Yu Yu Hakusho e seus personagens pertencem a Yoshihiro Togashi.
Saquê
-AngelloreXx-
Capítulo 4: Conseqüências
"Oh, não..."
"Urameshi!" Gritou Kuwabara. "Não fique aí parado! Faça alguma coisa!" Ele então se virou para Hiei. "Seu baixinho idiota! A culpa é toda sua! Você me paga!"
"Fica quieto, maninho, e ajuda a gente." Shizuru o interrompeu, já se encaminhando para a fonte com Keiko, que fora correndo pegar algumas vasilhas vazias na cozinha. "Temos que fazer algo, anda logo." Ela disse irritada, diante da estática de seu irmão.
"Idiota," grunhiu Hiei. "Você realmente acha que isso irá funcionar?"
"Se não vai ajudar não atrapalha, Hiei," foi a vez de Keiko se pronunciar. "E, Yusuke, seu imbecil, faça alguma coisa!" Ela gritou, observando a figura patética do detetive, com os olhos ainda arregalados, sem saber o que fazer.
"A velhinha... Vai... Me matar..." Ele gemeu nervoso, enquanto andava em círculos, até que se aproximou de Hiei e o pegou pelos ombros, sacudindo-o. "Ela vai me matar!"
"Me solta, imbecil," grunhiu um raivoso Hiei, que tentava se libertar do detetive.
Yusuke continuou seu discurso desesperado. "Ela vai me matar, ela vai me matar! Não, pior! Vai me torturar, vai me esquartejar, vai me cap---"
"Pode ter certeza que vou, idiota."
Todos os músculos do corpo de Yusuke ficaram paralisados ao ouvir a conhecida voz.
Definitivamente. Ele estava metido em uma grande encrenca.
Com seu rosto deformado horrivelmente em uma careta de pânico, Yusuke se virou lentamente para encarar a dona da voz.
"Me-mestra...!"
Ela lançou um olhar severo para seu discípulo e então para as chamas que já tomavam toda a porção relativa ao cômodo que eles ocuparam anteriormente.
"Eu...eu posso explicar!" Yusuke tentou, mas foi cortado rispidamente por Genkai.
"Saiam da frente," ela ordenou.
Todos a obedeceram prontamente, ainda chocados com sua súbita aparição no meio da madrugada.
Ela então assumiu uma postura especial, e, com um grito contido, desferiu um golpe que pareceu um grande deslocamento de ar, extinguindo o fogo instantaneamente.
"O... que...?" Balbuciou um atônito Yusuke, expressão que se repetia nos rostos de todos os outros presentes, excluindo-se, claro, Genkai. Com um único golpe, ela conseguira fazer o que provavelmente eles, mesmo "unindo suas forças", não conseguiriam antes que todo o templo fosse destruído. O alívio geral foi rapidamente substituído pela tensão quando a mestra se pronunciou novamente:
"Agora," ela comentou seriamente, dirigindo-se a todos, mas ao detetive em especial. "Nós vamos ter uma conversinha."
oOoOo
Antes mesmo de abrir os olhos ao acordar, Kurama fez uma careta com a dor de cabeça inacreditavelmente forte que estava sentindo. Demorando mais do que o normal para processar o que se passava em seu próprio corpo, ele começou a registrar os outros efeitos da festa na noite passada. Não conseguia sequer levantar um braço sem que isso repuxasse dolorosamente todas as suas cadeias musculares; o simples fato de respirar fazia seus músculos se retesarem em protesto.
Soltou um grunhido de irritação e abriu os olhos lentamente, tomando nota de que estava incrivelmente enjoado, e o forte cheiro de álcool no ar só agravava a situação. Sua mente foi forçada a trabalhar com mais eficiência quando percebeu que estava em um futon. Não era o seu quarto.
"Mas o que...?"
Kurama se sentou apesar dos protestos de seu corpo. Tentando se lembrar do que tinha acontecido, ele sentiu um movimento ao seu lado, praticamente ao mesmo tempo em que reconheceu o aroma que estava impregnado em seu próprio corpo.
"Oh, não..."
Em pânico, ele se virou na direção do movimento, temendo que suas suposições estivessem corretas.
A primeira coisa que viu foi um emaranhado de fios azul-claro espalhados displicentemente pelo futon. Com um gemido, ela, que antes estava de costas para ele, se virou, enrolando-se de maneira inconscientemente sensual nos lençóis, e deixando uma boa parte de suas pernas à mostra. Ele a encarou incredulamente, fazendo de tudo para relembrar o que tinha acontecido. Seu queixo foi caindo aos poucos, enquanto imagens não muito claras e consideravelmente descontínuas da noite anterior se formavam em sua mente.
Ele, completamente fora do juízo comum, e ela, uma nada composta assistente de detetive.
O que ele fizera...?
Com as imagens cada vez mais nítidas em sua memória, Kurama prendeu a respiração quando ela se mexeu novamente, piscando algumas vezes. Esfregando os olhos, ela se levantou aos poucos, sob o olhar mais do que nervoso do youko. O movimento fez com que os lençóis que cobriam parcialmente a nudez dela escorregassem, obrigando-o a fazer uso de todo seu auto controle para não desviar seu olhar do rosto da garota.
"Kurama...?" Ela perguntou, a voz rouca pelo sono.
Kami-sama...
"...B-Botan...?" Foi o que ele conseguiu balbuciar, finalmente rendendo-se à tentação de abaixar seus olhos.
Nua. Ela estava realmente nua. E a sua própria nudez também não passara despercebida. Não tinha sido um sonho, afinal. Nem uma alucinação causada pelas quantidades absurdas de álcool que ingerira na noite anterior.
Inari-sama...
E ele não percebeu que ainda mantinha o olhar fixo nos seios desnudos dela.
"Koenma-sama..."
...Koenma-sama?
Arqueando uma sobrancelha, ele saiu de seu torpor nada cavalheiresco e encarou Botan, percebendo que ela mantinha seus olhos fixos em algo atrás de suas costas. O ruivo se virou, para encontrar Koenma com um olhar furioso, quase assassino, em seu rosto púbere.
A primeira reação de Kurama foi agarrar o lençol para cobrir a nudez da garota, mas evitando qualquer contato excedente com a pele dela. Ele então se virou e encarou o príncipe do Reikai com um olhar igualmente raivoso.
"Você se importa de nos dar licença?" O ruivo disse friamente, ignorando a fúria nos olhos de Koenma.
Botan tremeu sob o olhar, e Kurama, percebendo isso, censurou mentalmente a falta de pulso da garota diante do príncipe.
"O que pensam que estão fazendo?"
Botan prendeu a respiração, cada vez mais tensa, e Kurama, talvez ainda sob os efeitos do álcool, disse indiferente: "Você quer uma explicação detalhada?"
Koenma teve a mesma reação que Botan, porém por motivos diferentes. Ambos arregalaram os olhos, espantados com a fala do ruivo; ela, tendo seu medo multiplicado infinitamente, e ele, a fúria passando para um estágio acima.
Ele estava irado.
Apesar de ter internamente apreciado a expressão transtornada de Koenma, o ruivo não pode deixar de se condenar pelas circunstâncias. Já estavam numa posição constrangedora, e ele ainda arranjara um jeito de piorar a situação. E ele sabia o que o trabalho como guia espiritual significava para Botan.
O que ele fizera...?
"Vocês têm noção do que fizeram? Têm noção das conseqüências dessa 'festinha' de vocês? O templo quase foi destruído!"
Kurama o olhou com interesse genuíno agora. Koenma prosseguiu: "Yusuke, Hiei e Kuwabara provocaram um incêndio essa noite, e vocês dois pelo jeito estavam muito ocupados para perceber isso!"
"...Incêndio?" Botan balbuciou, olhos arregalados.
Kurama não deixou de fazer a mesma pergunta a si mesmo. Como ele não reparara isso?
"E não é só isso!" Koenma continuou, interrompendo os pensamentos do ruivo. "Tem saquê derramado por todas as partes, cigarros, garrafas quebradas, lixo! Os tatames estão destruídos! Os shojis! E ainda... Descubro da pior maneira que dois dos meus subordinados são ainda mais irresponsáveis do que eu poderia sequer imaginar! Isso é um absurdo!" Ele passou os olhos com raiva e nervosismo pelo quarto, notando as roupas jogadas pelo cômodo, e dedicou especial atenção à postura adotada pelo youko, posicionado à frente de Botan, como quem a protegia dele.
Era ele, Koenma, que deveria estar protegendo ela dele.
Maldito youko.
Kurama, sentindo o quase desespero da garota, interferiu. "Você se importa de nos dar licença?" Ele repetiu, de maneira menos agressiva agora.
Ele o encarou por um bom tempo, aparentemente fazendo grande força para se controlar. "Quero que os dois se apresentem no Reikai. Imediatamente." Koenma então virou as costas e saiu, pisando duro e fechando o shoji com violência.
Por um momento, Kurama e Botan permaneceram em um silêncio angustiantemente tenso.
Botan soltou um pesado suspiro, e começou a reunir nervosamente as roupas que estavam ao seu alcance, procurando ao máximo desconsiderar a presença do ruivo à sua frente, que ainda estava de costas para ela.
Em silêncio, e evitando encarar a garota ao seu lado, Kurama imitou seu gesto, reunindo suas roupas, para logo em seguida se vestiu rapidamente.
'Fale algo, fale algo...' Sua mente gritava, mas tudo o que conseguia pensar era completamente inapropriado e/ou potencialmente perigoso em uma situação como aquela.
Botan se vestiu igualmente rápida, se levantando abruptamente, ainda sem encara-lo. "Eu... Vou na frente." Disse em um único fôlego.
Kurama levantou seu olhar para a garota, que se encaminhava apressada para a porta.
"Botan..." Ele chamou.
Ela parou e se virou em sua direção, olhando-o rapidamente nos olhos, apenas para ficar ainda mais embaraçada, ruborizando-se e abaixando a cabeça logo em seguida.
"..."
"Er... Eu já vou." Botan respondeu diante do silêncio reticente do ruivo, que a encarava com uma expressão estranha.
Ela então se retirou do quarto, deixando Kurama sozinho com seus pensamentos.
As coisas não podiam ficar piores...
...Podiam?
oOoOo
"Explique-se."
"Não há nada a ser explicado."
Koenma, em sua forma adolescente, encarou o youko com uma expressão raivosa. Teria sido melhor começar com a Botan; ele devia ter imaginado que indagar Kurama não iria levar a lugar algum. O ruivo, sentado à sua frente do outro lado de sua mesa, permanecia impassível. O príncipe suspirou irritado. "Não ache que você pode fazer o que bem entender com minhas guias espirituais!"
Kurama o observou com um olhar vazio. "Pensei que a questão fosse o templo da mestra Genkai, e não minha intimidade."
"Kurama!" Gritou Koenma, exasperado. "O que você estava pensando? Tomar uma atitude inconseqüente dessa! Pensei que fosse o único com pelo menos um pouco de senso!"
-
Do lado de fora, Botan andava em círculos, esperando por sua vez de falar com Koenma. Temerosa, ela colou o ouvido na porta, tentando escutar o que ele e Kurama conversavam. Ela também teria que encontrar com o príncipe, e, sinceramente, não sabia o que esperar, e muito menos como iria se justificar diante de seu patrão.
-
Kurama cruzou as pernas, sem se alterar. "Quando aceitei trabalhar para o Reikai não fui informado de que precisaria dar conta da minha vida pessoal, Koenma."
"Ora! Botan é uma guia espiritual, e você é um detetive!"
"Sou...?" Ele respondeu, arqueando levemente uma sobrancelha.
Koenma suspirou, cada vez mais exaltado. O youko estava o tirando do sério, será possível que ele iria continuar nessa passividade todo o tempo? Que não iria responder nenhuma de suas perguntas?
"Você entendeu! Vocês dois trabalham para o Reikai! Não podem se envolver dessa forma! Se meu pai descobrir que--"
"Engraçado." O ruivo o interrompeu sem cerimônia, sua voz contida como sempre. "Eu tenho a ligeira impressão de que seu pai não tem nada a ver com isso. Ele provavelmente tem coisas muito mais significativas para se preocupar do que a vida amorosa de meros subordinados."
As feições de Koenma se contorceram em fúria. "E o que você está insinuando?"
Arqueando uma sobrancelha, o ruivo cruzou os braços à frente do peito e encarou o príncipe. --um silencioso, porém evidente, desafio.
-
Botan engoliu a seco. Se ela soubesse que a noite passada iria causar tantos problemas, ela não teria nem beijado Kurama, de início. Ela piscou uma vez, apoiando um indicador em seu queixo, enquanto encarava o nada.
...ou não...
Começando a ruborizar novamente diante das reminiscências da noite anterior, ela voltou sua atenção à conversa mais uma vez.
-
"Você definitivamente não é um youkai mais casto que eu conheço, Kurama! Os três mundos sabem de sua fama!"
...Por que aquilo havia doído...?
Koenma prosseguiu: "Botan é apenas uma jovem, inocente e imatura! Você sabia que ela iria cair na sua conversa como um patinho!"
Os olhos de Kurama se estreitaram ameaçadoramente. Ele esperou Koenma terminar seu alterado discurso, sobre como ele e Botan tinham cometido o pior dos pecados, e então o fitou com uma expressão vazia. "...A noite passada foi um erro," o ruivo sentenciou, um tanto quanto neutro.
-
Essas palavras bastaram para que Botan arregalasse os olhos, completamente esmagada pela decepção.
...Um erro?
Nunca, nunca, imaginou que Kurama pudesse falar algo assim. Sentindo as lágrimas quentes começarem a escorrer em seu rosto, Botan afastou-se, tentando conter o choro. Ela não conseguiria encarar Kurama mais. Ela tinha que sair dali. Agora. E foi o que ela fez, correndo sem ao menos perceber o que acontecia a sua volta, a única vontade era chegar o quanto antes em seu aposento no palácio e se trancar lá, para ficar longe de todos, para ficar longe dele.
-
"Um erro...?" Koenma ecoou, uma nota esperançosa perceptível em sua voz.
"Sim, um erro."
Koenma o encarou, na expectativa de que o ruivo falasse mais alguma coisa. O youko, porém, apenas o fitou serio, a frieza em seus olhos verdes indisfarçável. Koenma engoliu a seco, e Kurama então se levantou.
"...mas isso não significa que eu não queira fazer o certo de agora em diante."
Virando as costas e descansando suas mãos nos bolsos da calça, o ruivo caminhou com passos firmes em direção à porta.
"O que você quis dizer com isso?"
"Entenda como quiser. Não fará a menor diferença."
"Kurama! Eu não terminei!"
Alguns momentos se passaram e o único ruído no salão era o dos passos compassados do ruivo.
"...Fique longe dela."
Kurama parou. Apesar de provavelmente não ter sido a intenção de Koenma, aquilo soara muito mais como um pedido do que uma ameaça.
E por que então ele estava encarando aquilo como um desafio?
Com um sorriso praticamente imperceptível nos lábios, Kurama abriu a porta e saiu, sem ao menos olhar para trás.
Continua...
N/A: Obrigada à Spooky.
Obrigada a Madam Spooky, ShiroNomatsu Bianca Potter, Kiki-sama, DM Tayashi, Lilith 1, Kitsune Lyra, Ada, Morgana the Witch, Tsuki Koorime, Sango-Web, Botan Kitsune, Mayabi Yoruno, Asukaa, Cíntia e Lola, pelas reviews.
