No último capítulo…
Heero e Relena se reencontram em um recital do conservatório, sem negar para si mesmos ou para os demais o quanto se acham apaixonados. Durante um jantar improvisado, se encontraram em uma familiaridade tão grande que era difícil acreditar que fazia apenas uma semana que se conheceram. Após participar de um curso de brigada de incêndio, Heero convida Relena para ir ao cinema naquele sábado.
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3
Relena tinha acabado de se levantar do chão onde havia se sentado, trazendo a garrafa de água. Um grupo de bailarinas conversava ali próximo e testavam seus tornozelos. A mais alta delas parecia tê-la chamado e pedido conselho sobre alguns movimentos com os pés. Com um sorriso disposto, sem pressa, Relena tomou um gole de água e depois demonstrou os passos e corrigiu as meninas, ajudando-as a melhorar. As bailarinas olhavam-na e escutavam com uma atenção reverente, tentando absorver nem que um pouquinho das muitas qualidades da primeira bailarina.
Enquanto isso, o professor orientava os rapazes. Um deles escutava, esgotado, as mãos sustentando os quadris, os cabelos molhados, corroborando com tudo que o professor dizia severamente, olhando cada moço com o que poderia ser descrito como birra. Ele estava descontente demais para prestar atenção à brincadeira que as moças começaram, improvisando coreografias.
Se o professor já estava aborrecido, teve um ataque de nervos ao perceber que elas faziam uma competição de saltos. Virou-se com pressa e energia, gesticulando exagerado, esbravejou com elas e com todos. Heero não podia ouvir o que ele bramia, entretanto, as bailarinas, com exceção de Relena, não se mostravam chocadas. Riram disfarçadamente quando o homem deu as costas.
Ele saiu em direção de um canto da sala, falando alto ainda com alguém que tivera ficado despercebido de Heero até então – uma mulher esbelta, de muita classe, com certeza uma bailarina experiente. Os trajes sociais dela não eram capazes de disfarçar seu espírito dançarino.
Aparentemente, o professor tinha dispensado todos e os jovens se dispersaram, procurando seus pertences, conversando entediados uns com os outros. Heero tinha se divertido em assistir, mas a parte da ação que mais gostou foi quando Relena o encontrou do outro lado do vidro, iluminando-se com um sorriso surpreso. Ela não se conteve em sair praticamente correndo encontrá-lo do lado de fora, caminhando nas nuvens e parando em frente dele com um suspiro. Não evidenciava qualquer cansaço.
_O que está fazendo aqui? –sua voz tinha um tom que comunicava muito mais, empolgada, satisfeita, como se ele tivesse feito exatamente o que ela desejara.
Ele deu de ombros, abrindo um discreto sorriso de canto. Achou melhor responder assim do que confessar que não aguentou esperar. O ponteiro tinha acabado de marcar seis horas. Quando saiu do quartel, foi para casa o mais rápido possível para se arrumar para o passeio que tinham combinado.
_Terminou por hoje? –ele quis confirmar.
_É, o professor está… cansado. –e ela riu, traquina. Heero meneou a cabeça:
_Também, com alunos tão… comprometidos. –ele arriscou brincar. –Vocês costumam ficar até ainda mais tarde? –e surgiu a dúvida.
_Quando chega perto da estreia, sim. Até de domingo, dependendo do grupo… mas por enquanto, até às seis está bom. Este grupo é muito bom… –e discorreu, dobrando os braços na frente do corpo, dando uma rápida olhada através do vidro para os amigos que ainda restavam na sala.
_Vamos, te levo para casa.
_Ah, claro, mas eu estou de scooter. Se não se importar, pode me seguir até lá.
_Eu sou muito bom em fazer escoltas. –e assumindo seu ar presunçoso, provocou.
_Combinado então. –ela fingiu-se impressionada. Depois se ergueu nas pontas das sapatilhas, beijando-o no rosto, baixo, quase no queixo, errando de propósito. Nem percebeu ele segurá-la pelo quadril, baixando nela olhos de fascínio. Respirou devagar, hipnotizada desavergonhadamente, seu sorriso se desmanchando ao passo que percorria com o olhar as feições dele.
O agarre firme de Heero ajudava mantê-la em ponta e com um movimento preciso, ele a fez dar uma volta completa no lugar, como se soubesse bailar também. Relena riu, descendo os calcanhares no chão, segurando as mãos dele em seu corpo, inclinando a cabeça, demandando um beijo.
O olhar dele se desviou para um movimento no corredor, e sobre o ombro Relena espreitou a senhorita Une examinando-os por cima dos óculos.
Tomando as mãos dele nas suas, moveu-se e o trouxe consigo em direção da mulher, falando:
_Ah, senhorita Une, deixe-me apresentar. –seguia risonha, nada encabulada. –Este é Heero Yuy.
Ele estendeu a mão prontamente, só um pouco retraído, acenando com a cabeça ao mesmo tempo.
_Muito prazer. –ela respondeu. De repente, havia um brilho de raposa no olho dela.
_A senhorita Une é da Companhia Real da Bélgica. –Relena expandiu, era fácil para Heero ver que isto era muito agradável para a moça. Por isso, ele assentiu, dando importância.
_Vim dar uma conferida na coreografia. –Une comentou, simplista, cada vez mais sorridente. –Bem, até segunda-feira.
_Até.
_Cuidem-se vocês dois. –ela aconselhou, já dada as costas. Se houvesse malícia em sua voz, era bem-intencionada. Heero franziu as sobrancelhas, intrigado.
Relena voltou-se para ele pensando em prosseguir de onde tinham parado.
_Vá pegar suas coisas… –mas ele pediu, colocando as mãos nos bolsos. –Vou te esperar lá fora.
Relena não demorou. Heero não tinha certeza de que ela estava trajada adequadamente para andar de moto, com o minisshorts jeans por cima das meias e do collant e uma enorme camiseta rosa escondendo seu corpo. Ainda parecia que ela ia sair dançando a qualquer minuto. Pelo menos, não estava de sapatilhas mais.
_Eu levo sua bolsa. –ele se ofereceu, delicadamente tirando a mala de ginástica da mão dela.
_Obrigada. –e vestiu o capacete.
Parecia ser cedo demais para a cidade estar tão movimentada, mas Relena não pegava nenhum corredor mesmo quando via que o carro de Heero tinha ficado preso na fila de carros de um semáforo. Em uma velocidade confortável, segura, ela mantinha-se constante, olhando o retrovisor, certificando-se de que ele a acompanhava.
Já estava bem escuro quando estacionaram na frente do prédio.
_Vamos subir? –ela propôs, jovial, pegando a bolsa de volta. Ele assentiu, seguindo-a. –Prometo que não vou demorar. –confidenciou, enquanto a porta do elevador se abria.
_Não se preocupe.
_Você já escolheu a sessão?
_Não, a gente decide quando chegar lá.
_Está bem.
_Você deve estar com fome. –ele observou, lembrando-se da aparência extenuada de todos os jovens naquela tarde.
_É, agora que você falou… –e o elevador apitou, parando no décimo-quinto andar. Ela achou a chave rápido dentro da bolsa e entrou na frente, sem cerimônias. –Fique à vontade. –sorriu, indo até o balcão que sinalizava a cozinha, pegar uma fruta na geladeira.
Heero fechou a porta e olhou em redor. Gostou da atmosfera do lugar. As duas meninas deixavam tudo organizado, embora fosse óbvio que havia pessoas realmente morando lá quando se prestava atenção a um copo esquecido em uma mesinha de canto, notinhas de loja se amontoando no balcão ou um par de sapatos esquecidos perto do sofá, jogado, um pé virado para cima.
Relena deixou a chave no balcão e informou:
_Quer beber alguma coisa? –e mordendo a pera, mastigou rápido antes de oferecer, olhando dentro da geladeira. –Só tenho refrigerante diet…
_Não, obrigado.
_Pode ligar a TV se quiser. Vou tomar banho. –e o que ele mais gostava é que ela parecia muito à vontade. Não sabia se sentiria do mesmo modo se a levasse a seu apartamento. Não achava que fosse um lugar bonito suficiente para recebê-la, apesar de muito limpo. Quase não tinha comida na geladeira, acostumado às refeições no quartel. Suspirou, decidindo que era tudo bobagem. Sentou-se no sofá e ligou a televisão, procurando algo para passar o tempo.
Meia-hora havia passado quando Heero ouviu uns ruídos disruptores no corredor lá fora. Ele se concentrou, dando-se conta de que o som se aproximava cada vez mais da entrada do apartamento, até que conseguiu distingui-lo:
_Oras, Danny, porque você tem de se tão formal? Entre logo…
_Não, Tint. Espero aqui. Vá primeiro, não quero perturbar Relena.
Tint estalou a língua tão alto que Heero conseguiu ouvir. Tinham chegado à porta.
_Não sei para quê tanto. Vocês já se conhecem há anos… –a chave girou a fechadura –O que tem se ela estiver de camisola? Já pegou nela de tudo quant… –a porta abriu simplesmente, pois estava destrancada. –Ora, ora… o que temos aqui? –e pondo os pés dentro do minúsculo hall, Tint assumiu uma expressão extática.
_O que houve, amor? –Daniil perguntou atrás dela, sério, tenso até, seguindo-a assim que ela entrou em movimento.
Relena também apareceu no corredorzinho, curiosa, penteando o cabelo molhado.
_Um penetra. –Tint explicou, deixando espaço para Daniil parar ao seu lado.
_Tint! –Relena exclamou, constrangida, a expressão ficando lassa.
Tint desfiou uma gargalhada malvada, só ela se divertia com sua piada pervertida, sem graça.
Daniil olhava baixo, sacudindo a cabeça, mas Heero só soltou uma risada muda, fanhosa, acostumado demais com esse tipo de comportamento. Relena o olhou um pouco aflita, ficando indecisa de repente do que fazer.
Tint ficou enrolando uma mecha de cabelo no dedo, analisando a visita indiscretamente.
_Boa noite, eu sou Daniil Nikitin. –e antes que Tint soltasse mais algum absurdo, apresentou-se formalmente, pois não se lembrava de terem conversado aquela noite na danceteria.
_Prazer. –Heero respondeu e aceitou a mão que lhe foi estendida, levantando-se do sofá.
Daniil abriu um sorriso discreto e assentiu.
Tint mordeu o lábio, movendo os olhos de um rapaz para o outro, e depois seguiu o mesmo instinto de Relena, indo à geladeira, pegando uma fruta e oferecendo refrigerante para Daniil.
_Eu estou bem.
_Ok. –e ela também foi para o banheiro. Relena a aguardou para irem juntas. Queria passar-lhe um pito, mas acabaram só dando risadas.
_Desculpe a Tint, sim? –e Daniil se juntou a Heero no sofá, olhando o rapaz.
_Não se preocupe.
Daniil respirou fundo, suspirando depois. Ficou calado, concentrando-se ao jornal que Heero assistia.
_Vão sair também? –Heero indagou.
_Sim, vamos jantar. Confesso que estou faminto. –pontuou sua frase com risadinha patética.
Heero assentiu, sem deixar Daniil completamente desamparado de atenção.
_Poderíamos combinar um dia de sairmos nós quatro. –Daniil continuou, simpático.
_Claro.
Relena ressurgiu então, passando uma mão nos cabelos meio presos por tranças, alisando a franja para arrumar todos os fiozinhos no lugar.
_Estou pronta. –confirmou, rindo vibrante.
Heero ergueu-se agilmente enquanto ela pegava a chave de volta.
_Está frio lá fora, Danny? –e ainda indagou, a esmo.
_Faz bem em levar um cardigã… –polido, ele recomendou.
_Certo. –e deixou a bolsa para buscar uma malha no quarto.
Heero parou, com as mãos nos bolsos, paciente. Daniil aproveitou para estudá-lo mais um pouco. Preocupava-se que ele fosse à altura de Relena.
_Vamos? –Heero incentivou quando a viu retornar jogando o cardigã nas costas, amarrando-o com as mangas em seu pescoço.
_Tchau, Danny. –acenou, usando mais os dedos.
_Adeus, divirtam-se. Até mais. –Daniil levantou-se outra vez e acompanhou-os até o hall.
_Até. –Heero despediu-se.
Quando entraram no elevador, Relena suspirou de novo.
_Nem consegui por um salto. –os pés doíam mais que o habitual.
_Você está ótima. –ele assegurou, um timbre aveludado, olhos divertidos.
Ela sorriu, lisonjeada.
_E então, o que achou? –e checou-se no espelho mesmo assim, por mania. Heero franziu a sobrancelhas intrigado com ela:
_Do quê?
_Tint e Daniil. –e lançou-lhe um fito tranquilo, desistindo de ajeitar o cinto no vestido.
Ele deu de ombros e completou:
_Daniil disse para sairmos um dia nós quatro.
_Hm… –e decidiu arrumar a gola da camiseta pólo dele.
Heero riu da hesitação da moça, baixando a vista para observá-la trabalhar.
_É, pode ser. –ela decidiu enfim, o elevador abrindo-se no oitavo andar. –Boa noite, Lindt. –suavemente se afastando do rapaz, Relena cumprimentou a moça alta e linda que entrou, pronta para uma festa.
_Oiê. –divertida, Lindt passeou com o olhar pelos dois. Jogou um pouco do cabelo castanho pra trás do ombro e estacou junto a Relena.
Heero cumprimentou a jovem com um aceno de cabeça, discreto. E os três ficaram calados até terminarem a descida. Não tinha nem uma musiquinha para amaciar o espaço. O silêncio de um elevador é tão frio quanto suas paredes.
_Você conhece todos os seus vizinhos? –Heero achou curioso, abrindo a porta do carro para ela.
_Ah, eu tento. –esperou Heero dar a volta e entrar para continuar. –Mas muitos apartamentos são de aluguel. As pessoas se mudam muito.
_Pois é.
Ele não conhecia quase ninguém em seu prédio. Mal reconhecia quem ocupava o mesmo andar.
_Acho melhor irmos comer primeiro. –ele ditou.
_Mas desse jeito não vamos conseguir ver o filme. Faz tanto tempo que não vou ao cinema. –e até fez um biquinho.
Heero riu, rouco, sacudindo a cabeça.
Foram conferir os horários. Se se apressassem, conseguiriam tomar um lanche e pegar a sessão das oito e vinte de uma ficção científica que estreara aquela semana. Parecia uma boa ideia. Tiveram até um tempo para dar uma volta no shopping, lotado até o limite. Apesar do pouco espaço para transitar, os dois iam enganchados, sem olhar para os lados, mais interessados na presença um do outro.
Já que estavam ali pelo cinema, começaram a falar dos filmes que gostavam, das decepções das continuações, dos remakes versus seus originais. Era uma conversa leve, divertida, dando oportunidade para que se contemplassem sorridentes e andassem devagar sem se aborrecer. Afinal, lá dentro não iam a lugar nenhum, circulando pelos corredores.
_Uau! Nunca vi esse lugar tão movimentado! –e por fim Relena teve de observar.
Heero deu de ombros.
_Não me importo.
Com um sorriso ainda espantado, ela murmurou:
_Mas cansa um pouco…
O dia dela tinha sido bastante puxado. Ela certamente já estava acostumada, mas Heero sabia bem como às vezes era preciso reconhecer a necessidade de descansar.
_Vamos para o cinema. Lá na sala é mais tranquilo e podemos nos sentar.
_Ah, não, eu estou bem. –ela se acomodou mais próxima dele, diminuindo ainda mais a velocidade de seus passos, encostando o rosto em seu ombro.
_Bem, mas já está quase na hora e não seria nada mal descansar as pernas um pouco. Acho… que fiquei tempo demais em pé no treinamento da brigada hoje. –e desembaraçadamente, explicou, tentando ver qual reação as feições dela comporiam. Blefava pelo bem-estar dela, gentil, e não queria que ela percebesse.
Com um suspiro lento, ela assentiu, pensativa.
_Se você insiste… –e depois de responder, ela esticou o pescoço, beijando os lábios dele de raspão.
Incentivado, ele segurou o rosto dela com as duas mãos, parando no meio do caminho, beijando-a de volta com intensidade um pouco maior. Algumas pessoas se esbarraram neles, tão brusca fora a parada, mas era incrivelmente excitante estarem juntos ali, diante de tanta gente, roubando um segundo infinito para o amor.
Relena não resistia rir, recuperando o fôlego, e voltaram a caminhar então, com mais pressa, até a entrada do cinema. Havia fila, o que não os chateava, porque era uma oportunidade para beijarem-se um pouco mais. Eram beijos tão carinhosos e sorridentes, que ninguém tinha coragem de reprová-los.
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_Não achei que ia ser tão legal! –Relena enganchou-se nele de novo ao voltarem a caminhar, franzindo um pouco o rosto por causa do choque com a luz fora do cinema. –Não é à toa que todo mundo está falando tão bem.
_É, foi muito bom.
Animaram-se a comentar algo de favorito sobre o filme e Relena levantou alguns questionamentos. Heero estava contente com o que assistiu, despreocupado em elaborar tanto sobre a história, mas fez suas observações, incentivando-a a falar.
Até chegarem ao carro, o assunto mudou:
_Quando sai o resultado do recital? –ele deu a partida, notando que o tanque já estava na reserva.
_Segunda-feira. –e ela olhou pela janela, mexendo no cabelo. –Daqui alguns dias, serão feitos as audições para os personagens. Sempre acho tão empolgante! –e para falar a última frase, voltou a olhá-lo.
Heero dirigia calmamente pela grande avenida e sinalizou para entrar no posto.
_Mas você não passa por testes…
Ela deu de ombros:
_É, não mais. O que não quer dizer que eu possa me acomodar…
Heero assentiu, os olhos sorridentes, admirado com a estamina dela. O frentista se aproximou e pegou a chave para abastecer o automóvel.
_Sabe a senhorita Une?
Ele confirmou com um ruído rouco.
_Ela veio avaliar nosso grupo para selecionar alunos para um programa de bolsas. Todo mundo está dando o melhor de si para chamar atenção. É uma oportunidade incrível! –e mordeu o lábio tentando conter a animação, mas ela vazava todas pelos seus olhos debilmente iluminados com a claridade no posto.
_Com certeza. –ele apoiou, pensando em dizer algo mais, porém foi distraído pelo retorno do frentista.
Relena lançou o olhar em outra direção, absorta, brincando com o cabelo. Guardava ainda suas ambições em segredo.
_Eu gostaria muito de ver você dançar. –e Heero prosseguiu depois, tornando a sair com o carro.
Ela virou-se para ele encabulada sem necessidade, feito tivesse ouvido uma grande declaração de amor. Suspirou, caindo em introspecção. Ele lhe permitiu o silêncio, olhando-a de vez em quando, com um sorriso no olhar.
_Bem, chegamos. –Relena o ouviu anunciar, baixo, assustada com quão rápido fora o trajeto. Encarou-o pensando que não queria separar-se tão já. Sorriu, sem graça, indecisa, recebendo dele somente uma suave admiração que a agasalhava sem pressupostos. Ele a deixava muito relaxada e segura, como se enxergada de verdade, pelo que era. –O que foi?
_Ah, nada. Gostei muito de estar com você hoje…
_Eu também.
Ela assentiu. Seus olhos erraram em várias direções até voltarem a pousar no rosto dele, magneticamente atraídos.
Ele eliminou a distância entre seus lábios para lhe dar um beijo de boa-noite, longo e apaixonado. Relena não tinha guardado ar para tanto carinho, roubando lufadas de ar em intervalos que o obrigava fazer, deixando tudo mais delicioso.
Tornava-se difícil não querer a eternidade.
_Agora… –ele interrompeu o beijo, esforçando-se em se desvencilhar dela. –Você precisa ir descansar. –e deu-lhe um novo beijo, ávido.
Ela retribuía cada vez que boca dele cobria a sua.
_Está bem. Você me liga?
Ele assentiu, alisando a maçã do seu rosto. Sentia uma dor prazerosa no secreto do seu peito, não conseguia respirar, sufocado pelo carinho. Era novidade querer tanto bem a alguém, sentia os ossos fracos.
Ela passou a mão nos cabelos dele antes de descer, relutante.
Quando chegou em casa, viu-se sozinha. Queria se sentir exausta, contudo, estava eletrizada demais para obedecer Heero e repousar. Sem ninguém para conversar, estava prisioneira de todas as sensações que Heero fez percorrer em seu corpo. Estava enlouquecendo de amor.
Sentou-se na cama e começou a se despir lentamente, tentando decidir entre uma ducha ou simplesmente se aninhar em sua cama e ler um pouco. Demorou-se, curtindo cada suspiro, os sentimentos decantando e solidificando-se no fundo do coração, ajudando-a sentir-se pesada, propiciando uma letargia sonhadora.
Heero entrou na mudez de seu apartamento percebendo então como tudo era solitário e insípido lá dentro. Era duro ver o tédio encarando-o ciumento de volta. Agora se dava conta de como sua vida tinha sido vazia. Sentou na poltrona e olhou tudo em volta sob a luz de uma luminária de mesa. Não havia nada de interessante ali, nem mesmo para si.
Relena não estava ali.
Riu-se, impressionado com o empuxo do que sentia. Caíra em uma armadilha ferrenha, feita com muito capricho. Estava condenado àquela linda escravidão de bom grado. Nunca se sentira tão feliz.
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O telefone tocou várias vezes e abrindo os olhos, Heero estranhou. Estava tudo tão escuro, devia ter ainda algumas horas para dormir. Entendendo enfim que o que soava não era o alarme, mas uma chamada, ele virou-se com preguiça e atendeu:
_Pronto.
_Desculpe incomodar, Heero. –e Quatre não precisava se identificar já que ninguém tinha uma voz tão sábia quanto à dele. Estava um tanto embargada, porém.
_O que houve? Alguma emergência? –Heero sentou-se na cama, desperto de todo, pronto para sair se vestindo.
_Quase. Está havendo um incêndio no porto desde as duas. O fogo já está sendo controlado, mas houve uma explosão. –e ele permitiu um intervalo para que o eco de sua voz se espalhasse dentro do raciocínio do amigo, fiando-se que afiada perspicácia de Heero o livraria de pronunciar nitidamente a notícia.
Heero correu uma mão pela franja, puxando-a para trás, jogando as pernas para fora da cama e procurando os chinelos:
_Foi nossa unidade que atendeu?
_Não, mas Duo está com os rapazes lá agora; foram chamados para apoiar.
Heero assentiu, mecânico, já visualizando toda a situação. Ia ser preciso muitos reforços, mas provavelmente, o helicóptero já havia chegado.
_Então… quem foi?
_Klaus Vasilovich.
Heero acendeu a luz e foi pegar um copo de água na cozinha. A garganta raspava, como em carne viva.
_Alguém já sabe por que ele estava tão perto do foco? –e analítico, pediu algo prático para distrair a mente.
_Ele estava fazendo alguma avaliação. Aparentemente, era só fumaça naquele momento. Ele não precisou se aproximar muito. –e Quatre soava lamentoso demais sobre como fora simples perder um companheiro.
Heero fechou os olhos apertados.
_Ele era um bom soldado. –e murmurou, decidindo que se Klaus tinha escolhido agir daquele modo era porque havia um motivo. Ele não iria arriscar a vida assim.
_O enterro será às quatro e meia. Não vai haver cortejo.
_Certo. Eu vou me trocar e estou indo para aí. Conversamos melhor.
Conhecera Klaus em algum treinamento e trocaram poucas palavras, mas Heero sentia-se como se tivesse perdido um colega de trabalho de todo o dia. Não importava se foram próximos ou não, se se viram uma vez ou se se conheceram – a irmandade dos bombeiros os unia pelo voto que fizeram de servir e proteger mesmo com o custo de suas vidas.
Enquanto se arrumava, Heero ligou a televisão no canal de notícias e aprendeu mais detalhes sobre o ocorrido.
O contêiner estivera liberando fumaça há aproximadamente uma hora quando os bombeiros chegaram para investigar. Então, houve a explosão que atingiu dois contêineres próximos, o fogo se espalhando rápido pelos produtos químicos guardados nas grandes caixas de ferro desgastadas do sal e da chuva. Era um desastre em fabricação. E já tinha custado uma vida.
Heero suspirou, trajando seu uniforme de serviço e conferindo a farda para o funeral. Sem compreender-se bem, sentia-se anestesiado enquanto dirigia. Se olhasse em direção do litoral, via a grande nuvem cinzenta macia, avolumando-se contra a escuridão noturna. Bufava e esfregava o rosto, obrigando-se a sensibilizar-se. Chocara-se tanto que não enxergava de repente o que tudo aquilo significava para si. Não haviam tido uma baixa há anos. Era penoso de aceitar.
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O enorme relógio digital perto do sino marcava seis e quinze da manhã.
_Não precisava ter vindo já. –Quatre franzia as sobrancelhas, infantil, privado de mais palavras. Eram desnecessárias de qualquer modo. Ele bem que gostaria de ser mais insensível, mas prático, diante daquelas infelicidades, prováveis como eram na profissão que escolhera. Entretanto, fora criado para celebrar a vida, valorizar a morte, respeitar os momentos, dando à felicidade e ao sofrimento seus devidos lugares.
Heero sacudiu a cabeça, irritadiço, procurando um copo de café. Rapazes de outros turnos também tinham afluído ao quartel, como se tivessem de estar ali, sem conseguir se sentir à vontade em qualquer outro lugar. Era um modo de se apoiarem, a perda real demais para simplesmente deixá-la passar.
_Não faz diferença. –e sentou em um dos sofás da grande sala comunal. Dois soldados da sua equipe tinham ligado a TV e a certa distância, Heero olhava as imagens moventes na tela, indolente, sabendo que não haveria novidades. Queria poder fazer mais além de esperar, assistir, lastimar. Contudo, o capitão não ia liberar mais ninguém até o início do próximo turno e a perícia só se iniciaria quando a fumaça se dissipasse e fosse relativamente seguro se aproximar.
Quando o turno de Heero começou, às oito horas, ele foi orientado a permanecer na companhia, substituindo Quatre, para receber qualquer que fossem as informações que chegassem e decidir o que fazer com elas. Sabia que já havia sido decidido que ele iria representar o grupo no funeral. Outros soldados acabariam acompanhando-o, de acordo com o andamento da operação.
Duo chegou com o grupo extra que fora montado pouco depois. Tinha emendado dois turnos e como lidar com o incêndio no porto era um trabalho de persistência, podia dar-se ao luxo de descansar até sua próxima escala.
Sentou na frente da mesa de Heero com um copo de café e um pretzel enorme.
_Onde achou isso? –Heero desviou a atenção do computador e recebeu Duo sem nenhum cumprimento, intrigado sobre o pão.
_Lá na cozinha. –e partiu o pretzel em dois, entregando um pedaço a Heero. –A cidade inteira está envolvida. –mencionou feito Heero não soubesse.
_Você se ofereceu para ir? Ficou aqui de bobeira depois do turno? –e depois deu uma mordida feroz no seu pedaço.
_Não… combinei com o Johnny de emendar para poder sair com Ane hoje à noite.
_Vocês trocaram?
_É, ele vem fazer meu horário às 4 horas.
_Só que o capitão sabe, não é? –e cobrou, estreitando os olhos.
_Claro, né? –e fez-se indignado, sacudindo a cabeça, revirando os olhos. Heero assentiu, agradecido, desconsiderando todo o show do amigo. –Conversei com ele depois que você foi embora. O Johnny aproveitou para ir ver a família…
Voltando-se para o computador, Heero terminou de ler a reportagem. Fizeram um silêncio estéril momentâneo, cada um mastigando o pedaço macio de seu pretzel, pensando em nada.
_O que fez lá? –Heero fechou o navegador e virou-se para o amigo, entediado com as notícias.
_Cheguei às três e meia e passamos todo esse tempo ajudando a resfriar os contêineres. A fumaça vai causar estrago no céu. –explicou banal, debruçando um pouco sobre a mesa. –Onze contêineres pegaram fogo. Todos continham produtos químicos.
Heero assentiu como única reação.
_Além do Klaus, mais dois soldados se feriram com o impacto. –e mais grave, revelou. Isso ainda não tinha dado em nenhum jornal.
_Em que estado eles estão?
_Estou sem atualizações.
_E como está a cobertura dos repórteres lá?
Duo soltou uma risada malvada:
_Eles construíram um cerco, mas estão morrendo de frustração por terem de gravar de longe. A área teve de ser evacuada, eles estão no limite do permitido…
_O chefe vai dar um relatório no jornal do meio-dia. –e Heero apoiou o rosto na mão.
_Vamos ver o que vai acontecer… a previsão é que leve mais umas trinta horas para encerrar a operação.
_Razoável. O pessoal da policia já ligou…
_Foi convocado pra compor o grupo de perícia?
_Pois é. Acho que vai ser um trabalho rápido.
_Acho que sim. –e Duo deu de ombros. –Que horas são?
_Nove e dez.
Duo anuiu, à toa. Levantou-se da cadeirinha e espreguiçou-se como um gato:
_Vou para casa descansar um pouco. Nos vemos mais tarde. –e despediu-se despreocupadamente.
_Até.
Duo não quis mencionar, mas os dois sabiam que seu próximo encontro seria no banco da igreja ortodoxa de Cristo, o Salvador. Heero ouvia as gaitas de fole já, assombradoras, voltando a ficar estupefato.
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A quantidade de jovens segurando seus quepes no colo com mãos enluvadas de branco transmitia inegável solenidade ao ambiente pesado e antigo da igreja. Elegantes demais, em geral pareciam mais honrados do que cabisbaixos. A seu lado, Heero tinha uma oficial que apertava os lábios para conter o pranto. O distintivo na farda dela indicava que estava na mesma companhia de Klaus.
O chefe do departamento falou primeiro, bastante comovido, e por isso incapaz de oferecer palavras muito tocantes. Ele não queria parecer desencorajado na frente de boa parte do corpo de bombeiros.
O capitão da companhia foi mais eloquente e emotivo, entretanto, cedendo mais a dor do que se detendo pela compostura. Convidou a viúva, que parecia uma menina em um vestido preto severo demais, para receber as honrarias que cabiam e expressar em nome de todos as sinceras e sentidas condolências.
Por último, enquanto a moça segurava uma placa de mérito usando um rosto que lembrava a imagem de uma Maria lacrimosa, o capitão tirou do bolso o anel de bombeiro que Klaus usava e estendeu-lhe com grande solenidade. Ela soluçou, olhando a pedra vermelha faiscando com os poucos raios de sol que conseguiam entrar na igreja.
Heero sentiu seu semblante descair com a cena, a moça a seu lado levou um lenço até o nariz com desmedida força, sem ter derramado uma única lágrima até então. Ela quis cumprir a tradição de chorar sem reservas sobreposta pelo gemido agridoce das duas gaitas de fole que estiveram presentes no momento do enterro, desfiando suas notas que penetravam em todas as fibras.
Repetindo-se como um cruel refrão, o brilho da pedra daquele anel ficava ofuscando a mente de Heero, mesmo em posição de sentido, assistindo o ataúde ser depositado na sua morada final.
Todos os soldados tomavam a ocasião como a manifestação máxima de memento mori. E não sabiam se deviam sentir medo ou uma simples e profunda conformidade.
Quando a cerimônia terminou, todos dispersaram, obrigando-se a lembrar de que havia trabalho a fazer. A vida não tinha tempo para apreciar sua própria fragilidade.
No final das fileiras de pessoas que acompanharam o sepultamento, estava Akane de braços cruzados dentro de um tailleur preto, respirando pesado. Heero encontrou-a facilmente e parou ao seu lado, sem vontade de dizer algo, brincando com o quepe em suas mãos.
_Está tudo bem? –ela resmungou, por instinto, tocando-o no ombro.
Assentiu, vestindo o quepe, certo que ela entenderia sua falta de palavras.
De fato, ela anuiu com debilidade. Conhecia o falecido só pela foto publicada na televisão, mas viera porque sabia quão importante era aquele momento para todo o corpo de bombeiro, o pagamento de um tributo, um ato de respeito.
Duo apareceu então, andando com Quatre. Abraçou Akane, prendendo-a a si, e beijou-a no alto dos cabelos. A impressão funesta caía sobre ele também. Estava calado demais.
Heero registrava a cena. Então admitiu que o fantasma gelando seu sangue ali era a figura de Relena com aquela mesma expressão enrijecida, perdida, que a senhora Vasilovich foi obrigada a exibir na flor da juventude, todos seus sonhos interrompidos.
A partir de então teria que tomar o dobro de cuidado.
Troco um olhar significativo com Duo.
Não, o triplo.
Bom dia!
Olha o capítulo 3! Yay!
Gente, escrever aquela seção de recapitulação lá em cima é uma tarefa árdua! Isso quer dizer que minha fic não tem conteúdo? :O
Demorei um pouco mais que um mês e espero não demorar também em trazer o próximo capítulo, mas não se pode ter certeza agora que as férias acabaram.
Espero que estejam gostando.
Não levem alguns pormenores muito a sério, sim?
Deixem também suas reviews!
Beijos!
31.01.2016
