CAUGHT IN THE UNDERTOW
(Just Caught in the Undertow)

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N.A 01: Ah, me perdoem! Semana de provas foi dose... Só agora consegui finalmente me restabelecer pra postar o capítulo cinco. Desculpa mesmo, gente! Mas sem mais ou menos, ele está aqui.

N.A 02: É provável que essa seja minha última sessão N.A. Se vocês olharem bem, o agora está proibindo que escritores façam notas iniciais ou finais. Veja só se não é o cúmulo? u.u

N.A 03: Não sei direito, mas seja lá como for, essa pode ser a provável Segunda Parte da fic. Daqui por diante, os rumos mudam. Quem viu "Doce Novembro", deverá recordar dessa parte do filme (afinal, essa estória foi 'baseada' no filme, então algumas relações e semelhanças são até 'comuns'!).

N.A 04: É só um aviso: já que essa é a segunda parte, e as coisas mudaram, meu foco também muda: Agora, eu dou total vazão aos SENTIMENTOS dos personagens. Qualquer um que seja... Por isso, essa parte será mais 'melosa', mais 'analista' e até 'profunda'. Não se incomodem (tanto) com a mudança.

N.A 05: Comentem pessoal. Não há estímulo que resista a leitores invisíveis! E espero que curtam o capítulo.

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Capítulo V:

O sol do fim de tarde era dourado e as nuvens carmesins, numa profusão com tons de amarelo e laranja. Suas férias nunca lhe foram agradáveis. Pelo contrário, lhe eram altamente aborrecidas. Talvez este fora o motivo de querer tanto trabalho: o pavor da vida idiota que levava em casa.

As horas de um dia nunca lhe passavam tão devagar quando estava no lar. E sim, era-lhe chato sentar num sofá confortável, ligar a TV luxuosa num noticiário, novela ou outro programa, servir-se de um drinque e aproveitar o som do silêncio. Não era seu hobby. Não era o que lhe fazia feliz.

Faltava emoção. Faltava algo nele.

Algo que ele não sabia o que era de verdade. Procurava, sem nem saber o que procurava. Escondia-se, com medo de encontrar. Encontrava as coisas erradas, e tratava como se fosse certo, como se fosse 'aquilo que procurava'. Mas não era. E quebrava a cara quando enxergava isso.

Era aquele seu medo e seu maior refúgio: a solidão.

Mas quando encontrou aquela mulher, tudo ficou diferente: ele sentiu, pela primeira vez, um calor diferente. Não aquele mesmo calor que sentia quando encontrava a ex-namorada Lisa, por exemplo. Era mais forte. Mais cálido. Não era o calor que sentia quando encontrava a mesa de trabalho, os amigos 'idiotas'. Era diferente. Era mais avassalador.

E Siegfried sentia medo daquilo. Ao mesmo tempo em que queria acreditar que ela, Hilda, era 'aquela pessoa'.

Era um absurdo. Mas um absurdo no qual ele realmente, pela primeira vez em sua vida inteira, quis se agarrar cegamente, sem analisar prós e contras. Simplesmente atirar-se sem olhar pra trás, sem fazer nenhuma conta ou balança, ou se arrepender do que fez.

-"Eu queria..."-a voz hesitante de Hilda ajudava a deixá-la ainda mais 'estranha', como definiria Siegfried. Não conseguia imaginar uma palavra mais leve para ela no momento. Estava corada.

-"O que foi, Hilda? Aconteceu algo?"-sua preocupação era evidente. O rosto dela e a situação estavam-lhe tirando parte do sangue-frio.

Por um ínfimo momento, esqueceu totalmente do carro parado, do homem lá dentro que observava com um sorriso a cena, da rua, do seu próprio carro estacionado, da chave na mão esquerda, a TV, do sofá, da cama, dos papéis, das férias, dos amigos... Um nada. Somente um nada. Ele não pensava em mais nada. Não sabia e não conseguia.

-"Sabe... Você... Está de férias, não...?"-pergunta, olhando para baixo.

-"Sim. Estou sim."-responde, sentindo-se um idiota por não poder responder mais, e ao mesmo tempo, cada vez mais perdendo o controle e qualquer palavra que quisesse pronunciar.

-"É que eu pensei... Sabe, pode até me achar uma idiota... Mas minha mãe tinha um jogo legal que gostava de jogar... E eu queria jogar com você..."-diz, juntando as mãos, num sinal de embaraçamento.

-"Jogo? Que jogo?"-pareceu confuso, mas não quis demonstrar.

-"Bom... Ela, uma vez... Acolheu um homem de rua lá em casa... Disse que esse é o jogo... Você acolhe algum desconhecido que sentiu empatia... E o leva para sua casa... O trato é de permanecer um mês na residência... E depois disso, todos voltam às suas vidas normais..."-falava.-"É como... Como um reallity show... Os desconhecidos vão se tornando conhecidos, entende...? É mais ou menos assim... E quando vi você, lembrei desse jogo..."

-"Você veio me convidar... Pra jogar isso?"-ele não sabia que reação sentir.

Pela primeira vez em sua vida, sentiu o coração daquela maneira. Queria tanto adrenalina, e sabia: quando sentiu, também sentiu medo daquilo. Era sempre assim... Querer e não querer. Aquela indecisão o irritava.

-"Desculpe se eu estou te amolando... É que essa idéia me veio... Tão repentinamente... Como a minha mãe..."-ela dá um sorriso triste, ainda olhando para baixo, com medo de encarar o homem a sua frente. Siegfried percebe, e sente-se ainda mais tentado à aceitar aquela loucura.-"Desculpe se fui muito precipitada... Se quiser... Pode esquecer tudo isso... É que, eu achei que... Fosse ser divertido, mas... Tudo bem..."

-"Eu..."-murmura.

Hilda parou ao ouvir sua voz. Seu corpo enrijeceu-se, e ela olhou para os olhos azuis daquela pessoa que conheceu há menos de três dias. Sentia algo estranho. Ela sempre foi louca e precipitada, apesar de esconder isso sendo bastante gentil com os semelhantes, e até paciente. Mas com ele, aquela idéia lhe fora tão tentadora que não pudera evitar. Quando deu por si, e ainda mais com as insistências do vizinho, já estava num carro, a caminho do prédio dele.

Sentiu-se uma idiota quando viu o que estava fazendo. O que ele diria? Ela percebera que Siegfried não era do tipo louco como ela. Era metódico. Uma pena... Aquele plano não tinha como dar certo.

-"Você...?"-forçou-se a perguntar.

-"Deixe-me pensar, Hilda... Me dê só um segundo..."-sentiu os pés lhe afastarem do chão e de qualquer realidade.

Precisava analisar a situação aqui e agora. Então, o fez. Pensou. Aquela mulher lhe apresentou o plano mais ousado, repentino e louco que ele ouvira em sua vida chata inteira. E aquilo o deixou muito tentado a aceitar. Ao mesmo tempo, sentia um receio de abandonar o ninho seguro e com suas próprias regras, para adentrar num outro ninho, que ele não sabia as regras, os móveis, os cômodos. Não sabia nada.

Aquilo, no entanto, lhe despertava realmente uma sensação de: 'vamos tentar'. Ficou dividido entre aceitar e recusar. Se ele recusasse, ela sairia, eles provavelmente não se veriam de novo, a não ser se Siegfried adentrasse em sua floricultura. Hilda não o iria receber como antes. Mas, se aceitasse, poderia conhecê-la, conhecer um outro mundo, conhecer... Ele gostava disso. Só tinha receio de abandonar a segurança do lar.

-"Bem... Eu acho que..."-então, fixou os olhos azuis nos olhos lavanda da guerreira. Estavam receosos.-"Fiquei realmente tentado, Hilda... Como posso dizer? Gostei disso... Sempre tive curiosidade... Então... Como dizem por aí: 'tô dentro'."

Hilda sorriu ao ouvir aquelas palavras.

Não imaginava o motivo que o fez aceitar. Mas, seja lá qual for, ela agradecia. Não levou um fora, pelo contrário, ganharia um amigo pelos próximos trinta dias. Seria uma coisa realmente fantástica. Ela tinha, além disto, uma curiosidade sobre ele. Queria conhecer Siegfried Duhbe. Desde o início, o achara alguém extremamente atraente e misterioso. Aquele ar sério e cheio de mistério lhe atraíra bastante.

Siegfried queria parecer jovem. Afinal, a loucura, até onde ele dizia-se, era para jovens. E ele estava para adentrar em uma.

-"Você espera? Preciso arrumar minhas coisas... Afinal, nós vamos para a sua casa, não é?"-sorri.

-"Sim. Pra lá mesmo."-ela também dá um sorriso.

-"Então está bem, espere só um momento."-caminhou em direção da portaria, mas parou assim que abriu a porta.-"Escuta... Nós vamos com aquele homem ali?"

Seus olhos olhavam Thor, que continuava a olhar a cena.

-"Ah sim... Aquele é meu vizinho... Ele me trouxe até aqui, já que minhas economias nunca puderam comprar um bom carro..."-sorriu embaraçada. Se iriam executar um jogo de conhecimento e convivência, desde agora ela precisava deixar seus pontos abertos e fazê-lo retribuir.

-"Obrigado pela informação."-deu mais um sorriso, antes de adentrar no apartamento.

------ # V # ------

O telefone tocava. Mas ninguém atendia. Ele estranhou. Geralmente, o amigo nunca demorava nada para atender telefonemas, por ser alguém que, a qualquer momento, pode ser surpreendido com uma importante ligação. "Mas ligações de amigos também deveriam ser importantes!", pensou ele. Tentou no celular. Estava na caixa de mensagens.

-"Mas o Sieg é do tipo nunca desliga o celular, saco..."-suspira, colocando seu telefone no gancho.

Queria marcar um programa badalado com o amigo. Uma boate, um jantar, alguma coisa do tipo. Sabia do grave problema do amigo de ficar em casa sem poder trabalhar. E por isso mesmo, queria ajudar. Para retribuir aquele dia, naquela situação. Sentia-se em eterna dívida com ele.

Pensou em fazer uma surpresa para ele mais tarde, aparecendo do nada em sua casa. Ele gostava se surpresas assim. "Se funcionava com a Lisa, espero que funcione comigo", pensa de novo, soltando outro suspiro.

Nem mesmo os muitos anos de amizade nunca fizeram Haguen compreender Siegfried totalmente. Faltava sempre aquela parte escondida que o loiro não contava para ninguém. Nem mesmo para ele, que era provavelmente o 'melhor amigo'. Ou melhor, um 'amigo mais íntimo'. Não gostava das colocações 'melhor amigo', 'segundo melhor amigo'. Não queria saber que era, por exemplo, o 'décimo quinto melhor amigo' de alguém. Por isso evitava classificar os outros da mesma forma.

-"É... Mais tarde eu faço uma surpresa..."-pensou, dirigindo-se para o quarto em seguida.-"Antes disso, uma soneca. Afinal, férias foram feitas pra isso!"

------ # V # ------

Siegfried acordou, mas não abriu os olhos. Sonhara que aceitara uma estranha e inovadora proposta de Hilda, a garota da floricultura, e que ambos foram de carona com um homem alto e sorridente até a casa dela. Era cheia de flores na frente. Hilda lhe indicou um quarto no lugar de cima, já estrategicamente arrumado. Ele agradeceu e estabeleceu-se ali.

Os dois não ligaram a TV naquela noite, como seria provável que ambos o fariam se sozinhos. Ambos sentaram-se no sofá. Hilda lhe disse: "sinta-se em casa. Faça o que bem quiser aqui". E ele, meio receoso no começo, sentou-se de maneira mais esparramada no sofá de dois lugares. Ela só deu um sorriso um tanto hospitaleiro.

Ele nunca conversou tantos assuntos, pessoais ou não, com outra pessoa. E percebeu que ela o ouvia intensamente, sem perder a curiosidade em suas palavras. Aquela situação lhe trouxe, estranhamente, uma sensação cálida de aconchego doméstico e até sentimental. Como se ela fosse uma mãe, uma irmã, ou até... Uma esposa.

Ao ver o quão longe foi seu sonho, levantou rapidamente.

Sentou-se na cama. Ela era totalmente diferente do quarto que ele estava acostumado a dividir com a noite. O quarto em si lhe era muito diferente. Mais claro. Havia flores ali perto de sua cama de casal. O sol entrava pela fina cortina de seda branca, e adentrava em seus olhos que já não se incomodavam mais. Aí, ele percebeu que seu sonho não era mais um sonho.

Atordoado, pegou algumas roupas e procurou um banheiro. Achou-o sem demorar muito. Sem muita dificuldade, e rapidamente acostumado, ligou o chuveiro e deixou que a água lhe escorresse pelo corpo recém acordado. Assim que acabou, vestiu-se e desceu. A cozinha estava ali e eram a recém oito e meia da manhã. O café da manhã devia estar pronto. E se por um acaso não estivesse, e Hilda não estivesse em casa para ajudá-lo nisto, ele aprenderia a se virar em sua 'nova casa'.

Gostou do título. Aquela casa era acolhedora, do jeito que ele gostava. Parecia mais viva e alegre. Muito diferente da sua, solitária, gelada e até impessoal. Lisa reclamara que aquilo era um apartamento muito frio. Mas ele gostava do lugar onde 'descansava'. Não se importava com tais 'insultos'.

Ao chegar na cozinha, porém, encontrou uma mesa arrumada e Hilda com os preparativos finais.

-"Ah, você está aí! Bom dia."-sorri, virando-se e olhando para ele.

-"Bom dia..."-ele falou hesitante, ainda estranhando todas aquelas coisas novas, e sentando-se em seu lugar na mesa farta.

-"O café está quase pronto. Ah, você gosta disso tudo...? Não sabia direito do que você gosta na refeição da manhã, mas fiz isso... Está bom?"-pergunta, com certo receio de ouvir uma resposta, olhando para ele, que observava os alimentos postos à mesa.

-"Claro. Isto está com uma cara ótima."-sorri para ela.

-"Que bom... Já estou acabando."-ela dá um sorriso também, em seguida voltando a terminar os últimos toques.

------ # V # ------

-"Hã? Ele o quê, cara?"-a voz de Shido perguntava assustada, do outro lado da linha.

-"Tô te falando sério, Shido, ele sumiu! Ia fazer uma surpresa pra ele no apartamento agora, e ele não estava... E mais: o celular e telefone também não estão atendendo."-fala preocupado Haguen, pelo celular.

-"Ah, você foi fazer o que ali, Tigrão? Fazer uma surpresa pra sua princesa?"-pergunta o gêmeo, em tom debochado.

-"PARE COM ESSAS PIADAS IDIOTAS!"-grita, irritado.

-"Credo! Não precisa gritar, seu marginal! Eu só tava zuando! Mas eu entendi... Ele não está na casa da Lisa?"-pergunta, também receoso.

-"Acorda Shido! Ele e ela acabaram!"-Haguen diz, suspirando.

-"Ah, é verdade! Então eu realmente não faço idéia de onde ele possa estar, cara... Por que não relaxa e aproveita a folga? O Sieg é um cara direito. Pode ter certeza que, em confusão, ele não está."-fala o gêmeo.

-"Eu sei, mas..."

-"Então, meu! Faz o seguinte: se não esquece disso por bem, enfia um licor de catuaba na boca que já passa! É tiro e quedo!"-fala ele, num tom infantil.

-"Mais uma dessas suas piadinhas e eu vou aí e te quebro a cara..."-suspira de novo.-"Você realmente é de grande ajuda."

-"Eu tô fazendo o possível. Mas não vim equipado com bola de cristal! Além do mais, você parece até mãe dele."-diz, fingindo-se de ofendido.

-"Ah, já entendi. Obrigado assim mesmo. Tchau."-e desliga o telefone, não dando tempo de Shido dizer o mesmo, ou fazer mais uma piadinha sem graça, como costumava dizer Haguen.

Mais um suspiro. Parece que o compromisso com o amigo realmente estava cancelado por tempo indeterminado. Mas tudo bem... Ainda havia outros amigos com quem podia contar. Ou simplesmente, se perdesse pelo decorrer do dia a vontade de ver pessoa, havia a solidão do seu lar.

Nessas horas sentia falta dela...

Ou de qualquer outra pessoa que lhe pudesse dar um pouco de calor humano, o qual negava, mas realmente sentia falta.

Continua...