NOTAS INICIAIS

Essa história é sobre sofrência, leia por sua conta e risco. Você foi avisado.

PARTE 1 – INFIEL

- Você está bem, princesa?

Jason estava no escritório de Helena quando ela retornou do tribunal naquele final de tarde. Ela entrou agitada e ele a olhou preocupado. Helena olhou para o marido que a aguardava e não conseguiu dizer nada, a lembrança do Coringa ainda a arrepiada.

Aquela voz esganiçada e insana ainda ressoava nos ouvidos da jovem mulher. Aquela foi a primeira vez que ela o viu de perto. A primeira vez que ela olhou nos olhos do culpado por ela ter passado muitos anos separada dos seus pais, o culpado por Jason ter...

Helena abraçou o marido o mais forte que pôde.

- Você está bem mesmo? – Jason perguntou apreensivo enquanto a abraçava. – Não deixe o Coringa mexer com sua cabeça, princesa. É exatamente isso que ele quer.

- Eu vou ficar bem. – ela respondeu se aconchegando no peito dele. – O promotor Jensen conseguiu mais uma pena perpétua pra ele. Estamos bem...

- Pelo menos até ele fugir de novo... – Jason zombou.

- Como você pode ficar tão calmo? Foi esse maníaco que...

- Ei, - Jason a calou levando o indicador aos lábios dela. – Eu não tenho medo dele. As cicatrizes ainda estão aqui, - ele abaixou o colarinho mostrando o início da cicatriz de autópsia, quase transparente agora. – mas eu não permito que ele me afete. Não mais. Por isso, princesa, não vamos deixar esse lunático acabar com o nosso dia. – Jason segurava o queixo de Helena e a beijou no topo da cabeça.

- Eu só quero ir pra casa e ficar com você e o Terry... – Helena disse ainda abraçando-o com mais força que o necessário.

- Terry pediu pra ficar na mansão hoje. – Jason disse erguendo as sobrancelhas, nos lábios o meio sorriso safado que a esposa conhecia muito bem.

- Eu devia ficar chateada do meu filho querer passar tanto tempo na casa dos avós...

- Não deixe a Selina ouvir você dizendo que ela é uma avó... – Jason brincou enquanto afagava o cabelo da esposa.

- Minha mãe tem que aprender a lidar com a realidade. – Helena sorriu e afastou-se do abraço de Jason. - Mas pelo menos vamos ter a noite só pra nós, tô com saudades...

- Eu também. Você não imagina o quanto, princesa. – Ele disse puxando-a de volta para um abraço, pressionando os quadris contra os dela.

- Eu acho que posso imaginar. – Helena sorriu travessa. - Vamos logo pra casa...

Quando Helena saiu do escritório de mãos dadas com Jason, eles foram abordados por Dean, um dos assistentes juniores do escritório da promotoria.

- Helena, os repórteres estão lhe aguardando lá fora, querem uma coletiva sobre a condenação do Coringa.

- Peça ao promotor, Dean. Eu já estou indo embora.

- O promotor Jensen disse que não dará entrevistas. – Dean comunicou apreensivo. - Ele falou que você sabe lidar melhor com os repórteres.

Helena suspirou irritada. Jensen era o promotor suplente e estava assumindo a promotoria até que o próximo promotor fosse eleito. Ele estava no cargo desde que Harvey Dent enlouqueceu e se tornou o criminoso duas-caras que agora estava no Arkham, após ser preso pelo Batman. Jensen não queria o cargo, ele gostava de ser suplente e ganhar o salário sem fazer nada. Como Helena era a assistente sênior da promotoria, ele acabava jogando todo o trabalho pra jovem advogada.

- Dessa vez não vai dar, Dean. Eu tenho planos pra hoje... – Helena olhou para Jason que os observava paciente.

- Mas, Helena, o prefeito ordenou que o escritório da promotoria se pronunciasse... – Dean insistiu.

Helena olhou para Jason pedindo desculpas. Ela sabia que o marido odiava repórteres e entrevistas coletivas.

- Eu espero você, - ele falou compreensivo. – Vou pegar minha moto no estacionamento.

- Obrigada... – Helena sussurrou agradecida.

Quando Helena saiu do fórum, muitos repórteres a aguardavam e sua visão foi ofuscada pelos flashes. Um púlpito tinha sido colocado na frente do fórum e a jovem Wayne começou a responder as perguntas dos repórteres. Quinze minutos mais tarde, ela disse que não responderia mais perguntas, deixou o púlpito e caminhou para a porta lateral do fórum onde Jason a esperava recostado na moto. Ele estava muito concentrado escrevendo algo no celular e não percebeu quando a esposa se aproximou.

- Voltei, baby.

Jason teve um sobressalto quando ouviu a voz de Helena e guardou o celular muito rápido.

- Nossa, você tomou o maior susto... – Helena brincou. - Com quem você tava falando?

- Com o Roy, - ele respondeu rápido. – Escuta, princesa, vou deixar você em casa e vou precisar ajudar o Roy com um problema que ele se meteu...

- Que pena... essa noite era pra ser nossa... – Helena disse chateada, pois eram raras as noites que ela e Jason tinham livres para os dois.

- Me perdoa... – ele a abraçou pela cintura.

- Tudo bem. – Helena deu de ombros. - Se você pode ser compreensivo com o meu trabalho, eu posso ser compreensiva com o seu.

- Você é fantástica. – ele abraçou Helena pelos quadris e a beijou.

- Se você voltar cedo, eu prometo fazer você se sentir fantástico... – Helena falou com malícia quando terminou o beijo.

- Espere por mim, princesa. Pode apostar que eu voltarei.

/

Mas ele não voltou.

Já passava da meia noite e Helena já havia visto todas as publicações recentes nas redes sociais, feito uma videochamada com Terry e trocado mensagens com Damian por quase uma hora, quando ela resolveu ligar para o celular de Jason, pois ele não tinha visualizado ainda as mensagens que ela enviara mais cedo.

Ele também não atendeu a ligação dela.

Helena ficou preocupada de verdade. Jason fazia questão de responder as mensagens dela o mais rápido que podia e sempre atendia as ligações, mesmo quando estava nas situações mais difíceis, como no meio de um tiroteio, por exemplo. Quando não podia atender, por que, as vezes estava amarrado, amordaçado ou algemado, ele retornava à ligação o mais breve possível.

Foi por estar preocupada que ela resolveu ligar para o melhor amigo de seu marido, Roy Harper.

- Oi Lena. – Roy atendeu contente. – tudo beleza?

- Oi Roy, você podia passar o telefone pro Jason? Não tô conseguindo falar com ele.

- Eu não tô com o Jay, hoje não. Tirei uma noite de folga...

- Ah, tudo bem. Desculpe.

Helena desligou o celular muito surpresa. Jason mentiu pra ela? em seis anos de casamento, ele nunca mentiu para ela. Jason era franco e honesto, por pior que fossem as coisas que precisasse dizer a ela. Às vezes, a sinceridade dele chegava a ser cruel, mas essa sinceridade era uma das bases do relacionamento deles.

Sentindo uma agitação anormal, Helena desligou a música, tirou a mesa do jantar que preparara e guardou o vinho. Voltou ao quarto e trocou a lingerie sensual por um pijama confortável. Deitou-se e demorou a pegar no sono.

Ela não percebeu quando Jason chegou pela madrugada e só acordou quando ele deitou a seu lado e a abraçou.

Já estava claro lá fora.

- Desculpe, princesa. – ele sussurrou beijando-a, e ela pôde sentir que ele cheirava a sabonete. – A noite foi terrível, Roy me prendeu com ele em uma missão, mas eu sou todo seu agora. – ele falou pressionando o corpo contra o dela.

Ela não abriu os olhos, preferiu fingir que dormia.

/

Nos dias que se sucederam, Helena carregou a dúvida e a decepção pela mentira do marido.

Helena costumava confrontar as pessoas quando tinha algum problema com elas, mas dessa vez, ela não conseguiu confrontar o marido sobre aquele assunto e ele não parecia se sentir culpado. Além disso, ela esteve muito ocupada na promotoria tendo que fazer todo o trabalho do promotor Jensen que estava muito entretido correndo atrás de mulheres vinte anos mais jovens que ele e jogava todo o trabalho para a jovem assistente.

Jason chegou tarde em casa todas as noites, e embora isso fosse parte da rotina dele, o jovem pai sempre separava algumas noites na semana para estar com o filho e a esposa, mas nos dias que se seguiram, ele não teve noites livres, alegando que estava muito ocupado. Novamente, Helena não conseguiu confrontá-lo sobre isso.

Ela teve que conter por duas vezes a vontade de ligar para Alfred e pedi-lo para localizar o marido. Helena sabia que o velho mordomo tinha a localização de todos eles a todo momento, mas fazer aquilo era a confissão de que algo não estava certo entre eles, e ela não conseguia aceitar que não estivesse.

Na sexta-feira, era a noite do jantar mensal da família. Alfred considerava uma ofensa pessoal se alguém ao menos ousasse pensar em faltar sem uma excelente justificativa.

Helena nem almoçou para conseguir dar conta do trabalho na promotoria e não se atrasar para o jantar. Jason tinha combinado de buscá-la, mas próximo do horário combinado, ela recebeu uma mensagem do marido dizendo que ia se atrasar e que não podia buscá-la.

Em quase sete anos juntos, ele nunca havia deixado de buscá-la em qualquer lugar que houvesse combinado. E mais essa constatação foi a gota d'agua para Helena. Seus instintos de lhe diziam que havia algo muito errado.

E Helena confiava em seus instintos.

/

- Cadê o Jason? – foi a primeira pergunta de Selina ao ver a filha chegar desacompanhada ao jantar.

- Ele avisou que virá logo. – Helena respondeu como se não fosse nada, mas sentindo-se incomodada.

- Mamãe! – Terry falou contente ao chegar à sala de estar acompanhado de Bruce. Helena correu para abraçar o pequenino que fizera seis anos no mês anterior e estava cada dia mais parecido com o pai.

- Oi meu bebê, - Helena falou abraçando o menino. – Como foi seu dia?

- Foi muito bom, mamãe. – Terry disse com um sorriso. - Eu brinquei na garagem depois que terminei a tarefa de casa.

- Ele arrancou as calotas de três carro, madame. – Alfred explicou para Helena.

- Tem bem a quem puxar. – Bruce disse sem se conter. – Onde está o Jason?

- Ele já está vindo, papai. – Helena respondeu enquanto pegava o celular e digitava outra mensagem para o marido.

Onde você está?

Na meia hora seguinte, todos os outros membros da família foram chegando, até Dick estava lá aquele dia, pois tinha conseguido uma folga na delegacia de Bludhaven, o jovem Wayne acabara de ganhar o posto de detetive e o jantar daquela semana seria em comemoração à essa conquista do filho mais velho de Bruce.

Depois de ouvir metade da família perguntar por Jason e não obter respostas nas mensagens e ligações que fez ao marido, Helena começou a se preocupar. Jason nunca deixou as mensagens e ligações de Helena sem resposta naqueles anos juntos, nunca. Mas ele começou a fazer isso no último mês e ela sabia que algo não estava normal.

Ela não queria preocupar os pais, pois sabia que Bruce colocaria toda a família em alerta se soubesse que um dos membros não respondia e ela não queria estragar o jantar de comemoração de seu irmão mais velho. Helena também não queria que eles se envolvessem fosse lá no que estivesse acontecendo.

Depois de deixar Terry com Cassandra, que costumava ser a babá do menino desde que ele era bebê, Helena saiu discretamente da sala de estar enquanto seu pai estava distraído por Selina que sentara no colo dele e falava algo ao ouvido do patriarca da família Wayne. Selina Kyle era a única capaz de distrair Bruce Wayne. Sabendo disso, Helena se aproximou de Tim Drake que jogava no celular e o puxou para fora da sala de estar.

- Helena, eu estava jogando uma partida online! – o rapaz reclamou.

- Pause o jogo. – Helena disse puxando o irmão pelo braço.

- Não se pode pausar um jogo online. – Tim reclamou já guardando o celular. – Essa partida já era...

- Preciso que você me acompanhe até a caverna, Tim. – Helena sussurrou apressada.

- Você sabe que o B. não gosta da gente fuçando por lá sem ele.

- Por favor... – Helena pediu juntando as mãos. – É o Jason... eu não sei onde ele está.

- Então é melhor chamar o B. mesmo! – Tim disse preocupado.

- Não! – Helena insistiu. - Vamos primeiro ver onde ele está. Por favor... Sem você eu não consigo achá-lo.

- Não tem como achar ele, Lena.

- Conta outra, eu bem sei que o papai tem sete satélites e que ele monitora a gente o tempo todo. E eu sei que ele colocou localizadores em todo mundo! E VOCÊ ajuda ele com isso! – ela apontou o indicador contra o peito de Tim, acuando-o contra a parede. - E se você não me ajudar, vou contar tudo pro Dick e pra Babs, você sabe como eles odeiam quando o papai xereta a vida deles...

- Nossa, você tá sendo desperdiçada como assistente da promotoria... – Tim se rendeu. - Devia se candidatar a promotora! Você é assustadora!

- Você vai me ajudar ou não? – Helena cruzou os braços. - Dick e Babs estão logo ali...

Derrotado, Tim acompanhou a primogênita dos Wayne até a caverna. Ele sentou-se na cadeira em frente ao grande computador e começou a digitar de forma frenética. Helena estava de pé ao lado dele, ansiosa.

- Cada um de nós tem um localizador, - Tim explicou enquanto digitava. – O do Jason foi colocado na moto...

- Na moto? Eu achei que papai tinha arranjado um jeito de colocar embaixo da nossa pele...

- Isso está nos planos dele... – Tim falou sem tirar os olhos do computador. – Ah, já localizei. Ele tá cruzando a ponte Metro-Narrows agora. Vou hackear as câmeras de trânsito... pronto. Aí está.

Helena viu a imagem. Sem dúvidas era Jason. Ele guiava a moto pela ponte Metro-Narrows, mas ele não estava sozinho.

- Tem uma pessoa na carona da moto com ele. – Helena constatou. – Aproxime a imagem, Tim.

- Lena, a gente tá invadindo a privacidade dele...

- Você colocou a porra de um localizador na moto dele! Além do mais, ele é meu marido. Aproxima essa imagem, Tim! – Helena falou de um jeito perigoso.

O mais esperto dos Robins digitou mais alguns comandos no grande computador.

Então Helena viu.

Parecia uma mulher. Usava o capacete que Jason levava quando ia buscá-la de moto. A garota parecia usar um vestido muito curto e justo, os longos cabelos loiros apareciam por baixo do capacete. E as os braços dela... os braços dela abraçavam firmes o abdômen do marido de Helena.

- Mas que porra é essa?

- Posso desligar? – Tim indagou preocupado com o rumo da coisa toda.

- Siga eles.

- Helena é melhor...

- SIGA ELES, TIM!

Tim os seguiu pelas câmeras de monitoramento da cidade, também usou as câmeras extras colocadas por Bruce ao longo dos anos. Helena viu Jason cruzar a ponte e chegar ao Narrows, onde, depois de passar por várias ruas, acabou parando em frente a um velho prédio.

Havia uma câmera muito bem-posicionada e Helena viu com clareza quando a loira desceu da moto de Jason, retirou o capacete, colocou os braços em torno do pescoço dele e o beijou na boca.

Em seguida a mulher se afastou, entrou no prédio e Jason ligou a moto e dirigiu em direção a escuridão.

- Tim, essas imagens estão gravadas? – ela perguntou, os olhos fixo na câmera que mostrava a moto de Jason se afastando.

- Sim...

- Tudo bem, – Helena disse muito calma. - Eu quero que você faça o seguinte...

/

Helena voltou a sala de estar com Tim, ela não respondeu a mensagem que Jason enviou dizendo que estava quase chegando à mansão.

- Al, o Terry pode ficar aqui hoje à noite? – ela indagou tranquila ao mordomo.

- Claro, madame. Alguma comemoração especial com o senhor Jason?

Helena não respondeu, fingiu que não ouviu e apenas afastou-se indo ao encontro de Dick.

- Parabéns, irmão. – ela disse abraçando Dick. – Você ainda vai ser o comissário dessa cidade, o Gordon que se cuide...

- Que exagerada, Helena. – Dick sorriu. – Você tá bem? – ele disse ao ver os olhos da irmã, estavam cheio de lágrimas.

- Estou sim... e me desculpe.

Sem mais explicações, Helena se afastou do irmão mais velho e passou discreta pela sala de estar.

Ninguém percebeu quando ela saiu da mansão.

/

Jason chegou na mansão pouco depois.

Em algum momento na estrada, sua moto passou pelo carro de Helena, mas ele estava tão concentrado em chegar logo, que esse encontrou passou despercebido.

- E aí, perdedores? – ele falou quando entrou pela sala de estar. Não percebeu o silêncio sepulcral que fazia no ambiente. – O que vocês têm? Cadê a Helena? E o Terry?

- Eu te defendi tanto, garoto! – Selina falou perigosa, próximo a ele. – Você tem sorte que o Damian não pôde vir aqui hoje... muita sorte.

Ela afastou-se saindo da sala.

- Acho que não temos clima para comemorações hoje, Dick. Nos perdoe. – Bruce falou para o filho mais velho e saiu em direção a biblioteca, sem ao menos falar com Jason.

- O que tá rolando? – Jason indagou para os que ainda estavam presentes.

- Olha o grupo da família, cara. – Dick falou sério enquanto os outros irmãos dispersavam-se da sala.

Jason pegou o celular, havia um vídeo postado por Helena no grupo da família. No vídeo, ele beijava a loira misteriosa.

- Eu juro que eu não sabia que ela ia enviar pra todo mundo... – Tim falou em tom de desculpas.

Os olhos de Jason ainda estavam presos a tela do celular.

Helena havia saído do grupo dez minutos atrás.

/

- O senhor não pode subir.

Boyle, o porteiro que Jason conhecia há cinco anos, barrou a passagem dele quando ele chegou ao hall do prédio meia hora depois.

- Como assim não posso subir, Charles?

- Madame Helena disse que o senhor não mora mais aqui. – o porteiro explicou com pesar. – Ela deixou isso para o senhor.

O porteiro entregou a Jason uma mala que parecia feita às pressas, visto que pedaços de roupas escapavam nas bordas.

- Helena tá louca se tá achando que eu vou embora daqui sem falar com ela.

- É melhor o senhor ir, senhor Todd. Eu não posso deixá-lo subir. Se o senhor insistir, terei que chamar a segurança.

- Boyle, essa é a porra da minha casa!

- Madame Helena disse que não é mais.

/

- Eu sabia que você viria.

Helena estava sentada no sofá da sala escura. Apenas a claridade da varanda entrava pela janela. Ventava aquela noite e o vento espalhava as cortinas quando Jason surgiu na varanda do apartamento.

- Tentei entrar pelo modo normal, mas você me proibiu.

- Se eu proibi, é porque não lhe queria aqui. Você devia ter respeitado isso.

- Princesa, precisamos conversar...

- Não me chame assim! – Helena levantou-se e virou-se para encará-lo. - E não temos o que conversar... acho que aquelas imagens falam muito mais que palavras.

- Eu sei o que parece... – Ele passou uma mão pelo cabelo.

- Parece? PARECE? – Helena voltou-se para olhá-lo. - Não parece... é. Você estava beijando aquela mulher. Isso é um fato.

- Prin.. Helena, não estamos no tribunal. – Jason a olhou de onde estava. - Você não pode simplesmente me condenar. Você precisa ouvir a história toda...

- Tá certo, mas antes de ouvir, me adianta só uma coisa. Você já dormiu com aquela garota?

Jason ficou em silêncio. Helena o conhecia bem demais para saber que ele preferia ficar calado quando não queria falar alguma coisa.

- Eu imaginei. Não preciso saber mais nada...

- Você precisa. O nome dela é Cibel. Nós já tivemos um envolvimento, mas não foi agora. – ele apressou-se em dizer. - Foi quando eu trabalhei disfarçado pro Marcondes e achei que você estava envolvida com o Dick. Ela era uma das garotas que estavam com o passaporte retido pelos homens de Marcondes e eu a ajudei a fugir.

- Depois de comer ela, né?

- Helena, me escuta.

- Se você devolveu o passaporte dessa garota, o que ela tá fazendo aqui? Ela não devia ter voltado pro país dela?

- Ela ficou em Metrópoles depois que o Marcondes morreu, eu não fazia ideia até que ela voltou pra Gotham há poucas semanas. Helena... ela tá sendo perseguida por um ex-namorado da máfia.

Helena teve que rir com a ironia.

- E você está repetindo a história... vai chamar ela pra morar com você também?

- Helena... é só uma garota perdida que precisa de ajuda. – Jason argumentou. - Você mais do que ninguém devia entender isso.

- Eu entendo. E eu seria a primeira pessoa a dar a mão pra essa garota, como eu faço todos os dias pra várias meninas de Gotham, como você bem sabe. O que eu não entendo é: por que você precisou esconder isso de mim? E por que diabos ela tava te beijando?

- Eu não falei pra Cibel sobre você. – Ele confessou baixando a cabeça;

- VOCÊ NÃO FALOU SOBRE MIM? – Helena gritou. - Inacreditável.

- Helena, eu não fiz isso por mal. Eu não queria expor você e o Terry! A Cibel me viu sem o capuz quando ficamos juntos no passado, ela sabe quem eu sou. E ela mistura as coisas...

- Essa garota nunca viu no jornal que você é casado com a filha de Bruce Wayne? Ah, conta outra, né...

- Ela imagina, mas ela acha que nosso casamento não tá bem.

- Nesse ponto ela está certa.

- Helena, acredite em mim... – ele quase implorou.

- Claro que vou acreditar que um homem casado que diz pra outra mulher que o casamento não está bem está falando a verdade. Claro! – Helena ironizou. – Me diz, em qual momento você chegou à conclusão de que eu era tão estúpida?

- Helena, por favor... Isso tuso é só até eu convencer Cibel a voltar pro país dela. Aqui não é seguro pra ela, mas ela não quer ir embora.

- Não quer ir embora porque está apaixonada por você, eu suponho. Estou errada?

Jason fez silêncio mais uma vez.

- A situação já está mais do que clara pra mim, se você quisesse apenas ajudar essa garota, poderia ter pedido minha ajuda ou a ajuda da família. Você tá envolvido com ela... – Helena afirmou convicta. - Provavelmente já até voltou a dormir com ela...

- Helena, não é assim... por favor...

- Jason, eu não aceito ver meu marido beijando outra mulher! É desrespeitoso, pra dizer o mínimo. Machuca... machuca demais. – Ela limpou uma lágrima que escorria pelo canto do olho.

- Helena...

- Vai embora, Jason. – Ela concluiu afastando-se. – Eu não consigo nem olhar pra você... Vai embora, por favor.

- Helena...

- VÁ EMBORA!

Helena saiu da sala em direção ao corredor e Jason andou para segui-la, mas foi detido por alguém que chegou na escuridão.

- Você não vai atrás dela.

Jason viu o Asa noturna na sala escura.

- O que você tá fazendo aqui? Isso é entre eu e minha esposa, você não tem que tá se metendo.

- Quando as brigas de casal podem machucar, todo mundo deve se meter.

- Você sabe que eu nunca machucaria ela.

- Fisicamente eu sei que não, mas parece que você já machucou muito ela por hoje. – Dick pôs a mão no ombro do irmão. - Vamos, eu te pago uma bebida.

- Você? bebendo? – Jason disse sarcástico.

- Só quando necessário.

Dando-se por vencido, Jason seguiu o irmão pela janela da sala do duplex, ele ainda olhou pra trás para ver a janela do quarto que dividia com Helena.

A luz estava apagada.

/

- Foi tudo um grande mal-entendido. – Jason disse um pouco mais tarde enquanto pegava a cerveja que Dick lhe oferecia. Estavam no balcão do Sirens, bar onde Bárbara Kean e Selina eram sócias.

- Eu sei.

- Você sabe? Achei que você ia concordar com a Helena.

- Jay, você pode ter todos os defeitos do mundo, e deus sabe que você tem muitos, mas ser infiel não é um deles. – Dick constatou com segurança. - Você nasceu pra monogamia. Você adora essa vida de casado e ama só uma mulher no mundo. Eu realmente não entendo, mas você é feliz assim. E eu tenho um pouco de inveja até...

- Eu não aconselho ter inveja de mim, eu nem sei onde vou dormir hoje...

- Nem pense em ir até a mansão. – Dick aconselhou. – Eu ouvi Selina conversando com Damian no telefone, e eles estavam decidindo qual parte sua eles gostariam de cortar primeiro...

- Eu até imagino qual seja... – Jason disse com desgosto. - Acho que vou dormir no estúdio.

- Você ainda tem aquele apartamento velho? – Dick se surpreendeu.

- Helena e eu compramos depois do casamento. Foi o lugar onde a gente ficou junto pela primeira vez... – Jason olhou longe e tomou um gole de sua cerveja. - merda!

- Irmão, - Dick o olhou pesaroso, poucas vezes chamara Jason assim. – Dê um tempo pra Helena. Ela vai entender. Ela vai voltar pra você. Ela só precisa de tempo.

Jason não respondeu, mas agradeceu silenciosamente ao irmão mais velho, e queria muito acreditar que Dick estava certo.

Mas Dick não estava. Helena não entendeu. Ela não se acalmou.

O tempo não foi capaz de resolver aquele impasse.

/

Nós dias que se seguiram, Helena resistiu em conversar com Jason e informou a todos na família que não tentassem intermediar algum contato entre ambos. Nem mesmo Bruce foi capaz de convencê-la.

- Ele tá vendo essa mulher há semanas, e o senhor sabe disso! – Helena disse para o pai certo dia. Ela tinha convencido Tim a refazer os passos de Jason naquelas últimas semanas através do localizador que havia em sua moto.

Helena sabia que o marido estava morando no apartamento estúdio onde moraram no início de seu relacionamento. Algumas noites, a ausência dele era tão sufocante, que Helena sentiu ímpetos de ir até lá e conversar com ele, até de perdoá-lo, mas quando lembrava da imagem de Jason beijando outra, a raiva suplantava todos os seus outros sentimentos. A raiva a levava ao ressentimento, e o ressentimento a corroía.

Jason a procurava constantemente. Ele ligava, mandava mensagens, mas Helena não respondia e nem atendi o marido. Ela, no entanto, ainda não tinha tido coragem de bloqueá-lo. Poderiam precisar falar algo sobre Terry, ela se justificava.

E, apesar do sofrimento de Helena e Jason, a maior vítima daquilo tudo era justamente o pequeno Terry. O menino de seis anos não entendia por que os pais não iam mais buscá-lo juntos na mansão, não entendia por que seu pai não estava mais em casa e não entendia por que os pais nunca estavam juntos quando estavam com ele.

Helena tentava passar todo o tempo livre com o filho, que era sua única alegria naqueles dias. Mas ela tinha cada vez menos tempo livre, pois além do problema com o marido, ela tinha outros desafios.

O promotor Jensen dava mais trabalho do que ajudava. Helena fazia praticamente todo o trabalho do cara recém-divorciado que só queria aproveitar a nova vida de solteiro, farrear quase todas as noites e namorar meninas vinte anos mais jovens.

Duas semanas após expulsar Jason de casa, Helena estava novamente presa na promotoria numa noite de sexta feira.

O escritório da promotoria tinha uma grande chance de acusar o Coringa por mais três crimes que lhe apontavam como culpado, mas para isso, o promotor precisaria assinar a papelada da acusação ainda naquele dia.

- Dean, cadê o Jensen? – Helena indagou para o assistente junior após voltar da sala do promotor que estava vazia.

- Ele saiu pro Sirens, disse que ia encontrar uma garota que conheceu num aplicativo.

- Que filho da mãe irresponsável! – Helena xingou.

- O que?

- Nada. Eu vou resolver isso.

Helena pegou o carro e meia hora depois estava no bar mais chique de Gotham.

O promotor estava em uma das mesas reservadas no fundo do local. Estava sozinho e bebendo. Helena sentou-se na cadeira em frente.

- Deixa eu adivinhar? A garota não veio? – ela disse jogando a pasta com a acusação do Coringa sobre a mesa.

- Não, - ele disse olhando para Helena. – Mas, isso nem é problema. Tem uma garota linda aqui na minha frente agora. – o homem brincou.

- Eu sou casada, promotor. – ela respondeu com um pouco de amargura. – E se eu não fosse... você não estaria nem entre as minhas cem primeiras opções.

- O que você quer? – ele disse desanimado, já arrependido de flertar com a assistente que tinha fama de briguenta.

- A papelada do Coringa, o senhor precisa assinar.

- Eu assino, mas você tem que tomar uma taça de vinho comigo. – ele tentou de novo, estava bêbado o suficiente para ter coragem de provocá-la.

- Não tenho tempo pra essas coisas.

- Por favor, eu fui largado... – ele fez sua melhor cara de sofrimento.

Apenas pra conseguir o que queria, e também por que tinha pena do homem, Helena brindou com o promotor de Gotham. Saiu do Sirens duas horas mais tarde com a papelada assinada e levando o promotor em estado de embriaguez. Helena o deixou em casa, jogando-o adormecido no sofá da sala.

As coisas que ela tinha que fazer por Gotham...

/

Na manhã seguinte a foto de Helena brindando com o promotor Jensen estava estampada na primeira página do tabloide Gotham Globe seguida da manchete:

PROMOTOR JENSEN ABBOT TEM AFFAIR COM FILHA DE BRUCE WAYNE

Quando Jason acordou na noite seguinte, a foto da página inicial do Gotham Globe fora enviada para ele por mensagem pelo celular.

- Então... essa era sua esposa? – a mensagem de Cibel indagava.

Jason parou de procurar Helena depois disso.

/

Fazia mais de um mês que Helena e Jason estavam separados. Cansadas de verem Helena chorando pelos cantos ou afundada no trabalho, as garotas da família Wayne se juntaram e resolveram fazer alguma coisa. Depois de muita insistência, conseguiram convencer Helena para sair uma noite.

Barbara, Stephanie, Kate Kane e até Cassandra estavam no hall da mansão Wayne naquele sábado à noite quando Helena desceu as escadas, após colocar Terry para dormir.

Helena vestia as roupas que Stephanie escolhera pra ela. Usava um top dourado, uma minissaia preta e saltos 15 dourados.

- Eu adorei esse estilo garota de programa chique. – Barbara disse quando a viu.

- Roupa sensual e cara de santa. – Kate constatou olhando-a. – Você vai fazer sucesso, garota.

- Eu não quero fazer sucesso, - Helena envergonhada. – Eu sou mãe e sou assistente de promotoria, eu me sinto inadequada nessas roupas...

- Garota, você herdou o corpo da Selina, aproveite isso... – Kate falou se aproximando.

- Vocês têm certeza que devemos ir? - Helena indagou indecisa.

- Claro! – Stephanie respondeu como se fosse óbvio. – Você precisa se divertir...

- E também mostrar pra todos que você não tá saindo com aquele promotor decadente. – Bárbara complementou.

- E quem vai cuidar da cidade? - Helena indagou procurando um motivo para desistir. - Papai tá com a Liga e a mamãe tá na casa da Bárbara... não quero que vocês deixem Gotham desprotegida por minha causa.

As garotas se entreolharam.

- Seu pai pediu ao Jason pra ficar responsável pela patrulha. – Barbara disse desconfortável.

- Ele? – Helena indagou com desgosto.

- Você sabe... depois que o Dick se mandou pra Bludhaven, com o Tim na faculdade e com o Damian em tempo integral com os Titãs, só sobrou ele por aqui...

- Ele vai cuidar da cidade pra vocês me levarem pra farra... chega a ser irônico...

- Então vamos aproveitar a ironia da coisa. – Babs disse incentivando a amiga.

Helena assentiu e aquelas cinco jovens mulheres deslumbrantes deixaram a mansão.

/

Helena, Bárbara, Stephanie, Cassandra e Kate formavam um grupo que não passava despercebido na noite.

As cinco belas mulheres entraram na balada logo que se apresentaram na fila. Não somente um ou dois olhares as alcançaram quando todas adentraram ao lugar, todos queriam saber quem eram aquelas garotas.

- É isso, eu estou numa balada hétero. – Kate sentenciou entediada logo que elas se acomodaram em um lounge particular.

- Aguente, é por uma boa causa. – Bárbara comentou.

- Vocês deviam pelo menos beber bebidas de adulto. – Kate disse apontando para os coquetéis cor de rosa de Cassandra e Stephanie. – Parece que vocês não frequentam muitas baladas também.

- É a minha primeira vez. – Stephanie disse animada enquanto brincava com o pequeno guarda-chuva de seu drink colorido. – E a dela também. – ela apontou para Cassandra que olhava em torno muito curiosa.

- A gente devia ir embora. – Helena falou alto enquanto estava afundada no sofá. – eu sou uma mãe e uma funcionária da promotora pública...

- Você vai ficar repetindo isso a noite toda? – Cassandra indagou enquanto brincava com o canudinho do seu drink.

- Nós não vamos embora. – Kate disse enquanto segurava seu próprio copo de whisky. – Eu sacrifiquei a minha noite de folga e um encontro com uma policial mais velha muito gostosa pra gente vir aqui. Além do mais, acho que vocês chamaram a atenção dos caras...

Kate apontou com a cabeça para alguns caras ao redor que olhavam descaradamente para o grupo de mulheres.

- Até que o DJ dessa noite não é ruim... – Barbara disse ignorando os olhares dos caras. – A gente devia ir pra pista.

/

Algum tempo depois, Bárbara estava na pista com Stephanie e as duas dançavam enquanto paqueravam descaradamente o DJ, Cassandra estava em um canto em uma interação silenciosa com um tipo gótico e misterioso. Kate estava no balcão conversando muito íntima com uma bela barman de cabelos rosas no estilo moicano.

Helena escapuliu da pista assim que as amigas se distraíram e voltou para o lounge, onde ficou sentada em um sofá enquanto tomava o drink colorido que Stephanie deixou sobre a mesa.

- Belo drink. – ela foi tirada de seus pensamentos por uma voz masculina, olhou para cima e havia um cara alto e muito bonito ao seu lado.

- Foi minha irmã mais nova que pediu. – Helena respondeu sem graça mexendo o guarda-chuva colorido do drink.

- Posso sentar aqui? – ele perguntou, mas não esperou a resposta e já sentou ao lado de Helena. – Eu estava aqui me perguntando, o que uma mulher tão bonita faz sozinha aqui...

- Eu não estou sozinha. Estou com minhas irmãs.

- São muitas garotas sozinhas, então.

- Não estamos sozinhas, estamos juntas. – Helena insistiu um pouco incomodada.

- Você sabe o que eu quis dizer... – ele sorriu desconfortável.

- Não, não sei... – ela insistiu.

Ele riu.

- Você é difícil, heim garota... – ele riu e se aproximou mais.

"Indomável" era o adjetivo que Jason sempre a chamava, Helena pensou.

- Só sou difícil quando quero ser... – ela respondeu jogando o pensamento para longe.

As luzes piscavam, a batida retumbava nos ouvidos de Helena quando quele cara se aproximou mais, ele a olhou de muito perto e tocou-lhe o rosto.

- Você é linda...

Ele se aproximou mais e Helena não se mexeu, ela deixou que ele a beijasse.

Quando o homem a beijou, ela sentiu-se observando a situação de fora. O beijo não tinha gosto, o braço que a envolveu a sufocava e a mão que deslizou por sua perna lhe causou um profundo incômodo.

Foi como na vez que Dick a beijou, só que muito pior.

Ela não queria aquele beijo. Não queria aquele toque. Ela se empurrou o homem e afastou-se sem olhar pra trás.

Ela não queria estar naquele lugar.

Ela não queria estar naqueles braços.

Queria estar em outro lugar, em outros braços.

Queria estar com Jason.

/

Decidida a deixar o marido explicar-se e disposta a perdoá-lo, Helena saiu da balada e ligou para Alfred a fim de descobrir onde Jason estava.

Descobriu que o marido havia passado a patrulha daquela noite para Tim que não tinha aula aquele dia, e que disse a Alfred que estaria no apartamento estúdio.

Helena andou apressada pela rua e acabou prendendo o salto em bueiro, quebrando-o. Ela tirou as sandálias e pegou o primeiro táxi que apareceu na noite. Falou ao motorista o endereço que conhecia de cabeça.

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O táxi a deixou em frente ao conhecido prédio. Ela recostou-se na parede do velho elevador barulhento enquanto subiu até o décimo andar. Seu coração estava acelerado e ela antecipava o momento em que veria Jason, em que seria agarrada pelos braços dele e beijada, um beijo que não seria desconfortável como o do cara da balada, mas um beijo que se encaixava nela com perfeição. Ela antecipava o momento e quando a elevador parou com seu solavanco característico e a porta abriu, ela caminhou decidida até a porta de seu antigo apartamento, tinha os pés sujos e levava as sandálias quebradas em uma das mãos.

Fazia anos que ela não tinha a chave do apartamento (eles nunca utilizavam a porta mesmo) e foi por isso que ela resolveu tocar a campainha. Tocou a primeira vez e o som alto a assustou. Como não houve resposta, ela resolveu tocar novamente.

Não demorou mais que um instante e a porta se abriu.

O estômago de Helena despencou quando a porta foi aberta. Não foi Jason quem atendeu a porta, mas uma bela mulher alta e loira que tinha os cabelos bagunçados, a maquiagem borrada e que vestia um suéter que Helena sabia ser de Jason, pois ela comprara aquele suéter para ele.

- Jason... - Helena foi capaz de articular o nome ao ver que a mulher a olhava aguardando. - Jason está?

- Ele está no banho. - a mulher respondeu em tom blasé, como se a visita fosse um estorvo que ela queria se livrar logo.

- Você poderia chamá-lo, por favor? - Helena verbalizou, embora sua mente gritasse "fuja".

- Seria melhor você voltar outra hora. - a mulher disse entediada.

- Não, eu preciso falar com ele agora. - ela bateu o pé, mais por birra do que por qualquer outra coisa, àquela altura ela nem sabia mais o que tinha pra falar com Jason, mas não seria expulsa do seu próprio apartamento por aquela desconhecida.

- Você é a Helena, não é? - a mulher cruzou os braços e a olhou de cima a baixo. - Achei que era mais alta...

Helena respirou fundo. Ela não ia brigar com aquela mulher, seu problema era com Jason.

- O meu assunto não é com você. Então se você puder chamar o Ja-

- Quem está aí, Cibel?

Jason apareceu na porta. Os cabelos molhados respingavam no peito descoberto, usava apenas uma toalha enrolada em seu quadril.

O rosto dele se transfigurou ao ver Helena ali.

- Helena?

- Eu achei que a gente podia consertar as coisas... - ela disse tentando segurar as lágrimas que teimaram em escorrer por seu rosto que ardia. - mas eu estava errada...

Helena olhou para o homem que ainda era seu marido e depois novamente para a garota que estava próxima a ela e que lhe olhava com tédio. O ímpeto de gritar, de brigar, de esbravejar, transformou-se na vontade de fugir.

Fugir da vergonha e da humilhação que estava passando.

Ela deu as costas para Jason e para a mulher e caminhou rápido pelo corredor, chegando a tropeçar e deixando cair uma das sandálias que segurava.

- HELENA!

Ela pôde ouvir o grito quando apertou o botão do elevador barulhento esperando que ele chegasse ao seu andar.

Jason chegou antes do elevador. O cabelo molhado, uma mão segurando a toalha enrolada ao redor de sua cintura.

- Helena, me escuta, por favor! - ele pediu pressionando-a contra a porta do elevador, várias gotas de água molhando o rosto de Helena, misturando-se as lágrimas

- Como você pôde? Nesse lugar?

Jason fechou os olhos e suspirou.

- Helena... - ele agora tinha os olhos marejados - Não é isso...

- Como não? Vai me dizer que não dormiu com aquela mulher no nosso apartamento?

Jason não disse nada. Seu silêncio era sua confissão.

- Helena... – Jason levantou a mão e tocou a ponta dos dedos sobre as mãos dela.

- NÃO ME TOQUE! – ela gritou no mesmo momento em que o elevador abriu.

Ela entrou no elevador e Jason não a impediu.

- Nosso advogado entrará em contato. - Ela disse sem se importar em esconder as lágrimas. - Eu estou pedindo o divórcio.

Quando a porta do elevador fechou, Jason também não podia conter as lágrimas. Ele recolheu a sandália de salto quebrado que Helena deixara cair no corredor.

Levou muito tempo até ele conseguir engolir o choro.

Só então ele voltou ao apartamento.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

NOTAS FINAIS

Eu sempre escrevo ouvindo música e essa história foi escrita ao som de muitas músicas de sofrência, há referências a algumas delas, inclusive. Eu gosto de histórias sobre casos de amor complicados e eu tinha essa história na cabeça há muito tempo, só precisava achar os personagens certos para ela. Helena e Jason caíram como uma luva.

Essa história é um spin-off da fic "O retorno da filha de Gotham" que também está nesse site.

Obrigada por chegar até aqui, deixe um comentário, mas só se você quiser.