Olá! Espero que ninguém tenha passado mal com o capítulo anterior. Sei que ele ficou meio forte, mas eu gosto de dar bastante detalhes em tudo. Desculpem a falta de separadores no capítulo anterior, vi que isso tornou o texto pesado de se ler, ficou tudo embolado, mas foi culpa do FFNet que não quis aceitar que eu colocasse as divisões. Agradeço a Juliane-chan1 e a Lulu-lilits pelas reviews, e espero que todos gostem do novo cap. Boa leitura!

Yume desafia Sesshoumaru

- Seria uma linda noite... – confidenciou Asuka olhando pela janela do quarto de Satsumi – ...se não estivesse banhada em sangue.

Olhou para a jovem inconsciente no futon, vestida com um kimono que até poucas horas atrás era de um tom branco azulado, e agora exibia manchas rubras quase que em toda sua extensão.

- Durma, criança – disse ela – Pois seu sofrimento será tão grande quando acordar...aproveite os sonhos enquanto eles ainda existem.


Hattemaru virou-se ao ouvir um assovio. Yume estava parada na porta de sua casa, exibindo um largo sorriso no rosto, feliz por ter voltado a ser uma youkai. Notou que ela carregava a bainha com a espada de Sesshoumaru na cintura, e em uma das mãos ela segurava o lençol sujo de sangue.

- Estou de saída – disse ela – Quer que eu mande algum recado ao youkai?

- Você irá atrás dele? – perguntou o chefe da guarda – Irá matá-lo ainda hoje?

- Não – disse ela – Eu quero que ele descubra o fim que a filha dele teve, primeiro. Eu darei a ele tempo suficiente para sofrer por essa perda, depois acabarei com ele.

- Por que esperar tanto? – irritou-se Hattemaru – Mate-o tão logo o encontre...

- Você não aprecia a vingança em toda sua beleza, não é mesmo?- disse Yume sorrindo – Por que matá-lo logo se posso arrancar dele todo tipo de sofrimento? Quero vê-lo sentir o coração ser esmagado com a notícia de que sua criança agora é apenas um amontoado de sangue num lençol! Não há dor maior do que ver seu próprio sangue ser derramado.

- E o que fará agora? – perguntou Hattemaru.

- Devolverei essa espada a Sesshoumaru – respondeu Yume – E me livrarei desse lençol. Não há mais utilidade para essa tralha.

- Não deixará que orem por essa criança? – surpreendeu-se o chefe da guarda.

- Criança? – riu Yume – Há algo aqui que se pareça com uma criança? – disse mostrando o lençol.

Hattemaru desviou seu olhar do pano e fitou o céu que já começava a clarear.

- Não diga que está se sentindo comovido pelo que aconteceu, rapaz? – disse Yume – Até parece que não te agrada saber que Satsumi não carrega mais um hanyou no ventre.

- Vá logo! – ordenou ele – Antes que algum dos outros guardas a vejam...

Yume baixou a cabeça num falso ato de respeito e desapareceu em uma esfera de luz. Hattemaru voltou à porta do casarão, reunindo coragem para poder entrar lá e oferecer alguma ajuda. Mas antes que conseguisse fazer isso foi chamado por Asuka, que estava parada próxima ao corredor que dava ao quarto de Satsumi.

- Hattemaru – disse Asuka – Preciso que busque o doutor, urgente!

- O que foi? – perguntou ele assustado.

- Satsumi-hime não pára de sangrar – disse Asuka começando a chorar – Tenho medo que ela...

- Maldição! – esbravejou Hattemaru – Estou indo...

O chefe da guarda saiu correndo em busca de seu cavalo e seguiu rumo a cidade. O temor de perder Satsumi depois de tudo o que fizera era algo insuportável.

"Não morra, Satsumi" pensava enquanto cavalgava o mais rápido possível "Não era esse o meu desejo. Por favor, viva para mim!".


- Acorde Sesshoumaru!

A voz suave ecoou na mente do youkai que ainda estava caído ao chão desacordado.

- Trouxe algo que lhe pertence...

Um som de algo metálico atingindo o chão fez com que Sesshoumaru despertasse de vez. Ele abriu os olhos lentamente, enxergando á alguns passos à sua frente a espada que seu pai lhe havia deixado.

- Tenseiga...? – disse ao notar que era realmente ela.

Levantou seus olhos um pouco mais e viu a pessoa que o chamara. Parecia apenas um vulto, já que estava contra o sol que começava a se levantar no horizonte.

- Quem é você? – perguntou ele sentando-se com dificuldades – Por que pegou a Tenseiga?

- Está com dor, youkai? – perguntou a pessoa sem dar atenção – Deve ser muito ruim para alguém como você sentir dor, não é mesmo?

Sesshoumaru pôde sentir a ironia na voz da pessoa.

- Mas imagine que essa dor seria ainda mais forte se você fosse apenas um humano...

- Quem é você? – insistiu ele irritado.

- Talvez você reconheça meu nome – disse ela – Yume...

- Yume? – repetiu sem que o nome lhe lembrasse alguém – Não a conheço!

- Mas eu o conheço, Sesshoumaru – disse Yume – Filho de Inutaisho.

Sesshoumaru fez uma cara de surpresa ao lembrar-se do nome.

- Não pode ser... – disse ele – Você não pode ser a mesma Yume que conheci há 50 anos.

- Por que não? – disse ela.

- Eu me lembro que meu pai havia lhe condenado a ser...

- Uma humana? – completou ela – Uma simples humana, fraca e de vida efêmera? Sim, Inutaisho fez isso comigo. Aquele maldito...

Sesshoumaru colocou-se de pé rapidamente, mesmo ainda sentindo uma forte dor atingir-lhe o peito.

- Não deixarei que fale assim de meu pai – disse ele enraivecido.

- Acalme-se, belo youkai! – disse Yume – Eu não desejo brigar com você. Pelo menos, não agora!

- O que queria com a Tenseiga? – perguntou Sesshoumaru aproximando-se.

- Nada de mais! – disse ela – Só a peguei emprestada para poder desfazer o feitiço que seu pai me jogou.

- Como? – disse incrédulo – Ousou roubar minha espada para desfazer o feitiço?

- Não a roubei! – disse ela – Apenas peguei emprestada, como acabei de dizer...

- Cale-se! – ordenou ele – Eu a matarei por essa afronta!

- Cale-se você! – gritou ela – Não tem condições nem de se manter em pé direito, e ainda assim deseja lutar? Seu tolo! Eu jamais o mataria me aproveitando do fato de estar fraco. Eu vou esperar que se recupere para poder vingar-me totalmente de sua família...

- Fraco? – riu Sesshoumaru - Eu não sou fraco! Não me compare a um youkai inferior como os de sua raça!

- Eu não disse que é fraco. Eu disse que está fraco nesse momento – disse ela – Sei que está compartilhando da dor de alguém. Posso sentir isso. E enquanto essa pessoa estiver sofrendo, você sentirá o mesmo!

- Não diga besteiras! – disse Sesshoumaru.

- Sugiro que vá atrás dessa pessoa – disse Yume – E depois me procure para que possamos lutar, de igual para igual!

Yume desapareceu no ar, deixando Sesshoumaru irritado com o que acabara de acontecer. Levou sua mão ao peito, sentindo como se o coração fosse deixar de bater a qualquer momento.

- O que está acontecendo comigo? – perguntou-se – Satsumi! Preciso encontrá-la...

Saiu em direção ao vilarejo, já sem dúvidas de que algo ruim acontecera com sua filha. Mas não queria aceitar que não sentiria mais sua presença, preferia apagar seus pensamentos enquanto se aproximava da entrada do vilarejo.

Olhou para o casarão onde Satsumi morava. Havia um silêncio atordoante envolvendo todo o local naquela manhã. Sinal de que algo muito ruim acontecera. Apenas alguns guardas conversavam com um morador, bem distante de onde o youkai se encontrava, e nem notaram sua presença.

- Satsumi... – sussurrou fixando seu olhar na porta de entrada – O que aconteceu?


Satsumi acordou assustada e sentou-se no futon.

- Sesshoumaru... – sussurrou sentindo a cabeça girar com o movimento brusco – Eu o sinto...

- Deite-se, hime! – ordenou Asuka ao seu lado – Está muito fraca. Não pode ficar se mexendo demais...

- Ele está por perto, Asuka – disse Satsumi com a voz bastante enfraquecida – Busque-o para mim...

- Deite-se! – repetiu Asuka – Eu não posso deixá-la sozinha! Depois eu o buscarei para a srta.

- Não... preciso vê-lo agora...Por favor, Asuka!

Asuka olhou para a jovem que deixara o corpo cair novamente no futon, cedendo à fraqueza pela perda de sangue. Depois se levantou e foi até a janela, abrindo-a e notando a figura imponente do youkai na entrada do vilarejo.

- Você tinha razão, hime – disse ela – Ele está aqui. Como pôde sentir a presença dele?

Asuka saiu correndo do quarto para poder encontrar o youkai, mas caminhou lentamente ao se aproximar dele, temendo que ele a atacasse.

- Onde ela está? – perguntou Sesshoumaru friamente para a mulher que se aproximava.

- Satsumi está lá dentro – respondeu Asuka – Ela pediu que eu o buscasse...

- E minha criança? – interrompeu ele mostrando-se irritado.

- O bebê... – disse Asuka sem saber como dar a notícia ao youkai - ...ele...

- Está morto? – perguntou contendo a tristeza na voz – Eu sei...

- Hã...? – fez Asuka estranhando – Você já sabe?

- O que aconteceu com minha criança? – continuou ele – Onde a levaram?

- Eu acredito que tenham atendido o pedido de Satsumi-hime – disse Asuka – Ela pediu que a criança fosse enterrada junto ao avô...

- Espero que não! – disse Sesshoumaru encarando Asuka com ódio – Eu não quero que meu sangue seja colocado no mesmo local que o dessa raça inferior!

- O quê? – disse Asuka ainda mais admirada – Mas é um desejo de Satsumi...

- Satsumi não merecia a honra de carregar uma criança minha – disse ele – Ela mentiu para mim, e como conseqüência disso minha filha está morta!

- Do que está falando? – irritou-se Asuka sem se importar se ele era um youkai ou não – Está culpando Satsumi por perder essa criança?

- Se ela tivesse pelo menos admitido que não tinha condições de manter essa criança... – disse furioso - ...eu conseguiria aceitar melhor isso. Mas ela preferiu mentir. Mentiu várias vezes sobre sua saúde. E mentiria mil vezes se fosse possível...

- Não diga isso... – disse Asuka – Satsumi o ama, e você fala dela como se ela nada valesse.

- E não vale! – disse Sesshoumaru – Não mais, não para mim! Diga a ela que jamais a perdoarei!

Sesshoumaru deu as costas a Asuka e saiu caminhando. Precisava agora encontrar os restos mortais da filha e colocá-la numa sepultura youkai, dando a ela o devido valor pelo sangue que correra em suas veias por tão pouco tempo.

- Você não verá Satsumi? – gritou Asuka já para trás – Ela está muito mal...

- Nunca mais... – respondeu Sesshoumaru friamente – Não a verei nunca mais!

Sesshoumaru sentiu o peito apertar ao falar aquelas palavras. Aquilo era definitivo. Não a veria nunca mais. Não conseguiria perdoá-la por aquilo. Sabia que não era o desejo de Satsumi perder aquela criança, mas não podia ignorar o fato de que ela sabia que isso poderia acontecer, e ainda assim escondeu isso dele.

"Maldição, Satsumi" pensou "Confiei em suas palavras. Por que não confiou em mim e me contou toda a verdade? Por que deixar que tudo acabasse dessa maneira? Meu amor por você não vale nada?".

Caminhou por tempo suficiente para que chegasse a uma distância grande do vilarejo. Passara pela sepultura do pai de Satsumi e não encontrara sinais de que algo havia sido enterrado por perto. Isso o irritara ainda mais. Não conseguia imaginar o que haviam feito com a criança, e de certa forma, nem desejava mais saber, queria deixar para trás tudo aquilo, esquecer que um dia acreditara nas palavras de uma humana, que se apaixonara por ela e que até mesmo havia dado a ela um filho. Mais uma vez esperaria que o tempo o livrasse dessas tristes lembranças.

- Maldição! – gritou ao chegar ao alto de uma colina – Por que isso aconteceu? Por que tirar de mim a única pessoa por quem eu daria minha vida? Por que o destino quis isso?

Ajoelhou-se sentindo a tristeza aumentar ainda mais em seu peito. Baixou a cabeça, sem saber como encarar tal fato. Não conseguia nem ao menos chorar, nunca o fizera na vida. Estava acostumado a demonstrar sua tristeza em forma de raiva. Como quando o pai morrera, e saiu em busca de algo que acabasse com sua dor, matando youkais e até mesmo humanos fracos pelo caminho. Não demonstraria nunca sua dor em forma de lágrimas, mesmo que desejasse fazê-lo no momento.

"Esqueça tudo!" ordenou-se em pensamento "Deixe para trás esse lugar. Deixe que se torne apenas passado...".

Levantou-se disposto a procurar pela youkai que o desafiara a lutar, e depois que acabasse com ela iria embora das terras do oeste. Seu lar, mas para o qual não desejava voltar nem em cem primaveras.


Satsumi acordou ao ouvir seu nome sendo chamado. De principio acreditou ser Sesshoumaru, mas logo notou que não era sua voz. Olhou para o homem a sua frente, tentando distinguir quem era, já que sua visão estava turva.

- Satsumi – disse Asuka ao lado do homem – É o doutor. Ele veio ajudá-la.

Satsumi tentou se sentar, mas seu corpo parecia pesar umas duas vezes mais.

- Fique deitada – disse o doutor – Eu vejo que a srta perdeu muito sangue...

- Minha filha...

- A srta sofreu um aborto – disse o doutor – E se continuasse a perder sangue por mais algum tempo, também perderia sua vida.

- Não seria tão ruim...

- Não diga isso, hime! – disse Asuka.

- Ele me culpa, não é? – perguntou Satsumi encarando Asuka – Ele acha que eu sou a culpada por isso...

- Satsumi-hime – disse Asuka sabendo que ela perguntava de Sesshoumaru – Vamos nos preocupar em ajudá-la primeiro, está bem? Depois você poderá procurar pelo youkai...

- Youkai? – disse o doutor sem entender a conversa – Que youkai?

- Um conhecido! – disse Hattemaru entrando no quarto e mudando de assunto – Como ela está?

- Ela precisa de repouso – disse o doutor – Você era o...

- Pai da criança! – respondeu ele.

Asuka olhou para ele sem entender o motivo do que ele estava fazendo. Satsumi estava perdida em seus pensamentos e nem ouvira o que o chefe da guarda acabara de falar.

- Eu sinto muito! – disse o doutor – É uma pena, uma moça tão jovem...

- Verdade! – disse Hattemaru ajoelhando-se ao lado de Satsumi – Mas ela logo vai se recuperar, e nós teremos outros filhos...

Asuka notou o olhar estranho que o doutor deu ao ouvir aquela frase. Ela saiu um pouco do quarto e chamou pelo homem.

- Há algo errado, doutor? – perguntou Asuka.

- Infelizmente – disse ele – Tenho receio de que ela não possa ter filhos mais...

Asuka não conseguiu conter um sorriso nervoso ao ouvir aquela fatídica notícia. O destino não poderia ser mais cruel com a jovem. Fazê-la perder tudo na vida em tão pouco tempo era algo que não se desejaria nem mesmo para o pior inimigo.

- Acredito agora que a morte não seria mesmo tão ruim para ela... – disse Asuka – Não sei como ela irá suportar tal tristeza!


Sesshoumaru olhou em volta ao sentir o cheiro da youkai que havia pegado a Tenseiga. Estava numa clareira ampla, rodeada de cerejeiras que logo estariam cobertas de flores, deixando aquele local parecido com um paraíso.

"Satsumi acharia lindo..." pensou irritando-se por se lembrar dela "Ela não merece ver tamanha beleza...".

- Está me procurando? – disse Yume atrás dele.

Sesshoumaru virou o pescoço um pouco e a viu. Depois voltou a olhar para as árvores ao longe.

- Podemos lutar! – disse ele – Vamos acabar logo com isso!

Um enorme sorriso se formou no rosto de Yume. Era visível que ele ainda sofria, mas que isso não deixaria a luta ser mais fácil. Pelo contrário, o ódio que ele misturava agora a sua tristeza o tornaria ainda mais forte, e isso era ainda mais excitante para Yume.

- Então... vamos lutar! – disse Yume – "Se você imaginasse que eu mesma causei a dor que está sentindo agora, aposto que nossa luta seria inesquecível...!".

Os dois se colocaram frente a frente, para poder encarar-se durante aquela batalha, na qual Sesshoumaru já entrava como perdedor sem nem mesmo imaginar.