Capítulo II- A REVELAÇÃO
"Deus-Mar! por ti vimos o Eterno e a variedade:
a ti pedimos o que deste e o que negaste.
Se um dia foste em nosso lábio prata móvel,
branco alimento- um dia fomos, em teu lábio,
triste despojo, corpo vão, débil tributo...
Porque és assim, pra te amarmos e possuirmos,
e em ti deixarmos nossa vida, mudamente,
dada ao que for verdade e lei no teu mistério.
Deus-Mar, tranqüilo, e inquieto, e preso e livre, antigo
e sempre novo- indiferente e suscetível!
Em cada praia deste mundo te celebram
os que te amaram por naufrágios e vitórias,
e religiosos se renderam, convencidos,
à lição tácita dos símbolos marítimos.."
Sorento estava espantando com aquela aparição súbita. Tentava inultilmente achar uma explicação e tudo que aparecia em sua cabeça era falho. Ele sentia a força vinda de Julian, apesar de não estar possuído pela alma de Poseidon, algo ficara presente dentro dele para sempre. Sorento gostaria de poupar Julian dos acontecimentos, mas ele tinha o direito de saber.
-Calma Julian, vamos me solte e vamos conversar.
Julian afrouxa as mãos e solta o flautista. Sorento baixa a cabeça por um segundo e dá um leve suspiro. A noite estava longe de terminar.
-Mas este assunto não pode ser tratado aqui no meio da rua. Vamos para o seu barco. Lá podemos falar livremente.
Julian acaba concordando e sentia que algo muito sério estava por vir. De volta para frente do teatro, ele dispensa o motorista e joga as chaves do carro para Sorento, ordenando que dirigisse. Nenhum dos dois trocou uma única palavra durante o trajeto inteiro. Do local de onde estavam até o cais eram cerca de quarenta minutos.
No semblante de Sorento era notória a preocupação. Julian observava as luzes da cidade pelo vidro, com o pensamento em várias coisas, mas todos eram sempre voltados aquela noite, a noite do seu aniversário. Algum tempo depois eles chegaram ao estaleiro. Havia apenas uma pessoa lá tomando conta que estava tão bêbado que nem se importou com os dois visitantes, permitiu a entrada de ambos.
-Você tem certeza que aqui é seguro? Eu preferia chamar alguns seguranças para virem vigiar.
-Pode ficar tranqüilo qualquer problema eu posso dar conta facilmente.
Sorento pegou uma caixa no banco traseiro, lá estava sua flauta. Num tom irônico Julian responde:
-Uma simples flauta? Você é apenas um músico, ou será que é algo mais?
O silêncio era sua resposta. Desta vez Julian sentiu um brilho nos olhos de Sorento que o fez estremecer, não de medo, mas por ver que realmente havia algo muito maior ali. Ele acabou desistindo da idéia de ligar para os seguranças e ambos entraram no seu confortável barco. Lá dentro era puro luxo, digno de um herdeiro dos Solos. Havia sofás bem acochegantes e uma mesa com duas taças e alguns petiscos fechados. Ambos se sentaram, frente a frente. A hora havia chegado.
-Estou aguardando, pode começar.
Então após um breve instante de hesitação, Sorento começa a falar, não escondendo absolutamente nada. No rosto de Julian passava diversos sentimentos, mas nada superava seu profundo espanto. O tempo passava, mas nenhum dos dois sentia. Finalmente o sol havia nascido.
-E então isto é tudo, Julian. Acho que agora é capaz de compreender claramente as coisas.
"Esta estória é tão fantástica para ser verdadeira. Sorento deve ter enlouquecido, só pode. Imagine, eu um dia ter sido um deus...Poseidon. Mas ao mesmo tempo algo dentro de mim assinala que é verdade. Provas, deve haver algo que eu possa acreditar. Se ele realmente se diz ser um marina, deve me mostrar alguma coisa, alguma forma de poder...a flauta. "
Como que lendo seus pensamentos, Sorento se levanta e abre a caixa que tem a flauta.
-Só há uma maneira de lhe provar que tudo que disse é verdadeiro. Olhe atentamente e não tenha receio, meu destino estará sempre ligado ao seu, para lhe servir e proteger. Eu...
Uma cosmo energia enorme começa a crescer em torno de Sorento, num tom rosáceo, e então algo brilhante começa a surgir, o corpo de Sorento é todo coberto por uma armadura brilhante. Julian arregalou os olhos e estava perplexo, afundava cada vez mais sofá.
-...Sorento de Sirene.
"Não pode ser. não pode ser. NÃO PODE SER."
E de repente várias imagens rápidas que estavam trancadas em seu subconsciente vêem a tona. E neste instante ele sabia que tudo aquilo era verdade.
-O que eu fiz? O QUE EU FIZ?
-Você não fez nada Julian, foi apenas um instrumento da vontade divina.
-Vontade divina? Eu me sinto usado Sorento. Se eu não tivesse sido tão...tão ambicioso. Eu fui responsável por centenas de vidas, eu as destruí com estas mãos. - Ele não sabia se sentia mais raiva de si ou do deus. - Maldito Poseidon, porque tinha de escolher a mim? - Julian tremia de tanto nervoso, diante de tantos fatos. Um sonoro som ecôo pelo barco, Julian havia esmurrado a mesa com tanta força que sua mão começou a sangrar. Sorento assustado diante da reação tempestuosa dele tenta acudir, mas é fortemente repelido.
-Não, não se aproxime. Saia me deixe só.
-Mas...
-Saia agora. - repetiu ele num tom mais forte. Sorento simplesmente obedeceu.
"Saori quase a matei. Como fui capaz de tamanha monstruosidade? Eu devia estar louco. E estava, graças a Poseidon. Eu o odeio do fundo do meu ser. Me fez tornar um assassino. Nem todo meu dinheiro e nem que eu me dedique a vida inteira para ajudar aqueles que um dia feri será capaz de limpar minha alma."
Julian observa o mar, que ele tanto ama, que sempre lhe trouxe calma, agora via que lhe trouxera também dor. Do lado de fora do barco uma figura aguarda silenciosamente, olhando e vigiando. Compartilhando também de certa forma a amargura. O mar estava calmo e as ondas batiam suavemente nos rochedos, no céu nenhuma nuvem, apenas o sol brilhando fortemente, era a promessa de um novo dia.
