O reencontro cruel de Sesshoumaru e Satsumi
Satsumi retirou do baú o traje que comprara especialmente para a festa do vilarejo e o colocou sobre o futon. Entristeceu-se pelo fato de tê-lo escolhido pensando em agradar aos olhos de Sesshoumaru, mas não ia desistir de usá-lo por causa da ausência do youkai.
"Um traje tão lindo! Se não posso usá-lo para ficar bonita para você, pelo menos ficarei bonita para os meus próprios olhos!" pensou.
Não via o youkai há dois dias, desde que se encontraram na cachoeira. Tinha procurado por ele na cabana, mas ele não aparecera, como Satsumi já imaginava.
"No fim eu era mesmo apenas uma brincadeira para ele" pensou passando a mão no tecido do traje "Eu é que fui tola de me apaixonar".
Foi até a janela e viu o lindo entardecer. O céu sem nuvens já começava a mostrar algumas estrelas e com certeza isso deixaria a festa ainda mais bonita. Ouviu baterem na porta e mandou a pessoa entrar.
- A srta já tomou seu banho? – perguntou uma das empregadas da casa.
- Já tomei, sim – respondeu Satsumi.
- O sr Hattemaru deseja falar com a srta – disse a jovem empregada – Ele está a sua espera na sala!
- Diga que eu já estou indo! – disse Satsumi para a empregada que deixou o quarto – "O que Hattemaru deseja comigo agora?"
Terminou de pentear os cabelos e foi até a sala para saber o que o amigo queria. Ele a recebeu com um grande sorriso, e Satsumi pôde notar que ele escondia algo nas mãos, que estavam para trás.
- Deseja falar comigo, Hattemaru? – perguntou Satsumi.
- Sim! – respondeu ele ansioso – Eu pretendia fazer isso depois, já na festa, mas não consigo esperar tanto!
- O que é? – disse a jovem com um sorriso nervoso – É algo grave?
- Claro que não! – respondeu ele – Eu só gostaria de lhe dar um presente...
Ele trouxe as mãos para frente e estendeu a ela o belo embrulho que trouxera da cidade. Satsumi pegou o presente, tentando forçar um sorriso de alegria, mas era visível o quanto aquilo a incomodava.
- Eu agradeço muito, Hattemaru! – disse ela segurando o presente junto ao peito – Embora eu não saiba o motivo pelo qual estou ganhando esse presente! (N/A: No Japão não é costume abrir os presentes assim que são recebidos, costuma-se esperar para abri-los após a festa, ou depois que quem o deu se retire).
- O simples fato de você existir em minha vida me faz querer presentear-lhe todos os dias! – disse Hattemaru sorrindo – Eu tenho certeza que o presente ficará lindo com o traje que a srta comprou. Agora, me dê licença, pois eu tenho que ajudar com algumas coisas lá fora.
- Obrigada, Hattemaru! – disse ela baixando a cabeça em agradecimento – Eu tenho certeza que eu vou adorar!
Hattemaru saiu, deixando Satsumi sozinha com o embrulho nas mãos, sem saber o que fazer.
- Abra logo! – disse Asuka aparecendo na sala.
- Não acredito que você estava ouvindo atrás da porta! – disse Satsumi para a mulher.
- Eu estava no aposento ao lado – explicou Asuka – Essas paredes são bem finas!
- Eu vou para o meu quarto – disse Satsumi – Mas sei que você vai atrás...
As duas foram direto para o quarto e fecharam a porta, como se aquele presente fosse algo proibido aos olhos alheios. Satsumi abriu o delicado embrulho, e viu o presente que ganhara.
- Que lindo! – disse Asuka – Ele é um rapaz de bom gosto!
Satsumi abriu a pequena caixa que continha um colar de fita simples, mas com uma linda jóia pendurada nele.
- Parece que é um rubi! – disse Asuka olhando a pedra vermelha – Coloque-o!
Satsumi olhava triste para o colar em sua mão.
- È um presente maravilhoso – disse ela – Não sei se devo aceitá-lo.
- A srta já aceitou! – disse Asuka – Não está com você?
- É valioso demais. Com certeza é uma jóia para uma noiva!
- Exato! – disse Asuka – Isso é praticamente um pedido de casamento.
Satsumi guardou o colar de volta na caixa e o colocou no futon, sobre sua roupa.
- E como eu posso me casar com Hattemaru, Asuka? – perguntou irritada – Depois de tudo o que aconteceu comigo nos últimos dias?
- A srta mesma disse que não acreditava que o youkai fosse aparecer mais – disse Asuka – Se isso acontecer, o que a srta vai fazer? Chorar o resto da vida, ficando sozinha como prova desse amor insano?
- Esse não é o problema – disse Satsumi sentando-se no chão – E se por um acaso eu estiver...
Satsumi suspirou sem conseguir completar a frase.
- Esperando um filho do youkai? – completou Asuka – Aí a coisa realmente vai ficar difícil! Qualquer decisão que a srta tome vai mudar sua vida de qualquer forma. Alguém sempre vai sair infeliz no final...
Um silêncio tomou conta do ambiente, enquanto Satsumi segurava a cabeça com as duas mãos sem conseguir conter as lágrimas. Asuka passou a mão em sua cabeça, sabendo ser essa a única contribuição que poderia dar para a jovem, que com certeza estava perdida nessa situação.
- Não chore, Satsumi-Hime – disse Asuka – Pelo menos hoje, se dê o direito de estar feliz. Aproveite a festa, seu presente e sua roupa nova. Não há nada a se fazer hoje, além de festejar!
Satsumi enxugou as lágrimas, e concordou com Asuka. Não deixaria que a tristeza estragasse sua noite. Aproveitaria a festa o tanto quanto fosse possível, e se tivesse que chorar, o faria somente no dia seguinte.
- Vou me arrumar! – disse Satsumi se levantando – Eu vou estar maravilhosa nessa festa!
Asuka sorriu e saiu para deixar que a jovem se aprontasse. Quando Satsumi apareceu já pronta na sala da casa, todas as empregadas elogiaram a beleza de sua senhora. Asuka, que já estava pronta também, chamou Satsumi para o quarto do pai dela.
- Ele quer lhe ver! – disse Asuka puxando a jovem pelo braço – Ele agüentou ficar acordado só para ver sua roupa, que eu disse que era linda!
Satsumi entrou no quarto e viu o pai acordado, talvez pela primeira vez no mês. A doença dele o mantinha sonolento a maior parte do tempo, e ela mal conversava com ele. Um grande sorriso se formou no rosto do senhor, que embora fosse jovem, apenas 45 anos, parecia bem mais velho devido ao abatimento causado pela enfermidade.
- Você está linda! – disse o pai com dificuldades – Com certeza lembra sua mãe em tudo!
- Obrigada, meu pai! – agradeceu Satsumi ajoelhada ao seu lado – O vilarejo também está lindo hoje! Gostaria que o senhor pudesse ir lá fora ver.
- Esse vilarejo sempre foi lindo – disse o pai – Era lindo quando tinha sua mãe, e agora é lindo porque tem você para deixá-lo assim. Enquanto houver uma mulher dessa família vivendo aqui, ele será sempre lindo!
Satsumi passou a mão no rosto do pai, fazendo força para não chorar.
- Vá e se divirta! – disse o pai – Eu estou com muito sono. Espero que os fogos hoje me deixem dormir!
Satsumi deu um beijo no pai e saiu do quarto. Asuka logo estava ao seu lado, já que hoje ela tinha sua folga para aproveitar a festa. As duas saíram da casa e foram se misturar aos moradores do vilarejo, que já começavam a comemorar.
Hattemaru viu Satsumi e logo se aproximou, não conseguindo esconder o encanto por ela, tão linda que estava.
- A srta está maravilhosa! – elogiou o amigo observando que ela usava o presente que ele dera – Completamente deslumbrante!
- Obrigada! – disse Satsumi colocando a mão no colar – Eu adorei o presente, Hattemaru. Mas confesso que eu acredito não merecer coisa de tal valor!
Ele deixou escapar um sorriso de criança.
- Talvez esse colar não merece estar com alguém de tal valor! – disse ele – Tenho certeza que ele não tem metade da sua preciosidade!
Satsumi sentiu o rosto corar e deu um sorriso envergonhada quando as pessoas ao lado suspiraram para dizer o quanto achavam aquilo romântico.
Ela arranjou a desculpa de ir falar com alguns conhecidos para poder fugir dos elogios de Hattemaru. Sabia que isso se repetiria durante toda a festa, sempre que se encontrassem. Sentiu-se tão triste enquanto andava em meio aos conhecidos, fingindo conversas alegres e tentando manter sua mente presa a festa, quando na verdade só pensava no youkai. Olhou para o alto da colina, onde estivera com ele se escondendo dos guardas da vigília, esperando ver o vulto dele a sua procura, e vendo apenas o local vazio.
"Não consigo resistir, é mais forte que eu" pensou "Tenho que ir até a cabana. Para pelo menos me certificar de que ele não vai mais voltar!".
Sesshoumaru estava sentado ao lado da cachoeira, descansando depois de ter andado os dois últimos dias sem rumo. Queria apenas estar longe dali, para não ficar se lembrando de Satsumi, mas no fim, sentira a necessidade de pelo menos cumprir com sua palavra em relação à humana.
- Eu disse que você saberia se eu não fosse mais voltar, Satsumi – conversou sozinho – Eu vou vê-la apenas para dizer adeus...
Levantou-se e caminhou na direção do vilarejo, disposto a encontrá-la e colocar um ponto final naquela história. Depois sairia daquelas terras, e buscaria pela espada do pai, prometendo retornar ali somente quando a encontrasse, o que era uma garantia de que jamais veria Satsumi de novo, mesmo que descobrisse que ela esperava um filho seu. Não poderia abandonar seus planos em razão disso, principalmente sendo essa criança um hanyou. Seu orgulho era forte demais para aceitar tal fato, então preferia simplesmente esquecer-se disso com o tempo.
- Fique na cachoeira! – disse para o dragão que fez menção de acompanhá-lo – Eu não demorarei!
Passou direto pela cabana, pois não sentira a presença da jovem ali. Mas teve uma grande surpresa ao chegar próximo do riacho.
- Satsumi... – disse baixo ao vê-la.
Ela estava parada do outro lado do riacho, olhando para as águas, como se tentasse se decidir se as atravessava ou não. Sesshoumaru olhou-a de cima a baixo, vendo o quanto ela estava linda, vestindo um kimono vermelho e com os cabelos presos em um refinado coque. Mas com certeza não estava feliz. Era visível em seu rosto sua tristeza, embora não estivesse chorando.
Sesshoumaru fechou os olhos, apertando-os o máximo possível quando teve certeza do que antes era apenas dúvida. Mesmo de longe, e mesmo sendo tão prematuro, sabia que aquela humana já carregava um filho seu no ventre.
Abriu os olhos, e de repente, aquele youkai, que não temia nenhum inimigo, sentiu um estranho desejo de dar um passo para trás, com medo de enfrentar aquela situação. Com receio de olhar Satsumi nos olhos e dizer a ela que estava indo embora. Dizer-lhe o prometido adeus. Parou, apenas observando, com um estranho aperto no peito, antes de terminar o que ele mesmo começara, antes desejando mesmo causar na humana tal sofrimento. Cativá-la e depois deixá-la era uma das suas intenções. A segunda era dar a ela um fim digno, uma morte honrosa, coisa que nesse momento não passava nem perto de seus pensamentos.
Decidiu seguir em frente e conversar logo com ela, mas ouviu a voz do chefe da guarda, que a procurava. Decidiu ficar olhando o que ele queria com ela, esperando que ele não a chamasse para voltar ao vilarejo.
Satsumi olhou para trás e viu Hattemaru surgir do caminho que levava ao vilarejo.
- O que está fazendo aqui, sozinha? – perguntou ele – Não está gostando da festa?
- A festa está maravilhosa – respondeu Satsumi voltando a olhar as águas – Eu só estou aqui pensando um pouco, e esperando que a dor de cabeça que estou sentindo passe logo.
- Vamos voltar... – disse ele pegando em sua mão.
- Não! – disse Satsumi – Daqui a pouco eu irei. Eu quero ficar aqui por um tempinho ainda.
Ele segurou as duas mãos de Satsumi, que não desviava seus olhos das águas. Então, numa tentativa de mostrar o quanto gostava dela, tentou dar-lhe um beijo nos lábios. Satsumi virou-se, surpresa com o ato, evitando que ele conseguisse o beijo, e olhando para ele com uma expressão bastante séria no rosto.
- Desculpe! – disse ele sentindo-se tolo – Eu não devia ter feito isso!
- Me deixe sozinha! – pediu Satsumi sem raiva – Eu preciso muito pensar nisso tudo que está acontecendo na minha vida...
Ele fez que sim com a cabeça, e beijou sua mão, num gesto de carinho e saindo em seguida. Satsumi esperou que ele desaparecesse de sua vista, então se agachou e começou a chorar, sem saber o rumo que deveria tomar em sua vida.
Sesshoumaru viu com desprezo o ato do chefe da guarda que tentara beijar Satsumi. Sabia que o que estava sentindo era ódio, e teve vontade de acabar com a vida do homem naquele mesmo momento. Mas segurou-se, já que estava ali para se despedir, logo não tinha o direito de sentir-se dono daquilo que não queria possuir.
Olhou para Satsumi, agachada ao lado do riacho, chorando convulsivamente, sem nem ao menos imaginar que sua tristeza ainda seria maior em poucos minutos. Para seu espanto, ela deixou o choro de lado rapidamente se levantou. Satsumi levantou o traje e começou a atravessar o riacho, levando Sesshoumaru ao ato de esconder-se somente para ver o que ela faria. Ela carregava uma luminária em uma das mãos, que a ajudou a chegar logo a cabana. Mas ela nem notara que o youkai a seguia de uma pequena distância.
Ela entrou na cabana, deixando a porta aberta, e foi diretamente para o fundo do casebre, ajoelhando-se exatamente no canto onde ela havia visto Sesshoumaru pela primeira vez. Deixou a luminária no chão, e retirou de dentro do decote do traje um tecido dobrado que colocou no chão.
- Eu pretendia dar-lhe isso – disse ela como se o youkai estivesse ali – Isso pertence a minha família há quatro gerações. Embora seja de um tecido fino, não tem nenhum valor além do sentimental.
Sesshoumaru olhava da porta, onde conseguira chegar sem chamar a atenção de Satsumi, e ouvia as palavras sussurradas por ela, sem conseguir entender o porque daquele gesto.
- É uma faixa, que eu ganhei de minha mãe – continuou ela – Ela me disse, dias antes de ir para o outro mundo, que estava me dando isso porque eu era a pessoa que havia trazido a maior felicidade à vida dela. E disse que eu deveria fazer o mesmo, e passar este presente para a pessoa que tivesse mudado minha vida, que fosse mais importante para mim.
Sesshoumaru baixou os olhos, imaginando se ele era mesmo digno daquilo.
- Ela disse que essa faixa era como o nosso coração, que a gente só entrega a uma pessoa na vida. Então eu te entrego meu coração, mesmo que você nunca saiba, mesmo que você nunca volte aqui para pegá-lo, ainda assim, ele só pertence a você, mais ninguém. Antes, eu pensei que nunca ia passar esse presente a ninguém, que no fim eu ia levá-lo para o túmulo comigo, mas eu fico feliz de continuar a tradição de minha família, mesmo que ela não vá seguir adiante. Tenho certeza que minha mãe está orgulhosa de mim, onde ela estiver...
Satsumi se levantou, olhando pela última vez para a faixa de seda, azul turquesa, e que guardava há dois anos com tanto cuidado e amor. Limpou mais uma vez as lágrimas dos olhos e se virou para partir de vez, esperando nunca mais voltar aquele lugar, que agora lhe causava tanta tristeza. Saiu fechando a porta da cabana, e entrou na mata, para fazer aquele caminho pela última vez.
Sesshoumaru, que havia saído da porta e ido para o lado da cabana assim que Satsumi se levantara, viu a jovem sair, e depois que ela entrou na mata resolveu ver o presenteque ela deixara. Ajoelhou-se no mesmo local que ela e pegou a faixa, sentindo ao mesmo tempo, a maciez do tecido, que lhe lembrava da pele de Satsumi, e a frieza do mesmo, que logo lhe lembrava de como seu coração de youkai era.
"Não posso mudar minha natureza" pensou apertando a faixa na mão "Não posso, nem mesmo por Satsumi".
Levantou-se e saiu rápido atrás da jovem, disposto a fazer tudo o que planejara. Quando a viu, atravessando o riacho, deixou de lado todo o sentimento que insistia em torná-lo diferente, e com sua frieza habitual a chamou.
- Satsumi! – disse firme.
Satsumi virou-se sem acreditar no que seus olhos viam. Parou ainda em meio às águas, soltando a barra do traje, deixando-o se molhar.
- Sesshoumaru... – disse ela começando a formar um sorriso.
- Qual o significado disto? – perguntou ele segurando a faixa em uma das mãos.
- É um presente – disse ela – Eu ganhei há...
- Eu ouvi toda a história – interrompeu com uma voz ainda mais fria – Eu estava vendo você na cabana.
- Então você sabe o que é! – disse Satsumi – Como eu disse, isso representa o meu coração...
- E quando foi que você me ouviu dizer que queria o seu coração? – perguntou ele – Isso não me tem serventia! Leve o seu presente embora, e o entregue ao seu namoradinho. Tenho certeza que isso vai ajudá-lo a superar o fato de que você não o ama!
Ele deixou a faixa escorregar da mão, caindo lentamente ao chão, sob o olhar perplexo de Satsumi.
- Como você ousa... – disse ela caminhando até onde ele estava e pegando a faixa do chão -... você não tem um mínimo de sentimento? Seu youkai desprezível!
Ela empurrou Sesshoumaru com toda sua força, deixando sua irritação com o gesto dele bem demonstrada. Ela tornou a empurrá-lo, fazendo somente com que ele desse passos para trás, mas desejando derrubá-lo daquela pose superior que ele mostrava.
- Está feliz, não é? – disse ela com raiva – Completou o seu joguinho de humilhação, fazendo com que eu me sentisse como se estivesse no fundo de um poço, a espera da morte. Seu maldito...
Sesshoumaru não queria vê-la tão nervosa como ela estava, mas não poderia agir de outra forma, teria que continuar com sua crueldade, mesmo que isso a machucasse tanto, e machucasse a ele também.
- Você não vai conseguir me machucar, Satsumi – ele disse sem tentar pará-la – É melhor você parar de tentar isso. Vai apenas machucar a si mesma!
Satsumi parou de empurrá-lo e o encarou com um brilho bem diferente nos olhos.
- Me machucar? – repetiu ela – Eu não posso me machucar mais do que o que você já me machucou. Aliás, você conseguiu me matar ao fazer isso, ao jogar fora a única coisa de valor que eu tinha, meu coração! Você pode comemorar sua vitória nesse jogo, Sesshoumaru. Alegre-se, você provou o quanto é cruel...
Ela virou-se e caminhou para o riacho, chorando sem parar. Não conseguia olhar para o caminho a sua frente, só para baixo, e com certeza não olharia para trás, para aquele que tanto amava, e que lhe retribuía com desprezo na mesma proporção. Chegou do outro lado, parando apenas para falar com o youkai, mas sem olhá-lo.
- Aposto que você acha tudo isso um erro, não é? – disse ela – Foi um erro envolver-se com uma humana, não é mesmo? Sabe que até pensei por um tempo que você começava a gostar de mim...
A resposta de Sesshoumaru veio após um pequeno silêncio.
- Eu não cometo erros, Satsumi – disse ele – Eu só não a quero mais! Me cansei...
Aquilo doeu em Satsumi como se uma lâmina tivesse atravessado seu peito. Sentiu até o ar faltar com a última declaração dele. Duvidou que tinha ouvido o coração dele batendo em seu peito há poucos dias. Com certeza, aquele youkai que estava ali agora não possuía tal coisa.
A falta de resposta dela ao que ele falara deu a Sesshoumaru a certeza de que havia acabado de vez com os sentimentos de Satsumi. Conseguia sentir o coração dela quebrar ao ver como ela apertava a faixa de seda na mão, deixando-a cair nas águas do riacho em seguida. Sabia que agora havia realmente conseguido matar aquela humana, tão jovem e a quem, só agora descobria, amava de verdade.
Ela voltou a caminhar, agora já sem lágrimas, pedindo aos céus que acordasse daquele pesadelo, e voltasse a viver aqueles dias em ainda não conhecia Sesshoumaru.
- Satsumi...
- Você veio cumprir sua palavra – interrompeu ela – Eu agradeço por ter vindo dizer que não voltará mais...
Ela desapareceu no caminho que levava ao vilarejo, deixando Sesshoumaru atordoado, sem conseguir segurar a dor que sentia pela primeira vez em sua vida. Já matara tanto, já causara tanta dor em seus inimigos, e isso sempre lhe trazia um sorriso orgulhoso ao rosto. Mas ter acabado com a humana daquela maneira, o fez se envergonhar de ser um youkai tão cruel.
Entrou nas águas e pegou a faixa que ela lhe dera, e que ficara presa entre a lama da margem e a correnteza do riacho. Olhou para ela com raiva de si mesmo, apertando-a entre os dedos.
- Eu levarei seu coração comigo, Satsumi – sussurrou – Eu jamais desprezaria tal presente, mas é assim que as coisas devem ser... Me perdoe...
Guardou a faixa dentro da roupa e deu as costas ao vilarejo, ao riacho e principalmente à Satsumi.
Satsumi entrou no vilarejo, esperando que seus olhos não estivessem tão vermelhos depois de tudo o que chorara. Nunca a idéia de trancar-se no quarto e dormir lhe pareceu tão tentadora, mas não faria isso. Não precisava demonstrar a ninguém que estava derrotada. Forçou um sorriso no rosto ao ver as crianças que lhe trouxeram uma flor, e decidiu ficar ali, junto aos que realmente se importavam com ela, sem que eles sequer imaginassem a dor que em que seu coração estava mergulhado.
"O tempo irá curar isso" pensou "Minha vida ainda pode ser feliz...".
Quase chorei escrevendo isso, credo! Espero que vocês sintam a dor da pobre da Satsumi como eu senti ao escrever esse capítulo. Mas nem tudo serão só tristezas, minha gente! As pessoas mudam, se arrependem, voltam atrás, desfazem promessas, e às vezes os youkais também! Um abraço a quem deixou reviews, e espero que continuem gostando da história.
N/A: Sim, eu adoro o estilo Mary Sue, pois permite ser mais criativo nas histórias. Então, me perdoem se essa fic é Mary Sue até a raiz dos cabelos!
