Capítulo XX

Brilho e Sombra

Colley gritava em altos brados o nome de Kold e Forkres, Zelda e Sheik permaneciam calados, com seu olhar treinado ele tentava avistar os dois no horizonte, já Zelda continuava a pesadamente carregar Kanahyor desmaiado.

Ela pensava na falta de cavalheirismo dos outros dois em deixá-la carregando-o sozinha, mas seu pensamento foi interrompido por uma exclamação de Sheik.

– Ali estão eles! No penhasco! Vou buscá-los! – Ele saltou para longe, não demorando nem mais um segundo temendo perdê-los de vista.

– Espere! – Gritou Colley. – Você se enganou! – Mas Sheik já estava longe quando ele disse isso. – Princesa Zelda, – Acrescentou ele em um tom mais baixo. – Estou vendo os dois ali no horizonte. Um deles com uma flecha muito brilhante...

Ele apontou para linha do horizonte, de onde vinha um brilho dourado intenso. Zelda apertou os olhos para olhar melhor:

– Parece que Kold está usando a Triforce para sinalizar, isso deve doer... Talvez Sheik não esteja muito longe, acho que uma mensagem telepática não pode machucar muito...

– Mensagem telepática? – Você diz como aquela que mandou para nós no castelo de Forkres?

Ela não respondeu, pois as figuras já estavam bem mais perto e ela notou que a silhueta brilhante era grande demais para ser Kold, assim como a suposta Forkres.

– Não são eles! – Exclamou Zelda de olhos arregalados. – São Hiaryham e Lyfnos!

Colley virou-se para ela surpreso e de repente notou como estava frágil e desprotegida sem sua magia e carregando Kanahyor:

– Nenhuma chance de deixar ele no chão e fugir?

Ela novamente não respondeu e não precisava, pois ele sabia a resposta. Desembainhou sua espada e gritou:

– Vá na direção em que o homem foi, mande uma mensagem telepática se puder e faça eles voltarem!

Ele começou a andar hesitante na direção dos outros dois, não tinha a coragem nem a força de Kold, mas tinha o desejo secreto de se tornar general caso o outro voltasse a ser rei, portanto tinha que melhorar esses aspectos e aquela era a prova final para isso.

Zelda o olhou se afastar, ele estava pertíssimo dos dois quando ela se deu conta de que ele não ficara tentando ganhar tempo para ela ficar parada, de às costas para a batalha que se iniciava e começou a arrastar a si e Kanahyor para a direção do penhasco.

Fechou os olhos e concentrou-se em enviar uma mensagem a Sheik onde quer que ele estivesse, uma pequena pontada na nuca deu origem a uma estrondosa dor de cabeça, mas ela conseguira e ainda estava consciente, arrastando-se para longe dos inimigos...

Ele os avistara, tinha certeza, mas não fazia idéia de por quê estavam tão longe e se afastando.

Colley gritou alguma coisa lá atrás, mas ele já estava muito longe para ouvir, enfim chegou ao pé do penhasco.

Deu um grande salto, mas não alcançou o topo, começou a cair, mas agarrou uma saliência da cocha, evitando a queda. Continuou a escalada e alcançou o topo.

Ele ergueu-se e se afastou da borda, ao olhar para frente impressionou-se ao ver como Kold e Colley tinham ido tão longe em tão pouco tempo.

A alguns metros do penhasco erguia-se uma enorme e densa floresta, com árvores grandes de tronco e folhas escuras, todas cheias de espinhos, com cipós com espinhos caindo e deixando o caminho fechado, parecendo impenetrável.

Para contradizer a aparência, esse era o único lugar para onde os outros dois podiam ter ido, por ela se estendia em quilômetros por todas as montanhas e penhascos que cercavam a depressão.

Com muito cuidado e velocidade, Sheik foi até uma abertura entre dois troncos, em que as raízes se misturavam formando um emaranhado que impedia a passagem, acima delas havia a abertura que mostrava apenas sombras.

Ele pulou para dentro dela evitando um cipó espinhento. Não havia som nenhum ali, nenhum inseto, nenhum passo, vento ou qualquer outra coisa, as árvores não deixavam a luz entrar e a noite não ajudava.

Seus olhos eram treinados para enxergar bem, mas mesmo assim demorou um pouco para seus olhos se acostumarem com a escuridão.

Ali dentro as árvores também eram bem fechadas e percebeu que teria que andar a esmo pela pequena abertura torcendo para encontrar os dois.

Ele caminhou durante muito tempo, os finíssimos espinhos das árvores o perfuravam e os dos cipós o arranhavam e mesmo assim não havia um barulho, sinal ou qualquer rastro de Kold e Forkres.

Foi então que a voz de Zelda ecoou, ele soube imediatamente que aquilo era magia e portanto havia alguma coisa grave.

– Sheik! Você precisa voltar rápido! Lyfnos e Hiaryham estão aqui também e Colley está lutando com eles sozinho! Eu não sei quão forte ele é, mas tenho certeza que não pode enfrentar os dois!

A voz dela foi diminuindo à medida que falava e por fim acabou.

Ele estava em um dilema, poderia voltar para ajudar Zelda e Colley a lutar contra Lyfnos e Hiaryham ou continuar procurando por Kold e Forkres e voltar com eles, talvez essa fosse a única chance de encontrá-los...

Contudo as duas apresentavam problemas, já que ele não sabia o caminho de volta, mas também não encontrara nenhuma pista ou sinal de Kold e Forkres.

Ele não tinha tempo, decidiu-se e começou a pular através das aberturas.

Kold levantou-se depois de algum tempo e se virou para a grande floresta:

– Vamos entrar aí? – Disse ele em tom de brincadeira.

– Você decide. Eu vou te seguir.

Ele olhou para ela e sorriu, puxou a espada e cortou uma abertura, ele e Forkres passaram por ela. Assim que se viraram para encaram o resto da floresta a luz começou a diminuir e eles se voltaram para a abertura, onde a árvore crescia novamente até ficar exatamente como estava antes de ser cortada.

Eles se encararam novamente e cortou outra abertura mais para dentro da floresta, e assim, como uma brincadeira eles foram adentrando na floresta enquanto ela se fechava atrás deles.

Eles ficaram surpresos e tiveram que piscar muitas vezes quando chegaram em uma clareira bem-iluminada.

Ela estava coberta por grama baixa e havia um tronco caído ali, onde Kold se sentou.

Forkres se sentou ao lado dele e esperou alguns momentos, não conseguiu conter a ansiedade e perguntou:

– Já se decidiu?

Ele esperou um pouco e então respondeu jogando as palavras no ar:

– Ainda não, é que ele é...

Mas ele foi obrigado a antecipar sua decisão, pois nesse exato momento Sheik apareceu na clareira com um salto por uma abertura.

Como eles ele piscou e o encararam surpresos:

– Vocês precisam voltar comigo! – Disse ele ofegante ainda piscando. – Lyfnos e Hiaryham estão aqui e atacaram Colley e a princesa. –Ele andou até eles. – Seu amigo está lutando sozinho!

Forkres olhou para Kold e viu seu olhar determinado, soube de imediato que ele havia feito sua escolha e se levantou junto com ele, e então correndo e com golpes rápidos de espada, os três começaram a cruzar a floresta.

Colley chegou na frente de seus dois antigos mestres e engoliu um seco, eles também estavam armados, Hiaryham com uma lança e Lyfnos com uma espada.

–Vocês. – Disse ele gaguejando. – Vão embora se não quiserem lutar comigo!

Eles ignoraram sua fala completamente e prepararam suas armas, cada um se postou de um lado de Colley.

Ele olhou de relance para a princesa, que andava de modo capenga, mas quando voltou a encara Hiaryham, ele já o estava atacando.

Não teve tempo de erguer a espada, mas desviou-se para trás, má idéia. A lança de Lyfnos atingiu sua armadura simples perto do ombro, perfurando-a.

O furo se alargou até transformar a armadura em pó, ele ficou em dúvida se a lança tinha alguma propriedade mágica ou sua armadura era muito ruim, mas de qualquer modo perdera sua única proteção.

Tinha que decidir olhar para um dos dois, mesmo sabendo que o outro atacaria por trás, Lyfnos era praticamente invisível na noite e o brilho de Hiaryham incomodava de modo extremo, nisso eles atacaram novamente.

Dessa vez conseguiu imobilizar a lança de Lyfnos com a espada e desviar-se do golpe do outro.

Decidiu encarar Hiaryham, que ao menos era visível. Ele pensou que com eles atacando daquela forma só teria que defender um e se desviar do outro, pensou errado.

Percebendo isso, Lyfnos atacou antes pelas costas, mas desta vez realmente perfurou um ponto próximo de seu ombro.

Colley gritou de dor quando ele tirou a lança e Hiaryham aproveitou para dar-lhe um golpe no estômago com o cabo da espada.

Ele se curvou para frente, cambaleando com a boca escorrendo sangue.

– Ele já está quase morto. – Disse Lyfnos avaliando Colley. – Não precisamos perder tempo com este daqui, vamos embora!

Colley escutou isso e se obrigou a ignorar a dor. Ele ergueu a espada e golpeou Hiaryham que estava de costas, ela atravessou a grossa armadura e feriu-o sangue dourado começou a escorrer.

Ele virou-se rapidamente golpeando-o com o pesado braço coberto por uma armadura:

– Idiota! Lyfnos! Este daqui ainda quer nos dar algum trabalho ele ergueu a espada e golpeou, Colley apoiou-se no chão com as mãos e se projetou para trás.

O golpe atingiu sua perna formando um corte fundo na coxa.

Lyfnos, parado ao lado de Colley, ergueu a lança apontada para baixo na direção dele, Hiaryham ficou parado atrás dele assistindo.

A lança desceu e atingiu o peito direito de Colley, atravessou-o até fincar-se no chão.

Ele olhou para os dois de pé acima dele sentindo uma terrível dor, que foi sumindo, sua visão escurecendo, até que sumiu completamente.

Zelda continuou andando durante alguns minutos, tentando não pensar em Colley, até que chegou no penhasco, foi ali que se deu conta que era o ponto final, era impossível que escalasse levando Kanahyor nas costas, ela olhou para os lados procurando um esconderijo, mas não havia nenhum.

Ela o colocou delicadamente deitado no chão e sentou-se ao seu lado tentando não olhar para a direção em que Colley lutava com os dois.

Ela não agüentou a ansiedade e olhou, como ela pensava, ele não estava conseguindo lutar com os dois, ela observou-o erguer os braços na frente dos dois para impedi-los de passarem.

Olhou para o rosto de Kanahyor, esperando que ele miraculosamente acordasse, mas isso não aconteceu, e ela não desejava que acontecesse, pois tudo que ele poderia fazer eram mágicas, que causavam sofrimento, era melhor ele morrer dormindo sem sofrimento.

Pensou que deveria estar muito pessimista, pois havia a chance de Sheik chegar para ajudar, mas isso parecia tão distante...

Com esse pensamento viu uma coisa pular do penhasco na direção da batalha, era Sheik, carregando Kold e Forkres!

Ela colocou a mão delicadamente no rosto dele, como se dissesse que voltaria já, levantou-se e correu para acompanhá-los, esperando poder ser útil em alguma coisa.

Sheik largou os dois no meio de um salto e eles caíram exatamente em cima dos dois cavaleiros.

Eles começaram a lutar e ele examinou Colley.

Sem pulso ou respiração.