Olá. Este é o enorme e confuso último capitulo de VIDAS E ESPÍRITOS. Precisei então dividi-lo, pois a fanfiction (e minha conexão fraquíssima) me impediram de fazer o upload do arquivo como um todo.
Bem, eu pensei em milhares de coisas para dizer, mas acabei concluindo que, ao invés de ler minhas desculpas, meus infinitos agradecimentos ou sobre como estou emocionada com o retorno que tive com essa fic escrita tão despretensiosamente, acho que desejam mesmo é saber o que será do nosso tão complicado grupo de seres especiais...
Mas antes de tudo, gostaria de postar aqui um poema que li e que me fez pensar em agradecer a vocês sempre mais e mais:
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Amigo
Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
(Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca)
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Para as minhas grandes amigas:
Escritoras geniais:
Lady-Liebe – Short fics... estórias curtas, mas talento infinito.
Misao-dono – " COMO UM PÁSSARO" Poesia tem dois nomes Misao-dono.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" / "DAROR E MÍRIEL" – A mais fantástica soma de qualidades em uma escritora só. Mágica Myri.
Nimrodel Lorellin – " CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Ninguém vê o interior das personagens como a Nim vê. Fantástica escritora e maravilhosa pessoa.
Vicky Weasley: "BITTERSWEET" Mandei um e-mail, Vicky, mas voltou. Saudades de seus pedacinhos de sonho em preto e branco, mas que colorem todo o mundo.
Elfa Ju Bloom: " ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" – Guerreira Ju, cheia de energia e talento.
Dark Lali: "NARN VENDENIEL". A fanfiction está na escuridão sem a atualização dessa grande escritora. Lali. Lembre-se de nós.
Kika-Sama: "APRENDENDO" Grande apoio e sábios conselhos. Super Dra. Kika
Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Sem palavras. Super Chell, humildade e talento juntos. Isso é possível? Só mesmo a Chell.
Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS". Poesia em doses homeopáticas.
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Sempre me pergunto de onde vem tanta criação, tanta inovação com as palavras. Talentosíssima Kiannah.
Soi – "IDRIL NÚMENESSË". Pronta para atualização. Soi. Uma grande promessa. Leiam e vejam.
Nanda's Menelim – "UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA" Escritora de um super talento. Finalmente essa fantástica short fic que mencionei vai sair ( sábado agora!). Não deixem de ler.
Regina – "ELDAR E EDAIN". Emocionante Regina.
Pessoas geniais:
Syn, the time keeper – reta final, querida Syn. Obrigada por tudo.
Botori – Minha Elladan. Obrigada!
Leka – Minha Ellahir. Obrigada também!
Lali-chan – Lindas reviews. Obrigada.
Veleth – Minha poetiza e mestra. Obrigada.
Pink na – Beijos. Saudades
Roberta – Obrigada pelo apoio. Beijos!
Naru-sami – Obrigada por tudo. Beijos
Pity – Obrigada, ainda prometo suas fics.
Alice ( amiga da Soi) – Obrigada por ler.
Lilith amiga da Nim)- Obrigada por ler.
Lele – Obrigada pela sua doce amizade, mais uma vez. Beijos.
Phoenix Eldar – Obrigada pelo apoio e pelo carinho. Beijos.
Karina – Obrigada pela review, pelos e-mails, por tudo. Beijos
Izabelle Malfoy – Obrigada.Espero que goste do final. Beijos.
Shinigami – Obrigada pela review e pela amizade. Beijos.
41
Legolas sorriu. Seu quarto nunca estivera tão cheio como nos últimos dias. Nenhum dos elfos que vieram para o grande conflito parecia ter intenção de deixar Mirkwood e o jovem príncipe continuava se questionando sobre o porquê. Ele ainda se sentia muito fraco para levantar-se sozinho ou ir até o jardim como era sua vontade, mas a constante companhia de Elrond e seus filhos não permitia que qualquer sentimento ruim perturbasse seu coração. Naquele momento, por exemplo, algo de extraordinário estava acontecendo, algo que nem em seus maiores sonhos ele imaginaria que fosse possível. Em seu quarto, aquele lugar pelo qual ele não sentia qualquer apreço, estavam nada mais nada menos do que o casal de Caras Galadhom, Elrond e sua família e o guerreiro de Gondolin. Todos rindo e se lembrando de momentos do passado. Glorfindel provocava Celeborn a respeito de uma decisão de guerra tomada há muitos e muitos anos atrás... anos que o jovem Legolas sequer conseguia concluir. Celeborn sorria amavelmente envolvendo Galadriel em seus braços enquanto ambos olhavam pela varanda do quarto do príncipe.
"Você me condena, nobre Glorfindel," Disse o elfo dos cabelos prateados com paciência. "porque acabamos todos enfiados em um grande pântano escuro..." Ele riu e Galadriel sacudiu a cabeça rindo também. "Mas era um excelente atalho... chegamos realmente muito antes do tempo previsto."
"Pântano?" Indagou Glorfindel incrédulo, exagerando propositadamente seu tom de voz ao perceber que os gêmeos de Elrond concentravam seus olhos nele como quando eram elfinhos e o ouviam contar sobre suas grandes aventuras. "Aquilo era lama... lama e outra substância que mal sei classificar, mas que pelo cheiro desagradável que tinha, temo até tentar fazer conjeturas sobre o que seria".
Os gêmeos riram e Legolas acompanhou-os.
Celeborn ergueu as mãos em sua defesa.
"Nobre amigo..."
"Nobre amigo?" Interrompeu-o o guerreiro louro. "Ninguém me tira do pensamento que essa sua decisão fora incentivada por intenções obscuras... Porque fui o primeiro a cair naquele lugar desgraçado?"
"Que culpa tínhamos nós se o bom guerreiro estava sem montaria?" Indagou o senhor de Lorien tentando não rir.
Mas era uma tentativa vã, pois o riso entoou mais uma vez no quarto e dessa vez até o lorde de Imladris e o Estel engrossaram aquele coro.
"Sem montaria..." Resmungou Glorfindel sentando-se em uma cadeira almofadada.
"E o que aconteceu depois disso?" Indagou Elrohir erguendo-se de onde estava e ajoelhando-se em frente a seu mentor.
"Você nem faz idéia." Respondeu o outro com ares de mistério.
Elladan fez o mesmo que o irmão e a conversa se dispersou. Galadriel, Celeborn e Elrond conversavam na varanda, enquanto o guerreiro de Gondolin relatava aos atentos gêmeos uma história que ele tinha certeza já ter contato, mas divertia-se ao fazê-lo mais uma vez. Legolas suspirou olhando para Estel que estava a alguns passos dele. O guardião sorriu, mas estranhou ao ver os olhos do arqueiro brilharem enquanto este lhe estendia a mão. Estel aproximou-se e sentou-se no colchão, segurando ambas as mãos do amigo.
"O que houve, mellon-nin?" Ele indagou com um sorriso amável. "Por que a tristeza está querendo visitar seu coração em um momento tão bom quanto esse que vivemos?"
Legolas balançou a cabeça.
"Não estou triste, Estel." Ele disse em voz baixa.
"Sente dor?"
"Não... a dor quase não me incomoda mais. Seu pai cuidou bem de mim, como sempre o fez... E eu sou muito grato."
"Então o que foi, Las?"
Legolas ficou em silêncio. Depois olhou discretamente a sua volta.
"Isso." Ele disse voltando a fixar seus olhos nas dobras dos lençóis que o cobriam. "Essa..."
"Essa?"
"Essa... alegria..."
Estel sorriu confuso.
"Alegria?"
"Felicidade... esse momento de paz que estamos vivendo..."
O guardião apertou então um pouco mais as mãos que segurava. Legolas ainda não se recuperara plenamente e ele não queria vê-lo aborrecido.
"O que tem? Não está feliz? Essa felicidade, essa paz não toca seu coração?"
"Toca..."
"Então o que há, mellon-nin?" Ele indagou erguendo o queixo do amigo para que o olhasse.
"Tenho... tenho medo..."
"Medo?"
"Medo de... estar... de estar vivendo uma espécie de sonho... e... e..."
"Não, Las." Interrompeu o guardião sorrindo, mas sentindo seu coração apertado pelo amigo cujo corpo se recuperava, mas o espírito ia precisar de muito mais tempo para cicatrizar as inúmeras feridas que sofrera. "Não vai haver despertar... Não é um sonho, meu querido amigo..." Ele afirmou apoiando uma palma no rosto do elfo. "Estamos todos aqui... e estamos salvos... e estamos em paz, meu irmão..."
Legolas baixou os olhos e uma lágrima escorregou de sua face. Aragorn a segurou com a ponta dos dedos.
"Ainda sou um elfinho chorão..." Ele riu e Aragorn riu também.
"Não... não é... É uma das pessoas mais fortes e corajosas que conheço. Nem tenho coragem de olhar para o passado e me lembrar tudo pelo que você passou, Las... Só posso me admirar e dar graças a nosso criador por você estar ainda entre nós."
Legolas sorriu um riso triste. Aragorn o olhou em silêncio por mais alguns intantes.
"O que mais?" Indagou o amigo.
O arqueiro ergueu o olhar confuso.
"O que mais está te perturbando, Las? Eu te conheço... não tente esconder nada de mim, pois sabe que não terá êxito."
Legolas abanou a cabeça inconformado. Aquela era uma das verdades absolutas de sua vida.
"Diga." Reforçou o guardião.
"Estou pensando em... em... Alagos." E outras lágrimas voltaram a cair do rosto do príncipe assustando o amigo que se aproximou mais um pouco. O arqueiro escondeu o rosto e afastou levemente o guardião dele, sentia-se constrangido, não queria que os demais integrantes do quarto percebessem que estava chorando. "Ele... eu... eu não entendo..."
"Ele estava doente, Las... Como Heron e Hawk..."
"Mas... por que?"
Aragorn passou a mão calejada pelo rosto do amigo, enxugando-lhe as lágrimas.
"Não quero que pense nisso. Entendeu?" Ele disse fazendo o príncipe olhar novamente para ele. "Seja o que for que corrompeu a ele e aos dois arqueiros de sua terra... ficou provavelmente enterrado naquela caverna que foi ao chão."
O arqueiro balançou a cabeça com leveza e esfregou os olhos com ambas as mãos, mas não parecia sentir o assunto morrer dentro de si.
"Ele não te disse o motivo?" Indagou ainda com os olhos cobertos.
"Las..."
"Eu quero saber, Estel... Quero entender..."
Aragorn apertou os lábios apreensivo.
"Por favor, Las. Não me peça para falar sobre isso agora... Estamos vivendo um momento único... Seja o que for que moveu o pobre e iludido Alagos... Já lhe disse... está enterrado... não... não importa mais... Ele está em paz agora..."
Legolas suspirou e prendeu o restante do ar nos pulmões como se quisesse conter novas lágrimas.
"Sou o príncipe mestiço." Ele disse após um grande período de silêncio, surpreendendo o guardião que considerava o assunto encerrado."
"Do que está falando?"
"Era como ele me chamava quando éramos crianças..." Confidenciou o elfo sem erguer mais os olhos, seus dedos agora deslizavam sem rumo por sobre os bordados dos lençóis. "Provocava-me sempre que podia... Mas depois, quando viramos novatos, quando passamos a enfrentar e apreender as artes de guerra... ele nunca mais investiu contra mim... e nos tornamos amigos, amigos de fato... Pelo menos era o que eu pensava que fôssemos."
"Legolas..."
"Foi esse o motivo, não foi Estel?" Disse o rapaz erguendo os olhos e encarando o guardião com seriedade agora. "Foi tudo ilusão... nossa amizade, nossos votos de confiança... era tudo uma farsa... ele nunca deixou de pensar as coisas que pensava de mim quando éramos pequenos..."
Aragorn silenciou-se e seus olhos perderam o foco por alguns instantes. Ele queria negar, dizer que o arqueiro estava enganado, tirar dos ombros do príncipe um peso que ele não tinha necessidade de carregar. Mas um momento puro e belo como aquele que estavam vivendo não era propício para uma mentira qualquer, bem intencionada ou não.
"Não temos tal poder, não é Estel?" Indagou o príncipe com os olhos perdidos.
O guardião voltou a olhá-lo, pendendo a cabeça em sinal de incompreensão.
"Que poder?"
Legolas suspirou e segurou com força os lençóis que estavam sob suas mãos.
"De controle..." Ele disse olhando para os próprios punhos fechados. "controle do que pensam de nós... da imagem que criamos na mente dos outros... da distinção entre o que somos por dentro e aparentamos ser por fora."
Aragorn pressionou o maxilar enquanto seu próprio coração apertava-se no peito como um animal encurralado. Ele apoiou dois dedos sob o queixo do elfo e fez com que aqueles olhos azuis voltassem a encará-lo. Legolas obedeceu sem protestos e deixou-se olhar pelo amigo, sabendo que o mesmo buscava agora as próprias respostas. Sim. O sagaz Estel nunca precisara de muitos esforços para aprender uma valorosa lição, e agora agia como quando era menino e Legolas intencionalmente escondia-lhe parte da regras nos jogos que lhe ensinava, visando obrigá-lo a tentar concluí-las por si, no decorrer dos acontecimentos. O louro príncipe de Mirkwood, com sua doçura e sutileza, acabara sendo um de seus melhores mentores.
"Eu não posso... Eu não..." Reforçou o elfo ainda com seus olhos presos aos do amigo.
Os lábios do guardião se ergueram em um sorriso triste, mas conformado.
"Nem eu, mellon-nin." Ele disse apoiando as mãos por sobre o colo em um sentimento de total abandono. Certas lições eram de fato muito duras. "Nem eu..."
O arqueiro baixou finalmente os olhos, esvaziando os pulmões cansados.
"O preconceito permeia todas as raças, não é mellon-nin?" Indagou o dunedain enfim chamando novamente a atenção do amigo para si.
"E leva algumas vidas." Completou o elfo em uma voz triste. "É de fato um grande mal." Legolas balançou a cabeça. Era como se suas palavras tivessem selado o assunto para sempre.
Um estranho silêncio se fez e uma brisa morna entrou pelo cômodo balançando as folhas da pequena planta que estava na cabeceira do arqueiro. Legolas sorriu e ergueu os braços para tentar apanhar o vaso por alguns instantes. Aragorn, percebendo a intenção do amigo, adiantou-se e moveu o pequeno ser verde-garrafa para o colo do elfo no leito. Legolas sorriu em silêncio e passou a deslizar as pontas dos dedos pela delicada planta, parecendo perdido em estranhos pensamentos. Aragorn ficou calado, abraçado às próprias dúvidas, enquanto observava a cena, vendo o amigo tratar aquela plantinha como se fosse um bebê.
"Ela não perdeu suas folhas..." Comentou o príncipe, franzindo ligeiramente as sobrancelhas.
"Não..." Concordou o amigo com um leve sorriso. "Assim que o inverno passar, ela lhe dará flores também..."
"Você diz isso porque tem esperanças..." Respondeu o arqueiro voltando a olhar diretamente para o amigo. "Olhando para ela assim... não sabe o quão bonita ainda pode ficar... Nem se terá forças para enfrentar o triste inverno da vida."
Aragorn uniu as mãos nervoso. Ele sabia que o assunto voltara a se inverter radicalmente e agora todas as metáforas do príncipe não diziam respeito ao próprio arqueiro, mas sim ao amigo dunedain sentado a sua frente.
"Às vezes elas dão belas flores..." Divagou então o guardião sentindo o coração cansado, mas de certa forma mais leve. "Às vezes... o inverno não é tão rigoroso..."
Legolas sorriu.
"Em todo o caso..." Ele disse erguendo levemente as mãos para que o amigo recolocasse a planta em seu lugar. "Espero estar junto dela... se o for... E se não o for também...".
Aragorn parou por alguns minutos, administrando levemente as palavras do elfo, depois sorriu uma vez mais e atendeu ao pedido silencioso, sentindo-se tão atado àquela planta agora como se carregasse o próprio coração. Ele sentou-se novamente, repleto pelo sentimento que Legolas estava sutilmente fazendo-o inferir.
"Sou um dunedain..." Disse enfim baixando novamente os olhos e enlaçando os dedos com força. "Um humano..."
Legolas sorriu, fechando os olhos cansados.
"E eu sou o príncipe mestiço..." Ele completou. "Mas me orgulho do que sou." Continuou com os olhos fechados, parecendo encher o peito com tudo o que mais lhe fazia falta. "Pois tenho muito de minha mãe e muito de meu pai... mas tenho muito de mim mesmo também..."
Aragorn riu então.
"Essa é a parte confusa..." Riu também o arqueiro voltando a olhar o amigo com mais carinho agora, sua alma não parecia sofrer com as palavras que proferia. "Mas as outras duas até são bem certinhas..."
O guardião riu mais ainda apoiando a mão na cabeça do amigo e espalhando-lhe os cabelos louros. Legolas quis se defender, mas ainda não se sentia capaz de revidar qualquer ato do forte guardião.
"Estel!" Advertiu Elrond aproximando-se do leito. "Não abuse de nosso amigo aqui." Ele sorriu para Legolas ajeitando-lhe carinhosamente as mechas desfeitas, feliz por ver a cor rosada que se formava nas maças do rosto do príncipe.
"Mestre?" Indagou o rapaz com os olhos baixos.
"O que foi, criança?" Perguntou o curador sentando-se em uma cadeira ao lado da cama.
"Quando... quando vou poder ver o rei?"
Elrond respirou fundo e olhou discretamente para o filho. O fato do príncipe ainda não chamar Thranduil de pai o incomodava muito.
"Seu pai está bem. Ele foi muito ferido, mas Faernestal cuidou dele com dedicação. Como nenhum de vocês podia ser removido do quarto esse encontro está se adiando. Mas não deve tardar. Não se preocupe."
"Tem certeza que ele está bem, mestre?"
"Sim, eu tenho, criança. Felizmente todos os nossos feridos foram abençoados com a cura rápida dos que estão em paz." Assegurou o mestre sorrindo gentilmente. "Logo você vai vê-lo em pé, como todos nós também desejamos vê-lo."
Legolas selou os lábios então, administrando as palavras do mestre. Ele ansiava por aquele encontro, mas ao mesmo tempo temia por ele.
Foi quando a porta do quarto se abriu e Faernestal entrou. O curador fez uma breve reverência a todos e sorriu para o príncipe. Legolas ergueu-se um pouco no leito, feliz por vê-lo e poder ouvir dos lábios dele como de fato estava seu pai. Mas ele não teve tempo para questionamentos, pois atrás do elfo de Mirkwood vinha a resposta a suas perguntas. Thranduil entrou. Vestido em sua realeza, como se nada houvesse acontecido. Todos ficaram em pé para saudá-lo e ele colocou a mão no peito, inclinando-se com respeito.
"Espero que tão importantes convidados estejam sendo bem tratados." Disse o rei ligeiramente surpreso por encontrar o quarto do filho tão cheio.
"Sim, meu amigo." Respondeu Celeborn com um leve sorriso. "Já havia me esquecido o quão caloroso e bom é o seu povo."
"E o seu vinho." Brincou Galadriel avançando alguns passos na direção do líder de Mirkwood.
Thranduil voltou a inclinar-se ao ver a senhora de Lorien se aproximar e desconcertou-se visivelmente quando esta lhe tomou as mãos.
"Minha senhora. A luz do sol finalmente brilha dentro dessa caverna sombria que chamo de lar, agora que sua presença nos favorece." Ele disse enchendo o peito e recompondo-se em segundos. Galadriel sorriu, comovida com as gentis palavras do rei. Sem dúvida, apesar de austero e muitas vezes frio, poucos elfos em toda a terra média se comparavam ao poderoso Thranduil Oropherion.
"Muito dessa caverna hoje é luz e paz, meu bravo rei." Ela disse por fim com um sorriso que parecia querer dizer mais do que seus lábios propunham.
"Minhas dívidas para com os reinos vizinhos estão crescendo. Temo não ser capaz de saldá-las convenientemente." Ele confessou sem olhar a dama nos olhos, mas com uma sombra de sorriso em seus lábios.
Galadriel balançou a cabeça em uma leve discordância, mas não respondeu. Afastando-se novamente do rei e tomando os braços do marido.
Thranduil olhou mais uma vez para os presentes um a um.
"Agradeço-lhes. Ele disse de forma solene. "Pois é o que posso fazer nesse instante. Mirkwood espera ter a oportunidade de retribuir tão importante favor."
Um silêncio se fez, mas foi logo interrompido pelo curador de Rivendell que juntou as mãos em frente ao corpo e deu alguns passos em direção a varanda.
"Notei que tem um belo jardim dentro desse lugar." Disse Elrond. "Se importaria se levasse meus filhos para visitá-lo?"
Thranduil sorriu com discrição. Elrond era de fato um excelente estrategista.
"Em absoluto." Respondeu simplesmente.
"Gostaria de acompanhá-los." Disse Celeborn erguendo o braço para a esposa que apenas sorriu tomando o lado do parceiro.
Glorfindel ergueu-se acompanhando os demais visitantes, mas parou por alguns instantes em frente ao rei. Uma estranha lembrança o estava incomodando e ao ver-se nos olhos verdes de Thranduil essa imagem tornou-se uma lembrança amarga. O guerreiro de Gondolin apertou os lábios, mas o rei de Mirkwood ergueu o queixo altivo apertando também os seus. E um estranho diálogo sem palavras ou outros sons se deu entre os dois poderosos elfos, que voltaram a se afastar como se, incompreensivelmente, houvessem se entendido muito bem. No rosto de Thranduil uma estranha paz se fez e nas feições do guerreiro de Gondolin a sensação de um peso que subitamente lhe sumia das costas. O louro lorde de Imladris passou pela porta e saiu. Faernestal foi o último, fechando a porta atrás dele.
Thranduil caminhou até a sacada sem olhar para o quarto e parou ali por alguns instantes. Legolas sentiu o coração acelerar no peito com o silêncio do rei, mas reservou-se, não proferindo palavra alguma. Se o pai não tinha intenção de falar nada, ele acataria tal decisão e o acompanharia em seu silêncio. Só o fato de ver o poderoso rei de Mirkwood em pé já era um presente pelo qual ele só podia agradecer. Quando o louro líder finalmente avistou o grupo que saíra chegando ao jardim, ele suspirou. Os elfos se acomodavam sorrindo e observando as poucas flores e folhas que restavam, eram os últimos dias do outono e a vida adormecia singelamente esperando que a neve cobrisse tudo e houvesse um novo despertar. Era o tempo do descanso. Ele então se voltou e caminhou para perto da cama do filho puxando uma cadeira.
"Sente-se aqui, senhor." Pediu o rapaz em um instinto apoiando a mão por sobre o próprio colchão.
Thranduil finalmente olhou para ele e sentiu seu coração doer ao perceber a cor fugir do rosto do príncipe como se o olhar do pai em si já o inquietasse terrivelmente. Ele então empurrou a cadeira e aceitou a sugestão do rapaz, para a surpresa do mesmo.
"Como se sente?" Indagou em um tom baixo.
"Bem, majestade. E o senhor, como está? O ferimento o incomoda?" Apressou-se o jovem elfo em perguntar.
Thranduil limitou-se a balançar a cabeça negativamente.
"Faernestal me contou sobre sua dura batalha contra o dagorlavan..." Iniciou o rei desviando o assunto e vendo o príncipe enrubescer e baixar os olhos. "É uma criatura por demais perversa, umas das mais terríveis criações de Yananna, sem dúvida. Sempre me questionei sobre a utilidade de animal tão perigoso... Hoje sei a resposta."
Legolas sorriu, mas não ergueu o rosto.
"Tem certeza que está bem?" Voltou a perguntar o rei.
"Sim, meu senhor." Repetiu o príncipe.
"Está se alimentando?"
"Sim, senhor. Não se preocupe."
"Precisa de algo?"
"Não, senhor. Obrigado."
"Sente que está se recuperando bem dessa vez? O mal realmente o deixou?".
"Sim, meu senhor. Estou me recuperando muito bem. Lorde Elrond disse que em mais algumas luas poderei sair dessa cama."
Thranduil apertou o maxilar e esvaziou os pulmões.
"Ele tem cuidado bem de você então?" Presumiu com um tom indecifrável.
"Sim, senhor. Lorde Elrond é um excelente curador."
"E a companhia dos filhos dele também tem sido de grande ajuda, eu suponho."
"Sim, senhor. Eles todos são muito gentis comigo."
"Gostam de você."
"Gostam sim, senhor."
"Consideram-no como parte da família, pelo que vejo."
Legolas engoliu aquelas palavras com dificuldades. O rumo daquela conversa era muito estranho.
"Sim, senhor..." Ele apenas respondeu.
"Imladris é um lugar abençoado."
O arqueiro apertou os lençóis que segurava.
"Não acha?" Indagou o rei.
"Sim, senhor."
"É o ambiente perfeito para os que ainda têm esperanças. Deve ser uma benção usufruir tal regalia, viver em Imladris com uma família que se preocupa, sem a iminência diária de um ataque inimigo."
O príncipe respirou fundo, erguendo finalmente os olhos para o pai. Thranduil mantinha ambas as mãos por sobre as pernas, seus olhos verdes eram indecifráveis. Legolas não queria aceitar os pensamentos que invadiam sua mente, mas cada palavra que ouvia os fazia mais claros e evidentes.
"Não acha?" Repetiu o rei, retribuindo o olhar do filho.
Silêncio.
"Não vai me responder, menino?"
"Elrohir, Elladan e Estel são felizes quando o destino lhes proporciona a oportunidade de estarem reunidos em Rivendell." Disse o rapaz baixando novamente os olhos. "Porque a terra é bela, mas principalmente porque podem estar com o pai deles."
Thranduil encheu os pulmões com dificuldade, mas procurou ignorar a mensagem que se escondia por trás das palavras do jovem arqueiro.
"Peredhel lhe quer como a um filho." Ele disse finalmente. Fazendo com que as idéias que tentava transmitir extrapolassem a barreira da insinuação para tornarem-se mais claras e diretas. "E Imladris é um bom lar."
Legolas fechou os olhos, mas não respondeu. Thranduil fixou os seus no rapaz. Ele tomava a atitude mais difícil de sua vida. Todos aqueles dias acamado o levaram a refletir sobre o passado e a concluir idéias importantes. O destino vinha lhe oferecendo chances, salvando-o e a seu povo de inacreditáveis tempestades de angústia e dor. Mas isso só vinha a reforçar um sentimento que já povoava seu coração há muitos anos. Uma amarga sensação que lhe gritava que era tempo de assumir certas verdades, tratar de certas feridas anteriormente ignoradas. Ele temia pelo filho, temia pelo destino do reino, temia por muitas coisas, algumas para as quais não tinha saída, mas naquelas que ainda se mostravam firmes para seguirem um trajeto seguro, valia a pena investir. Se seu reino tinha os dias contatos como seu coração lhe insinuava, a cada anoitecer envolto na escuridão que a floresta impunha, tudo o que ele podia fazer era aguardar e defender-se, mas podia tirar de lá o que tinha de mais precioso, nem que para isso fosse obrigado a abrir uma ferida a mais em seu tão calejado coração.
"A natureza ainda é bela em Imladris. Peredhel tem um grande poder." Continuou então o rei, digerindo ele mesmo as palavras que proferia. "Ouvi dizer que inúmeros pássaros abençoam o lugar com seus acordes..."
Mais uma vez silêncio. O rosto de Legolas não se erguera, mas Thranduil pode ver que o rapaz agarrava-se as dobras dos lençóis como se sentisse dor.
"Olhe para mim, menino." Ele disse por fim.
Legolas não obedeceu, a mensagem já o tinha atingido e o pai sabia bem disso.
"Sabe que lhe quero bem..." Disse então o louro rei, prendendo mais uma vez o ar dentro dos pulmões, segurando outras palavras mais fortes que queria dizer. "Sabe disso... sabe que é isso que me move a fazer o que quero fazer."
"Por favor..." Surgiu finalmente a voz amargurada do príncipe, olhos ainda fixos no tecido que apertava entre os dedos, seu coração batia em um descompasso que chegava a dar-lhe uma estranha sensação de dor.
"Legolas..."
"Disse que eu tinha voltado para ficar..."
"Legolas..."
"Vai me tirar de Mirkwood pela terceira vez, senhor? O que fiz agora para merecer tal castigo?"
Thranduil suspirou alto.
"Tem vergonha de mim, senhor?" Indagou o rapaz olhando novamente para o desconcertado pai. "Se tem eu aceito a atribuição que me deu na floresta... usarei as tranças de servidão... voltarei para as masmorras..."
"Legolas!" Enfureceu-se o pai erguendo o corpo e a voz. "Não coloque significados novos em minhas palavras e não me ataque com os infortúnios do passado!"
O príncipe assustou-se, sua cabeça acompanhou aquele brusco movimento em um sobressalto, possibilitando que o pai visse que os olhos do rapaz se enchiam d'água.
"Por Iluvatar." Disse o rei dando as costas ao rapaz, ele não suportaria ver o filho chorar uma vez mais. "Por que torna as coisas tão difíceis?"
"Porque o amo, meu senhor."
Thranduil apertou os olhos e os punhos, as rédeas do cavalo de sua alma eram cada dia mais inúteis na tempestade que enfrentava.
"Já lhe disse que Mirkwood não tem espaço para o amor." Ele respondeu ainda de costas.
"Não diga isso..." Implorou o príncipe erguendo o tronco com dificuldades e lutando contra a vertigem que isso lhe causava. "Nosso povo sofre tanto, meu senhor... Não pode tirar de sua existência o mais nobre dos sentimentos."
"Não diga bobagens..." Ofendeu-se o rei. "Não penalizo meu povo... Não guio o coração deles... Apenas os protejo..."
"Então por que nós? Por que nós precisamos ser penalizados?"
Thranduil se voltou em um rompante. O menino conseguira de novo, desconcertava-o como sempre o fazia. Mas ao olhá-lo, ao ver a palidez voltar à face do rapaz, ele se preocupou.
"Vamos, aquiete-se." Disse aproximando-se do leito e fazendo o filho voltar a deitar-se. "Não pode ficar se excedendo."
"Senhor..."
"Conversaremos depois..." Ele interrompeu puxando as cobertas e voltando a cobrir o peito do rapaz que ainda estava envolto por ervas e ataduras.
"Não... eu não quero conversar depois..." Insistiu o príncipe recusando-se a ficar na posição que lhe era imposta.
"Deixe de agir como um elfinho, soldado!" Ordenou o líder louro apoiando as mãos nos ombros do filho para que ele não voltasse a se levantar. Mas o vocabulário e as atitudes austeras do pai não convenceram ao arqueiro. Ele desesperou-se e agarrou-se nas mãos que o seguravam. Thranduil puxou os braços instintivamente, mas Legolas não largou suas mãos.
"Senhor... por favor..."
"Por Mandos, menino! Pare de roubar a minha paz!"
E foi como se a vida desaparecesse dos olhos do príncipe. Legolas soltou então o pai, desviando seu rosto dele enquanto largava os braços ao lado do corpo. Thranduil franziu as sobrancelhas e inquietou-se com a atitude do filho. Ele sabia o que tinha dito e que não o devia ter feito. O menino ainda se recuperava, toda aquela gama de acontecimentos, a traição e morte de um de seus melhores amigos, a luta contra a terrível criatura, a volta ao reino. Eram emoções demais até para quem não as tivesse vivido.
"Só não quero que sofra mais..." Disse voltando a se sentar na cama do filho.
Legolas manteve o rosto virado, a cabeça funda no travesseiro macio, os olhos parados.
"Nosso reino é um reino de perdas" Ele disse tentando manter o tom seguro de sua voz, tentando ele mesmo acreditar nas palavras tristes que proferia. "Não é um reino para alguém como você menino."
"Eu partirei então." Disse o rapaz enfim. "Não se preocupe mais comigo, meu senhor."
Thranduil apertou os olhos.
"Irá para Imladris com Peredhel e os filhos então?"
"Não preciso de família ou reino, meu senhor." Legolas respondeu em um tom baixo. Sua voz não continha afronta ou insinuação, apenas tristeza e amargura. "Vivi durante muitos anos sem ambos. Pelo menos sou livre agora e posso fazê-lo sem precisar me esconder sob nenhum disfarce."
Thranduil quis zangar-se com a afronta do rapaz, mas algo dentro dele não o possibilitou. Ele podia sentir em seu próprio peito o sentimento perigoso que tomava o espírito e o coração do filho, sentimento esse que se estruturava em algo que o rapaz acreditava ser real, mas que não era... e em momento algum o fora...
"Nunca esteve só na floresta..." Disse então.
Legolas uniu as sobrancelhas, incrédulo do que chegara a seus ouvidos e voltou-se para o pai. Os olhos claros do rei escondiam alguma estranha mensagem naquele instante. O príncipe franziu mais a testa, mas não conseguiu voltar a afastar-se deles.
"Sempre estive olhando por você..." Declarou finalmente o rei, seus olhos prendiam-se aos do filho sem qualquer constrangimento ou rancor. A verdade sempre fora sua aliada e dizê-la só fazia com que o poderoso líder se sentisse ainda mais confiante do que já era. "Só o perdi de vista na ocasião em que você acabou em Rivendell. Depois de ter sido capturado." Ele parou por alguns instantes, desviando seu foco para uma imagem que não parecia lhe agradar. "quando os soldados de sua tropa partiram." Encerrou com tristeza.
Legolas sentiu seu queixo cair na mais total incompreensão.
"Como assim? Mandava soldados me vigiar? Tomar conta de nós?" Ele indagou perplexo e piscou várias vezes ao ver o pai acenar positivamente com a cabeça. Não havia como acreditar naquilo.
"Nunca esteve só." Repetiu o rei com o tom de quem decreta uma lei. Mas em instantes seus olhos voltaram-se mais uma vez para uma imagem que apenas ele via. "Quando você se disfarçou na floresta, todos os anos, aqueles momentos difíceis que precisou viver sozinho... Momentos que passou na pequena morada que construiu por sobre a grande árvore cinzenta... Todos esses momentos eu vi...".
Legolas pendeu a cabeça que em seu interior dava voltas inteiras, tudo aquilo o surpreendia, as palavras do pai, o tom que usava. Ele desprendeu os lábios, mas o ar não lhe bastou, nada lhe bastaria senão fazer daquela confusão uma certeza.
"O senhor..."
"Eu olhava por você, menino..." Declarou o pai voltando a encarar o rosto perplexo e banhado de lágrimas do filho. Legolas começou a balançar a cabeça inconformado com o que ouvia. "Todas as manhãs eu sabia onde você escurecia o rosto e escondia os cabelos, voltando a esconder-se do mundo."
"O senhor sempre... sempre..." Quis perguntar o arqueiro, mas as palavras se recusavam a servi-lo em uma sentença coerente. Legolas nunca se sentira tão confuso.
Thranduil olhou para o filho saboreando a força que a verdade exercia sobre eles dois, mas temendo o que dissera, temendo de fato, mas desejando infinitamente terminar de dizer o que jamais devia ter começado.
"Sempre..." Disse então, sentindo as palavras fluírem devagar, como se ele cruzasse um lago raso, mas não estivesse certo até onde a água ainda lhe daria nos joelhos. "Sempre soube... Sempre disse que não... Mas muitas vezes... muitas vezes eu mesmo acompanhava seus protetores... Nos momentos quando não podia conter..." Ele parou por um pequeno instante e fixou seus olhos nos do rapaz como nunca fizera. "quando não podia conter esse sentimento traiçoeiro chamado saudade."
Os lábios do príncipe começaram a tremer, seu corpo todo os acompanhou e novas lágrimas correram de seus olhos.
"E por querer-lhe tão bem, menino." Disse então o pai ainda com seus olhos atados aos do rapaz, presos como se fossem um só brilho. "Por ter visto tudo o que vi... Não posso permitir que fique aqui. Não posso negar-lhe um lugar seguro onde possa viver e ser amado. Não depois do que o destino me mostrou... não depois de ver até onde você é capaz de ir por aqueles a quem ama. Eu quero que fique seguro."
Legolas balançou a cabeça, o pranto tomando-lhe o ar dos pulmões.
"De que adianta se estar seguro se... se não se é feliz, meu senhor?" Ele indagou.
O rei balançou a cabeça resoluto.
"Pode ser feliz ali. Eu sei que pode."
"Seria uma felicidade diferente..." Disse o príncipe em um dos tons mais tristes que o pai já ouvira. "Seria viver feliz pelos outros... Viver a felicidade alheia..."
O louro líder emudeceu mais uma vez. Ele entendia o que o filho dizia. Ele mesmo vivia a vida de seu povo, sentia-lhes a dor, as alegrias, obrigado a negar espaço para as suas próprias.
"Isso é... é pior do que viver em... em clausura, senhor..." Concluiu o príncipe apoiando ambas as mãos no rosto.
Thranduil baixou os olhos, perdera novamente as rédeas de seu cavalo. Do único animal que sempre cavalgara precisando terrivelmente delas. O que seria dele se não as recuperasse com urgência? Ele olhou para o filho que escondia o rosto agora, procurando aplacar o próprio coração. Como afastar alguém a quem se quer desesperadamente abraçar?
"E o que lhe daria a felicidade que quer, menino?" Ele finalmente reencontrou sua voz. "Além de ficar em Mirkwood?"
"Saber que o senhor quer que eu fique..." Respondeu o rapaz de imediato revelando o rosto uma vez mais. "E que não está movido pela piedade."
"Legolas..."
"Eu já enfrentei todos os sentimentos vindos do senhor, majestade.." Disse o rapaz fixando seus olhos úmidos no pai. "Já enfrentei sua indiferença, seu desprezo, seu ódio... E todas as vezes fui merecedor... Mas eu lhe peço, meu senhor... eu lhe imploro... Não me faça enfrentar sua comiseração... não se apegue a ela para me deixar ficar ou me obrigar a partir... para tomar qualquer decisão que me diga respeito... Por favor, senhor... Por favor."
"Oh Iluvatar." Disse o rei segurando subitamente as mãos frias do filho, odiando-se por ter perdido completamente o controle para uma situação para a qual tentara ao máximo se preparar. "Eu só... só quero o seu bem, menino... Por que confunde afeto com piedade, elfo tolo?"
Legolas repetiu descrente aquela sentença para si mesmo. Afeto? Teria de fato seu pai admitido para si palavra assim tão próxima ao amor?
"Afeto..." Ele ecoou a mensagem do rei.
"É o seu bem que busco, Legolas." Voltou a repetir o pai, as mãos ainda presas as dele. A voz tentando retomar seu tom habitual.
"Então permita que eu fique..." Pediu o rapaz. "Eu não o decepcionarei... Por favor, meu senhor..."
Thranduil esvaziou os pulmões exausto e apertou as mãos que segurava com mais força. Seria a decisão mais tola que tomaria e da qual ele tinha certeza que se arrependeria. Oh Iluvatar, que terrível e traiçoeiro sentimento era esse tal amor. Inundado por ele o rei enfrentara a todos para tomar para si uma doce jovem que poderia ter tido sorte melhor, por ele agora, o mesmo rei arriscaria o único elo fraco da corrente que amarrava seu pesado coração.
"Está bem..." Ele disse já se arrependendo de suas palavras, mas sentindo que ao dizê-lo ele mesmo selava seu destino e o daqueles a quem amava. E aquele sentimento, apesar de amargo, ainda lhe era encorajador, ainda lhe trazia alguma esperança. "Que assim seja."
Legolas sentiu um grande alívio, mas em um canto escuro de sua mente ainda habitava uma dúvida cruel. Thranduil o olhava com preocupação, traçando seus temores e lágrimas.
"O que foi, capitão?" Indagou o rei ainda em sua estranha tentativa de desvencilhar-se das garras daquele sentimento estranho que o sufocava.
"Não tenha pena de mim, meu senhor..." Pediu o rapaz uma vez mais.
E fora inútil. Partira-se enfim o fraco elo. Teria como ser restaurado? Thranduil decidiu não pensar nisso, decidiu não pensar em nada. Ele soltou as mãos que segurava e aproximou-se um pouco mais do filho, inclinando o corpo por sobre ele e apoiando uma das mãos no colchão ao lado do rapaz, deixando seu rosto a centímetros de distância do dele. Os cachos louros escorregaram pelos seus ombros, tocando levemente o peito e o rosto do filho, como se fossem uma benção dourada. Legolas voltou a empalidecer e o pouco calor da discussão sumiu de seu corpo, dando lugar aos indesejáveis tremores que ele julgava que não fosse experimentar mais tão cedo.
"Diga!" Disse o rei com firmeza, olhos esmeraldas com um brilho intenso.
Legolas não compreendeu.
"Dizer... dizer o que, meu senhor?"
"Diga o final dessa sua frase." Respondeu o rei "Com seu complemento apropriado."
Legolas continuou sem compreender. Ele analisou o que dissera, todas as palavras, sem conseguir perceber onde havia errado. Voltou a fitar os olhos do pai para só então sentir no fundo do peito, como uma idéia que lhe fora oferecida, o que Thranduil queria que ele dissesse.
"Diga!" Repetiu o rei. "Tem minha permissão."
O pobre arqueiro apertou as mãos que estavam sobre o colchão com tanta força que as juntas de seus dedos doeram. O medo devastador misturava-se a dúvidas cruéis e ambos traziam uma amarga sensação à alma. Thranduil podia sentir o desespero que se instaurava na alma do menino.
"O perdão que mencionou, está lembrado?" Indagou o rei parecendo ignorar todos os temores do filho. "É chegada a hora. Clame-o! Diga!"
E era isso. Legolas tinha a certeza agora do que tinha que fazer, mas não de como o faria e de qual seria a repercussão do ato em si. E se tudo soasse diverso? E se o dizer trouxesse tristes recordações. E se aquela palavra doce os separasse ao invés de uni-los como o fazia antes de tudo? Ele soltou os lábios e sua respiração tornou-se difícil e incerta.
"Diga..." Disse o pai mais uma vez, baixando levemente seu tom.
Legolas apertou os olhos e tentou buscar a certeza que precisava dentro do verde forte daquelas luzes que se fixavam nele. Thranduil leu aquele pedido como se tivesse som e luz e então lhe ofereceu um leve sorriso encorajador, desbravando um árduo caminho para que o rapaz passasse.
"Diga... Diga, esquilo meu..." Ele pediu por fim.
E o passado assomou-se ao presente, cobrindo feridas, preenchendo vazios, e as três letras surgiram desobedientemente dos lábios do jovem elfo como se fossem galhos e folhas buscando desesperadamente a luz.
"Ada..." Disse enfim aquele que reassumia o lugar que era só dele, recebendo um sorriso antes de ser puxado para os braços do pai.
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O grupo animava-se no jardim de Mirkwood. Galadriel e Celeborn sentaram-se na grama macia e apreciavam o vinho e as frutas que lhes foram oferecidos. Elrond caminhava por entre as árvores secas e os gêmeos estavam deitados olhando o pedaço de céu que escapava por entre as rochas acima.
"Como pode haver um jardim aqui?" Indagou-se Elrohir deitado por sobre o estômago do irmão. "É uma caverna..."
"A natureza faz seus caminhos." Respondeu Galadriel com um sorriso.
"Ela abençoa a todos os lugares..." Completou Elladan.
"Todos os que querem ser abençoados." Adicionou Elrond sentando-se então ao lado de Estel que se encolhia em um pequeno tronco caído.
"Quando vamos embora?" Indagou Glorfindel também sentado contra uma pequena árvore nua. "Não compartilho a opinião de vocês, nobres amigos, sobre esse lugar. Agora que rei e filho estão recuperados e, quem sabe, reconciliados, podemos finalmente tomar o rumo de casa e de nossas próprias vidas?".
Galadriel sorriu para o guerreiro louro.
"Sua vida não é tão repleta de acontecimentos que não possa esperar mais alguns alvoreceres?"
Glorfindel franziu as sobrancelhas desgostoso.
"Alguns alvoreceres? Por Mandos minha amada senhora, o que andou vendo em seu espelho que ainda a segura aqui?"
"Nobre Glorfindel." Respondeu a senhora branca gentilmente, sua voz parecia fazer parte daquela brisa suave que os abençoavam. "Sua beleza e charme muitas vezes são ofuscadas por sua falta de tato. O que é uma grande lástima."
O queixo do elfo de Gondolin caiu e seu rosto ardeu como não ardera em muitos anos. Na verdade ele não conseguia perceber se foram os elogios ou as repreendas da dama da Floresta Dourada que haviam mexido com seu brio. Ele voltou os olhos para os dois gêmeos, Elrohir ria tanto que teve que se sentar e apoiar ambas as mãos no chão. Elladan cobria o rosto deitado como estava, mas pelo movimento de seu tórax e abdômen estava mais do que claro que ele também se divertia com a situação.
"Lamento." Disse o elfo ligeiramente constrangido. "Esqueço-me de que fazer perguntas demais nem sempre é o caminho certo para o esclarecimento. Muitas vezes é o caminho da confusão apenas."
Galadriel sorriu.
"Sim..." Disse finalmente Estel encostado no pai. Elrond mantinha o braço em volta do ombro do filho. "Mas preciso dizer que compartilho parte da preocupação de Glorfindel." Ele admitiu preocupado. "Não estamos aqui porque somos necessários... quero dizer.. não estamos aqui porque algo de... de... algo de ruim ainda vai acontecer... Estamos?"
Os gêmeos também perderem o ar descontraído que lhes coloria a face e ergueram-se olhando diretamente para a avó. Galadriel ofereceu-lhes mais um de seus sorrisos e olhares enigmáticos em seu rosto sem idade.
"Já disse." Ela respondeu. "Até onde eu sei... e não é muito... Estamos em tempo de bonança."
"E de surpresas." Completou Celeborn olhando para o pequeno portão do jardim. Todos se voltaram e compartilharam imediatamente o sentimento que invadira o coração do líder de Lothlorien. Thranduil entrava, ajudando cuidadosamente o filho que vinha se apoiando nele. Elrond ergueu-se em seu impulso de curador e foi auxiliar pai e filho convalescentes, estendendo um dos lençóis que lhes fora oferecido para que o rei acomodasse-se no chão com o príncipe. Thranduil agradeceu e sentou-se com Legolas a sua frente, encostado em seu peito.
"Você é um paciente muito teimoso." Sorriu Elrond olhando o rapaz atentamente. Thranduil ainda amargava aquela estranha sensação que jamais o deixara, mas permitiu que o lorde de Imladris olhasse o rapaz, pois sabia que ele o fazia como curador que era naquele momento. Elrond percorreu os traços do príncipe e viu que ele havia chorado e que não chorara pouco, mas parecia em paz. Legolas ergueu os olhos e lhe sorriu francamente, fazendo com que os temores do curador fossem deixados de lado por alguns momentos.
"Esse jardim é muito belo, Thranduil." Disse Galadriel com um olhar amável.
"Há muito tempo não venho aqui." Respondeu o rei. "Elvéwen o apreciava demais."
"Há muito dela por entre essas árvores e flores." Observou Celeborn. "É um bom lugar para recordações felizes."
"De fato." Respondeu simplesmente o rei enquanto deslizava instintivamente os dedos pelos cabelos do filho, lisos e macios como eram os daquela cuja falta ainda pesava-lhe no coração.
Legolas fechou os olhos por alguns instantes, lembrando-se da mãe e de todas as verdades que ouvira dos lábios dela. Ele estava feliz por finalmente poder ter saído do quarto, mas sentia-se cansado e, agora que quase tudo parecia estar tomando o rumo preciso e certo, ele sentia um enorme desejo de descansar um pouco mais.
"Não sei das intenções de meus nobres hóspedes." Disse o rei em seu tom formal. "Mas peço-lhes a gentileza de ficarem mais alguns dias. Até que meu filho se recupere."
Legolas fechou os olhos, o sabor da estranha e prazerosa sensação de ouvir finalmente o pai chamá-lo de filho, superava as dúvidas que aquela afirmação do pai lhe trazia.
"Apreciamos seu convite, meu amigo." Disse Celeborn. "Tem planos para o futuro próximo?" Indagou com um sorriso.
Thranduil também sorriu.
"Pretendo oferecer-lhes uma festa." Ele disse fazendo com que Legolas se sobressaltasse em seus braços. "Enfim, depois de muitos anos, há muito para ser comemorado..."
"Uma festa no salão real? Nos bons moldes sindar?" Indagou Galadriel. O casal de Lothlorien parecia empenhado em ajudar o rei a mostrar suas idéias, embora este, com sua experiência de anos, não se iludisse quanto a fatos óbvios, como a certeza de que tanto o senhor quanto a senhora de Lothlorien tinham total conhecimento de seus planos até mesmo antes que ele mesmo os formulasse em sua mente.
"Não." Respondeu o rei enlaçando o filho nos braços com cuidado. "Uma legítima festa silvestre." Ele completou sorrindo com os lábios. "Nada de cavernas, nada de salões. Uma festa em nossa floresta esquecida."
Galadriel e Celeborn sorriram abertamente e os gêmeos olharam para seu pai surpresos. Aquele era um evento que os jovens elfos não conheciam.
"Uma festa para o nosso povo, ada?" Indagou o príncipe sem se conter enquanto se contorcia para poder olhar para o rei. A última festa que o reino tivera, ocorrera quando ele ainda era um elfinho. "Uma festa para todos?"
O coração do lorde de Imladris sentiu um grande alívio ao ver o rapaz finalmente tratar seu pai como lhe era de direito, mas seu coração bateu em um compasso estranho ao ver Thranduil apoiar uma mão no rosto do príncipe, fazendo-o voltar a encostar-se em seu peito.
"Sim." Respondeu o rei com prazer. "Uma festa para todos nós. E na qual você tem inteira responsabilidade."
"Como assim?" Perguntou o rapaz preocupado.
"O povo só terá sua festa quando seu príncipe estiver curado."
Legolas sorriu ajeitando-se um pouco mais nos braços do pai.
"Certo..." Ele disse enquanto fechava os olhos, sentindo os braços do sono doce o envolverem graciosamente. "Eu não vou decepcioná-los."
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E a alegria brotou como seiva pura na Floresta Escura. Fogueiras foram acesas, clareiras iluminadas e comida e vinho distribuídos. Thranduil e Celeborn tiveram um pequeno desentendimento, mas enfim o rei aceitou a ajuda do líder de Lothlorien com alguns mantimentos para o evento. Tudo era belo e jovem, tudo refletia esperanças naquele dia e o povo dançava e cantava alegremente.
A festa silvestre não tinha cerimônia ou ritual algum, apenas alegria e descontração. Músicos tocavam sons singelos ou animados e o povo usufruía o prazer de ouvir ou dançar, duas atividades que lhes preenchia a alma de alegria.
Os gêmeos dançavam agora com duas elfas silvestres observados pelo pai. Elrohir parecia se divertir muito acompanhando a elfa que sorria, enquanto dançavam por toda a clareira com agilidade. Elladan já parecia um tanto perdido, mas esforçava-se para não decepcionar a bela companhia que o convidara e também lhe sorria, parecendo feliz com o parceiro que escolhera.
"Seus irmãos estão se divertindo." Disse o pai olhando para o guardião a seu lado.
Aragorn sorriu. Sentia-se feliz, feliz por Legolas, feliz pelos momentos de paz que tinha. Ele voltou-se e viu o rei conversando com Celeborn, Legolas estava ao lado dele, como ficara por toda a noite. O príncipe virou-se instintivamente para o amigo e lançou-lhe um breve sorriso ao qual o guardião retribuiu, não satisfazendo o arqueiro porém. Legolas deixou finalmente a companhia do pai e juntou-se aos dois amigos.
"Estel." Ele disse com um sorriso singelo enquanto se aproximava. O príncipe usava as cores de sua terra, uma túnica verde-água e calças em um tom mais escuro. Por cima delas um robe marrom ao qual o rapaz displicentemente esquecera de fechar. Elrond sorriu para ele aproximando-se e terminando discretamente a tarefa do rapaz. Legolas riu e agradeceu.
"Não sou muito bom com roupas formais. Outra grande decepção para meu pai provavelmente." Lamentou-se sorrindo porém, sendo acompanhado pelos dois amigos.
Elrond segurou a mão do rapaz entre as suas.
"È o orgulho de seu pai." Ele disse vendo o jovem arqueiro enrubescer. "Não se esqueça disso. O orgulho de seu pai e daquele que te quer como a um filho também."
Legolas sorriu mais uma vez, baixando a cabeça e encostando-a no ombro de Elrond. "Sou abençoado." Ele disse.
"É sim..." Respondeu o curador deslizando levemente seus dedos pelas tranças do menino. De fato uma palavra pode ter muitos significados. "Abençoado... e uma benção para todos nós também." Ele completou dando um leve aperto no abraço que oferecia e depois se despediu, afastando-se e indo participar da conversa dos dois líderes de cabelos claros. Legolas sorriu, sentindo como se as palavras do curador estivessem ainda ecoando em seus ouvidos enquanto o bom lorde de Imladris vencia mais alguns desafios difíceis. O arqueiro sentiu-se feliz ao ver seu pai e seu mestre conversando. Thranduil não tratava o líder de Imladris como tratava a Celeborn, mas aquele poderia ser considerado um começo.
"Nada é impossível nessa vida." Disse Estel admirando a mesma cena do amigo. "Essa é a lição que aprendi esses dias."
"Grande e valorosa lição." Completou o arqueiro.
"Verdade."
"É mesmo." Disse Legolas com os olhos fixos no amigo. Alguma coisa o estava aborrecendo. "Alguém está nos fazendo falta aqui nessa festa, não é?" Indagou.
Aragorn o olhou intrigado.
"Quem?"
"Uma dama de escuros e cacheados cabelos... e de olhos apaixonantes."
Aragorn franziu as sobrancelhas aborrecido.
"Não gostei do seu tom." Ele ironizou dando um passo à frente, estufando o peito e encarando o amigo ameaçadoramente. "Fique longe dela, seu conquistador." Ordenou tentando visivelmente não rir. "Sei que se conhecem desde infância e ela nunca se cansou de elogiar seus dotes físicos... por isso..."
Mas ele não pode continuar porque em poucos instantes ambos já riam muito das bobagens ditas e pensadas. Legolas amava Arwen como sua irmã. Da mesma forma como amava a Estel e aos gêmeos e, mesmo se assim não o fosse, ele jamais roubaria a chance de felicidade de duas pessoas a quem prezava tanto.
"O amor é um doce sentimento." Disse enfim o príncipe com os olhos presos em algo que acontecia a alguns metros dele. Aragorn o acompanhou e os olhares de ambos passaram a observar Faernestal e a doce Nildeile em uma agradável conversa, o curador segurava as mãos da elfa, deslizando os polegares nelas carinhosamente. Legolas sorriu. Aquela era uma das cenas que ele sabia que jamais se esqueceria.
E voltando os olhos mais alguns metros ele viu outra cena que com certeza jamais se esqueceria. Galadriel segurava seu pai pelas mãos e o trazia graciosamente para a clareira onde todos dançavam. O povo deu alguns vivas de aprovação ao ver o belo casal entregar-se ao som da música.
"Feche a boca, Legolas." Brincou o guardião ao ver o queixo do príncipe completamente caído. Legolas apercebeu-se do que fazia e procurou segurar o maxilar fechado, mas em instantes estava boquiaberto de novo.
"Não acredito em meus olhos, Estel." Ele sorriu sentindo-se um tolo completo, mas não conseguindo evitar. "Que magia tem essa senhora da Floresta Dourada?" Ele questionou-se enquanto observavam o casal deslizar por entre o povo que se divertia.
Alguns momentos depois Elrond e Celeborn aproximaram-se dos dois jovens.
"O que acha Legolas?" Indagou o senhor de Lorien. "Devo buscar minha espada agora e decepar a cabeça daquele elfo galanteador ou espero a decisão final de minha companheira?"
O queixo de Legolas voltou a cair e ele virou-se assustado para Celeborn, que sorriu envolvendo o rapaz nos braços.
"Não gosto de dançar." Ele disse enfim ainda sorrindo ao ver a esposa voltar da clareira de braços dados com rei de Mirkwood.
"Sou a elfa mais invejada de toda Arda hoje. Com certeza." Ela disse sorrindo para o rei, que sorriu em retribuição.
"Agradeço a oportunidade, minha senhora." Ele respondeu inclinando-se respeitosamente e retomando seu tom sério.
"Divertiu-se então?" Disse Celeborn.
"Sim." Exclamou a dama deslizando os dedos pelo rosto do esposo. "Quase ganhei a noite."
"Verdade?" Indagou Celeborn com um sorriso. A cumplicidade feita em laços e olhares. "E o que lhe falta, estrela minha?"
Galadriel sorriu.
"Já dancei com o rei. Falta-me dançar com o príncipe. Serei certamente a mais invejada então."
E ela olhou para Legolas que nunca esteve tão pálido em toda a sua existência. Aragorn segurou-se ao máximo para não cair de joelhos ali mesmo, segurando com uma força fora do normal o riso que o olhar assustado do amigo lhe despertava.
"Não, minha senhora." Disse o rapaz constrangido quando a dama tomou-lhe as mãos. "Misericórdia. Vou envergonhá-la, pois nunca dancei em minha vida."
"Sempre há uma primeira vez, tithen pen." Respondeu a dama de Lorien puxando levemente o apavorado príncipe.
"Não... eu tenho certeza que não tenho dom algum para isso... Escolha outro alguém, minha senhora, por favor."
E até o riso de Thranduil foi ouvido dessa vez.
"Comporte-se menino!" Ele ordenou entre risos. "Aja como um príncipe!"
Legolas enrubesceu tremendamente, sua mente criava as mais constrangedoras imagens que era capaz, ele se via cometendo as piores gafes em frente a seu povo e à maravilhosa dama da luz.
"Oh Iluvatar." Disse o rapaz em um tom baixo, porém obedeceu, conduzindo a senhora da floresta à clareira e aceitando as instruções dela, para enfim acabar executando a tarefa com uma habilidade invejável. O povo sorriu e gritou mais alguns vivas também.
"Certos traços e habilidades são de fato hereditários." Brincou o líder de Lothlorien observando o rapaz conduzir sua esposa como se tivesse dançado durante toda a sua existência.
Thranduil deixou um riso espontâneo lhe escapar enquanto observava a mesma cena.
"De fato." Ele concordou.
"Deleite-se, meu amigo Thranduil." Continuou Celeborn sorrindo. "Pois está presenciando a semente que plantou, vendo o que de seu Legolas tem." Ele suspirou quase imperceptivelmente, olhando mais uma vez o casal. "E de fato tem. Quem o considerava o retrato masculino de Elvéwen, nunca o viu dançar. Com uma dama nos braços, ele é a imagem do pai que tem."
Thranduil não respondeu, deixando apenas que seus olhos acompanhassem a figura do belo príncipe que conduzia a poderosa dama da Floresta Dourada com firmeza e graciosidade. Legolas sorria abertamente, balançando a cabeça agora, parecendo divertir-se com palavras que Galadriel lhe dizia. Certos momentos de fato eram como belas pinturas que foram feitas para se eternizarem nas paredes da memória de alguém. E o rei ficou satisfeito por poder pendurar aquele belo quadro na parede de suas lembranças e com ele adicionar um pouco de alegria onde só havia tristeza e amargura.
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A noite continuou e os primeiros raios do sol começaram a colorir o céu distante. A festa estava chegando ao fim. Os elfos apenas ouviam os músicos agora e descansavam, sorrindo como se o mundo houvesse parado. O rei os olhava satisfeito. Aquele era o seu povo, do qual ele muito se orgulhava. Thranduil permanecera na roda dos ilustres, conversando com os senhores de Lorien, Elrond e Glorfindel que enfim resolvera se juntar ao grupo. O rei então respirou fundo e olhou a sua volta um tanto apreensivo.
"Quem procura?" Indagou Celeborn.
"O príncipe." Respondeu o louro líder avistando finalmente o rapaz entre os gêmeos e Aragorn. Ele então fez um leve sinal pedindo que o filho se aproximasse. Legolas mostrou-se preocupado e veio imediatamente, seguido pelos três irmãos.
"O que houve, senhor?" Ele indagou.
"Preciso encerrar o dia." Respondeu o pai ainda olhando para os elfos de seu povo, que agora descansavam nas árvores ou na grama macia que brotava em alguns cantos da clareira. Alguns se recostavam nos poucos lugares nos quais o sol conseguia atingir o chão.
Legolas voltou seus olhos também para eles e seu coração foi invadido pelo mesmo sentimento que incomodava o rei.
"Quer que eu peça que os músicos toquem uma das canções de despedida?" Ele indagou entendendo o problema do pai. Era difícil por um fim a uma festa daquelas sem saber quando aquele povo sofrido teria outra oportunidade assim.
"Não." Respondeu o pai. "Quero que cante para eles. Ficarão felizes e terão algo mais para se lembrar."
Legolas empalideceu mais uma vez e agora os amigos acharam que ele fosse desfalecer.
"Mas... mas... senhor..."
Ele quis continuar, mas os filhos de Elrond a sua volta só faziam complicar mais sua situação, provocando-o com inúmeros "Deixe disso, Las." "Largue de ser um covarde e vá lá" entre outras provocações e risos.
"Vamos, Legolas! Não vou me repetir." Advertiu o pai
"Mas...
Thranduil cravou seus olhos irritados nele. Como Legolas conseguia tirá-lo do sério em tão poucos instantes ainda era uma das piores dúvidas que tinha. A noite se fora, ele estava cansado, completamente sem disposição para os 'poréns' do filho.
"Legolas!"
"Não... não posso... eu..."
"Deixe disso, menino. Eles todos conhecem sua voz. É a que mais apreciam."
"Mas eu canto nas... nas árvores, majestade... como a natureza clama que eu faça... canto para fazer a minha parte...".
"Legolas..." Interrompeu o pai em um tom ameaçador.
"Senhor..." Insistiu o menino aproximando-se do rei. "Não canto com o propósito de ser ouvido... ou algo assim.. eu... nunca cantei para ninguém... Não sou capaz..."
"Ande rapaz." Thranduil irritou-se definitivamente, não estava interessado em qualquer explicação que contrariasse suas instruções. "Se me fizer repetir minha ordem em frente à tão valorosos convidados, nós vamos nos entender depois." Ameaçou o rei.
"Ada..." Suplicou o rapaz com os olhos apertados, parecia de fato apavorado. Elrond admirou-se da frieza do rei, que agora franzia as sobrancelhas e estufava o peito demonstrando a que nível estava sua insatisfação com a teimosia do filho.
"Eles fazem tanto por você, elfo ingrato." Disse o rei. "Não estou lhe incumbindo missão tão difícil assim. Vá e faça jus à devoção que esse povo lhe dedica."
Legolas baixou a cabeça vencido e finalmente obedeceu. Ele cruzou a clareira tão devagar que irritou ao pai. Por que o rapaz tinha que discutir tudo o que lhe era ordenado? Sempre fora assim. Discutia mesmo sabendo que depois acabaria cumprindo as vontades do pai.
O príncipe finalmente parou em frente aos músicos e nunca aquela floresta se fez tão silenciosa. Até o suave cantar dos pássaros do amanhecer também havia cessado. Legolas não olhou para ninguém Ele sabia que se tivesse que fazê-lo não seria capaz de cumprir sua missão. Então o tímido e embaraçado príncipe fechou os olhos e deixou que a imaginação o fizesse sentir-se em outro lugar, para só então sua voz completar o vazio que existia.
Mas algo estranhamente mágico se fez e uma canção sem palavras surgiu dos lábios do jovem elfo, como se os sons da natureza se fundissem em uma obra divina. Todos se viram conduzidos a fecharem os olhos e se deliciarem com a melodia que os embalava como em um sonho bom, fazendo-os se lembrarem de imagens e sons que estavam gravados em seus espíritos. Imagens e sons de outros tempos, quando tudo ainda era o começo, quando tudo era só voz e luz.
Enfim a canção terminou, mas a sensação permaneceu, ninguém porém se lembrara do que ouvira, como se realmente despertos tivessem sido. O arqueiro reabriu os olhos receoso. O que o aguardava não eram aplausos ou gritos de devoção, era o povo a lhe olhar e sorrir. Legolas nunca se sentira tão parte deles quanto naquele momento. Elfos silvestres que eram, seus súditos compreenderam melhor do que ninguém, a mensagem que seu príncipe lhes enviara. E eles sorriram em seus rostos tragados pelas lágrimas da emoção e se prostraram em frente ao jovem que amavam. Legolas desprendeu seus lábios surpreso e seus joelhos o levaram ao chão quase contra sua vontade. Ele fechou os olhos e apoiou a mão no peito. E seu povo o amou ainda mais depois daquele instante.
Quando todos se dispersaram e o jovem príncipe voltou vagarosamente para os seus, os olhos do pai estavam nele. Legolas julgava não ter agradado àqueles elfos sindars e nordors que não conheciam a linguagem da floresta, mas estava enganado, a canção os tocara também e todos o olhavam com respeito e admiração.
"Poikaer!" Disse Galadriel fazendo com que o príncipe franzisse os olhos. Ele já havia ouvido essa expressão, mas estranhamente não se lembrava onde. "Abençoado esse reino é, sem dúvida."
"Sem dúvida." Repetiu Celeborn também sorrindo.
"É prazeroso saber que apesar dos séculos vividos, sempre nos é reservada mais uma agradável surpresa." Disse Elrond com um sorriso.
Legolas enrubesceu ao sentir que realmente havia conseguido transmitir uma mensagem que julgava só ser ouvida e compreendida pelos elfos de seu povo. A agradável sensação de que as diferenças nem sempre são tão verdadeiras quanto os temores as fazem encheu-lhe o coração. Ele olhou para os filhos de Elrond. Os gêmeos apoiaram a mão por sobre o peito e curvaram-se em uma solene reverência e Estel lhe ofereceu um sincero sorriso.
Fora tudo mais do que perfeito. Exceto por alguém cuja opinião ele tinha receio de checar.
Mesmo assim o príncipe não teve outra escolha senão voltar-se finalmente para o pai, suspeitando que este, por sua vez, não aprovasse o que ele fizera. Mas, para sua surpresa, Thranduil não disse palavra alguma, ele apenas deu um passo à frente e envolveu o filho em seus braços de forma protetora. Ele parecia estranhamente preocupado.
"O dia renasce." Disse o louro líder mantendo o braço enlaçando os ombros do filho.
"Amanhã partiremos." Informou Celeborn. "Fomos presenteados e vamos felizes como há muito não ousávamos estar."
Legolas entristeceu-se com a notícia, mas baixou apenas os olhos. Ele se sentia estranho, cansado.
"Ainda se recupera, criança." Leu-lhe os pensamentos o lorde de Imladris. "Vá se deitar um pouco."
"Venha." Disse então o rei puxando levemente o filho e sendo acompanhado pelos demais elfos que voltavam para o palácio. Legolas deixou-se conduzir pelo pai e a clareira onde tudo se dera voltou a ficar como sempre fora, guardando apenas as sensações cujas árvores absorveram e reservaram.
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Todos foram para seus aposentos e Thranduil acompanhou o filho pelo corredor. Legolas vinha a passos lentos e cambaleantes, parecia incrivelmente cansado. O pai o conduzia segurando-o por um dos braços, mas procurava acompanhar o vagaroso passo do jovem elfo até chegarem à entrada do quarto do rapaz.
"Vá descansar um pouco." Disse o rei abrindo a grande porta de madeira maciça.
Legolas olhou para o imenso quarto vazio, mas seu cansaço era tanto que pela primeira vez ele não se importou em dormir ali, dormiria onde quer que fosse.
"Sim, senhor." Concordou baixando a cabeça e passando pelo pai.
Os olhos do rei o acompanharam em silêncio. O príncipe entrou e deixou a porta aberta sem perceber, Thranduil ficou observando do lado de fora, enquanto o rapaz atirava o robe marrom na cadeira e jogava-se na cama sem sequer tirar os leves sapatos. Algum tempo se passou no qual o rei apenas observou a cena do arfar suave do peito do príncipe, cujos braços estavam soltos ao lado do corpo, parecendo saborear um sono tranqüilo. Há muito tempo ele ansiava vê-lo novamente dormindo naquela cama, protegido sobre o seu teto. Há muito tempo de fato. Chegara a perder as esperanças de que aquele dia pudesse realmente se concretizar.
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"Está ali, meu senhor." Sussurrou o líder da patrulha em um tom quase inaudível.
"Está só?" Indagou o rei agachando-se atrás de uma grande árvore.
"Sim, senhor. Há apenas um cavalo, um corcel negro."
"Não fui informado de que ele havia conseguido um animal." Aborreceu-se o rei tentando ver o que se passava a alguns metros dele.
"Não, senhor. Ele não tem animal algum. É o corcel do povo do norte, uma criatura muito inteligente pelo que pudemos perceber, quando aparece no local é sinal que Halbarad, o chefe dunedain, precisa dos serviços de Legolas. Pelo menos foi assim das últimas vezes nas quais serviu ao líder humano."
"Halbarad sabe a verdade?" Indagou o rei voltando-se para o soldado com um olhar preocupado. "Conhece a identidade dele?"
"Não creio, senhor. Pelo que sei o príncip... Legolas senhor, trabalha para o grupo em troca de suprimentos e algum dinheiro."
"Em troca de dinheiro..." Repetiu o rei encarando o local onde o filho agora vivia. A natureza estava a sua volta, mas era um canto triste e vazio de mata fechada e escura, distante de qualquer sinal de vida civilizada. Ele sabia que o que movia o filho a ajudar aquele grupo de humanos estava muito além dos proventos que conseguia em troca.
"Veja, ali vem ele, senhor!" Apontou o elfo encolhendo-se mais em seu esconderijo.
Thranduil apertou os músculos da face, tentando fazer com que seus olhos vencessem a luz que lhe vinha de encontro na posição em que estava e finalmente a imagem chegou a seu alcance. Já fazia muito tempo que não via o filho e seu coração quase saltou no peito ao ver o quão magro e mal tratado estava o rapaz. As roupas do príncipe eram um conjunto de trapos remendados e pareciam largas em seu corpo frágil. Thranduil fechou os olhos por alguns instantes, digerindo aquelas imagens e aquelas informações, segurando ao máximo o instinto que tinha de correr até lá e levar o filho de volta com ele. Iluvatar, como ele desejava poder fazer aquilo, como desejava apagar o passado, apagar o futuro e ver-se livre para viver um presente que lhe estivesse ao alcance das mãos. Esse era seu maior desejo, que infelizmente vinha acompanhado por outros desejos ainda mais urgentes, ainda mais fortes, entre eles, o desejo de não ser mais quem era.
"Espírito!" Ele ouviu o filho gritar e assoviar em seguida. Legolas caminhava devagar para perto de um pequeno lago trazendo um velho cantil, seus cabelos soltos escorriam-lhe pelos ombros, morrendo praticamente no meio de suas costas, muito compridos e sem qualquer trançado. Ele olhava a sua volta como se esperasse que o animal desse algum sinal de sua presença, mas o cavalo não apareceu, provavelmente estava pastando em algum lugar e ainda não sentira o desejo de retornar. Legolas sorriu abanando a cabeça, depois se ajoelhou em frente ao lago e encheu o recipiente. Era uma pequena clareira e o sol a atingia diretamente. Legolas suspirou erguendo o rosto e deixando os mornos raios da manhã iluminarem e aquecerem sua alma. Depois olhou mais uma vez ao se redor e acabou sentando-se por alguns instantes na grama macia, abraçado as pernas dobradas e cantarolando uma velha canção que o pai conhecia muito bem, uma das primeiras canções que a doce Elvéwen ensinou ao filho.
Thranduil o observava calado, cada palavra que surgia dos lábios do rapaz atingia em golpes certeiros seu pesado coração. Ele fechou os olhos por alguns instantes, sentindo-se incrivelmente castigado, amaldiçoando-se por vir até ali, questionando-se sobre todos os porquês, mas acabou voltando a abri-los, entorpecendo o coração com aquela doce melodia que o filho resgatava de um passado feliz que ambos vivenciaram.
Em alguns instantes o corcel negro mencionado pelos soldados surgiu, aproximando-se devagar do distraído elfo. Legolas sobressaltou-se quando o cavalo encostou o focinho em seu rosto, mas riu caindo de costas na grama e deixando-se passar por objeto das brincadeiras do animal. O corcel esfregava alegremente o focinho no rosto e peito do rapaz enquanto o príncipe ria e apoiava as mãos na cabeça do amigo eqüino tentando afastá-lo. Thranduil se viu sorrindo sem perceber diante daquela cena, ao seu redor os soldados sorriam também.
"Ele deve partir hoje." Informou um outro elfo que acabara de chegar e se encolhia agora ao lado do líder. "Estava escondendo seus pertences."
O rei apertou os lábios apreensivo, algo em seu coração se inquietava terrivelmente com aquela informação, um medo nascia e crescia pelas paredes de seu peito como uma planta parasita das mais poderosas, como se o futuro lhe gritasse avisos em uma estranha língua que para ele ainda era uma incógnita cruel. O que o destino lhe reservava agora? Que triste realidade aquele canto da floresta queria tanto lhe fazer crer? Sua cabeça doeu subitamente e ele mais uma vez foi obrigado a trancar todos os desejos que tinha de burlar as regras, pisotear os velhos regulamentos, erguer sua poderosa voz acima de todas as outras, apenas para poder levar o filho de volta para casa. Thranduil suspirou enfim ao ver o rapaz erguer-se e começar um processo que fazia todos os dias. Ele apertou os punhos em um misto de ódio e angústia ao ver o menino pintar o rosto e esconder os longos cabelos em um gorro escuro.
"Elfo tolo." Ele disse quase para si mesmo. "Não conhece limites para o sacrifício? Não concebe a hora de dizer basta?" Ele pensou, impressionando-se ao perceber que no fundo desejava que o menino desistisse de tudo e decidisse enfrentar o que o oprimia, decidisse questionar as correntes que a ele foram atadas. Mas ele sabia que, como Elvéwen, Legolas jamais o enfrentaria, jamais se colocaria como obstáculo ou no posto do inimigo, mesmo que fosse para salvar sua própria vida, ou recuperar a que um dia teve.
Thranduil preencheu os pulmões com o ar da dúvida e da amargura novamente e se permitiu olhar o rapaz uma vez mais. Ele então suspirou e elevar silenciosamente suas preces a Iluvatar, pedindo que aquela não fosse a última. Pedindo que a sorte voltasse a ser morada da alma dele e da do filho, para que um dia a paz pudesse voltar a lhes abençoar. Em seguida ergueu-se se afastando da cena antes que seu coração não o permitisse fazê-lo mais.
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"Agradeço..." Thranduil baixou a cabeça aliviado, feliz por aquele cenário que tantas vezes vira em sua mente depois daquele dia fizesse enfim parte do passado. De fato seus pressentimentos mostraram-se uma realidade deveras cruel. Mas era uma realidade que ficara finalmente para trás. O filho estava de volta, assumindo novamente sua identidade e seu valor. Iluvatar atendera suas preces, embora ele não se julgasse merecedor.
Aqueles pensamentos acabaram forçando o rei a entrar no quarto. Ele se aproximou da cama silenciosamente e retirou o calçado do filho devagar. Legolas parecia dormir profundamente com seus olhos fechados, o que inquietava seu pai em demasia. Mesmo recebendo de Faernestal e do lorde de Imladris a certeza de que o filho só estava ainda fragilizado demais para dormir um sono élfico, mas que apresentava sinais de recuperação muito entusiamantes, ele ainda temia pela saúde do menino. Legolas suspirou em seu sono, apertando levemente os lábios e virando o rosto. Thranduil suspirou também, puxando um pouco o corpo do rapaz para ajeitá-lo na cama, depois jogou uma coberta por sobre ele e beijou-lhe a testa.
"Amanhã é a retomada de tudo, esquilo." Ele disse deslizando os dedos pelas sobrancelhas do filho. "Infelizmente."
"Eu te amo, ada..." Veio a voz de sono do jovem elfo em resposta. Thranduil aborreceu-se ao perceber que o príncipe estava acordado, mas não demonstrou.
"Tem o meu amor também, menino." Ele disse vendo o rapaz erguer as pontas dos lábios em um ensaio de sorriso. "Mas nosso amor terá que ser escondido de amanhã em diante, você entende?"
O rosto do rapaz perdeu então a alegria, mas ele acenou positivamente, sem abrir os olhos.
"Estamos em guerra. Nossas fraquezas têm que ser bem camufladas... você entende isso, esquilo?"
Novo aceno, olhos ainda fechados.
"Que bom!" Satisfez-se o rei voltando a deslizar seus dedos pelas sobrancelhas do rapaz, para depois se erguer e tomar o rumo de volta à saída do quarto. Quando colocou a mão na maçaneta, porém, uma estranha lembrança surgiu e uma dúvida o incomodou. "Legolas?" Ele chamou voltando-se uma vez mais para o filho.
"Sim, ada." Respondeu o príncipe, os olhos ainda fechados enquanto ele se abraçava a um dos travesseiros, como fazia desde menino quando o sono o vencia.
O pai aproximou-se novamente da cama e sentou-se, observando o rapaz manter suas pálpebras cobrindo dolorosamente os claros olhos. Ele devia estar mesmo muito cansado.
"Olhe para mim." Disse o rei vendo o filho abrir os olhos avermelhados instantaneamente. "Preciso lhe perguntar algo."
O arqueiro sentiu que havia gravidade no tom de voz do pai e quis erguer-se então, mas o rei apoiou uma mão em seu ombro impedindo seu movimento e a manteve ali. Legolas apertou um pouco mais o travesseiro que abraçava e apoiou o rosto por sobre ele.
"O que houve, ada?" Ele indagou preocupado, procurando manter os olhos abertos, mas intrigado com a imagem do pai que contorceu os músculos do rosto parecendo incomodado com algo.
"Quando você era" A voz do rei ganhou vez vagarosamente. "Quando era criança... Por que... Por que perseguia as borboletas no jardim?"
Legolas franziu as sobrancelhas, estranhando profundamente o porquê de tal questionamento depois de tantos anos.
"Por que a pergunta, ada?"
O rei mostrou insatisfação. Ele odiava quando alguém lhe respondia uma questão importante com outra questão totalmente irrelevante. Legolas logo se apercebeu de seu engano e apressou-se em responder, temendo incomodar o cansado pai.
"Nana..." Ele disse. "Era por causa de uma história que ela me contou."
Thranduil apertou os lábios ao ouvir aquela doce palavra de quatro letras na voz do filho depois de tantos anos, mas não teceu comentário e Legolas percebeu então que o pai queria realmente conhecer toda a história.
"Ela me disse..." Ele começou receoso, desviando os olhos da figura a sua frente para os pequenos vasos da cabeceira de sua cama. "que... as borboletas espalhavam a vida... de uma planta a outra... deixando restos de vida pelo chão... e desses restos a própria vida renascia... Então... então eu achava que se elas estivessem sempre voando..." Ele enrubesceu lembrando-se de sua ignorância de elfinho. "elas... estariam sempre... Bem... o jardim nunca morreria..." Ele terminou bruscamente sentindo o coração apertado e lágrimas baterem em seus olhos, mas ele sabia que já havia chorado demais em frente ao pai. "Ela... ela amava aquele jardim... e eu... eu queria que estivesse sempre bonito... porque ela sorria quando entrava ali... ela sorria e eu... queria vê-la sorrir..."
Thranduil mostrou-se indecifrável, olhos de um estranho brilho piscaram algumas vezes mas ele nada respondeu. Legolas olhava no fundo deles agora, em busca dos motivos que pareciam incomodar tanto ao pai assim. Mas era inútil, o poderoso Thranduil Oropherion era uma muralha intransponível quando assim decidia ser, e esse assim era uma constante.
"Por que, ada?" Indagou enfim.
"Por nada." Respondeu o rei erguendo-se mais uma vez e retomando seu caminho original. Em sua memória não conseguia se lembrar de ver o menino repetir aquele ritual depois da morte da mãe."
"Borboletas são esperanças..." Disse o rapaz com um sorriso inseguro. Ele daria tudo para saber que imagens e idéias povoavam a mente do pai naquele instante. "Ainda gosto delas..."
O rei parou à porta.
"Mas não mais as persegue." Observou enfim sem se voltar. "Não quer mais que o jardim floresça?"
Legolas ficou em silêncio e o pai voltou a olhá-lo intrigado.
"Elas... elas têm que descansar..." Disse então o rapaz apertando os lábios timidamente enquanto desviava seu olhar para os bordados do travesseiro que abraçava. "Não posso obrigar a natureza... apressar o que o tempo tem seus meios de me conceder".
Thranduil fixou seus olhos nele, abismado com cada palavra que ouvia. Galadriel havia chamado o filho de Poikaer e ele não conseguia mais se esquecer daquilo. Poikaer... era o que o filho de fato era, a criatura pura que abençoava seu reino, a luz que ainda o prendia nesse lugar. Porém aquela denominação, a qualidade especial que fora atribuída ao príncipe só o preocupava mais, o preocupava terrivelmente e o irritava exatamente pele fato dele não saber o porquê da preocupação que sentia. Thranduil perdeu-se então nos olhos do rapaz, que brilhavam para ele com o rosto parcialmente escondido atrás do travesseiro que abraçava.
"O que foi, ada?" Insistiu a voz do filho, preocupado com o modo com que seu pai o olhava agora. Ele começava a julgar ser mais fácil encarar o olhar de ira do rei do que aquele estranho olhar que recebia agora, um olhar que parecia conter um mar inteiro de informações indecifráveis por trás dele.
"Nada... Não foi nada." Apressou-se o louro líder elfo em responder. "Descanse. Aproveite nossos momentos de paz, soldado." Ele disse abrindo a porta do quarto e alcançando finalmente o corredor. Ele queria dizer tantas coisas, dizer ao filho o quanto o amava, dizer-lhe o quanto sentira sua falta, mas aquelas eram palavras doces que o tempo deixava para trás.
"Ada?" Chamou o rapaz antes que a porta do quarto se fechasse. Thranduil parou onde estava, no ínterim de uma saída inevitável Ele voltou seus olhos para o filho uma vez mais, sentindo que já passara da hora de estar fora daquele lugar. As correntes de seu coração precisavam urgente de reparos.
"O que foi, menino?" Ele indagou retomando vagarosamente seu tom habitual que despertou um estranho sorriso no filho. Legolas parecia sentir uma grande dificuldade em manter-se acordado.
"Obrigado." Respondeu simplesmente o rapaz, fechando vagarosamente as pálpebras e apertando um pouco mais o travesseiro que segurava. "Antes que o hoje seja ontem... Obrigado ada..." Ele finalizou desprendendo levemente os finos lábios e deixando um suspiro escapar por eles, a indicativa de que nada que lhe fosse dito como resposta seria de alguma valia. O príncipe dormia o sono daqueles que estão em paz.
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E o último dia se formou com um céu encoberto por brancas nuvens. Galadriel sorria em seu cavalo observando as formas que aquela água fantasiada de puro algodão fazia surgir no céu. Celeborn a seu lado estendeu-lhe a mão e esta a tomou com prazer oferecendo-lhe um amável sorriso. Glorfindel e os demais soldados também já estavam se posicionando e Estel e os irmãos faziam o mesmo após terem se despedido do príncipe e o feito prometer que os visitaria em breve. Elrond ficou por último, sentindo que a promessa do menino era algo que o destino o obrigaria a retardar mais do que o rapaz desejava. O curador voltou a temer por ele, apesar de senti-lo protegido perto do pai agora, ainda restava-lhe uma sombra escura e indecifrável em seus pensamentos. Ele sentia que muitas perguntas ainda estavam incomodamente sem as devidas respostas. Mas não havia como ou porquê pensar nisso naquele momento que se fantasiava como um instante de paz, então o curador curvou-se em uma breve reverência ao rei.
"Visite-nos, Thranduil." Ele convidou. "Ainda temos alguns assuntos importantes a tratar."
O rei retribuiu o cumprimento.
"Grato, Elrond de Rivendell." Ele respondeu simplesmente. "Você e seus filhos são bem vindos em minhas terras. Todos os seus filhos." Ele disse então direcionando seu olhar para Aragorn que já estava sobre o cavalo e se surpreendeu visivelmente, recompondo-se e agradecendo em segundos.
Elrond sorriu e enfim voltou-se para o príncipe.
"Seja feliz, criança." Ele disse com um sorriso sincero.
Legolas apertou os lábios e olhou para o pai. Thranduil acenou imperceptivelmente com a cabeça, entendendo o pedido oculto do filho e o príncipe então abraçou o curador com força. Elrond surpreendeu-se e emocionou-se visivelmente com a prova de coragem e afeto do menino, mas procurou não se prender muito naquela situação para não testar os limites da paciência do rei de Mirkwood.
"Obrigado, mestre." Ele disse.
"Elrond." Corrigiu o curador.
"Mestre." Repetiu o elfo sorrindo. "Sempre."
Elrond suspirou incomodado. Em seu coração ele ainda queria muito carregar aquele menino de lá. Oh Iluvatar, como ele queria fazê-lo. E como foram difíceis aqueles últimos passos seus e piores foram os sons das patas de seu cavalo cruzando aqueles portões, deixando o jovem príncipe em sua terra definitivamente.
O grupo deixou o local e Legolas correu portão a fora para um último aceno de despedida, sendo retribuído pelos irmãos que sorriam e gritavam-lhe ainda algumas bobagens que o rapaz não sabia sequer se entendia bem. Ele apenas riu e balançou a cabeça, voltando então a entrar e fazendo o grande portão se fechar. Sobre a escada o rei já dava as costas e retornava para dentro do palácio. Legolas sentiu o coração apertado. Ele sabia para onde Thranduil ia.
"Vai para o gabinete, ada?" Ele apressou-se e perguntou parando no meio da grande escada.
"Vou." Disse o rei caminhando a passos largos para a porta principal. "Tenho muito que fazer." Ele adicionou em seu tom amargo de sempre. "Muito no que pensar. Vá dar uma volta, aproveite seu tempo de descanso enquanto pode, capitão."
Legolas estagnou-se no triste local onde estava. Era como se ele despertasse de um sonho estranho para se encontrar na mesma situação em que sempre estivera. O jovem elfo se entristeceu ao ver o pai deslizar seu robe branco pela entrada e desaparecer na frieza eterna daquela caverna. Ele pensou em detê-lo, chamar-lhe para sair com ele como sempre fizera e nunca fora atendido, mas não o fez, seus ouvidos apenas acompanharam o andar suave do pai e o som da grande porta do gabinete fechando-se e daquela amaldiçoada chave girando como se tivesse vida própria em sua fechadura. O pai voltara a isolar-se naquele lugar de amargura e preocupação e ele, como sempre, nada podia fazer.
O jovem elfo então se resignou e baixou a cabeça em um suspiro, para enfim dar as costas e voltar a descer a escadaria do palácio. Ele pensava em ir para a floresta relembrar-se de como era dormir embalado por um galho amigo, mas seus olhos o atraíram para o jardim da mãe e o arqueiro entrou mais uma vez por aquele pequeno portão pelo qual passara inúmeras vezes em toda a sua vida, sentando-se encolhido em um canto e ouvindo o cantar dos pássaros. Em breve estaria novamente no comando de uma patrulha e tinha que aproveitar seus últimos momentos de paz.
Mas do topo de uma das sacadas ele não percebia um par de olhos verdes o observarem atentamente. Thranduil ainda preocupava-se com ele, não conseguindo deixar que seu pensamento envolvesse algo que não fosse o filho. Legolas parecia triste encolhido naquele jardim e isso lhe roubava a paz.
"Vamos, pássaro." Disse o rei para si mesmo. "Vamos... cante..."
Mas Legolas não correspondeu, encolhendo-se mais e apoiando a cabeça em um tronco descascado, seus olhos se fecharam e uma palidez estranha tomou-se a face. O frio das incertezas visitando a todos de diferentes modos.
Foi quando ela apareceu, batendo as asas alegremente. A princípio Legolas não a viu, mas Thranduil sim, ele a via bem e acompanhava o suave gingar descontínuo daquelas asas. Era uma borboleta, uma borboleta azul.
E então ela passou a poucos centímetros do príncipe, como se desejasse de fato chamar-lhe a atenção. O rapaz reabriu os olhos e moveu a cabeça confuso, para depois sorrir para aquela imagem que flutuava como um sonho bom, desafiando o ar frio que agora invadia o palácio e antecipava o inverno rigoroso que logo se aproximaria. Ela voou mais alguns poucos metros e pousou suavemente em uma cadeira envelhecida e cheia de ramos a lhe cobrirem. Legolas olhou naquela direção. Aquele era o lugar onde sua mãe costumava se sentar, um lugar especial que a natureza agora abraçava sem que o príncipe sentisse desejo algum de protestar.
Legolas ergueu-se devagar e ficou observando o pequeno ser agitar levemente as pequenas asas sem sair do lugar, para finalmente uni-las como se fizesse parte do cenário. Um desejo antigo voltou a instigar-lhe os nervos, a dominar-lhe a razão: o enorme desejo de vê-la voar, de fingir acreditar nas mesmas ilusões que preenchiam os vazios de sua infância. Mas seu coração estava tomado por um sentimento maior do que aquele, e o rapaz percebeu que sentia medo. Mesmo de volta a seu reino, mesmo com o perdão do rei, ele ainda sentia medo, medo de não conseguir enfrentar as mesmas incertezas que atemorizavam seu passado, medo de descobrir-se esquecido novamente pelo pai, de voltar a ser para ele como parte do verde mapa que nunca abandonava a grande escrivaninha do gabinete.
A borboleta então voltou a bater levemente as asas, como se fosse voar, mas uniu-as uma vez mais, em uma provocação silenciosa que despertou um leve sorriso no arqueiro.
"Gwilwileth" (borboleta) Ele sentiu a palavra escapar-lhe enquanto erguia-se dando suaves e silenciosos passos em direção ao pequeno inseto. A sua volta o jardim todo ganhava as cores de sua infância. Legolas deu mais alguns passos curtos, mas subitamente o frio dos dias presentes voltou a tomar seu espírito, forçando-o a estagnar-se uma vez mais a poucos metros do ser azul brilhante.
Acima dele o pai ainda observava a cena, mãos fortemente unidas atrás das costas, olhos fixos em cada pedaço daquele mágico acontecer. Legolas instintivamente olhou para cima e encontrou-se com ele, mas Thranduil não sentiu ímpeto nenhum de esconder-se ou constrangimento por ser visto pelo rapaz. Ele apenas ergueu os cantos dos lábios em um leve sorriso que surpreendeu o filho e olhou para o pequeno ser voador.
Legolas julgou que a realidade estava novamente fugindo de seu caminho e ele vivia agora um estranho sonho, seu olhar voltou a fixar-se naquele habitante de suas dúvidas. Ele tinha que fazer uma opção, acreditar ou não. Acreditar implicaria em voltar a amargar as decepções dos que esperam e anseiam, mas desistir trazia consigo toda a carga das portas que se fecham, dos laços que se perdem. Eram dois caminhos árduos e sem grandes recompensas. Legolas voltou a olhar para o rei que ainda mantinha seus olhos presos na bela criação de Yananna, transmitindo ao filho instruções que o mesmo jamais esperara receber dele.
O arqueiro suspirou enfim e ergueu vagarosamente uma das mãos, dando mais um passo inseguro. Um vento frio deslizava por entre aquelas plantas e árvores agora, trazendo ao rapaz um estranho aperto no peito, um inexplicável temor. Ele estagnou-se por fim mais uma vez, sentindo-se se apequenar como aquela criatura divina. Os minutos então o abraçaram e o tempo transformou-o em um prisioneiro de seus instantes. O príncipe ficou onde estava, a mão erguida, os olhos perdidos, o medo de si mesmo maior do que tudo o que sempre o encantara. Seus olhos finalmente demonstraram o quanto ele não poderia mais resistir àquelas dúvidas e lágrimas deslizaram por seu rosto. O frio tomando-lhe devagar o corpo, o peito, os ombros, as mãos... as mãos... Mas... Encontrara um estranho obstáculo... Legolas abriu os olhos surpreso, a pequena borboleta pousara levemente em sua mão estendida e ajeitava as asas unindo-as mais uma vez. Um calor passou a envolvê-lo, em dura batalha contra o frio que lhe tomava, um calor que ele não imaginava que um dia pudesse voltar a sentir. E a estranha sensação tomou seu lugar, envolveu como braços ao redor de seu corpo, braços que só ele podia sentir, mãos que deslizaram levemente em volta de seu peito escorregando por seus braços erguidos e segurando-lhe as mãos com doçura.
"Nana..."
"Tithen pen... " Ele ouviu a voz sussurrar-lhe, antes da sensação desaparecer. Então abriu os olhos e a pequena borboleta voou.
Restou o príncipe parado por minutos que ele mesmo não concebia, seu mundo estranho e mágico continuava a convidá-lo a tentar uma vez mais, e outras vezes depois daquela. Ele sorriu um riso triste, enlaçando os braços em volta de si e deixando-se ficar ali em pé, parado em meio àquele lugar no qual o tempo parecia não existir, sentindo-se desperto e adormecido, como se sentira durante toda a sua existência, vendo-se uma vez mais tentando combater o terrível sentimento de solidão que sempre lhe invadia, após sentir a doce presença daquela a quem nunca esquecera. Tentando como sempre tentara, agarrando-se com força à difícil vida que recebera de volta, à difícil vida que era só sua.
Mas dessa vez a sensação da gélida solidão não se mostrou tão forte como sempre fora, não o dominou, pois aquele era o momento das surpresas, das revelações. Surpresas e revelações que se fizeram concretas, materializadas em dois outros braços que o envolveram, braços fortes dessa vez. Legolas sobressaltou-se a princípio, mas logo ouviu uma voz, que muitas vezes lhe foi conforto, oferecer-lhe segurança, conscientizá-lo que nem tudo seria como sempre fora.
"Está tudo bem, esquilo." Disse o pai em um tom preocupado, enquanto o segurava firme nos braços. "Está tudo bem agora... Estou aqui... Você está em casa..."
F- I - M
