DISCLAIMER: O mundo retratado não me pertence, e sim a Marion Zimmer Bradley, autora de "As brumas de Avalon".

- Harry Potter, seu mundo e seus personagens TAMBÉM não me pertencem, a digníssima e genial J.K. Rowling foi mais rápida que eu (droga!).

- E adivinha? CDZ e seus personagens TAMBÉM não me pertencem, os direitos autorais cabem ao honorável Masami Kurumada. Arigatou, Kurumada-sensei!

- Ah, as citações sobre a gravidez dos Cavaleiros pertencem à minha mais que querida Pipe-sensei, genial ficwriter e eterna fonte de inspiração, na fic "Após uma festa de Baco". Essa fic tem ligação com a Can You feel the magic in the Air, como minha digna sensei o sabe. E os personagens da dita fic (filhos dos cavaleiros, etc) são todinhos dela!

- Só pra garantir... Gente, as informações "detalhadas" sobre as fadas, os rituais e canções descritos foram, em sua maioria, inventados por mim, usando uns muy parcos conhecimentos que possuo. As informações não devem ser levadas mais a sério que qualquer outra coisa nessa fic. Por favor, se qualquer pagão se sentir ofendido com os erros da minha interpretação das religiões politeístas, mande-me um e-mail, vamos conversar para que eu aprenda mais e não cometa erros em projetos futuros. O mesmo aviso vale pra minha outra fic, Can you feel the magic in the air?

Now… Enjoy the fic!

CAP II – A HISTÓRIA DE ÉOWIN

Na beira da praia, Arween observava sua irmã mais velha, que contemplava o oceano do alto de uma duna. A figura pequena e frágil de Éowin podia ser confundida com a de uma garotinha, não fosse o corpo notadamente feminino. A fada andava para lá e para cá, inquieta, num silêncio de expectativa. Ela só não sabia o que esperar.

- Éowin! Desce daí e vamos caminhar na beirinha da água!

Éowin desceu da duna e juntou-se à irmã. As duas foram caminhando lado a lado, aparentemente em silêncio, mas mantendo uma espécie de "conversa mental" sobre o pequeno Aurelius. As duas iam espadanando a água das ondas que vinham morrer na praia com os pés, olhando para baixo, sorrisos idênticos e tristes nos rostos.

Até que sentiram a presença de mais alguém, uma pessoa que não fazia o mínimo esforço para dissimular uma energia vital incrivelmente poderosa e confusa.

Levantando o olhar, depararam-se com a figura de um homem, parado de frente para o mar. Os cabelos longos e azuis esvoaçavam com a brisa da tarde, e as ondas batiam nos pés calçados com botas. O estranho vestia calças de camurça marrom e uma camisa branca meio aberta no peito, que subia e descia em uma respiração profunda e compassada. Os olhos profundamente azuis estavam perdidos nas lonjuras do oceano, como se procurasse por algo. Éowin sentiu-se magnetizada pela figura do estranho, uma estranha euforia tomava seu coração ao enxergá-lo. Lembrou-se das palavras da Rainha. Concentrou-se e, desfocando o olhar, conseguiu visualizar a aura do estranho... Uma energia dourada, que o cobria como uma nuvem brilhante, mas ao mesmo tempo tinha um lado obscuro, como a face oculta da Lua. As palavras da Rainha vieram com nitidez à sua mente: " O homem de duas faces e aura dourada virá a ti...".

Éowin quis aproximar-se do jovem, sentindo-lhe a energia vital um tanto agressiva. No momento em que ia chegar mais perto, sentiu a energia aumentar assustadoramente. O estranho ergueu um dos braços, e uma onda enorme levantou-se com o movimento de sua mão. Ele projetou a mão para a frente, e a água inverteu seu fluxo por um momento, como se um tampão tivesse sido aberto. A fada sentiu que aquilo era só uma forma dele extravasar a raiva, ou talvez a frustração. Ouviu, com sua audição aguçada e bem treinada, ele murmurando para si mesmo.

- Maldito Julian... não sei porque fui atrás de você, não sei que maldita idéia eu tinha na cabeça quando despertei Poseidon... quando despertei o mal que dormia em mim e em meu irmão... dor e sofrimento, foi só o que provoquei... Athena devia ter me deixado morrer no Cabo Sunion, mesmo que eu tenha me arrependido e assumido a armadura de Gêmeos quando Saga morreu a primeira vez...O Dragão Marinho sempre vai dormir dentro de mim... como Ares dorme em Saga... e eu tenho medo que desperte de novo...Maldição! Nem mesmo a morte me purificou, o que eu devo fazer para dominar esse lado obscuro, essa outra face? O mar tem me chamado com mais força nesses últimos dias... mas eu preciso de algo que me prenda definitivamente à Terra... para nunca mais ouvir com saudade o canto das ondas... minha punição não foi suficiente... Milo devia ter me matado...

Nesse momento, o estranho sentiu uma dor forte, lembrança dolorida de algum confronto. Fechou os olhos e apertou-os com força. Mas a dor refletiu-se em Éowin, que estava completamente afinada com a alma e a aura dele. Mesmo sendo uma fada, era uma mulher franzina, e a dor foi forte demais para ela. Soltou um grito abafado e caiu nos braços de Arween.

- Éowin!

O estranho ouvira o grito de Éowin, e virou-se, com o rosto fechado. Ao deparar-se com a cena da jovem caída no colo da irmã, sentiu uma pontada de culpa, sem entender o motivo. Correu ao encontro das duas, enquanto Arween deitava a irmã na areia com delicadeza. Ele aproximou-se e olhou para o rosto moreno e miúdo, emoldurado pelos cabelos negros, sentindo como se algo fosse arrancado de dentro do peito dele, uma amarra, uma algema, e ele se sentiu subitamente mais leve, mais livre.

- Algum problema, moça?

- Acho... acho que foi só uma vertigem, minha irmã anda com a saúde abalada, senhor...

- Kanon, meu nome é Kanon. Vocês moram por aqui, senhorita? Querem uma carona até em casa, talvez?

- Eu ficaria agradecida, senhor Kanon, mas nós viemos a cavalo, e não gostaria de deixar o pobre Celtwyc aqui...

- Bem, eu posso arrumar um estábulo onde ele possa ficar até amanhã, levo as duas para casa e amanhã lhes devolvo o cavalo. Onde vocês vivem?

- Em Gweny.

- E vieram a cavalo até aqui! – ele observou as calças justas e as blusas soltas das duas, bem como suas botas de couro. Kanon tomou Éowin com delicadeza no colo, fazendo sinal para Arween segui-lo – Meu carro está parado ali atrás das dunas. Vou levá-las, e depois volto para buscar o cavalo.

Arween assentiu. Kanon levou-as até um conversível azul-escuro, ajeitando Éowin no banco de trás. Arween sentou-se junto da irmã e deu um assobio longo e triste. Um cavalo negro apareceu resfolegando, e aproximou-se do carro relinchando. Arween dirigiu-se ao animal na Língua Antiga.

- Fique aqui, Celtwyc, até que este mortal venha buscá-lo de novo. Ficaremos bem.

Kanon ouviu as palavras ditas em uma língua cantada e suave, que ele achou semelhante à língua dos antigos celtas, que aprendera durante suas andanças pela Irlanda, nos últimos dois anos.

- Ele estará aqui quando voltar. – afirmou Arween – Podemos ir.

Sem mais palavra, Kanon arrancou, saindo a toda velocidade. O trajeto foi feito em silêncio, Arween acariciando os cabelos da irmã e cantarolando em sua própria língua, Kanon perdido em seus pensamentos. Ao chegarem a Gweny, Arween saltou do carro com desenvoltura, levando a irmã nos braços. Kanon correu para acompanhá-las, e entrou na casa simples das moças, mesmo sem ser convidado. A fada deitou sua irmã mais velha na cama larga de casal, e despiu a camisa dela, dando um grito de surpresa. Por todo o tórax de Éowin espalhavam-se manchas avermelhadas, como de ferroadas de um inseto particularmente grande. A maior delas, na altura do coração. Kanon deu um grito abafado.

- O que foi?

- Não... não foi nada...

" Parecem as marcas da Agulha Escarlate... mas como pode ser? Não há como ser coincidência eu lembrar daquela noite e essa mulher aparecer com as mesmas marcas... inclusive a de Antares... Tem algo muito estranho nisso e eu vou descobrir o que é..."

- Ahn... senhorita? Eu... tenho que ir. Volto amanhã pela manhã, trazendo o seu cavalo. Estimo as melhoras para sua irmã.

- Eu agradeço, senhor Kanon. Até amanhã.

Kanon saiu em silêncio da casa, querendo ir investigar pela aldeia quem eram aquelas mulheres de cabelos negros e olhos de mistério. Decidiu aproveitar o final de tarde para fazê-lo. Sabia exatamente a quem consultar. No dia seguinte, saberia com quem estava lidando.

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Arween viu a irmã abrir os olhos devagarinho, com dificuldade, e a viu sussurrar palavras que não faziam sentido.

- Onde está Milo... e Saori... preciso protegê-la, preciso... – devagar ela retomou a própria consciência e abriu os olhos assustada, tentando erguer-se. Fez uma careta de dor e tornou a deitar-se – Ai, que dor... que aconteceu comigo, em nome da Deusa? Parece que foi atingida por um bando de abelhas gigantes e enfurecidas... e que hematomas são esses? Só me lembro de estar na beira da praia e...

Uma luz acendeu-se em sua mente. É claro! O estranho parado na beira da praia. Estava afinada com os pensamentos dele, quando uma imagem estranha lhe veio a cabeça... um homem de cabelos azul-escuros vestindo um traje dourado, que o atacava em uma sala do que parecia um templo grego... O nome que ela ouvira ser pronunciado pelo homem de dourado... como era mesmo...

- Kanon! – ela exclamou, com um sorriso de triunfo – É esse o nome dele, não é? Kanon!

- Sim, é esse mesmo. Você reparou...

- Na aura dele? Claro! – Éowin levantou-se, agitada, reprimindo uma careta de dor – Tenho que vestir meu traje branco e ir até o lago... É noite de Lua Cheia, e eu preciso entrar em contato com a Rainha! Tenho que esclarecer algumas coisas com as quais sonhei... – mas não disse para a irmã quais eram.

- Éowin... tens certeza de que estás em condições?

- Convenhamos, Arween, que esse não é o melhor momento pra pensar se estou ou não em condições de usar a Visão. É uma questão de necessidade! – Éowin esvoaçava em torno da irmã, vestindo o traje cerimonial e pegando a bolsa com os instrumentos necessários. Apesar do andar um pouco dificultado pela dor, ela parecia radiante, feliz como há tempos não se sentia.

- Éowin, eu preciso avisar...

- O quê? – ela perguntou, já com a mão na maçaneta da porta.

- Ele virá aqui amanhã...

- Ótimo! Assim já saberei o que preciso fazer.

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Com a lamparina de bronze na mão, Éowin ia iluminando o caminho até o lago, pelo meio do bosque. Trazia consigo o jarro de prata e um pouco de óleo para a volta. Ao chegar na beira do lago, largou suas coisas e descalçou as sandálias, sentindo o contato com a terra fria e úmida restaurar-lhe as forças mágicas. Foi quando ouviu um ruído, como um farfalhar de vestes. Virou-se em direção aos carvalhos.

- Quem está aí?

Viu então uma figura pequenina, de cabelos negros e curtos e toda vestida de preto, sair do maciço de árvores e adiantar-se em direção a ela.

- Lilyth!

A moça de cabelos curtos sorriu e correu a abraçar a amiga, que não via há muitos anos. As duas moças ficaram muito tempo unidas num abraço fraterno até que Éowin, com lágrimas nos olhos, afastou-se e olhou o rosto da amiga, sorrindo.

- Que aconteceu com teu lindo cabelo comprido, Lilyth?

- Não me chamo mais Lilyth, Éowin. Desde que ingressei de corpo e alma no serviço da Deusa, chamo-me Salem.

- Então resolveste dedicar-te completamente ao serviço da Mãe? És agora uma das virgens sagradas do País do Verão!

- Sim, e não sabes como foi difícil tomar essa decisão... mas quando a Deusa chama é difícil não responder a ela. – Salem sorriu, os olhos estreitos brilhando com uma luz negra e insondável – Mas não foi para falar da minha iniciação que vim aqui!

- E para que foi?

- Trouxe-te um recado da Rainha Aine. Ela sabia que virias procurá-la, e achou melhor mandar-me para que eu transmitisse o recado.

- E o que ela manda dizer?

- Que esperes até Beltane. Até lá, terás tempo de conhecer bem a ele e de ler o que vai em sua alma. Na noite de Beltane Aine fará com que ele venha até ti. Acenda uma fogueira na clareira dos carvalhos centenários e prepare tudo para os ritos do sabbat. A Rainha também disse que é para fazeres os ritos de acordo com o que teu coração ordenar... pois assim saberás que é a Deusa quem toma conta do teu corpo, através da energia sagrada do Amor.

- Os ritos de Beltane... então...

- Não. Ainda não nascerá um fruto dessa união, Éowin. Na verdade, levará um tempo até que ele amadureça o coração para que possam criar seus filhos de maneira adequada. Mas não se preocupe, eles virão e serão fortes e poderosos. – Salem sorriu – E cuide bem dele... Sei que deve ser um homem especial, já que está destinado a ti, Éowin, a Mensageira do Povo Antigo.

Éowin sorriu e abraçou Salem apertado, pois sabia que tão cedo não a veria novamente.

- Que a Deusa esteja sempre contigo, Salem, Guardiã das Tradições, e que possas retornar em breve para cá... sinto falta da nossa amizade.

- Que a Deusa te abençoe três vezes, amiga... e eu estarei de volta quando menos esperar... Verás!

Salem sumiu-se sem ruído no maciço de árvores. Éowin ainda ficou muito tempo na beira do lago, meditando e restaurando suas forças para a luta que viria a travar com aquele homem nos próximos meses.

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Éowin estava no jardim, colhendo ervas, quando Kanon retornou, trazendo Celtwyc pela mão. O animal estava dócil e obediente, e relinchou alegre ao avistar uma das donas. A fada ainda sentia as marcas latejarem, mas conteve uma careta de dor ao erguer-se para cumprimentar o rapaz.

- Senhor Kanon, não é mesmo? – ela adiantou-se sorrindo, com a mão estendida – Agradeço-lhe profundamente o favor que prestou a mim e a minha irmã. – Kanon tomou a mão estendida da moça e beijou-a

- O prazer é meu em vê-la bem, senhorita Éowin. Cá está seu cavalo, como combinado com sua irmã. – ele entregou as rédeas de Celtwyc, que lambeu a mão da dona.

- Por favor, sem formalidades! Me chame apenas de Éowin. – ela sorriu e virou as costas, conduzindo o cavalo até o estábulo. Kanon seguiu-a em silêncio. – O senhor não é inglês... deixe-me ver... grego. Acertei? – ela virou-se e encarou-o. Ele sorriu, acanhado.

- Só Kanon, por favor. E sim, sou grego. Mas imagino que não seja difícil pra você e sua irmã saberem... sendo quem são. – o sorriso alargou-se em triunfo. Éowin não pode deixar de rir alto.

- Nunca se está a salvo em uma cidadela pequena. Basta ajudarmos meia dúzia de camponeses e já nos taxam de feiticeiras!

- De Fadas, na verdade. – Éowin parou de rir. - Conversei com o velho druida que mora na parte mais isolada da aldeia, Gawen. Eu já o conhecia, de minhas andanças pelo país. Ele contou-me a verdade sobre vocês.

- De todos os velhos com quem você podia topar, tinha que ser com o único em toda a aldeia que conhece a verdade! O único Iniciado que ainda vive por aqui! – Éowin suspirou – O que prova que era do nosso Destino esse encontro... E que você descobrisse a verdade por sua própria conta. Poupou-me muita explicação, essa sua curiosidade.

- É próprio do meu signo. – respondeu Kanon, dando de ombros.

- Um geminiano, só pode ser. – Éowin resmungou. "Com tantos signos, minha Outra Parte tinha que ser justamente um bendito geminiano? Eu mereço...". – Bem, aproveite, mate sua curiosidade sobre o Povo Antigo, faça todas as perguntas que quiser!

- Gawen me advertiu quanto a isso... Ele falou: "Por nada nesse mundo dê corda a Éowin! É impossível fazê-la calar-se!" .

- O QUÊ! Aquele velho druida, eu vou fazê-lo passar uma longa temporada de silêncio por causa disso!

- Deixe, Éowin. Gawen falou brincando (até parece...¬.¬). Mas ele disse que você realmente gosta de falar. E eu estou ansioso por aprender a história do Povo Antigo, e dos primeiros habitantes da Bretanha. Então vim aqui pra saber se você me aceitaria como seu discípulo...

- Façamos uma troca: eu conto a história do meu Povo e de minha família, e você me conta a sua história e de seu Povo, de onde você veio, sua família, seus iguais, seus sofrimentos. – ela manteve a voz firme nessa última palavra, dando a entender que não aceitaria menos que a verdade vindo dele. Kanon sentiu que seu Destino decidir-se-ia naquela resposta. Sentiu de novo a sensação de libertação que sentira ao contemplar pela primeira vez o rosto da Fada, e viu que estava pronto para, finalmente, libertar-se e purgar-se do peso de seus erros passados.

- Está certo. A sua Verdade pela minha Verdade. Uma troca justa.

- Então, vamos tomar um chá, e começar a conversar. – Ela saiu do estábulo, indo em direção ao jardim para colher as flores de camélia que faziam o chá aromático que ela tanto apreciava. Kanon ficou contemplando-a durante a tarefa, e depois seguiu-a em silêncio para dentro da casa simples. Sentiu que, dentro daquelas singelas paredes de pedra, sua vida ia recomeçar.

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Kanon já estava com 40 anos quando sentiu o mal se manifestando dentro dele novamente. Um oráculo lhe dissera que ele só encontraria paz depois de muito vagar pela Terra dos Deuses Antigos. Athena lhe dissera ser assim que os Olímpicos referiam-se ao Reino Unido, em especial à Irlanda. Ele, então, resolvera partir.

O mundo parecia em paz. No Santuário, os cavaleiros de Ouro viviam tranqüilos com suas famílias.Seu irmão Saga e Pipe já tinham dois lindos filhos, e ele parecia definitivamente ter controlado Ares (apesar do lado maléfico tentar se manifestar novamente, Pipe também sabia controlá-lo). Ele então decidiu entregar-se a seu Destino, temeroso de que, se o Dragão marinho o dominasse enquanto ele estivesse no Santuário, Ares despertasse mais forte em seu irmão, e todo o inferno de 10 anos atrás voltasse a acontecer.

Saga ficou um tanto triste com a partida do irmão, mas ele também sentia a inquietude que tomava o íntimo de Kanon. A ligação entre os gêmeos era muito forte, e eles sempre sabiam, intuitivamente, o que se passava no íntimo do outro. Assim, mesmo sabendo da falta que sentiriam um do outro, Kanon arrumou suas malas, e Saga animou o irmão a partir.

Kanon deixou o Santuário com apenas uma mochila de acampamento, uma barraca e seu pequeno conversível azul. Ele cruzou a Europa sozinho em seu carro, parando em poucos lugares, e nunca ficando mais que uma ou duas noites. Ficou um tempo mais longo acampado no sopé do Vesúvio, próximo às ruínas de Pompéia. Ele não sabia por quê, mas sentia-se atraído por aquele lugar, que é um dos lugares de poder da Terra.

Depois de mais ou menos um mês de viagem, ele cruzou o Canal da Mancha e chegou à Inglaterra. Durante um longo tempo Kanon vagou, sentindo o Bem e o Mal travarem violenta Batalha em seu interior pela posse definitiva de sua alma. Era horrível sentir-se dividido, dominado ora por intenso ódio, ora por profundos tristeza e remorsos. Estava ficando cada vez mais duro ter uma vida normal, e Kanon partiu em busca de mais isolamento. Foi embora para a Irlanda.

E foi lá que ele conheceu o velho druida Gawen, que lhe ensinou coisas que ele não fazia idéia de que existiam. Gawen lhe ensinou as antigas tradições celtas, um pouco da língua gaélica, os ciclos da natureza e um pouco da história dos povos que habitaram a Bretanha antes da vinda dos Romanos. Kanon aprendeu rituais de meditação e purificação que muito ajudaram no processo de controle do seu lado obscuro. Depois de um tempo, sentiu necessidade de ficar sozinho e abandonou o velho Gawen, perdendo contato com ele, até aquela tarde de final de agosto.

Ao chegar em Gweny, passara por uma casa com um curioso sinal pintado sobre a porta, que sabia ser a runa que identificava o velho druida. Ficou surpreso ao ver que ele havia se estabelecido lá, e depois de deixar as duas irmãs em casa, foi ter com Gawen.

O druida então contou-lhe que aquela era sua morada fixa, e que Kanon travara contato com ele em um de seus períodos de andanças. Contou tudo que o grego queria saber acerca das jovens fadas, ou pelo menos tudo o que ele sabia. Quando o cavaleiro deixava a cabana, já noite alta, soltou uma enigmática observação.

- É curiosa a maneira que a Deusa encontra para traçar seus desígnios, valendo-se de um velho já no final da vida, como eu... mas também é curiosa a maneira de juntar seres tão diferentes e tão iguais...

Kanon não quis questionar o druida acerca do significado da sentença, dita num tom baixo e casual. Preferiu esperar para ver o que o contato com as fadas, em especial com a pequenina Éowin, traria de luz para clarear o seu Destino confuso e obscuro.

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A partir daquele dia de final de agosto, Kanon e Éowin encontravam-se todos os dias. Às vezes era a fada que falava, contando a história de seu Povo, que remontava ao princípio dos tempos, dos seus deuses antigos. Contava a história de Avalon, de quando o poder da Bretanha era ligado ao da Ilha Sagrada por laços de sangue, até que esse próprio sangue, encarnado na figura de Gwydion / Arthur traiu a Senhora do Lago, rendendo-se ao poder da Igreja, e culminou com o mergulho da Ilha nas brumas...

Kanon, por sua vez, contava a história dos deuses gregos, as batalhas travadas entre eles, a reencarnação de Athena na figura de Saori Kido. Contou da traição de seu irmão Saga, da sua traição e das batalhas contra Poseidon e Hades. Contou do mergulho dos Cavaleiros no Inferno, de seu último sacrifício diante do Muro das Lamentações, e de como o cosmo amoroso de Athena salvara a todos, ressuscitando os cavaleiros mortos, até mesmo os traidores.

A história que mais chocara e divertira Éowin fora a da gravidez dos Cavaleiros, que Kanon contara com o típico acento cômico dos geminianos.

- Então você imagina só... – dizia ele em meio a risadas, num dia frio de fevereiro em que eles tomavam chá diante da pequena lareira da cabana das fadas – o Milo entrou na sala de parto pra fazer a cesariana, e o Kamus junto... daqui a pouco o francês sai de lá de dentro, mais branco que uma folha de papel. Aí o Oros perguntou, dando risada: "Então te tiraram da sala?", e o meu irmão: "Você parece um fantasma... viu cortarem o barrigão?" – Kanon parou, tomando um gole de chá, dando um toque de suspense, e viu o brilho de expectativa nos olhos negros da fada – E o francês, roxo de vergonha, nos responde: "Bien... me tiraram de lá quando estavam passando antisséptico na barriga do Milo"!

Os dois caíram na risada. Éowin engasgou com um pouco de chá, o que fez Kanon rir mais ainda, e ajudá-la com pequenos tapas nas costas. Ela ficou um pouco vermelha e agradeceu, ainda com lágrimas de riso nos olhos.

- É incrível o que o poder dos deuses é capaz de fazer... homens grávidos! Deve ter sido uma experiência e tanto... e eles devem se amar de verdade, os seus amigos, não é?

- Sim... apesar de completamente loucos, eles se amam muito... e é bonito ver a relação que eles têm com os filhos. Eu queria... – ele parou, hesitante, o rosto subitamente sério e triste.

- Sim? - a fada aproximou-se, colocando a mão sobre o joelho do cavaleiro, um olhar compreensivo e carinhoso nos olhos negros.

- Eu queria poder ter alguém, assim como meu irmão... ter uma família... mas eu sei que ainda não estou pronto para isso, para a responsabilidade de educar uma criança... mas queria tanto ter uma pessoa como ele tem a Pipe... alguém que me ajudasse a dominar a escuridão dentro de mim, que clareasse os meus pensamentos quando tudo ficasse negro na minha mente... – ele ergueu o olhar esverdeado, repleto de agonia e tristeza, para ela, encontrando uma coisa que jamais pensou que pudesse encontrar em um olhar dirigido a ele: afeto, compreensão, identidade – eu não sou, nunca fui uma boa pessoa... já fiz milhares sofrerem... acho que não mereço nada disso... entende? – ele perguntou, a voz carregada de angústia.

- Entendo... mas nem mesmo você tem o direito de se julgar pelos seus atos passados. Você se arrepende profundamente de tudo que fez, tem a alma cheia de remorso, eu vejo isso nos seus olhos, eu sinto a sua aura... uma aura atormentada, dividida... mas que vai se recuperar, eu sei... – ela ergueu a mão, fazendo uma carícia suave no rosto do geminiano. Kanon fechou os olhos e suspirou ao sentir o contato suave e morno da mão pequena e morena da fada em sua face. Ele estendeu uma de suas mãos, grande e calejada dos treinos, e segurou a mão dela, levando-a aos lábios. Ele abriu os olhos e os olhares dos dois se encontraram, fazendo Éowin estremecer.

- Obrigado, Éowin. Você tem sido mais que uma grande amiga, tem sido uma luz para mim.

- Kanon... está escrito que deve ser assim. Nós dois nos compreendemos porque, ao mesmo tempo em que somos diferentes, somos idênticos... assim quis a Deusa quando nos encontramos.- As palavras de Gawen naquela noite de agosto ressoaram no fundo da mente de Kanon. Ele enxergou, pela primeira vez, o que seria o brilho do cosmo da Fada. Uma energia multicolorida que envolvia todo o corpo dela, e parecia se confundir com a própria pele morena. Sentiu-se arrebatado pela mágica que emanava dela, e a sensação de libertação que sentia quando estava junto dela intensificou-se. Quando Éowin ergueu-se para atiçar o fogo na lareira, Kanon levantou-se e puxou-a pelo braço. Ela sufocou um grito ao trombar com o peito largo dele, mas foi imediatamente calada com um beijo.

Kanon beijou-a com um sentimento de desespero, quase de fome. O beijo começou violento, mas foi se abrandando, e Éowin enlaçou o corpo do geminiano, acariciando as costas dele devagar. Ele passava a mão pelos cabelos longos, negros e lisos, enquanto sentia que colocava toda sua alma naquele beijo. Quando os dois se afastaram, Kanon saiu num repelão, esquecendo o casaco pesado, necessário para suportar o intenso frio de fevereiro. Éowin, pela primeira vez na vida, não tinha o que falar. Ficou calada, uma mão sobre os lábios, um sorriso suave enquanto fitava sem ver a porta aberta, que deixava entrar um vento frio e uma revoada de flocos de neve.

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No dia seguinte, Kanon aproximou-se um tanto quanto envergonhado da cabana das irmãs... não sabia o que dera nele, beijá-la e sair correndo daquele jeito! Mas se sentira tão... exultante, essa era a palavra... que tivera que correr e extravasar a energia que se acumulava em seu cosmo. Beijar Éowin tinha sido... mágico. Essa era a palavra.

Soltou um sonoro espirro ao aproximar-se da porta. Sua corridinha pela neve lhe deixara uma bela gripe e uma tremenda dor de cabeça...

- Entre logo, Kanon, está frio aí fora! – ele ouviu a voz vigorosa de Arween chamando-o. Abriu a porta e entrou depressa na casa deliciosamente aquecida, deixando o vento a rugir lá fora.

- Olá, Arween. Onde anda sua irmã?

- No quarto, trocando de roupa. Não faz muito que acordou.

- Mas tão tarde! – Já passara do meio-dia. – Por quê?

- Ela entrou em transe ontem à noite... encontrei-a sentada diante da lareira com a porta escancarada, olhando fixo para o fogo e resmungando na nossa Língua... ficou assim até amanhecer. Aí ela acordou e foi dormir – ela concluiu, com simplicidade. Neste momento Éowin saiu do quarto, corando de leve ao fitar Kanon. Já o grego ficou profundamente vermelho.

- Bom dia, Kanon.

- B-bom dia, Éowin... sente-se bem?

- Só um pouco cansada, mas ainda assim ótima! É bom você se agasalhar; vamos passar a manhã lá fora. Tenho algumas histórias sobre a Neve pra você...

Os dois voltaram gelados e com as faces muito coradas do vento ao final da tarde. Éowin não tocara no assunto do beijo nem uma vez, tampouco Kanon viu motivo para abordar o assunto, já que a fada parecia ter se 'esquecido' disso. Ao entrarem, encontraram a mesa posta com uma terrina de sopa, pão fresco e chá, e um bilhete de Arween sobre o encosto da lareira.

"Irmã,

recebi um chamado urgente de Severus. Vamos nos encontrar na casa do velho Gawen para conversar. Segundo ele, é sobre as visões de Aurelius. Mas acho que ele tem motivos ocultos...

Não tenho hora para voltar. Deixei o jantar pronto, então aproveite a companhia de seu hóspede!

Arween"

- Parece que não terei companhia essa noite... – Éowin murmurou para Kanon com um ar de riso – Minha irmã foi encontrar o pai do filho dela. Deve voltar só amanhã.

- O inglês que você disse ser bruxo?

- Exato. Severus é o nome dele. É um bom homem, apenas uma alma atormentada.

- Como eu – Kanon deixou escapar.

- É. Como você. – Éowin tirou o pesado capote de inverno que usava e sentou-se à mesa, fazendo sinal para que Kanon a imitasse, o que ele fez com prazer. – Bem, eu contei muito sobre a neve para você, hoje. Sua vez de falar.

Ele ficou calado, sem saber por onde começar. Tomara coragem de falar com ela, abrir o coração e assumir que ainda estava muito confuso, e precisava de um tempo para refletir. Não foi preciso dizer nem uma palavra.

- Eu compreendo. – ela disse – E aceito a sua decisão. Vá, e volte quando achar que está pronto... para ficar. – ela sorriu.

Kanon não respondeu, apenas terminou de tomar sua sopa em silêncio. Quando terminou o prato, levantou-se e vestiu seu casaco em silêncio. Aproximou-se da fada e beijou os cabelos negros, perfumados de jasmim. Saiu sem olhar para trás, e sem sentir a lágrima solitária que lhe rolava face abaixo.

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O tempo foi esquentando a medida em que o verão se aproximava. Éowin tentava não pensar em Kanon, para não acabar afinando sua aura com a dele, o que acabaria por minar-lhe a força mágica. Arween fazia o possível para refrear as perguntas que queria fazer para a irmã, temendo que ela se enfurecesse... ou se entristecesse.

Entretanto as duas continuavam atuando junto dos habitantes de Gweny e das aldeias adjacentes como curandeiras, ajudando a tratar doenças e auxiliando crianças a vir ao mundo. Ao cortar o cordão umbilical dos bebês, as irmãs conseguiam ver muita coisa do destino dos pequenos, e revelavam um pouco aos ansiosos pais. Mas apenas o suficiente para aplacar-lhes a curiosidade e a ansiedade. O conhecimento do Futuro é sempre prejudicial àqueles que não estão preparados para bem administrar as informações.

Com o tempo quente, chegou a época do sabatt de Beltane. Com freqüência Éowin sonhava com sua amiga Salem, que lhe repetia: "Lembre-se das palavras da Rainha, mensageira... ele virá até ti em Beltane. Prepara o hidromel e enfeita-te de flores, celebra a chegada da estação quente e do amor..."

No dia 30 de abril, Éowin levantou-se cedo, vestiu seu traje branco e correu célere até a beira do lago, carregando uma tina de madeira leve. Encheu-a de água pura e observou as árvores em torno. Em um canto, alguns jasmineiros amontoavam-se sem muita ordem. Sorriu e correu a colher uma grande quantidade daquelas flores e das folhas aromáticas, querendo confeccionar guirlandas com elas. Despiu o traje e banhou-se na água fria e límpida do lago, saindo com os cabelos úmidos e uma expressão de expectativa. Voltou para casa e separou tudo o que iria precisar naquele dia. Aos poucos, foi levando tudo até a clareira dos carvalhos centenários.

Quando a Lua crescente subiu no céu, encontrou Éowin na beira de uma fogueira, fervendo um grande caldeirão, que soltava um delicioso aroma doce. Era o hidromel, a bebida da Deusa. Ela traçara um círculo mágico de mais de 5 metros de diâmetro, abrangendo a área em torno da fogueira. A fada tinha o corpo nu, adornado com um crescente azulado pintado no ventre. Éowin também pintara o crescente tatuado na testa, e adornara a longa cabeleira negra e a cintura fina com guirlandas de flores de jasmim. Flores também lhe adornavam os pulsos e tornozelos, e algumas pétalas haviam caído dentro do caldeirão da bebida, tornando-a ainda mais aromática. Um sorriso lhe pairava nos lábios, e um brilho de expectativa iluminava os olhos negros.

Éowin começou a cantar uma canção suave e morna, como a brisa de verão. A melodia seguia lânguida, cantada na Língua Antiga, e falava de semeaduras e de amor, comparando a vida dos seres humanos aos ciclos da Mãe Terra. Na nossa língua, a canção ficaria mais ou menos assim:

"O tempo quente chega, e a semente na Terra é lançada / O Amor também chega, e a união dos corpos é abençoada / O fruto da Terra nasce e cresce, doce nutriente / E vai alimentar um dia o fruto do humano ventre".

Essa não é uma tradução bem correta, e é apenas um trecho da canção. Ela é muito mais longa e complexa, e apenas as fadas sabem suas palavras e sentido corretos. Éowin deitou-se na Terra morna ao comprido, ainda cantando a canção de Beltane. Sentiu a energia da Terra restaurar-lhe as forças mágicas, e foi se sentindo cada vez mais plena de poder e euforia. Continuou a cantar, com um sorriso suave e a voz lânguida e quente, até que mais sentiu do que ouviu a aproximação de alguém. Continuou deitada, cantando de olhos fechados e ouvidos atentos. Ouviu passos leves aproximando-se da clareira, e sentiu na diferença de luminosidade quando um vulto passou junto à fogueira. Ouviu um suspiro surpreso, quase um arfar; sentiu quando a pessoa sentou-se a uma certa distância dela, e ouviu uma respiração profunda e irregular. Ainda de olhos fechados e sem parar de cantar, ela ergueu-se do chão de um salto, e pôs-se a dançar em torno de um atônito Kanon.

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Kanon chegara a Gweny no início da noite daquele mesmo dia. Fora visitar o velho Gawen, e encontrou o druida fazendo uma celebração solitária do sabbat. A princípio não compreendeu o que o velho homem fazia, e esperou pacientemente junto à porta dos fundos, enquanto o observava a cantar no jardim. Gawen apercebeu-se de sua presença e convidou-o a celebrar com ele.

- Celebrar o quê, meu amigo?

- Impossível que você não lembre que dia é hoje, seu grego desmiolado! – Gawen pareceu enfurecer-se com ele. – Vá, vá perguntar às suas amigas fadas que dia é hoje, ande, seu cavaleiro desmemoriado! E só volte aqui quando tiver uma resposta!

Kanon ficou tão surpreso com a reação violenta do druida que nem pensou em ficar. Saiu da casa dele rumo a casa de Arween e Éowin, disposto a perguntar-lhes que celebração era aquela.

Ao ver o grego sair chispando de sua casa, Gawen deu um sorriso e voltou os olhos para seu altar.

- Fui seu instrumento, Senhora... que agora Seus desígnios se cumpram!

Kanon encontrou Arween envolvida na montagem de um altar no jardim dos fundos da casa. Cumprimentou-a e perguntou o que celebrava naquele dia.

- O sabbat de Beltane. – foi a resposta, simples e direta – Celebramos a chegada da estação quente, e celebramos a união dos corpos e a concepção.

- E... onde está sua irmã, que não ficou para celebrar com você?

- Éowin está celebrando na floresta, na clareira dos carvalhos centenários, um pouco além do lago... gostaria de ficar e celebrar comigo?

- Não, eu... eu tenho que ir. – o geminiano saiu ventando pela porta dos fundos da cabana, atravessando-a em questão de segundos.

- Ir... atrás da minha irmã... – Arween tinha um sorriso mal contido nos lábios quando começou a traçar o círculo mágico.

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Entretanto, Éowin dançava agora em torno de Kanon, os olhos já abertos fitando o grego, vestido com uma camisa branca aberta no peito, calças jeans mas, estranhamente, descalço. Ele tirara os sapatos, achando que, descalço, sua presença passaria momentaneamente despercebido por Éowin. Enganou-se, é claro.

Ela estendeu as mãos para ele, vendo a aura dourada já quase que completamente luminosa, com apenas uma leve sombra em seu âmago. A sombra que todos possuíam, não mais dominando, mas já subjugada à alma dele. Ele tomou as mãos dela e ergueu-se, deixando-se conduzir até a beira da fogueira. A fada tomou uma grande concha de madeira clara nas mãos e encheu com ela um cálice de prata, entregando o perfumado hidromel ao grego. Kanon bebeu-o devagar, olhando firme nos olhos negros dela, deixando-se absorver por aquele olhar aberto, amoroso e tão antigo quanto a noite dos tempos. Éowin sorriu quando tirou a taça das mãos dele, encheu e bebeu ela mesma, do mesmo modo que ele havia feito, lentamente e de olhos fixos nos olhos azuis, vendo os sentimentos sucederem-se num turbilhão, dor, tristeza, alívio, alegria, amor, desejo.

Ainda cantarolando, Éowin estendeu as mãos para tocar o corpo do grego. Com calma, despiu-o da camisa branca e soltou os longos cabelos azuis, que estavam presos em um rabo de cavalo. Andou até perto de um carvalho particularmente antigo, trazendo uma pequena cuia que parecia conter a mesma tintura com que pintara seu corpo. No peito e no abdômen do grego, pintou antigos sinais e runas mágicas. Encostou, então, a testa na testa dele, e em seguida encostou a testa na altura do coração do grego. Enquanto isso, Kanon observava, sentindo um calor delicioso, a vaga quente do desejo, avolumando-se dentro de seu corpo, tomando conta de seus membros, e fazendo-o tomar os lábios da fada de repente.

A partir daí, tudo se passou como num sonho. Ele sentiu o sabor do hidromel nos lábios dela, e o perfume de jasmim que subia do corpo da fada o enlouquecia e embriagava. Ele beijou cada milímetro do rosto de Éowin, passando a mão pelos fios negros e sedosos da cabeleira dela. Num momento, eles se beijavam junto da fogueira, no próximo ele viu-se despido, deitando o corpo dela com carinho na relva da clareira. Passeou os lábios por toda a extensão da pele morena e suave da fada, ouvindo a voz dela sussurrar palavras de amor e desejo na Língua Antiga. Os lábios dos dois encontraram-se, enquanto as mãos se perdiam nos corpos quentes. Éowin segurou o rosto de Kanon e fitou fundo nos olhos do grego enquanto ele a penetrava. Sentiu uma explosão em sua força mágica quando os corpos se encaixaram, viu um brilho dourado desprender-se do corpo do cavaleiro, mas o que melhor viu foi o amor na luz do olhar dele. Os corpos iniciaram a dança sensual do amor, e eles se entregaram às sensações de prazer. Quando chegaram juntos ao clímax, sentiram como se suas almas estivessem se fundindo naquele momento, o cosmo do Cavaleiro de Athena entrelaçando-se, firme e amorosamente, com a energia mágica da Mensageira do Povo das Fadas.

Eles caíram exaustos sobre a relva, abraçados, suados e felizes. Éowin sentiu-se, pela primeira vez na vida, incapaz de expressar o que sentia com a voz. E Kanon, finalmente, sentiu-se como se tivesse alcançado o lugar que sempre buscara.

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Arween sentiu a aproximação de sua irmã antes dela sair do bosque, de mãos dadas com o grego. Deu um sorriso enviesado, olhou para cima e murmurou:

- Até que enfim, Mãe...

O casal aproximou-se devagar, conversando sobre tudo e sobre nada. Falavam apenas para ouvir a voz um do outro, para garantirem que o que acontecera não fora um sonho, nem se acabaria com a aurora.

- Ora, até que enfim resolveram aparecer! O café da manhã de vocês deve estar gelado... – resmungou Arween, brincalhona, mexendo em seus canteiros de ervas como sempre – Vão lá, seus pombinhos preguiçosos... Comam de uma vez.

- A propósito, Arween... tenho a impressão de ter sentido a aura de Severus logo cedo... onde está ele? – Éowin viu, com satisfação, a irmã corar profundamente.

- Desaparatou. Tinha que voltar a Hogwarts, é época de provas. Segundo ele, Aurelius tem chance de ser um dos primeiros da turma! E qual o problema? Só você pode ter uma celebração de fogueira, é? – A caçula botou as mãos na cintura, erguendo a sobrancelha.

Kanon riu da briga carinhosa das duas, logo cedo. Quando entrou com a fada na cabana, e sentou-se a mesa para tomar o frugal café da manhã em companhia dela, teve certeza do que sentira na noite anterior.

Finalmente, estava em casa.

N/A: QUE RUFEM OS TAMBORES! QUE SOEM OS CLARINS!

Terminei esse parto encruado!

Olha, galera, explicações sobre o atraso, procurem na songfic "A man and a woman" e no meu profile, ta? Não vou dá-las aki.

Quanto a fic: esse capítulo não ficou tão bom quanto o outro. Não sei o que vocês acharam. Só tem um jeito de saber: deixem reviews!

Ah, agora teremos um pequeno epílogo, tipo um "Anos depois...", e vocês saberão mais ou menos o que aconteceu com os personagens. O epílogo é pequeno mesmo, tipo duas páginas de Word, provavelmente.

Ah, dedico esse capítulo à fofa Morgana Black, que também usa as obras de Marion Zimmer Bradley na construção de suas fics. Espero que você aprecie, querida. E desculpe a demora... muitos problemas...

Bem, então...

REVIEW ME, PLEASEEEEE!

Ja ne!

Eowin