Aviso: O capítulo aborda temas delicados, contém gatilhos de violência, não recomendado para pessoas sensíveis. [18]


Austin, Texas - Setembro de 1974

O outono antecede o que seria minha época favorita do ano.

É quando o clima por fim se estabiliza e a cidade se torna um cenário deslumbrante de árvores floridas e folhas alaranjadas formando um tapete vivo pelas ruas. Especialmente naquele outono, eu estava mais do que apenas ansiosa pela passagem do tempo e minha espera assumiu um novo foco.

Aos oito meses de gestação, não havia muitos outros tópicos ocupando minha mente que não se ligassem ao pequeno — ou talvez, não tão pequeno, considerando o tamanho de minha barriga — ser crescendo dentro de mim. Desde que Edward e eu descobrimos sobre sua existência, os questionamentos passaram a nublar meus pensamentos durante a maior parte dos dias.

O bebê nasceria saudável? Quando ele nasceria? Tínhamos tudo o que precisávamos? Ele se pareceria mais comigo ou com o pai? Eu seria uma boa mãe?

Tais perguntas nunca me deixavam e acreditava que seria assim até o fim — não da gravidez, mas da vida. No entanto, não podia reprimir o sorriso que brotava em minha face cada vez que imaginava o rostinho de meu pequeno cutucador — um apelido carinhoso que havia criado devido aos seus chutes me tirando o sono no meio da noite.

O fato era que, apesar das borboletas no estômago serem uma parte existente de toda a experiência, não havia uma só parte de mim que sentisse um medo genuíno do que viria a seguir. Podia dizer que, pela primeira vez, me sentia destemida, talvez porque finalmente tinha uma motivação real para ser.

Ai! — Dei um gritinho quando o espinho de uma das rosas que cultivava no jardim perfurou meu dedo. — Droga.

Agitei a mão no ar em uma tentativa de diminuir a ardência da picada no local, então encarei a singela gota de tom carmim se formando na ponta do indicador, manchando a pele clara.

Naquela época, era tudo o que significava para mim. Apenas uma gota de sangue inocente, sem lembranças distorcidas por trás dela.

— Não sei porque sempre esquece das luvas de jardinagem que comprei para você — disse a voz aveludada atrás de mim.

Olhei para Edward sobre o ombro, parado com os braços cruzados enquanto me analisava com uma falsa ruga de seriedade entre as sobrancelhas. Tão dramático.

— Está tudo bem?

— Veja por si mesmo — estendi a palma da mão para mostrar-lhe quando ele se agachou no gramado, atrás dos arbustos. — Não é nada demais, mas tem razão, irei lembrar delas da próxima vez.

— Quer que eu as pegue para você?

— Não, não precisa. Acho que já acabei com isto por hoje.

— Okay, mas não quero que essas mãos delicadas se machuquem, nunca.

Fitei-o quando envolveu minha mão delicadamente entre as suas, depositando uma carícia com o polegar para retirar quaisquer resquícios de sangue do local. Edward ignorou a terra úmida e escura se acumulando debaixo de minhas unhas e de todo o resto, poderia jurar que a teria beijado se eu não tivesse me afastado a tempo com uma risadinha.

— Me diga, o que está fazendo aqui a essa hora, hein? — Perguntei, virando-me ao recolher os utensílios de jardinagem espalhados pela grama. — Deveria estar se arrumando para ir ao trabalho, você vai se atrasar.

— Ah, eu queria conversar com você sobre uma coisa antes de ir.

Parei, virando-me para encará-lo.

— Que coisa?

— É um pouco sério — ele coçou a sobrancelha, acanhado. — Será que podemos entrar um instante?

— Claro — assenti com ansiedade e ele se levantou, tomando o balde com os objetos de minhas mãos para levar para dentro.

Continuei sentada com as pernas encolhidas no gramado, olhando-o de baixo com uma careta enquanto minha mão repousava sobre o ventre inchado.

— Ãn, pode me dar uma ajudinha aqui?

Ele me lançou seu típico sorriso de lado, então estendeu a mão para agarrar a minha e me rebocar até que ficasse de pé. Afinal, meu peso havia se multiplicado nos últimos meses de uma forma assustadora.

— Edward, Bella! — Enxerguei a figura esguia de cabelos brancos da Sra. Cope chamando do seu jardim, do outro lado da cerca. — Como vão, queridos?

— Olá, Sra. Cope! — Sorri, acenando calorosamente de volta. — Estamos ótimos, como vai a senhora?

Senti o leve puxar de Edward ao abraçar minha cintura e o olhei de canto, repreendendo-o discretamente. Tudo bem que meu marido estava se comportando feito um cão de guarda nos últimos meses, mas estranhei seu comportamento territorial com a pobre vizinha inofensiva.

A Sra. Cope era uma idosa que morava na casa ao lado há pelo menos vinte e cinco anos, o jeito meigo e doce me lembrava minha avó paterna e por isso não demorou muito para me afeiçoar a ela.

Nossa relação de boa vizinhança se estreitou depois que a aposentada se tornou viúva, então nossas conversas sobre suas dificuldades da vida senil poderiam ser bem extensas, algo que não combinava em nada com o comportamento apressado de meu marido naquela manhã.

No entanto, escolhi ignorá-lo para dar atenção à vizinha, afinal um pouco de conversa não faria mal a ninguém.

— Oh, querida… você sabe, aquelas dores nas costas não me deixam ter um minuto de sossego.

— Acho que entendo exatamente do que está falando — disse com uma careta ao repousar as mãos na base do dorso, onde o cansaço começava a me atingir com o peso da barriga.

— Oh, como está o seu bebê?

— Saudável. Em breve, ela estará por aqui correndo no gramado e se escondendo nas suas roseiras — Edward respondeu, forçando um sorrisinho mínimo. — Mas, agora…

— Ela? — A idosa arregalou os enormes olhos azuis ao me fitar. — Então, é uma menina?

Tive a impressão de ouvir Edward bufar, prevendo meu discurso repetitivo.

— Bem, ele acha que é uma menina, mas sei que não é.

— Querida, você não tem que descansar agora? — acrescentou Edward, como uma deixa ao tocar em meus ombros. — O bebê está quase chegando, ela precisa de repouso e tudo mais. Acho que a senhora entende o que quero dizer.

— Mas, eu estou bem...

— Claro, depois lhes faço uma visita — a senhorinha exibiu seu sorriso cheio de rugas ao acenar. — Tenham um bom dia, queridos.

— Igualmente!

Meu marido respondeu com um acenar, praticamente guiando-me quando caminhamos lado a lado para dentro, ele não disse nada até que eu terminasse de me lavar e estivesse sentada no sofá.

— O que deu em você, hein? — Questionei, irritada. — Eu só estava conversando com a Sra. Cope, sabe como ela ficou muito solitária depois que o marido faleceu. Por que estava agindo feito um idiota?

— Eu disse que precisávamos conversar — lembrou, gesticulando para mim antes de deslizar a mão pelos cabelos cor de bronze. — Além disso, você demoraria horas explicando as suas razões para achar que a nossa filha é um garoto.

O conhecia com a palma de minha mão, sabia que seu comportamento esquisito tinha um motivo e a cada gesto nervoso de Edward, a ansiedade pinicava meu estômago.

Respirei fundo, tentando manter os nervos sob controle.

— Está bem, eu estou aqui — disse ao cruzar as mãos em frente ao corpo, impaciente. — Pode explicar o que tem de tão importante para me dizer que quase chutou uma idosa para tirá-la do seu caminho?

Ele mordiscou o lábio inferior, reprimindo o humor com meu ataque de drama. Pelo menos naquele quesito, éramos iguais.

Sem mais uma palavra, o assisti estender o indicador para mim em sinal de espera enquanto se movia para o corredor, revirei os olhos. Somente dez segundos depois, meu marido retornou equilibrando um pequeno bolo de glacê branco com uma vela acesa em cima. O encarei por uns bons instantes, chocada.

Edward se aproximou com um sorriso largo e brilhante, cantarolando de um jeito nada ritmado.

— Eu…

— Esqueceu do seu aniversário de novo? Sim — disse ao sentar do meu lado no sofá, deixando o bolo sobre a mesinha de madeira no centro da sala. — Por outro lado, eu não esqueci, nem por um segundo.

— E ainda fez um bolo — comentei, surpresa com o fato de Edward se oferecer para entrar na cozinha para algo que não fosse as refeições ou lavar a louça. — Falando nisso, onde você o escondeu para que eu não encontrasse?

— Tópico sensível, mas o importante é que levantei mais cedo para ter tempo de prepará-lo antes de você acordar. Roubei alguma receita do livro da sua mãe, espero que não se importe — pontuou, orgulhoso de si mesmo. — Vá em frente, faça um pedido.

Em quase uma década de casados, Edward jamais deixou de me preparar uma surpresa para as manhãs de aniversário, em todas ele parecia se esforçar o dobro do ano anterior e eu, igualmente, me esforçava para parecer surpresa com sua boa vontade em me agradar — embora jamais tivesse esperado algo diferente vindo de meu marido atencioso.

Fechei as pálpebras e me inclinei para assoprar a única vela, mentalizando ao universo para que minha vida jamais mudasse, implorando para que aquele fragmento perfeito de meus sonhos, recheado de amor e da felicidade mais genuína, jamais deixasse nosso lar.

Quando abri os olhos, flagrei Edward me encarando com um sorriso que dizia mais do que qualquer uma de suas doces palavras.

— O que foi? — Perguntei inocentemente, deslizando o dedo indicador pelo glacê antes de levar até a boca. — Hmm, isso está muito bom ou sou eu que estou morrendo de fome?

— É você que está morrendo de fome.

Edward brincou, rindo quando dedilhei a cobertura novamente para fazê-lo provar. Ele chupou meu dedo antes de se inclinar para me beijar apaixonadamente, seus lábios me envolvendo de tal forma que apenas perdi a conta de quanto tempo passamos ali, confortáveis.

Minhas mãos se fecharam em volta dos cabelos sedosos enquanto sua boca se movia suavemente na minha, trilhando um caminho pela bochecha e pescoço antes de retornar ao ponto de partida.

— Feliz aniversário, amor — ele sussurrou, a ponta do nariz roçando contra a minha enquanto eu afundava entre as almofadas. — Obrigado por escolher estar do meu lado e por continuar escolhendo ficar. Não sei que tipo de homem eu seria sem você, mas me faz querer ser alguém melhor todos os dias.

— Sempre vou escolher você.

— E isso não me deixa menos grato.

— Você me deixa sem graça — sorri ao tapar seus olhos rapidamente, uma brincadeira para esconder o fato de que era eu quem estava corando, emocionada. — É o maior presente que eu poderia querer, Edward… Nada nunca vai mudar isso.

E poderia?

Poderia um laço de amor tão puro e forte como aquele ser corrompido algum dia? Na minha mente, era simplesmente impossível, afinal tinha a vida perfeita ao seu lado, uma carreira estável — ainda que em breve pausa — e um bebê muito aguardado à caminho.

No entanto, só o tempo determina o que é ou não impossível.

— Bem, é uma pena que não queira nenhum presente — ele franziu as sobrancelhas, a mão grande percorrendo carinhosamente minha barriga sobre o macacão, onde depositou um beijo carinhoso. — Porque comprei uma coisa para você.

— É claro que ele comprou — revirei os olhos, deslizando os dedos levemente para varrer os cabelos caindo sobre seus olhos verdes. — Eu disse que não deveria gastar mais comigo. Temos que economizar para quando o bebê nascer.

— Bem, eu estou economizando de outras formas. Até cortei o curso de escrita criativa que estava fazendo…

— O que? — Franzi o cenho, afastando-o suavemente. — Por que fez uma coisa dessas? Me disse que era importante para você.

— A mensalidade estava pesando demais e… de qualquer forma, não tenho mais espaço para isso, você e a bebê precisam de mim agora — observei-o dar de ombros como se o gesto pouco significasse, mas no fundo sabia a importância daquele ato. Edward estava abrindo mão de seus sonhos para assumir os meus — Não contei antes porque sabia que reagiria assim.

— E porque sabia eu que tinha razão. Não podia ter feito isso sem me consultar...

— Mas fiz e estou bem confortável com essa escolha, afinal não se pode ter tudo na vida, não é? — Garantiu, afagando minha mão levemente. — Agora, por favor, me deixe ser apenas um marido que presenteia a esposa no aniversário dela. Sem mais discussões por hoje.

E, talvez porque ele me lançara seu olhar sentimental, acabei cedendo como sempre fazia.

— Tudo bem, me mostre o que comprou.

— Feche os olhos — obedeci seu comando, mas dei uma espiada quando meu marido se virou para encontrar meu presente nos bolsos.

Edward se atrapalhou ao retirar meu inalador de asma do bolso direito e me segurei para não rir, o pobrezinho continuava levando aquela quinquilharia junto de si para todos os cantos onde fosse comigo — mesmo que eu não tivesse uma crise há quatro anos.

Rapidamente, ele devolveu o objeto para o lugar e pescou uma caixinha preta do bolso esquerdo, bem a tempo de eu fechar o olho e continuar fingindo quando retornou a mim.

— Agora estenda o braço.

— São algemas? — Perguntei, erguendo as sobrancelhas de modo sugestivo. — Que ousado.

Ouvi sua risada baixa enquanto ele envolvia o que parecia ser uma pulseira em meu pulso, a sensação fria contra minha pele e o tilintar do fecho logo confirmaram minhas suspeitas.

— Confesso que estou arrependido de não ter pensado antes nas algemas, já que aparentemente você teria adorado — disse ele, arrancando-me um sorriso quando concordei com a cabeça. — Okay, pode abrir.

Encarei a delicada corrente de prata, onde o pequeno pingente de cristal em formato de coração reluzia com a luz da manhã que adentrava pela janela, criando um espectro de cores que produzia fagulhas brilhantes até mesmo em meu rosto.

— Amor — arfei, erguendo o pulso para analisar de perto, não quis imaginar quanto aquilo havia lhe custado. — É tão lindo…

— Como você — disse ele, erguendo a cabeça para sustentar meu olhar. — Sabe que tem todo o meu coração, mas quis reforçar a ideia. Gostou?

— Está brincando? Eu adorei! — Estiquei os braços e Edward veio até mim, acolhendo-me carinhosamente no calor de seu corpo quando nos abraçamos. — É perfeito.

Olhei novamente para a jóia sobre o seu ombro e lutei contra a ruga que ameaçava se formar entre minhas sobrancelhas.

Edward havia me acostumado a receber presentes, embora eu não me sentisse totalmente confortável com os gastos. Vivíamos confortavelmente e só, mas meu marido tinha tendências exageradas quando se tratava de agradar.

— Obrigada — murmurei, aninhando o rosto na curva de seu pescoço para inspirar todo o cheiro de mel, lilás e sol que aquecia meu coração. — Eu amo você.

— Eu também te amo, Bells. Mais do que tudo.

Seu sorriso largo se iluminou quando ele se afastou para me encarar, logo descendo sua boca para tomar a minha em um beijo calmo.

Envolvi minhas mãos ao redor de sua nuca, puxando-o com certa delicadeza enquanto deixava minha língua percorrer pela sua, acariciando-o com toda a suavidade de meu amor enquanto sua mão trilhava um caminho lento por minha cintura.

— Por favor, me diga que vamos passar o resto do dia na cama — sussurrei em seus lábios quando ele agarrou minha coxa em volta do quadril para se acomodar, mas a distância ainda parecia demais para mim, afinal nossos corpos já não se encaixavam como antes. — É meu aniversário, acho que posso pedir o que eu quiser.

— Pode me pedir o que quiser todos os dias — sua boca correu para o meu pescoço, lambendo e mordiscando a pele exposta, provocando-me arrepios pelo corpo. — Mas, coincidentemente, hoje eu não posso ficar.

Me desvencilhei apenas o bastante para observá-lo com uma máscara perfeita de súplica. Meu marido balançou a cabeça, resistindo a ideia.

Então, me inclinei para beijar sua mandíbula marcada, deslizando os dedos pelo peitoral sobre a camisa enquanto as batidas frenéticas de seu coração ecoavam na minha palma.

— Por favorzinho? — Pedi, abrindo minha outra coxa para envolve-la ao seu redor. — Por mim.

Suas pálpebras se fecharam e ele sorriu como alguém que acabara de perder no pôquer. Sua voz se tornou um mero arfar áspero roçando minha pele aquecida quando falou:

— Isabella...

— "Você é tão baixa..." — sorri maliciosamente ao reproduzir seu discurso.

Desci minha mão até suas calças, roçando a palma no volume rígido que me cutucava o centro sob o tecido.

De forma quase que instintiva, Edward impulsionou o quadril contra meu toque, incapaz de controlar os próprios desejos. Eu estava no caminho certo, prestes a conseguir o que queria, quando ouvimos o som das chaves na fechadura dos fundos, seguido do estrondo razoável da porta da cozinha batendo.

Bufei, sentindo todo o clima escoar pelo ralo.

— Por que a Leah tem que chegar tão cedo todos os dias?

— Porque ela foi contratada para isso — ele retrucou feito um espertinho, selando nossos lábios antes de nos separarmos. — Por isso a escolhi a dedo para cuidar de você e da nossa princesinha.

Dele — rebati, carrancuda. — Eu já disse que é um menino.

— Aham.

Desabei as mãos ao lado do corpo, desapontada com a interrupção nada conveniente quando me recompus no sofá.

Tinha de me lembrar constantemente que já não estávamos mais sozinhos em casa.

— Não fique chateada, querida. Seu aniversário é até meia-noite — brincou, pegando o bolo para levar até a cozinha. — Se arrume e venha comer, pedirei a Leah que faça algo especial para nós antes de eu sair, tudo bem?

— Okay — concordei, desgostosa.


Conte os azulejos da parede quando seu estômago apertar.

O comando amoroso de Renée ecoou em minha mente feito uma canção de ninar.

— Trinta e três, trinta e quatro, trinta e cinco...

Sussurrei a contagem enquanto respirava fundo uma porção de vezes no silêncio do banheiro. O único alívio vinha do piso gelado contra minha pele morna, onde eu havia me atirado para despejar tudo no vaso sanitário, vinte minutos depois de terminar o café da manhã.

Duas batidas leves na porta me fizeram despertar do mal-estar, erguendo a testa úmida de suor do braço onde a havia apoiado na borda da porcelana.

— Senhora, está tudo bem aí dentro? — Perguntou a doce voz, prestativa. — Precisa de ajuda com alguma coisa?

— Não, eu estou bem, Leah — meu tom patético soou como uma denúncia, então reformulei. — Ou melhor, vou ficar, só preciso de um minuto.

E fora o tempo que levei para dar descarga e me levantar até o lavabo.

Meu reflexo em frente ao espelho era o que de mais próximo já vira de uma assombração.

A palidez parecia ter arrancado quase todo o sangue de minha face e até mesmo os lábios perderam boa parte de sua cor natural, o típico rosado. Imaginei que a água fria me faria bem e, depois de escovar os dentes duas vezes para me livrar do gosto rançoso, liguei a torneira para lavar os braços, a nuca e o rosto, mas minha imagem não melhorou muito.

Quando saí do banheiro, encontrei a morena encostada na parede ao lado, os enormes olhos escuros me encarando com um leve franzir de sobrancelhas enquanto as longas madeixas lisas caíam feito uma cascata negra ao redor do rosto.

— Se sente melhor?

— Acho que sim, não foi nada demais — menti, forçando um sorriso fraco. — Eu não devia ter comido tanto no café da manhã, deve ter sido isso.

— Ah, mas não comeu quase nada — ela lembrou, esticando a mão fina com uma pequena lâmina de goma de mascar embrulhada em papel seda. — Aqui, vai ajudar com o gosto na boca.

— Não precisa, eu já escovei os dentes.

Me movi para seguir pelo corredor, mas Leah me bloqueou com seu sorriso brincalhão iluminando o rosto jovial.

— Por favor, me ajude com o meu trabalho. O seu marido me pediu, não, ele ordenou que eu cuidasse da senhora e do seu bebê — Leah me entregou os chicletes e sorriu quando aceitei, atirando os cabelos negros para trás os ombros. — É de morango, seu favorito.

Revirei os olhos feito uma criança birrenta e coloquei na boca, o sabor adocicado me fez relaxar imediatamente enquanto a seguia para a cozinha logo atrás dela.

— Obrigada, Leah. Você é boa demais em cuidar de mim — sorri, agradecida.

— Estou apenas fazendo meu trabalho — disse ela, afagando meu braço. — A propósito, feliz aniversário.

Leah Clearwater fora contratada como ajudante há quase três meses, quando Edward percebeu que eu já não conseguia fazer as tarefas simples da casa com uma barriga volumosa me impedindo. Apesar de ficar relutante com a ideia de ter alguém cuidando de nosso lar em um primeiro momento, era reconfortante ter uma companhia feminina o dia todo.

A jovem pertencera a um programa de acolhimento para adolescentes em situação de risco. Após ser tomada da tutela dos pais viciados ainda pequena e ser criada em uma instituição pública, ela buscava sua própria independência com o trabalho que conseguia.

De certa forma, criamos uma amizade onde o sentimento de responsabilidade pela garota floresceu em mim, afinal ela tinha apenas vinte e três anos e estava começando sua vida — e, como mãe de primeira viagem, era difícil resistir ao impulso altruísta que me dominava.

— Eu preciso ir, marquei de fazer algumas compras com a minha mãe — encarei o relógio na parede e mordi o lábio inferior, agarrando a bolsa que havia abandonado sobre a mesa da cozinha antes de disparar para o banheiro.

— Pensei que o Sr. Cullen tinha lhe pedido para ficar mais em casa agora que está tão perto do bebê nascer.

Me debrucei sobre a bancada da cozinha, assistindo-a lavar a pilha de louças sujas do café da manhã.

— Disse, mas ele também não precisa saber — pisquei de soslaio, mas recebi seu olhar de reprovação sobre o ombro. — Vamos lá, Leah. Se excluir os enjôos, me sinto melhor agora do que em toda a gravidez. Tenho certeza de que vou ficar bem, principalmente com minha mãe por perto.

— Nem mesmo deveria estar saindo sozinha, pode entrar em trabalho de parto a qualquer momento, é perigoso demais. Eu deveria ir junto…

— Você odiaria — sorri, dando a volta para ficar ao lado da morena na pia. — Além disso, não vou demorar muito. Qualquer coisa, eu ligo para você ou para o Edward e vou para o hospital mais próximo. Não se preocupe, as coisas do bebê estão no porta-malas para caso de emergência, mas ele não deve nascer até o próximo mês, pelo menos foi o que o médico disse.

Com um sorriso sagaz, deslizei a mão carinhosamente sobre meu ventre volumoso, com a postura de alguém que tinha tudo sob controle.

Nossa vida finalmente parecia prestes a estar completa.

Já podia enxergar o brilho nos olhos de Edward, a forma como ele apenas ficava em silêncio enquanto mil coisas se passavam na sua cabeça, um sorriso sereno estampando sua face cada vez que parava para conversar com a minha barriga, ou melhor, com a filha.

Estávamos perto — tão perto — de conquistar nosso sonho de formar uma família.

— Se tem certeza de que está tudo sob controle, está bem.

Sorri, satisfeita.

Do outro lado da cozinha, notei a TV ligada no noticiário local, então me movi até a bancada para agarrar o controle remoto e aumentar o volume.

Intrigada, me sentei no banco mais próximo para assistir.

"[...] Já são três o número de vítimas do suposto serial killer de Austin. O último crime aconteceu nesta noite de quinta-feira, quando a dona de casa, Charlotte Carter, foi atacada ao retornar de um culto religioso. O esposo da vítima relatou seu desaparecimento imediatamente, mas a polícia só encontrou o corpo de Charlotte cinco horas depois, em uma vala deserta próximo ao Zilker Metropolitan Park [...]"

— Santo Deus — Leah murmurou, balançando a cabeça ao virar o rosto na direção oposta à TV. — Não sei como consegue assistir a essas coisas…

— Shhh, eu quero ouvir.

"[...] Os padrões se repetem em mais um capítulo deste outono sangrento. Charlotte, assim como as outras vítimas, era uma mulher na casa dos trinta e estava prestes a dar a luz, o corpo encontrado aparentava sinais de tortura, mas nenhum sinal da criança foi encontrado no local. A polícia ainda apura o caso, mas as informações fornecidas apontam para uma possível ligação com outros crimes recentes. Ainda não sabe-se informar com certeza se o caso se trata de apenas um autor ou de um grupo, considerando o nível de violência presente nas cenas dos crimes, mas a equipe de segurança pública do estado aconselha que a população reforce a defesa de suas casas e colabore nas investigações por meio da denúncia de suspeitos. Para mais informações, confira a cobertura na edição noturna do jornal do Canal 6 [...]"

— Está vendo? É por isso que Edward tem virado uma maldita coruja ultimamente, não me deixa mais sair por aí sozinha — resmunguei, desligando a televisão ao virar para Leah. — Ele trabalha nessas manchetes todas as manhãs e pensa que me prender em casa feito um hamster na gaiola irá resolver alguma coisa.

— Talvez seja porque existe um criminoso à solta? — Retrucou, irônica. — Deveria ser mais paciente com o pobrezinho, é seu primeiro filho e ele só está querendo cuidar da família.

— Tudo bem, mas eu não estou pedindo para bancar a suicida e sair sozinha no meio da noite, só preciso tomar um pouco de ar às vezes, porque sinto que irei enlouquecer se ficar mais um minuto presa nesta casa. Além disso, quantos crimes em Austin acontecem em plena luz do dia?

Apesar de nossa cidade não ser um santuário da segurança pública, dificilmente algo além de roubos e brigas aconteciam. Aquela série de assassinatos sem explicação era um caso isolado que sem dúvidas deixara toda a comunidade de Austin em alerta, mas o tempo nunca permanece estático — ainda que o responsável por aqueles crimes hediondos estivesse à solta por aí.

E, com um marido superprotetor me resguardando, não precisava de um mundo de desculpas para continuar enfurnada dentro de casa.

Leah suspirou e deixou os ombros caírem ao me fitar.

— Não direi nada para o seu marido, mas esta é a última vez que sirvo de cúmplice.

— Por isso você é a melhor ajudante do mundo inteiro — comentei com um sorriso ao dar a volta e beijar a sua bochecha. — Bem, eu vou antes que minha mãe possa encher um carrinho com roupas cor de rosa, Edward e ela estão em um complô contra mim. Estou esquecendo de alguma coisa?

A morena pensou por um momento enquanto desligava a torneira e secava as mãos no avental. Leah recolheu minha bolsa e o sobretudo caramelo pendurado no gancho atrás da porta, junto das chaves do carro para me entregar.

— Hum, se não estou enganada, hoje a senhora tem um jantar na casa de uns amigos.

— Oh, Benjamin e Tia! — Toquei a testa, lembrando-me do compromisso marcado dias antes. — Eu havia me esquecido, implorei para que não fizessem nada no meu aniversário, mas eles insistiram tanto… Bem, não irei fazer uma desfeita, de qualquer forma. Obrigada por me lembrar, Leah.

Dei de ombros para seguir até a porta, mas a jovem me seguiu.

— Senhora, na verdade… — parei para atendê-la e a morena uniu as mãos em frente ao corpo, um pouco acuada. — Pensei em perguntar se eu poderia sair mais cedo hoje já que não precisam de mim para preparar o jantar, é que combinei de sair com o Sam...

— Alguma comemoração especial?

Sorri, cruzando os braços em frente ao corpo.

— Sim, estamos fazendo um ano de namoro — ela corou levemente. — Ele me chamou para jantar em um daqueles lugares caros e chiques no centro.

— Uh, mas é claro que pode ir, não se preocupe. Além disso, precisa me apresentar esse Sam qualquer dia desses, ainda não tive o prazer de conhecê-lo.

— É claro. Prometo que em breve a senhora irá conhecê-lo — garantiu, o semblante da morena se iluminou quando ela abriu a porta para mim, mas notei que já estava aberta.

— Edward e suas manias — estalei a língua em chateação ao balançar a cabeça. — Por favor, tranque-a depois que eu for, tudo bem? Não queremos que você corra riscos com um ladrão invadindo a casa enquanto está sozinha.

— Pode deixar — disse ela, acenando quando saí para o jardim. — Tenha um bom dia!


Renée desconhecia a palavra limites quando se tratava de compras. Por isso, passamos horas na pequena loja de departamentos no centro de Austin, ocupada com os inúmeros itens de fora da lista que logo encheram o carrinho que eu agora empurrava.

— Oh, meu Deus — Renée arfou ao pegar um vestido lilás entre as várias roupinhas de bebê nas araras. — Veja como é lindo, Bella! Você precisa levar, algo me diz que lilás será a cor dela…

— Mãe, eu já disse que Edward e eu entramos em um acordo de só comprar roupas brancas até o bebê nascer. Imagina se vou gastar vinte e nove dólares em uma coisa dessas e de repente nascer um menino!

Devolvi o vestido espalhafatoso para o lugar e voltei a guiar o carrinho pelo corredor, ignorando a decepção estampada no rosto de minha mãe.

— Isso é muito injusto, sabia? Você está pensando que vai ser um menino, mas quer saber? Eu também pensava que você seria um garotinho chamado Beau.

— Sempre fui mais intuitiva que você. Além disso, eu apenas sei… em todos os sonhos que tive era um menininho — sorri de lado ao acariciar minha barriga sobre o suéter cor de mel. — Acho que é intuição de mãe.

Renée se virou para mim, em expectativa.

— E como se parecia nos seus sonhos?

— Ah, algo como um reflexo de Edward. O mesmo cabelo, mesmos olhos verdes… simplesmente lindo.

E eu mal podia esperar para tê-lo em meus braços.

— Parece muito tranquila na reta final, quando eu estava grávida de você era como se o mundo estivesse desabando sobre minha cabeça — Renée riu, envolvendo o braço ao redor de meus ombros enquanto caminhávamos. — Não a assusta nem um pouco tudo isso?

Pensei em suas palavras ao parar em frente a uma prateleira, selecionando algumas mantas quentes para acrescentar ao enxoval.

— Às vezes, fico apenas nervosa com a possibilidade de falhar — confessei ao adicionar os itens no carrinho. — Mas, acho que me preparei muito para isso, tenho planejado tudo há meses, então posso dizer que estou mais ansiosa do que com medo.

— É por isso que se sairá tão bem, querida.

Sorri quando minha mãe se inclinou para plantar um beijo em minha testa. Suas palavras de conforto soaram em mim como uma verdade.

— Bem, acho que as mamadeiras ficam do outro lado — disse ela ao checar a lista que preparei em um bilhete entre os dedos ossudos. — Vou buscá-las enquanto você agiliza o resto das coisas, está bem?

— É claro, pode ir.

Apesar de culpar minha mãe por toda a lentidão das compras, acabei perdida no tempo enquanto avaliava alguns brinquedos de pelúcia para decorar o quarto do bebê. Acabei atirando alguns bichinhos no carrinho antes de seguir mais a frente, onde voltei a parar para buscar algumas fraldas descartáveis.

Enquanto debatia sobre a quantidade certa de pacotes para um recém-nascido, acabei notando um homem parado em frente a prateleira com os itens nas duas mãos, aparentemente confuso com a escolha enquanto murmurava coisas sem sentido.

Talvez porque vi o reflexo de meu marido — completamente perdido no mercado em um futuro próximo —, resolvi me aproximar.

— Desculpe? — Disse ao parar ao seu lado. O moreno se virou com a ruga de confusão ainda marcando o ponto entre seus olhos. — Eu estava observando de longe, você precisa de alguma coisa?

Apontei para as fraldas e ele por fim compreendeu, então sua expressão relaxou em um sorriso constrangido.

— Ah, sim — o moreno assentiu, meio sem jeito. — É que a minha esposa ligou para o meu trabalho e pediu para que eu levasse as fraldas porque tinham acabado, ela estava em um daqueles dias estressantes e desligou sem dizer qual era o tamanho… Agora eu tenho um problema.

— Bem, eu acho que posso ajudar. Não sei se reparou, mas eu tenho algum conhecimento no assunto — brinquei ao apontar para o volume marcando meu suéter, debaixo do casaco. — Então, pode me dizer quantos meses tem o seu bebê?

Por um segundo, o moreno pareceu pensar.

— Hum, ele tem alguns dias.

— Um menino? — Sorri ao pegar os pacotes para analisar o tamanho que o homem havia pegado. — Que amor.

— É, o seu também?

— Tenho quase certeza que sim, mas meu marido não concorda muito — devolvi os pacotes em tamanho grande para a prateleira antes de trocar por um menor e entregar a ele. — Acho que estes são mais apropriados para um recém-nascido, eles são tão pequenos e não se movem muito.

O moreno suspirou de alívio ao carregar os itens.

— Puxa, muito obrigado. É bem difícil me acostumar com todas essas mudanças de pai de primeira viagem, às vezes sinto que não nasci para isso.

— Ah, não desista, todos os pais pensam assim. Acho que em algum momento todos aprendemos, é praticamente instintivo — levei a mão até a barriga para afagar carinhosamente. — Pelo menos é assim que me sinto.

Seus olhos negros acompanharam meu gesto com um sorriso do lado e ele assentiu.

— É, tem razão… Desculpe, como é mesmo o seu nome?

— Ah, eu sou Bella. Bella Cullen.

— Eu sou Sam — ele estendeu a mão para me cumprimentar. — É um prazer, Bella.

— Igualmente. Sam olhou para o meu carrinho de compras cheio e então para fim do corredor, logo atrás de mim.

— Então... Eu tenho que ir antes que minha mulher me mate pela demora — ele riu. — Mas, acho que preciso retribuir o favor de alguma forma, talvez eu possa lhe dar uma carona até em casa, quer dizer, você tem tantas coisas e é desconfortável carregar qualquer sacola nesse estado. Eu adoraria ajudar.

— Na verdade, eu não estou sozin…

— Bella.

Minha mãe voltou com as mamadeiras na mão — e mais quinquilharias que eu teria o trabalho extra de devolver — para o carrinho.

— Quem é esse?

— Mãe, este é o Sam — apresentei com um sorriso. — Eu só estava o ajudando a escolher o tamanho certo das fraldas para o seu filho, isso é bem confuso no início. Esta é minha mãe, Renée.

— Ah, claro. É um prazer, senhora — ele fez uma leve reverência com a cabeça enquanto recuava alguns passos para trás. — Bem, eu vou indo. Obrigada novamente, Bella.

Acenei quando o moreno seguiu para o caixa e quando retornei minha atenção para Renée, ela parecia bem distraída com a silhueta do rapaz.

— Mãe!

— O que? Eu sou viúva — ela justificou, sorrindo de lado. — Ele era bem bonito e parecia gentil, será que estava dando em cima de você?

— Com uma barriga desse tamanho? Por Deus, nenhum homem além de Edward me notaria depois que virei uma imitação barata de Free Willy. Além disso, como você viu, ele tem família.

— Querida, precisamos ter uma conversa sobre autoestima.

Revirei os olhos ao começar a empurrar o caminho em direção ao caixa.

— A única conversa que precisamos ter é a respeito de devolver todas essas bobagens, eu não tenho dinheiro para isso — avisei, pescando alguns brinquedos de montar que, sem dúvidas, não eram adequados para um bebê.

— Não se preocupe com isso, Bella. Eu não estou aqui de enfeite, estes ficam por minha conta.

Suspirei, desistindo de dar continuidade a discussão.


Paramos em um café a exatas duas quadras da minha casa. Ainda estava pensando sobre meu porta-malas cheio de compras do enxoval enquanto minha mãe tagarelava seus planos para quando a neta — uma palavra que ela fez questão de repetir tantas vezes que desisti de corrigir durante a conversa — nascer.

Renée, sem dúvidas, seria mais presente em nossas vidas com a chegada do bebê e eu teria que me acostumar com isso, não que eu não amasse minha mãe e sua companhia agradável, mas acabara me acostumando com a vida a sós ao lado de Edward.

Por outro lado, a ideia de que seu auxílio nos cuidados da criança seria temporário — somente até que eu me acostumasse com o ritmo —, pareceu aquietar os meus ânimos.

Nos despedimos quando a deixei em sua casa, após longos minutos me pedindo para que avisasse imediatamente ao menor sinal de que a bolsa havia estourado, garanti que ela seria a primeira a saber antes de seguir dirigindo para casa.

Particularmente, me sentia culpada por dirigir em segredo quando Edward me proibiu terminantemente de fazê-lo, mas a parte que adorava a sensação de liberdade de fazer algo sozinha me agradeceu por aquela atitude.

Pouco antes de virar a esquina da rua onde morava, notei uma picape vermelha desbotada parada no acostamento, onde um moreno pairava bem em frente ao capô erguido. Ele pareceu notar quando reduzi a velocidade para observá-lo, então avançou alguns passos até se aproximar, foi quando parei ao lado de onde ele estava.

— Oi, desculpe o incômodo, é que minha picape simplesmente parou e não quer ligar… — ele apontou com o polegar sobre o ombro. — Sabe me dizer se tem alguma oficina mecânica por perto? Quer dizer, você mora na região, não é?

— Sim — concordei ao baixar o vidro. — Eu moro no fim da rua, mas se procura uma oficina, sinto te dizer que a mais próxima fica a uns três quarteirões daqui. É uma boa caminhada.

O moreno olhou na direção onde indiquei com o queixo e coçou a cabeça de cabelos negros e curtos.

— Será que… não, isso seria pedir demais...

— O que?

— Bem, se não for incômodo, será que pode me levar até lá? — Ele pediu, hesitante. — Por favor, não quero ser abusado, mas eu vim de longe para fazer uma entrega e estou meio perdido aqui no bairro… Ah, a propósito, meu nome é Jacob.

Dei uma espiada na picape robusta logo atrás do moreno e mordi o lábio inferior ao debater internamente sobre o assunto.

Não costumava me aproximar tanto de um estranho, muito menos deixar que um entrasse no meu carro, mas também nunca negava ajuda a alguém que aparentemente precisava.

E, naquele momento, Jacob parecia precisar de uma mão gentil sendo estendida.

— Tudo bem, pode vir — liberei as travas das portas do veículo. — Eu sou Isabella.

— Ah, muito obrigado, você me salvou.

Um sorriso largo fez seus olhos castanhos se estreitarem nos cantos e ele se virou para descer o capô de sua picape.

Naquele instante, uma viatura fez a curva no sentido contrário e reconheci o velho amigo de meu pai, dos tempos de delegacia, no banco do motorista. Phill rapidamente me viu e tocou seu chapéu ao parar brevemente para me cumprimentar pela janela.

— Hey, Bella!

— Olá, Phill — acenei com um sorriso — Como vão as crianças?

— Você sabe, energéticas como sempre — o velho riu ao descansar o braço na janela. — E o bebê? Da última vez que encontrei o seu marido, ele me contou que estava prestes a dar a luz.

— Sim, ele estará aqui até o próximo mês.

— Oh, Charlie ficaria tão feliz de conhecê-lo... Ele adorava crianças.

— Meu pai deve estar contente em me observar, de onde quer que esteja — sorri com nostalgia. — Foi muito bom te ver, Phill.

— Até mais, Bella. Mande lembranças a sua mãe!

— É claro, pode deixar.

Acenei novamente até que a viatura partisse.

Quando me voltei para Jacob, fiquei surpresa por encontrá-lo ainda fora do carro, parado perto da porta da sua picape.

— Ei, você não vem?

— Na verdade, eu testei mais uma vez e ela voltou a funcionar — ele girou a chave na ignição, então um ronco ensurdecedor ecoou pela rua. — Que doidera, não é? De qualquer forma, agradeço pela ajuda.

— Tem certeza?

— Sim, está tudo bem. Pode seguir.

— Okay — assenti, acanhada. — Até mais.

Forcei um sorriso fraco antes de ligar novamente meu carro e retornar para casa, deixando aquele estranho para trás.


— Este vestido me aperta — reclamei baixinho pela terceira vez desde que chegamos na casa de nossos amigos. — Tudo me aperta.

— Querida, deveria ter escolhido algo mais confortável, eles são nossos amigos, não iriam se importar com uma coisa tão banal.

— Não vou sair por aí em um saco de batatas — retruquei ao bebericar minha água, roubando um dos petiscos servidos na mesa para levar até a boca. — Não é porque estou grávida que deixei de ser vaidosa.

— Poderia vestir um saco de batatas e eu ainda acharia que é a mulher mais sexy do mundo.

Edward riu baixinho, me observando comer.

Discretamente, ele se inclinou para depositar um beijo na minha testa e sua mão passeou pelo vestido cor de vinho emoldurando minha cintura — minha escolha um pouco mais sofisticada para o jantar de aniversário na casa de Benjamin e Tia.

O casal, pelo menos, não me obrigou a soprar velas pela segunda vez naquele dia. Mas não havia nada que eu pudesse fazer quanto os presentes que recebi dos amigos convidados.

De acessórios, perfumes e itens de decoração que provavelmente não faziam meu gosto. Meu presente mais querido ainda cintilava no pulso durante toda a noite.

— É lindo — Tia comentou com um sorriso quando me juntei a ela na cozinha em um momento de calma após a sobremesa, longe dos homens. — Edward tem um bom gosto.

— Quando ele me deu este aqui, me disse que queria reafirmar o quanto seu coração me pertence. O maldito é um galanteador desde sempre.

— E você é uma insensível anti-romântica — ela riu ao beber do seu vinho, se recostando na pia. — Por falar nisso, como vão as coisas entre vocês?

— Melhor impossível. Apesar de Edward ter se tornado um careta nos últimos tempos, eu ainda o amo como se fosse a primeira vez — confessei com um sorriso, corando um pouco ao desviar o olhar para qualquer lugar que não fosse aqueles olhos castanhos da mulher. — Ele me faz tão feliz que às vezes tenho a impressão de que tudo isso é um sonho. Quer dizer, ninguém pode viver um conto de fadas, não é? Esse é o tipo de coisa que não acontece na vida real, é difícil de acreditar.

— É raro, mas você e eu tivemos a chance de encontrar a pessoa certa, não deveria esperar pelo pior. É uma dádiva.

— Eu sei, isso é bem injusto com ele.

— Em parte, eu entendo você. Mas, acho que já me acostumei com esse jeito do Edward, desde que o conheci na faculdade, ele sempre mergulhou de cabeça em seus relacionamentos, faz de tudo pela pessoa que ama. É apenas um romântico incurável.

Observei quando Tia se tornou brevemente distante, perdida em pensamentos ao balançar levemente a cabeça de cabelos lisos e longos.

— Foi assim com ela também, não foi? — Questionei, curiosa.

Tia me olhou, por um momento, surpresa.

— Sim — ela concordou, reprimindo os lábios em uma linha rígida. — Se não for estranho comentar, Heidi era tudo para ele, os dois faziam muitos planos para o futuro. Imaginava que nunca veria Edward amar outra pessoa da mesma forma depois de tudo o que aconteceu, mas aqui está você e ele parece amá-la muito mais.

Sorri de lado, mas no fundo estranhei a sensação de imaginar Edward agir daquela forma com outra pessoa que não fosse eu.

Meu marido sequer fazia questão de esconder seus sentimentos diante das pessoas e isso me assustou no começo, mas aprendi que ele era cristalino como água e isso se tornou meu conforto desde então.

Todavia, existiam pontos que nem mesmo eu poderia tocar.

— Edward não fala muito sobre ela, só uma vez quando encontrei uma foto dos dois em um de seus livros da faculdade. Também não quis fazer mais perguntas, ele parece ficar chateado quando questiono.

— Fez bem, foram dois golpes muito duros para ele.

Heidi Smith era uma verdadeira incógnita que pairava entre Edward e eu há muito tempo.

Tudo o que sabia sobre a jovem era que fora sua ex-namorada durante a faculdade e que eles haviam terminado o relacionamento pouco antes de Heidi morrer. Edward se limitou a me contar quaisquer detalhes do que havia acontecido e eu me segurava para não fazer mais perguntas, afinal ele parecia muito afetado cada vez que tocava no assunto.

No entanto, isso não queria dizer que simplesmente havia esquecido minha curiosidade a respeito no armário.

— Você a conhecia bem?

— Heidi e eu éramos colegas de dormitório. Não éramos melhores amigas, ela tinha seu grupo de pessoas próximas e eu tinha o meu, mas acho que a considerava como uma amiga, Ela era muito gentil e doce quando a conheci, mas depois… Não sei dizer em que momento as coisas desandaram. Heidi começou a guardar segredos e agir estranho, depois do término com o Edward foi quase como se ela tivesse jogado tudo para o alto.

— Algumas pessoas se perdem na faculdade, tenho amigos que começaram a usar drogas no campus e deixaram todos os planos de lado.

— Não, Bella — Tia balançou a cabeça, tocando meu braço de leve. — Não acho que Heidi estava envolvida com drogas. Na verdade, eu suspeitava que ela tivesse um caso com alguém.

— Por que pensava isso?

O som alto do vidro se estilhaçando na sala chegou em meus ouvidos na cozinha, seguido das gargalhadas dos homens.

Tia e eu nos entreolhamos e abandonamos as taças sobre a pia antes de seguir depressa para fora do cômodo, onde encontramos Edward e Benjamin rindo em volta da garrafa de vinho quebrada no piso de linóleo.

Rapidamente, meu marido se agachou para recolher os cacos.

— Edward, cuidado.

— Eu sinto muito, é tudo culpa minha — ele lamentou, olhando para Tia com as sobrancelhas franzidas. — Vou limpar isso aqui, eu juro.

— Não! Você vai se cortar, deixe aí que eu mesmo limpo — disse Benjamin antes de acenar para Tia, visivelmente alegre demais, como meu marido. — Querida, pode pegar o esfregão para mim?

Me aproximei, cruzando os braços enquanto analisava a Edward. Como uma criança com medo de levar uma bronca, ele encolheu os ombros e Tia se moveu até a cozinha.

— Falei para pegar leve no vinho — sussurrei ao parar ao seu lado quando ele ficou de pé, ergui os olhos para encará-lo. — Por que nunca me ouve, hein? Você está dirigindo, nem deveria estar bebendo.

— Ah, você sempre foi uma ótima piloto de fuga, amor. Pode ficar com as chaves hoje.

Ele sussurrou de volta, abraçando-me por trás até pousar as mãos carinhosamente sobre minha barriga para depositar uma carícia. Reprimi o sorriso ao revirar os olhos, incapaz de ficar irritada com Edward, mesmo quando ele estava agindo feito um idiota.

— Estou grávida e proibida de dirigir — lembrei-o de sua própria regra estabelecida há um mês. — Acho que o vinho afetou a sua memória.

— Oh, nossa garotinha não vem agora, ela pode esperar um pouco mais — ele cantarolou de um jeito manhoso em meu ouvido. — À propósito, quem não pode esperar mais sou eu. Precisamos ter uma conversa séria sobre esse vestido justo, droga, eu só penso em arrancá-lo de você…

— Edward!

Me afastei de seu abraço quando as mãos escorregaram por minhas curvas — não que tivesse mantido muitas durante a gestação — sobre o vestido canelado. Edward me trouxe de volta para si, rolando os olhos verdes para meus protestos não tão esforçados assim.

— Por Deus, tenha modos, estamos em público — pedi, rindo quando ele envolveu o braço ao redor de meus ombros, depositando um beijo na minha bochecha. — O que irão pensar de nós?

— Irão pensar que somos um casal muito apaixonado que em breve não terá nenhum tempo de sobra a sós. Será que alguém vai notar se formos ao banheiro juntos?

— Pare, não temos mais vinte anos.

— Então, vamos para casa.

— Você queria uma festa de aniversário e agora vai ter uma festa de aniversário.

— Eu quero você, só isso — disse ele, olhando de soslaio para os convidados antes de pressionar os lábios macios contra os meus. — Vou pegar todos os seus presentes e levar até o carro enquanto você se despede, depois metemos o pé, o que acha?

Cordialmente falando, eu detestava ter de deixar todos os nossos amigos mais cedo quando haviam preparado aquela comemoração com tanto carinho. Por outro lado, tinha minhas razões pessoais para não recusar um convite como aquele.

Mordi o lábio inferior ao olhá-lo de volta e meu marido teve sua resposta.

Foi assim que acabamos escapando da reunião com a desculpa de que eu já me sentia um pouco cansada, Benjamin e Tia foram compreensivos com meus motivos e não insistiram para que ficássemos.

Dirigi com o máximo de foco possível para seguir dentro dos limites de velocidade enquanto Edward deixava sua mão escorregar pela minha coxa debaixo do vestido, uma carícia lenta e dolorosamente provocante.

Quando finalmente chegamos em casa, Edward sequer esperou fechar a porta antes de me encurralar contra ela, suas mãos deslizaram o sobretudo caramelo de meus ombros quando ele se inclinou para roçar a boca contra a minha. Era faminto e urgente, sua necessidade reverberou em cada veia de meu corpo, onde o sangue se agitou e efervesceu.

Atirei os braços em volta do seu pescoço, deixando que soubesse o quão furiosamente eu o desejava no momento em que começou a lutar para me despir, depressa. Seus dedos trêmulos tentaram liberar a longa trilha de botões na frente, mas a ação acabou se mostrando um obstáculo maior do que o imaginado enquanto Edward se recusava a se afastar para olhar o que fazia.

— Urgh, por que tantos botões, porra? — Xingou antes de apenas desistir no meio do caminho e agarrar na barra do vestido para arrancá-lo por cima da minha cabeça, abandonando-o no chão em seguida. Eu ri — Eu tenho pensado em você o dia todo, Bella… Isso quase me deixou louco, sabia?

Sussurrou a centímetros de meus lábios, fazendo-me tremer os meus com seu hálito alcoólico ainda me provocando.

— Me diga… — gemi com a sensação de seus lábios afundando em meu pescoço. — Me diga o que pensou em fazer comigo.

— Não, não — seus dentes beliscaram minha pele e a dor gostosa me fez arquejar. Então, Edward se afastou o mínimo para me lançar um sorriso malicioso — Vou mostrar.

Senti seus dedos escorregarem pela minha nuca e se fecharem em volta dos cabelos quando Edward desceu sua boca de volta para a minha, explorando-me com a língua enquanto a outra mão correu para alcançar o fecho do meu sutiã. Assim que a renda caiu entre nós, ele abocanhou o mamilo enrijecido.

A sensação quente e molhada contra a área sensível arrancou-me gemidos ofegantes. Meus pensamentos rapidamente sucumbiram à imaginação daquele mesmo calor direcionado a fenda entre minhas pernas, a cada segundo que se passava mais encharcada.

Meu outro seio latejou de forma prazerosa quando a mão grande se fechou em volta dele, massageando e beliscando antes que o loiro invertesse sua atenção para continuar.

De repente, desviou seu foco e mergulhou a mão entre nossos corpos colados para puxar minha calcinha de lado. Edward esfregou seus dedos por toda a extensão intumescida e fora como se tivesse me incendiado por completo, meu corpo reagiu por conta própria quando impulsionei os quadris na sua direção.

— Deus, sim… — gemi ao afundar as unhas em seus ombros.

Ele mergulhou seus dedos finalmente e pude sentir minhas paredes apertando em volta deles, arquejei contra a porta quando os movimentos começaram a me atingir.

Edward xingou quando o par de olhos vidrados recaíram sobre seus movimentos para fora e para dentro de mim, visualizando enquanto me fodia com os dedos. Se deliciava com o brilho da umidade marcando-o como meu, exalando meu cheiro de excitação enquanto sabia que ele era o responsável por aquilo — que mais ninguém tinha aquele poder sobre mim.

Era isso que Edward era, absolutamente meu.

Assim como eu pertencia completamente a ele.

Lutei para não ceder quando o polegar começou a circular em meu ponto latejante, eletrizando uma corrente que fizeram minhas coxas se contraírem. Os gemidos altos escaparam e ecoaram pela casa vazia até que puxei a sua boca de volta para minha em um beijo voraz, meus quadris assumindo um ritmo enquanto rebolava contra a sua mão habilidosa.

Em pouco tempo, Edward abandonou os seus movimentos e puxou novamente minha calcinha, sem jamais fazer qualquer menção de tirá-la. Sua boca tomou o lugar quando o loiro se posicionou de joelhos na minha frente para chupar e lamber enquanto a mão agarrava minha coxa, pairando sobre o ombro.

Alguns tremores percorreram meu corpo quando cravei os dedos entre os cabelos macios, empurrando seu rosto para mim enquanto Edward fazia o que sabia fazer de melhor: me deixar em completo êxtase.

Era um aviso do que estava por vir e ele reconheceu, mas também concordou que não era um fim.

Seus lábios macios só me deixaram quando Edward se ergueu novamente e agarrou na base de minhas coxas para me erguer em seu colo. Em alguma parte de meu subconsciente, fiquei surpresa com a sua aptidão de não tropeçar nos móveis enquanto me carregava pelas escadas até o quarto, mesmo com a escuridão parcial sendo o cenário perfeito para acidentes.

Quando meus saltos tocaram de volta o chão, trabalhei agilmente para me livrar da sua camisa, liberando o peitoral forte onde minhas unhas deixaram um rastro avermelhado na pele macia. Distribuí beijos por cada músculo torneado até alcançar o pescoço, onde chupei para deixar uma marca bem na curva.

— Eu quero montar em você… — ofeguei ao puxar o lóbulo da sua orelha entre os dentes, meus dedos se desfazendo do cinto e da calça rapidamente. — Agora.

Um sorriso arrogante iluminou seu rosto.

As roupas se acumulavam no chão quando o empurrei para a cama e Edward parecia satisfeito com minha versão dominante quando montei sobre seus quadris. As mãos correram para minha bunda, onde os dedos se enterraram com força na carne macia ao me impulsionar contra a ereção, provocando-me entre as pernas enquanto o beijava intensamente.

Soltei um gemido ao me mover contra seu pau, sentindo toda a tensão de meu corpo se reunir naquele centro onde apenas a renda fina e molhada nos separava.

Ergui o corpo e desci minha mão para acariciá-lo, mordiscando o lábio inferior quando deslizei o polegar pela ponta úmida com a sua excitação. Tomei toda a sua extensão entre meus dedos, sentindo a rigidez e necessidade em cada veia pulsando contra a pele sedosa.

Edward soltou um longo suspiro quando puxei a calcinha para o lado e rocei seu pau contra minha entrada, forçando-o como uma provocação dolorosa só para fazê-lo desejar mais. Ele trincou os dentes, impaciente, e agarrou em meus quadris com força, puxando-me para baixo de uma só vez, até que estivesse bem fundo no meu interior.

Por algum tempo, éramos uma só alma compartilhada.

Não importavam as posições, nossos corpos se entrelaçavam perfeitamente, feito peças de um quebra-cabeça, a cada movimento que exercia sobre ele.

Suas mãos me tocavam de forma íntima, atravessando a pele e registrando sua marca diretamente na minha alma, no meu coração. Seus sons de prazer me embalavam feito a mais sensual das sinfonias e nela eu poderia perder horas, ou resto da vida, não importava.

O que realmente importava era a forma como Edward me amava, como demonstrava o quanto eu era importante para ele em cada ato de nossos dias. Importava que buscasse seu próprio prazer e que o encontrasse no fato de me guiar até ele, de me submergir tão profundamente na euforia de amá-lo que me tornava viciada na sensação de chegar ao ápice, estilhaçando-me ao seu redor e sendo abraçada por todo o desejo e amor que me inundava.

E, por Deus, nada era superior àquele sentimento de vê-lo chegar ao orgasmo comigo.

De sua voz mais primitiva grunhindo em meu ouvido enquanto ele me preenchia, de sentir seu calor escoar para dentro de mim e derreter cada parte de meu interior. Cada consciência do mundo ao nosso redor.

Sim, eu faria qualquer coisa para ter aquela sensação pelo resto da vida.

A respiração quente ainda acariciava minha bochecha corada em um ritmo calmo enquanto pairava naquele estado entre o completo sono e a lucidez. Seu abraço me confortava entre os lençóis depois de fazermos amor quando um barulho abafado no andar de baixo me fez despertar daquela nuvem de prazer e satisfação em que estávamos envoltos.

Franzi as sobrancelhas, virando na cama e forçando-me a enxergar meu marido entre a penumbra do quarto.

— Você ouviu? — Sussurrei. — O que… o que foi isso?

Edward permaneceu estático ao abrir os olhos.

A gota de suor escorrendo em sua testa umedecia os cabelos cor de bronze, reluzindo na pouca luz que entrava pela janela do cômodo. Atento, ele inclinou a cabeça em direção a porta, se empenhando para alcançar aquela movimentação taciturna.

Embora não tivéssemos ouvido mais nada por uns bons segundos, meu marido lentamente recuou para fora da cama. Tensa, o observei levar o indicador até os lábios em um sinal claro de silêncio, então começou a se vestir.

Devagar, encolhi-me contra a cabeceira, puxando os lençóis para me cobrir enquanto tentava controlar a ansiedade que começava a retesar minha pele sob os ossos.

— Se vista — ordenou baixinho, indicando meu hobby de seda pendurado em um gancho na parede. — Rápido.

— Aonde você vai? — Levantei-me depressa, pescando o penhoar de seda branco e dando um nó desleixado em volta do meu corpo nu.

Quando virei, Edward já estava na porta.

Não! Você não vai descer sozinho…

— Eu preciso checar.

— Então, irei com você.

— Deve ser um dos gatos da Sra. Cope revirando o lixo de novo, você sabe como eles são — me tranquilizou, estendendo a palma da mão entre nós para me barrar de acompanhá-lo. — Fique aqui, eu já volto. E feche a porta, está bem?

Hesitante, obedeci seu comando e fechei-a assim que ele se moveu para o corredor escuro, mas não deixei de me posicionar logo atrás, encostando-me contra a madeira para ouvir qualquer sinal de movimentação no primeiro andar.

Os segundos de silêncio se passaram feito uma eternidade, me mantive rígida feito uma rocha enquanto aguardava.

De repente, um estrondo de algo se quebrando na sala me alcançou e saltei para trás ao reconhecer o grito a seguir, um arrepio pareceu rasgar friamente minha espinha.

Não parei para pensar em mais nada antes de abrir a porta e me lançar para fora no escuro, os tremores atingindo meus músculos feito uma corrente elétrica quando corri em direção as escadas.

Edward!

Meu grito foi silenciado no momento em que a mão coberta por uma luva preta agarrou meu rosto com força ao ponto de minha mandíbula reclamar de dor. Cambaleei para trás com o impacto, debatendo-me contra a figura desconhecida e seu aperto de aço ao meu redor.

Em meio ao completo pânico me consumindo, enxerguei a enorme faca de caça reluzindo a centímetros da minha barriga, onde a cada movimento brusco em que eu tentava me desvencilhar, ela aproximava sua lâmina afiada de onde meu bebê estava.

No entanto, não pude conter meus próprios instintos diante da ameaça e jamais deixei de lutar — não somente para fugir e proteger meu filho, mas para encontrar Edward.

Foi quando comecei a ser arrastada de volta para o quarto como se meu peso fosse insignificante para aquela muralha de músculos.

Meus pés descalços deslizaram pelo piso de linóleo e agarrei no caixilho da porta, rompendo as unhas da carne enquanto a força que exercia demonstrava ser apenas uma fração comparada ao domínio daquele que me detinha. Não houve quaisquer chances de impedi-lo quando me atirou no chão impiedosamente, do outro lado do quarto.

A onda de choque durou apenas alguns segundos antes do impacto se alastrar por todo o meu corpo feito um rastro de gasolina em chamas.

Meus ouvidos zumbiram quando ergui a mão para tocar o ponto latejando no alto de minha cabeça, só então me dei conta do baque contra a beirada da cômoda, a sensação morna e úmida escorrendo pela testa banhou meus dedos com o mais intenso vermelho. Mesmo assim, levantei do chão o quanto pude com um gemido de dor, engatinhando para o mais longe possível do homem de pé no meio do quarto.

O ar fugia depressa e meus pulmões arderam tentando funcionar, mas me recusava a ficar parada e esperar pela morte. Envolvi a barriga com um dos braços trêmulos — onde a dor física era uma porção medíocre do terror que criava raízes na ideia de perdê-lo, minha criança.

— Você é mais difícil do que pensei — cantarolou a voz gutural, movendo a faca afiada nas mãos cobertas pelas luvas de algodão, como se saboreasse o meu completo horror com sua brincadeirinha sádica enquanto se aproximava. — Mas, quer saber? Eu até que gosto disso.

Atordoada e sem saída, me encolhi no canto da parede e olhei fixamente para o rosto mascarado. Nada além das íris de um castanho intenso me encaravam, um brilho de pura frieza selvagem cintilava naqueles olhos — eu estava olhando diretamente para a morte, lenta e dolorosa.

— Não… Não me machuque — Implorei, minha voz engatando com o choro enquanto a dor em meu estômago se multiplicava a cada segundo. Reuni forças para continuar, para ganhar tempo, pois aquilo era tudo o que tinha — T-temos dinheiro no cofre! Está lá embaixo, eu posso mostrar, pegue tudo, mas não faça nada… Por favor.

Faria o que fosse necessário para protegê-lo, como prometi a mim mesma que faria desde o início, ainda que tivesse que abrir mão de tudo.

— Dinheiro? — Ele me avaliou com interesse, aproximando mais um passo para então se agachar aos meus pés. A lâmina cintilou na luz mínima entrando pela janela quando o estranho posicionou o indicador sugestivamente na ponta. — Não, isso seria clichê demais, não acha?

Sua atenção recaiu sobre o meu corpo — para a longa fenda que se formara quando o hobby abriu durante nossa breve luta —, onde me revelava completamente nua para o olhar do predador.

Rapidamente, fechei-o com os dedos trêmulos, sentindo uma onda de náuseas revirar meu estômago quando acompanhei suas intenções sobre o decote da vestimenta.

Meu couro cabeludo se tornava mais encharcado a cada instante, eu estava sangrando e a tontura demorou apenas alguns instantes para me atingir. Lutei contra a inconsciência reconfortante e pisquei com força, precisava me manter acordada até o último segundo.

Por ele.

— Por que está aqui? — Murmurei, grunhindo quando uma pontada de dor latejou novamente em meu ventre. — Diga!

— Acho que tem algo que eu quero… Isabella.

Em um átimo, o caçador avançou.

O homem atirou todo o seu peso esmagador ao montar sobre mim, as mãos se fecharam ao redor do cabo da faca e ela desceu impiedosamente até parar a míseros centímetros de minha barriga, onde agarrei em seu pulso e na própria lâmina para me defender.

A queimação fervorosa dominou os músculos de meus braços quando usei toda a força que me restava para resistir contra o seu golpe, minha palma praticamente sendo dilacerada enquanto o sangue gotejava, formando uma poça na minha roupa.

— Sua vadia desgraçada, eu vou te estripar feito um porco! — Rosnou, forçando a faca para baixo enquanto eu lutava para me manter viva. — E essa criança maldita que você carrega vai ser uma lembrança dessa noite.

Não!

Meus gritos desesperados ecoaram mais alto pelo quarto e senti meus braços fraquejarem, a lâmina se aproximou com o impulso avassalador do inimigo, ameaçando a vida daquele que eu mais amava.

Por um milésimo de segundo, o rosto inocente de meus sonhos invadiu a minha mente, as feições que eu jamais conheceria. Aquele não seria apenas o meu fim, mas o fim trágico daquele mesmo sonho.

A faca roçou meu estômago quando não pude mais resistir, senti o arranhão em minha pele e mergulhei de vez no pânico, nada do que eu fizesse seria o suficiente. Eu estava morta. Ele estava morto.

Quando olhei novamente para aquele par de olhos castanhos, a familiaridade me atingiu feito o mais forte dos golpes e congelou o sangue em minhas veias. Tive certeza que em meio aquela raiva primitiva, o homem acompanhou meu raciocínio antes de praticamente voar pelo quarto, para longe de mim.

A figura desabou contra o espelho e a faca escapou de sua mão antes de quicar algumas vezes no piso, deslizando para fora da porta.

Edward avançou contra ele de uma forma que jamais testemunhei antes, o ódio e a vingança pareciam consumi-lo enquanto socava o homem várias vezes no rosto até que ele caísse na inconsciência parcial.

Bella! — Edward gritou, apavorado, enquanto segurava meu rosto com força entre as mãos ensanguentadas. Mas não consegui desviar o olhar do corpo moribundo caído no chão, entre os estilhaços de vidro. — Bella, olhe para mim!

Era como se o mundo tivesse desacelerado.

A voz desesperada ecoava pela minha cabeça, clamava por atenção, mas estava longe demais para me alcançar. Seus comandos não faziam sentido, eu não podia fugir, não conseguia me mover e nem mesmo encarar aquele par de olhos perturbados tentando me fazer acordar do completo torpor que dominou minha mente.

Só havia a dor onde eu estava mergulhada.

A completa e irreparável dor.

Tive a sensação dos braços fortes deslizando pelas minhas costas e pela parte de trás das pernas, pronto para me carregar para fora daquele pesadelo. Então, observei, aterrorizada, quando o homem se ergueu nas sombras e pegou a faca, partindo em nossa direção com um desejo voraz.

Fora como se, por fim, eu tivesse sido puxada abruptamente de volta à superfície.

Atrás de você! — Gritei, mas era tarde.

A lâmina se enterrou nas suas costas e Edward arquejou, então meu corpo desabou de volta contra o chão quando ele cambaleou para trás, os olhos arregalados e o rosto petrificado esculpindo a imagem que tomaria conta de meus pesadelos pelo resto da vida.

Ferida e sem forças, pensei que a dor maior estaria por vir. Eu assistiria o homem que amava sangrar até a morte — e não havia nada que fizesse para impedir.

A inconsciência se aproveitou da fraqueza momentânea e minhas pálpebras pesaram feito barras de ferro, não conseguia me mover no chão enquanto a dor no estômago parecia fisgar cada ponto de meu interior, esticando e retorcendo minha carne.

Só pude assistir quando o inimigo ergueu sua faca novamente, mas Edward se virou e lutou, avançando para manter aquela arma — pingando seu sangue ainda fresco — longe dele e, principalmente, de mim.

Os dois engataram uma sequência de golpes e desvios, minha vista escurecida mal podia acompanhar o balé mortal ainda que me forçasse a fazê-lo. Os grunhidos e rosnados faziam muito mais sentido. E os gritos. Dois deles me fizeram contorcer de pânico quando desmaiei — e depois só houve silêncio.

E tudo estava escuro de vez.

Perguntei-me se estava sonhando quando a dor desapareceu, eu não sentia mais nada. Mas a sensação de alívio só durou meio-segundo.

Eu não estava sentindo nada.

— Bella — o sussurro sem fôlego me chamou depois de um tempo. — Amor?

Era Edward, em algum lugar.

— Meu amor, acorde — continuou com esforço. — Por favor, por favor, acorde. Por favor.

Sua voz vacilou no final da frase, o nó na garganta o impediu. Edward estava chorando, a dor tão presente na entonação que finalmente pude sentir algo.

Abri os olhos outra vez e encontrei-o caído no chão ao lado do homem inconsciente, uma verdadeira poça de sangue se formava ao redor da cabeça encapuzada enquanto meu marido estendia a mão no chão para mim, os olhos verdes quase sem foco.

De alguma forma, cerrei os dentes e encontrei forças para me arrastar até ele, só então notei as enormes manchas de sangue na camisa branca, na altura das costelas.

— Não… não — chorei, impulsionando as mãos trêmulas no ferimento, uma tentativa inútil de estancar o sangue. — Meu amor, você vai ficar bem, e-eu prometo. Eu prometo.

— Você…

Acompanhei sua atenção sobre todo o sangue em minha roupa e rosto, mas balancei a cabeça com convicção.

— Não é nada — menti, embora a dor dilacerante ainda me provocasse. Arrastei a mão ensanguentada para tocar seu rosto, fazendo-o olhar para mim — Escute, não é meu sangue. Vamos ficar bem.

Afirmei, mais para mim do que para ele.

— Ei, precisa ficar acordado! — O sacudi pelos ombros quando sua consciência vacilou e a cabeça caiu de lado. — Vamos, fique comigo. Só fique comigo, por favor… Eu te amo. Fique comigo.

O silêncio aterrorizante deu lugar a sirenes tocando por todos os lados, enxerguei as luzes vermelhas entrando pela janela do quarto quando as viaturas pararam em frente a casa, mas o alívio não me preencheu.

Segurei a sua mão até o momento em que nos separaram e nos levaram daquele lugar — mas o pesadelo nunca teve seu fim.


Poderiam ter se passado milênios — eras — até o momento em que acordei no quarto desconhecido.

As luzes fluorescentes me cegaram no início e pisquei várias vezes antes de conseguir enxergar as cortinas da janela balançando levemente com a brisa contra as paredes pálidas. O pequeno vaso de flores em uma mesa ao lado da cama de grades onde estava deitada era tudo o que havia de cor no espaço.

Por um minuto inteiro de silêncio, procurei o vermelho intenso tingindo as paredes, respingando no chão, minhas roupas… mas, com alívio, concluí que não estava lá. Pois, aquele não era meu quarto, nem mesmo minha casa.

Encontrei Renée adormecida, encolhida na poltrona de couro no canto do quarto. Minha garganta arranhou quando falei:

— Mãe?

— Bella! — ela saltou do lugar para se aproximar, os olhos azuis arregalados quando esticou os dedos frios para tocar minha mão boa, pois a outra, reparei, estava enfaixada. — Ah, meu amor. Como você está?

Encarei novamente os lençóis brancos — intocáveis — sobre meu corpo, nada de sangue mais uma vez. Dessa vez, notei a barriga praticamente plana abaixo das cobertas e da minha vestimenta hospitalar, o que foi o bastante para os eventos passados virem a minha mente tão rápido que me senti tonta.

Virei para minha mãe.

— Onde… onde está? — Perguntei, agitada. — Onde ele está!?

— Acalme-se, querida — ela tocou meus ombros quando fiz menção de arrancar a cânula de soro do braço e levantar. No entanto, uma pontada no estômago, diferente da anterior, me impediu. — Ouça, o bebê está…

— Edward!

Renée parou quando gritei, os enormes olhos azuis me encarando, atordoada.

— Onde está o Edward?

— O médico disse que ele teve ferimentos graves e que os ferimentos não atingiram nenhum órgão vital, Edward passou por cirurgia nesta madrugada. Está em observação agora, mas me informaram de que ele tende a se recuperar bem — explicou, mas algo em seu tom de voz parecia tenso. — Está tudo bem, não precisa se preocupar com ele. Me diga como se sente, querida.

Atordoada, confusa, apavorada, incapaz, perturbada…

— Dolorida — respondi, uma verdade aceitável entre as outras.

— Você vai ficar bem logo, tiveram que fazer uma cesária de emergência…

— Cesárea? — Pestanejei.

— Sim, precisaram tirar a criança às pressas, você tinha uma concussão e a bolsa estourou cedo demais — ela franziu o cenho, como se cada palavra perfurasse o seu peito da mesma forma que machucava o meu. — Chegou inconsciente e foi levada direto para a sala de cirurgia.

De repente, Renée sorriu. Um sorriso fraco e terno de alguém desesperada para encontrar alguma boa notícia no meio daquele terrível pesadelo.

— É uma menina. Saudável e linda.

Uma menina.

Não o garotinho que me dera forças para continuar, não aquele rosto angelical que me agarrei com unhas e dentes para sobreviver e chegar até ali. A imagem continuava refletindo em minha mente, mas agora parecia borrada a escura.

Senti o peso do luto me engolindo. Senti ao ponto de esmagar.

— Daqui a pouco a enfermeira vem trazê-la para que você possa alimentá-la. Irão liberá-la para voltar para casa assim que atingir os dois quilos, mas o médico disse que provavelmente isso vai evoluir bem rápido...

— Quando vou poder vê-lo? — Perguntei, o sorriso no rosto de minha mãe sumiu. — Quer dizer, ele está bem, não é? Eu quero vê-lo agora.

— Querida, agora não. Vão liberá-la para ver o Edward no momento certo, mas você também passou por uma cirurgia, precisa ficar aqui e se recuperar. Além disso, sua filha precisa de você.

Filha.

A palavra me soou de um jeito amargo.

— Como eu vim parar aqui? — fechei os olhos, engolindo as lembranças com dificuldade. — Eu… eu achei que não sobreviveria. Nenhum de nós.

— A Sra. Cope ouviu os barulhos da invasão — virei minha cabeça para fitá-la ao ouvir o nome familiar. — Graças ao bom Deus, ela chamou a polícia assim que viu aquelas pessoas entrando. Se estão aqui a salvo, foi por ela.

A doce idosa da casa ao lado fora a responsável por salvar a todos nós. Não contive as lágrimas que transbordaram em meus olhos, rolando silenciosamente pelas minhas bochechas.

— O que aconteceu com eles… aquelas pessoas?

— A polícia prendeu um deles a uma quadra dali, provavelmente fugindo depois de ouvir as sirenes — ela fez uma pausa, reprimindo os lábios finos antes de continuar. — Seu nome era Leah Clearwater.

Meu estômago revirou.

— Leah? — Arfei, incrédula. — Não, não pode ser…

— Ela estava dando cobertura do lado de fora, para o caso de alguém se aproximar. Mas, provavelmente ficou tão apavorada quando as coisas saíram do controle que resolveu fugir. Leah entregou os outros nomes no interrogatório.

— Quantos eram?

— Três. Aparentemente, Edward lutou com o segundo no andar de baixo, Sam Uley, bateu com a sua cabeça tantas vezes que ele apagou e a polícia o levou para o hospital, então para a delegacia depois disso — um arrepio pareceu percorrer o corpo de minha mãe enquanto ela falava. — O outro já estava morto no quarto quando a polícia chegou, seu marido acertou a jugular com a mesma faca que ele foi ferido.

Baixei a cabeça entre as mãos, lembrando-me de como se respirava.

De repente, os olhos castanhos do inimigo retornaram a meus pensamentos feito um flash aterrorizante.

Jacob — consegui dizer, embora minha voz embargada não fosse muito clara. — Seu nome era Jacob.

— Você o conhecia?

— Ele estava me seguindo naquela manhã… — balancei a cabeça, soluçando. — Todos eles estavam. Não era um simples assalto, ele queria me matar… ele disse.

Renée envolveu seus braços frágeis ao meu redor, então estava chorando também.

— Ele queria o bebê — continuei, o rosto enterrado no ombro de minha mãe. — Estava se divertindo com isso…

— Está tudo bem agora, meu amor — ela acariciou meus cabelos, apertando-me em seu abraço. — Eles nunca mais farão mal a ninguém.

— Por que?

Indaguei, sentindo-me dormente e sem forças.

— Por que queriam fazer aquilo?

— Você precisa descansar, falamos disso mais tarde…

— Eu não vou descansar até saber o que aconteceu conosco!

O par de olhos azuis me avaliou, ponderando se aquele era um assunto viável para o momento. Renée me conhecia o bastante para saber que eu não desistiria sem mais respostas, então abriu mão de ocultá-las em nome da minha paz… se é que eu poderia encontrá-la outra vez.

— A polícia me disse muitas coisas… mas Leah falou no interrogatório sobre um esquema de tráfico de crianças — ela pestanejou, perturbada com a ideia. — Eles tinham um plano desde o início. Os ataques na cidade estavam chamando muito a atenção, então enviaram a garota para ganhar a sua confiança, iriam esperar até que estivesse prestes a dar a luz…

— Iam arrancá-lo de mim?

A mulher fechou os olhos, assentindo.

— Mas perceberam que Edward e eu estávamos cada vez mais em cima de você, isso iria aumentar muito no último mês, então mudaram os planos.

— P-para onde iam levá-lo? — Continuei, sem fôlego. — O que iam fazer com o bebê?

— Vendê-lo para pessoas maiores, pessoas poderosas e com dinheiro… Não me peça para falar mais nisso, por favor.

Ela balançou a cabeça, limpando as lágrimas.

Pensei que, em algum momento, a ficha cairia. Imaginei que quando as horas se passassem, quando eu acordasse em cada manhã, uma após a outra, eu realmente acreditaria que aquela noite não passara de um mero pesadelo cabuloso.

Mas não foi o que aconteceu.

Com o passar do tempo, me curei razoavelmente da cirurgia repentina e assisti a lenta recuperação de Edward. Visualmente, ele estava muito pior do que eu, suas feridas deixariam cicatrizes na pele clara, marcas as quais ele não se importava de carregar. No entanto, às vezes, eu encontrava uma porção de alegria cintilante naquela face.

— Como você está? — Perguntei em uma das minhas visitas ao seu quarto no hospital.

— Melhor, recebi alguns analgésicos para a dor há alguns minutos, acho que eles farão efeito logo — disse com um sorriso fraco. — Mas fico feliz de ver você, parece bem.

Suspirei, baixando a cabeça para olhar nossas mãos entrelaçadas. Se parecer bem o deixava feliz, então era como me sentia. Edward não precisava saber dos ataques de pânico e da completa insônia no meio da noite.

— Eu estou, na verdade.

— Sua mãe veio mais cedo e disse que serão liberadas amanhã para ir para casa dela, isso é ótimo.

— Pois é — concordei, desconfortável. — Não gosto nem um pouco da ideia de deixá-lo sozinho aqui.

Edward bufou.

— Não se preocupe, minha mãe sempre está por aqui e provavelmente só vai voltar para o interior depois de ter certeza que estou completamente bem — me tranquilizou. — Me diga, como ela está?

Questionou, um brilho reluziu em seus olhos verdes.

— Bem, ela é… faminta — Edward riu, envolto demais em sua pequena bolha de alegria. — E dorme demais.

— Sabe, eu estava aqui pensando que não podemos chamá-la de ela para sempre. Nossa filha precisa de um nome, tem algum que goste?

— Desculpe, não pensei em nada.

E aquela fora a frase mais sincera que disse em dias.

A verdade é que não havia muito que eu pudesse dizer a Edward, pois não havia muito o que sentir. A primeira vez que levaram a menina estranha até mim para amamentá-la foi provavelmente o momento mais desconfortável e incômodo da minha vida, todos me olhavam com expectativa — até mesmo as enfermeiras, ciente do nosso caso que ganhou repercussão em todo o estado.

Talvez esperassem por uma cena emocionante, como um encontro muito aguardado, algo para os jornais documentarem. Mas, diferente de tudo o que pensaram, não senti nada ao segurar a criança nos braços, sequer conseguia olhar para ela durante todo o processo.

Depois de cada sessão de tortura, ordenava que a levassem de volta e isso se tornou um ciclo da total rejeição que não conseguia colocar em palavras.

Eu não odiava aquela pobre inocente.

Simplesmente não sentia nada por ela.

— Eu pensei em um… — ele me olhou, hesitante. — Mas acho que não vai gostar.

— Qual?

— Eu gosto do seu segundo nome e também gosto do nome de minha mãe, Esme — explicou pausadamente, esperando pela minha reação. — Então, pensei em Marie Esme.

Franzi o cenho, experimentando a informação em minha mente.

— Muito ruim? Eu posso pensar em outro...

— Não, não é muito ruim — comentei, desinteressada. — Meu pai me chamava de Marie até os dez anos, acho que ele gostaria disso.

Ele abriu um sorriso largo.

— Marie, então — disse o nome com uma espécie de adoração. — Nossa Marie.

Esbocei uma falsa alegria, apenas para deixá-lo confortável. Edward merecia um momento bom que fosse depois de todas as coisas pelas quais passou.

Aquela foi a primeira vez que tive que fingir.

Depois de meses, se tornou fácil como respirar.