Agora coisa começam a ficar mais tristes na fic. Espero que gostem desse capítulo. Gracias pelas reviews!
A noite da dor eterna.
Sesshoumaru virou-se intrigado para trás. Sentia uma estranha presença, a qual não sabia definir se era humana ou youkai. Os olhos percorreram o descampado a sua frente, procurando por movimento, mas nada. Não havia nada nem ninguém. Continuou caminhando em busca do youkai dragão, que tinha voado para aqueles lados, e o encontrou comendo alguma coisa em meio a alguns arbustos.
- Não era sua presença que eu senti... – disse olhando para o filhote – O que era então?
Deixou de lado essa questão e sentou-se a beira de uma colina, observando a calmaria de um grande lago abaixo. Voltou sua atenção para algumas crianças que brincavam próximas a água, e não conteve um sorriso discreto com a cena.
"Me tornei sentimental" criticou-se em pensamento "Não faltava nada, mesmo!".
Franziu a testa ao ouvir passos atrás de si, mas não se virou para ver quem era. Sentia que não devia olhar, mesmo que sua curiosidade fosse grande no momento. Talvez sua intuição avisando algo. A pessoa parou há apenas alguns passos dele, como se esperasse que ele a olhasse para poder dizer ou fazer algo.
- O que você deseja? – perguntou ele friamente.
- Perdoe-me por estar incomodando, senhor – disse a pessoa com uma voz feminina aparentando já uma certa idade – É que o vi de longe, e imaginei se era mesmo quem eu imaginava...
Sesshoumaru continuou olhando para o lago, vendo as crianças que agora entravam na água, e esperando que seu silêncio fosse o suficiente para que a tal mulher entendesse que ele não queria conversa.
- O sr é o youkai por quem Satsumi se apaixonou, não é? – insistiu a mulher.
- Não tenho interesse em conversar – disse ele – Vá embora...
- Pela descrição que ela me fez, creio que é você mesmo – continuou a mulher.
O youkai se levantou, irritado com a insistência da desconhecida, e a encarou.
- O que você quer? – perguntou ele sério.
Ele pôde então ver que se tratava de uma senhora. Ela se curvou, mostrando respeito pelo youkai.
- Deixe que eu me apresente primeiro – disse ela – Eu sou Asuka, criada e amiga de Satsumi-Hime. Ela tem me falado bastante sobre você, e também me contou sobre a criança que ela espera...
Sesshoumaru continuava olhando para a tal senhora, com um frio e inexpressivo olhar.
- Eu estava passando por esses lados, quando o vi – disse a senhora – Resolvi importuná-lo apenas para dizer quanto eu sinto pela notícia triste que o doutor deu à jovem Satsumi...
"Triste notícia?" estranhou Sesshoumaru.
- É mesmo uma pena – continuou a mulher – Satsumi tinha tanta esperanças de que essa criança estivesse bem...
- Do que está falando? – perguntou Sesshoumaru sem demonstrar sua preocupação.
A senhora parou de falar repentinamente, como se descobrisse que abrira a boca sobre algum segredo.
- Ela não lhe contou?
- O quê? – disse ele.
- Me perdoe, eu devo ir embora – disse a senhora saindo apressada – Eu não deveria ter comentado isso...
- Pare! – ordenou o youkai – Conte o que sabe!
A senhora deixou de caminhar, e Sesshoumaru nem imaginava o sorriso satisfeito que ela estava dando, de costas para ele. Ela se virou, e fazendo uma cara de comoção, respirou profundamente antes de continuar a falar.
- Por favor, não conte à Satsumi o que eu te contei isso – disse a senhora – Ela não me perdoaria...
- Fale...
- Há uns dias atrás, ela esteve acamada, bastante doente – começou a senhora – Nós pedimos que fossem buscar um doutor da cidade, para que ele pudesse ver direito o que ela tinha. Ele a olhou e viu que se tratava de algo grave, mas não para ela...
"Minha filha..." pensou Sesshoumaru.
- Ele disse que a criança não agüentaria muito tempo, pois Satsumi não tinha condições de manter um bebê estando doente daquela maneira. Ele até mesmo pediu que ela não se apegasse ao filho que esperava.
- Ela está doente...?
- Eu nunca vi aquela menina sofrer tanto, mas ela jurou que não choraria, que ficaria feliz enquanto tivesse aquela criança viva no ventre, e que fingiria não saber do triste fim que aquela gravidez teria.
"Satsumi... você mentiu quando disse que está bem?" pensou Sesshoumaru "E escondeu que nossa filha pode ser prejudicada?".
- Eu imagino que ela não tenha lhe contado para poupá-lo dessa tristeza – completou a senhora – Ela não suportaria fazê-lo sofrer...
Sesshoumaru passou pela mulher e caminhou para a mata fechada, sem falar nada. A senhora olhou até que o youkai desaparecesse de vista, depois se virou e fez o caminho de volta de onde tinha aparecido.
Sesshoumaru caminhou sem rumo pela mata, sentindo uma irritação crescente dentro do peito enquanto se lembrava das palavras da velha.
"Satsumi não tem condições de manter um bebê estando doente daquela maneira..."
- Satsumi... – sussurrou – Eu lhe disse que jamais a perdoaria se algo de ruim acontecesse a minha filha...eu juro que a odiarei se ela sofrer...e odiarei a mim também por acreditar em suas palavras... palavras de uma humana...!
Parou ao notar a raiva em suas próprias palavras. Por que acreditara tão fácil naquela estranha senhora, que se disse amiga de Satsumi, mas poderia ser uma inimiga?
- Falarei com Satsumi – decidiu-se – Conversarei com ela seriamente sobre a saúde dela e de nossa filha. Ela não irá mentir quando descobrir quais podem ser os castigos por isso, tenho certeza...
De repente todo o amor que sentia pela humana dava lugar a um terrível sentimento, a desconfiança. Sesshoumaru não conseguia imaginar sua reação se descobrisse que Satsumi escondera algo tão importante. Sabia que ficaria desapontado e que perderia novamente sua fé nos humanos, mas não sabia se sua punição seria forte a ponto de desejar a morte da jovem.
- Não! – respondeu-se – Não teria coragem de machucar Satsumi, por pior que fosse seu erro...Jamais!
Olhou para o céu límpido. O sol estava começando a descer no horizonte, e logo a noite chegaria para poder dar aos dois a chance de esclarecerem suas dúvidas.
- Não falte, humana – disse ele – Ou eu a buscarei em sua casa...
Hattemaru olhou intrigado para a feiticeira que aparecia na entrada do vilarejo com um enorme sorriso no rosto.
- Por que tanta felicidade, velha? – perguntou ele.
- Eu estava dando uma caminhada e encontrei Sesshoumaru – disse ela – Na verdade, isso não foi apenas um acaso, eu pretendia encontrá-lo mesmo.
- Aquele maldito...
- Eu tive uma conversa amigável com ele – continuou Yume – Tive que me apresentar como aquela irritante da Asuka para poder dar veracidade ao que contei a ele.
- O que você contou? – disse Hattemaru curioso.
- Eu disse a ele que Satsumi perderá o bebê, só isso! – disse ela rindo – Claro que eu não contei o modo como isso acontecerá, eu só disse que o doutor a avisara sobre o fato de que essa gravidez não tinha futuro.
- E daí? – estranhou o chefe da guarda – No que isso vai nos ajudar?
- Aposto o que quiser que quando ele descobrir que a criança hanyou morreu, ele não desejará mais olhar para a cara de sua amada Satsumi. Se tem algo que um youkai da família dele não perdoa é a traição, e ele acreditará que Satsumi o traiu ao esconder que sabia que a filha ia morrer.
- Pobre Satsumi – disse Hattemaru cinicamente – Espero que não sofra muito hoje à noite...
- Não alimente falsas esperanças – disse a feiticeira – Ela sofrerá bastante ao perder aquele bebê. Cabe a você, como amigo, ajudá-la nesse momento triste e doloroso, e também trazer para mim o sangue do mestiço... Não se esqueça do pó que lhe dei.
- Eu já estou com ele no bolso! – disse o chefe da guarda – Eu pedirei a Asuka que prepare um chá para Satsumi, e colocarei o pó sem quem ninguém perceba.
- Ótimo! – disse Yume – Faça isso agora, depois nós seguiremos Satsumi, pois sei que ela se encontrará com o youkai. Ai, é só esperar o momento certo para podermos pegar a espada dele.
Os dois sorriram com a idéia de fazer o que planejaram.
- Ah, Satsumi – disse Hattemaru olhando o céu – Quando você se recuperar, eu me casarei com você...
Ele deixou a feiticeira e tratou de sair em busca de Asuka. Encontrou a mulher na sala de entrada do casarão, orando pela saúde de Satsumi.
- Asuka – chamou ele – Deixe a oração para depois. Satsumi está bem no momento, não está? Então não ore por quem está bem. Faça um chá para ela, será bem melhor do que gastar tempo frente a um altar.
Asuka o olhou com reprovação, mas atendeu o pedido do chefe da guarda e foi para a cozinha. Colocou água para ferver e pegou algumas folhas dentro de um pote de cerâmica.
- Que plantas são essas? – perguntou Hattemaru entrando na cozinha.
- São plantas medicinais – respondeu Asuka – Farão bem a Satsumi-Hime...
- Tem um pouco de raiz de lótus aí? – perguntou ele.
- Não – respondeu Asuka – Por que, é bom?
- É ótimo! – disse Hattemaru – Yume, minha tia, disse que é maravilhoso para esse tipo de doença.
- Sua tia entende tanto assim de ervas? – desconfiou Asuka.
- Sim, ela é uma curandeira bastante conhecida em outros vilarejos – disse ele – Vá buscar um pouco dessa tal raiz, Asuka. Eu mesmo pegaria se soubesse qual é. Deixe que eu olho a água para você...
Asuka saiu da cozinha para poder ir atrás da tal raiz que Yume havia indicado. Decidiu acreditar na palavra do chefe da guarda, que ela achava ser incapaz de fazer mal a Satsumi.
Hattemaru foi até a porta da sala e olhou Asuka sair em busca da erva. Tomou um susto quando se virou e deu de cara com uma das poucas criadas da casa que mantiveram seu emprego após a morte do pai de Satsumi.
- O sr procura por Satsumi? – disse a criada – Ela terminou de tomar um banho e disse que ficará no quarto. Se desejar, eu direi que o sr a aguarda.
- Não, não é preciso! – disse ele – Eu só vim ajudar Asuka com uma coisa. Aliás, ela pediu que você fosse procurar uma erva chamada raiz de lótus, o mais rápido possível.
- Sim, senhor! – disse a criada – Eu estou indo agora mesmo!
Hattemaru esperou que a criada sumisse e voltou para a cozinha. Sorriu ao ver a água fervendo no fogo, então retirou do bolso o saquinho contendo o pó venenoso que Yume havia preparado e o jogou na chaleira de cobre.
"O pó é realmente imperceptível!" pensou satisfeito "Não tem nem cor nem cheiro de nada!".
Saiu da cozinha rapidamente e esperou por Asuka na sala. Ela logo voltou segurando alguns ramos na mão, e agradeceu ao chefe da guarda por olhar a água enquanto ela estava fora. Ele se despediu com uma frase bastante carinhosa.
- Cuide bem de minha amada, Asuka – disse Hattemaru – Você sabe o quanto essa mulher é importante para mim...
Ele saiu e foi em busca de Yume, para esperarem juntos que Satsumi fosse atrás do youkai.
Satsumi penteou os cabelos molhados enquanto se decidia se os prendia ou os deixava soltos.
- Soltos! – disse por fim – Eu sei o quanto Sesshoumaru gosta deles soltos...
Deixou a escova de lado e olhou para o futon. Um lindo kimono branco de seda estava colocado sobre ele, demonstrando que ela o escolhera para usar naquela noite.
- Espero ficar linda para você, Sesshoumaru!
Vestiu-se sem pressa, arrumando direitinho todos os detalhes da roupa. Depois se perfumou com água de rosas e saiu do quarto, passando pela cozinha para pegar algumas frutas para ir comendo no caminho até a cabana.
- Beba um chá – disse Asuka – Fará bem para a srta!
- Agora não, Asuka – disse a jovem – Eu beberei quando voltar. Esses chás que você prepara me dão sono, e quero estar bem acordada essa noite...
- É tão bom vê-la feliz, Hime! – disse a mulher – Espero que dessa vez o youkai tenha voltado para torná-la assim por um longo tempo!
- Ele estará comigo até o dia que nossa filha nascer – disse Satsumi sorrindo – Tenho certeza disso. E tenho esperanças de que depois, ele estará sempre com ela, mesmo que eu não esteja mais aqui...
- Não pense nessas coisas, Satsumi – repreendeu Asuka – Você é jovem demais para sentir-se tão derrotada.
- Eu só aceito que poderei não estar por aqui por muito tempo, Asuka – disse Satsumi – Mas não estou me sentindo derrotada, pelo contrário, me sinto uma vencedora! Vou ter uma filha linda, tenho que me orgulhar disso.
- Vou guardar o seu chá para quando voltar, está bem? – disse Asuka – E nem quero pensar que a srta não o tomou. Eu a acordarei no meio da madrugada para fazê-la beber tudinho...
- Tchau, Asuka – disse a jovem deixando a cozinha – Eu prometo que o beberei quando voltar...
Satsumi deixou a casa sob os olhares de Hattemaru e Yume.
- Espere ela se afastar bastante – sugeriu Yume – Vamos ver onde ela se encontra com Sesshoumaru.
Sesshoumaru estava sentado na cabana totalmente escura, com os olhos fixos na porta, esperando a chegada de Satsumi. Tentou manter o pensamento livre das palavras da senhora que o incomodara a tarde, mas não conseguia. Sentiu a presença da humana e esperou que ela entrasse. Ela abriu a porta, e ele viu o sorriso dela iluminado ainda mais pela lamparina em sua mão.
- Chegou faz tempo? – perguntou ela.
- Feche a porta – disse Sesshoumaru frio – Eu quero conversar com você.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela obedecendo à ordem dele – Você parece bravo.
- Não estou bravo – disse ele – Aproxime-se.
Ela chegou perto dele e se ajoelhou, deixando a lamparina bem próxima aos dois.
- Temos claridade o suficiente aqui dentro para que você possa me olhar diretamente nos olhos – disse ele – Então espero que veja neles a seriedade do que vamos conversar agora.
- Por que você está assim...
- Cale-se! – disse ele – Só quero que me responda se você está mesmo bem!
Ela deu um sorriso nervoso com o tratamento dele.
- Esse assunto de novo? – disse ela – Há algo que você sente e não que me dizer?
- Eu já lhe disse que não posso sentir se você está bem ou não – disse ele – Por isso mesmo eu espero que você seja sincera comigo.
- E eu já lhe disse que estou bem – retrucou ela – Espero que você acredite na minha sinceridade...
- Então jure! – disse Sesshoumaru irritado – Jure que o que me diz é verdade! Jure por tudo o que lhe é valioso...
Ela balançou a cabeça negativamente.
- Qual o motivo disso tudo? – disse ela – Diga logo o porquê dessa desconfiança toda!
- Jure...
Ela agarrou a mão dele com força e a levou até a barriga.
- Sinta! – disse ela – Sinta e me diga se há algo errado! Depois disso eu jurarei pelo que você quiser!
- Ela está ótima! – disse Sesshoumaru – Então jure que você também está, e que nada vai fazer mal a minha criança!
Ela empurrou a mão dela de seu ventre e o encarou com os olhos lacrimejantes.
- Eu juro! – disse nervosa – Está satisfeito? Agora pare de me tratar como se eu fosse a rainha da mentira, eu mereço um pouco mais de respeito.
Satsumi se levantou e foi sentar bem distante do youkai, que ainda a olhava desconfiado.
- Se minhas palavras não lhe parecem sinceras, talvez seja um sinal de que não devemos mais estar juntos – disse ela com cabeça baixa, apoiada nos joelhos.
- É esse o seu desejo, Satsumi? – questionou Sesshoumaru – Não quer mais estar comigo?
- Não é isso – disse ela – Mas me parece que é o seu desejo, pois está contribuindo seriamente para me afastar de você...
- Não seja tola – disse ele – Se eu faço essas perguntas é porque me importo com você. Eu não daria a mínima para sua saúde se não tivesse algum sentimento. Além do mais, você me pertence, e mesmo que dissesse que não me quer mais, eu não a deixaria livre...
- Como você ainda pode me tratar como uma posse? – disse ela indignada – Eu carrego sua filha no ventre, não sou apenas um objeto...
- Mas ainda assim me pertence! – disse ele aproximando-se dela – Não ouse dizer que não...
- Cale-se! – gritou Satsumi – Eu não pertenço a você! E nem deveria ter que responder a essas perguntas repetidas que você fez! Se não quiser acreditar em mim, eu não me importo...
- Minta para mim – ameaçou ele – E você ganhará um inimigo que nunca desejaria...
- Não me ameace – disse ela – Eu não tenho medo de você. Eu nunca tive, não será agora que terei...
- Não finja que tem coragem o suficiente para não temer minhas palavras, humana! – disse ele levando sua mão até o rosto dela – Eu posso ver o pavor nos seus olhos.
- Talvez você esteja apenas vendo o reflexo dos seus olhos! – disse ela – E tire sua mão de mim...
- Não! – disse Sesshoumaru passando a mão pela nuca dela e agarrando os cabelos ainda úmidos – Eu faço o que quiser com você...
Ela tentou tirar a mão dele, mas ele puxou a cabeça dela de encontra a sua, deixando os lábios dos dois bem próximos.
- Me solta...
- Cale-se! – disse ele – Eu vou mostrar a você o quanto você me pertence!
Ele a beijou violentamente, mais uma vez cortando o lábio inferior dela com seu canino. Ela tentou se soltar, e ele a imobilizou segurando seus braços.
- Você vai me machucar! – disse Satsumi.
- Não se preocupe – disse ele – Eu não vou machucá-la. Eu só quero mostrar que você é fraca.
- Pare com isso... – disse ela irritada – Não me trate assim...
- Eu trato você assim porque me parece a forma correta de tratar alguém que mente para mim – disse Sesshoumaru beijando-a de novo com fúria.
Ela conseguiu soltar os braços e o empurrou com raiva.
- Eu não estou mentindo para você! – gritou ela – O que eu preciso fazer para que acredite em mim? Eu já jurei, o que mais quer?
- Diga o quanto me ama – disse ele – E jure agora por esse amor que fala a verdade!
- Eu já jurei por tudo...
- Jure pelo nosso amor! – ordenou ele firme – E saiba que se isso for uma mentira, fará com que eu nunca mais a olhe nos olhos novamente.
- O quê...? – disse Satsumi pensando nas palavras do youkai – "O que você tem? Por um acaso sabe que eu estou doente? Então porque não me joga isso na cara logo? Por que me torturar com isso?".
- Você não pode, não é? – disse ele se afastando – Não pode jurar por algo tão forte como nosso amor...
- Sesshoumaru – disse ela deixando que as lágrimas caíssem pelo rosto – Por que não acredita em mim? O que eu fiz para que tivesse tanta descrença no que falo?
Ela se levantou e foi para a porta, abrindo-a com raiva e saindo, deixando Sesshoumaru, que não se moveu para impedi-la.
- Você está mesmo mentindo, não é? – disse ele – Por que faz isso?
- Esqueça de mim! – gritou Satsumi já fora da cabana – Não preciso de sua confiança, não preciso de nada seu...
Ela parou um pouco à frente, chorando e pensando no motivo que a impedia de falar a verdade sobre sua doença para o youkai que amava.
"Não posso!" pensou triste "Você vai me achar fraca demais! E eu sei que tenho capacidade para ter essa criança, saudável e forte! Não importa se minha doença me matará, eu sei que não fará mal à nossa filha!".
- Satsumi! – chamou Sesshoumaru da porta – Volte aqui!
- Não! – gritou ela – Fique aí sozinho, na solidão que você tanto aprecia e é a única companhia pela qual você não tem desconfiança!
- Volte...
- Não!
- Eu a amo...e me dói saber que você mente por achar que me protege de sofrer. E imaginar que nossa filha não viverá, me dói ainda mais, eu não conseguiria conviver com isso...
- Sua filha está bem – disse Satsumi – Foi você mesmo que disse isso. Eu a entregarei no seu colo, linda e saudável quando nascer. Então não me faça sofrer, por favor, deixe que eu aproveite essa gravidez em paz, sem me preocupar se eu estou ou não doente.
- O que você tem, Satsumi? – perguntou ele – Me diga a verdade, e eu saberei se há como ajudar em algo...
- O que eu tenho... – repetiu ela -...ninguém tem o poder para curar. Ninguém foge do próprio destino. Mas não se preocupe, eu ainda vou viver o suficiente para segurar essa criança no colo por bastante tempo...
- Não – disse Sesshoumaru rindo das palavras de Satsumi – Nada nesse mundo irá tirá-la de mim. Eu irei ao inferno para buscar uma solução ao que você tem...
- Não vá a lugar nenhum...fique ao meu lado, é disso que eu preciso. Eu preciso que você nunca mais me olhe com esse olhar frio de novo, só isso...
- Entre aqui...
- Eu vou embora – disse ela – Não quero continuar com essa conversa hoje. Eu vou esperar que você pense bem se ainda acredita em mim ou não, depois poderemos nos reencontrar.
- Volte, Satsumi – disse ele demonstrando uma certa dor pelo que aconteceu – Eu não quero que você vá. Não quero um tempo para pensar em nada, só quero você ao meu lado, agora!
Ela se virou e começou a caminhar, para surpresa de Sesshoumaru. Ele soltou a armadura do corpo e deixou junto com a Tenseiga na cabana. Decidiu ir atrás dela e abraçá-la tão forte, que se estivesse usando essas duas coisas a machucaria com certeza. Saiu rápido da cabana e seguiu a trilha até encontrar Satsumi.
- Espere! – disse ele – Eu quero te dizer uma coisa.
- Não! – recusou ela – Depois eu o procurarei...
- Pare! – disse ele segurando-a pelos braços – E escute o que eu tenho a dizer.
- Fale... e depois me deixe ir embora!
Ele a abraçou, como havia decidido, mas não conseguiu fazê-lo tão forte quanto imaginava. Sentiu medo de que a discussão que ele mesmo acabara de causar pudesse prejudicar a filha. Satsumi estava tremendo tanto que lhe pareceu que ela ia passar mal a qualquer momento. Soltou-a, e se ajoelhou frente a ela, encostando sua cabeça no ventre da jovem.
- Desculpe... – disse ele à criança ali dentro – Eu não vi que agi de forma tão cruel...
Depois se levantou e beijou Satsumi, pedindo perdão dessa forma ao que acabara de fazer. Ela conseguiu entender o ato dele e retribuiu o beijo com o mesmo amor. O beijo só foi interrompido quando ele sentiu a presença indesejável de alguém.
- Aquele chefe da guarda – disse Sesshoumaru soltando Satsumi e ficando sério – Ele está por perto!
Hattemaru e Yume pararam ao lado do riacho.
- Agora, você deve ir atrás dos dois – disse Yume – Quando os encontrar, faça uma cena, um teatro. Finja que está sofrendo por ver Satsumi junto do youkai, enquanto eu entro na cabana e roubo a espada.
- Mas você tem certeza de que a espada está lá? – disse Hattemaru.
- Eu tive uma visão – disse ela – Ele deixou a espada lá e depois correu para os braços da jovem.
- Já que ele está desarmado, eu o matarei agora mesmo!
- Não seja tolo! – brigou ela – Ele não é um youkai fraco que até eu poderia derrotar. Ele o mataria sem nem utilizar toda sua força...Vá!
Hattemaru atravessou o riacho, enquanto Yume fazia outro caminho para poder passar por eles sem que a vissem.
- Hattemaru? – disse Satsumi – Tem certeza?
- Eu não me enganaria em relação a ele – disse Sesshoumaru.
O chefe da guarda logo os encontrou e fez uma cara nada satisfeita ao encarar o youkai rival.
- Então é você? – disse Hattemaru – Até que enfim eu me vejo cara a cara com aquele que transformou a vida de Satsumi.
- Hattemaru – disse Satsumi colocando-se na frente do youkai – O que você deseja?
- Eu? – disse ele – Nada! Eu só estava andando por aqui, cumprindo o meu trabalho de proteger o vilarejo de selvagens como esse youkai, coisa que você parece não se preocupar, não é mesmo?
- Qual o problema, soldado? – disse Sesshoumaru – Pretende me aborrecer com esse papo idiota?
- Cale-se, youkai! – irritou-se Hattemaru – Não dirija sua palavra a mim.
- Por quê? – riu Sesshoumaru – Tem medo da minha voz?
- Medo? – retrucou o chefe da guarda – Você morrerá antes de me ver ter medo de um nada como você!
- É? E será você quem me matará? – disse o youkai – Não me faça rir! Suma daqui! Eu e Satsumi temos assuntos a tratar!
- Parem os dois! – disse a jovem – Eu não quero saber de briga...
- Eu não vou perder meu tempo brigando com ele – disse Sesshoumaru – Eu não preciso disso!
Hattemaru colocou a mão na espada, chamando a atenção de Sesshoumaru.
- Eu quero que venha comigo, Satsumi – disse o chefe da guarda.
- Eu irei depois...
- Agora! – disse ele – Não envergonhe a memória de seu pai dessa forma. Encontrando-se às escondidas com um maldito youkai.
- Eu não estou envergonhando ninguém – disse Satsumi – Eu irei para casa a hora que eu achar conveniente.
- Você vai comigo! – insistiu Hattemaru – Nem que eu tenha que levá-la a força!
- Há! – gargalhou Sesshoumaru – Encoste nela e me dê um motivo para acabar com você!
- Por que você não a deixa em paz? – disse Hattemaru – Você vai destruir a vida dela se continuar a importunando.
- Vá embora, Hattemaru! – ordenou Satsumi – Eu não quero que ele o machuque...
- Ouça o conselho dela, soldado! – disse Sesshoumaru – Eu posso mesmo machucá-lo.
Hattemaru se aproximou e tentou pegar a mão de Satsumi para poder levá-la embora, mas Sesshoumaru o segurou pelo pescoço antes mesmo dele conseguir encostar nela.
- Eu vou matá-lo por isso... – disse o youkai.
- Solte-o! – gritou Satsumi – Por favor, ele é um amigo... e serviu a meu pai fielmente. Deixe que ele vá embora!
Hattemaru conseguiu retirar a espada da bainha e tentou acertar Sesshoumaru, mas o youkai o jogou a uns passos de distância, deixando-o livre para ir embora vivo, como Satsumi pedira.
- Maldito! – gritou Hattemaru passando a mão no pescoço dolorido – Eu ainda vou fazê-lo desejar nunca ter feito isso...
Sesshoumaru virou-se para o lado da cabana preocupado.
- O que foi? – perguntou Satsumi.
- Tenseiga! – disse ele sentindo que a espada o chamava – O que...?
Ele começou a fazer o caminho de volta para a cabana, e Hattemaru viu que tinha de impedir que ele pegasse Yume em flagrante. Levantou-se rápido e agarrou Satsumi, prendendo-a contra uma árvore.
- Eu amo você, Satsumi – disse Hattemaru – Não posso permitir que fique com esse youkai...
Sesshoumaru virou-se e viu o ato. Sentiu o sangue ferver com a imagem dele segurando Satsumi e mal teve tempo para pensar e já estava ao lado do chefe da guarda, arrancando-o de perto dela com uma única mão, cravando as garras no pescoço dele e sentindo o sangue começar a escorrer.
- Você morrerá por essa ousadia! – gritou Sesshoumaru.
- Não! – disse Satsumi para o youkai – Ele não me machucou! Deixe-o, Sesshoumaru!
- Não se importe comigo, Satsumi – disse Hattemaru – Só quero que saiba que eu a amo o suficiente para perdoá-la por não se casar comigo!
- Cale-se! – gritou Sesshoumaru – Ela não tem obrigação de pedir perdão a você por nada!
Novamente Sesshoumaru virou-se para onde se encontrava a cabana. A Tenseiga parecia mesmo chamar pelo dono, e o youkai se viu obrigado a soltar o chefe da guarda.
- Maldição! – disse Sesshoumaru – O que está acontecendo?
- Vá ver o que é! – sugeriu Satsumi – Eu o esperarei aqui.
- Não! – disse Sesshoumaru virando-se novamente para Hattemaru – Antes eu vou dar uma lição nesse soldadinho...
Yume deu um enorme sorriso ao ver a espada que já pertencera a Inutaisho bem à sua frente.
- Você nem imagina o tempo que eu esperei para me vingar do seu ato, Inutaisho – disse ela passando a mão na bainha da Tenseiga – É uma pena que você não tenha sobrevivido para que eu pudesse me vingar diretamente em você. Mas eu já me satisfaço de mandar seu filho e sua neta para o inferno onde você se encontra!
Pegou a espada na mão e saiu com ela da cabana rapidamente. Não precisaria ficar com ela por mais do que um dia, pois já seria o suficiente para desfazer o feitiço que a condenara a ser uma humana. Sentiu as forças começarem a falhar por estar segurando aquela espada tão poderosa junto ao corpo, mas forçou-se a correr o máximo possível até encontrar-se próxima ao vilarejo, onde se deu o luxo de caminhar calmamente.
- Só falta o sangue do hanyou – disse ela já perto da casa de Hattemaru.
Sesshoumaru ergueu a mão direita mostrando o poder que tinha mostrar-se na forma de uma forte luz verde. Satsumi colocou-se na sua frente, tentando impedi-lo de matar o amigo, que mesmo tendo errado, era um amigo.
- Mate-me, youkai! – disse Hattemaru com um sorriso – Mostre a Satsumi que você é mesmo um ser selvagem!
- Por favor, Sesshoumaru – disse Satsumi – Ele serviu ao meu pai! Eu estaria indo contra os desejos de meu falecido pai ao deixar que o mate!
- Satsumi – disse Sesshoumaru – Só não o matarei por causa do seu pedido. Mas não o deixarei vivo se o encontrar de novo!
- Vá embora, Hattemaru – disse Satsumi – Por favor!
- Satsumi – disse o chefe da guarda – Não consigo acreditar que ficará junto desse youkai violento...
- Vá embora! – repetiu ela – Não piore as coisas!
Hattemaru se levantou do chão e deus as costas a Satsumi e Sesshoumaru.
"Espero que a velha tenha conseguido!" pensou indo embora "Maldito youkai! Eu me vingarei de você!".
Sesshoumaru esperou apenas que o chefe da guarda se fosse e voltou sua atenção definitivamente para a cabana.
- Eu vou ver o que aconteceu! – disse ele para Satsumi e saiu correndo – Fique aqui!
Sesshoumaru olhou para o interior da cabana e franziu a testa ao ver que sua espada não se encontrava ali.
- O quê? – perguntou-se surpreso – Quem roubaria uma espada? Mesmo que saiba que não é uma espada normal, mas a Tenseiga, qual a utilidade em levá-la?
Recolocou sua armadura, que havia sido deixada no mesmo lugar de antes.
"Vieram com a intenção de levar apenas a espada" concluiu "Mas quem teria utilidade para ela?".
Sesshoumaru sabia que a Tenseiga era inútil para alguém além dele próprio. Se um humano a tivesse pegado, não poderia usá-la, pois seu poder não apareceria. Se fosse youkai, nem ao menos teria conseguido segurar a espada, pois ela tinha uma proteção contra eles.
O youkai olhou para a porta ao notar a presença de Satsumi.
- O que veio fazer aqui? – disse ele – Eu não disse para ficar me esperando lá?
- Eu queria saber o que aconteceu – respondeu Satsumi.
- Alguém pegou a Tenseiga – disse Sesshoumaru.
- O quê? – disse ela – Como?
- Eu a deixei aqui – disse ele – Eu senti que ela me chamava. Ela me alertava para a presença de alguém.
- E agora? – perguntou Satsumi – O que você vai fazer?
- Vou procurá-la! Até encontrá-la, e também a quem a levou...
Ele olhou para Satsumi, que parecia tão preocupada e lembrou-se do que ela acabara de passar.
- Como você está? – perguntou ele.
- Bem, não se preocupe comigo! – disse Satsumi – Eu o ajudarei a procurar pela Tenseiga...
- Não! – disse ele firme – Eu vou levá-la para o vilarejo. Venha!
Ele saiu da cabana antes que Satsumi pudesse se opor a voltar para casa. Os dois saíram juntos pela mata, mas a mente de Sesshoumaru estava tentando entender o que acontecera com a espada. Chegaram na entrada do vilarejo e apenas se olharam, sem uma despedida normal, pois sabiam que logo pela manhã se reencontrariam. As únicas palavras de Sesshoumaru para Satsumi foram para que ela descansasse. Ela correu para o casarão, disposta a tentar esquecer da conversa que tivera com o youkai.
Satsumi entrou no casarão e encontrou Asuka conversando com outras duas criadas na cozinha.
- Vocês viram Hattemaru? – perguntou ela para as mulheres.
- Não! – respondeu Asuka – A última vez que o vi foi pouco antes da srta sair...
- Se ele aparecer aqui, mesmo que já seja bastante tarde, e me procurar, não temam em me acordar. Está bem?
As criadas fizeram que sim com a cabeça e Asuka seguiu a jovem até a entrada de seu quarto.
- Aconteceu algo, Satsumi-Hime? – perguntou Asuka.
- Aconteceu – disse ela – Hattemaru quase perde a vida por uma besteira, Asuka! Ele foi querer brigar com meu youkai...
- Por Kami... – disse Asuka surpresa – E a srta, está bem?
- Estou ótima! – respondeu Satsumi – Eu só quero me deitar e descansar um pouco. Parece que hoje tudo deu errado...
- Tome o chá que eu lhe preparei – sugeriu Asuka – Eu tenho certeza que ajudará a srta a descansar.
- Eu vou aceitar a sua sugestão – disse a jovem forçando um sorriso – Talvez isso me acalme um pouco.
- Vou buscá-lo! – disse Asuka saindo rápido para a cozinha.
Satsumi sentou-se no futon, ao mesmo tempo preocupada com a desconfiança de Sesshoumaru sobre sua saúde, e também com o estranho sumiço da espada dele.
"É uma espada de valor inigualável!" pensou "Com certeza ela deve ter algum uso para quem a levou!".
Asuka voltou segurando uma vasilha com o chá para Satsumi.
- Beba! – disse Asuka – Eu o esquentei um pouco, mas não está fervendo...
- Obrigada, Asuka! – disse Satsumi bebendo o chá – Está maravilhoso...
Sesshoumaru esperava que a Tenseiga fizesse a mesma coisa de antes, que o chamasse e o ajudasse a encontrar seu paradeiro.
- Maldição! – gritou no meio da mata – Eu tenho que encontrá-la!
Mesmo que não achasse nenhum valor para a espada numa luta, não podia ignorar o valor sentimental que ela possuía. Ela havia sido deixada pelo pai, exclusivamente para ele, sua herança de todo o poder que o pai havia possuído em vida.
"Ajude-me a encontrá-la, meu pai!" pediu em pensamento "Eu sei o quanto ela lhe era especial!".
- E ela é especial para você? – perguntou uma voz distante.
- Pai? – disse Sesshoumaru acreditando ser o espírito de Inutaisho novamente.
- Responda minha questão!
- Sim! – respondeu Sesshoumaru – É sua única lembrança...
- Ela não tem que servir apenas para lembrá-lo de mim, filho! Você verá que ela teria muito mais uso para você nessa noite...Essa maldita noite!
- Ajude-me a encontrá-la – pediu Sesshoumaru sem enxergar o espírito.
- Ela lhe será devolvida logo. Mas infelizmente não será mais útil...
- Quem a pegou? – insistiu o youkai.
- Você saberá...
A voz tornou-se mais baixa e sumiu. Sesshoumaru irritou-se com o fato de não poder fazer nada para encontrar a Tenseiga, e esmurrou uma árvore ao seu lado, deixando que sua raiva ficasse bem demonstrada no estrago que causou.
Olhou para os lados, sem saber que caminho fazer naquele momento. Não sabia se ficava por ali mesmo eu se caminhava para que o tempo passasse mais depressa. Mas sentiu algo antes mesmo de decidir-se. Uma dor no peito, tão forte que o fez cair de joelhos no chão, o atingiu.
- O que...é isso? – perguntou-se com dificuldades para falar.
Parecia que uma espada, com a lâmina incandescente lhe atravessava o coração, causando uma dor lancinante que o mataria rapidamente se ele não fosse um youkai tão forte. Desfez-se rapidamente da armadura e levou a mão ao local da dor, vendo ainda mais surpreso que ela se localizava bem no ponto onde ele guardava a faixa que ganhara de Satsumi.
- Satsumi? – sussurrou sentindo a dor aumentar – O que é isso...
Satsumi acordou sentindo uma dor aguda no ventre. Sentou-se no futon e passou a mão pela barriga assustada.
- O que está acontecendo? – perguntou curvando-se com a dor.
Sentiu o suor escorrer pela testa, e sabia que estava febril. Tentou se levantar para pedir ajuda à Asuka, mas a dor a fez permanecer imóvel.
- Asuka! – chamou com a voz falha – Me ajude...
O silêncio da casa mostrava que não havia conseguido ser ouvida.
- Asuka! – chamou de novo – Por favor...
Conseguiu chamar pela amiga mais alto dessa vez, e logo ela respondia a jovem.
- Srta Satsumi? – disse Asuka do corredor – Estou indo!
Asuka abriu a porta, segurando uma lamparina na mão e encontrou Satsumi pálida, curvada sobre a barriga e gemendo de dor.
- Asuka...
- Acalme-se! – disse Asuka colocando-se ao lado da jovem – Eu vou ajudá-la!
Asuka não conseguiu conter a expressão de horror ao retirar o lençol com que Satsumi se cobria e ver a poça de sangue que se formava embaixo dela.
- Satsumi... – disse ela desesperada.
Satsumi olhou para o sangue que saía de seu corpo e entrou em pânico.
- Minha filha... Asuka, eu vou perder minha filha...
- Calma! – disse Asuka se levantando – Eu vou chamar ajuda. Vou pedir que busquem o doutor urgentemente, está bem?
Asuka saiu correndo do quarto, enquanto Satsumi sentia mais uma pontada no ventre. Era difícil até de chorar com toda a dor que estava sentindo, e no seu peito a tristeza de saber que estava perdendo o bebê a torturava ainda mais.
- Isso não pode acontecer... minha filha não... Sesshoumaru, eu preciso de você...
Asuka chegou à casa do chefe da guarda e abriu a porta com tudo. Encontrou Hattemaru e Yume sentados em silêncio e olhando para ela como se já soubessem que ela viria.
- Hattemaru – disse Asuka – Você precisa ir buscar o doutor para Satsumi...
- Por quê? – perguntou ele calmo – Ela está febril de novo?
- É o bebê! – disse Asuka – Ela está perdendo o bebê.
- O filho do youkai? – disse ele causando um sorriso irônico em Yume – E qual o problema nisso?
Asuka olhou indignada para o chefe da guarda.
- Você não irá? – perguntou ela.
- Não! – disse Hattemaru – Leve Yume! Ela é uma ótima curandeira...
- Eu a ajudarei, Asuka – disse Yume – Se for muito grave, Hattemaru irá atrás do doutor.
Asuka balançou a cabeça negativamente sem acreditar no que estava acontecendo. Saiu da casa acompanhada de Yume e voltou para o casarão, onde já na entrada era possível ouvir os gritos de Satsumi.
Entraram no quarto e viram que ela estava perdendo sangue rapidamente, e que se isso não fosse revertido ela morreria logo.
- Asuka – disse Satsumi com a visão já turva – Quem você trouxe?
- Eu trouxe a tia de Hattemaru – respondeu Asuka – Ela é uma curandeira, poderá ajudar...
- Não! – gritou Satsumi – Saia daqui, Yume! Você vai matar minha filha...
- Pelo que você já sangrou, jovem – disse Yume num tom frio – Me parece que sua criança já não está viva há um bom tempo!
Satsumi sentiu o corpo estremecer ao ouvir as palavras de Yume. Viu tudo a sua volta girar e escurecer, deixando-se cair no futon.
- Ela desmaiou – disse Yume – Temos que acordá-la para que possa forçar essa criança para fora, senão ela própria morrerá!
Asuka ajoelhou-se ao lado de Satsumi e tentou acordá-la.
- Satsumi-Hime, acorde! – disse ela – Você não pode ficar desmaiada.
Satsumi abriu um pouco os olhos, e ouviu as palavras da amiga que a segurou no colo.
- Infelizmente a srta terá que fazer força – continuou Asuka – Você precisa tirar o bebê de dentro do seu ventre...
- Não...
- Escute, ouça minhas palavras – disse Asuka – Se você não fizer isso, a srta irá morrer junto com essa criança, entendeu?
- Não...- gritou ela desesperada – Procurem por Sesshoumaru...
- Satsumi... – disse Asuka.
- Ele tem uma espada que salvará nossa filha...
- Deixe de tolice! – disse Yume – Nada poderá ajudá-la nesse momento, somente você mesma.
- Suma daqui, sua bruxa... – gritou Satsumi – Não ouse encostar em mim...
- Você ainda é jovem, hime! – disse Asuka – Não se deixe derrotar dessa forma. Haverá outras chances da srta ter um bebê.
- Não! – gritou ela – Então eu prefiro morrer junto com ela...
- Seu pai não gostaria de ouvi-la falar dessa maneira – disse Asuka – Lembre-se que ele confia na srta para poder cuidar do vilarejo...
- Não fale disso, Asuka – disse Satsumi entre uma contração e outra – Eu falhei em tudo relacionado ao que meu pai desejava. E agora estou falhando com o youkai que eu amo...
- Faça força! – disse Yume arrumando o lençol embaixo dela para recolher todo o sangue possível – Ou você ficará com dores por dias e dias...
- Cale-se! – disse Asuka para Yume – Se você não pode ajudar, também não a faça sofrer ainda mais!
- Roubaram a espada – sussurrou Satsumi ao se lembrar que nem mesmo Sesshoumaru poderia ajudar sua filha – Não há nada a ser feito por minha criança...
- Do que está falando? – perguntou Asuka passando a mão pela testa da jovem – Você está febril...
- Ela está delirando! – disse Yume – Ela está perdendo muito sangue...
Asuka deitou Satsumi e a encarou com um olhar ao mesmo tempo maternal e firme.
- Eu não vou ajudá-la a se matar, hime! – disse Asuka – Eu vou ficar mandando que faça força até que resolva deixar de lado essa idéia tola de morrer.
Satsumi olhou para a amiga já sem forças para contrariá-la. Sabia que a criança em seu ventre já não tinha mais vida, e que agora a única coisa que poderia fazer era pedir perdão a Sesshoumaru pelo que acontecera.
- Eu sou mesmo fraca... – sussurrou - ...ele nunca me perdoará...
Sesshoumaru se ergueu do chão com dificuldades. A dor parecia diminuir, mas ainda assim era forte. Sua mente encheu-se de questões sem resposta para aquilo tudo.
- Não pode ser! – disse sentindo que descobrira a resposta – Minha filha...
Caminhou até o riacho e o atravessou num salto. Sua mão seguia firme no peito, como se estivesse unida a faixa por alguma magia. Pouco antes de chegar na entrada do vilarejo, sentiu a dor aumentar, e não conseguiu passar daquele ponto. Deixou o corpo cair no chão de terra, sem conseguir manter-se acordado por muito tempo.
"O que está acontecendo comigo?" pensou pouco antes de perder a consciência "O que está acontecendo com vocês, Satsumi?".
Satsumi gritou ao fazer força mais uma vez. Asuka a incentivava a continuar, embora a vontade da jovem fosse de desmaiar e nunca mais acordar.
- Só mais uma vez, jovem – disse Yume – Logo esse pesadelo acabará!
Satsumi fez o máximo de força que conseguia, e quando foi tentar mais uma vez ouviu as palavras frias de Yume para Asuka.
- Aí está! – disse Yume – A "coisa" saiu!
Satsumi não conseguiu segurar o choro com a certeza de que a velha se referia a sua filha.
- Ela não é uma coisa – disse para Yume – É meu bebê...
- Eu vou levar esse lençol sujo para fora – disse Yume – Acho que ninguém quer ver essa cena horrível!
A feiticeira se apressou em se apossar dos restos mortais da criança e sair do quarto. Satsumi estendeu o braço tentando evitar que ela levasse embora sua filha antes de vê-la, mesmo sabendo que seria difícil distinguir algo em meio a todo a aquele sangue.
- Não, Satsumi – disse Asuka – Não queira ver, você não agüentaria...
Satsumi sentiu todas as forças se esvaírem do corpo e mergulhou numa escuridão total. Sabia que estava desmaiando de novo, então deu apenas uma última ordem a Asuka.
- Enterrem-na junto ao meu pai... – disse para a amiga e fechou os olhos.
Mal imaginava que nem mesmo esse simples desejo lhe seria permitido por causa da crueldade de Yume, que já tinha planos para o corpo ainda não totalmente formado da criança.
- Mal posso esperar! – disse Yume entrando na casa de Hattemaru – Terei minha liberdade em pouco tempo!
Ela olhou para o canto da sala e encontrou o chefe da guarda sentado no mesmo local onde o havia deixado.
- Que cara é essa? – perguntou ela para o rapaz que parecia um pouco assustado – Não está feliz de ver que logo terá sua noiva de volta!
O olhar dele se fixou no lençol ensangüentado na mão da feiticeira.
- Como ela está? – perguntou ele – Satsumi...
- Ela ficará bem! – respondeu Yume sem mostrar preocupação – Ela não é a única mulher do mundo a perder um filho. Isso ocorre todos os dias.
- Eu tive uma visão...
- O quê? – perguntou Yume sem entender – Você o quê?
- Eu tive uma visão! – repetiu ele se levantando – Enquanto você estava lá na casa de Satsumi...
- O que você viu? – disse ela surpresa.
- Quer mesmo saber? – disse o chefe da guarda rindo nervosamente – Alguém lhe mandou um recado...
A expressão de Yume passou da alegria para a seriedade ao ouvir que alguém lhe mandara um recado.
- Ou melhor, um aviso! – continuou Hattemaru – "Ele disse que sua morte não tarda!".
- Ele quem? – perguntou Yume – Quem?
- Inutaisho...
Yume olhou com um misto de medo e ódio para o lençol em sua mão.
- Se ele pretende se vingar – disse ela – Ele que saiba que terá que me enfrentar na minha forma youkai, e não como uma simples humana...
- Ele sabe...
- Cale-se! – irritou-se ela – E pegue a espada para mim!
Hattemaru pegou a bainha com a Tenseiga que estava ao seu lado e jogou para Yume.
- Se ele espera que eu me arrependa de ter acabado com a vida da neta dele... – disse a feiticeira pegando a Tenseiga na mão -...ele vai ter uma grande decepção! Há há há!
Ela passou a lâmina da espada no mesmo local onde Inutaisho a havia ferido para poder jogar-lhe o feitiço. Gemeu com a dor que o corte causara, mas sorriu ao pensar que esse tipo de dor logo não seria mais sentida. Ajoelhou-se no chão e revirou o lençol ensangüentado em busca do feto hanyou. Encontrou o pequeno ser, que não devia ter mais que 10 cm e o apertou entre os dedos envelhecidos até que dele saísse o pouco de sangue que aquele corpo guardava, deixando as poucas gotas caírem sobre o corte no pulso.
- Volte a correr em minhas veias, sangue youkai – disse ela – Eu lhe ordeno que me devolva minha natureza...
Hattemaru virou o rosto ao ver a cena da feiticeira destruindo aquela criança. Sentiu-se mal por saber que aquilo também era uma parte de Satsumi, e que ele havia ajudado a cometer tamanha crueldade.
- Encare o que fez, Hattemaru! – ordenou Yume – Não se arrependa das coisas que faz, mesmo que sejam tão perversas...
Ele a encarou com raiva, e notou que a expressão idosa da mulher a sua frente já não existia mais. Yume estava se transformando por inteira. Sua pele rejuvenesceu, ficando lisa e sem marcas. Seus olhos, antes negros, agora tinham a cor vermelha, mais vermelho que o sangue presente no lençol em sua mão. Os cabelos cresceram até a cintura, e tinham um tom acinzentado.
- Eu consegui! – disse ela se levantando e jogando os restos do hanyou no chão – Eu voltei a ser uma youkai! Eu posso sentir todo o meu poder de volta ao meu corpo. Eu consigo sentir a beleza que possuía antes voltar a mim...
- Parabéns... – disse Hattemaru saindo da casa – Espero que isso tenha valido a pena...
O chefe da guarda caminhou até chegar na entrada do casarão. Pensou em entrar e tentar ajudar Satsumi em algo, para pelo menos diminuir um pouco sua sensação de culpa. Mas foi impedido pelo medo. Medo de encarar alguém que ele dizia não ser capaz de machucar, e que o fizera tão facilmente.
"Eu sou um monstro!" criticou-se "Mas eu prometo que a farei feliz, Satsumi. Farei com que esqueça dessa noite horrível, eu prometo!".
