No último capítulo…
Heero, tenente da companhia de escada 5, desenvolve um profundo interesse por Relena, primeira bailarina do conservatório estadual. Sua meia-irmã ajuda os dois a se encontrarem em uma balada e ambos se descobrem vítimas de uma atração intensa e envolvidos por uma paixão arrebatadora. Após dividirem um beijo ardente, decidem que querem encontrar-se novamente.
::::::::::
2
_Por que não me esperou lá dentro dessa vez? –Akane entrou no carro indagando, jogando a bolsa no banco de trás.
Ele olhou os retrovisores e saiu suavemente da vaga.
_Achei melhor dar um pouco de espaço para Relena.
Akane fez suas sobrancelhas se erguerem enquanto afiou o olhar:
_Hm… quer dizer que rolou?
Ele fez uma expressão concentrada e não se dignou a responder.
Mas o silêncio dele era a melhor resposta para ela, que não conteve uma gargalhada travessa.
_Ela conversou com você? –e depois que a moça se acalmou, ele quis saber.
_Sim, perguntou de você. –e fez uma expressão muito prática. –Você por acaso a estava testando?
_Não. –e fez-se ofendido. Akane não pareceu convencida.
_Ela pareceu um pouco sem graça de perguntar… uma fofa… –e comentou então, divertida. Heero meneou a cabeça, desprezando o jeito da menina. –E quando vai chamá-la para sair de novo?
_Estava pensando sobre quinta-feira.
_Não é uma boa ideia… até ia te dizer: quinta-feira vai ter um recital como etapa das audições para o espetáculo. Quer vir assistir?
_Tudo bem. Vai acabar tarde?
_Talvez… depende de quantas danças serão… não parei para contar…
_Bem, então se for o caso penso em outro dia para convidar Relena. Ela vai dançar?
_Não, vai ser avaliadora.
Ficaram calados até chegar ao alojamento.
_Este fim de semana vamos dar curso de brigada de incêndio. Quer ser voluntária? –ele lembrou-se então de mencionar.
_Quero sim! Duo vai trabalhar também? –ela perguntou mais com intenção de provocá-lo do que de satisfazer a curiosidade. Mas se Duo estivesse, era um bônus.
Heero fez uma expressão de tédio.
_Não pensa em outra coisa?
Ela deu de ombros, desavergonhada.
_Não, ele não vai. Mas se você for uma boa voluntária, quem sabe o capitão deixa você ficar um pouquinho na companhia para conversar com ele?
_Fechado. –e despedindo-se com um desajeitado beijo no rosto dele, ela desceu do carro e saltitou até a entrada do alojamento, esboçando um grand jeté.
::::::::::
Heero mandou lavar seu melhor terno para comparecer ao recital. Sabia que era só uma apresentação íntima, mas decidiu que também não faria mal comprar flores. A moça na floricultura do bairro ficou feliz em ajudá-lo escolher dois buquês, um menor que o outro, mas de flores similares.
O recital começava às sete horas, mas ele chegou mais cedo e foi procurar Akane no camarim. Quando perguntou por ela a um segurança, ele barrou sua entrada, porém comprometeu-se a entregar as flores. Por coincidência, Relena vinha chegando de algum lugar de trás do palco para tomar seu assento na primeira fileira.
Com ela vinha outro bailarino, o professor e um homem alto e loiro que Heero reconheceu de um tempo atrás. Entretanto, quando Relena o percebeu ali, agiu como se não existisse mais ninguém no mundo. Ela se apressou até ele, contendo um sorriso, e lhe estendeu a mão.
Ele a recebeu com um olhar carinhoso e lhe mostrou as flores.
_Ah, para mim? –ela segurou o ramalhete com uma mão e aspirou o perfume. –São lindas… –sua outra mão prendeu-se a dele e ele acariciava suas falanges.
Suspirando, fitou-o com doce anelo, mordendo o lábio inferior.
_Não te vi esses dias… –e ao voltar a falar, murmurou baixo.
Ela não tinha usado palavras claras, mas Heero ficou contente em notar que ela sentiu saudades.
_Resolvi que estava incomodando demais com minhas aparições. As bailarinas precisam se concentrar em seus exercícios.
Ela encurvou uma sobrancelha, sem comprar a explicação que ele entregava tão astuto.
_Alguém já te falou que você pode ser bem convencido? –e provocou.
_Hm… várias vezes. –ele riu baixo e maroto depois, e ela manteve um silêncio incrédulo, careteando. –Conversamos mais depois… –ele inclinou-se então e beijou-lhe a franja, percebendo que o homem alto e loiro os observava com crítico interesse. Quem seria ele?
Relena sorriu inocente e assentiu, cheirando as flores de novo e soltando a mão de Heero. Separaram-se e tomaram seus lugares.
O auditório não lotou. A maioria na plateia era amigos e parentes. Vários outros bailarinos também vieram, inclusive de outras escolas. Heero ficou ao lado de um casal que estava ali para assistir a filha e procuravam avidamente o nome dela na folha simples que servia de programa.
Lendo o programa por sua vez, ele verificou o nome dos bailarinos e as músicas que dançariam e viu que Akane fora a única que escolhera um sucesso pop. Era típico dela querer se destacar. Ela seria a quinta de vinte apresentações.
O recital começou enfim com breves boas-vindas do diretor do conservatório. Em sequência, Tint fez um solo de abertura. Todas as apresentações foram de qualidade, exatamente o que se esperava de qualquer um aceito no grupo avançado do conservatório. Heero confessaria, entretanto, que se aborreceu em alguns momentos.
O solo de Akane causou bastante impressão em todos, mas ele não sabia se toda positiva. Ela mesma montara a coreografia, escolhera todos seus pontos fortes. Anos assistindo-a ensinaram Heero os movimentos que ela executava melhor. Enquanto a música enchia o teatro, ele tentava ver a reação de Relena ao bailado de Akane. Ele via pouco mais que um lado do rosto dela, e ela se curvava sempre para comentar algo com seu colega primeiro bailarino.
Quando Relena se sentara, escolheu um lugar próximo ao fim da fileira, deixando as flores na cadeira vazia a seu lado. Daniil apareceu depois se sentando junto dela:
_Ganhou flores? –indagou jovial, ainda assim mostrando certa melancolia.
Relena tentou não corar, confiando na iluminação baixa para atenuar sua expressão boba de encantamento:
_Pois é…
_Então é sério. –ele concluiu, a voz solene. –Pode contar com meu apoio… gosto de pessoas que sabem mostrar consideração. –e elogiou, despretensioso, lendo o programa com os olhos.
Relena abriu um sorrisinho nervoso.
_Está preocupada com algo? –e notando a expressão dela, ele deixou um pouco de aflição tensionar suas sobrancelhas negras.
_Eu não sei… nunca me senti assim por ninguém… é assustador.
Daniil aliviou as feições e sorriu com sabedoria:
_Se assusta é porque só pode ser de verdade. –conjurou.
_Pois é, mas e se for de verdade só para mim?
Ele riu baixinho, divertido.
_Você vai descobrir logo. De qualquer forma, você está diferente, com um brilho novo no olhar, uma energia boa e contagiante. Quando você estava com aquele outro rapaz… o fotógrafo… não era assim. –e um tom de censura deixou o comentário dele mais meigo.
Ela riu, lembrando-se:
_Acho que éramos muito iguais.
_Acho que sim.
_Eu não tinha nem um pouco de medo com ele… pelo contrário, era tão fácil estar com Ricard.
_Fácil demais, não? Mas dessa vez, dá para ver que algo muito forte aproximou você e esse rapaz.
Relena respirou fundo.
_Ai, Daniil, me ajuda a não ficar olhando para trás… –e praticamente implorou, sorridente, sem saber mais como dominar sua empolgação do amor que nascia.
Ele riu a bom rir, assentindo, e depois olhou sobre o próprio ombro, encontrando Heero quase dez fileiras acima. Inclinou a cabeça para ele ao perceber que fora notado e voltou-se para o palco, olhando Relena de esgueira, vendo-a suspirar, absorta e brilhante.
Para tentar diminuir sua agitação, Relena passou a brincar com as flores ao seu lado, mesmo ciente de que secariam rápido. A ideia que elas materializavam a consolava – era como estar ao lado de Heero com as flores ali.
Quando começaram as danças, ela acabou sendo absorvida pelas apresentações de todos e foi simples fazer seu trabalho sem ceder à tentação de procurar Heero na plateia. Porém, ao terminar os últimos aplausos, ela encerrou suas anotações, entregou-as a Daniil e virou-se para trás, querendo vê-lo. Nada era mais necessário. Encontrou-o de pé, dando passagem a uma senhora que saía da fileira e foi logo encontrá-lo, sorrindo para os presentes, sabendo que era reconhecida.
_Quer ir cumprimentar sua irmã? –ela propôs.
_Acho que ela gostaria disso.
Em instantes, estavam nos bastidores e Relena entrou primeiro para chamar a moça dentro do camarim.
Akane ainda estava em seu collant nude e tutu preto. Relena a tirou do grupo barulhento de meninas que falavam todas ao mesmo tempo de como se sentiam e do que esperavam.
_Seu irmão está lá fora. –e foi discreta, avisando bem perto dela.
Iluminando-se, Akane a acompanhou de pronto.
_Obrigada pelas flores! –e falou escandalosa, jogando os braços para cima e o abraçando.
Ele não foi tão intenso e a segurou pela cintura um instantinho antes de se desvencilhar.
_Foi uma ótima apresentação. –murmurou, grave.
_Achou mesmo? Foi bem arriscada. –ela considerou mais consigo mesma.
_Bem do seu tipo. –e ele observou, abrindo um sorriso maroto por um segundo.
Ela gargalhou, colocando as mãos na cintura. Assentiu sem medo de dar-lhe a razão e depois suspirou de contentamento. Passou seus olhos por ele e Relena:
_Então, quais são os planos? –e do jeito que falou, fez os dois um tanto sem graça, soando como se se referisse a algo concreto e importante. –Tint está juntando todo mundo para irmos comemorar. O quê, eu não sei… –e ela prosseguiu, bem descolada.
Relena conhecia bem como Tint fazia tudo motivo para festa e riu baixinho:
_Aonde vão?
_Acho que para o shopping mais perto, jantar. Sair da dieta por uma noite… –e piscou um dos olhos felinos. –São só nove e meia. Deviam aproveitar. –e incentivou em despedida.
Heero deu de ombros, tranquilo, escorregando as mãos para dentro dos bolsos da calça.
Relena o olhou expectante, diminuindo o sorriso.
_Ela tem razão. –e Heero murmurou.
_Você sempre ouve o que ela diz? –Relena sentiu-se à vontade para brincar.
_Apenas quando me é conveniente. Mas não conte isso para ela. –segredista, ele confessou, de novo com o sorriso maroto riscando seus lábios, momentâneo como o brilho de um raio.
Relena voltou a rir e começaram a andar, indo em direção à saída dos bastidores que dava para a rua.
_Eu falo assim… só que Akane me ajudou muito. –e Heero acabou retomando, soltando um suspiro cansado.
_Verdade? Como? –ela ficou curiosa.
Ele a fitou, contemplativo, recordando-se daquilo que estava prestes a mostrar para ela. Não percebia nenhuma hesitação bloqueando seu espírito e de novo espantou-se como era fácil se abrir com ela. Com serena paciência, ela o aguardava. Calmante.
_Quando nossas famílias se juntaram, eu ainda estava muito marcado pela morte de minha mãe. A presença de Akane me distraiu um pouco e até me deu certo senso de propósito.
_No seu caso, foi bom seu pai se casar outra vez. –ela considerou, perspicaz.
_Eu seria bem diferente caso contrário, pode ter certeza. –ele admitiu, falando baixo, como se tivesse pensado naquilo pela primeira vez.
_Não consigo nem imaginar como você se sentiu. Perder a mãe é a pior dor do mundo. –com doçura e reverência, ela concluiu.
_É sim. –ele concordou, abstraído por alguns segundos, comovido pela simpatia de Relena.
Trocaram um olhar profundo, sentindo-se muito próximos. Relena abriu um sorriso caloroso e procurou a mão dele, em consolo e carinho.
_Mas e a sua família? –e logo depois ele indagou.
_Bem, somos daqui mesmo. Meu pai você já conhece… –ela falou meio desconcertada.
_O ministro? –ele quis confirmar, apertando um pouco os olhos.
Ela assentiu, sem muita expressão. Seu pai estava ganhando cada vez mais destaque na mídia e as pessoas costumavam mudar de comportamento com ela quando sabiam de sua ligação importante. Normalmente, ficavam cheias de interesse, contudo achou que Heero incomodou-se um pouco.
Ele franziu as sobrancelhas, transparecendo preocupação, e sentiu Relena apertar sua mão, assegurando:
_Não se preocupe com meu pai. Ele é um homem bastante sensato. É uma pessoa simples. –suspirou, talvez com um pouco de saudade.
_Vocês se veem pouco?
_Ah, bem menos do que eu gostaria. Mas estamos sempre em contato, graças ao Skype. –riu. –Eu também tenho um irmão mais velho.
_Tem um irmão mais velho? –dessa vez ele fingiu sua preocupação. Ela riu um pouquinho mais, meneando a cabeça:
_É, tenho. Talvez ele represente algum perigo para você. –e provocou, suspirante. –Seu nome é Zechs e ele é atleta, velejador olímpico. E por fim, mamãe… bem, ela não tem muito sobre o que reclamar da vida. –riu de novo, um pouco bobinha.
Heero roubou um fito dela e manteve-se pensativo. Era revigorante, ela estava sorrindo o tempo todo, cheia de vida e de expressão. Fazia-o querer nunca ter de se afastar. Era uma sensação nova e refrescante que sempre o surpreendia. Admirava-se como ela era simples e agradável. Pensava na sorte que tivera ao escolhê-la.
_E aonde nós vamos? –ela mudou o assunto, ouvindo-o respirar fundo, tendo alguma ideia:
_Gosta de comida chinesa?
_Sim.
_Então, vamos para Chinatown. –ele arriscou e logo a percebeu se iluminar:
_Faz muito tempo que não vou lá…
Debaixo do céu nebuloso da cidade, Heero encostou-se ao seu carro e a puxou para perto de si primeiro pela mão que os ligava e depois a segurando pelos quadris estreitos, acomodando-a entre suas pernas.
Partilhando um intenso olhar de anseio, criaram expectativa de um beijo que ambos buscavam desde que se reencontraram.
Com o controle concedido a ela, Relena debruçou-se e pousou seus lábios sobre os dele, sentindo um delicioso calor. Seu primeiro gesto foi suave e jeitoso e ele o retribuiu proporcionalmente, agarrando-a com força pelo quadril. Amoldando-se naturalmente a ele, Relena sentia todo o seu corpo, toda sua firmeza, o coração ganhando compasso de polca, ditando o ritmo dos novos beijos.
Ele a prendera a si com tanta energia que aos poucos ela tornava-se parte de seu próprio ser. Suas mãos grandes e fortes envolviam o contorno das ancas dela, pressionando-a contra si sempre mais intensamente, perdido no modo como seus lábios se amassavam e se completavam vez após vez.
Demoravam em perder o fôlego. Quando se tocavam, era eletrizante. Relena percebia o quanto precisava e sentia falta de uma sensação assim, não entendia como podia ter vivido até então sem aquela emoção, aquela inspiração, e não via porque parar de tomar para si aquilo que ele tão generosamente oferecia.
Enfim, forçados pela exaustão, separaram-se e Relena não conteve seu sorriso sempre e incansavelmente maravilhado. Ele se aprumou um pouco, desencostando-se do carro, grudando mais seu corpo ao dela, se é que era possível.
_Vamos? –e perguntou tranquilamente, arrumando com intimidade uns fios na franja dela.
_Sim.
Dentro do carro, houve silêncio. Respiravam com lentidão, aguardando o retorno da tranquilidade. Contudo, ao trocarem um breve olhar, decidiam que não era tranquilidade o que queriam. Estavam sempre famintos pelos fogos de artifício que cada um criava no céu do outro.
O restaurante não era muito iluminado e estava praticamente vazio. Foram atendidos pelo próprio dono, que só não os mandou embora porque Heero era um cliente fiel. Depois de anotados os pedidos, Heero assistiu o senhor Wong se afastar para então retomar a conversa:
_Hoje foi meio improvisado. –soava empertigado e bastante racional.
_O que é isso… está ótimo. –ela respondeu, corajosamente sincera, mordendo o lábio superior. Depois do que haviam dialogado mudamente entre os beijos, não havia porque não ser franca.
_Da próxima vez, iremos a um lugar mais glamoroso… –ele insistiu.
_A verdade é que achei aqui bastante glamoroso. –e olhou em redor, absorvendo o clima de filme dos anos 40. Gostou bastante.
Heero meneou a cabeça, achando a opinião dela um pouco descabida e bastante bondosa, por mais que ela falasse sério.
_Nós falamos bastante da minha família… e a sua? –e Relena retomou.
_Não tenho muito mais a dizer…
_Não? Mas e seu pai? O que ele faz?
_Ele também é bombeiro.
_Verdade? Então é uma tradição?
_É, acho que sim. Ele se aposenta ano que vem.
Relena assentiu, inclinando-se um pouco mais sobre a mesa.
_E sua madrasta?
_Ela tem uma oficina de costura. Faz… fantasias, vestidos de noiva não convencionais e figurinos… claro que trajes de balé também…
_Que fantástico! Será que ela faria algo para mim?
Ele deu de ombros, encabulando-se um pouco sem saber por quê. Talvez a ideia de Stelle conhecer Relena o deixasse inquieto. Estava um pouco difícil se compreender. Entrenato, o sorriso que Relena se esquecera de como desmanchar o fazia seguro de que levá-la para ver seus pais poderia ser a coisa mais certa a fazer. Respirou fundo e acabou murmurando:
_Converse com Akane sobre isso…
_Está bem.
Wong passou atrás deles, fechou as cortinas e trancou a porta. O casal desviou o olhar para detalhes na toalha da mesa por alguns instantes.
Relena comentou então:
_Seu pai deve ter orgulho de você.
_Ele não aprovou muito a minha escolha, mas não tentou me impedir. –explicou monótono.
Relena não reagiu, processando o comentário, por fim concluindo baixo:
_Por causa do risco operacional.
_Sim, o risco operacional. É um reflexo natural.
Ela assentiu. Foi sua vez de surgir preocupada. Heero a fitou com uma firmeza maior que a habitual, pacientemente aguardando-a emergir de seus pensamentos.
Ela colocou um pouco de cabelo atrás da orelha e respirou fundo. Tinha se esquecido. De repente, tudo era rotineiro demais para pensar no perigo da profissão do rapaz que seu coração queria.
_Você também tem de levar isso em conta. –ele apresentou, sério, com pouco tato.
Ela entreabriu os lábios, contudo não conseguiu dizer nada.
_Eu sinto muito… não quero te assustar, mas… –num tom baixo, tentativa de brandura, ele seguiu.
_Eu sei. –ela replicou suave e prontamente.
_Eu tenho que trazer sua atenção a isso… –ele adicionou, desconfortável.
_Eu sei. –ela devolveu com bondade.
_Então, eu não vou insistir se você quiser parar por aqui. –e não foi com facilidade que ele pronunciou aquelas palavras, mesmo que fossem para cumprir seu dever. E para ele, o dever sempre viera acima de tudo.
Os olhos dela prenderam-se aos dele cheios de força, aprendizes da firmeza dele.
_Eu não quero parar. Você quer? –e as sobrancelhas franziram fragilizadas em contraste com tão determinada declaração. E apostou alto; mais tarde viria a temer ter se excedido.
Perdendo um pouco do fôlego, ele atrapalhou-se com a decisão que caiu em suas mãos. A resposta era simples e estava pronta na mente dele há dias, só que quando a dissesse em voz alta, para ela, seria como conjurar um encantamento impossível de ser desfeito.
_Não. –anunciou.
Ela sorriu um sorriso emocionado, aliviando todas as suas expressões.
_Você é um homem de verdade. –e observou, impressionada com os modos dele, com aquele cuidado carinhoso que ele mostrava por ela e seus sentimentos.
Sacudindo a cabeça, ele rejeitou o comentário elogioso e bufou. Prestou atenção em como os olhos dela pareciam ser feitos de água e no jeito que as sobrancelhas dela se moviam ao passo que ela percorria seu rosto demoradamente, detalhadamente. Intrigava-se. Era como se ela o estivesse memorizando.
Pegou uma das mãos dela entre as suas e ficou brincando com os dedos dela, distraído. Sabia bem que precisavam conversar, falar mais de si e de tudo, sabia bem que devia se mostrar para ela e que queria vê-la mais de perto. Porém, com a mão dela dentro das suas, tudo se tornava supérfluo. Fora do mesmo jeito quando a viu pela primeira vez. Não fora necessário mais nada para se apaixonar. Ele nunca estivera tão enamorado, se é que alguma vez passara por algo parecido.
Com certeza não, porque, se tivesse, quem sabe como seria sua vida então.
O que seus amigos no quartel diriam se ouvissem aqueles seus pensamentos? Provocariam que o gelo derreteu, que o muro fora derrubado, que a rocha se partira… não o deixariam em paz, como não poderia deixar de ser, e se ofereceriam todos para serem padrinhos.
_No que você está pensando? –ela murmurou de repente, sua voz vindo suave como uma onda que se esgueira pela praia.
Ele quase sorriu e deu de ombros. Melhor não se preocupar.
Para distraí-los, a comida chegou. Seria bom não ter que comer com pressa, entretanto, estava ficando tarde e a família Wong também queria encerrar seu expediente. Durante a meia-hora que a refeição durou, Relena quis saber mais sobre ele, sua infância, sua rotina. Ele conseguia falar de tudo graças à forma despretensiosa que ela usava para reagir às informações. Depois foi a vez de ela falar sobre a montagem do espetáculo, os ensaios, as expectativas, o estresse e a diversão que faziam parte do mesmo pacote. Era o primeiro rapaz que ela conhecia que não parecia completamente alheio ou entediado com o papo de balé, e ele a ouvia sem parecer forçado. De repente, se encontravam em uma familiaridade tão grande que era difícil pensar que não fazia nem uma semana que se conheceram.
No carro, em frente ao prédio dela, trocaram mais alguns beijos e algumas palavras.
_Você me liga?
_Sim.
Ela o beijou uma última vez.
_Me diverti muito. –e fez questão de mencionar.
Ele meneou a cabeça, sorrindo com os olhos.
Ela o beijou definitivamente pela última vez.
Ficou parada um instante antes de entrar no saguãozinho e acenou. Sentia-se uma adolescente, como se fosse seu primeiro e inocente amor, cheio de sonhos e encantos. Isso não podia ser normal. Nem real.
Quando entrou, Tint estava no banho e por isso ela caiu na cama e ficou admirando o teto, suspirando.
_Ué, já chegou? –e não demorou muito para ela aparecer, secando a cabeleira negra em uma toalha.
Relena nem respondeu.
_Pensei que ia esticar a noite com seu bonitão. –e sentou-se na beirada da cama, olhando a amiga sugestivamente.
_Oras, Tint, pare com isso. –se ergueu, sentando-se perto dos travesseiros. –Nós estamos nos conhecendo.
_Muito bem… se já está assim enquanto estão se conhecendo, imagina só quando transarem…
_Fique quieta! –Relena atirou o travesseiro e pegou em cheio no rosto de Tint, que apenas gargalhou, maliciosa.
_Daniil falou tudo para mim, contou que você está caidinha por esse cara… –e jogou o travesseiro de volta, mas com pouca força.
_Daniil me paga. –Relena resmungou, sorrindo, afofando o travesseiro e devolvendo-o a seu lugar. Suspirou. –Heero é incrível, não tem o que fazer…
Tint reconhecia na amiga aquele olhar ébrio de amor e sorriu de volta:
_Ai, amiga, vai fundo! –e pulou em Relena, agarrando-a pelos ombros e beijando com brusquidão a bochecha dela.
As duas riram a valer e Relena tentou retribuir o abraço, mas Tint a largou com força e saiu da cama.
_Agora, luzes apagadas, mocinha, que amanhã a gente tem muito trabalho…
Relena assentiu e assistiu Tint ir para seu quarto. Depois, tomou uma chuveirada e também foi dormir e sonhar um pouco mais.
::::::::::
_Você está feliz, não está? –a voz buliçosa de Akane perguntava vez após vez no carro. –Diz que está, vamos…
_Estou me arrependendo de ter trazido você. –ele replicou, entediado, mas ela riu. Ele não entendia como ela conseguia sempre rir, rir de tudo. Às vezes irritava.
Ela suspirou, satisfeita:
_Eu estou feliz! Estou feliz por você, por mim, por Relena…
_E por Duo não? –foi a vez de ele provocar.
_Oh, por ele não… afinal, eu sou muito mais do que ele merece…
_Arrogante. –ele acusou.
Ela riu ainda mais. Deixou a risada se desfazer em silêncio por alguns instantes.
_Muito legal essa viatura! –depois ela observou. Era de último modelo. –Posso dirigir na volta?
_Não.
_Mas o capitão Yuy sempre deixava! –chantageou, mencionando o padrasto.
_Pois é, mas o tenente Yuy não.
Ela careteou.
_E rosquinhas, podemos comprar rosquinhas?
_Não sou policial, Akane. –ele realmente se irritou dessa vez. Ela riu, atingindo seu objetivo.
_Estou brincando, idiota. –e gargalhou, meio malvada. Heero deu um empurrão bem brusco nela com a mão que manejava o câmbio, mas ela não parava nunca de rir.
_Idiota é você. –e retrucou, mas não falava mais sério.
Quando ela finalmente conseguiu cortar a crise de gargalhadas, tomou fôlego e começaram a conversar sobre a programação para o treinamento.
Passaram uma manhã agradável. Na equipe, também havia mais alguns voluntários e bombeiros de outras companhias, inclusive um capitão. Todos se cumprimentaram amigavelmente enquanto tomavam um copo de café e repassaram as tarefas de cada um. O centro de treinamento ficava em um bosque, era um lugar tranquilo e a temperatura estava ótima para ficar ao ar livre.
_Você já se inscreveu na brigada do conservatório? –no fim do trabalho, Heero lembrou-se de perguntar.
_Eu nem sei se tem brigada lá… –e ficou confusa, anotando mentalmente a pesquisa que deveria fazer. –De qualquer forma, você ficaria mais que contente em ir salvar a Relena caso o pior acontecesse.
_Pare já com isso… –ele se impacientou mais uma vez.
Akane olhou o relógio:
_Puxa, são quase duas horas… o tempo passou depressa. Onde vai almoçar?
_Na companhia, estou de serviço.
_Ah é… –e não escondeu sua decepção.
_Podemos ir almoçar juntos outro dia. –ele resmungou depois, roubando um fito rápido dela.
Ela o olhou e recuperou-se prontamente:
_Combinado!
Heero estacionou a viatura perto do caminhão.
_Venha, dê um alô para o pessoal. –e chamou do outro lado do veículo. Akane o seguiu, observando o grande caminhão vermelho e branco, lustroso e imponente.
_É muito lindo. –e não conteve o comentário.
_Mais do que eu? –e ouviu uma voz travessa atrás de si e, quando se deu conta, já tinha sido agarrada pela cintura e levantada do chão. Ela sacudiu os pezinhos e riu:
_Mil vezes mais! –e virando um pouco a cabeça, achou Duo.
_Magoei… –ele reclamou, soltando-a e fazendo-a ficar de frente para ele.
_Onde você estava? –ela parecia ofendida, mas era um fingimento.
_Atrás do caminhão, queria te dar um susto.
Ela meneou a cabeça, sorrindo brilhosa.
_E aí, consegui? –ele indagou, segurando-a pela cintura.
_Hm, me surpreendeu um pouco. –fez manha.
_Então quer dizer que hoje você foi secretária do tenente Yuy? –ele zombou.
_Não, eu sou brigadista.
_Eu hein, você está mais para incendiária, isso.
Ela meneou a cabeça, revirando os olhos, dando pouquíssima importância.
_Ah, beija logo. –Heero, que os observava, falou enjoado daquela conversa mole.
Akane avisou felinamente:
_Viu? Ele mandou. –e saiu um orgulhosinho na voz dela.
Duo debruçou-se e deu um beijo carinhoso na bochecha dela ao mesmo tempo em que Heero bufava, entrando na sala comunal. Como sempre, tudo tinha um lado bom. Ficava cada vez mais fácil para ele ver Akane com Duo, alguém que ele conhecia muito bem, em quem podia confiar. Sim, preferia assim. Ficava tranquilo e sabia que alguém cuidaria bem dela. Escolhia se esquecer dos riscos.
Esquecia os seus também. Pensava na conversa com Relena, talvez tivesse sido direto demais. A verdade é que nunca precisou citar aquele aspecto para ninguém. Nunca ninguém tinha valido a pena, nunca ninguém tinha feito com que ele quisesse investir. Imaginava que, apesar do que ela respondeu, Relena não entendia na verdade a seriedade dos riscos.
Mas ela também não era uma pessoa comum, e ele estava se esquecendo de avaliar isso.
Ela tinha dedicado sua vida para os palcos. Dançar era o que a movia, desafiava, alimentava. Ele vira bem como ela punha toda sua concentração e energia em cada exercício. Ele via bem quão preciso era cada movimento dela, exaustivamente praticado. Quanta dedicação ela colocava em cada dia de treino, quanta disciplina! Era até assustador.
Será que tinha espaço para ele?
Suspirou, aproveitando-se que ninguém estava prestando atenção nele.
Pôs a mão no bolso e tateou o celular. Devia? Bem, não custava.
Digitou rápido uma única palavra: "cinema?".
Depois, se juntou a roda que havia sido criada em torno de Ane.
"Me pegue às 7." –ouviu o sinalzinho do Whatsapp. E quase sorriu.
Boa noite!
Deixo vocês com o capítulo 2 para ir me dedicar um pouquinho a "Tentando a Sorte".
Talvez, eu demore mais do que dessa vez para trazer o capítulo 3.
Espero que estejam gostando.
Deixem também suas reviews!
Beijos!
17.12.2015
Revisado e corrigido 07.01.2015
