Zechs andava pelo corredor do segundo piso distraidamente, pronto para preparar o café da manhã dos seus filhos, quando reparou em algo que prendeu sua atenção: enquanto olhava descuidadamente para cima, fitou o teto, vendo que nele havia uma grande mancha escura. Com certeza era uma marca d'água, de alguma infiltração e, pelo seu tamanho e estado, já era algo bem avançado.

Como não tinha visto isso antes? Para ele há alguns dias atrás não havia mancha alguma lá. Balançou os ombros, preocupado. A casa era velha, uma infiltração daquelas poderia trazer-lhes sérios problemas, por isso, procuraria um encanador logo que aquele domingo terminasse e se iniciasse a segunda-feira. Desejou apenas que nada de grave acontecesse até lá. E, assim, continuou seu caminho.

oOoOoOo

Bateu as mãozinhas pequenas sobre a terra fofa, ajoelhado, para logo em seguida levar o punho esquerdo ao rosto, enxugando-o. Contudo o gesto apenas borrou sua testa de marrom.

" Ponto, puis bem fundo, mamãe! " sorriu, encarando a mulher à sua frente.

Os longos cachos castanhos caíam pelo vestido branco. Um sorriso meigo formou-se em seu rosto e, levando a mão de veludo ao rosto corado de Quatre, numa gostosa carícia, disse-lhe suavemente:

" Isso mesmo, bom menino. "

Quatre sorriu, satisfeito e orgulhoso por ouvir o elogio da mãe. Ela continuou a sorrir-lhe por mais alguns instantes, antes de desaparecer aos poucos. Quatre suspirou, criando forças para se levantar e, assim que o fez, entrou correndo em casa. Encontrou Zechs na cozinha, bebendo um copo de água.

O loiro, ao terminar com sua água e lavar o copo, notou o menino com a marca escura no rosto.

" Hun, Quatre! " riu, pegando-o no colo e abrindo a torneira " Que sujinho! "

Molhou um pouco a mão e com ela limpou a face do loirinho; pegou um guardanapo e entregou-lhe, para que ele se enxugasse. Depois de feito, Quatre retirou o papel da cara com uma expressão de desgosto.

" Nhé! "

" Haha! " Zechs riu da sua carinha e o colocou no chão " Vem, baixinho, vamos lá pro quarto te arrumar. Ou você já se esqueceu que hoje nós vamos ao parque? "

" Êeeh! Vamu logo, papai. " apressou-o, puxando-o pela mão.

" E essa agora! " tornou a dar um pequeno risinho, diante da inquietude do filho.

oOoOoOo

Sentaram-se à mesa, depois de uma manhã agitada no parque e um belo banho para livrá-los do cheirinho mal que ficaram depois de brincarem tanto, nada melhor do que um almoço caprichado.

Zechs abriu a porta da geladeira, pegando a comida necessária para alimentar seu "batalhão de crianças famintas". Colocou tudo sobre a pia, foi pegar um garfo para mexer a panela com comida, entretanto, ao abrir a gaveta do armário de pia, percebeu um fato curioso: lá somente haviam as facas de uso para a alimentação, as de corte, entretanto, não estavam ali. Arqueou uma sobrancelha, confuso, afinal, sempre as guardava lá depois de usá-las, pois era perigoso deixá-las "soltas" por aí com crianças pequenas perambulando livremente pela casa. Remexeu-a, tentando encontrá-las em algum canto.

" Ué...? " mas nada delas.

Então passou a procurá-las nas outras gavetas, sem obter resultado.

" O que foi, papai? " Trowa perguntou, a bochecha encostada na mão do braço com o qual o cotovelo apoiava-se sobre a mesa.

" Não encontro as facas de cortar carne. " terminando de fechar a última gaveta, voltou-se para os meninos, inclinado sobre a pia.

Elas não poderiam ter evaporado assim do nada e, também, desde que voltaram do passeio não tinham dado por perdido nenhum outro objeto, logo, não havia sentido em dá-las por roubadas: ninguém invade a casa de outro para roubar dois ou três facões. Restou-lhe, desse modo, apenas uma hipótese.

" Algum de vocês pegou as facas, por acaso? "

" Não. " a resposta veio em uníssono.

Ele não queria desconfiar dos filhos, mas ainda era jovem para estar louco, tinha certeza de que as tinha guardado lá. Então, tornou a insistir:

" Crianças, as facas não saíram andando por aí. Se algum de vocês sabe de alguma coisa, é melhor que fale. "

" Num fui eu papai, eu juro! " adiantou-se Duo, uma vez que sempre que acontecia alguma coisa ele acabava sendo o suspeito principal, principalmente porque ele realmente era o culpado em praticamente todas as vezes.

" É, papai, eu num vi elas, não. " Heero concordou.

Quatre abaixou a cabecinha, indeciso e quieto. Fato este que não passou desapercebido pelo papai. Zechs aproximou-se do bebê.

" Você sabe de alguma coisa, Quatre? "

" Eu? É... "

Como um pai atento, Zechs reconhecia os gestos e feições do menino só de observá-lo. E sabia que ali tinha coisa, motivo o qual foi o suficiente para deixá-lo apreensivo e, de certa forma, nervoso.

" Crianças, será que poderiam nos dar licença um pouquinho? " pediu.

" Claro. Vem! " o mais velho comandou-os, tirando-os da cozinha.

Zechs voltou-se para o pequeno, que continuava encolhidinho. Suspirou.

" Muito bem, Quatre, me conte o que aconteceu. "

O loirinho apertou as mãozinhas, contorcendo-se.

" Eu... Fui eu que peguei as faca, papai." confessou.

Os olhos azuis do homem arregalaram-se de susto.

" Como... Como disse? "

Quatre tornou a baixar a cabeça. Zechs não podia estar mais estupefato, aquelas facas na mão do bebê eram de um perigo! Ele, novo com era, não custava nada se machucar feio, ou coisa até pior, com uma delas.

" Você as pegou? Deus do céu, Quatre! Por que você fez isso? Eu já disse várias vezes que vocês não podem brincar com as facas! "

" Hun... "

Zechs respirou fundo, tentando manter a calma.

" Quatre... Você brincou com as facas? " primeiro queria saber a que risco o loirinho fôra exposto.

" Não! "

" Não? Como assim? " estranhou mais ainda.

" Num foi pá brincá, papai. "

" Então pra quê? O que você fez com as facas? "

" Eu... Enterrei elas! " disse como se fosse a coisa mais natural.

" O que? "

Agora sim o adulto não entendia nada, sem contar que seu corpo ainda sofria espasmos vertiginoso só de imaginar o loirinho mexendo nos facões.

" Por que você fez isso? Aliás, me conte tudo desde o começo. "

" Bom... A mamãe falô que era preu enterrá as faca e eu enterrei. " seus olhos claros banhavam-se em inocência, provavelmente não tinha noção do perigo que correra.

Zechs estava pasmo, aquilo estava se tornando perigoso. Um dia a suposta mãe que Quatre imaginava o mandava esconder as facas, noutro, ela podia muito bem dizer para ele pular do telhado! Sentiu sua espinha gelar, via que precisaria de ajuda profissional para ajudar seu filho.

" E... A mamãe te disse que era pra pegar as facas? Ela não disse que você podia se machucar? "

" Ela falô que era preu confiar nela, porque eu falei pra ela que o senhor num deixava eu pegá naquilo. "

" Quatre... Uhn! " pegou o menino no colo e fê-lo encará-lo " Quatre, meu bem, mesmo a mamãe tendo dito isso, você poderia ter se machucado sim. "

" Não é verdade, a mamãe me potegeu! " protestou, não gostava que tratasse sua mão com descaso.

" Ué, então agora eu sou um mentiroso? O que foi, você não confia mais em mim? "

Quatre arregalou os olhinhos, confuso, não foi aquilo que quis dizer.

" Não, papai! Num é isso... A mamãe... É só que... " sua cabeça estava dando um nó.

" Olha, meu amor, " mexeu os braços, ajeitando-o melhor sobre o colo " a mamãe estava errada, ela não conseguiria te proteger se algo desse errado. "

" Não... " já estava com lágrimas prestes a transbordarem " Ela ia potege eu sim! "

Suspirou, não sabia como lidar ao certo com a situação, era óbvio que Quatre estava magoado, mas ele também precisava dar um ponto final àquela história, antes que tudo se encaminhasse para desfechos piores.

" Quatre, isso não importa. Eu sou o seu pai e é a mim que você tem que obedecer. Não à mamãe. "

" Mas, papai... "

" Não, sem 'mas', Quatre. Eu quero que você se despeça agora da mamãe que ela tem que voltar pro céu, nesse momento. Vamos. "

" Que? Papai... " começou a chorar, mas Zechs tentou manter-se indiferente, apesar de machucar-se com isso.

" Vamos, Quatre, eu já mandei. Despeça-se. "

" Ela... Uhn... Num tá aqui agora. " esfregou os olhinhos chorosos.

" Pois bem, então assim que ela aparecer, ela vai embora. Ela tem que ir embora o mais rápido. E, quando ela estiver no céu, ela não voltará mais. " estava sendo duro, mas era necessário.

" Papai... "

" Nós já conversamos sobre isso. Quando a mamãe aparecer novamente, quero que me avise, pra você dar adeus pra ela, entendeu? "

Quatre envolveu o pescoço do pai, derramando sua grossas lágrimas na sua pele quente. O loiro sentiu um aperto no peito ao ter aquele montinho tremendo e chorando em seus braços, contudo, se deixasse que Quatre continuasse a fantasiar com a mãe, isso poderia ter conseqüências drásticas. Delicadamente pôs os longos dedos em seu queixo e o ergueu, para que pudesse fitá-lo nos olhos.

" Isso é uma ordem, você não vai me desobedecer novamente, vai? " perguntou, autoritário.

" N-não, papai... " por mais que lhe doesse, Quatre sabia que teria de se separar de sua mãe, só não esperava que fosse tão cedo.

" Ótimo. " apertou-o num abraço reconfortante.

oOoOoOo

Aproveitava que as crianças estavam cochilando para regar as plantas do jardim. O Sol não estava muito forte naquele dia, apesar de brilhar claro e imponente no céu. E ainda tinha que procurar as facas que o caçula enterrara! Não que fosse usá-las novamente, apenas não queria deixá-las no jardim, uma vez que seus pequenos eram loucos para cavocarem a terra.

oOoOoOo

Ao abrir os olhos sonolentos, encontrou-a à sua frente com uma expressão preocupada.

oOoOoOo

Zechs percebeu os passos e, ao voltar-se para trás, viu o loirinho correndo desesperado em sua direção. O menino jogou-se nele, tremendo, e se abraçou às suas pernas.

" Quatre? O que foi, meu anjo? " perguntou, pegando-o no colo, receoso.

O menino o enlaçou e, pálido, começou a falar rapidamente:

" Os hómi mau tão vindo, papai! Vamu embora, vamu embora! "

" Calma, Quatre. Calma, tá tudo bem! " passou a mão pela sua costa, tentando acalmá-lo " Do que você está falando, bebê? Que homens maus? "

" Os hómi, papai! Aqueles que querem pegá nóis! Vamu, papai, vamu! " Quatre o puxava pela camisa.

" Que? " de que raios ele falava? Quem seriam os tais homens maus que queriam pegá-los?

" A mamãe avisou, papai! "

De novo aquele assunto? De qualquer forma, antes que Zechs pudesse dizer algo, Quatre pulou de seu colo e saiu correndo, entrando na casa. O loiro foi atrás do menino, parando bruscamente na sala.

Assim que entrou, parou diante duma cena que preferiria nunca ter vivenciado: Quatre era segurado por um homem de vestes negras, munido de um rifle. Ficou estático por alguns segundos, sem reação ou qualquer pensamento que lhe viesse. Mas para sua surpresa maior, descendo as escadas, Heero, Duo e Trowa, seguidos de dois homens igualmente vestidos e armados, que os empurravam.

As crianças vinham trêmulas, nervosas, e Duo estava completamente desestruturado, chorando convulsivamente. Heero o trazia pela mão, que senão ele não conseguiria andar. Quando já alcançavam o chão do primeiro piso, um dos homens os empurrou com o bico da arma, "jogando-os" contra Zechs. O loiro rapidamente passou a mão pelos filhos e os botou atrás de si.

" Não se mexam ou nós os matamos. " dizendo isso, empurrou Quatre para o pai também.

" Quem... Quem são vocês? O que querem aqui? " Zechs teve coragem de perguntar, ainda desnorteado, com os braços esticados para os lados, numa vã tentativa de assim protegê-los.

" Huhuhu! Digamos que nós somos seus executores. " um deles falou.

" Devia ter feito algo enquanto podia, príncipe. " outro deles tornou.

Ao ouvir tal coisa, percebeu no exato momento de que os homens maus de quem Quatre falara eram assassinos pagos pelo Clã que matara sua família há três anos atrás. Entretanto, não ficara sabendo de que as investigações tivessem realmente encontrado provas de que estavam vivos. Aquele Clã deveria mesmo ter gente infiltrada em todos os lugares para conseguirem, assim, saber que ainda viviam, onde estavam e tudo o mais. Mas este não era o pior, o péssimo é que não conseguiria tirar seus filhos de lá.

Um arrepio percorreu seu corpo: seus filhos! Não, não podia permitir que matassem seu tesouro, mas também não sabia o que fazer.

Os pequenos escondiam-se atrás do pai, aflitos. Podia-se ouvir o berreiro de Duo, Quatre a essa hora parara de chorar e assistia tudo boquiaberto. Já Trowa estava petrificado, as imagens de há três anos vinham com tudo em sua cabeça, a mãe morrendo nas chamas, as labaredas consumindo todo o castelo, os empregados... os avós, que nem vira o que lhes acontecera, a tia... os gritos, o choro, o calor, que calor, os tiros, a falta de ar, desespero. Fechou os olhos, apertando-os fortemente. Heero não conseguia engolir a saliva, mais um pouco e estaria engasgado, as pernas bambas.

" Pelo amor de Deus, façam esse menino calar a boca! " gritou um deles, cansado de ouvir a barulheira de Duo.

" Não! " Zechs desesperou-se, precisava fazer alguma coisa " Por favor, deixem meus filhos em paz, deixem-nos... Por favor, tenham piedade, eles são só crianças! "

Ao ouvir o pedido do pai, como se dissesse "Podem me matar, mas deixem-nos viver", Heero não suportou mais e começou a chorar violentamente como Duo. O moreninho de olhos violetas era novo a ponto de ficar extremamente nervoso e não ter toda a compreensão da extensão dos fatos como Heero ou Trowa, mesmo assim aquilo o apavorava, os homens armados, ameaçando-os...

" Ah, outro não! " bradou o terceiro deles.

E, num movimento rápido, agarrou Heero pelo colarinho, trazendo-o junto a si.

" Não! " o loiro gritou, seu coração quase parando de bater.

O menino encarou o rifle que lhe era apontado, seus grandes olhos azuis arregalados, e então o desespero apossou-se mais ainda de seu ser. Mordeu a boca, arrancando sangue, de tão nervoso, enquanto não conseguia conter o choro e os fortes espasmos que seu corpo lhe imprimia.

Nessas horas nenhum deles pensava direitamente, estavam tão estarrecidos, apavorados, que apenas seguiam impulsos dos quais nem ao menos tinham noção.

" Não! Não! " Duo pedia, em meio às suas convulsões, ao ver o irmão prestes a ser morto.

Trowa nem via o que acontecia, estava perdido em maus pensamentos, lembranças ruins.

" Deus! Eu lhes imploro, deixem meus filhos! " Zechs não podia mais respirar normalmente, mas tentava manter um mínimo de clareza em seus pensamentos.

Pensava que, se eles não aceitassem seu pedido, daria um jeito de mandar Heero para atrás de si novamente e jogar-se na frente da porta, mandando os filhos correrem para fora da casa e, assim, ficaria prostrado lá o tempo que fosse, para dar tempo deles correrem e saírem pelos fundos, suportando a saraivada de balas que tinha certeza que viria. Concluiu, em segundos. Só não sabia se agüentaria vivo mais que um tiro daquela arma. Entretanto, ao ver seu filhinho, indefeso e assustado, na mira daquele homem sem escrúpulos, seu coração falhou várias batidas, as pernas queimavam por dentro, aquela dor que sentia ao ver seu filhinho... seu neném assim era demais! O sentimento de impotência o queimava, qualquer movimento e matavam o menino, mais os outros três e ele mesmo. Um profundo remorso o invadiu, culpando-o por não ter agido antes, por não ter abandonado a cidade antes. Nada seria certo o suficiente para descrever o que sentia nesse momento!

" Hahaha! Não me faça rir! Acha mesmo que nós perdoaríamos um de vocês? Hohoho, não estamos sendo pagos para isso. " ao ouvir a voz maldosa de escárnio, Zechs congelou.

Todas as suas ações pararam por um momento, como se o mais frio inverno o transformasse num cubo de gelo, alheio a tudo que se passa ao seu redor. Até sentir uma mãozinha suave toar-lhe o braço e um sussurro chegar aos seus ouvidos:

" A mamãe apareceu, papai. " como o combinado, Quatre lhe avisou que a mãe dera o ar de sua graça.

Antes também tinha aparecido para lhe falar dos homens maus, todavia não dera tempo para cumprir com o que havia prometido ao pai, uma vez que foram interpelados pelos bandidos.

Heero não raciocinava, não conseguia mais a essa altura. Entretanto, sabia, ia morrer, ele e todos os outros. Queria viver, mas sabia não podê-lo, então desejou ao menos poder despedir-se da família que tanto amava; mas não teria tempo, tudo acontecia depressa demais, em segundos. Também nem sabia se teria voz, pois o choro acumulara-se na garganta e o desespero o impedia de formular uma simples frase de adeus. As lágrimas quentes rolaram pela face vermelha, arrancando o sopro que o mantinha vivo.

A mulher, com um semblante sério, pôs-se na frente da arma que era apontada para Heero, ao passo que outras duas focavam os quatro restantes, e segurou em seu cano, seus longos dedos contornando a área fria. O homem sorriu maléficamente e, antes que Zechs ou um dos meninos pudesse impedi-lo, ele apertou o gatilho.

Duo fechou os olhos agilmente, mais que por reflexo do que qualquer outra coisa. Mas o som que indica um tiro não veio. Então, abriu os olhos e só pode ver o homem com uma expressão confusa e seu irmãozinho com os olhos arregalados... Mas vivo.

Heero tinha o peito estufado. Toda a histeria que se propagara pelo seu corpo em questão de milésimos, ao ver a mão de seu carrasco mexer-se contra o gatilho, dizimou-se ao dar lugar a um estupor sem tamanho. Não conseguia nem pensar, chegar a formar um sílaba sequer, apenas tinha a respiração pesada, desregulada, os nervos todos doloridos.

Zechs não pôde conter o alívio, mesmo que o assombro fosse em igual tamanho. Entretanto não teve tempo de pensar no que acontecera ou que isso não impediria em nada que os assassinos de aluguel o matasse, pois o homem que apontava a arma para seu pequeno arqueou uma sobrancelha. Logo depois bateu na ponta oposta do rifle, porém, não houve sinal de disparo.

" Oras...! " mirou-a novamente ao centro da testa de Heero e, em mais um daqueles flashes que ninguém consegue intervir, disparou.

Ou pelo menos era isso o que pretendia: mais uma vez a arma falhara. Já irritado com as delongas e a choradeira das crianças, um dos outros bandidos, que apontava para os quatro, amuados naquela canto, voltou seu rifle para o garoto.

Mas Eva, protetoramente, pôs-se em frente ao homem sem coração que ocupava a posição do centro, entre os outros dois, e abriu seus braços, como um passarinho voando à frente de seu ninho, tentando espantar um intruso, permitindo que as mãos terminassem, uma em cada lado, à altura das bocas das armas.

Sem pensar muito, apertou seu gatilho. E, quando todos deram por si novamente, perceberam que esta arma também não funcionara.

" Mas que raios! " xingou, tentando outra e outra vez, sem obter sucesso.

Em especial, o coração de Heero, se não fosse tão jovem e saudável, já teria sofrido um ataque cardíaco, posto que as tensões de uma morte próxima que nunca chega já o tinham abalado em excesso.

Brusca e velozmente, o terceiro homem também tentou acertá-lo com um tiro, mas nada saiu de sua arma. Então o homicida que segurava o menino o puxou para si, erguendo-o no ar, passando-lhe um braço pelo pescoço.

" Um movimento em falso e eu quebro o pescoço dele. " ameaçou-os, pois agora que viram que suas armas estavam emperradas, algum deles podia querer se rebelar.

Heero levou as mãozinha às grandes mãos do homem, que o apertavam pela garganta, numa tentativa de aliviar a força e poder respirar direito. Claro que isto não era nada mais que senão um reflexo diante de sentir-se subitamente com o ar escasso.

" O que houve? Nós as testamos antes de virmos pra cá! " um deles comentou, surpreso.

" Isso não importa mais! " outro respondeu rispidamente, pensando " Veja se têm algum facão. E vocês, saiam daí! " bradou, indicando com o rifle para que fossem mais para o lado.

Assim que o fizeram, desobstruindo a passagem pela porta, o bandido que antes estava indignado com as condições de suas armas meneou a cabeça, concordando, e foi para a cozinha. O que segurava Heero debochou, maligno:

" Que peninha, agora vai doer muito mais com uma faca, não? " gargalhou psicoticamente.

O garoto arregalou, se é que isso era possível, ainda mais os olhos. O suor descia abundante por sua testa. Zechs não tinha idéia do que fazer, talvez aquele fosse o momento de agir, talvez não tivesse outra oportunidade. Entretanto, como se lesse seus pensamentos, o segundo que ainda estava na sala com eles, e que parecia ser o mais esperto, levou rapidamente o bico de sua arma ao peito de Quatre, encostando-o na parede.

" Tente qualquer coisa e eu atravesso o coração dele. " encarou os olhos preocupados do loiro.

Zechs rangeu os dentes, vendo que ficavam cada vez mais encurralados. Quatre, não entendendo o que acontecia, arqueou ambas as sobrancelhas.

" Não se mexa, Quatre. " veio a ordem do pai, que percebia o desentendimento do filho, e esta foi cumprida.

Nesse instante chegou o terceiro da cozinha com uma expressão confusa.

" E então? " perguntou o que ameaçava Quatre.

" Não tem nenhuma faca na cozinha. Aliás, tem só as sem cerra. "

" O que? Mas como pode...? "

Realmente, nenhum dos três homens compreendia os estranhos eventos que ocorriam naquela tarde, porém não havia tempo para perderem com aquela perplexidade inútil.

" Então, será a golpes? " dizendo isso, o assassino que segurava Heero o pôs no chão.

Entretanto, segurou seu braço firmemente e, erguendo a mão na qual estava a arma, virou-a, de modo que segurasse sua boca. Levantou-a, com a intenção de golpear a nuca de Heero com a parte traseira da arma. Estava a meio caminho de acertá-lo quando um barulho alto se fez presente, assustando a todos. Sem que percebesse, afrouxou o aperto no braço do menino, levantando os olhos... Mas não viu muito mais que isso.

O loiro, num movimento sobre-humano, agarrou o braço fino do filho e o puxou para perto de si. Bem a tempo de impedir que o teto que desabava caísse em cima do pequeno. No entanto, os bandidos não tiveram muita sorte: toda a madeira velha despencou sobre suas cabeças.

A arma que era pressionada contra o bebê caiu das mãos de seu carrasco, batendo opacamente no chão. Os quatro arregalaram os olhos, as crianças mais assustadas por verem... mais uma vez... pessoas praticamente morrendo às suas frentes do que por o teto ter desabado assim, do nada. Zechs olhou para cima, enxergando o céu claro do outro lado: a parte que desabara vinha do teto do segundo andar, bem aonde estava a enorme mancha d'água que vira naquela manhã, aquela mesma que ficara com tanto medo de que desmoronasse. E, com o peso de sua queda, acabou quebrando o chão do andar superior, derrubando-o sobre os três bandidos.

Olhou para os filhos, ofegantes, constatando que fisicamente todos estavam bem, e para os três caídos, semi-inconscientes, aos seus pés. Era a hora de tomar uma a atitude, de fugir.

" Vão para o carro meninos, vão! " mandou, empurrando-os para fora.

" Papai... " Quatre o único em condições de falar, tentou reclamar, mas Zechs o interrompeu.

" Vão! Rápido " gritou, exasperado.

" Tá. " saiu, levando os irmãos para fora, mas estes estavam tão atrapalhados e aflitos, Duo ainda berrando como um louco, que acabaram indo mais lentamente do que gostariam.

O loiro pegou uma das armas caídas: por um lado, poderia haver outros assassinos os esperando do lado de fora, como bem poderia ser que não. De qualquer jeito, tinha de fugir, pois sabia que seria perseguido pelo clã e não podia deixá-los ali, uma vez que se não houvesse ninguém por perto, estes mesmo dariam início à perseguição. Mas como também era provável que comparsas estivessem por perto, teriam que ser rápidos, fugir com o máximo de velocidade.

Mirou para a parede da sua frente e disparou. Milagrosamente a arma havia funcionado, como se se recusasse a funcionar nas mãos daqueles imundos. Teve certeza de que os filhos seriam atraídos para lá quando ouvissem o barulho e, como não queriam que vissem a cena que se seguiria, foi rápido, mirando para o primeiro corpo.

oOoOoOo

Pararam, Quatre voltou-se para a entrada da casa, amedrontado com o barulho. Ficaram imóveis por alguns, o moreninho mais novo aumentando o choro de maneira incrivelmente descontrolada, ao imaginar que mataram o pai, até Zechs aparecer, apressado, pela porta que levava ao lado de fora.

Duo correu a abraça-lo. Zechs queria retribuir, acalmar-lhe dizendo que tudo estava bem, mas agora não havia tempo, tinham de sair dali o mais rápido possível. E como seus pensamentos não fluíam direito, apressou-o para frente, guiando-os até seu carro velho. Abriu a porta de trás, colocando Heero, Quatre e Trowa lá dentro, depois bateu-a e, abrindo a do passageiro, foi a vez de Duo entrar, seguindo assim ele para o banco do motorista. Olhou para os filhos, ligando o carro.

" Ponham os cintos. "

Estava preocupado que, se tivesse mesmo alguém lá, a perseguição iria, provavelmente, iniciar-se na estrada e ele não queria colocar os meninos em risco com movimentos rápidos que o carro tivesse de fazer, para livrar-se eventualmente de algum tiro ou outra coisa. Heero, sentado agora no banco, voltou a chorar e espernear como fazia antes de ser pegou de refém, como se estivessem morrendo, um choro forte, convulsioso. E o irmão o seguia em igual intensidade. Quanto que a Trowa restava apenas uma respiração entrecortada, como se fosse asmático tendo um "ataque" sem sua bombinha para poder respirar corretamente, os olhos arregalados, a boa aberta... Estava em estado de choque.

Zechs prendeu o cinto de Duo e Quatre fez o mesmo com os dois moreninhos do fundo, uma vez que estava entre eles, pondo em seguida o seu próprio. Vendo que todos estavam seguros, inclusive ele que acabar de pôr seu cinto de segurança, saiu com o carro. Seguiu para uma trilha que ficava uns vinte metros atrás de sua casa, precisavam ir embora. Novamente.

Continua...

oOoOoOo

Primeiramente queria pedir desculpas a todos que leram a fic na ordem errada: logo após ter postado o quarto capítulo, fui ver como andava a formatação da fic e percebi uma grande desordem na seqüência de capítulos: primeiro vinha o cap. 2 seguido por ele mesmo de novo, então vinha o 1 e por fim o cap. 4. E nessa o cap. 3 foi comido. Sinceramente eu não sei como isso aconteceu, mas já consertei tudo. Só que devido ao meu grande desespero " os títulos de um ou dois caps. ficaram nada a ver, mas td bem, ignorem-os, por favor.

Em segundo, vou pedir mais desculpas, mas dessa vez pela demorar em postar esse cap. Na verdade ele já estava todo pensado, mas eu simplesmente me esqueci. uú Ninguém merece!

Ah, sim, eu tinha várias idéias para pôr e acabei colocando a mais tosca! ' Hehe, cá pra nós, a momy do Quat foi de grande ajuda, non? Soh pra quem naum entendeu, o teto desabando foi "obra" dela, tsc, tsc. Mas, enton, naum fiquem pensando que essas facas que o Quatre escondeu são umas faquinhas inofensivas, naum. Elas saum uns facões que se proliferam aqui no interior que é brincadeira, tipo, elas são enormes e super afiadas, que nem aquela dos filmes de serial Killer só que um pouco pior! Se você é do interior, com certeza já viu uma dessas!

Pois é, esse cap. não era pra acabar aqui, mas tava ficando muito grande e se eu colocasse o que eu tinha planejado por, ia dobrar praticamente o número de páginas e, bom, jah que eu naum tenhu muito o que colocar (por enquanto) no próx. cap., deixei para por o que faltou aqui nele.

Quanto ao fato de o primeiro cap. estar com travessões e todos os outros com aspas nas falas, é que este site andou comendo meus travessões de outras fics e, o resultado é que eu fiquei temerosa que comesse os dessa também, entaum pus tudo entre aspas. E, por falar nisso, eu fui ler o cap. anterior pra poder "entrar no clima" e escrever este e vi que ele estava cheio de erros, tinha uma frase que, pelo menos aki, tava cortada na metade. Pô, gente, quando vocês virem umas coisas assim, não hesitem em me mandar review xingando. Putz, eu odeio ler fics com tantos erro e imagino o mesmo sobre vocês, entaum podem xingar mesmo, pra eu tomar vergonha na cara e revisar o que escrevo.

Este cap. não ficou muito delicado, neh? Eu até que queria ter mais sutilidade pra escrever esse cap. e as emoções dos personagens, mas naum consegui, naum tou muito com espírito pra isso nesse últimos dias... Hehe, acreditam que essa noite (escrevi a maior parte do cap. ontem ateh de noite e o resto hj) eu até sonhei com isso? Ahaha, credo, eu fiquei meio impressionada! XD

Bom, mas eu vou ficando por aqui, espero que vocês possam me deixar reviews

Ateh o prox. cap, que espero que seja o final.

Matta ne:D

22/10/05