PARTE 3
ATÉ VOCÊ VOLTAR
Jason mentiu para Helena e eles acabaram se separando.
Mas essa não foi a primeira vez que uma mentira se estabeleceu na relação dos dois. Quando Helena estava no segundo ano de faculdade, ela também mentiu para Jason.
Mentiu por Justin.
Justin era a estrela da equipe de futebol Universidade de Gotham, e estava muito perto de se tornar jogador profissional.
Apesar de ser um quarterback arrasador, Justin não era muito bom com os estudos e ia muito mal em algumas matérias. Foi então que ele recorreu a Helena, que também era uma estrela em ascensão na faculdade. A jovem era brilhante em todas as matérias que fazia e Justin implorou a ela para ajudá-lo a passar.
Helena se apiedou do rapaz, que poderia perder a bolsa de estudos caso não fosse bem nas matérias que fazia, e aceitou ajudá-lo. Por conta disso, durante um mês inteiro, ela passou a ficar todas as noites até mais tarde na biblioteca do campus, onde ajudava o colega a estudar para as provas finais.
O problema é que Jason já conhecia Justin, ele o vira várias vezes com Helena quando ia buscá-la na faculdade, pois naquela época, Helena ainda estava aprendendo a dirigir e precisava de carona da família. Jason nutria um certo ciúme do jogador que, na opinião dele, ficava sempre perto demais de Helena. Jason sabia quando um cara estava interessado em uma garota, e entendeu rápido que Justin não nutria apenas amizade por Helena.
E a jovem esposa de Jason sabia dos ciúmes do marido. E como conhecia seu mal gênio, achou melhor não contar a ele que estava chegando tarde todas as noites para ficar sozinha na biblioteca com o cara que tinha uma queda por ela. Helena não achou que estivesse fazendo algo errado em esconder a verdade do marido, afinal, não estava fazendo nada de mais, só ajudando um amigo a estudar.
E tudo correu bem até a noite antes do último exame, quando Helena concluiu o estudo com Justin e os dois saíram juntos da biblioteca.
- Minha carona tá atrasada... – Helena falou ao olhar as horas na tela do celular.
- Seu mordomo não é inglês? eles têm fama de ser pontuais. – Justin comentou, já conhecia Alfred, que vinha buscando Helena no último mês.
- Ele é pontual. – Helena disse preocupada. – É muito estranho...
- Vou te fazer companhia até ele chegar. – Justin disse de pronto, muito satisfeito de passar mais um tempo ao lado de Helena. – posso te levar pra casa, se ele não vier. – ele se ofereceu.
- Ele vai vir. - Helena disse confiante.
- Bem, já que a gente tem um tempinho ainda, eu queria te agradecer, Lena. – Justin falou aproximando-se da amiga ao olhar atrás dela e ver quem se aproximava. – Eu não sei o que eu teria feito sem você.
Ao falar isso, Justin abriu os grandes braços e envolveu Helena em um abraço surpresa, mas que ela acabou por retribuir.
- Helena?
A jovem Wayne afastou-se de Justin ao ouvir a voz de Jason que chegava próximo dos dois. Ele trazia o pequeno Terry que dormia em um sling, preso ao corpo do pai.
- Jason? – ela disse desconcertada ao ver o marido.
- Eu estou atrapalhando alguma coisa? – ele indagou olhando para Justin com uma expressão que seus irmãos classificariam como perigosa. Justin tentava esconder um pequeno sorriso de satisfação.
- Não, não está. – Helena apressou-se em dizer ao ver o bebê que dormia confortável, próximo ao corpo do pai. - Por que você veio? E com Terry?
- Alfred está ocupado com os negócios de Bruce. – Jason disse enquanto lançava um olhar mortal para Justin. – A família toda está ocupada. Eu disse que poderia vir lhe buscar, mas como está ocupada, vou esperar você no carro.
Jason deu as costas para Helena e caminhou até o Mustang vermelho que estava alguns metros adiante.
- Eu tenho que ir. – Helena falou para Justin, e sem dar tempo que ele respondesse, ela saiu na direção do marido.
Caminhou rápido e conseguiu alcançar Jason quando ele chegou próximo ao carro.
- Então era isso que você tava fazendo todas as noites? Se encontrando com esse cara? – Jason disse quando ela se aproximou. Ele parecia furioso, mas falava contido, enquanto embalava Terry.
- Eu só estava ajudando Justin a estudar. – Helena procurou explicar-se, falando baixo para não chamar atenção das pessoas que passavam. – Não aconteceu nada.
- Se não aconteceu nada, por que você mentiu, Helena? – Jason a confrontou. – Por que me fez de idiota? Eu fiquei preocupado que você estava sobrecarregada, sabia? – reclamou indignado. - Estava preocupado com você, enquanto você estava por aí com o um jogador de futebol da faculdade... por que teve que mentir? Por quê?
- Porque eu queria evitar uma cena como essa aqui! – Helena se exaltou, olhando em volta. – Eu sabia que você não ia aceitar. – falou baixo.
- E desde quando eu te impedi de fazer algo? Você sempre faz o que quer! - Jason abriu os braços exasperado.
- E você também... – Helena rebateu.
- Agora isso é sobre mim? Você mentiu, Helena. Me deixou e deixou Terry para fazer sabe se lá o que com esse cara.
- EU NÃO ESTAVA FAZENDO NADA DEMAIS! – Helena elevou o tom de voz, irritada com as acusações que ela considerava injustas.
- VOCÊ MENTIU E ISSO É MUITA COISA! – Jason não conteve-se e elevou o tom também.
O choro de Terry veio alto e fez os dois caírem em si. Helena olhou em volta e viu que algumas pessoas os observaram. Jason começou a acalentar o bebê que estava preso ao seu corpo.
- Me dá, ele. – Helena pediu enquanto o bebê chorava.
- Não... Não precisa... – Jason falou com suavidade enquanto ninava a criança. – Calma, garotão... calma...
Em pouco tempo, o bebê voltou a se acalmar e Helena olhava para os dois, a imagem a fez sentir-se impotente e culpada.
- Jay, escute. – ela chamou com suavidade enquanto observava o marido ninar o bebê. – me desculpa. Eu errei. Eu devia ter te contando que Justin me pediu ajuda, mas eu juro, não aconteceu nada. Eu jamais faria isso com você...
Jason não respondeu no ato, ele checou Terry que parecia ter voltado a dormir.
- Eu sei que não. – ele disse calmo, porém sério, ao voltar a atenção para a esposa, surpreendendo-a. – Mas você vacilou, princesa. Eu nunca menti pra você...
- Eu sei, me perdoa.
- Eu sempre perdoo quando você apronta. – ele disse afável. – mas vamos fazer uma promessa, não vamos mais mentir um pro outro, não importa situação. Ok?
- Ok. – ela respondeu aliviada.
- Bom, então agora vamos pra casa por que esse garotão tá morrendo de fome.
Jason depositou um beijo leve nos lábios de Helena e abriu a porta do carro, tirando Terry do sling e colocando-o na cadeirinha de bebê. Estava satisfeito com a promessa, confiava em Helena, sabia que ela cumpriria o acordo. Ele culpava Justin pela coisa toda. Já Helena estava aliviada por Jason tê-la perdoado.
E assim como Jason não imaginava que seria ele a quebrar aquele acordo, Helena não imaginava que quando a situação se invertesse anos depois, ela não seria capaz de perdoar tão fácil como foi perdoada.
/
Cinco anos depois, Jason lembrava desse episódio enquanto estava recostado em um prédio numa rua suja em frente a um bar movimentado em São Francisco. Ele estava ali parado, e naquele momento, como em quase todos os momentos, pensava em Helena. Sua agora ex-esposa o acusara de ser um pai ausente, e essa acusação injusta o deixou furioso e o fez se ausentar de verdade.
Ele se arrependia quase o tempo todo de ter ido embora.
Jason estava na cidade com Roy Harper. O capuz vermelho finalmente aceitara a proposta tentadora de Amanda Waller, a mesma proposta que rejeitara várias vezes antes. Jason odiava a mulher, mas o trabalho oferecido por ela consistia em capturar caras maus e pagava bem. As missões eram arriscadas e ele podia acabar morrendo em alguma delas. Se tivesse sorte, ele pensava.
Estava em uma noite de folga, após capturar mais um nome da lista de Waller. Roy tinha voltado para o hotel com uma bela loira e isso significava que o quarto que dividiam estaria ocupado pelas próximas horas.
Ele estava fumando. Um hábito ruim de seu tempo nas ruas e que ele tinha reencontrado nas últimas semanas. Ele havia retomado vários hábitos ruins nos últimos tempos. E fumar ajudava a acalmá-lo. Ele precisava ficar sóbrio, pois até Roy andava preocupado com a quantidade de álcool que Jason estava ingerindo ultimamente. Outro hábito ruim que ele havia retomado após o divórcio.
Jason esperava chegar a hora que poderia ligar para Alfred e saber como Terry estava, só então ele poderia tomar o primeiro drink da noite. O mordomo poderia identificar que ele estava bêbado mesmo há milhares de milhas de distância. O cheiro do cigarro, no entanto, nem aquele velho oficial da força-aérea britânica poderia identificar.
- Não acredito que você tá usando essa porcaria. – Jason ouviu a voz carrancuda no mesmo momento que sentiu o cigarro sendo arrancado de sua boca. – que decadência...
- O que você tá fazendo aqui? – indagou surpreso para a figura a sua frente. Damian agora era quase tão alto quanto ele próprio.
- Eu soube que você entrou em uma espiral de autodestruição. – o rapaz disse sarcástico, olhava de braços cruzados para o irmão mais velho. – E eu não me importaria nem um pouco, se isso não afetasse o meu sobrinho.
- Se você veio me dar sermão, pode parar por aí. – Jason rebateu. - Eu já ouvi da família toda.
- Eu só vim te dizer que você precisa voltar pra Gotham, seu idiota. – Damian encarou o irmão mais velho. - Terry precisa de você.
- É melhor que ele fique com Helena. Parece que quando estamos juntos ele fica mal.
- O que faz mal pro seu filho é ter dois idiotas como pais! – Damian disse com raiva. - Você e Helena estão tão presos nessa guerra estúpida que acabaram se esquecendo do mundo em volta, esqueceram até do filho de vocês. Ele precisa dos pais.
- Ele está muito bem cuidado pela família.
- Ninguém pode fazer o seu trabalho e o da Helena. Ela não tá muito melhor do que você, sabia? Ela dorme no escritório quase todo dia, parece um zumbi... Passa dias sem ver o Terry... É outra negligente.
Jason ficou surpreso.
- Achei que ela ficaria bem depois que eu me afastasse... – disse sincero.
- Achou errado, gênio. – Damian retorquiu pondo a mão no ombro de Jason, encarando-o mais de perto. Sua expressão se suavizou ao encarar os olhos fundos e cansados do mais velho. - Irmão, volte pra Gotham antes que seja tarde demais. Por favor. – ele disse afável e afastou-se em seguida. - Eu preciso ir agora, Ravena está me esperando. Vamos para Apokolips ajudar o papai e a Liga.
Jason olhou para o outro lado da rua e viu a silhueta feminina que lhe acenava tímida.
- Precisam de ajuda em Apokolips?
- Você seria mais útil em Gotham agora. Selina também não está lá e o Coringa ainda não foi capturado. A família precisa de reforços...
Damian se afastou na direção de Ravena, mas após alguns passos, ele voltou-se para o irmão, sua expressão era novamente severa.
- Sua família está em Gotham, Jay. É lá que você deveria estar.
Damian seguiu seu caminho e Jason passou uma mão pelos cabelos enquanto a outra procurava a carteira de cigarros no bolso do casaco. Ele pegou, retirou um cigarro e pensou em acendê-lo, mas o devolveu para a embalagem, a amassou e jogou em uma lixeira próxima.
Olhou para o lugar no outro lado da rua de onde Ravena lhe acenou.
Ela e Damian haviam desaparecido.
/
Os episódios de febre de Terry continuaram nas semanas que se seguiram a partida de Jason, assim como o terrível comportamento do garoto na escola.
Acreditando na acusação de Jason de que ela era uma péssima mãe, Helena entrou em sua própria espiral tristeza e deixou que Alfred e seus pais tomassem a frente nos cuidados ao garoto. Ela passou a ficar a maior parte do tempo no escritório, justificando para si mesma que estava diante de um grande caso. A promotoria tentava, sem sucesso, um acordo com Arlequina para que ela entregasse o paradeiro do Coringa, que como previsto, tinha fugido mais uma vez do Arkham. Arlequina fora presa ao ajudar o namorado na fuga depois do Coringa deixá-la para trás.
O julgamento de Arlequina já havia acontecido, e a namorada do Coringa havia sido condenada, mas não iria para o Arkham dessa vez. Ela seria enviada para uma prisão federal em breve. Helena estivera ao lado do promotor durante todo o julgamento que durou mais de uma semana. Ela estudara o processo de quase mil páginas de Harley por incontáveis vezes. Havia algo naquela criminosa lunática que atraía a jovem assistente da promotoria.
Talvez, porque Helena sentia que podia estar no lugar dela.
Ela também podia ter enlouquecido em um relacionamento abusivo com um criminoso. A diferença é que Helena enviou Marcondes para a prisão quando descobriu o que ele era. Além disso, mesmo achando-se sozinha naquela época, agora Helena sabia que sempre teve seus pais. Eles estiveram lá por ela, mesmo quando ela os rejeitou no passado. E depois, ela teve Alfred, teve seus irmãos... teve Jason...
Arlequina não teve a mesma sorte. Era mais uma filha de pais negligentes, sem rede de apoio nenhuma e que desenvolveu sérios problemas mentais devido aos sofrimento e abusos que sofrera.
Com esses pensamentos Helena adentrou as paredes cinzas e frias da Blackgate. Estava fazendo algo que era da responsabilidade do promotor Jensen, mas, como de costume, ele jogou a responsabilidade no colo dela. Jensen morria de medo de ir até aquela prisão, por isso, Helena fora enviada para tentar um último acordo com Arlequina. Um último acordo antes da palhacinha do crime ser entregue nas mãos de Amanda Waller.
Jensen havia mudado de ideia nas últimas semanas. Passou a gostar do status que o cargo de promotor lhe conferia e pretendia se candidatar a promotor nas próximas eleições para permanecer no cargo. Encontrar Coringa era fundamental para ganhar a popularidade que ele precisava para vencer as eleições. Ele pressionou a assistente para que conseguisse o que precisava.
E por isso, Helena caminhava agora pelos corredores da Blackgate.
Quando fecharam a porta grande atrás dela no ambiente onde estava a cela circular, viu que Arlequina descansava calmamente no chão da cela e lia um livro de romance barato cuja capa mostrava uma mulher de curvas inalcançáveis em uma lingerie sexy abraçada a um homem que tinha mais músculos que o pai de Helena. A palhacinha tinha a face relaxada e os longos cabelos loiros se espalhavam pelo chão. Qualquer um poderia dizer que se tratava de uma garota normal lendo um romance água com açúcar.
- Eu vi você no tribunal... – Harley disse sorrindo quando levantou o olhar viu a jovem mulher que se aproximou das grades de sua cela. – Você é a garota bonita que dizia pra aquele promotor babaca o que ele devia falar...
- Eu sou Helena. – a filha de Bruce Wayne disse soturna, muito parecida com o pai naquele momento.
Harley pareceu interessada. Deixou o livro de romance no chão e levantou-se, andando até o lugar onde Helena estava. Ficaram frente a frente, muito próximas, separadas apenas pelas grades.
- Você está perto demais das grades. Sabia que eu já matei gente dessa distância? – ela sorriu maldosa e ergueu uma sobrancelha.
- Eu sei. – Helena respondeu firme. – Mas não tenho medo.
- Você é corajosa, olhos azuis. – Harley levantou o olhar para encarar Helena que era mais alta. – apesar de não ter muito bom gosto pra roupas... Você podia trocar esse terninho chato por algo mais colorido, aposto que tem muito potencial aí embaixo...
- Eu gostaria de conversar com você.
Arlequina revirou os olhos.
- Você me lembra alguém... Um cara muito chato que sempre vem me espezinhar... a diferença é que ele usa capa e tem orelhas pontudas. – Arlequina se afastou, desfilando pela cela. - As conversas de vocês são muito chatas e eu não estou interessada... Eu já disse que não vou entregar meu pudinzinho! Ele vai vir me buscar e nós vamos fazer um cruzeiro romântico pras Maldivas! – falou com a voz aguda e sorriu sonhadora.
- Eu não vim fazer acordos. – Helena rebateu, sentia um pouco de pena das ilusões da outra garota. – Bem, eu devia tentar fazer uma acordo, mas já sei que você não vai aceitar.
- E o que você quer comigo, então? – Harley indagou desconfiada. – Você é muito gata, mas eu já tenho namorado...
- Um namorado que deixou você como isca pra polícia enquanto ele fugia com todos os outros comparsas?
- Você não tem o direito de falar assim do meu pudinzinho! – Harley rebateu irritada e nervosa. - Ele... ele... ele precisou fazer isso! E ele vai vir me buscar em algum momento, ele sempre acaba me procurando... – concluiu orgulhosa.
- Mas ele não quer você fazendo parte da vida dele. – Helena argumentou. - Ele só te procura quando precisa de você...
- Por que você não vai embora? – Harley cruzou os braços irritada. - Você não é divertida. Parece o morcego...
- Vão te levar para uma prisão federal, Arlequina. – Helena insistiu. - Coisas ruins te aguardam lá. Você não tem ideia do que pode acontecer com você...
- Você acha que eu não sei? – Harley aproximou-se rápido das grades. - Eu sei que a Amanda Waller tá atrás de mim! Eu sou louca, mas não sou burra! Meu pudinzinho vai me tirar de lá...
- Você devia evitar isso. – Helena falou plácida, aconselhando-a. - Waller tem fama de ser muito perigosa.
- Só por que ela colocou o arqueiro e o cara de cabeça vermelha pra caçar a gente?
- Quem está caçando vocês? - Helena perguntou surpresa.
- Uns mercenários que a Waller contratou pra colocar na cadeia quem ela quer que trabalhe pra ela. Todo mundo aqui tá falando isso. Mas adivinha? Eles não podem me pegar... – ela sorriu contente.
- Por quê? – Helena indagou tentando esconder a surpresa. – por que eles... por que ela não pode te pegar?
- porque eu já tô aqui, bobinha. – Harley comemorou. – E meu pudinzinho vai pegar esses caras. Ele disse que já acabou com o cabeça vermelha uma vez...
- Harley, me escuta. – Helena pediu em tom urgente, aproximando-se das grandes. - O Coringa não vai te ajudar. Ele não te faz bem. Você foi pega pela polícia porque seu namorado te abandonou! Ele te deixou pra trás!
- Você veio aqui só pra contar mentiras do meu pundizinho? – Harley gritou e se aproximou novamente das grades, o rosto muito próximo ao de Helena.
- Eu vim pra dizer que você pode ser muito melhor se enxergar que o Coringa não te ama. – Helena afirmou com convicção, encarando a palhacinha. - Ele só te manipula, te usa, te descarta e te joga pros lobos.
- Parece que a louca aqui é você. – Harley andou um passo pra trás, afastando-se de Helena, mas sem deixar de olhá-la. - Você não tem como saber nada sobre isso...
- Eu sei, e eu sei por que eu também já me apaixonei um criminoso.
- Você? Com esse terninho? – Harley zombou.
- Era um mafioso, ele se chamava Nico. – Helena confessou afastando-se das grades. - Ele fazia coisas tão ruins quanto o Coringa... Harley, eu já passei pelo que você está passando. E eu saí. Eu sobrevivi. Você pode sair também. E pode ajudar a salvar pessoas, me diga como achar o Coringa. – ela pediu uma última vez, voltando a se aproximar das grades, segurando-as com as duas mãos..
- Eu não sei onde ele tá. – Haley disse se aproximando novamente das grades, tinha os olhos molhados. – Ele nunca me diz os planos dele... – ela continuou. – mas ele me disse por que quis sair agora. Ele disse que sabia que algo grande ia acontecer e que o Batman ia sair da cidade...
- Então ele fugiu por que sabia que o Batman ia sair de Gotham? – Helena perguntou sentindo o coração disparar.
- Sim, ele disse que era a chance de tomar a cidade. – Harley continuou, mas voltara ao seu tom feliz e maníaco. - Ele vai ser o rei dessa cidade, e euzinha serei a rainha! Ai, será que eu fico bem de Coroa?
- Se você conseguir se lembrar dessa conversa mais tarde, pense no que eu te disse, Arlequina. – Helena falou afastando-se, tinha pressa, precisava avisar a família sobre os planos do Coringa. – Eu preciso ir agora. Mas, lembre-se: você não precisa viver desse jeito. – Ela disse olhando uma última vez para a palhacinha antes de sair.
- Volte quando quiser, olhos azuis. – Arlequina disse sorrindo quando Helena deixou o local. - Eu já vi esses olhos em algum lugar... – a palhacinha resmungou pra si mesma quando se viu sozinha na cela.
/
Helena saiu preocupada de Blackgate. Ela sabia que o Batman não estava na cidade. Seu pai não estava. Bruce não estava na cidade, não estava nem mesmo no planeta. Estava em apokolipse com a liga. E a cidade estava sem Batman, pois Dick não assumiu o manto daquela vez, o Asa noturna estava com seus próprios problemas com o caos em Bludhaven.
Gotham estava vulnerável. Selina estava fora do país fazendo algo que Helena não sabia o que era. Fazia tantos dias que não ia na mansão... Damian dissera que estava indo com Ravena e Constantine para Apokolips. Kate Kane viajara com a namorada para a Europa. Apenas as garotas e Tim estavam na cidade.
O encontro com Arlequina ainda lhe trouxe outra coisa que a incomodava. Ela passara os últimos quatro meses sem saber notícias de Jason e não permitiu que lhe dessem notícias dele. Agora ela sabia que ele estava trabalhando para a Waller. Helena sabia do desejo daquela mulher que, durante anos, fizera propostas para que o capuz vermelho trabalhasse para ela. Jason detestava a mulher e nunca havia aceitado, até porque as missões sempre eram muito perigosas, quase suicidas, e porque todo mundo sabia que trabalhar para Waller era como trabalhar com a máfia, depois que você entrava, não tinha como sair.
Helena sentiu o coração apertar um pouco. Será que ele estava bem? Devia estar, seus pais teriam dito se ele não estivesse. Ou não teriam? Ela sabia que seu pai monitorava a todos de perto e sabia que sua mãe mantinha contato frequente com todos os seus "birds", como Selina chamava os filhos de Bruce. Mas agora eles estavam ocupados, será que sabiam algo sobre Jason?
Ela voltou ao escritório, mas apenas para pegar suas coisas. Queria voltar pra casa. Precisava convocar Tim e as garotas e decidir o que fariam para proteger a cidade de um ataque iminente do Coringa. Helena estava abalada pelos pensamentos sobre o que estaria acontecendo com Jason e preocupada com Terry, pois Alfred mandara uma mensagem mais cedo aquele dia dizendo que o garoto brigara na escola novamente e foi suspenso por uma semana.
Contudo, o propósito de Helena de entrar e sair rápido do escritório não foi possível, o promotor Jensen a abordou quando ela estava de saída.
- Conseguiu o acordo?
- O que você está fazendo aqui tão tarde? – Helena indagou irritada.
- Estava esperando você. O prefeito está pressionando pelo acordo. A cidade está aterrorizada com a fuga do Coringa.
- Eu não consegui. – Helena respondeu rápido. – Preciso ir agora...
- Precisamos tentar novamente. Preciso que estude esses papéis, - ele disse mostrando uma pilha de papeis que deixara sobre a mesa de Helena. – São novas provas contra Arlequina, se conseguirmos outras acusações, ela pode ceder...
- Ela não vai ceder. E eu estou indo pra casa, Abbot. – Helena falou tentando seguir, mas o promotor segurou-a pelo braço.
- Você vai analisar esses documentos hoje. – ele falou em tom de ordem.
- Não, eu não vou. – Helena disse firme. - E você devia deixar aquela pobre garota em paz...
- Ela é uma criminosa. Se gosta tanto, leva pra casa...
- Ela já foi condenada pelos crimes dela, e eu já vi esses papeis. Você tá tentando imputar os crimes do Coringa pra ela apenas pra mostrar pros seus eleitores que está fazendo alguma coisa. – Helena retorquiu sem paciência. - E eu não vou participar disso.
- Você vai fazer o que eu mandar. - Jensen disse ríspido, ainda segurando o braço de Helena, de forma a impedi-la de sair. - Porque você é uma funcionária desse escritório como qualquer outra, e só está aqui porque o seu pai é Bruce Wayne.
Ah, Jensen não devia ter dito aquilo. Se Jason estivesse ali, ele diria que Helena entrou em "modo Ferrari".
- Escuta aqui seu homenzinho de merda, eu tô aqui porque me formei Summa Cum Laude na faculdade e fui a primeira no processo de seleção pro cargo. Ah, e porque eu sou boa, MUITO BOA no que eu faço. Diferente de você. – Helena falou puxando o braço dele que a segurava. - E eu já cumpri meu expediente. Tô indo pra casa.
- Se você for embora, está despedida. – o promotor disse quando Helena abriu a porta da sala pra sair.
Ela virou-se e olhou para o promotor.
- Não precisa me despedir, Abbot. Eu peço demissão.
- Pode ir. Vá pedir um emprego na empresa do papai. – ele provocou.
- Não preciso, eu já tenho um emprego em mente. O seu.
- Ah é, e como você vai fazer isso, garotinha?
- Eu vou me candidatar a promotora de Gotham. – a decisão saiu de forma natural, embora ela nunca tivesse pensado nisso com seriedade.
Helena virou e saiu da sala batendo a porta e não parou até descer o elevador e entrar no carro na garagem do prédio. Quando se sentou no banco do motorista, seu corpo ainda tremia. Mas ela não estava arrependida. Estava farta de ser explorada e depois, subestimada.
Quando olhou para a bolsa que jogara no banco do passageiro, viu o celular cuja tela piscava sem parar e que apagou de repente.
Ela pegou o aparelho para checar quem ligou.
Ficou assustada ao ver mais de dez chamadas perdidas.
A família inteira estava ligando pra ela.
/
Jason chegou à sala de espera do Gotham Hospital no meio da madrugada. Vinha direto do aeroporto, estava amarrotado, descabelado e sua face era pura angústia.
A pequena sala de espera particular estava muito cheia. Parte da família estava lá, Alfred, Stephanie, Cassandra e Bárbara. Só Tim tinha ficado patrulhando a cidade.
Helena estava jogada em uma poltrona, veio direto do trabalho, após retornar as diversas chamadas de Alfred, seus olhos já tinham secado de tanto chorar.
O pequeno Terry sofrera um acidente doméstico.
Após ser suspenso da escola, o garoto voltou pra casa e Alfred o deixou sentando em uma cadeira na sala para pensar no que tinha feito. Mas, o menino saiu do castigo e tentou pular da escada para agarrar-se ao lustre da sala da mansão, talvez buscando imitar o que via os tios fazerem com frequência. De acordo com o relatório médico, o garoto sofrera fraturas em um braço e uma perna, mas o pior de tudo é que Terry tinha batido a cabeça na queda e agora estava em coma induzido. Para piorar, ainda não se sabia se havia danos importantes na coluna.
Os médicos disseram que só restava esperar para ver a evolução do quadro neurológico do garoto. Jason, que já estava decidido a volta pra Gotham, pegou o primeiro voo após receber a ligação de Alfred.
O mordomo estava tenso pela chegada do pai de Terry, tinha receio que a situação piorasse com uma nova briga entre Jason e Helena.
E quando Jason entrou na sala de espera e todos voltaram-se para olhá-lo, a respiração do velho mordomo se manteve em suspenso.
- Como ele está? – Jason indagou ao entrar olhando em volta para todos os presentes.
- Eles corrigiram as fraturas do braço e da perna, mestre Jason. – Alfred respondeu como se desse o relatório de uma missão. – Mestre Terry está em coma induzido agora. Precisamos aguardar até que eles o acordem.
- Jason? – Helena indagou, levantando o olhar.
O mordomo preparou-se para intervir no conflito entre os dois quando Helena se levantou e caminhou até Jason.
Mas ele não precisou. Helena andou até o ex-marido e não disse nada. Apenas o abraçou muito forte e voltou a chorar, agora no ombro dele. Jason apenas a abraçou de volta e eles ficaram desse jeito por muito tempo.
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A noite que se seguiu foi muito tensa.
Terry ainda estava na unidade de terapia intensiva pediátrica e ninguém podia vê-lo. Os familiares voltaram para casa após com a promessa de que seriam avisado caso tivessem alguma notícia, pois precisavam ajudar Tim a patrulhar a cidade, embora ainda não houvesse sinais do Coringa.
Helena e Jason recusaram-se a deixar o hospital, fosse para tomar um banho ou comer alguma coisa. Eles permaneceram juntos, silenciosos, abraçados e de mãos dadas em um pequeno sofá da sala de espera durante a noite inteira.
Em algum momento da noite, os dois caíram no sono e quando abriram os olhos novamente, Alfred já tinha retornado.
O dia já havia amanhecido quando o médico surgiu na sala de espera, fazendo Helena e Jason levantarem de súbito.
- Quais as notícias, doutor? – Alfred adiantou-se.
- O garoto é forte. – o médico anunciou para o mordomo. – ele lutou bravamente pela vida.
- Como... – Helena, que passara as últimas horas muda, falou pela primeira vez. – Como ele está?
- Ele vai sobreviver. – o médico anunciou. – mas só saberemos se há sequelas, quando ele acordar. Sugiro que descansem, não esperamos muitas mudanças nas próximas horas.
- Vão pra casa. – Alfred falou para Jason e Helena quando o médico saiu. – Os senhores precisam descansar um pouco.
- Eu não vou sair daqui. – Helena apressou-se em dizer.
- Nem eu. – Jason complementou.
- Terry precisa que os senhores estejam bem quando ele acordar. – o velho mordomo continuou. – Tem um carro lá embaixo esperando os senhores. Ficarei aqui até que retornem.
- Já disse que não saio daqui, Al. – Helena rebateu.
- Parem de agir como crianças! – O mordomo se exaltou como raramente fazia. – Os senhores são adultos! Nada disso teria acontecido se os senhores se comportassem como tal.
- Al, você está nos culpando?
- Sim, senhorita Helena. A senhorita e o mestre Jason envolveram Terry no meio da bagunça de vocês. Esse comportamento errático do menino é reflexo do comportamento dos pais. Vão pra casa. Agora.
- Vamos, Helena. – Jason disse levando uma mão ao ombro da ex-esposa. Ele conhecia Alfred a tempo demais pra saber quando uma ordem era irredutível.
Helena encarou indignada o mordomo, antes de deixar a sala ao lado de Jason.
/
- Ele nos tratou como crianças! – Helena disse revoltada quando saiu pelos corredores do hospital ao lado de Jason.
- Ele deixou bem claro que é isso que ele acha de nós. – Jason disse cansado, trazia no ombro a bolsa de viagem.
- E você não disse nada. – Helena reclamou.
- Primeiro, não adianta discutir com aquele velhote. Segundo, eu acho que ele está certo. – Jason disse quando eles entraram no elevador. – Tudo isso é culpa nossa... é minha culpa. Eu não devia ter ido embora...
- Mas você foi. – Helena disse acusativa. – Foi mais fácil, né?
- Não, não foi fácil, Helena. Eu fui porque achei que era o que você queria. – Jason disse quando enquanto o elevador descia. – Se você quer chutar cachorro morto, tudo bem. Eu aceito. Me dá licença, mas eu não quero brigar agora... Eu tô cansado e preocupado com o meu filho.
Helena não respondeu e eles ficaram silêncio até o elevador chegar ao térreo. Quando a porta do elevador abriu, Jason saiu andando na frente. Um carro com motorista esperava os dois na saída do hospital.
Eles entraram e não se tocaram nem se falaram mais no trajeto até a mansão Wayne.
/
Helena não conseguiu dormir. Apenas rolou na cama por algumas horas depois de tomar um banho.
No final da tarde, sabendo que não descansaria, ela vestiu-se o mais rápido que pôde e desceu as escadas da mansão. Pegou um carro na garagem e em pouco tempo estava de volta ao Gotham hospital.
A jovem Wayne encontrou Alfred e o ex-marido na sala de espera.
- Ah, você já está aqui. – Ela falou para Jason quando o viu. Ele estava limpo, tinha trocado de roupa, mas tinha a face cansada.
- Acabei de chegar. – Jason disse inexpressivo.
- Alguma novidade, Al? – Helena indagou a Alfred, ignorando o ex.
- Sim, mestre Terry acordou. Está respirando normalmente e não há sequelas. Será transferido para um quarto em instantes. – Alfred respondeu. – Eu já o vi e ele está chamando pelos senhores.
- Oh, graças a deus. – Helena disse com os olhos cheio de lágrimas. - Eu quero vê-lo, por favor...
- Claro, senhorita Helena. Desde que os senhores cumpram algumas condições...
- Condições? – Jason indagou incrédulo. – é o meu filho, Alfred!
- Não lembro do senhor cuidando dele nos últimos meses, Mestre Jason. – Alfred disse de onde estava. – Eu consegui falar com madame Selina e ela foi categórica ao ordenar que eu teria que exigir algumas condições para que os senhores vejam mestre Terry.
- É um absurdo, minha mãe enlouqueceu. – Helena reclamou.
- Madame Selina parecia bem lúcida. – Alfred continuou. - Ela mandou-lhe falar que estão proibidos de brigar na frente do garoto. Devem fingir que estão bem, pelo menos até ele se recuperar. Os senhores são capazes de fazer isso por seu filho?
Helena não verbalizou, apenas balançou a cabeça em afirmação. Jason deu de ombros.
- Excelente, agora que aceitam os termos, podemos ir encontrá-lo. – Alfred falou abrindo a porta do corredor.
Helena e Jason se entreolharam e acompanharam o mordomo.
/
- Meu bebê... – Helena disse chorosa tocando a mão de Terry quando se aproximou do leito onde o filho estava. O garoto estava um pouco pálido. Tinha um braço e uma perna imobilizados e algumas escoriações no rosto, aquela imagem quase fez Helena desmoronar.
No entanto, o menino parecia contente. Ele sorriu sonolento para a mãe.
- E aí, garotão? – Jason disse ao surgir ao lado de Helena.
O sorriso de Terry aumentou.
- Papai! você veio... – o menino disse com a voz fraca.
- Sim. E vou ficar aqui com você. – Jason falou colocando a mão do menino sobre a dele.
- Você não vai embora de novo? – o menino disse em tom de súplica.
Jason olhou para a mão do menino sobre a dele. Era tão pequena...
- Não, garotão. Eu não vou embora nunca mais.
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Alfred voltou a mansão para descansar e deixou Jason e Helena no hospital ao ver que, se não estavam se tratando bem, pelo menos o casal não estava brigando.
- Mestre Terry agora é responsabilidade de vocês. – O mordomo disse antes de sair. – A família não poderá ajudá-los agora. Os senhores precisam fazer isso dar certo. – disse em tom de aviso antes de ir embora.
O velho mordomo, que não era acostumado com frequência a descansar, ao chegar a mansão, soube de imediato que não conseguiria. Bárbara, Cassandra e Tim pediram ajuda na caverna, pois havia uma emergência na cidade.
Coringa apareceu e estava atacando vários pontos da cidade com seus capangas.
- Alfred, confira os pontos da cidade onde foram relatados ataques, por favor. – a Batgirl pediu pelo comunicador.
O mordomo começou a cruzar os dados dos locais que estavam reportados pela polícia. Seu coração acelerou quando viu o último local onde um ataque havia sido reportado.
- Senhores, precisamos de reforços.
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- Vocês não vão mais brigar? – Terry perguntou olhando os pais com ansiedade.
- Não vamos não, bebê. – Helena disse enquanto tocava a bochecha do menino. Ela ainda estava aflita de olhar para os membros imobilizados e para as escoriações do filho.
- E nós vamos ficar juntos de novo? – Terry pareceu não se contentar com as fracas respostas dos pais.
- Vamos. – Jason respondeu após olhar para Helena, ele agora estava do lado oposto da cama. – Claro que vamos.
Terry pareceu contentar-se com aquela resposta.
- Você está com fome? – Helena perguntou ao menino. – A enfermeira disse que logo você vai comer e...
Ela não continuou a frase. Ouviu barulhos abafados. Estampidos. Pareciam... tiros? Não, não pareciam. Helena teve certeza, eram tiros.
Quando levantou o olhar para Jason, ele já estava atendendo o telefone.
- Sim, eles já estão aqui. – ele respondeu para a pessoa do outro lado da linha. – Não. Não temos como sair. Estamos desarmados. Acho que sim, ele aguenta. Tudo bem.
Jason desligou o telefone e nem precisou dizer. Helena entendeu tudo.
- Tem homens do Coringa subindo pra cá.
- Temos que sair. – Helena falou já desligando o equipo de soro que estava conectado ao braço de Terry.
- Não tem como, Alfred disse que eles estão bloqueando todas as saídas. Tim e Stephany estão à caminho, mas não temos tempo...
- E o que vamos fazer?
- Helena, nós vamos ter que lutar.
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Quando o primeiro capanga entrou no quarto de Terry, ele achou um leito vazio, mas não teve tempo de pensar sobre isso, pois foi atingido por uma cadeira, caindo desacordado. A sub-metralhadora que o capanga levava foi pega por Jason que usou para atirar no ombro e nas duas pernas do outro capanga que chegou em seguida.
Armado com as duas sub-metralhadoras que pegara dos comparsas do Coringa, Jason saiu pelo corredor, Helena o acompanhava levando Terry no colo. Ele derrubou outros dois capangas logo que saíram de um elevador.
- Vamos pela escada. – ele disse rápido, entregando a Helena outra sub-metralhadora de uma capanga caído no mesmo momento em que colocava Terry nos braços. O menino foi orientado a manter os olhos fechados e tinha a face comprimida contra o ombro do pai. – Você me dá cobertura. – Jason disse para ex-esposa.
Eles desceram pelas escadas de incêndio, Helena sempre indo na frente, abrindo a porta corta-fogo em cada andar e verificando se a passagem estava livre. Para a surpresa deles, foi relativamente fácil e depois de sete andares, eles chegaram ao estacionamento.
Conseguiram encontrar o carro que Helena trouxera da mansão. O Mustang vermelho que Jason comprou para o primeiro encontro deles. Helena assumiu o volante e Jason se acomodou no banco de trás levando Terry em seu colo.
Em pouco tempo ela dirigia para fora do hospital.
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- Ah, Graças a Deus. – Alfred disse com evidente alívio ao ver os três chegando na mansão uma hora mais tarde. Tim e Stephanie controlaram a situação no hospital. – Vamos para a caverna, a sala médica já está preparada. Dra. Thompkins já está vindo.
Eles levaram Terry até a sala médica da caverna e o garoto foi examinado pela Dra. Thompkins que fez novos exames e constatou que o meino estava bem para permanecer ali.
- Eu estava muito preocupado que não conseguissem sair do hospital. – Alfred falou para Helena e Jason quando finalmente saíram do lado de Terry enquanto ele era examinado por Lee Thompkins.
- No fim, foi mais fácil do que imaginávamos. – Jason disse aliviado. – Você avisou na hora certa, Al. Obrigado.
- Eu não consigo imaginar por que os capangas do Coringa estavam no hospital, e atrás do meu filho! – Helena dizia transtornada andando de um lado para o outro.
- Eles não estavam só atrás do Terry, Helena. – Jason explicou. – eles estavam atrás de você.
- De mim? – ela parou e indagou confusa.
- Parece que a senhorita irritou o Coringa. – Alfred completou. – Alguma coisa relacionada a namorada dele.
- Sempre irritando todo mundo, né, princesa? – Jason não se conteve, apesar do risco, provocá-la era irresistível. – O que você fez dessa vez?
- Eu disse pra Harley largar aquele lunático abusivo. – Helena disse calma, ignorando a provocação, seu olhar estava em Terry. – Mas e o meu filho? Por que ele o quer?
- Ele quer atingir seu pai, como sempre. – Alfred complementou. – Mesmo com o nome de Coringa, ele ainda é o mesmo Jeremiah Valeska que queria atingir Bruce Wayne. E agora ele quer a filha e o neto dele.
Helena estremeceu. Uma avalanche de lembranças tomou sua mente.
- Precisamos pará-lo. E rápido. – falou decidida.
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Dra. Thompkins, após realizar exames de sangue, tomografia e ressonância, e depois de ligar para os médicos do Gotham Hospital, constatou que Terry estava bem para permanecer na mansão.
Helena contudo, não deixou que o levassem para o quarto e pediu a Alfred que o movessem para a sala de descanso de seu pai na caverna.
Bárbara, Tim, Stephanie e Cass chegaram pouco depois. Cass foi direto até onde Terry estava e não saiu do lado do menino.
Helena chamou a irmã mais nova e conversou com ela em reservado, depois foi até Jason que estava com Tim olhando as ocorrências no mapa da cidade. A situação estava calma, mas isso não era indício de que a noite seria tranquila. Eles tinham chamado reforços de todos da família, mas nenhum chegaria logo. Dick e Kane só conseguiriam estar ali no dia seguinte.
Aquela noite eles estariam por conta própria.
- Preciso falar com você. – Helena aproximou-se de Jason.
- Pode falar.
- Em particular.
Ela andou até próximo do batmóvel, um modelo novo que Bruce nem tinha usado ainda. Jason a acompanhou.
- Precisamos ir atrás do Coringa.
- Helena, isso pode esperar. – Jason disse sério. - Estamos sozinhos, vamos nos concentrar em cuidar do Terry por hoje. Amanhã quando o resto da família estiver aqui, nós procuramos o Coringa.
- Não, você não entende. – Helena disse tensa. - Nós precisamos ir atrás dele, antes que ele nos ataque!
- Helena, isso não faz sentindo, por que ele atacaria a mansão?
- Porque ele já fez isso uma vez. – Helena falou preocupada. – Ele pode não lembrar, mas ele já entrou na mansão. Ele foi até o meu quarto e fuzilou o manequim que ele achava que era eu. Ele só não me matou, porque meu pai agiu antes e me levou pra Europa, e foi por isso que ele não me trouxe de volta pra Gotham. Ele entrou nessa mansão e tentou me matar! E se não fizermos nada, ele vai fazer isso novamente... com Terry!
Helena estava as lágrimas quando concluiu seu relato, Jason teve ímpeto de abraçá-la, mas não o fez.
- Ei, calma. – ele pediu com cuidado. - A mansão tá bem mais protegida que antigamente.
- E o Coringa tá muito mais perigoso...
- Tudo bem. – ele concordou, sabendo que não conseguiria convencê-la. - O que você pensa em fazer?
- Tim e Cass protegem a mansão e você me acompanha. Você sabe dirigir essa coisa não sabe? – ela indagou tocando no famoso carro do morcego.
- Você sabe que eu não tenho permissão pra dirigir esse carro. – Jason hesitou olhando o veículo imponente.
- Você me disse uma vez que o papai te proibiu de dirigir o batmóvel porque você era o único que não tinha motivos pra viver. Bem, agora você tem um motivo.
- É, você me convenceu. – Jason deu de ombros já contornando o carro até a porta do passageiro. – Onde você quer ir?
- Vamos até o nosso apartamento.
/
Eles estacionaram o carro do morcego em um beco há duas ruas do prédio onde moravam em Burnside. Sabiam que era um beco deserto, visto que tinham se pegado nele por anos, após as patrulhas noturnas.
No trajeto, Helena explicou para Jason o seu plano. Ela achava que o Coringa juntaria seus capangas para tentar atacar a mansão, e eles deveriam interceptá-lo antes que chegasse ao lugar.
Eles entraram no apartamento escuro e Helena acendeu as luzes. Iriam até o andar de cima onde havia um cômodo secreto onde estavam suas armas e trajes.
Jason observou que todos os quadros e porta-retratos que Helena espalhava compulsivamente pelos móveis e paredes ao longo dos anos, permaneciam intocados. Ele, a ex-esposa e Terry sorriam de praticamente todos os cantos da casa.
- Terry não deixou retirá-los. – Helena explicou ao ver que Jason olhava com interesse para os quadros na parede da escada enquanto subiam.
- Você poderia ter aproveitado a oportunidade pra se livrar ao menos daquela coisa horrenda. – Jason apontou da escada para o centro da sala de estar onde havia uma pintura a óleo dele, Helena e Terry. Bruce encomendara aquela pintura há alguns anos dizendo que era uma tradição da família e eles tiveram que posar durante uma manhã inteira vestindo roupas formais e Jason dissera várias vezes que o quadro parecia de uma família saída de um filme de terror.
Helena apenas sorriu e continuou subindo a escada. Quando estavam no corredor do segundo andar, Jason espiou pelos cômodos. O quarto que fora deles estava de porta fechada, mas o escritório de Helena tinha a porta aberta. Ele estava se sentindo cada vez pior de estar naquele lugar onde foi tão feliz, e de estar ali com Helena, tão próxima e tão inacessível. Qualquer canto que olhava lhe trazia lembranças e ele lembrava que já tinham se amado em praticamente cada canto daquele lugar.
Helena sentia-se de forma parecida e apressou o passo até o escritório, onde colocou a hora do nascimento de Terry no relógio de carrilhão, fazendo uma porta se abrir atrás dele.
Eles entraram na sala secreta que foi o quartel general da Caçadora e do Capuz Vermelho enquanto eram casados. Jason foi até seu arsenal e começou a preparar suas armas e colocá-las em uma bolsa grande. Estava concentrado nessa atividade quando olhou de relance para Helena e viu que ela se despia.
Eles já tinham feito aquilo vezes demais antes de uma patrulha. Ele preparava suas armas e Helena vestia o traje de caçadora. Ele costumava se deleitar com a cena, mas naquele momento estava perturbado. Era impossível se concentrar daquele jeito. Ele então contornou a mesa onde as armas estavam e passou a trabalhar de costas para ela. Não era hora para pensar naquele tipo de coisa.
- Podemos ir? – Helena falou pouco depois já vestida com o traje de Caçadora, e segurando sua própria arma. Sua besta tinha recebido vários upgrades ao longo dos anos e agora era bem mais rápida e eficiente que antigamente.
- Só mais um pouco. – Jason disse enquanto preparava uma última arma. – Tudo pronto. Podemos ir.
- Jason... só mais uma coisa. – Helena pediu quando ele fechou a bolsa de armas e pegou um dos capacetes vermelhos.
- Pode falar.
- Me prometa que você não vai matá-lo. - ela falou olhando-o nos olhos.
- Você sabe que eu não posso prometer isso.
- Você pode. E deve.
- Eu achei que eu e você fôssemos os únicos da família que não acreditam nessa regra tola do Bruce de não matar...
- Faça isso pelo Terry. – ela pediu. - Ele não merece que o pai seja um assassino.
- Você sabe que eu já fiz isso, Helena.
- E você não precisa fazer novamente. Jason, por favor...
Ela pediu com aquele olhar ao qual ele nunca conseguia dizer não.
- Ok. – ele disse colocando a bolsa no ombro, desviando o olhar do dela. – Mas não prometo nada se ele colocar Terry ou qualquer um de vocês em perigo de vida.
- Obrigada. – ela disse sincera e Jason olhou novamente para os olhos azuis da ex-esposa.
- Você tá cada dia mais parecida com o velho... – ele disse deixando de encará-la e saindo rápido do quarto secreto.
/
Não havia prédios na região próximo a mansão Wayne.
Não havia nada a não ser muros e muitas árvores espalhadas pela estrada. Jason escondeu o Batmóvel atrás de algumas delas enquanto observava a mansão de longe. Na tela do painel do carro eles assistim as imagens das câmeras que vigiam a propriedade.
- Ele não vai vir... – Jason disse após duas horas sentado no escuro em silêncio. Helena observa com atenção as imagens das câmeras. – Devíamos procurá-lo na cidade...
- Só mais um pouco, por favor. – ela pediu. – Pelo menos enquanto estivermos aqui, sabemos que Terry está protegido.
- Tudo bem. – ele concordou. – Eu já tô feliz você estar falando comigo sem brigar.
- Eu não gosto de brigar com você. – Helena retorquiu.
- Helena, você gosta de brigar com todo mundo. - ele zombou.
- Apenas com algumas pessoas... com alguns advogados idiotas e com o Dick... – ela fez uma pausa. - Ontem eu briguei com o promotor Jensen.
- Ah, aquele cara. – Jason sentiu seu humor mudar.
- Ele se enfureceu por eu não ter conseguido um acordo com a Arlequina. O idiota contava com isso pra se eleger. Ele disse que eu só estava na promotoria por causa do meu pai.
- Isso não é verdade. – Jason interveio. – Eu lembro que você passou um mês sem dormir se preparando pra entrevista daquele cargo, e você tinha a maior nota de todos que concorreram.
- Parece que nada disso conta. Enfim, ele me ofendeu e eu me demiti.
- Você se demitiu? – Jason indagou surpreso. - Helena, aquele emprego é uma das coisas que você mais ama na vida! Você batalhou muito pra tá lá. Não pode deixar aquele bêbado mulherengo te fazer desistir...
- Eu não vou, - Helena explicou. – Eu disse a ele que vou me candidatar pra promotoria.
- Você vai o que?
- Você também acha que eu não tenho chances?
- Princesa, você vai ser a maior promotora mais durona que essa cidade já teve. – Jason disse sincero e só então percebeu como a tinha chamado. – Me desculpe, Helena.
- Tudo bem. Eu sinto falta dessas nossas conversas. – ela confessou. - Você sempre me faz sentir que eu sou capaz de conseguir qualquer coisa.
- É. Eu devia ser coach. – ele brincou. – E eu também sinto falto disso. – ele ficou mais sério.
- Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes pra nós...
- Eu também. A culpa foi toda minha. Eu sei que nada do que eu possa dizer vai consertar o que eu fiz. Eu queria te pedir desculpas por ter dito que você era uma péssima mãe, era a raiva e o ciúme falando. Você é a melhor mãe que eu poderia querer para o Terry.
- Eu também não devia ter dito que você era um pai ausente, você segurou as pontas com Terry durante a minha faculdade e nos meus plantões na promotoria. Eu que deveria ter ido, Terry estaria melhor com você.
- Não, eu não devia ter ido embora. Eu me arrependi no momento em que saí. Eu passei vários meses tentando me matar nas missões da Waller sem pensar no meu filho. É tudo culpa minha...
- Acho que nós dois temos culpa, grandão. – Helena falou segurando a mão de Jason. – E vamos ter que consertar isso juntos.
Jason olhou para a mão de Helena que estava sobre a dele e levantou o olhar para o rosto dela que parecia muito próximo, por um instante ele achou que ela queria que ele a beijasse, mas então ele percebeu que ela olhava a tela do painel do Batmóvel.
- Jay, eles não vieram por terra.
/
O batmóvel arrancou os grandes portões da propriedade transformando o portão que tinha um grande "W" em uma grande porção de ferro retorcido e não foi preciso se aproximar demais para descobrir como o Coringa e seus companheiros tinham chegado à mansão.
Havia um balão esvaziado no meio do jardim. Ao mesmo tempo extravagante e silencioso como só o palhaço do crime poderia pensar.
A porta da frente da mansão estava no chão e quando eles correram para a entrada, observaram que uma luta já acontecia lá dentro.
Tim e Stephanie lutavam com os capangas do Coringa que já tinham atirado por todo o hall de entrada da mansão.
- Ele está lá em cima, - Stephanie falou para Jason enquanto lutava com alguns capangas. Ele correu com Helena para as escadas, ambos desviando-se de balas e derrubando alguns homens do Coringa pelo caminho.
As portas de vários quartos pareciam derrubadas quando eles andaram pelo corredor seguindo para a ala da mansão onde estavam os quartos que a família ocupava.
- Você vai pelo lado leste, eu vou pelo lado oeste. – Jason sussurrou para Helena, ambos empunhavam suas armas. – Quem encontrá-lo avisa ao outro pelo comunicador.
Helena concordou com um aceno de cabeça e ambos saíram, cada um para um lado.
Foi Jason quem ouviu a risada estridente primeiro. Ele estava não muito longe, estava em um lugar que Jason conhecia muito bem. Mas ele não comunicou a Helena que havia encontrado o Coringa, ele apenas andou com cuidado até onde o palhaço estava.
O quarto de Terry.
Era o único quarto de criança na mansão, que felizmente, estava vazio já que o menino estava na caverna.
Empunhando sua arma que naquele dia tinha balas de verdade, Jason se aproximou do quarto. A porta estava aberta e a luz que vinha de dentro iluminava o corredor.
Jason não foi discreto e surgiu no vão da porta apontando a arma para o ocupante do quarto.
Encontrou o Coringa olhando-o da cama de Terry onde estava sentado. Sua expressão era plácida. E a arma que ele trazia estava depositada ao lado dele na cama.
- Eu sabia que vocês estavam aí. – o palhaço do crime respondeu calmo olhando para o Capuz vermelho. – Vocês não são silenciosos como o pai de vocês, filhotes de morcego.
- Se sabia que eu estava aqui, por que não atirou? – Jason disse dando alguns passos e encurtando a distância entre ele e o palhaço do crime. A arma mirando a cabeça do Coringa o tempo todo. Tão fácil...
- Eu não estou interessado em vocês. Hoje eu quero outra família... – ele disse com a voz estridente enquanto pegava o porta-retrato que estava na cabeceira da pequena cama. Era uma foto de Jason, Helena e Terry no último aniversário do garoto. - Hoje eu quero a família de Bruce Wayne... – disse ao passar o dedo sobre os rostos de Helena e Terry. – Sabe, é muito interessante quando você mata o filho de alguém, é uma das formas mais terríveis de machucar uma pessoa. O seu pai sabe disso, não é mesmo?
O Coringa abriu seu mais largo sorriso quando Jason pegou-o pelo colarinho e o levantou da cama de Terry.
- O que você pretende?
- Vou fazer com Bruce Wayne o mesmo que eu fiz com seu pai. Vou explodir aquela filha feminista dele e quantos mais daqueles órfãos eu puder. - O Coringa falou antes de uma gargalhada estridente.
E rindo, ele levantou a mão e mostrou um detonador.
- Onde você colocou a bomba? – Jason perguntou sacudindo-o.
- E você acha que eu vou te contar, babybat? – A risada estridente dele ecoou mais uma vez por todo o quarto.
- Você ainda não detonou a bomba. – Jason disse sacudindo-o novamente. – então é provável que ela esteja bem aqui.
- Tsé, tsé... Um pequeno erro de cálculo... Eu não contava que a filha do Wayne e a criança não estivessem aqui. – ele deu de ombros como se não fosse importante. - Não pensei que ia encontrar sua cara feia ao invés deles.
- Eu vou te mostrar o que é uma cara feia.
Jason torceu a mão do Coringa fazendo o detonador cair no chão. Ele derrubou o palhaço sobre a cama de Terry e começou a socá-lo no rosto. Uma, duas, três... incontáveis vezes. E ele não ia parar até apagar aquele sorriso macabro do rosto do palhaço.
- JASON, PARE! – ele escutou uma voz a longe, mas não deu-lhe atenção. – PARE!
Ele sentiu as mãos de Helena tocando-lhe um dos braços e foi somente nesse momento que parou de bater no Coringa que aquela hora já estava desfalecido e tinha o rosto coberto de sangue.
- Você não vai matá-lo! – Helena repetiu fazendo-o largar o palhaço desacordado. – Ainda mais aqui, no quarto do Terry!
- Tem uma bomba... – Jason disse voltando a razão. – o detonador está ali... – ele apontou o interruptor que Helena pegou com cuidado. - e ela está aqui. – falou abaixando-se para pegar o pequeno artefato. – embaixo da cama de Terry. Eu deveria matá-lo... – ele disse olhando com puro ódio para o corpo desacordado.
- Você prometeu, lembra-se?
- Ele queria destruir a mansão. Matar a família toda... matar você!
- Ele sempre vai planejar atrocidades! Ele é louco!
- Ele não é louco, não... – Jason disse por fim. – ele é a porra de um sádico... Eu devia...
- Você não vai fazer mais nada! – Helena falou aproximando-se de Jason e pegando as mãos dele, as luvas estavam sujas de sangue. – por favor...
- Tudo bem... – ele disse mais calmo.
- Mãos pro alto!
A Caçadora e o Capuz Vermelho olharam para a porta do quarto. O comissário Gordon estava lá empunhando uma arma.
- Nós viemos pegar o Coringa. – a Caçadora explicou para o comissário que se aproximou com a arma em punho.
- Sempre atrás da recompensa, não é, mercenário? – ele falou com o Capuz vermelho enquanto examinava o Coringa desacordado na cama infantil. – Isso na sua mão é uma bomba?
- E aqui está o detonador. – Helena mostrou o objeto para o comissário. – Ele queria explodir a mansão e matar a família do senhor Wayne.
- É até previsível... Me deem isso... – o comissário falou recebendo a bomba e denotador das mãos do Capuz vermelho e da Caçadora. – A SWAT está chegando, deem o fora daqui.
/
Enquanto a mansão Wayne era atacada, a mulher-gato estava do outro lado do mundo.
- Então, esse é o local? – Selina indagou para o vazio, deslumbrada com o prédio de arquitetura fascinante que estava a sua frente. - Finalmente.
Poucos minutos depois, ela já tinha escalado o prédio de arquitetura moderna e estava dentro do apartamento que procurou por vários dias.
- Que cafona, não é? – a gatuna indagou ao olhar em volta para a decoração exagerada. A mulher-gato inspecionava o apartamento com calma até ver o tapete de pele de leopardo em frente ao sofá, deixando-a irritada. – Veja, mais um motivo para eu não gostar dessa garota...
Ela sentou-se confortável no sofá com estampa de zebra, colocou os pés sobre a mesa de centro e aguardou tomando um copo do whisky caro que encontrou no bar.
Cibel chegou alguns minutos mais tarde.
A bolsa caiu da mão da loira quando ela parou e olhou a mulher que estava sentada no seu sofá.
- Você tem bom gosto pra bebidas, garota. Pelo menos isso... – a mulher-gato brindou no ar ao vê-la.
- Por que você está aqui? – a voz de Cibel saiu tremida. – Eu não tenho nada pra você roubar...
- Ah, você tem sim. Do contrário não teria um cofre escondido nesse alçapão. – A mulher-gato levantou-se e bateu com o salto no linóleo sob seus pés, fazendo um barulho oco. – Mas eu não vim roubar você, querida. Eu vim aqui porque você mexeu com a minha família. – a gatuna disse após colocar o copo sobre a mesa de centro. – E ninguém mexe com a minha família.
- Eu nem conheço a sua família, mulher-gato.
- Tenho certeza de que já viu o meu rosto por aí... – a mulher-gato tirou o capuz ao andar até Cibel.
- Você é Selina Kyle... – a mulher balbuciou surpresa.
- Achei que você soubesse... muita gente sabe quem eu sou... principalmente no submundo, e bem, eu descobri que você também pertence ao submundo.
- Você é mãe da Helena. – Cibel continuou mais confiante. – Não acha ridículo você vir até aqui pra me perseguir por que o marido da sua filha dormiu comigo? Não deveria ir atrás dele? Afinal, ele que foi infiel...
- Se fosse só isso, eu nunca me envolveria nessa história. – Selina falou postando-se frente a frente com Cibel. – mas nós duas sabemos que não é só isso... – ela sussurrou aos ouvidos da mulher mais jovem.
- Não sei do que você está falando. – Cibel desconversou, desviando o olhar.
- Querida, - Selina abriu os braços mostrando o ambiente em volta. – Eu conheci muitas strippers pra saber que nenhuma delas tem um apartamento desses...
- Como você sabe que não foi o marido da sua filha que me deu esse apartamento? – Cibel provocou.
- Ele não lhe deu. – Selina olhou a outra mulher. – Jason não tem mais um tostão. Ele deixou tudo para Helena no divórcio. Você comprou tudo isso com o bônus da sua pequena missão, não foi isso?
A mulher a olhou provocativa por um instante e Selina achou que ela não se renderia fácil.
Mas, no instante seguinte, Cibel suspirou e baixou a cabeça.
- Eu não fiz pelo dinheiro.
- E pelo que foi? – Selina indagou sem conseguir segurar a raiva. – PELO QUE VOCÊ VENDEU O MEU FILHO PRA AMANDA WALLER?
- Ela está com Boomerang. – Cibel levantou o olhar, seus olhos estavam cheios de lágrimas. – Ela diminuiu a pena dele pela metade. Se ele fizer mais algumas missões para Waller, pode sair em alguns anos...
- Querida, aquela mulher só vai deixar seu amante sair da prisão em um caixão...
- Ele não é meu amante! – Cibel levantou a voz. – Ele é meu marido! Eu fui pra América em busca dele. E eu passei esse tempo todo tentando salvá-lo. E se eu tive que destruir o casamento da sua filha pra salvar quem eu amo, me desculpe, mas eu faria novamente...
- Então foi mesmo a Waller que armou tudo. – Selina concluiu calma, mas foi até Cibel e levantou-a pelo pescoço. – ME CONTE. EU QUERO SABER. Me conte tudo e eu posso pensar em manter intacto esse seu rostinho bonito...
- Eu sabia a identidade do capuz vermelho. – Cibel disse quando Selina soltou-a. – Jason me ajudou há alguns anos quando os homens de Marcondes tomaram meu passaporte. Na época, nós passamos uma noite juntos e eu vi o rosto dele. Quando eu encontrei o Boomerang, antes dele ser preso novamente, eu contei tudo pra ele, menos a identidade de Jason.
- Para a sua sorte. – Selina a interrompeu. – Continue...
- Há alguns meses o Boomerang ficou sabendo que a Waller queria que o capuz vermelho trabalhasse pra ela prendendo criminosos. Ela os quer pra um negócio secreto.
- O esquadrão suicida. – Selina sussurrou mais pra si mesmo que para Cibel.
- Isso. – Cibel confirmou. - Ele disse pra eu vender a informação pra Waller e eu a procurei.
- E você contou a identidade do Jason pra aquela vadia? – Selina indagou preocupada.
- Não! – Cibel rebateu. – Ele me salvou, eu não podia fazer isso... Mas eu disse a ela que podia fazê-lo aceitar o trabalho. Ela me disse que o Capuz vermelho tinha uma família, e que por isso nunca havia aceitado a oferta dela...
- Então você fez de tudo pra destruir o casamento da minha filha. – Selina concluiu.
Cibel deu de ombros.
- Eu devia algum dinheiro pra máfia de Metrópolis. – ela confessou. – Então foi fácil inventar pro Jason que havia um ex-namorado me perseguindo. Ele tinha me contado a história de Helena com Marcondes. Eu sabia que ele me protegeria como fez com ela. Jason é um homem íntegro.
- Não defenda ele, apesar de tudo, ele caiu na sua e dormiu com você. – Selina jogou-se no sofá ao lado de Cibel. – Sempre vencido pela cabeça de baixo, como todo homem...
- Ele só fez isso quando achou que a esposa estava envolvida com aquele promotor. Depois que ela o colocou pra fora de casa. Escute, Selina... – ela olhou para a mulher ao seu lado. – Eu sinto muito pelo que aconteceu com a sua filha, mas eu precisava salvar meu marido. Se você estivesse no meu lugar, não faria o mesmo?
- Querida, eu faria isso e mais. – Selina falou se levantando rápido quando Bruce veio a sua mente. – Muito mais.
- Então, você vai me deixar em paz? – Cibel indagou com uma ponta de esperança.
- Desculpe, querida, mas minha família vem em primeiro lugar. – Selina a olhou. – Amanhã seu marido pode ganhar mais alguns anos de prisão e eu não posso deixar que você exponha a identidade do meu filho para a Waller.
- E o que você vai fazer comigo? – Cibel indagou abrindo os olhos em pânico.
- Fique tranquila, eu não vou matar você... Vou apenas lhe apresentar para uma amiga minha. – Selina disse calma. - Zatanna, já pode ficar visível.
Cibel arregalou os olhos quando a mulher de cabelos pretos se materializou na frente dela.
/
O dia amanhecia quando um grande portal interdimensional abriu-se no hall da mansão Wayne.
Bruce estava de volta, Damian e Ravena estavam com ele. Constantine, que os trouxe de Apokolipse após deixarem Darskseid preso em um batalha eterna com Triggon, foi quem falou primeiro.
- A fofoca é que vocês estavam separados...
O mago olhava para a Caçadora e o Capuz vermelho que estavam sentados lado a lado na escada do hall da mansão.
- Que pena que não te deixaram em Apokolips... – Jason falou levantando-se muito rápido, ele tinha acabado de ajudar Helena a organizar um pouco da bagunça que ficou na mansão após a polícia de Gotham levar o Coringa e seus comparsas.
- O que aconteceu aqui? – O morcego perguntou olhando em volta para a sala destruída.
- O Coringa. – Helena falou levantando-se como Jason fizera. – Uma longa história que vamos lhe contar mais tarde, papai. O importante é que agora ele está preso e estamos todos bem.
- Nem tudo está tão bem, gatinha. – A voz de Selina foi ouvida quando ela entrou pela grande porta de entrada que havia sido explodida pelos comparsas do Coringa, Zatanna a acompanhava. – Até onde sei, o Terry sofreu um acidente.
- O que? – Bruce e Damian indagaram em uníssono.
O mais jovem deu passo à frente e apontou para Jason e Helena.
- Eu avisei vocês! – falou furioso. - Eu sabia que isso não ia acabar bem, seus irresponsáveis! O que aconteceu com o meu sobrinho?
- Mantenha a compostura, Mestre Damian. – Alfred pediu tranquilo, ele acabara de adentrar na sala, vinha da caverna e parecia muito cansado. – Mestre Terry está bem, apesar de tudo. Está na caverna com a senhorita Cassandra.
- Vocês dois. – o morcego apontou para Jason e Helena. – Pra caverna. Agora. – Disse em tom de ordem, depois olhou para Selina – Cat, você poderia nos acompanhar? – pediu mudando o tom, agora suave.
Selina assentiu e acompanhou Bruce para fora da sala, a Caçadora e o Capuz vermelho os seguiram em silêncio.
- Sorte do dia: eu não sou um desses dois. – Constantine comentou quando todos saíram. Depois olhou para Alfred. – Será que rola um café da manhã, bom velhinho?
/
Ao chegar na caverna, Bruce e Selina foram ver Terry que dormia tranquilamente ao lado de Cassandra na cama da sala de descanso de Bruce.
Quando voltaram para o átrio, Helena e Jason encararam Bruce e pareciam tensos, o morcego não havia dito nada ainda e isso nunca era um bom sinal.
Bruce sentou-se em frente ao grande computador e começou a trabalhar, eles aguardaram por um bom tempo. Selina permaneceu ao lado do marido, observando em silêncio. Eles viram as gravações da invasão do Coringa e da luta que se seguiu, depois o morcego falou com Bárbara pelo comunicador e checou a situação da cidade. O morcego deixou na tela uma gravação que mostrava a sala da mansão vazia e girou a cadeira para olhar os filhos que o aguardavam.
- Eu não disse nada até hoje. – Bruce começou calmo, olhando muito sério para Jason e Helena. – Nunca me envolvi nos assuntos de vocês. Vocês são adultos, esperei que agissem como tal. Eu acompanhei os erros de vocês se acumulando ao longo dos meses e não interferi, mas isso, - ele apontou para a tela do computador. – é inadmissível.
Terry apareceu na tela do computador. O menino atravessou a sala de estar, estava chorando. Ele subiu as escadas e sentou-se em um degrau quase no alto, ainda chorando. Depois ficou de pé e olhou atento para o grande lustre da sala de estar. Com uma habilidade incomum pra idade, ele subiu pelo corrimão, equilibrando-se de pé.
Sabendo o que viria a seguir, Helena fechou os olhos e Jason virou o rosto, deixando de olhar a tela, mas Selina apertou o botão e pausou o vídeo antes que acontecesse o que eles sabiam que ia acontecer.
- Não precisa torturá-los. – disse severa para o marido.
- Eles precisam ter noção das consequências dos atos deles. – o morcego falou irredutível.
- Acho que eles já têm. – a gata disse firme falando em um tom de voz que Bruce sabia ser um aviso.
- Tudo bem. – ele concordou com a esposa e voltou olhar para o casal. – Quase perdemos Terry por culpa de vocês. Vocês dois são os mais inconsequentes, desajuizados e desmiolados dessa família! – Bruce se levantou encarando-os. – mas agora vocês têm um filho e tudo que fazem tem consequências sobre ele.
O casal permaneceu em silêncio quando Bruce terminou. Em qualquer outra situação, Jason e Helena teriam rebatido o pai e discutido com ele, mas naquela hora, sabiam que ele tinha razão. Estavam vergonhados e preocupados, Bruce não fazia discursos longos como aquele, então a situação era muito séria.
- Vocês vão se comportar como adultos de agora em diante. – Bruce falou depois de tomar fôlego. – Vão cuidar do filho de vocês, não vão passar essa responsabilidade pro resto da família. Eu sei que o casamento de vocês acabou, mas vocês precisam se tratar como gente civilizada, pelo menos na frente de Terry. E caso não façam isso, eu vou tomar a guarda dessa criança de vocês e não vai ser muito difícil depois de mostrar esse vídeo pra qualquer juiz de menores. Helena, você é uma advogada brilhante, sabe muito bem do que estou falando.
- Você está nos ameaçando, papai? – a filha de Bruce indagou incrédula.
- Entendam como quiserem. – ele girou a cadeira e voltou para o computador, voltando a olhar para tela. – Agora eu preciso saber o tamanho da bagunça que aconteceu nessa casa. Jason, o que você fez com o meu carro? Eu já disse que você não tem permissão para dirigi-lo. – Bruce falou vendo as câmeras que mostravam o carro do morcego no meio do gramado de entrada da mansão Wayne. O portão da propriedade estava preso na parte da frente do carro e o grande W estava retorcido sobre o capô.
Jason não respondeu e quando Bruce girou a cadeira novamente para falar com o filho, viu que o jovem estava no celular discutindo com alguém. Helena e Selina observavam com interesse.
- Eu já disse que não vou voltar. – Jason repetia impaciente para a pessoa do outro lado da linha. – Meus negócios com você acabaram... Não! Você não pode me obrigar, Waller.
- Querido, - Selina falou aproximando-se de Jason ao descobrir com quem ele conversava. – Me dê o telefone.
Ela não esperou, tomou o aparelho da mão de Jason e apertou o botão de viva voz com a unha longa.
- Oi Waller. – Selina falou tranquila.
- Quem é você? – a voz dura e soberba ecoou pela caverna. – Coloque o mercenário na linha!
- Eu sou alguém que você não gostaria de enfrentar... – Selina disse sensual, quase ronronando com sua voz de gata. - Alguém que sabe dos seus segredinhos sujos...
Waller fez silêncio do lado da linha.
- Você não vai conseguir rastrear esse telefone, se é isso que está tentando fazer. – Selina continuou.
- Quem é você? – Waller repetiu, mas o tom da mulher era mais contido agora.
- Isso não importa. – Selina respondeu tranquila. – O que importa é que o Capuz vermelho não vai voltar a trabalhar coletando criminosos para o seu pequeno projetinho secreto, a tal da força especial X, ou como os detentos costumam chamar... o esquadrão suicida.
- O que você sabe? – a voz do outro lado da linha pareceu tensa.
- Eu sei que você chantageou uma mulher desesperada para obrigá-la a acabar com o casamento do meu fi – ela se interrompeu. - do Capuz vermelho. Tudo para que ele pudesse trabalhar para você nesse projeto secreto. Um projeto que vai acabar com você, caso a imprensa descubra.
- Você não tem provas. – Waller respondeu firme e Selina podia sentir o quanto a mulher estava furiosa.
- Acho que o garoto aqui pode me dar uma lista bem longa de criminosos que poderiam depor a respeito disso.
- Ninguém acredita em criminosos. – a voz desdenhou.
- Talvez acreditem quando ouvirem a gravação dessa conversa. – Selina rebateu. - Que erro primário, Waller, cair numa cilada tão simples.
Fez-se silêncio do outro lado da linha.
- O que você quer? – Waller indagou após um momento.
- Deixe o garoto em paz. Ele e a garota australiana. Ela não sabe mais de nada e nem se lembra da identidade do Capuz vermelho. Nós apagamos o HD dela, se é que me entende. É um bom trato, não acha?
- Que seja. - a voz respondeu a contragosto.
- Waller. – foi a vez de Bruce falar com a voz modificada. Era o morcego quem falava. – o garoto faz parte da minha família. Lembre-se do nosso antigo acordo. Você não interfere em Gotham e nem mexe com o meu pessoal.
- Batman? – a mulher indagou surpresa do outro lado da linha.
- É bom que se lembre. – ele avisou e fez um gesto para que Selina desligasse o celular.
- Ah o que eu daria para ver a cara daquela vadia velha a essa hora... – Selina riu entregando o celular para Jason após desligá-lo. – Troque esse aparelho o mais rápido possível, garoto.
- O que você falou para a Waller é verdade, mamãe? – Helena perguntou aflita, ela ouvira toda a ligação. – Ela interferiu no meu casamento?
- Sim, gatinha. Ela obrigou Cibel a se aproximar de Jason para que vocês se separassem e ele aceitasse trabalhar pra ela. Eu fui até a Austrália com Zatanna e fizemos a garota confessar. – Selina olhou para Jason. – Zatanna fez com que Cibel esquecesse sua identidade... e tudo o mais que aconteceu entre vocês.
- Bem, isso não muda nada. – Helena disse ríspida quando Jason a olhou esperançoso. – Com licença, eu vou ver se Terry já acordou.
- Ela nunca vai me perdoar... – Jason suspirou enquanto olhava Helena afastar-se por um dos corredores da caverna.
- Pelo menos ela agora sabe a verdade. – Selina falou levando uma mão ao ombro do enteado. – Acho que vou subir e ajudar o Alfred, a casa está destruída.
Selina afastou-se e Jason ponderou um momento se deveria ir ou não atrás de Helena. Ele quase deu um passo na direção do corredor onde a ex-esposa desapareceu, quando ouviu a voz de Bruce que o olhava de braços cruzados.
- Não tão rápido. – ele disse em tom de ordem e Jason o olhou. - Você pegou o carro sem autorização e quase o destruiu.
- Eu estava tentando salvar a mansão e a família, Bruce. – Jason respondeu irritado. – Você devia me agradecer.
- Tanto faz. Você sabe quais são as regras quando algum de vocês estraga um dos meus carros. – Bruce disse jogando uma chave para Jason.
Jason suspirou. Ele conhecia as regras. Teria de consertar, limpar, guardar de volta o batmóvel, e claro, nunca mais encostar nele de novo.
Seria trabalho para um, ou vários, longos dias.
/
Nos dias que se seguiram a mansão esteve muito movimentada.
Todos vieram para ajudar na pequena reforma que precisou ser feita devido os estragos causados pelo Coringa e seus comparsas. Bruce nunca gostou de pessoas estranhas dentro da mansão, era sempre perigoso que desconfiassem de algo sobre as atividades secretas da família. Portanto, tudo que a família pôde arrumar por conta própria, eles mesmos fizeram. Os membros da família ajudaram Alfred a reorganizar e reformar a sala e preparar um novo quarto para Terry, e o quarto que o Coringa invadiu tornou-se mais um dos quartos de hóspedes que raramente eram usados.
Helena dedicou-se a cuidar de Terry em tempo integral, visto que agora estava oficialmente desempregada. E embora tenha se espalhado pela cidade o boato de que o Coringa tinha atacado a mansão Wayne porque a filha de Bruce Wayne tinha convencido Arlequina a deixá-lo, o que tornou Helena Wayne muito conhecida, ela não pediu de volta o emprego na promotoria.
Ela e Jason passaram a se tratar com cordialidade, especialmente na presença de Terry que estava se recuperando muito bem, embora ainda tivesse um braço e uma perna imobilizados e tinha que caminhar com a ajuda de uma pequena muleta. Como a família estava reunida para a reforma da casa, Jason e Helena participavam das refeições em família de forma tranquila, embora não interagissem entre si, a não ser quando envolvia o filho deles. Eles não conversaram sobre as revelações de Selina acerca de Cibel e da armação de Waller para acabar o casamento deles.
Dick também veio para Gotham e ajudou Jason a consertar o batmóvel, o que levou mesmo alguns dias. Após terminar com o carro, os irmãos restauraram o antigo portão da propriedade que Jason o atropelara com o carro. Bruce não aceitou que o portão fosse ser substituído, pois fora desenhado por seu pai. Os rapazes restauraram o portão na oficina da caverna e naquela manhã, cerca de uma semana depois do ocorrido, eles haviam terminado de recolocar o portão e estavam finalizando a pintura que precisava ser feita a mão.
Era uma tarde bem quente. Uma rara tarde ensolarada em Gotham, o tempo estava abafado e havia previsão de uma tempestade pela noite. Mas naquele momento, os dois rapazes suavam e molhavam as regatas e shorts que também estavam sujos e manchados de tinta.
Quando eles fizeram uma pausa para uma bebida gelada, limonada para Dick e cerveja para Jason, o irmão mais velho resolveu tentar engatar uma conversa. Dick vinha tentando há vários dias falar com Jason sobre Helena, mas o irmão, sempre arredio e pouco afeito a conversa, escapava todas as vezes.
- Então, você e a Lena conversaram? – Dick indagou de forma casual.
- Você é insistente, heim? – Jason reclamou enquanto passava o braço pela face de modo a secar algumas gotas de suor. – Eu vou repetir pela última vez: nós não conversamos e nem vamos fazer isso.
- E eu vou repetir mais uma vez: você deveria chamar ela pra conversar. – Dick insistiu. – Você teve um milhão de oportunidades nessa semana.
- Cara, se ele fosse me perdoar, já teria feito. – Jason disse em tom de derrota. - Ela não quer conversar. Nós estamos em paz, estamos cuidando do Terry e está funcionando assim. Eu não vou arriscar acabar com isso.
- Então você vai deixar como está?
- Sim. – Jason falou após tomar grandes goles de cerveja na garrafa longneck.
- Então vocês vão seguir em frente. – Dick constatou. – Como vai ser quando ela começar a namorar?
Jason olhou confuso para o irmão.
- Você acha que Helena vai ficar no celibato pra sempre? – Dick provocou. - Ela é uma das minas mais gatas dessa cidade, sem falar na parte de ser herdeira de um bilionário.
Jason não teve tempo de responder.
- Tem um carro chegando. Quem será? – Dick indagou enquanto olhava para um Porsche preto que vinha pela estrada
- Devem ser aquelas garotas que já passaram aqui três vezes gritando por você. – Jason falou ao dar as costas para o irmão. Ele guardou a garrafa vazia na caixa térmica e pegou os pincéis para voltar ao trabalho.
- Elas não estavam olhando só pra mim. – Dick ironizou também esquecendo do carro e voltando-se para o portão. – Vamos terminar logo com isso, o Al fez assado pro almoço e se a gente demorar, não sobra nada.
Os rapazes pegaram os pincéis para finalizar a pintura do portão, mas pararam ao levar um grande susto que fez com os dois girassem o corpo muito rápido quando alguém buzinou alto atrás deles. Quando se viraram, eles viram que o Porsche preto havia parado em frente ao portão.
Dick e Jason viraram-se ao mesmo tempo e constataram que o carro não era das garotas que passaram várias vezes paquerando-os durante a manhã. Havia um rapaz grande e loiro ao volante.
- Ei, não fiquem parados aí! Abram esse portão! – o jovem loiro colocou a cabeça pra fora do veículo e gritou impaciente para os dois.
Dick e Jason cruzaram os braços quase ao mesmo tempo, se entreolharam e depois olharam para o motorista do carro. O homem buzinou alto mais uma vez.
- Vamos, mexam-se, seus idiotas. – o rapaz voltou a colocar a cabeça para fora do carro, e agora gritava.
Dick e Jason caminharam devagar até o carro. Pararam do lado do motorista. Dick estava curioso com o visitante, já Jason, estava furioso, pois o reconheceu logo que se aproximou.
- Posso saber o que você quer na minha casa? – Dick indagou encarnado a persona do playboy petulante que ele fazia nas aparições públicas em Gotham.
- Sua casa? – o motorista desdenhou incrédulo.
- Sim. Dick Grayson. – ele falou estendendo a mão para o motorista.
- O Wayne mais velho? Eu não reconheci você... – o jovem loiro disse mais calmo, cumprimentando Dick. – Justin McClane.
– Justin McClane? O jogador de futebol? – Dick indagou reconhecendo-o.
- Sim, – o rapaz disse orgulhoso. - Quer um autógrafo?
- Não, obrigada. Não sou fã de esportes. – Dick respondeu fazendo pouco caso. - Mas o que uma estrela do futebol quer na minha casa?
- Ele está procurando Helena. – foi Jason que respondeu, ele estava encarando Justin desde que se aproximou.
- É, estou. Somos amigos há muito tempo. – Justin explicou para Dick. - E você é o ex-marido dela, não é? – Justin indagou pra Jason, dando ênfase a palavra ex.
- Ela sabe que você está vindo? – Dick colocou-se rápido entre os dois.
- Ela me convidou. – Justin respondeu orgulhoso. – Inclusive, já estou atrasado. Pode ligar pra ela e confirmar se quiser.
Dick procurou o celular no bolso para ligar para a irmã.
- Abra logo o portão. – Jason disse para Dick já dando as costas para Justin.
Dick acionou o controle do portão que abriu devagar.
- Pintando o portão? – Justin comentou e riu enquanto dirigia para dentro da propriedade. – Bilionários são estranhos...
Dick e Jason observaram o carro entrar pela propriedade e o portão começar a fechar na frente deles.
- O que ele quer com Helena? – Dick indagou enquanto olhava o portão fechar.
- Não sei e prefiro não saber. Vamos voltar ao trabalho. – Jason caminhou de volta ao portão e pegou o pincel, voltando a pintura. – Vou pegar o turno da patrulha essa noite. – ele comentou quando Dick chegou ao lado dele.
- Por quê? Precisa espairecer a mente?
– Não, por que preciso atirar em alguém.
/
Mas Jason não pegou o turno noturno da patrulha. Ele nem mesmo voltou a mansão para almoçar e provar o assado que Alfred fizera e que todos amavam.
Ele se conhecia o bastante para saber que não tinha controle emocional suficiente para adentrar a sala da mansão e encontrar Helena com Justin, a celebridade do futebol e antigo colega de faculdade que era apaixonado por ela.
Quando finalizou a pintura do portão, ele pegou a moto e voltou para o seu velho apartamento, o estúdio.
Fazia meses que ele não ia até lá, então ocupou-se pelo resto do dia limpando o lugar e ainda saiu para fazer algumas compras e reabastecer a geladeira. Hábitos que ele adquirira com Helena ao longo dos anos de casado "um ambiente organizado ajuda a organizar a mente", ela sempre dizia. Mais tarde, quando retornou para casa com as compras, anoitecia em Gotham e o céu estava carregado com as pesadas nuvens de tempestade.
Os primeiros pingos o atingiram antes dele entrar no prédio.
Ele guardou as compras, e cozinhou um espaguete à bolonhesa, uma massa simples que Helena lhe ensinou a fazer anos antes. Ele também pegou a taça do cabernet sauvignon que ele aprendera com a ex-esposa que harmonizava bem com aquela massa.
Após o jantar, ele encheu outra taça do vinho tinto encorpado e sentou-se no sofá cama que ele comprou há alguns anos por causa da presença dela e só então viu a pasta de papel que deixara sobre a mesinha quando voltou da mansão.
Jason pegou a pasta e passou a olhar os documentos, sentindo-se um idiota.
Quatro dias atrás ele tinha ido até a prefeitura de Gotham pedir aqueles documentos, eram para Helena, mas ele não tinha tido coragem de entregar a ela. Ele temeu que ela achasse que ele estava tentando reatar e ele não queria voltar a brigar com ela e fazer Terry sofrer.
Lá fora a tempestade piorava e Jason lembrava da noite, muitos anos antes, em que ele e Helena assistiram filmes durante uma tempestade como aquela. A noite em que ele percebeu que sentia algo diferente pela filha de Bruce. A velha televisão ainda estava ali, porém desligada. Àquela altura ele já tinha desistido da patrulha daquela noite, então repôs a pasta na mesinha e voltou até a cozinha para buscar a garrafa de vinho. Seu novo plano era terminar a garrafa, cair no sofá cama pra ver TV, e talvez quem sabe, ter a sorte de dormir sem sonhar.
Havia apenas uma luminária de luz amarela ligada ao lado da cama que ficava no centro do cômodo e a noite deixara o apartamento com uma claridade mórbida. Jason andou até a mesa da cozinha, pegou a garrafa e tomou um grande gole direto do gargalo.
- Não é assim que se aprecia um vinho tão delicado.
Jason estreitou os olhos através da escuridão em direção da voz que vinha da grande janela da sala.
Ele não tinha bebido tanto. Não podia estar alucinando.
Era mesmo Helena, ou melhor, a Caçadora estava ali.
Do lado das grandes janelas, molhada dos pés a cabeça, iluminada pela claridade que vinha da rua. A pequena poça de água aos pés dela parecia bem real.
- O quê? – ele indagou sem entender enquanto piscava os olhos. – o que você tá fazendo aqui?
Ela andou alguns passos e agora iluminada pela luz da luminária, parecia real.
- Terry perguntou por você. – ela falou quando estava perto o suficiente. Os longos cabelos estavam ensopados da água da chuva. – Você saiu sem se despedir. Ele estava preocupado... você sabe que ele odeia tempestades.
- Você não devia ter vindo. – Jason disse colocando a garrafa de vinho de volta sobre a mesa. – é perigoso sair com esse tempo.
- Eu sei me mover bem entre os prédios, mesmo com chuva. – ela disse se aproximando mais um pouco sem tirar os olhos dele. – tive um bom professor.
Jason permanecia imóvel, mas a olhava da cabeça aos pés.
- Princes – ele começou, mas corrigiu-se. - Helena. Você está encharcada.
- É verdade. – ela disse séria, olhando-o enquanto tirava a máscara. Depois, se aproximou mais, quase encostando no corpo dele. – Eu devia me livrar dessas roupas molhadas... – ela sussurrou.
Ele levou algum tempo para entender, sua mente parecia funcionar em slow motion.
Foi só quando Helena começou a despir o uniforme que ele percebeu as intenções dela. Ainda ficou parado, meio bobo, enquanto ela tirava as longas luvas que colocou sobre a mesa da cozinha e em seguida abrir um botão no colarinho e deixar a capa roxa cair. Por fim, ela levou uma mão as costas e puxou o zíper do uniforme, tirando-o devagar e deixando-o cair junto a capa.
- Jay... - ela falou baixinho, muito perto da boca dele, após deixar as roupas caírem. – Está frio.
Ele sempre aquecia Helena quando ela estava com frio. E como ele fizera tantas vezes antes, a envolveu em seus braços no mesmo momento em que ela tocou seus lábios com os lábios dela.
Todos os momentos seguintes passaram como alguma névoa indefinida. Jason só lembrava dos lábios, da língua de Helena... do corpo macio dela nos braços dele. De ele levando-a até aquele velho sofá cama onde se amaram pela primeira vez alguns anos antes e onde o fizeram novamente enquanto a tempestade caía lá fora. Helena encaixada sobre ele e ele, apenas um brinquedo nas mãos dela.
Quanto tempo passou? Não importava para ele. Jason só adquiriu novamente o controle de suas faculdades quando estava exausto e tinha Helena entre seus braços, o coração dela batendo muito rápido.
Talvez por efeito do vinho, mas o mais certo, pela força do cansaço, os olhos dele fecharam-se e ele acabou apagando.
Quando abriu os olhos novamente, a chuva parecia menos violenta, mas ainda molhava o vidro das janelas. Helena não estava mais nos braços dele. Por um instante ele temeu que estivesse enlouquecendo e que tinha imaginado aquilo tudo.
Então ele a viu. Ela estava de pé em frente ao sofá cama, de costas pra ele. Vestia um dos moletons dele, segurava um grande prato de espaguete com uma mão e batia na televisão de tubo com a outra.
- Não é assim que você faz ela funcionar, já esqueceu? – Jason disse se levantando sem ligar para sua total ausência de roupas. Ele foi até a TV e bateu com força sobre ela. As imagens surgiram na tela em seguida.
- Obrigada. – ela agradeceu olhando-o nos olhos por um instante.
Helena sentou-se no sofá cama e passou a assistir com interesse a sitcom que passava na velha televisãoa.
Jason a acompanhou e deitou-se ao lado dela, cobrindo-se com o lençol. Ela não pareceu se incomodar.
Ela parecia muito interessada em comer e assistir a sitcom. Quando finalmente terminou o grande prato de espaguete, ela levantou-se e foi até a cozinha. Voltou pouco depois sem o prato e com uma taça de vinho. Sentou-se novamente ao lado de Jason.
- Por que veio até aqui, Helena? - Jason indagou tomando coragem quando ela retornou. – Você não veio pela televisão e nem pelo jantar, e com certeza não precisava checar se eu estou bem. Só queria transar?
Jason sabia que estava cutucando a fera com vara curta, mas ele não se importou. Achava até ela mais bonita quando estava brava. E naquela hora, ele precisava mesmo saber o que Helena queria dele.
- Sim, eu queria transar. – ela respondeu deitando-se na cama após beber da taça e colocá-la na mesinha ao lado. – Já faz muito tempo... E... – ela fez uma pausa, olhando para o teto. - Quando Dick me disse que você tinha ido embora da mansão, eu achei que você tinha desistido.
- Eu fiz isso. – Jason confessou. – Eu não tenho sangue frio o bastante para ficar na mesma casa que você e o seu encontro, Helena.
- Meu encontro? – ela indagou surpresa, virando-se para encará-lo. – espera, você não tá falando do Justin, né?
- Ele estava lá, por você.
- É. Ele estava, mas não por mim. Quer dizer, estava por mim... mas não do jeito que você imagina. – ela sentou-se na cama e tentou explicar. - Jay, eu não estava em um encontro. Eu chamei Justin porque eu estava procurando pessoas que pudessem me apoiar. Eu te falei que quero ser promotora. E Justin é famoso e é formado em direito... eu achei que ele podia me ajudar, mas ele só queria sair comigo. Acredita que aquela babaca me disse que acha que a promotoria é um cargo "masculino" demais?
- Então ele não vai te apoiar? – Jason perguntou tentando não expressar sua alegria por Helena não estar saindo com Justin.
- Não, e eu nem quero mais.
- E você desistiu? – ele indagou preocupado. - Desistiu de ser promotora?
- Ah, eu não sei mais... Eu ainda não falei pro papai e pra minha mãe. Eu queria ter algum apoio primeiro. Não quero depender deles. Não queria estar lá como "a filha de Bruce Wayne". – Helena suspirou. – Acho que eu quis dar um passo maior que a perna.
- Eu não acho. – Jason disse sincero, erguendo o corpo e sentando-se ao lado de Helena.
- Você só tá falando isso por que acabou de me comer...
- Eu acho que você daria uma grande promotora. – Jason disse erguendo o braço e pegando a pasta que estava na mesinha atrás de Helena. Colocou a pasta sobre o colo dela. – Se eu não achasse, eu não teria passado duas horas em uma fila na prefeitura para buscar isso.
Helena abriu a pasta e um grande sorriso se formou nos lábios dela.
- Você sabe que tudo isso pode ser preenchido on-line, né? – Helena disse olhando os formulários. Eram os documentos necessários para que ela se inscrevesse para concorrer a eleição para a promotoria de Gotham.
- Eu sei que poderia ser feito on-line, mas você sabe que eu gosto das coisas a moda antiga. – Jason comentou satisfeito. - O Constantine diz que eu tenho uma alma velha, por que eu já "caminhei pelo vale da morte". – falou fazendo aspas com os dedos.
- Ele não precisa ficar lembrando isso. – Helena disse irritada. – Aquele cara parece que gosta de ser inconveniente...
- Esquece ele. E então, você vai se inscrever?
- Você acha que eu devo? – Helena indagou indecisa.
- Os formulários estão aqui, não estão? – ele falou tocando as pastas.
- E se eu fracassar?
- Pelo menos você não vai se arrepender de não ter tentado. – ele deu de ombros.
- Então eu vou fazer. – Ela decidiu. – E não vou fazer on-line, vou preencher esses formulários. Você teve muito trabalho pra conseguir...
- Valeu a pena. – ele falou tocando de leve a bochecha dela o que fez Helena fechar os olhos.
- Obrigada por sempre acreditar em mim. – ela falou ainda de olhos fechados.
- De nada, eu sou seu maior fã. – Jason disse sincero.
Helena abriu os olhos parecendo um tanto chocada e levantou-se rápido, escondendo o rosto.
- Eu disse alguma coisa errada? – Jason indagou levantando-se sem se importar de novo com a falta de roupas.
- Não, não disse. – Helena falou ainda sem olhá-lo.
- E então? – ele se aproximou colocando a mão no ombro de Helena.
- Jason... – Helena procurou as palavras quando se voltou pra ele. Seus olhos brilhavam em lágrimas.
- O que? – ele olhou-a em expectativa, enxugando uma lágrima dela com o polegar.
- Deixa pra lá, – Helena tentou se afastar. - é melhor eu ir embora.
Jason a impediu, pegando-lhe a mão.
- Por favor... – ele pediu sincero. – fale. Você não pode simplesmente vir aqui, brincar comigo e ir embora...
- Eu não sei... – Helena olhava para o chão. – Não sei se dá pra consertar...
- Helena, tudo que falei no carro aquela noite é verdade. – ele disse com a voz urgente. – Eu peço perdão quantas vezes forem necessárias, eu admito que foi tudo minha culpa...
- Não. – ele o interrompeu. - A culpa não foi só sua. Eu poderia ter te ouvido. Eu fui imatura de novo...
- E eu fui um idiota. Fui muito burro e perdi uma vida que eu adorava... Helena, eu amava a minha vida com você e com Terry. Eu tinha tudo que eu sempre sonhei... Eu sei que não tenho o direito, mas se você puder... se você me perdoar...
- Eu já te perdoei faz tempo. – Helena o interrompeu. – Mas eu não sabia como dizer isso. Na verdade, eu vim aqui pra isso, pra te dizer que se você quiser... – ela parou e tomou ar. – Nós podemos tentar de novo. Podemos recomeçar.
Helena o olhou em expectativa e Jason custou um pouco a responder, ele nunca gostou de demonstrar suas emoções e estava difícil pra ele disfarçar a emoção que se apoderou dele com aquela proposta. Então, vendo que era impossível esconder a voz embargada e os olhos molhados, ele se rendeu.
- Eu aceito... princesa.
/
Helena foi eleita promotora poucos meses mais tarde. O fato de ter sido o pivô da separação de Arlequina e Coringa lhe deu a popularidade que ela precisava, e apesar de não ter aceito o envolvimento do pai em sua campanha, seria hipócrita de sua parte não admitir que o fato de ser filha de Bruce Wayne aumentava ainda mais a aura de fascínio que havia sobre ela.
Terry não teve mais febres emocionais e seu comportamento melhorou muito, embora o garoto mesmo tão pequeno, já mostrava um pouco da personalidade forte que herdara dos pais, e sem dúvida, dos avós. Ele se recuperou muito bem das fraturas do braço e da perna, mas não demorou muito para tentar pular novamente pelos lustres da mansão. Ele teve sucesso nas vezes seguintes.
Jason e Helena não anularam o divórcio. Eles fizeram um novo casamento, dessa vez com uma grande festa, e na renovação de votos, reafirmaram o pacto antigo, de sempre falar a verdade um para o outro.
Assim, mesmo com os constantes embates entre o espírito indomável dela e a personalidade rebelde dele, a filha de Gotham e o garoto ressuscitado seguiram juntos e foram felizes.
E o resto da história deles, vocês já conhecem.
