O mundo retratado não me pertence, e sim à Marion Zimmer Bradley, autora de "As brumas de Avalon".

Harry Potter, seu mundo e seus personagens TAMBÉM não me pertencem, a digníssima e genial J.K. Rowling foi mais rápida que eu (droga!)

CAP I – A HISTÓRIA DE ARWEEN

Arween cortava ervas na beira do bosque quando sentiu uma tontura forte, escorando-se no tronco de um carvalho centenário, a mão sobre os olhos.

- O que houve irmã? – Éowin correu em seu socorro, segurando-lhe o braço e fazendo-a sentar-se no chão musgoso.

- Lembra daquela perturbação que eu senti há cinco anos? Aquela onda maligna que desvaneceu-se de repente?

- Sim. O que houve?

- Está voltando, irmã. Está ficando forte novamente.

- Mas você acha que...

- Que vai voltar em breve? Não. O que quer que seja, ainda vai esperar mais tempo para voltar... Mas vai fazer de tudo para conseguir... É uma magia negra e muito poderosa... repleta de maldade e escuridão... e quer voltar de qualquer jeito para terminar o que começou... – o olhar de Arween estava desfocado, direcionado para os lados da Inglaterra. Ela desfaleceu e foi amparada pela irmã mais velha

- Arween... quando isso irá terminar?

Já fazia dez anos que as filhas do Povo das Fadas viviam entre os mortais, em uma pequena vila próxima de Dublin, na Irlanda. Elas viviam como curandeiras, preparando poções medicinais para os habitantes simples do lugar. A vila era primitiva, sem luz elétrica nem água encanada, do jeito que as irmãs queriam e estavam acostumadas. Os habitantes simples do lugar encaravam com medo e respeito as jovens, achando que elas eram benéficas feiticeiras, e não estavam muito distantes da verdade.

Há seis anos, Arween tivera muitas visões sobre um homem sombrio, maléfico e poderoso, e um bebê que não conseguia visualizar. Até o dia em que acordou sentindo-se mal e passou o dia inteiro presa em visões da queda de um homem que ela, em meio ao transe, chamava de Lord das Trevas. Depois daquele dia, a jovem Arween não teve mais visões sobre aqueles estranhos acontecimentos.

Até aquele dia, cinco anos depois, à sombra do carvalho.

As duas jovens chegaram em sua casinha, Arween fraca pela visão. Éowin deitou-a na cama e foi preparar um chá fortificante, quando a caçula deu um grito.

- Irmã! O que houve?

- Ele está chegando... o homem de alma obscura, o homem de coração dividido... ele está chegando, o momento do reencontro se aproxima... meu Destino... meu Destino se cumprirá... – com um espasmo mais forte a jovem desfaleceu, os cabelos longos espalhando-se no travesseiro, a pele morena empalidecendo fortemente.

- Arween! Arween!- a irmã mais velha tomou as mãos da caçula entre as suas, sentindo-as frias – Foi demais para ela, tantas visões em um dia, tanto tempo distante de casa, sem sentir o Poder... Amada mãe Cerydwen, não deixe nada acontecer com minha irmã, eu imploro... – Éowin acariciou o crescente azul tatuado na testa de Arween, o símbolo eterno das sacerdotisas da Deusa. – Transporta com cuidado minha pequenina através desse caminho...

Dois dias já que Arween jazia desacordada quando o forasteiro chegou ao povoado de Gweny e bateu na porta das irmãs fadas. Éowin não deixava a cabeceira da irmã, preocupada com essa demora em retornar ao Mundo. Muitas vezes ela murmurara durante o sono, e a irmã notara que ela andava perdida nas brumas do tempo, lembrando outras existências. Muitas vezes ela murmurara, com a mesma ternura, um nome de homem, sempre diferente, mas igual aos ouvidos de Éowin, que entendia ser ele o homem predestinado à jóia do povo das Fadas.

Num final de tarde foi que Éowin ouviu batidas na porta. Ergueu-se e, ao abrir, deu de cara com um homem que nunca antes vira. Ela sentiu a perturbação da alma daquele jovem, de pele pálida e cabelos negros, nariz adunco e olhos penetrantes. Ele vestia-se todo de preto, com uma longa capa de viagem.

- Pois não?

- Você é Éowin? – perguntou o estranho com voz grave, onde a fada sentiu um acento dolorido, imperceptível para os mortais. Ela assentiu – Os aldeões me falaram que você é curandeira, que sabe fazer poções.

- Bem, posso ser chamada de curandeira, se você preferir... quem é você?

- Você é bruxa? – ele disparou, à queima-roupa. Éowin entendeu a energia estranha que o rapaz emanava.

- Eu, não... mas você é. Posso sentir a magia dos druidas emanando de você.

- Bem, não posso negar, se você consegue sentir...

- E então, quem é você?

- Eu sou Snape... Severus Snape. Sou mestre de Poções, vim aqui em busca de ervas diferentes... e para aprender mais um pouco sobe as poções irlandesas... Alvo Dumbledore mandou-me procurar por você e sua irmã aqui.

- Entendo... mas no momento não posso atendê-lo, senhor Snape. Minha irmã está adoentada, e não pretendo deixar a cabeceira dela enquanto ela não estiver plenamente recuperada.

- Talvez eu possa ajudar...

- Se o meu poder nada pode, o seu também será inútil!! – Éowin explodiu em frustração – Há dois dias que uso todos os recursos ao meu alcance, mas meu poder está enfraquecendo... Enquanto a Lua Cheia não chegar e eu não recuperar meus poderes plenos, não poderei ajudar minha irmã...

Éowin sentou-se, parecendo muito velha e muito cansada. Severus compadeceu-se daquelas jovens, e esqueceu seus próprios sofrimentos por um momento.

- Desculpe, senhor Snape, desculpe pelos gritos.

- O que você quis dizer com...poder?

- Eu e minha irmã somos do Povo Antigo... somos Fadas. Ela não está doente, está fraca pela Visão que teve, só isso. Arween é muito jovem para os padrões de nosso povo, ainda não consegue lidar bem com a Visão... Já faz dois dias que está desacordada...

- Posso vê-la? – Severus sentiu um desejo repentino e inexplicado de ver o rosto de Arween, como se fosse essencial vê-la, como se disso dependesse todo o resto de sua existência.

- Sim. Venha comigo.

Éowin conduziu-o até os aposentos de Arween. A moça estava deitada, o rosto belo pálido, os cabelos negros espalhados pelo travesseiro branco, iluminada pela luz de uma lamparina a óleo.

- É...é tão bela...

Severus abaixou-se ao lado do leito, e passou a mão de leve nos cabelos dela. Arween estremeceu de leve e abriu os olhos, olhando para o teto. Éowin sufocou um grito, e Severus levantou-se, assustado.

- O que... o que aconteceu? – Arween perguntou, a voz enrouquecida.

- Você não resistiu à Visão, irmãzinha... faz dois dias que está inconsciente... – Éowin enxugou uma lágrima furtiva – Mas graças à Deusa você está bem!

- Sim... – Arween virou-se e se assustou ao constatar a presença do estranho – E quem é você?

- Sou Severus Snape

Arween olhou-o e seu olhar desfocou-se, enxergando sua aura cinzenta e repleta de dor, e as dúvidas em seu coração jovem. Um baque forte no peito fez os olhos de Arween encherem-se de lágrimas que ela não soube explicar: lágrimas de dor, de alegria, de desejo reprimido, de saudade. Ela baixou a cabeça, constrangida, e virou-se para a parede.

- É melhor você sair da cama, irmãzinha, e tomar um banho. Vou preparar o jantar. Talvez o senhor Snape fique para comer conosco? – ela virou-se para o rapaz, que ficou ruborizado.

- Bem... o caso, senhora Éowin, é que eu queria saber se vocês não tem um quarto disponível... não havia nenhum vago na hospedaria... – ele olhava para baixo, constrangido.

- Acho que não há problema, Éowin. – Arween manifestou-se, olhando para a cabeça curvada do moço com um sorriso a brincar-lhe nos lábios – O senhor Snape pode ficar com o meu quarto, e eu durmo com você. Pretende demorar-se?

Severus levantou a cabeça, um ar orgulhoso nos olhos.

- Depende do quanto vocês estiverem dispostas a me ensinarem.

- Isso, senhor Snape, dependerá só do senhor...

Severus Snape era um jovem de 26 anos na época em que conheceu as irmãs fadas. Era um homem amargurado e triste, que passara por muitos momentos ruins... Arrependia-se amargamente de seu passado sombrio como Comensal da Morte, um dos companheiros de Lord Voldemort. Severus arrependera-se a tempo, trabalhando como espião para o lado do Bem. Há cinco anos, Voldemort se fora, levando consigo os Potter. Severus jamais conseguira se livrar da culpa que sentira por Ter se regozijado com a morte de Tiago Potter, seu grande rival dos tempos de escola, e com a ida de Sirius Black para Azkaban, por Ter traído os amigos. Mas depois de cinco anos, seu coração conseguia aliviar uma parte da culpa que sentia, e ele já conseguia voltar a uma existência normal, dando aulas de Poções na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Fora Alvo Dumbledore quem o mandara para aquela pequena aldeia na Irlanda, dizendo-lhe para que procurasse duas jovens irmãs que viviam sozinhas. Segundo ele, elas eram mestras na arte da cura pelas ervas, e conheciam muitas poções que nem mesmo a bruxidade descobrira.

Ao deparar-se com as duas moças, Severus ficou espantado com a juventude das duas. Mas, se elas realmente fossem do Povo Antigo, como afirmaram, era a explicação. No entanto, o que mais o impressionara fora a beleza da mais jovem... Os olhos castanhos brilhantes, a pele morena, meio dourada, os cabelos negros muito lisos e macios, o corpo vigoroso, o sorriso largo e meio tristonho... Era difícil não ficar encantado com aquela figura, como se ela tivesse lançado um feitiço em seus olhos e – por que não admitir? – em seu coração.

Nos primeiros tempos, ambas as irmãs saíam com ele para buscar ervas, ensinando-lhe o preparo de poções delicadas e sutis, complicadas e demoradas, mas extremamente importantes e úteis. Mas, depois de três meses, Éowin afastou-se do convívio deles, pretextando uma viagem necessária ao País de Gales, em busca de ervas que só cresciam naquele litoral. No dia da viagem, no final da tarde, Éowin chamou a irmã para uma conversa à sombra do carvalho centenário.

- Eu não tenho tanta necessidade dessa viagem, Arween, - ela começou, sem rodeios – mas Severus tem. É preciso que ele recupere parte de sua alma, uma parte que só você pode restituir-lhe, irmã. Amor, é só isso que pode curar este homem.

- Acha que eu devo celebrar o Casamento...?

- Não, absolutamente! Sabe bem que não foi isso que a Rainha disse. Não deve celebrar o Casamento, Arween, mas entregar-se a ele quando a hora chegar, quando você estiver pronta para isso. Sei bem que já o ama, não é mesmo?

- Impossível esconder isso de você, irmã...

- Então, quando sentir que ele está pronto, entregue-se a ele, minha jóia. Mas fique avisada: não é do teu destino nem do dele que fiquem juntos agora. Ele irá fugir de você, depois que descobrir seus sentimentos... e os dele próprio. Ele tem medo de machucar e de ser machucado. Mas, quando você o amar, Arween, plantará a semente do bem no coração dele. E ele voltará, irmã, para buscar o que lhe será de direito... – o olhar de Éowin desfocou-se – Pois haverá um fruto da união de vocês, que trará felicidade para ti, e que juntará teu destino e o de Severus novamente, de forma definitiva... – Éowin fechou os olhos e respirou fundo, voltando do transe. – Bem, é tempo de partir, minha querida. Cuide-se.

- Sim, irmã. Que a Deusa te acompanhe em teus caminhos e te dê força e luz.

- Assim seja.

Éowin pegou sua pequena mala e subiu na charrete, açulando o cavalo com palavras na sua Língua. O animal saiu num trote lampeiro, deixando Arween olhando para a figura da irmã, que se distanciava cada vez mais depressa.

- Ela já foi? – a voz de Severus soou atrás dela. Ela virou-se e encarou-o .

- Sim, já. Só espero que não se demore. Nunca estivemos afastadas mais do que algumas horas... Eu não consigo lidar tão bem com a Visão quanto ela, e mesmo depois dos Rituais meu poder não é amadurecido o suficiente... Temo ficar afastada dela, Severus.

- Não se preocupe... – Ele deu um sorriso tímido e pôs a mão no ombro dela de leve, corando – Farei o possível para te ajudar a passar bem esses dias sem a sua irmã.

- Obrigada. – ela sorriu em resposta. Os dois ficaram olhando-se por um longo tempo, dois pares de olhos negros perdendo-se nas profundezas um do outro. Severus foi o primeiro a baixar o olhar, um pouco envergonhado. Arween sorriu e desvencilhou-se devagar da mão dele. – Vamos entrar, vou preparar algo para jantarmos. Já é Lua Minguante; quando a Lua Nova chegar, não poderei alimentar-me tão bem... – "...e nem ficar ao teu lado", completou ela em pensamento.

No primeiro dia da Lua Nova, Severus estranhou a ausência de Arween para o café da manhã. O quarto da moça estava vazio, mas ele encontrou um bilhete em cima do travesseiro.

Severus,

Durante a Lua Nova, as Sacerdotisas da Deusa devem recolher-se em isolamento, não podendo manter contato com o mundo exterior. Não comemos carne, não conversamos, não bebemos outra coisa que não água da fonte. É necessário que você fique sozinho estes dias. Aproveite para começar a maturação da poção Antariana. Não se preocupe comigo, estou em uma gruta próxima do lago, com víveres suficientes para toda a semana. Sempre fico aqui durante a Lua Nova.

Me espere no primeiro dia do quarto crescente. De preferência com uma boa refeição, tá?

Arween

Severus sorriu ao ler o bilhete, mas um aguilhão de preocupação picou-o. Uma semana sozinha, em uma gruta no meio do bosque... Ele viu que não conseguiria dormir direito. Mas, já que era necessário, ele iria dedicar-se à maturação da poção. Com a cabeça na beira do lago.

Na gruta escondida, na beira do lago, Arween entregava sua mente à Deusa e deixou-se dominar pela visão. Passado, presente e futuro passaram pela alma dela, e a figura de Severus estava sempre presente como uma sombra. A face oculta de Cerydwen revelava para sua filha e serva os segredos de seu Destino. Arween sabia que aquela vigília de Lua Nova seria decisiva.

Severus não conseguia desviar os olhos da orla do bosque, imaginando a toda hora se Arween estaria bem. A figura da fada fazia-se mais presente em seus pensamentos, mais freqüentemente o nome dela lhe vinha aos lábios. Conversando sozinho enquanto maturava a poção, ele via-se falando nas qualidades da moça, no quanto ela era encantadora e doce e serena e pura... No quanto ela era diferente dele.

Severus achava que não havia futuro para eles, e que era melhor esquecê-la como mulher. Ela nem mesmo era humana!

Pobre Severus, que não fazia idéia dos desígnios da Deusa...

Na última noite da Lua Nova, Arween e Severus tiveram o mesmo sonho.

Os dois estavam parados, frente a frente, em meio a um círculo de pedras. Arween estava com vestes de sacerdotisa, trazendo como sempre o símbolo da Deusa em sua fronte. Ela estava diferente, tinha cabelos ruivos, olhos cinzentos. Também Severus estava diferente, loiro e alto, de olhos azuis penetrantes, trazendo tatuadas nos pulsos as serpentes dos druidas. Ele olhou-a e acariciou-lhe o rosto.

- Meryann... sei que não tem outro jeito, mas me dói tanto te deixar...

- Kevin, meu amado, tenhamos fé nos desígnios da Deusa. Sinto que ainda nos encontraremos outra vez... – a voz dela falhou e ele abraçou-a, estreitando-a em seus braços fortes.

- Também sinto isso, meu amor... mas também sinto que vai demorar muito, muito... e que vou sofrer muito antes de te reencontrar... – ele abaixou a cabeça e beijou-a com carinho – Mas quando a hora chegar, serás minha de novo, eu sei...

Tanto Arween quanto Severus acordaram ao mesmo tempo do sonho, sentindo-se confusos e com um sentimento inexplicável de saudade pesando no peito...

Logo após o meio-dia, Severus estava colhendo acônito na orla do bosque quando avistou Arween. Ela vinha pálida e ligeiramente cambaleante, e o coração dele apertou-se ao vê-la daquele jeito. Correu ao encontro dela e amparou-a no momento certo, pois a fada desfaleceu em seus braços. Ele levou-a com cuidado para dentro de casa, deitando-a na cama e tirando-lhe os sapatos. Correu para fazer compressas frias de ervas revigorantes, e colocou-as com carinho sobre a testa, segurando as mãos frias dela entre as dele. Depois de alguns minutos, a moça abriu os olhos, viu-o junto dela e sorriu.

- Severus...

- Está melhor?

- Sim... creio que foi só fraqueza por não Ter me alimentado... passar uma semana a base de ervas não é muito fácil...

- Agora você precisa comer algo mais forte, Meryann...

- Do que você me chamou? – ela soergueu-se na cama, olhando direto nos olhos dele.

- N-não sei... – ele murmurou, confuso – Quis falar o seu nome, mas... – ele baixou a cabeça, um ar de confusão enorme no rosto. Arween passou a mão de leve nos cabelos dele e sentiu que, a despeito da aparência oleosa, eles eram macios e suaves. Ela encostou o rosto na cabeça dele e suspirou.

Severus então ergueu o rosto e tomou-lhe os lábios de repente.

Arween sentiu como se já houvesse provado do beijo dele mais de uma vez. Era como se ele tivesse estado distante e agora voltasse para ela, para o lugar que lhe cabia de direito. Severus sentiu alguma coisa romper-se em seu peito, uma alegria infinita, que jamais sentira, e tudo que queria era provar o sabor de Arween, sentir-lhe o calor do corpo, amá-la.

Ele continuou beijando-a enquanto suas mãos corriam pelo corpo da moça, procurando o fecho do vestido simples e comprido que ela usava. Arween deixava suas mãos correrem lentas pelas costas de Severus, sentindo ele despi-la. Quando viu-a nua, ele teve um assomo de ternura, e correu com a ponta dos dedos toda a extensão do corpo moreno. Em seguida, ele tirou as próprias roupas, deitando-se junto dela na cama, abraçando o corpo da fada, sentindo-lhe o calor suave da pele macia. Ele encostou o rosto no dela e sorriu. Arween sentiu que poderia ficar assim, junto dele, o resto de sua vida.

Severus correu a mão dos ombros até a cintura dela com delicadeza, sentindo ela arranhar-lhe as costas e o peito com carinho. Ele beijou os lábios dela com paixão e ouviu-a suspirar.

Sentindo a alma plena de paixão e ternura, eles se amaram.

Depois do clímax, exausto e feliz, Severus recostou-se entre os seios de Arween, um sorriso no rosto, e adormeceu. Ela ficou acordada, recostada na cama, acariciando-lhe os cabelos negros e velando-lhe o sono. Até que a Lua atingiu seu apogeu no céu noturno e ela caiu num sono pesado, sossegado e satisfeito.

- É preciso, Severus. Precisamos de alguém entre os Comensais!

- Eu sei, Alvo, e estou pronto para os riscos.

- Os Potter devem pagar, Severus! Por três vezes me desafiaram e escaparam impunes! Eles devem pagar!

- Sim, milorde, Potter deve pagar... Mas vai ser difícil pegá-los agora, Dumbledore está de olho neles, Lílian Potter está grávida, milorde sabe...

- Sim, eu sei...

- Alvo, ele quer pegar Tiago e Lílian! Diga a eles que se escondam, rápido!

- Sim, é preciso... mas Lílian não vai querer esconder-se agora, não antes do bebê nascer...

- Mas é preciso, Alvo!

- A decisão e o risco só cabe a eles, meu caro...

- Tiago encontrou um bom esconderijo, Severus. Ele, Lílian e o pequeno Harry vão para lá depois de amanhã.

- Faça-os usar o feitiço Fidellius, Alvo, por segurança.

- Sim, eu farei... creio que eles escolherão o jovem Sirius como Fiel do Segredo...

- É o mais provável... diga-lhes isso, Alvo. Black jamais trairia os Potter.

- Severus, aconteceu o pior. Sirius traiu o segredo dos Potter.

- É impossível, Alvo! Ele e Tiago são como irmãos!

- Mas Sirius caiu para o lado das Trevas, meu caro. E Lílian e Tiago estão mortos.

- Não, por Merlin, não... e o pequeno Harry?

- Escapou, ainda não sei como... mas agora está órfão...

- E... Voldemort?

- Ele se foi, Severus. Por Enquanto.

- Tiago e Lílian mortos... é tudo minha culpa, Alvo...

- Não, Severus, não é...

- Minha culpa, minha culpa...

Severus acordou murmurando, suado, assustado, esfregando convulsivamente o antebraço direito com a mão esquerda. Ele viu Arween recostada em seu peito, e uma dor imensa tomou conta de seu coração. Ela não merecia alguém como ele, alguém sujo, obscuro, dividido. Tão jovem, tão linda, tão poderosa, tão pura... Doía, mas ele tinha que partir. Sabia, de algum modo, que esse momento chegaria. Ele não poderia ser dela enquanto não estivesse livre de todas as dores e dúvidas que tomavam seu ser, enquanto ele não estivesse limpo e renovado. Ela iria sofrer, mas era preciso.

Levantou-se com cuidado para não acordá-la. Foi até o outro quarto e arrumou rapidamente sua valise. Vestiu-se depressa e escreveu às carreiras um bilhete, em um pedaço de pergaminho. Voltou ao quarto onde a fada dormia um sono tranqüilo e sem sonhos, sentindo a alma pesada de tanto amor ao olhar para ela. Deixou o bilhete ao lado do travesseiro e abaixou-se, beijando-a com carinho nos lábios uma última vez.

- Um dia, minha fada. – ele sussurrou, acariciando de leve os cabelos dela – um dia estaremos juntos de novo, meu amor.

Severus então partiu, com a noite ainda pesada sobre a terra, e um negrume de amargura em seu coração.

Éowin voltou depois de quase seis meses no País de Gales. Avistou a figura da irmã, de costas, colhendo flores de camomila no jardim da casa. Ela gritou de longe.

- Arween!

Arween virou-se, um sorriso no rosto, os olhos brilhantes e cheios de uma alegria e uma luz interiores. A barriga de cinco meses sobressaía sob a túnica que ela usava, junto com calças de algodão e um par de botas. Ela acenou para a irmã mais velha, uma das mãos nas costas, sustentando o peso.

Éowin desceu da charrete e tomou a irmã nos braços, cheia de saudade e alegria. Lágrimas assomaram-lhe aos olhos.

- É um menino... – ela murmurou, a mão na barriga da irmã – E de grande poder mágico... ele será Grande entre os Grandes, minha jóia...

- Sim, eu sei... A Visão tomou-me na manhã em que Severus partiu, e eu vi nosso filho em um grande salão de pedra, junto com uma bela menina de cabelos azulados...

- Ele partiu, então, irmã?

- Sim... mas eu sabia que isso aconteceria, Éowin, estava escrito que nós teríamos que nos separarmos. Ele precisa superar seus medos e dores antes de ser feliz de novo. Mas chegará o dia em que ele virá buscar o que lhe é de direito... Aurelius.

- É um bonito nome para seu filho, irmã.

As duas se abraçaram e entraram em casa. Arween resplandecia com uma luz interior maravilhosa, seus olhos como duas estrelas negras, um sorriso constante nos lábios. A gravidez foi relativamente fácil, a moça não passou mal, alimentou-se bem e teve um ganho de peso razoável. A medida que o dia do parto se aproximava, Arween se sentia expectante, como quem espera um reencontro com um ser muito amado.

E então, no alvorecer da véspera de Samhain (dia 31 de outubro), ela acordou sentindo as dores. Tranqüilamente, preparou a cama com lençóis limpos, uma tina com água da nascente onde banhar o nenê e a roupa com que ele seria vestido. Foi sozinha até o lago, e no caminho sentiu a bolsa romper. Banhou-se, vestiu uma camisola branca e um longo casaco e voltou com passos vagarosos para casa, parando escorada nas árvores a cada acesso de dor. Entrou em casa e só então acordou a irmã, que dormia em seu quarto.

- Éowin... Éowin, acorde... – Éowin abriu os olhos, espreguiçou-se e olhou a irmã, um clarão de compreensão em seus olhos.

- Está na hora?!

- Aham...

Éowin ergueu-se e vestiu depressa um vestido de andar em casa. Segurou o braço da irmã e levou-a até a cama já pronta. A testa de Arween estava coberta de suor, mas um sorrisolhe tomava os lábios em meio a dor.

O parto foi fácil, e a fada quase não sentiu dor. Depois de cerca de duas horas, Aurelius nascia. A irmã pôs em seus braços uma linda criança. Suave penugem negra lhe cobria a cabeça, e os traços eram os de sua mãe. Mas se via que ele ainda teria motivos para afirmar que era filho legítimo de Severus Snape. Arween sabia. O bebê era robusto e saudável, e Arween conseguia sentir o poder do Povo Antigo emanando do corpinho recém-nascido. E um poder diferente, que ela ainda não podia afirmar com certeza o que seria...

O nenê foi limpo e vestido, e Arween adormeceu em sua cama abraçada ao filho, o quarto cheirando a camomila, e o som suave e triste de sua irmã mais velha cantando na Língua Antiga.

DEZ ANOS DEPOIS...

- Aurelius! Ai, onde esse menino se meteu? – Éowin saía de dentro de casa, e deu de cara com a irmã, que plantava uma muda de avenca, ajoelhada ao lado do canteiro de ervas.

- Onde seu filho se meteu, Arween? Está na hora da lição da manhã e ele não aparece!

- Já experimentou procurar na beira do lago? Ele tem uma predileção por aquele lugar... e desconfio que tem exercitado alguns poderes que quer esconder da gente... – Arween respondeu, um sorriso maroto no rosto.

- O que você quer dizer com isso?

- Quero dizer, cara irmã, que a herança paterna dele está começando a se manifestar... e que em breve Severus virá a nós novamente. – os olhos de Arween brilhavam descontrolados, entrando e saindo de foco, numa manifestação surpreendentemente forte da Visão – O destino de Aurelius começará a se cumprir em breve, e também o de seu pai... e o nosso... prepara-te, Éowin, pois quando Aurelius partir o homem de aura dourada virá a ti... – Arween cambaleou e encostou-se na parede da casa. Depois de tantos anos, ela já conseguia dominar melhor seu poder, e a Visão já não a afetava tanto. Respirou fundo e encarou a irmã, que tinha um brilho entre feliz e assustado no olhar. Sorriu e levantou-se. – Vamos encontrar o danadinho.

Arween encaminhou-se para a orla do bosque e chamou com voz doce.

- Aurelius, querido, venha até aqui...

Depois de um minuto, ouviram-se passos, e a figura de um rapazinho apareceu por entre as árvores. Ele era alto para seus dez anos, e magro. Tinha cabelos negro-azeviche, mais negros ainda que os de sua mãe, e olhos negros e penetrantes. As feições eram do povo das Fadas, mas a palidez romântica, o ar altivo e o sorriso demonstravam que eram filho de Severus. O garoto aproximou-se da mãe e abraçou-a com carinho.

- Onde você andava, meu amor?

- Na beira do lago, mamãe. – A voz dele era grave e profunda apesar da idade. Arween olhou a irmã com cara de "não te disse?" – Gosto de ir até lá para... pensar.

- Mas não na hora das suas lições, Aurelius! – falou Éowin, tentando dar um tom seco à voz mas não resistindo à ternura que sentia toda vez que via o sobrinho. – Podia deixar para ... "pensar" depois que fizesse suas lições.

Aurelius ergueu o rosto, um ar leve de desafio nos olhos, as maçãs do rosto rosadas.

- Mas eu estava aprendendo coisas, tia. Coisas que... não sei como vieram parar na minha cabeça, mas que estão lá. Eu acho que é algo que tem a ver com meu pai...

- Por que você acha isso, querido? – Arween quis saber.

- Por que tenho sonhado com ele. Um homem alto e magro, sempre de preto... dando aulas, eu acho, em um castelo enorme... e sempre implicando com outro homem, que tem uma cicatriz na testa... e conversando com um velho engraçado, de cabelos compridos e óculos... acho que ele vem me encontrar, mãe. E vem logo.

- E como você sabe?

- Eu sinto. É só.

Aurelius entrou docilmente em casa. Arween e Éowin entreolharam-se, um raio de compreensão passando entre as duas. O garoto iniciava-se na Visão, sem o saber. Éowin baixou a cabeça e entrou atrás de Aurelius em casa, deixando a irmã no jardim.

Com um suspiro fundo, Arween agachou-se e continuou plantando as mudas de avenca; elas eram necessárias para um certo tipo de poção muito eficaz para curar doenças infantis. Foi quando sentiu a nuca queimar, como se um bom fogo fosse aceso em suas costas, e seu coração aqueceu-se repentinamente, acelerando. Ela abriu um grande sorriso e falou sem mesmo se virar.

- Sou eu mesma, Severus. Aproxime-se.

Ela ergueu-se sem dificuldade e virou-se, encarando o homem que não via há quase onze anos. Levou um choque ao observar os olhos negros que tanto amava: estavam velados por uma sombra de amargura e desespero que doíam como uma facada em sua alma. Rugas de expressão marcavam aquele rosto adorado, e o ar amargo em torno da boca lhe queimava a vista. Ele estava magro, terrivelmente magro, e a olhava com uma expressão mista de saudade e dor e desejo e ternura e tristeza. Ela deu um sorriso, tirado do fundo de sua dor ao vê-lo assim destruído, e ergueu a mão lentamente para tocar-lhe a face.

Severus puxou-a de encontro a ele e afundou o rosto nos cabelos bastos e negros da fada, aspirando-lhe o perfume de madressilva. Antes que pudesse controlar-se, lágrimas escaparam de seus olhos, e ele soluçou abraçado a ela.

- Arween... minha Arween... tanto tempo, tanto tempo...

Fazendo um esforço enorme para não chorar, Arween ergueu a cabeça e olhou nos olhos dele com imenso carinho, acariciando os cabelos negros, macios e lustrosos. Ele fechou os olhos ao sentir a carícia suave, e virou a cabeça para beijar as mãos dela. Abriu os olhos e fez menção de falar, no que foi interrompido por Arween, que cobriu os lábios dele com os dedos e assentiu com a cabeça. Ele abraçou-a com mais força, sussurrando-lhe:

- E como ele é?

- Você já vai saber...

Aurelius vinha saindo de casa, mexendo em uma bolsa gasta de couro, vestindo calças jeans e uma camiseta larga.

- Mãe, me consegue mais losna? Preciso fazer aquela poção revigorante para o irmão da Allison e o meu estoque aca... – ele ergueu os olhos e viu o homem que estava junto com sua mãe, parecendo não espantado, mas apenas surpreso, como quem vê o pai ou a mãe chegar mais cedo do trabalho – Pai?

Severus olhou do rapaz para Arween, como que perguntando como ele sabia.

- Ele já tem a Visão... ainda é incipiente, mas já funciona muito bem.

Ele aproximou-se do filho e abaixou-se, para que ficassem da mesma altura.

- E como é seu nome, meu filho?

- Aurelius. Eu também sou bruxo? – ele disparou, à queima-roupa. Severus sorriu. O garoto era realmente parecido com ele.

- É, sim. E é por isso que eu estou aqui. Chegou a hora de levá-lo para conhecer o meu... não, o nosso mundo. Você já está na idade de freqüentar a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Vim para levá-lo comigo, Aurelius.

- Eu sei. Durante o ano com seu pai, nas férias com sua mãe, até que os caminhos dos dois se juntem de novo de forma definitiva e sua primeira missão esteja cumprida, foi assim que ela me disse.

- Ela quem? – quis saber Arween, intrigada.

- A Rainha, mãe. Ela veio conversar comigo algumas vezes, na beira do lago.

Arween não pôde esconder a surpresa. Éowin, que vinha saindo, foi abordada pela irmã de forma brusca.

- Você sabia?

- Não. Mas imaginava que alguém andava ensinando Aurelius a controlar sua Visão melhor do que eu...

Arween abraçou o filho forte e carinhosamente. Lágrimas vieram aos seus olhos, que ela fez de tudo para conter.

- Você entende que é necessário, não entende?

- Entendo, mãe. E vai ser bom aprender coisas novas... e não Ter a tia Éowin ralhando comigo toda hora. – deu um risinho maroto.

- Então vá fazer suas malas. Sua tia o ajudará.

Aurelius e Éowin entraram em casa de mãos dadas. O garoto já estava quase do tamanho da tia, que era muito pequenina, como os fadas geralmente o são, tendo pouco mais de um metro e meio. Severus olhou para Arween e avançou, acariciando-lhe o rosto, uma interrogação muda no olhar. Ela balançou a cabeça.

- Ainda não, Severus. Você ainda não está pronto. – ela sentiu a tontura característica da Visão e logo entrou em transe – Você ainda tem de aprender a amar as diferenças de seu filho, e de respeitá-lo como o ser poderoso que ele é... você ainda tem que perder o orgulho e aprender a admitir seus erros e fraquezas... ainda tem que aprender a amar e perdoar...

Arween respirou fundo e recostou-se em Severus. Ele abraçou-a com mais força e beijou-lhe os cabelos.

- Mas um dia...?

- Sim, meu amado. Um dia você estará pronto. E não vai demorar tanto assim...

- E obedeça seus professores, seu danado.

- Sim, tia.

- Não esqueça de tomar aquela infusão de ervas que te ensinei, esse inverno vai ser bem rigoroso.

- Não vou esquecer, tia. Até logo!

Éowin afastou-se para que a irmã ficasse à vontade para despedir-se do filho. Ela ergueu a mão e traçou um crescente na fronte do garoto.

- Que a Deusa te acompanhe e te dê luz em teus caminhos, meu filho.

- E que Ela esteja sempre contigo, mãe.

Eles se abraçaram com força e o garoto depois se afastou em direção ao pai, que o esperava na orla do bosque. Os dois sumiram em meio às árvores. Arween sentia como se outro pedaço de sua alma estivesse sendo levado embora.

- Não chore, irmã. Sabe que ele é um menino forte, e em breve vocês estarão juntos... e eu falo dos três.

Arween sorriu, tristonha.

- Que acha de uma volta até o litoral? Acho que Celtwyc consegue cobrir a distância em duas horas, duas horas e meia... – ela falou, para distrair sua mente e sua irmã dos seus pensamentos tristes.

- Acho ótimo. Vou colocar uma roupa mais apropriada para montar, enquanto você sela Celtwyc.

- Sim.

Arween foi em direção do estábulo quando a Visão a acometeu: ela viu um homem de longos cabelos azulados na beira do mar, com as ondas batendo em seus pés, um homem que parecia irradiar um brilho dourado... quem seria?

N/A: Banzai!!!!! Terminei, finalmente este capítulo! Mil perdões pela demora!!!!!!!!! Essa fic tem ligação com outra fic minha " Can You Feel the Magic in The Air?", então é bom ler as duas... hihihihi... Até o final da próxima semana, A história de Éowin e o final desse interludiozinho sobre as irmãs fadas... final que na verdade será um novo começo...

Bjins da Éowin!