quando deixam essa caixa suja que chamam de corpo?"

Aragorn quis se zangar, mas a única coisa que conseguiu sentir foi pena daquela criatura confusa.

"Encontrar nossos antepassados, Alagos." Respondeu com serenidade, sentindo o frio da adaga encostar-se na veia exata de seu pescoço. Ele fechou os olhos por alguns instantes, abraçando o destino que a ele era oferecido. "A recompensa de todos os que morrem com honra."

"Honra..." Indignou-se o capitão. "O que os humanos sabem de honra?"

Aragorn voltou a abrir os olhos. Aquele era o conceito que permeava toda a Terra-Media.

"Sabemos tanto quanto os elfos." Ele disse. "Quanto os elfos de caráter. O caráter é uma virtude que abençoa a todas as raças. Infelizmente a covardia e a canalhice também o fazem."

Os olhos de Alagos brilharam e ele pensou em responder, mas a resposta lhe escapou. Sim, de fato ele estava sendo canalha, cuspindo na mão que o alimentara, o acolhera e o salvara tantas vezes. Mas ele não suportava aquela situação. Não suportava o carinho com que o príncipe era tratado, não suportava vê-lo tomar o coração das pessoas, mesmo sendo um membro de uma raça inferior como era. Quantas vezes ele mesmo se vira compelido a acreditar na bondade do coração daquela criatura. Se seu mestre não o tivesse alertado, se não o tivesse convencido do quanto era superior e de que o príncipe não merecia a posição que adquirira... Se seu mestre não o tivesse feito acreditar.

"Resgate sua honra, Alagos" Disse Aragorn como se lesse os pensamentos do elfo. "Legolas e Thranduil hão de perdoá-lo.

Mas aquelas não foram palavras de conforto para os ouvidos do capitão elfo. Seus olhos se voltaram para o dunedain abaixo dele e o pesadelo pareceu recomeçar.

"Não preciso do perdão de ninguém... eles é que pedirão perdão... e terão uma eternidade para isso... nos braços daquele que comanda a espera... E você guardião... humano... escória... grande engano do criador... Você terá o que merece."

Ele então apertou os olhos e moveu novamente o punhal. Aragorn não se intimidou, mesmo sabendo que nada mais havia para ser feito. Ele limitou-se a fixar seu olhar claro nos do inimigo, tentando guardar aqueles traços tristes para a eternidade. Mas os traços, a fisionomia que o guardião queria manter em sua memória, subitamente se transformou em um reflexo de agonia e dor e Estel percebeu seu próprio rosto contorcer-se em compaixão.

Alagos soltou então a vítima e ficou em seus joelhos, e Estel pode ver a ponta de um flecha escapando-lhe do meio do peito, um sangue escurecido escorria por ela. Foram alguns instantes até que o guardião caísse em si do que havia acontecido. Quando o corpo do elfo finalmente tombou vazio, a imagem de outro elfo louro surgiu atrás dele. Aragorn ergueu-se devagar. O soldado ainda mantinha seu arco erguido, sem nenhuma flecha, os olhos frios escondendo a grande dor pelo que tinha acabado de fazer.

"Sempre soube que tinha inimigos mortais, nobre Estel, protegido do poderoso Elrond Peredhel. Disse a figura que tentava se recompor. "Mas jamais imaginei que conseguisse levantar a ira dos primogênitos de Iluvatar com igual habilidade."

Aragorn levantou-se e colocou a mão sobre o peito que arfava.

"Sou-lhe grato pelo favor e sacrifício, nobre Haldir de Lorien." Ele disse curvando-se em uma respeitosa reverência.

O outro elfo não demonstrou nenhuma reação, mantendo a frieza que lhe era característica, mas em seus olhos o brilho da dúvida se fazia presente. De todas as tarefas árduas que o mundo insólito no qual viviam os obrigava a cumprir, tirar a vida de outro belo ser era o maior dos martírios.

"Pelo que sei, Aragorn, filho de Arathorn," Respondeu o capitão do galadhrim baixando finalmente o grande arco, mas com seus olhos ainda voltados para o elfo cuja luz acabara de extinguir. "muitos de nós ainda caminham a seu lado e lhe destinam confiança e afeto. Isso me faz julgar que você deva ser merecedor de certos sacrifícios."

Estel não respondeu. Haldir sempre tivera duas qualidades as quais o guardião admirava: a coragem e a sinceridade. E ele as demonstrava visivelmente naquela noite triste.

Então o guardião dunedain lembrou-se de sua importante tarefa.

"Iluvatar, Haldir." Ele disse em um rompante. "Estamos perto de um ninho de inimigos. Tenho que terminar o que comecei."

O capitão franziu os olhos, depois lançou um olhar interrogador para os dois irmãos que o acompanhavam. Mas Aragorn não esperou pelo que viria dos três elfos de cabelos claros. Ele voltou imediatamente a subir a encosta da caverna.

"Tenho que fechar a entrada desse buraco maldito." Disse enquanto o fazia.

Haldir apertou ou lábios ligeiramente confuso. Como aquele humano estranho pretendia cumprir tão questionável tarefa? Ele olhou mais uma vez para os irmãos, para em seguida seguir o guardião, sendo acompanhado de perto pelos outros dois.

&&&

"Não vamos conseguir, Elrond." Desesperou-se o curador que havia contornado a cama e estava ao lado do corpo imóvel do príncipe, enquanto o lorde de Imladris continuava sua batalha persistentemente.

Ao lado, os dois elfos que acompanhavam a cena aterradora desesperavam-se também.

"Deixe-me matar essa peste com minha adaga!!" Gritou finalmente um deles retirando a arma da bainha e aproximando-a do estranho animal.

"Não!" Gritou Faernestal segurando o punho do rapaz. "Se a matar jamais conseguirá tirar suas garras dele. "Lembrou o curador.

Elrond fechou os olhos com força e apertou os lábios. O anel em sua mão brilhava iluminando o quarto mais do que a lamparina que estava na cabeceira.

"Vamos, menino." Ele disse em uma voz sofrida. "Ajude-me nessa luta desigual. Não posso sozinho, não vou conseguir..."

E um silêncio se fez naquele quarto frio. Os demais elfos impossibilitados de agirem, apenas se posicionaram ao redor da cama em uma contemplação doentia. Faernestal, sentindo a cor fugir totalmente do rosto de Elrond, percebeu finalmente que a guerra estava perdida e que se o curador de Imladris persistisse mais ele seria tragado com o príncipe para o hall da espera.

"Elrond!" Chamou então, colocando ambas as mãos nos ombros do amigo. "Deixe-o ir... Deixe-o Elrond. Você já fez o que podia... ele não quer o sacrifício de sua vida..."

"Não, Faernestal." Respondeu o curador.

"Deixe-o ir... deixe-o ir, meu amigo."

Elrond apertou os olhos uma vez mais, ele não deixaria o rapaz, nem que seu corpo tivesse de fato que ser deixado vazio, ele não o abandonaria.

"Elrond..." Insistiu o curador com o resto de voz que ainda lhe restava. "Deixe Legolas partir... Deixe-o morrer em paz..."

O lorde de Imladris reabriu os olhos por alguns instantes e olhou para o rosto do príncipe. Iluvatar, Legolas era de fato como um filho para ele, sempre o fora, era como se o rapaz fosse parte dele.

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"Elrohir, Estel eu não acredito..."

Elrond ouviu a voz gritar pelo corredor, acompanhada por passos rápidos que desciam a escada. Era Legolas e parecia de fato aflito.

O curador abriu a porta de sala de estudos a tempo de ver a figura do filho do meio e do caçula abrindo a porta da frente e desaparecendo no jardim sem ao menos fechá-la. Eles riam muito e Elrohir puxava Estel pelo braço indicando-lhe um lugar onde com certeza poderiam se esconder. Elrond balançou a cabeça, imaginando o que os dois haviam aprontado, mas quando entrou na sala seguindo em direção da grande porta encontrou com uma visão no mínimo estranha. Legolas vinha escada abaixo rapidamente, mas teve um sobressalto ao encontrar Elrond no pé da mesma. O jovem arqueiro escondeu o rosto e virou-se para voltar pelo caminho de onde havia vindo. Elrond franziu a testa acreditando que seus olhos o enganavam, os cabelos do príncipe estavam... verdes...

"Legolas, espere!" Ele chamou fazendo o rapaz parar no meio da escada. Legolas obedeceu, mas sentia-se tão constrangido que não conseguiu encontrar forças para permanecer em pé, por isso sentou-se no degrau no qual havia parado. "Legolas? Legolas, o que houve com você?" Indagou o curador subindo as escadas e sentando-se ao lado do encolhido elfo. O arqueiro escondia agora o rosto e a cabeça por sob os braços, suas costas arfavam e seu corpo tremia. Ele parecia realmente transtornado. Elrond apoiou a mão nas costas do rapaz com leveza primeiro, depois passou a massageá-las com movimentos circulares, buscando trazer alguma paz de volta àquele garoto para que ele pudesse contar o que havia acontecido.

"O que aconteceu, criança?" Ele indagou com afeto, inclinando a cabeça em busca de algum sinal do rosto do arqueiro que se escondia por sob aquele mar verde de cabelos.

"Lorde Elrond... Eles...Elrohir... Estel..." Tentou explicar a voz embargada do rapaz. "Iluvatar, mestre." Ele se desesperou. "Vou para Mirkwood amanhã... como vou explicar isso para o rei?"

Elrond sorriu amavelmente fazendo com que o rapaz soltasse os braços e olhasse para ele. Legolas enrubesceu mais ainda quando viu que o curador agora deslizava os dedos pelos seus cabelos tingidos.

"Vou dar-lhes uma boa repreenda por isso." Disse Elrond começando a soltar as tranças do príncipe para ter uma idéia melhor do estrago que os filhos haviam feito.

Legolas sentiu-se estranho ao permitir que Elrond mexesse em seus cabelos como seu pai fazia quando ele era ainda muito jovem.

"Não... Não os castigue, senhor." Pediu o rapaz baixando os olhos, mas se deixando levar por aquele toque que lhe trazia boas recordações. "Eles não tinham intenção de fazer mal algum...queriam apenas fazer as pessoas rirem."

"E funcionou?" Disse Elrond ainda com seus olhos firmes no que fazia.

Legolas apertou as mãos, mas depois sorriu.

"Elladan ainda deve estar rindo lá em cima. Na verdade ele se sentou porque não tinha mais forças para rir em pé..."

O curador balançou ligeiramente a cabeça, ainda concentrado no que fazia.

"Mas o senhor não está rindo..." Completou o príncipe olhando agora para o mestre elfo.

Elrond deslizou seus dedos pelas mechas que soltara e só então voltou sua atenção para o rapaz. Legolas voltou a enrubescer e baixou os olhos.

"Farei uma mistura." Disse o curador erguendo o rosto do jovem elfo. "Você escolhe a cor, qualquer uma. E eu farei com que eles mesmos banhem os próprios cabelos nela, certo?"

Legolas arregalou os olhos.

"Mestre, não..."

"Por quê? Não quer justiça rapaz?"

"Justiça?"

"Sim. Retribuir o favor que lhe fizeram? Sabe que merecem. Essa tinta não sairá com um só banho. Acredito que seus cabelos ainda estarão esverdeados quando você chegar a Mirkwood."

Legolas voltou a se encolher, apertando os olhos e duas lágrimas correram deles. Ele já imaginava o que o pai lhe diria a respeito. Elrond condoeu-se por ele segurando-lhe o rosto nas mãos.

"Que cor?" Ele sorriu. "Que tal... rosa?"

O arqueiro riu esquecendo-se um pouco de suas preocupações e balançando a cabeça.

"Laranja?." Ofereceu então o curador. "Ou quem sabe violeta?"

O príncipe levantou-se sacudindo novamente a cabeça.

"Diga, criança." Insistiu o sábio elfo erguendo-se também e olhando o rapaz nos olhos.

"Não posso, mestre." Respondeu o príncipe com pesar. "Não sei retribuir um inconveniente com outro... Eu... não teria coragem..."

"Eu o ajudo." Insistiu o curador descrente no que seus ouvidos lhe transmitiam. O rapaz não revidaria? Perderia a oportunidade de ver seus amigos passarem por uma experiência pior do que a dele? "Já disse que o farão, não têm escolha."

"Não quer fazê-lo, meu senhor, quer?" Disse enfim o elfo olhando para o nobre curador com olhos de bondade e afeto. "Não quer ver seus filhos na minha situação... mesmo sabendo o quão errados eles estão..."

Elrond sentiu um aperto no peito, como se sofresse um estranho golpe, ele fora totalmente pego de surpresa pela afirmação do rapaz.

"Eu castigo a meus filhos, Legolas... Assim os educo." Disse o curador sério agora.

"Mas quando os castiga, castiga ao senhor mesmo com eles... pois não quer vê-los sofrer... Não é verdade?"

Elrond franziu a testa.

"Então..." Disse o rapaz voltando a subir os degraus vagarosamente. "Tanto sofrimento por causa de um pouco de tinta... O riso perde a finalidade se vier seguido de tristeza..."

Elrond parou atônito, observando o rapaz subir os degraus por alguns instantes. Depois o chamou uma vez mais. Legolas voltou-se.

"Mas e você, criança?" Ele perguntou atingindo o topo da escada e apoiando uma mão no ombro do rapaz. "E a sua dor? Não é direito que sofra injustamente..."

O príncipe sentiu-se estranho uma vez mais ao perceber a preocupação do sábio lorde. Ele queria que o pai soubesse mostrar-lhe que se importava da mesma forma que Elrond fazia com seus filhos. Estava habituado com o modo frio do rei, mas muitas vezes, sentia a falta do afeto efetivo de um pai. Sentia muita falta.

"Eu..." O príncipe quis dizer que não se importava, que estava tudo bem, mas a situação trouxe novas lágrimas a seus olhos e ele voltou a enrubescer, odiando-se por parecer assim tão frágil. "eu não me importo, senhor..." Terminou mesmo assim, mesmo sabendo que não fora nem um pouco convincente.

Elrond apertou os lábios, sentindo-se dividido, uma estranha sensação invadia cada vez mais seu coração quando estava perto do príncipe. Ele vivera muito e sabia que a Terra Média abrigava as mais diversas criaturas, mas Legolas era de fato especial. Ele ergueu a mão quase sem perceber e quanto viu havia puxado o rapaz para perto de si. Legolas aninhou-se nos braços do curador instantaneamente, como se aquilo fosse tudo o que ele desejasse fazer naquele instante. Elrond ficou em silêncio, deslizando suavemente a mão nas costas do rapaz, temendo que o menino caísse em si e se assustasse por perceber nos braços de quem na verdade estava.

Mas o bom Legolas sabia bem quem lhe oferecia o afeto o qual seu coração precisava naquele momento.

"O senhor é um pai bondoso e justo..." Disse o príncipe ligeiramente envergonhado afastando-se novamente do curador e enxugando as lágrimas. "Tem sorte em não ter um filho confuso como eu..."

Elrond surpreendeu-se e voltou a segurar o menino.

"Se o destino me permitisse escolher, criança." Ele afirmou olhando diretamente para os claros e brilhantes olhos do príncipe. "Você sentaria a minha mesa todos os dias de minha existência e me chamaria de pai. E eu me orgulharia muito disso..."

Legolas empalideceu e seus lábios se desprenderam em sinal de admiração. Elrond arrependeu-se do que lhe escapara a pouco, mas pensou que tentar se retratar talvez fosse pior.

"Se importa em vir até meu quarto, criança?" Ele indagou então, recebendo o olhar confuso do príncipe. "Tenho umas ervas que talvez possa usar, mas são medicamentos muito fortes dos quais nem Estel nem Elladan têm conhecimento ainda. Se misturados corretamente acredito que possa livrar você desse inconveniente..."

Elrond nem terminava sua frase e um esperançoso sorriso se fazia no rosto do príncipe, que acenava veementemente em concordância, parecendo totalmente esquecido do que ouvira.

Doce Legolas, Elrond pensou, também sorrindo enquanto conduzia o rapaz pelo cotovelo em direção ao quarto e agradecia a capacidade que, apenas aquele menino tinha, de deixar o passado de minutos para trás como se fosse o passado de décadas, ou milênios.

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Elrond foi obrigado a saborear apenas o amargo daquelas recordações. Sim. Ele faria tudo por aquele rapaz. Ele faria tudo. Então baixou novamente os olhos para o animal que se mostrava seu inimigo mortal e preparou-se para uma derradeira investida.

"Elrond." Chamou novamente o curador a seu lado, percebendo o quão abatido ficava o amigo a cada tempo que passava.

"Não vou deixá-lo, Faernestal." Respondeu a voz cansada do lorde de Imladris. "Não vou... nunca."

O repugnante animal voltou a se mexer mais e grunhir enquanto Elrond apertava os olhos e o brilho de seu anel se fazia mais forte do que fora em todos os seus dias. Faernestal preocupou-se mais. Sabia que o nobre elfo de Rivendell estava jogando suas últimas cartas, cartas que provavelmente não eram indicadas para aquela ocasião, cartas decisivas. Ele se afastou então, incapaz de olhar para aquela cena, incapaz de enfrentar as terríveis conjecturas que se faziam em sua mente, incapaz de enfrentar o fim que parecia tão próximo.

Foi quando a porta se abriu e o rosto pálido de Nildiele surgiu. A cozinheira olhou para Faernestal, que franziu o semblante assustado com o ar da amiga. Parecia que ela havia visto um dos próprios Valar. Então ela deu passagem para quem estava atrás dela. Não era um dos Valar, mas era alguém de grande valor, alguém que ele jamais imaginaria ver na triste Mirkwood.

Elrond sentiu então uma presença a seu lado e uma mão apoiou-se sobre a dele.

"Vamos, meu bom Elrond." Soou uma voz musical enchendo o ambiente de paz e harmonia. "Vamos libertar essa criança."

O curador soltou um suspiro e seus ombros subitamente ficaram mais leves.

"Galadriel" Ele disse voltando o rosto e encontrando os olhos claros da bela e poderosa elfa. "Obrigado."

Ela sorriu e ambos então concentraram seus poderes para ouvirem em instantes o grito aterrador da criatura, as garras imediatamente se desprenderam da indefesa vítima. Elrond ergueu o animal atirando-o rapidamente de volta a caixa de onde o tirara e trancando-a em seguida. Eles o poderiam ter matado, mas seria um pagamento injusto para o tão precioso benefício por ele oferecido. Os soldados impressionaram-se e caíram em seus joelhos. Elrond baixou a cabeça cansado. Mas seu sentimento de alivio durou poucos instantes.

"Faernestal..." Ele chamou.

O curador que estava próximo a sua companheira voltou a se aproximar imediatamente.

"Traga mais curativos e as ervas, por favor." Ele pediu olhando para o rapaz no leito. O peito de Legolas estava em carne viva.

"Oh, pobre criança!" Lamentou-se Nildiele aproximando-se do príncipe.

Elrond esvaziou os pulmões apoiando finalmente as mãos no leito e olhando para a poderosa senhora branca que agora se colocava a sua frente, no lado inverso da cama e deslizava seus dedos pelo rosto do rapaz desacordado.

"Pokair." Disse a elfa fechando os olhos. Buscando o último arremate do misterioso bordado que o destino tecera naquele dia e sendo recompensada. Em sua mente a figura de um bravo guardião corria montanha abaixo seguida por três confusos elfos e uma grande explosão ocorria brilhando o céu, como nos dias das melhores festas que o sábio Mithrandir animava. A elfa sorriu abertamente então e voltou a olhar o príncipe com carinho. "Pokair nin" Ela repetiu. "Seus dias de dor chegarão ao fim em breve, bravo príncipe... doce criança..." Ela completou beijando suavemente o rosto do rapaz. "A tempestade passou... é tempo de bonança."