Capítulo XIX

Na Esfera Negra

Ele abriu os olhos. Estava largado no chão, cercado de criaturas com uma couraça cor de terra, duendes da terra. Manteve os olhos verdes abertos e olhou um pouco mais para cima do duende de olhos laranjas que o encarava.

Pendurados em cruzes de madeira feitas precariamente com pedaços de troncos amarrados Zelda, Kold, Forkres, Colley e Sheik.

O duende de olhos laranjas deu um passo em sua direção, parecia inseguro. Nada aconteceu, o duende sorriu e encorajou os outros a seguirem-no e cercaram Kanahyor. Aquele mesmo avançou mais e segurou seu braço firmemente.

Todos os duendes explodiram em chamas. Eles não pareciam mortalmente feridos, mas caíram no chão sem exceção.

Kanahyor ergueu-se e jogou os cabelos prateados para trás. Virou-se para os cinco, esperando uma explicação.

– Bem... – Disse Zelda. – Fui eu que chamei vocês aqui então acho que lhe devo uma explicação. – Nossas almas foram absorvidas pela esfera negra que Lyfnos e Hiaryham levavam, isso vocês já devem ter adivinhado. Acredito que dentro dela exista uma outra dimensão só de almas que é onde nós estamos agora, por isso eu e Sheik podemos aparecer separados. Pois bem, diferente de mim, vocês já surgiram diretamente nesse... lugar! Eu tive de ser levada de uma montanha de gelo... Enfim! Quando vocês surgiram, todos acordaram, menos você.

– E os duendes vieram e nos prenderam... – Disse Forkres.

– Mas quando... –Começou Kold.

– Cale-se. –Disse Kanahyor.

– Mas quando eles tentaram pegar você eles... Não conseguiram! – Disse Colley.

– Havia uma espécie de barreira prateada te protegendo que não deixava que eles passassem, mas sumiu quando você acordou. – Completou Sheik.

– Por fim, eu não faço idéia de como sair desse lugar, e os duendes da terra não eram suficientemente inteligentes para falarem, então acho que por enquanto estamos presos. – Disse Zelda.

Todos olharam para Kanahyor.

Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas seus olhos começaram a arder de maneira insuportável. A dor se espalhou pela cabeça, ele caiu de joelhos no chão.

Começou a tremer, a dor ia se espalhando e ele caiu completamente no chão, se contorcendo na dor.

– O que é isso? – Perguntou Colley.

– É a magia, a magia que ele usou contra os duendes, não se pode usar magia nesse lugar! – Exclamou Zelda. – Vamos soltem-se, precisamos sair!

Kanahyor não ouvira o que ela dissera, tentou usar uma magia para neutralizar a dor, ela aumentou dez vezes mais e ele não conseguiu mais respirar, sentia-se sufocado, perdeu a consciência.

– Eu acho que o Kanenkai da Destruição não será muito útil aqui, já que tudo que ele faz é baseado em magia. – Disse Colley não poupando esforços para mostrar que sua preocupação era nula.

– Consegui! –Exclamou Forkres, e metade de seu corpo ficou pendente no ar, presos pela mão esquerda, o tronco podre não agüentou o peso e quebrou-se.

Um pedaço dele ficou preso em sua mão esquerda junto com a corda.

– Venha nos soltar, Forkres. – Disse Kold.

– Não me venha com ordens! Vou soltar primeiro esse loiro. – Ela olhou em volta e foi até um duende, de quem arrancou uma garrafa de vidro. Quebrou-a em uma mesa e pegou dois cacos. – Não se preocupe, eu sou treinada!

Ela arremessou-os em direção a Sheik, mas para o alívio deste os dois atingiram cada um a corda de um braço, ele caiu no chão.

– Quem vai ser o próximo? – Perguntou ela. – Você! – Disse ela com um sorriso maldoso apontando para Zelda.

– Não se preocupe, deixe que eu liberto os outros, de uma olhada lá fora e tente descobrir algo.

Contrariada, Forkres foi arrastando os pés até a pequena entrada do bar, fechada por uma porta rachada por causa da madeira ressecada.

Ele foi soltando todos um por um e soltou Zelda por último. Assim que ela caiu, foi até Kanahyor, que continuava imóvel no chão.

Seu rosto estava estranhamente vermelho, comparado ao pálido costumeiro, os cabelos leves e despenteados caiam-lhe sob a face dando-lhe um ar despreocupado que não se encaixava com ele, os olhos fragilmente fechados tremiam de vez em quando.

Ela ergueu suas costas e sentiu o pulso, sabia que ele estava vivo, mas não pôde deixar de se preocupar:

– Ele está mal, muito mal! Muito pior do que eu fiquei! A magia dele é muito pior do que a de qualquer um de nós!

– Certo, então vamos sair daqui antes que ele acorde. – Disse Colley.

– O que? – Exclamou Zelda olhando incrédula para ela.

Kold encarou-a com a surpresa controlada em sua expressão:

– Princesa, – Disse ele. – Meu irmão é um assassino, você já deveria ter entendido isso. Deixa-me surpreso você ter pensado que nós iríamos levá-lo conosco.

Essas palavras causaram uma reação de raiva nela, lembrando-se de quando ficara sozinha defendendo-o contra todos os Sábios. Kold não fez aquilo de propósito, na verdade nem imaginava que aquilo pudesse acontecer:

Ela percebeu isso e baixou a cabeça olhando para Kanahyor:

– Você não sabe. – Respondeu baixinho. – Como pode saber? Você o deixou para morrer no deserto. – Ela ergueu a cabeça.

A frase não teve o efeito que ela esperava ele lhe devolveu o olhar, mas acabou cedendo:

– Se é isso mesmo que você quer... Eu vou dar uma olhada no terreno com Forkres. –Disse ele e saiu cabisbaixo.

Ela não ligou muito para isso no momento, estava mais preocupada com o outro irmão. "Mas será que isso é a coisa certa?". Perguntou uma voz na cabeça dela. "Afinal você o defendeu da outra vez e em troca disso, Link está morto.".

Ela balançou a cabeça e voltou a olhar fixamente para Kanahyor. Ela sabia que estava certa desta vez.

Em Hyrule, o sumiço do rei havia sido interpretado de várias maneiras por várias pessoas. "É um milagre!" Diziam uns, "o maior ousado roubo de corpos da história!". Diziam outros, mas na realidade ninguém no reino sabia mesmo onde estava Link.

Mesmo assim, começaram a correr boatos de que um estranho homem carregando uma espada fora visto em diversos pontos de Hyrule e então forçou passagem na fronteira com a terra dos Kanenkais.

Antes disso, uma pequena garota chamada Mary havia jurado que encontrara o homem:

– Ele é o rei Link, eu juro! – Dissera ela. – Eu tentei falar com ele, mas tudo que ele me disse foi algo sobre morte de um Kanenkai e volta de um Soroen, juro!

Mas seu pai não lhe deu atenção, afinal a menina não costumava dizer verdades e essa parecia mais uma grande mentira:

– Vá para a vila comprar maçãs, Mary! – Dissera ele. – Mas se encontrar o rei de novo mande os meus comprimentos. – Disse com deboche.

Mary saiu enfezada de sua casa e não contou a mais ninguém sobre o que vira, afinal se não queriam acreditar ela não iria impedi-los, mas para a infelicidade do pai, essa era uma das raras vezes em que Mary contava alguma verdade.

Sheik fora para junto de Zelda e entregou a ela uma poção:

– Faça com que ele beba isso, vai acordar daqui a algum tempo.

Colley estava se sentindo deslocado ali, afinal Kold e Forkres haviam saído e ele ficou ali com aquele pessoal estranho.

– Precisamos sair daqui, procurar alguma saída tem de haver! – Disse ela para Sheik. –Mas se não houver... – Ela olhou para Kanahyor mais uma vez e então se ergueu e a ele. – Nós criaremos uma!

– Eu sei que sim, agora vamos ver Kold e Forkres.

Os quatro, (Kanahyor ainda carregado pela princesa), saíram do barzinho e viram que estavam em uma planície, não havia grama, apenas terra seca e uma ou duas pequenas árvores tortas aqui e ali, estavam cercados por vários penhascos e montanhas, mas nenhum sinal dos outros dois.

– Acho que vamos ter de procurá-los.

– Por que veio comigo, Forkres? – Perguntou Kold para ela.

Estavam sentados no alto de um penhasco observando a planície.

– Por que se afastou de todos desse jeito? – Perguntou ela.

Ele olhou para o céu tingido com as cores do pôr-do-sol, o que tornava difícil de acreditar que estivessem dentro daquela esfera negra, antes de responder:

– Eu não sei. Acho que tem algumas verdades que são muito pesadas para se agüentar quando eu estou perto dele. – Dali os dois podiam ver claramente os outros quatro saindo de dentro do bar no meio do nada.

– Eu tenho de concordar que você não foi o melhor governante que nosso povo já teve.

Ele sorriu:

– Acho que tem razão.

– O que pretende fazer agora?

Ele não respondeu, mas continuou olhando para o céu que escurecia aos poucos.

Forkres compreendeu que ele teria que pensar muito antes de decidir e poder fazer algo a respeito e elas iria esperar com ele, mesmo que demorasse anos.

Envolvidos em pensamentos, nenhum dos dois viram dois pontos na planície que se aproximavam rápido do grupo de Zelda.

Eles já estavam caminhando há muitos minutos sem encontrar nenhum vestígio de Kold e Forkres quando avistaram dois pontos do outro lado da planície vindo em sua direção.

No estado que estavam, eles não conseguiram notar como um dos pontos brilhava tanto agora que estava quase completamente escuro...