Existe um conceito chamado Bloco Universal que afirma que o tempo deve ser considerado uma dimensão do espaço-tempo. Tecnicamente, o passado, presente e futuro estão interligados, mas quando um se torna realidade o outro não deixa de existir, apenas permanece presente em uma dessas dimensões.
Mesmo agora, eu podia sentir a veracidade dos fatos vibrando em cada célula viva do meu corpo, tão real e ao mesmo tempo tão distante que me perguntava se aquilo não passara de um mero pesadelo. Foi quando me ocorreu que talvez eu apenas sentisse o pavor e medo que me consumiram no passado, e a inquietação e expectativa fossem atribuídas a eu do presente, enquanto a esperança crescente fosse apenas um sopro da paz alcançada pela eu do futuro.
Ou pelo menos assim desejava.
No entanto, não havia nenhuma regra que me preparasse para simplesmente deixar o ano de 1975 para trás, pois suas raízes ainda penetravam na carne em cicatrização.
Era primavera e o clima ameno de Austin impulsionava qualquer um para fora de casa, a sensação de recomeço e a vida percorrendo cada gavinha nos jardins da vizinhança emanava a energia de calma e estabilidade. Mas do mesmo jeito, não passei muito tempo na soleira da porta observando os vizinhos e seus acenos amigáveis antes de entrar no carro e me fechar com o bebê de olhos castanhos em meus braços.
Marie nascera seis meses antes e eu ainda aprendia a lidar com a barriga plana depois de uma longa gestação de chutes e enjôos constantes, sem falar nas variações de humor que colocaram meu casamento à prova. Carregá-la ainda era estranho, como se todas as vezes em que parava para observá-la fosse um momento de contemplação onde minha mente brilhava com a satisfação da criação. Eram os únicos momentos em que realmente saboreava a ideia de ser mãe sem que minha atenção estivesse completamente alheia a tudo.
Se me permitisse nadar para longe daquela bolha, para fora da realidade do acontecimento mais importante de minha vida, talvez não restasse muito de mim para contemplar.
Balancei a cabeça, não querendo dar voz àqueles pensamentos quando meu marido tomou seu lugar no volante.
— Aqui está — ele sorriu docemente, balançando a pequena bombinha de asma entre os dedos antes de guardá-la no porta-luvas. — Foi por pouco, ainda bem que me lembrei antes de pegarmos a estrada.
— Edward, isso é ridículo. Não tenho uma crise de asma há quatro anos.
— Pode estar certa, mas não vamos abusar da sorte.
Não tive tempo para mais argumentos, Edward girou a chave na ignição e ligou o rádio em uma estação aleatória para ouvir uma de suas músicas country favoritas, dando as costas para aquela possível discussão.
Havíamos nos conhecido oito anos antes em um bar mal localizado de bebida barata onde consegui meu primeiro trabalho como garçonete, estava focada demais em meus estudos na faculdade de arquitetura e decidi por me isolar em uma política de manter distância dos homens, mas naquela noite o recém-chegado na cidade, Edward Cullen, surgiu com uma confiança admirável lançando suas piores cantadas que resolvi ignorar. Aquilo seguiu por um mês inteiro de tentativas, noite após noite, até que eu cedesse a um encontro por pura desistência.
Transamos na mesma noite do primeiro encontro no banco traseiro de seu Impala preto no estacionamento de um bar, o que era apenas para ser um momento de distração sexual se tornou um namoro, seguido de um casamento e por fim, uma família. Não era a história de romance que eu contaria para nossa filha quando ela tivesse idade, mas gostava de pensar que ainda teria muitos anos para criar algo menos anticlimático.
Tivemos uma vida boa por um tempo.
— Soube que há fazendas de lavanda por toda parte, a corretora disse que poderíamos até sentir o perfume na casa — Edward comentou quando por fim ultrapassamos os limites de Blanco.
— Eu amo lavanda.
— Sei disso, amor. Na verdade, foi um dos motivos que me deixou tão animado para conhecer a casa, além do fato dela ser grande e aparentemente segura.
— Tem grades por todos os lados? — Pisquei, hesitante.
— É claro que não, Bella. Não estou te arrastando para Huntsville. Ao que parece a vizinhança é tranquila e não há nenhum motivo para realmente se preocupar.
— Nossa vizinhança também parecia segura — Meu tom de voz saiu frio como um iceberg, mas continuei fitando a paisagem pela janela, embora sentisse o par de olhos verdes sobre mim.
Me arrependi das palavras um instante depois de deixá-las fluir. Sabia que Edward se culpava por tudo o que acontecera em uma noite aterrorizante há seis meses, sua consciência pesava e por mais que ele me afugentasse de seus pedidos de perdão a cada santo dia, não havia nada que ele pudesse fazer quanto ao olhar culpado que direcionava a mim.
Não queria tornar tudo pior para ele, não desejava que aquele sentimento criasse raízes para corroer o peito do homem que eu amava. Por isso virei para ele, seus olhos se voltaram para a estrada quando estiquei a mão livre para acariciar os cabelos de sua nuca suavemente.
— Desculpe. Eu não quis ser tão amarga, estou feliz que estamos aqui buscando um meio de deixar tudo isso para trás.
— Tudo bem, sei que não é fácil para você deixar aquela casa tanto quanto não é fácil continuar vivendo nela.
— É o nosso lar, construímos nas ruínas com as próprias mãos e salário de horas-extras, realmente não é fácil — suspirei, revivendo memórias do passado.
— Trabalhamos tanto naquela época que mal tínhamos tempo um para o outro, isso explica a demora para a chegada de um bebê — ele sorriu, encarando a criança em meu colo com um brilho nos olhos.
Era impossível ignorar o esforço de Edward para manter nossas vidas de pé, ainda que eu estivesse hesitante com a ideia de mudar para o interior, simplesmente não podia negar isso a ele, não depois de tudo o que vivemos. Eu sabia que era a melhor opção dadas as circunstâncias, ele estava pensando inteiramente em mim e no que eu era capaz de suportar.
— Se tudo der certo, podemos repetir.
Minhas palavras fizeram seu rosto se iluminar e aquilo encheu meu peito de tal forma que me senti um pouco mais inclinada à mudança.
Depois de cerca de uma hora de viagem, chegamos a casa localizada na pequena cidade de Blanco. Aparentemente, a corretora estava certa e passamos boa parte da viagem admirando os campos de lavanda das fazendas, onde extensos trechos de terra cultivavam os ramos de um lilás vívido e perfumado. Depois dos campos, seguimos pela estrada de terra até o endereço indicado, afastado de toda a movimentação central da cidade e mergulhado no silêncio e na calma que só o interior poderia fornecer.
Uma mulher alta e esbelta nos esperava na fachada da casa, seu traje era um contraste gritante do cinza formal com o estilo rústico e antigo da propriedade, o cabelo preto estava preso em um coque firme na nuca enquanto ela sorria para nós. Imediatamente me perguntei se teria sido uma péssima ideia viajar com a janela do carro aberta, rapidamente alisei minhas ondas rebeldes enquanto ela descia os pequenos degraus da soleira para seguir até nós.
— Sr. e Sra. Cullen — ela cumprimentou com um sorriso enorme quando saímos do veículo, logo estendeu sua mão delicada para Edward e em seguida para mim. — Sejam bem-vindos às Blanco. Meu nome é Carmen Denali, é um prazer recebê-los finalmente.
— O prazer é todo nosso, Srta. Denali. Desculpe o atraso, acabamos calculando mal o tempo de Austin até aqui.
— Ah, está tudo bem. Imagino que viajar com um bebê tão pequeno não seja fácil, como foi na estrada?
— Bem — disse distraída, meus olhos percorriam a fachada como se pudesse analisar até mesmo as farpas das colunas. — Nenhum trânsito.
A mulher sorriu novamente, seguindo minha atenção para começar com seu joguinho de compra e venda.
— Privilégios da vida no campo! Aposto que em Austin vocês saem com antecedência para evitar imprevistos como o trânsito, mas viver em Blanco significa horas a mais de sono de manhã.
— Acho que alguém aqui anda precisando disso — Edward piscou para mim antes de pousar sua mão na base de minhas costas.
— Você tem razão — murmurei, sorrindo de lado ao encarar Marie adormecida. A verdade é que eu não sabia nada sobre uma boa noite de sono há meses.
— Ótimo, o que ainda estamos fazendo aqui? Venham, entrem. Ainda há muito que eu gostaria de mostrar a vocês.
Nossa tour começou pela sala ampla de piso de madeira escura e polida, onde cabiam mais móveis do que provavelmente tínhamos na casa de Austin. O cômodo tinha longas janelas e portas francesas, algumas com vitrais trabalhados nas fendas, contrastando a luz do sol que atravessava sutilmente para dentro e criava um espectro de cores que me deixou hipnotizada. Um pouco mais à frente, era possível encontrar a lareira de pedra clara que aquecia nos invernos mais rigorosos, além da escada que serpenteava para cima no canto esquerdo.
— Como podem ver, é uma bela casa de campo com uma arquitetura retrô um pouco mais refinada, algo raro para as casas desta região — informou ela com sua simpatia imortal. — Foi toda planejada pelo pai do antigo morador, pensada e acomodada para uma família exatamente como a sua.
Meu marido observava tudo ao redor como se estivesse diante de um palácio, sinceramente não podia culpá-lo pelo deslumbre, a casa se encaixava no tipo de residência que se procura, mas não se pode pagar. Embora não tivesse totalmente nossa personalidade ali, meus olhos enxergavam o potencial para eventuais mudanças.
— Aqui fica a cozinha — apresentou quando viramos no fim do corredor. — É bem espaçosa e perfeita para as festas de fim de ano, podem trazer seus familiares para festejar sem se preocupar em esbarrar em quem se oferecer para ajudar a preparar a ceia.
— Na verdade, não costumamos nos reunir com os familiares, ou pelo menos não tantos. As datas comemorativas são reservadas só para nós.
— Bem, acho que vai querer uma cozinha grande quando sua menininha começar a correr.
— Shhh, Marie — eu disse quando a bebê de cabelos cor de bronze se remexeu em meu colo, grunhindo baixinho. — Quietinha.
— Como é?
Encarei a morena quando se virou, interrompendo rapidamente sua explicação detalhada sobre os antigos armários da cozinha trabalhados para Edward.
— Oh, o nome dela é Marie.
— Sempre achei lindo o segundo nome da Bella, porque não homenagear a mãe? — explicou Edward ao abraçar os meus ombros, provavelmente orgulhoso do que fizemos — Eu sei, não parece muito original.
— Na verdade, parece ótimo — ela sorriu com sinceridade e de repente senti mais simpatia pela mulher. — Sua filha é linda.
Poderia ser apenas gentileza da corretora, mas eu presunçosamente sabia que não era. Desde o momento em que descobri estar grávida, imaginei o rosto daquele que eu estava gerando, por algum motivo o rosto de um menino sempre vinha a minha mente, cabelos cor de bronze e olhos verde-esmeralda, uma cópia fiel de Edward.
Mas eu estava sendo precipitada.
Em algumas noites, Edward gostava de deitar sua cabeça em meu ventre quando já estávamos prontos para dormir, lá ele tagarelava sobre os planos para o futuro e em todas as vezes ele se referia a ela. No início, isso me irritou, afinal durante toda minha vida falaram sobre o sentido de que mãe sempre sabe o sexo do bebê. Mas ali estava, nossa pequena e perfeita menina, olhos grandes e castanhos e bochechas rechonchudas.
Marie era a mistura perfeita de ambos.
— Os quartos ficam no segundo andar. Três. Próximos um do outro, ótimo para Marie ficar segura perto dos pais.
— Isso é perfeito — comentei, seguindo Carmen em direção às escadas com Edward ao meu encalço. — Seria ótimo para ouvi-la no meio da noite.
— Exatamente, sua filha pode se ajustar maravilhosamente ao lado do quarto principal e ainda sobra o de hóspedes no fim do corredor.
Eram dois lances de escada com um armário bem abaixo, o corredor no segundo andar nos levou rapidamente para a primeira porta à direita, Carmen girou a maçaneta de bronze e exibiu o cômodo espaçoso com uma grande janela do lado oposto. Meu olhos rapidamente começaram a calcular onde cada móvel poderia ficar, incluindo o berço, enquanto a corretora de imóveis nos contava sobre os benefícios. Aparentemente luz solar e ar fresco não faltavam ali, pois assim que ela abriu as janelas a brisa com toques de lavanda nos atingiu para o frescor.
— Como podem sentir, as fazendas de lavanda são muito influentes na região. A mais próxima daqui fica a menos de um quilômetro de distância, eu mesma a vendi para os donos há sete anos. Um casal muito gentil, são seus vizinhos mais próximos.
— Vizinhos?
Franzi o cenho, pressionando minha filha em meus braços com mais firmeza. Edward notou minha mudança de humor repentina e trouxe sua mão para afagar meu ombro levemente.
— Você ouviu Carmen, eles são muito gentis.
— Sim, não há problemas com a vizinhança por aqui — a morena afirmou, então nos guiou para a próxima porta. — Aqui fica o quarto principal.
O espaço era ainda maior do que o primeiro, com uma porta que deduzi ser um armário e outra mais próxima de nós onde ficava o banheiro da suíte, além da lareira e mais a frente uma pequena varanda se estendia. As longas portas se abriram quando Carmen as moveu e nos exibiu a vista para os campos de lavanda mais próximos, o mar de lilás se estendendo acima da terra clara da propriedade no horizonte.
Avancei alguns passos em direção aquela vista até tocar no parapeito.
— É tão bonito — murmurei, sorrindo enquanto os raios de sol invadiam o cômodo para refletir em minha pele. — Parece uma daquelas paisagens que só se vê em filmes antigos.
— Imagine acordar assim todos os dias — Edward me abraçou por trás, submerso na mesma vista quando sussurrou em meu ouvido. — Esse é o nosso quarto, o que acha?
— Eu gostei… talvez mais do que um pouco.
— Isso é bom — ele sorriu e beijou minha têmpora. — Porque eu consigo imaginar mais coisas para se fazer aqui além de dormir.
Minhas bochechas arderam em brasa, mas Edward recuou para ouvir mais das informações que Carmen estava disposta a fornecer sobre a casa, apenas me lançando seu olhar cínico antes de assumir uma postura de seriedade intocável.
A propriedade era grande e, apesar de não ser uma fazenda, me peguei cansada de caminhar ao fim da visita. Então fiquei para trás, sentada na varanda dos fundos enquanto Edward acompanhava Carmen em direção ao celeiro vermelho — ou depósito — do outro lado. Marie estava faminta depois de acordar, ameaçando chorar enquanto esfregava as mãozinhas em punho no rosto, irritadiça.
Havia parado para alimentá-la tranquilamente quando um som abafado me arrancou da brisa leve do lado de fora. Apenas inclinei minha cabeça em direção a porta, curiosa para a origem do som ou dividida na ideia de que fora apenas impressão. Mas o som se repetiu uma segunda vez, fazendo-me saltar levemente onde estava sentada.
Encarei a distância até o celeiro, mas Edward e Carmen estavam do lado de dentro, apenas a porta aberta à vista sem qualquer sinal dos dois.
Levantei devagar, evitando me movimentar demais enquanto amamentava e segui para a porta, empurrando as duas partes com a mão livre antes de me lançar para dentro. Cada passo mais cauteloso que o outro, foi assim que caminhei através da cozinha até o saguão próximo da sala e mais uma vez o som ecoou, vindo do corredor à direita, parecia um baque muito distante vindo da última porta.
Busquei em minha memória para onde aquela passagem levava e concluí que o porão devia ficar ali, onde Carmen havia apontado como o portador de uma tremenda bagunça dos antigos donos. Avancei alguns passos meticulosos, talvez a casa tivesse problemas com ratos, aquilo não era novidade, em Austin também lidamos com alguns.
Aquele problema, pelo menos, eu conseguia lidar.
Parei quando minha mão tocou a maçaneta, não entendi de início porque estava tão cautelosa. Podia sentir meu peito tamborilando, cada batia mais frenética que a anterior, as palmas de minhas mãos estavam suando quando toquei o bronze gelado, Marie estava mais agarrada a mim do que antes, pressionava seu corpinho contra o meu com uma segurança que nem mesmo um exército poderia arrancá-la. O silêncio que se formou, nada além do canto dos pássaros do lado de fora, pareceu ainda mais denso do que o som que havia escutado.
Girei levemente a maçaneta e ela rangeu com o movimento. Respirei fundo.
— A casa é nossa!
— Merda — xinguei, virando num rompante em direção ao grito para encontrar um Edward sorridente no início do corredor. Meu coração errava as batidas — Quantas vezes tenho que dizer para não chegar desse jeito!?
— Oh, me desculpe — ele se aproximou, seu sorriso desapareceu quando envolveu as mãos em meu rosto. — Desculpe, amor. Eu não queria assustá-la, deixei Carmen trancando tudo e só fiquei empolgado demais para dizer que assinei o contrato de compra e venda, eu não pensei direito…
— Ei, está tudo bem. Não foi nada, eu só pensei ter ouvido um barulho e isso me deixou nervosa — disse calmamente, segurando sua mão contra minha pele. — Então, vamos mesmo nos mudar?
Não estava preparada para ter uma merda de conversa sobre o modo como Edward começara a me tratar depois do terrível pesadelo em Austin, sempre me perguntava se ele se tornara tão cuidadoso porque me amava demais ou porque achava que eu não era capaz de lidar com muita coisa, era ofensivo pensar assim, mas às vezes me pegava pensando o mesmo. Um dia eu fora de cristal.
Até não ser mais.
— Quando você quiser, Bella. Mudamos semana que vem se for o caso, boa parte das coisas já estão encaixotadas mesmo.
— Mas tem muitas outras coisas para resolver, ainda nem contei à minha mãe sobre a mudança. Ela provavelmente vai me matar quando descobrir que estou arrastando sua neta para outra cidade — torci os lábios, Renée não me pouparia de um sermão de horas sobre como aquela ideia era ruim. — E tem o seu trabalho…
— Isso é fácil de resolver, já conversei com o diretor do jornal sobre a mudança e com todas as coisas que aconteceram nos últimos meses, ele concordou em me transferir para a filial de Blanco.
Arqueei a sobrancelha, surpresa.
— Resolveu tudo antes de conhecer a casa?
— Carmen disse muitas coisas pelo telefone e eu sabia que você ia gostar.
— Você tem razão, ainda existem algumas mudanças que eu adoraria fazer…
— Pode fazer o que quiser com seu brinquedinho novo, sei que qualquer coisa feita por essas mãos viram arte… É o que nós precisamos.
Paz. Era o que precisávamos.
Seria um recomeço incômodo e desajustado, mas eu estava totalmente disposta a aceitar aquela casa como nosso mais novo lar. Marie cresceria segura e eu poderia deitar a cabeça no travesseiro sem pensar no perigo à espreita do lado de fora, Edward poderia ter sua antiga esposa de volta e todas as noites em que fugi de suas abordagens seriam apenas uma lembrança distorcida do passado.
Definitivamente, estava pronta para isso.
— Mudaremos na próxima semana, então — afirmei com segurança.
Edward abriu seu sorriso largo antes de se inclinar para me beijar, seus lábios tocaram os meus suavemente no início, mas logo senti sua língua correr entre nós, pedindo passagem para invadir minha boca.
Ele estava no limite, eu sabia.
Podia sentir suas investidas discretas, Edward já não conseguia conter os próprios instintos, embora lutasse bravamente com eles todos os dias. Por isso, eu podia provar do seu desejo palpável em cada pequeno gesto, mas isso me deixava culpada cada vez que ia longe demais.
Os flashes surgiam feito uma estrela cadente cruzando o céu escuro, apareciam rapidamente da mesma forma que desapareciam, mas deixavam um rastro incandescente o bastante para ofuscar aquela chama modesta que acendia em mim em certos momentos.
— Estou tão ansioso para começar com isso — ele murmurou em meus lábios, ofegante depois de recuperar o controle. — Mudar para cá e deixar Austin e aquela noite para trás. Ter a nossa vida de volta.
— Eu também — sorri, selando nossos lábios uma última vez antes de recuar para olhar em seus olhos. — Podia não estar tão animada antes, mas ver isso aqui… A casa pode se tornar perfeita, não há nada que eu possa querer mais do que isso.
— Nossa casa.
Corrigiu, abraçando-me pelos ombros antes de nos movermos de volta pelo corredor em direção a sala. Enxerguei seu sorriso pelo canto do olho enquanto Edward fitava o imóvel com um suspiro profundo e vi a importância daquele momento, o recomeço finalmente estava ao alcance de nossos dedos e com ele a chance de reafirmar o laço que de alguma forma se perdera no caminho, o laço que unia nossa família.
Encostei a cabeça em seu ombro antes de dizer para mim mesma.
— Nossa casa.
Pelo resto da semana ficamos ocupados com a tarefa de conciliar a atenção com um bebê e encaixotar tudo o que ainda faltava, felizmente meu marido tomou toda a responsabilidade da papelada burocrática para si e isso lhe colocou na rua durante boa parte dos dias, mas no tempo em que estava em casa, eu mal o via enquanto se movimentava de um cômodo para o outro embalando louças e artigos de decoração.
A tarefa difícil, no entanto, ficou para mim.
— Ainda não gosto nem um pouco dessa ideia — disse minha mãe pela terceira vez naquela tarde, embalando Marie nos braços enquanto eu guardava alguns livros em uma última caixa na sala de estar. — Precisa ser tão longe?
— Mamãe, eu já lhe disse. Blanco fica há uma hora daqui, pode me visitar sempre que quiser, da mesma forma que virei visitá-la, não vou fazer com que sua neta cresça sem uma avó.
— Uma hora ainda é longe. Além disso, Edward me contou que estão indo para o campo, uma mudança muito grande, não acha? O que vai fazer para não ficar entediada naquele lugar?
Revirei os olhos, empilhando os livros organizadamente no interior da caixa de papelão.
— Fala como se eu fizesse muitas coisas aqui em Austin. Eu mal saio de casa e com a Marie tão pequena não tem muitos lugares para onde eu possa ir sem chamar toda a atenção quando ela começa a berrar.
— Eu conheço você muito bem, Isabella. Sei que a Marie não tem nada a ver com o motivo pelo qual você não sai — argumentou com os olhos azuis me encarando de modo acusatório.
— Pode estar certa, mas isso não muda nada. Austin não é mais segura para mim ou para minha família, eu não quero passar o resto da vida trancando portas e janelas enquanto observo a vida correr lá fora.
A mulher permaneceu em silêncio, de repente muito interessada em brincar com a neta nos braços.
Não gostava de tocar naquele assunto, ainda me envergonhava pela forma como me acovardara para o mundo enquanto o tempo passava. Evitava deixar aquela ansiedade transbordar, não queria que Edward soubesse o quão assustada eu ainda me sentia, ele merecia alguma faísca de normalidade para seguir em frente, então eu lhe entregava essa faísca sufocando a chama que queimava dentro de mim.
Mas às vezes, sem querer, fagulhas como aquela escorriam para fora.
— Sei que ficar nesta casa lhe faz mal, filha — Disse Renée depois de um tempo. — Mas não quero que se isole por isso, que se afaste de todo mundo só para não sentir medo outra vez. O que aconteceu...
— Eu sei o que aconteceu — murmurei entredentes. — E também sei que nunca mais vai acontecer, eu não vou deixar.
Havia ameaça cintilando no tom de minha voz, tão cristalina que minha mãe percebeu a seriedade daquelas palavras.
Naquele instante, a porta bateu e Edward entrou na sala arrastando as botas no tapete antes de se aproximar de minha mãe para beijar a testa de Marie, rompendo o silêncio que se formou entre nós.
— Tomara que eu não tenha interrompido nada — seus olhos me encararam e depois Renée.
— Só estava perguntando para Bella quando vou poder visitá-los em Blanco.
Um mínimo sorriso curvou meus lábios quando lacrei a última caixa.
— Quando quiser, será sempre bem-vinda.
Já estava na cama quando Edward voltou.
Ele havia se oferecido para levar minha mãe para casa após o jantar, apesar dos protestos Renée concordou quando afirmei que a vizinhança já não era tão segura e três quadras de distância significavam muito.
Cansada demais para lavar qualquer louça, apenas as empilhei na pia com água e me movi para o banheiro no segundo andar com uma delas na mão, deixei Marie no seu cesto acolchoado de forma que não pudesse tirar os olhos dela enquanto me banhava na banheira até perceber que estava começando a cochilar durante o processo. Resolvi voltar para o quarto, deixando a bebê no berço agora posicionado em um canto do nosso quarto e a faca sobre a cômoda enquanto me vestia — ainda que mais trancas tivessem sido instaladas nas portas e janelas, não conseguia me sentir segura estando sozinha naquele lugar outra vez.
Estava aninhada aos lençóis — sem dormir de fato — quando senti o colchão afundar ao lado. Inspirei profundamente o cheiro de mel, lilás e sol sem me dar o trabalho de abrir os olhos enquanto sentia a mão grande e quente escorregar por meu abdômen, flexionando os dedos em uma carícia gostosa sobre a seda de minha camisola. Edward roçou o nariz na curva do meu pescoço.
— Quer conversar sobre o que estava acontecendo na sala antes de eu chegar? — Sussurrou, depositando um beijo logo abaixo da minha orelha.
— Não — respondi, minha voz saindo áspera pelo tempo em silêncio.
Senti sua respiração fazer cócegas na minha pele quando Edward riu baixinho.
— Eu sei que não está dormindo.
— Isso não significa que eu queira conversar sobre como minha mãe tenta controlar a minha vida.
— Ela só está preocupada com você…
Bufei, ainda aninhada de costas para ele.
— Eu sei, todo mundo está preocupado comigo.
A mão em meu abdômen escorregou para longe e Edward se afastou na cama, pressionei minhas pálpebras com força, amaldiçoando a língua que não conseguia conter. Me virei para encará-lo, mas seus olhos estavam em algum canto escuro do quarto quando ele se recostou na cabeceira, o braço atrás da nuca.
— Estou sufocando você também, não é?
— Não é isso…
— Não minta para mim, Bella — ele disse, sério. — Eu não percebi o quão longe estava indo, não imaginei que estivesse incomodada, não depois de tudo.
— É só que… às vezes parece que vocês me tratam como se eu fosse de porcelana, como se estivesse pronta para quebrar a qualquer momento só porque alguém disse algo desagradável. Não deviam se preocupar tanto comigo quando foi você o mais afetado aqui.
Seus olhos focaram em mim, um vinco profundo marcando o espaço entre eles.
—Você sabe que não foi assim. Aquela noite ainda me perturba em pesadelos, mas eu estou tentando o máximo que eu posso para tudo voltar a ser como era…
— E eu não?
Em um movimento ágil, Edward se inclinou sobre mim e afundou sua mão debaixo do meu travesseiro, puxando a faca de cozinha que reluziu na luz mínima da lua que entrava pelas cortinas brancas da janela.
— Como acha que eu me sinto sabendo que minha esposa dorme todas as noites do meu lado com uma faca debaixo do travesseiro? — Ele disse, apontando a arma branca antes de se virar para deixá-la sobre a cômoda. — Você não sai, não vê seus amigos, não...
— Trepo — cuspi, sentindo meu sangue ferver. — Vá em frente, pode dizer. Eu sei que você espera por isso todos os dias e todos os dias eu te decepciono.
Seus dedos deslizaram pelos fios bagunçados num tom de bronze, nervoso.
— Acha que é com isso que eu me decepciono? A porra do sexo?
— E não é?
— Bella — um sorriso sem humor curvou seus lábios. — Eu estou perdendo você! Aos poucos. Você fica dizendo que está tudo bem e fica varrendo seus sentimentos para baixo do tapete quando eu sei que está assustada e outra vez eu não consigo fazer nada para te trazer de volta.
Sua voz falhou e eu fitei as bordas de seus olhos assumirem um tom entre o rosa e o vermelho. Edward estava machucado, tão gravemente machucado onde eu não pude ver. Eu o estava machucando ao excluí-lo de toda a minha agonia, ao poupá-lo de ver como me sentia marcada e dolorida pelo trauma, havia abdicado da lei fundamental de nosso casamento: compartilhar.
Ao atirá-lo para fora daquela bolha de dor, apenas estava incitando a culpa que ele já sentia.
— Edward, você precisa parar de se culpar. Já faz mais de seis meses do que aconteceu e toda vez que olho para você parece que estou recebendo um pedido de perdão silencioso — desabafei ao tocar seu rosto, sentindo um enorme peso sair de minhas costas.
— Não há nada que eu possa fazer quanto a isso, você sabe que a culpa é minha.
— Se ao menos um minuto você parasse de se ouvir falar para me escutar, perceberia que eu jamais culpei você por qualquer coisa — senti minhas bochechas ficarem úmidas e só então notei por quanto tempo havia lutado contras as lágrimas. — Edward, você fez o que pôde para proteger nossa família. Aquilo quase custou a sua vida e toda vez que eu penso nisso… eu não fiz nada.
Afundei o rosto nas mãos enquanto o nó apertava em minha garganta, as lágrimas finalmente saíram depois de seis meses. Meu peito latejou, mas pareceu mais leve à medida que Edward me puxou para seu abraço firme e reconfortante.
— Meu amor — ele murmurou ao beijar o alto de minha cabeça enquanto acariciava minhas costas. — Estava assustada, você carregava a nossa filha e entrou em pânico. Também nunca culpei você, nem por um segundo, Bella. Eu amo você.
Meus olhos ainda transbordavam quando Edward inclinou meu rosto para seus lábios me envolverem com tanto carinho e devoção que qualquer dor interna se dissolveu naquele amor que me irradiava de dentro para fora. Me senti mais leve quando seus braços me abraçaram, a forma suas mãos agarraram minha cintura com suavidade para seu colo até que eu estivesse sentada sobre ele, cada uma de minhas coxas pairavam ao lado das suas, sentindo o calor transpassar por elas e queimar em nós dois.
— Eu amo você — sussurrei de volta, percorrendo meus beijos por seus lábios e mandíbula enquanto puxava os cabelos macios entre os dedos. — Amo tanto.
Sua boca deslizou da minha para afundar em meu pescoço, sua língua e dentes provocando a área sensível enquanto erguia sua camisa com os dedos trêmulos, revelando o abdômen firme e levemente torneado até as cicatrizes que se estendiam pelo lado inferior direito e um pouco mais acima, na direção das costelas. Edward arrepiou, não porque eu estava o provocando, mas porque as lembranças que elas carregavam consigo eram doloridas a nós dois.
No entanto, percorri meus dedos levemente, com ternura, recuando o suficiente para ele ler em meus olhos o quanto eu o amava por cada cicatriz, o quanto era grata por tê-lo em minha vida. Edward enxergou, em meio às sombras de desejo que nublavam as suas íris, observei a aceitação brilhando ali antes de me inclinar para voltar a tomar seus lábios.
Algo pareceu ter acendido naquele ponto.
Puxei sua camisa para cima até atirá-la para longe antes de voltar meus olhos para seu corpo, passei minhas unhas pelo peitoral forte e definido, deixando um rastro avermelhado quando baixei minha língua para deslizar até seu pescoço. Pude sentir a crescente rigidez provocando entre minhas pernas, a forma como meu quadril tomou vida enquanto nos beijávamos era instintiva. Cada pequeno impulso meu para frente era mais gasolina para o fogo prestes a explodir, cada pequeno impulso de Edward para cima me deixava mais perto do prazer.
Impaciente, ele agarrou a barra de minha camisola e a puxou pela minha cabeça quando afastei apenas tempo o suficiente para ficar completamente entregue. Suas mãos correram pela minha coluna e estremeci quando pousaram logo abaixo, pressionando com força minha bunda para baixo enquanto ele próprio se movia contra mim. Mordisquei seu lábio inferior, puxando-o entre os dentes antes de me afastar para mergulhar a mão para baixo, ansiosa para senti-lo.
— Bella… — sua voz não passava de um sussurro áspero e sem fôlego quando coloquei minha mão dentro do calção, acariciando-o com moagem lenta enquanto fitava o prazer escancarado em seu rosto corado. — Você não precisa fazer se não quiser…
— Eu quero — murmurei ao me inclinar para puxar o lóbulo de sua orelha entre os dentes. — Quero tentar.
Libertei-o para fora do obstáculo entre nós, seguindo com os movimentos provocativos por toda a extensão firme e orgulhosa, sentindo a textura suave de ondulações enquanto minha boca salivava. Passei a língua pelos lábios e no exato momento em que escorreguei para trás, os flashes começaram a acender em minha mente.
De repente, minha memória foi tomada pelos nossos sons. O impacto de seu corpo contra o meu, nossas respirações engatando no ouvido um do outro, meus gemidos abafados quando Edward impulsionava mais fundo dentro de mim. Toda a esfera de nosso prazer, reduzida ao som de passos misteriosos rondando pelos corredores.
Paralisei antes que as lembranças fossem longe demais.
— Hey — Edward chamou minha atenção de um jeito carinhoso, erguendo meu olhar perdido para encará-lo. — Está tudo bem, amor?
— S-sim — pisquei, mordendo o lábio inferior ao desviar o olhar. — Sim, eu só… preciso de um minuto.
— Talvez precise mais do que apenas um minuto.
— Eu disse que queria tentar — insisti, empurrando-o suavemente de volta para o colchão, mas Edward não se moveu.
— E você tentou — ele assentiu, puxando meus cabelos compridos para o lado para depositar um beijo em meu pescoço. — Uma vez, eu disse que podíamos ir com calma, isto ainda está de pé.
— Mas você…
— Estou bem — garantiu, sorrindo de lado.
Seus dedos acariciaram meu rosto com uma delicadeza que me fez fechar os olhos. Então, Edward se vestiu novamente e me puxou de volta para a cama, enroscando nossos corpos de forma que eu pudesse sentir todo o calor emanando dele.
— Eu odeio isso — resmunguei, embora não pudesse reclamar daquela posição.
— Sei que odeia — ele riu baixinho, aumentando seu aperto em minha cintura. — Mas ninguém prometeu que o casamento seria algo fácil.
— Quando não estivermos mais aqui, vou montar tão forte em você que vai precisar pedir folga do trabalho por não conseguir andar.
— Por Deus, eu estou contando com isso.
Por um tempo, nossa risada foi o único som irradiando aquele quarto escuro até pegarmos no sono.
E aquela era a única lembrança que eu gostaria de guardar daquela vida.
O silêncio era estranho na nova casa.
Me peguei embalada apenas pelo som da brisa movimentando árvores e os campos de lavanda, arrastando aquele aroma levemente adocicado pela varanda até onde eu estava, abrindo caixas e mais caixas para tirar roupas e armazenar organizadamente dentro do armário no quarto principal. Edward e eu não tínhamos tantas coisas, então supus que sobraria um bom espaço atrás da porta para acrescentar ao nosso vestuário.
Quando cheguei na última caixa — reservada para as quinquilharias que eu simplesmente não conseguia me desfazer e que continuariam no armário até que encontrasse uma utilidade para elas —, fitei a figura comprida enrolada em um tecido de veludo preto. Estiquei a mão e puxei o item da caixa, desembrulhando para observar a velha espingarda de meu pai, marcada pelo tempo e pelo uso em seus tempos de caça.
Meu pai foi um policial dedicado de Austin durante muitos anos, servia de exemplo para os outros que estavam ingressando na carreira sob seu comando. Charlie havia sido promovido a delegado quando eu tinha apenas treze anos, ele ficara tão feliz com a promoção que sequer tive coragem de lhe cobrar atenção nos anos seguintes, meu pai passava muito tempo no trabalho e às vezes o levava para casa até às mais altas horas, isso durou por um tempo e acabei me conformando com o que ele poderia me oferecer.
Aos dezenove anos, em uma tarde de inverno enquanto retornava para casa depois do trabalho, recebi a notícia que me assombrava desde muito pequena. Charlie, por fim, já não tinha mais nada a oferecer a mim. Tive que aprender a não encontrá-lo em casa toda noite, a não ouvir sua voz xingando com o som do jogo de beisebol na TV ao fundo ou de seus abraços carinhosos e desajeitados.
Embora tivesse criado certa revolta pela polícia que não fizera nada para evitar a morte de meu pai durante uma abordagem mal-sucedida, eu só tinha boas lembranças de Charlie, ou pelos menos as boas marcaram mais.
A maior delas era a da temporada de caça, quando saímos pela estrada em família até a cidade vizinha para caçar nas terras de meu falecido avô. Apesar de achar a prática violenta depois de tanto tempo, quando criança tudo me parecia uma grande aventura, então eu implorei em todas as vezes que pude para que meu pai me ensinasse a manusear aquela espingarda, só para que eu me sentisse menos frágil diante de todos.
Descobri que tinha uma mira muito boa aos dez anos.
O assobio familiar no corredor me tirou das lembranças de infância para me levar de volta àquele quarto, sempre a mesma melodia que antecede Edward sempre que ele aparecia. Eu conhecia aquele som há anos, mas nos últimos meses fingi não perceber que ele fazia isso apenas para não entrar sem aviso e me assustar.
Em vez disso, resolvi brincar com ele.
— Porra! — Ele saltou na porta, arregalando os olhos ao me ver com a espingarda apontada para onde ele estava. — Bella, o que está fazendo com isso, ficou maluca? Abaixe agora!
Seu indicador apontou em uma ordem enquanto Edward permanecia parado no mesmo lugar.
— Tinha que ver a sua cara — disse rindo ao colocar a arma de volta na caixa. — Ela nem está carregada, não é para tanto.
— E como eu vou saber? Achei que tinha vendido essa coisa no bazar há dois anos — Edward torceu o nariz, lançando um olhar para a espingarda enquanto se aproximava de mim.
— Eu não consigo, é uma herança de família. Meu avô deu para o meu pai, eu simplesmente não posso me desfazer dessa lembrança dele.
— E não tem nenhuma outra lembrança menos mortal? Talvez um boné ou uma camiseta.
— Se eu não tivesse mantido ela esquecida no armário, talvez você não teria se machucado tanto… — murmurei, encarando o objeto.
Tudo bem que eu não havia manuseado o objeto há anos, mas eu teria me saído bem ou pelo menos teria afugentado todo o perigo sobre Edward enquanto ele tentava me proteger.
— Se tivesse tirado ela do armário, provavelmente nem estaríamos aqui, Bella — ele arqueou a sobrancelha, afagando meus ombros. — Mas não vim aqui para perguntar sobre a espingarda do seu pai.
Meus olhos correram para a porta.
— Marie está com fome de novo?
— Não, ela está brincando no cercado lá embaixo. Quero saber onde você deixou a chave de fenda, preciso montar o berço e não encontro.
— Em cima da bancada da cozinha, perto das caixas com louças.
Dei de ombros, embrulhando a espingarda novamente no veludo preto para colocá-la na parte superior do armário, acomodada bem no fundo. Eu não queria ter que usá-la de novo e esperava jamais ter que usar outra vez.
— Já olhei duas vezes lá, não está — ele cruzou os braços quando o encarei com um vinco entre as sobrancelhas.
— Se eu tiver que descer até lá para buscar, você irá dormir no celeiro.
Com um sorrisinho irritante, Edward recuou um passo para o lado, abrindo caminho. Respirei fundo, passando por ele pisando firme até às escadas. Quando cheguei na cozinha, busquei o pequeno objeto no lugar onde havia deixado minutos antes e simplesmente não estava lá, mesmo após uma vistoria atrás das caixas escrito frágil e no chão, não encontrei nada.
— Parece que você é que irá dormir no celeiro hoje — ele disse em um tom presunçoso, encostado na porta. — Já é a segunda vez hoje, amor. Ainda não encontrei as chaves que perdeu de manhã.
— Eu não perdi nada, só esqueci onde deixei — argumentei, mordendo o lábio inferior. — Além disso, tenho certeza de que deixei a chave de fenda aqui…Vou olhar lá em cima e ver se encontro, tudo bem?
Ele apenas assentiu e retornou para a sala com a intenção de terminar o seu trabalho.
A verdade era que me sentia exausta depois de um dia inteiro correndo de um lado para o outro com as caixas da mudança, além de conciliar minha atenção com uma bebê de seis meses muito apegada. Ainda que Edward me ajudasse com ambas as partes, eu sabia que minha mente já não acompanhava mais o corpo. Agradeci aos céus quando ele encontrou uma chave de fenda substituta para a que eu havia perdido e logo o berço de nossa filha estava montado no quarto ao lado do nosso.
Quando a noite caiu, não pude evitar me sentir retraída, mas não exatamente da forma como eu imaginara, não da forma assustada que me sentia na casa de Austin. Era apenas a sensação estranha de se estar em um novo lugar, coisas demais para se acostumar em apenas um dia. Pela primeira vez, nossa filha dormiria sozinha e aquele fato fez algo se apertar na base do meu estômago.
— Não é como se estivesse a abandonando — Edward disse, sentado na cama embaixo das cobertas quando entrei no nosso quarto. Meia-hora atrasada.
— Eu sei, só é esquisito.
Arrastei meus pés descalços e doloridos pela madeira lisa até engatinhar sobre os lençóis para seu lado. Me aconcheguei em seu peito, deslizando a mão pela pele morna quando Edward passou seu braço por minhas costas, puxando-me para si.
— Me sinto uma péssima mãe colocando ela tão longe de nós, como se algo fosse sair da escuridão para pegá-la — pisquei, erguendo o rosto para olhá-lo. — É loucura, não é?
— Pode ser para qualquer um, mas não para nós. Não depois do que vivemos. Mas, faz parte do processo, entramos em um acordo de abrir mão dos velhos hábitos ruins — ele lembrou, entrelaçando nossas mãos. — Apenas não tenha medo do escuro.
— Vai dormir mais tranquilo sabendo que não tem uma faca de cozinha embaixo do meu travesseiro?
Um sorriso de lado iluminou seu rosto e ele suspirou de alívio teatralmente.
— Você é tudo o que eu preciso na minha cama.
Seus olhos me banharam com aquele brilho apaixonado, as íris verdes cintilando na luz prateada da lua atravessando as cortinas brancas nas janelas. Houve um momento sombrio em que imaginei que jamais seria agraciada com aquele olhar outra vez, ou com o cheiro de mel, lilás e sol que invadia meu peito cada vez que inspirava. Não importava onde estivéssemos, Edward era a minha verdadeira casa.
Passamos tanto tempo aproveitando a companhia do outro entre carícias e jogar conversa fora que não soube dizer exatamente que horas pegamos no sono. Talvez fora o cansaço ou o silêncio tranquilo que rondava a nova casa, mas fui puxada para uma quietude tão plena e sem pesadelos que acordar no meio da noite num sobressalto foi como despencar de uma grande montanha-russa.
O quarto permanecia silencioso, mas no andar de baixo senti uma presença que fez os pelos de meus braços se arrepiarem. Era algo como o uivo do vento misturado a um ranger de madeira fantasmagórico. Edward continuava ao meu lado, dormindo tão profundamente que permanecia alheio a qualquer movimento que fiz na cama antes de escorregar para fora dela, agarrando o atiçador de brasas da lareira no canto e caminhando descalça em direção a porta.
O cenário familiar quase me fez congelar no corredor.
A casa completamente escura e vazia, nenhum sinal de agitação em qualquer lugar enquanto me movia cautelosamente em direção a escadaria. Não estamos em Austin, repeti para mim mesma. Estamos seguros. Minha respiração era um mero sopro com falhas. Não acordaria Edward, jamais deixaria que ele descesse para o perigo outra vez, que agisse feito o herói que daria sua vida por mim enquanto eu ficava apenas observando ele ser ferido.
Quando cheguei ao último degrau, fechei minhas mãos com força em volta do atiçador de brasas e dei um passo à frente.
A porta de entrada estava escancarada para a noite, a brisa gélida com toques de lavanda soprando tão forte para dentro que meu estômago se retorceu. Mas me mantive firme, determinada. Forcei meus olhos a enxergar na escuridão pelo corredor adiante, mas não havia sinal de ninguém na cozinha ou na sala onde eu apontava minha arma improvisada para o vazio.
Me virei para encarar aquela escuridão densa da estrada de terra e do labirinto perfumado na frente, minhas mãos em volta do ferro tremiam tanto que o objeto vacilava no ar, mas controlei a respiração, tomando fôlego quando avancei alguns passos para o mar sombrio prestes a me engolir do lado de fora.
E segui com toda a coragem antes adormecida em mim.
