No último capítulo…
Ao receber a notícia sobre o acidente no porto que tirou a vida de um bombeiro, Relena entra em desespero, sem conseguir parar de pensar que Heero havia morrido. A percepção de quão exposta ela e seus sentimentos estão à tragédia a deixam muito fragilizada. Akane, Tint e Daniil se unem para fazer o possível para que ela se sinta melhor, dando-lhe as notícias e o apoio de que necessita. No fim do dia, Heero faz uma visita que dá consolo para os medos e inseguranças de ambos, os aproximando sempre mais.
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5
Ela baixou o braço e sustentou-se, erguendo-se um pouco na cama. Seus cabelos estiveram espalhados pelo travesseiro. Olhou em redor, tentando enxergar algo no escuro. A cortina aberta deixava a luz do poste entrar, ajudando Relena a se reconhecer em seu quarto.
Quando tinha ido ali? Sentou-se na beirada do colchão, remexendo na franja para colocá-la no lugar. Na cabeceira, o relógio dizia que eram três horas. Como tinha chegado até sua cama? Forçava a mente, mas o último registro era Heero sentado a seu lado, mexendo em seu cabelo como quem canta um mantra.
Acendeu a luz e seu reflexo no espelho da penteadeira a mostrou usando as roupas daquela tarde ainda. Que pedaço do quebra-cabeça estava faltando?
Levantou-se devagar e começou a se despir para tomar uma ducha.
Uma vertigem leve incomodou sua vista. Levou uma mão a têmpora com a pontada. O remédio tinha perdido o efeito. Que estranho. Normalmente ele a fazia dormir bem a noite toda.
Enrolou-se na toalha, com frio de repente, e cambaleou até o banheiro.
Só debaixo do chuveiro conseguiu pensar claramente. Deve ter dormido no sofá, encostada no ombro dele. Heero certamente a carregou para a cama.
_Como um príncipe… –murmurou, risonha e embaraçada, sentindo a água escorrendo por ela, mas não lavando a sensação que sua pele parecia lembrar. Parecia frívolo, mas era impossível não se encantar.
Sua vida sempre tivera sido tão fácil que nunca teve expectativas. Sabia que tudo iria acontecer exatamente como queria, no momento certo, e não precisava gastar energias ansiando. Talvez por isso sentisse tão intensamente aquela nova dependência pelo rapaz. Ela sempre se sentira gratificada por tudo o que fizera, mas as emoções que Heero despertara nela conferiam uma elevação no seu padrão do que era viver.
Tinha um motivo a mais para acordar.
Antes de voltar a dormir, foi buscar o celular esquecido na sala, a única garantia de que acordaria na hora certa para iniciar a semana.
Por impulso, checou suas mensagens e viu na janela de Heero a mensagem que deixou anotada ali, sem enviar. Sorriu para a fotinha dele, ele estava de uniforme de serviço com o caminhão vermelho no fundo.
Apertou enviar e afundou no travesseiro, simplesmente feliz.
Tinha mais duas horas para dormir.
Não soube por que se preocupou com o despertador, já que o liquidificador começou a funcionar pontualmente às seis e meia. A vitamina de Tint era o topo da lista de tarefas matinais.
_Como você está hoje?
_Estou bem.
_Hm… dá para ver. –Tint não sabia economizar malícia. –Dormiu bem.
_É… como sabe? –e Relena decidiu fazer o jogo dela.
_Ah, sei lá. Talvez por que quando eu e Daniil voltamos do supermercado, Heero veio encontrar a gente, vindo do seu quarto.
Relena corou, talvez as lembranças que tinha dele acariciando seus cabelos não tinham nada a ver com o sofá.
_Ele estava todo vestido, porém. –Tint fez uma cara de aborrecida, limpando o bigode de espuma com o dorso da mão. –Tá certo que isso não significa nada. –e seu sorriso era praticamente diabólico.
_Pelo amor de Deus, Tint, pare com isso… não pensa em outra coisa?
Ela deu de ombros, feito não pudesse evitar.
Durante a manhã, o grupo principal teve algumas reuniões. A lista de classificação dos bailarinos do recital foi repassada para ser divulgada após o almoço. Também, definiram os últimos critérios para anunciar as audições na sexta-feira e falaram muito da coreografia. Perto das onze horas, foram para o estúdio experimentar as ideias e discutir mais na prática as propostas. O ambiente descontraído os fazia esquecer que estavam trabalhando. É assim que acontece quando se faz o que gosta.
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O celular despertou meia hora mais cedo, conforme a programação que ele tinha feito. A farda ainda estava jogada na cadeira e ele não pensava em levá-la ao tintureiro antes da operação no porto acabar, mesmo que não fosse precisar mais dela. Os outros dois bombeiros que tinham se ferido saíram do estado grave. Não haveria mais baixas.
Saiu de casa só com café preto no estômago. Ligou o rádio no carro, para variar. Fugiu das estações de notícia e músicas pop, encontrando uma estação de jazz. Ajudava a distrair a mente todos aqueles sons versáteis e contrastantes, colocava uma trilha sonora na cidade.
Antes de entrar na roupa de combate, deu uma olhada no telefone, notando enfim que tinha uma mensagem:
"Não consigo parar de pensar em você."
Relena mandara a mensagem de madrugada. Ele encarou as palavras mais alguns segundos antes de trancar o aparelho no armário. Sorriu sozinho, encabulado, retornando aos poucos aos acontecimentos da noite anterior. Poderia ter ficado com ela o tempo todo, deitado a seu lado, penteando seus cabelos com os dedos até adormecer também. Foi a primeira vez que se separaram sem se despedir, sem uma palavra ou beijo sequer. Ele a deixou na cama, dormindo com os anjos, assim que ouviu os ruídos do casal que chegava, cheios de sacolas.
Desde então, se achava como que ainda conectado nela, a comunicação não tendo sido encerrada apropriadamente. Ou seria simplesmente assim agora. Sentiu que houve uma fusão de corações. Não estava certo de que conseguiria se distanciar dela sem perder um pedaço de si.
Encontrou seu grupo animado e partiram para o porto fazer sua parte em sufocar as chamas e eliminar a fumaça. Ainda havia muito trabalho pela frente, as reuniões com a equipe de perícia e a papelada para conferir.
Não havia nenhuma ação, seguindo as ordens, manejando as mangueiras, conferindo a situação do alto das Magirus ou pelas imagens que o helicóptero enviava. Aquela simplicidade era agradável e ver a cooperação de tantos soldados dava uma sensação de valor e utilidade, fazia-o muito satisfeito com seu trabalho. Tinha nascido para isso e desse modo, era muito respeitado.
Todos pediam sua opinião, ele dava sugestões nas estratégias confiando que seriam consideradas antes de qualquer decisão. Seu ponto de vista treinado e aguçado era uma joia para todo o corpo e a dedicação que ele empenhava em cada curso e especialização que recebia como gratificação o transformava no tenente mais próximo a uma promoção entre todos. Ele não ambicionava nada além do reconhecimento de seu trabalho, porém. Sabia que liderar era uma tarefa honrada e árdua, que não devia ser desejada levianamente ou assumida só para acariciar o ego.
O chefe do departamento estava lá naquela tarde novamente para outra entrevista. Ele parou para conversar com todo mundo que estava por ali, descansando um instante, tomando um café ou recebendo novas ordens.
_Um dia precisamos sair para beber. –e ele tocou Heero no ombro, de supetão, fazendo-o torcer o nariz.
_Sim, senhor. –e limitou-se a dizer.
_Você sempre está sério demais.
_Não vejo problemas nisso. –monótono, Heero se expressou, a máscara de oxigênio pendurada de lado ocultando um pouco sua frustração com o comentário.
_Não se preocupe, chefe, o Yuy tem uma garota agora. –um dos rapazes da companhia denunciou, maroto.
Heero enviou uma olhada de canto abrasiva para o colega que apertou os dentes, de repente preocupando-se com as consequências de sua língua solta. Heero levava sua privacidade muito a sério.
_Isso é verdade? Então temos que marcar um jantar. –o chefe sorriu, parecendo sinceramente contente, e Heero assentiu por mero respeito. –Seu pai já sabe?
_Não. –e aborreceu-se pelo que tinha que dizer a seguir. –Ainda estamos nos conhecendo. –não era verdade, nem a sombra dela. O que ele e Relena estavam nutrindo era muito mais íntimo e profundo que algumas saídas ocasionais para ver onde podiam chegar.
_Está certo. Me mantenha atualizado. –o chefe instruiu, feito falasse de trabalho, feito tivesse algum direito naquela informação, mas só estava sendo bondoso. E era apenas nessas horas que Heero detestava ser tão proeminente no departamento.
O chefe prosseguiu com seus cumprimentos, o sorriso debaixo do bigode incansável, e Heero se virou para seu colega:
_Por que teve de falar aquilo?
_Oras, Yuy, não leve a mal. O chefe está certo: precisa apresentar a madame para a companhia. Devíamos ter um jantar. Estamos precisando de um motivo para beber mesmo.
Heero revirou os olhos e desistiu de irritar-se.
Antes de fazê-la passar por todos aqueles constrangimentos, tinha que tomar uma atitude decisiva. E no final, eles estavam certos – precisava mesmo marcar um jantar.
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_Yes! –Akane exclamou, extática, e saiu gargalhando, dando espaço para os outros bailarinos checarem os resultados. Ela correu para uma colega e, de mãos dadas, pularam como meninas de três anos, cirandando cada vez mais rápido. Por enquanto, ainda não havia muito motivo para inveja. O ranking não tinha resultados discrepantes. E como não havia eliminação – fora mais uma prova – não se via quase carinhas tristes.
Eleita para o segundo lugar da lista, Akane garantira presença no corpo de baile que estaria com Relena como as chamas do Pássaro de Fogo. Não via a hora de começar os ensaios. Já se sentia abençoada com a oportunidade, mas não ia deixar de competir por um papel.
Quando entraram no estúdio para começar a aula, os ânimos já tinham se conformado. Sem sentimentalismos, o professor não deu tempo para conversa fiada e fez todo mundo correr para a barra e iniciar o aquecimento.
Akane procurava Relena pelo espelho, mas ela tinha ficado praticamente no fim da fila e não havia como trocarem olhares. Ela tinha mais interesses em ver Relena além de comunicar a alegria de dançarem juntas. Precisava avaliar como ela parecia depois daquele domingo tão tumultuado.
Entre a prática e avaliação tiveram um intervalo muito breve e Akane decidiu que falaria com ela depois da aula, entregando-se totalmente aos exercícios do dia. Estava na sua obrigação mostrar empenho agora.
Depois que a turma Akane fora avaliada e corrigida pelo professor, ela pegou sua toalha na barra e achou Relena sozinha, sentada alongando-se no fundo da sala. A aula estava perto do fim e não havia mais nada para as duas fazerem até o professor chamar todos para suas palavras finais.
Enquanto ia em direção de Relena, observou a senhorita Une e Lorde Kushrenada. Eles estavam trocando cochichos sobre algo que notavam na avaliação que o professor conduzia então.
_A senhorita Une nunca vem vestida para dançar. Ela bem podia mostrar alguns truques para nós. –Ane se enxugava na toalha ao se aproximar. Relena olhou-a com um sorriso cansado, encolhendo as pernas, encerrando os alongamentos. –Posso me sentar?
_É claro. –mostrou o lugar a seu lado. Deu um sorriso sábio, tímido, antes de comentar: –Parece que agora vamos trabalhar mais de perto…
_Não sabe que privilégio é poder dançar com você. –e respeitosa, inclinou-se um pouco feito se dirigisse a uma realeza, e falou baixo e devotamente.
_O que é isso, o prazer é meu. –e seu sorriso ganhou mais força, simpático, a dramaticidade da menina a espantando. –Sua performance foi incrível. Como você faz para sair dos fouettes e executar um grand jeté com tanta facilidade?
Sacudindo a cabeça e desenhando com os lábios um sorriso surpreso e orgulhoso, Akane explicou:
_Dancei hip-hop paralelo com o balé minha adolescência inteira; fortalece muito. –e bateu nas próprias pernas, rindo despretensiosa. O professor lançou um olhar de reprova para ela.
_Interessante. –Relena assentiu, admirada.
_Muito obrigada mesmo. –e Akane voltou a expressar, sem saber organizar as emoções, mordendo o lábio.
_Imagina. –e Relena a observava, entretida com a atitude dela, vendo nos olhos verdes e felino de Akane fogos de artifícios de puro deslumbre. Não importava o que dissesse, aquela experiência sempre seria especial para Akane, por mais habilidosa que ela fosse.
No silêncio que restou, Relena se recordou de quando estivera no lugar de Akane, anos atrás, recebendo a oportunidade de dividir diretamente o palco com a primeira bailarina de sua época, que agora dançava na Inglaterra. Sentiu-se do mesmo jeito.
Relena foi despertada do feliz devaneio pela observação de Akane:
_Você parece bem.
Pela análise feita, Akane se sentia segura em afirmar. Deu um sorriso de canto, moleca, porém Relena via como os olhos dela perderam a intensidade e se enterneceram.
_Sim, agora estou. –confessou, encabulada.
_Eu fui muito dura com você ontem. Me desculpa, tá? –e levou sua atenção para a toalha em suas mãos, percorrendo o viés com os dedos.
_Não, está tudo bem. Você falou algo que eu precisava ouvir. –e sacudindo os ombros, Relena abraçou os joelhos, apoiando o queixo neles.
_Tem certeza?
Relena assentiu e percebeu que Akane ainda não tinha ficado contente. Suspirou, e antes que pudesse dizer algo mais, viu o professor gesticular para que todos se reunissem.
_Eu queria ter falado com você sobre isso antes da aula, mas não deu. –Akane murmurou enquanto se aproximavam dos outros alunos.
A voz de Akane estava diferente. Ainda não tinham intimidade, nem tiveram tempo de conversar, mas Relena percebeu que a menina exibia um interesse sincero demais para ser mantida a distância. Não podia deixar que Akane se sentisse desconsiderada quando tinha sido tão atenciosa. Além do mais, Heero apreciava-a muito.
Um pouco ansiosa, Akane olhou para ela duas vezes antes do professor começar a falar. Devia ter tido mais tato, devia ter sido mais delicada… não causou a boa impressão que planejara. Suspirou, estalando a língua.
Relena a tocou no ombro:
_Você me ajudou bastante, pode ter certeza. Obrigada por se preocupar. –e descobriu as palavras que iam aliviar a menina.
Akane sorriu e assentiu, realizada então. Só tinha sido essa sua intenção mesmo e sempre ganhava o dia por saber que tinha colaborado.
_Atenção! –o professor Nedved olhou certeiro para elas, batendo no taco o bastão que às vezes usava para marcar compasso e ameaçar os alunos.
Depois de garantido o silêncio total, Nedved passou a discorrer. Não era muito bom com elogios, mas as críticas que fazia podiam irritar a ponto de se querer provar que ele estava errado. Os bailarinos as escutavam desinteressadamente, porém, porque uns trinta por cento do que ele reclamava era pura ranhetice. Akane deu uma olhadela para o lado da senhorita Une e a encontrou risonha com o que ouvia. Nem ela se impressionava tanto assim com as cobranças de Ned.
Tint se reuniu a Relena e Akane e juntas foram para o vestiário.
_E como você está? –Tint enganchou-se em Akane, dando um solavanco.
_Bem. –e até soou meio monótona.
_Só isso? Pensei que você ia dizer maravilhosa, fantástica, depois de saber que é a segunda no ranking!
_Ah, é sobre isso que está falando… –e Akane gargalhou por ter traído a si mesma. –Nesse caso, nem sei explicar minha felicidade! Estou honrada!
_Se a gente comparar nossos grupos, o principal e o avançado, eu e você estamos na mesma posição. –Tint arrazoou de um jeito que Relena ainda não tinha visto. Akane pareceu ensoberbecida, porém ninguém sabia se era só atuação.
_Eu sou da elite agora. –e brincou, arrojando a voz e jogando espalhafatosamente o cabelo ruivo que tinha acabado de soltar.
Relena sacudiu a cabeça, divertindo-se. Sentaram-se para desatarem as sapatilhas.
_Quer saber por que não ficou no topo da lista? –Tint ofereceu.
Akane interrompeu o que fazia e se mostrou atenta:
_Quero. –sabia que um conselho valioso lhe seria apresentado.
_Expressão facial: você ficou cantando junto da música. –e Tint deu uma risada malvada.
Akane franziu o rosto, revoltada consigo mesma:
_Droga. –e armou um bico cômico demais para significar fúria.
_Daniil tentou interceder, mas Ned não abriu mão. –Relena murmurou segredando e saiu para se trocar. Tint deu umas palmadinhas no ombro de Akane, consolando-a, e depois as duas riram, bobas.
_Estou contente. –e Akane confessou, suspirando sonhadora.
Relena e Akane aguardaram Tint combinar algo com Daniil para saírem, e as três pararam na base dos degraus do lado de fora do conservatório, feito ainda houvesse algo a ser resolvido.
_O que vão fazer agora? Eu tenho que ir na limpeza de pele. –Tint não estava nada empolgada para o compromisso.
_Importante. –Relena assentiu, motivadora, pensando que ela também precisava começar com as suas sessões.
_Eu tenho que esperar minha carona… se é que eu vou ter uma…
E nesse momento, uma buzinada fez as três se virarem.
_Ah! Duo! –Akane saiu saltitando até a grande Harley Davidson.
Tint levantou as sobrancelhas para Relena e as duas a seguiram.
_Esse aí eu não conheço. –e Tint chegou falando no meio do beijo intenso demais dos dois para ser só um cumprimento.
_O que ela quis dizer com isso, Ane? –Duo pulou na brincadeira.
_Ah, nada, nada… –e riu, porém entre os dentes rosnou para Tint "te mato".
_Sou Duo Maxwell. –impaciente, ele se apresentou. –Boa-tarde, senhoritas. –e ergueu os óculos de sol para elas a moda de chapéu.
As duas riram:
_Tint. –ronronou. Lembrava-se dele daquela noite no clube vagamente, mas tudo o que Akane tinha lhe contado estava ali, alicerçando sua análise.
_Relena. –pronunciou com clareza e refinamento. Estendeu-lhe a mão.
Ele não esperava pelo gesto, e enquanto tomava a mão dela fez uma expressão de pasme e suspense pelo nome que ouvira. Akane riu, entendendo o que ele ia fazer:
_Pare com isso, seu bobo! –mas já era tarde e ele estava beijando a mão dela, antiquado. Tint o encarava com estranhamento, talvez até nojo.
_Então você é a famosa Relena. –e os olhos chamejavam com malícia, medindo-a inteira depois de devolver-lhe a mão.
_Hã? –Relena ficou sem saber como agir diante de tanta gente animada e extravagante.
Duo riu depois e meneou a cabeça, resolvendo não constrangê-la mais, contentando-se em observá-la. Estava curioso sobre o jeito inocente e elevado dela, intrigado sobre o que exatamente tinha conquistado Heero. Ela realmente tinha um brilho incomum, cativante.
Parando para prestar atenção no uniforme que o rapaz usava, Relena entendeu enfim a graça:
_Você trabalha com Heero. –e estreitou os olhos para apresentar sua dedução.
_Sim. –ele mordeu o lábio, descontraído.
Relena sacudiu a cabeça, esclarecida, perguntando-se porque era dita famosa. Heero não tinha jeito de quem contava vantagens. Deixou para lá.
_Vamos? Eu tenho que voltar para o quartel. –e Duo entregou o capacete para Akane, soando responsável então.
_Relena, não quer ir lá para o alojamento? A gente podia conversar um pouco.
_Pode ser, estou livre… –e hesitou um pouco em aceitar. Acabou caindo na pergunta "por que não?".
Todos vestiram seus capacetes e subiram em suas motos. Tint separou-se deles com buzinadas no primeiro semáforo.
Duo corria muito e Relena não tinha como acompanhar, até porque não tinha concorrência entre a Davidson e a scooter. Aproveitando o tempo sozinha, ficou mergulhada em pensamentos. O entrosamento de segundos atrás a deixou animada, nunca tinha se sentindo tão rejuvenescida como naquele ano. Será que sua vida tinha sido chata até então? Devia se dedicar a dança, não tinha escapatória. Porém… talvez tivesse se isolado do mundo sem perceber. Talvez por isso Tint costumasse dizer que ela precisava se divertir mais, se soltar… talvez não fosse só implicância, talvez fosse verdade. Não se aborrecia com a percepção. Sabia aceitar com gratidão todas as lições. O balé ensina muita humildade.
Quando viu o prédio do alojamento despontar, localizou Akane e o namorado encostados na moto, discutindo algo enquanto a esperavam. Riu, sem saber por que se sentindo ridícula por chegar depois. Eles nem pareceram notar.
Duo colocou o capacete de novo e saiu assim que ela estacionou, e Akane jogou a bolsa por cima do ombro, aproximando-se dela.
_Eu falei para ele ir mais devagar, mas não me escuta. Diz que não tem medo de morrer… –Akane foi discorrendo enquanto Relena terminava de se ajeitar. –Só não conta pro Heero, viu? –e pediu, desanimada.
_Seu segredo está guardado. –riu, bem-disposta.
Fazia muitos anos que Relena não entrava no alojamento. Tinha boas lembranças. Não dos primeiros seis meses, é claro, os mais difíceis da sua vida. Morar sozinha no meio de tantos estranhos. A pouca idade e a vida protegida que tinha vivido até aquele momento não facilitaram sua adaptação. Quem sabe não foi ali que acabou se distanciando do mundo?
De qualquer modo, graças a sua docilidade e força de pacificação, sua ingênua autoconfiança, conseguiu fazer bons amigos, que mantinha até então. Por isso encheu o peito e sorriu para si mesma. Boas lembranças.
_Zenia! –Akane se adiantou para ir abraçar a mulher rechonchuda atrás do balcão, que servia como uma espécie de recepção.
_Oras, Yora, todo dia vai ser assim? –a mulher retribuiu o abraço com agastamento, apesar de sorrir.
Akane só resmungou afirmativamente, separando-se dela.
_Como foi o recital?
_Fiquei em segundo lugar!
_Parabéns! –e por pouco não abraçou a menina de novo. Riu, contentada.
_Obrigada! Olha só quem veio comigo…
Zenia foi forçada a virar-se na direção que Akane mostrava. Relena sorriu, abanando com a mão livre.
_Senhorita Darlian!
Relena deu de ombros, sem graça, avançando devagar até a mulher. Na sua época, ela tinha sido bedel da área feminina.
_Sentiu saudades? –e arriscou brincar depois de ver como ela tratou Akane.
_E como! Nunca mais tivemos uma bailarina como você aqui. –e deu um abraço nela também, bastante carinhoso. Relena entendeu então porque Akane insistia nos abraços. Era deliciosamente fofo dentro dos braços da mulher. –Venha nos visitar mais vezes!
Relena assentiu, embora sem intenções de cumprir.
_Tem uma encomenda aqui para você, Yora.
_Mesmo? –e recebeu um grande pacote retangular pouco espesso, mas macio, que Zenia puxou de debaixo do balcão. –Yay! É da mamãe! Depois te conto o que é. –piscou um dos olhos.
Zenia gargalhou e voltou para seu banquinho ao mesmo tempo em que as meninas se dirigiam para a escadaria.
_Onde era seu quarto aqui?
_Eu tive dois: no segundo andar, o 10A, e depois no quarto andar, o 42B.
_O meu é no terceiro andar, 39A.
Subiram em silêncio, Relena observando seu redor e notando como nada mudara. Os degraus rangiam exatamente no mesmo tom. Até as teias de aranha seguiam nos mesmos lugares. E era tão caro o condomínio…
_Chegamos! Jogue suas coisas aqui… –e Akane mostrou uma poltrona perto da janela. Deixou sua bolsa na cama e sentou-se com um pulo no colchão, pronta para estudar o pacote.
Relena a obedeceu e deu uma volta pelo quarto. Akane tinha roupas de cama vibrantes e trouxera alguns objetos de decoração, dando ao ambiente sua própria personalidade. Não parecia nem um pouco o aposento genérico em que Relena ficara. E o que mais gostou foi o enorme espelho de corpo inteiro adaptado na parede do armário.
_Você treina aqui?
Para responder, outra vez Akane resmungou afirmativamente.
_Minha mãe me mandou um figurino para a audição! –e compartilhou a seguir, estourando a beirada do envelope, deixando escapar um babado verde-floresta. De repente, o pacote se inflou, feito não pudesse mais suportar seu conteúdo. Com cuidado, Akane puxou o babado até que o tutu saiu, dobrado várias vezes. Depois, ela puxou o collant com filigranas e pedrarias e, dentro deste, havia uma tiara russa, chamada kokoshnik, de tecido bordado combinando.
Enquanto Akane alisava o collant sobre a cama, Relena pegou o tutu, o desenrolou e sacudiu, para que recuperasse a forma.
_Que maravilhoso! –e não podia evitar deslumbrar-se. Akane sorriu para ela, bastante animada também. –Sua mãe é muito talentosa! Heero tinha comentado…
_Quer experimentar?
_Posso? Mas… –e apesar de não achar educado aceitar, não desgrudava os olhos da linha do decote decorada de strass.
_Não esquenta com isso! –Akane assentiu, incentivando, erguendo o collant e colocando na frente do corpo de Relena.
Relena mordeu o lábio.
_Ah, se insiste… –e cedeu.
Quando voltou do banheiro trajando o collant, Akane a ajudou com tutu.
_Que fantástico! –Relena se olhava e repetia, reverente, lembrando-se de sua pessoa de quatro aninhos com a primeira fantasia de dança. O grande espelho oferecia uma visão perfeita, e as duas analisavam os detalhes, extasiadas.
_Agora, a tiara. –Akane amarrou a fita que passava por baixo dos cabelos, para ajudar a fixar o adereço.
_Você precisa mostrar o trabalho de sua mãe para a equipe do figurino. –Relena acertou a tiara com as pontas dos dedos. –É espetacular, nunca vi nada igual! –virou o rosto para lá e cá, examinando o seu perfil. –Precisamos pelo menos desses adereços! Acha que podemos encomendar treze tiaras como essa com sua mãe? Ela faria a tempo?
_Acredito que sim. Não devem ser assim tão complicadas. Vou dar um toque para ela.
E as duas ficaram olhando o reflexo cintilante no espelho.
Enfim, desprendendo o tutu, Relena voltou-se para Akane:
_Vai tentar um papel de princesa?
_É, já estou trabalhando na coreografia desde o anúncio da montagem.
_Vai conseguir. –e entregou o tutu para Akane. Tanta determinação só podia levá-la ao sucesso que desejava.
_Bem, acho que sim. Afinal, são doze princesas… –e riu, despretensiosa. –Tem que sobrar uma para mim.
_Não é só por isso. Você é muito habilidosa. Com metade do que fez no recital, você passa. –Relena elogiou, desinibida. Sabia que Akane era mais confiante do que isso.
Mas para sua surpresa, ouvia-a rir de novo embaraçada:
_Não é para tanto. –e deu de ombros, fechando o tutu e colocando-o espraiado na colcha.
Relena deixou um sorriso esboçado enquanto assistia Akane arrumar o tule. Desamarrou a tiara e a desprendeu de seus cabelos, pousando-a na cama perto da saia. Achava curioso o modo de Akane ser humilde sem ser pedante ou exagerada. Ela era ambiciosa, mas não obsessiva. Bailarinas assim iam longe.
Ao retornar vestida, pegou o cabide que Akane separara para o collant e o pendurou na maçaneta da porta do banheiro.
_A senhorita Une e o Lorde Kushrenada não param de olhar para você, percebeu?
Relena deu de ombros, começando a trançar os cabelos, sentindo-se encalorada.
_Já pensou no que isso significa? Não vejo a hora de eles anunciarem os planos…
_Pois é… mas vão fazer isso só depois das apresentações. Você está disposta a ir para a Bélgica?
_Com certeza! –e Akane rodopiou pelo quarto. –Imagina o quanto eu poderia me aperfeiçoar? –parou na frente do espelho, corrigindo sua postura, a posição dos pés, treinando as cinco posições básicas, concentrada em seu próprio olhar no reflexo. –Não dá pra não sonhar com isso.
Relena assentiu, parando ao lado dela na quinta posição, realizando uma pirueta. O assoalho colaborava bem para os movimentos. Repetiu a pirueta e as duas trocaram risadas cúmplices.
Depois, Akane deu um nó no próprio cabelo e foi até sua pequena geladeira, tirando de lá duas garrafinhas de água.
_Então, está preparada para a verdadeira diversão? –e jogou uma garrafa para Relena, marota.
_O que está aprontando? –Relena destravou o lacre da tampa.
Akane bebeu quase tudo antes de mencionar:
_Lya já deve ter chegado também.
_E?
_Ela tem Kinect! Vamos jogar Just Dance!
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Heero jogou as chaves na mesinha de canto e bufou, correndo a mão pela franja. Já faltava quinze para as duas. Sentou no sofá com o pacote de papel pardo e tirou de dentro o enorme hambúrguer do Burger King. Precisava de um banho decente, mas o estômago estava mais exigente e por enquanto a ducha que tomara no quartel bastava. Pelo menos, estava liberado naquela manhã. Só ia se reportar depois do almoço, para ficar de plantão. Aquela operação no porto bagunçou todos os turnos de todas as companhias, mas estava dando resultados. Até o fim daquele dia, a fumaça já teria dissipado.
Ligou a TV e mordeu o lanche, logo apertando freneticamente o controle remoto. Nunca tinha nada interessante passando aquele horário. Parou em um canal que estava mostrando várias propagandas de venda por telefone e ficou hipnotizado pela demonstração de algumas facas coreanas. Definitivamente, tinham que encomendar uma dúzia para a companhia. Elas eram imparáveis. Talvez se conseguissem um lote sem aquelas rosas decorativas na lâmina…
Procurou o celular no bolso. Quase ligou para encomendar uma faca, só para ver se ela era tão afiada mesmo. Na barra superior da telinha, um alerta de mensagem recebida.
Era de Akane, uma foto, uma selfie dela no meio de quatro garotas, todas elas fazendo caretas diversas, com exceção de uma que só oferecia um sorriso enorme que até apertava seus olhos, corada e brilhante – Relena. De legenda, Akane enviou:
"Competição de Just Dance."
"A Relena ficou em último. Não leva o menor jeito." Na sequência, nada menos que cinco emoticons que choravam de rir.
"A propósito, fiquei em segundo lugar no recital. Parabéns para mim." Emoticon de aplauso.
"Parabéns." –ele respondeu, divertido. "Precisamos conversar. Podemos almoçar?"
Ela só ia ver de manhã. Mas tinha tempo.
Abriu a janela de Relena.
"Não consegui ligar. Como foi seu dia?" –digitou velozmente.
Parecia insosso. Podia fazer melhor que isso. Afinal, ela tinha mandado algo do fundo do coração.
Bufou.
Não sabia nem mandar uma mensagem.
De repente, abriu um sorriso sereno e relaxado pelo cansaço e escreveu:
"Você é minha alegria." –e esta sim ele enviou.
Boa noite!
Eu estou muito empolgada com essa história! Deu para perceber, não é? A seção de recapitulação lá em cima já está até virando uma coisa desnecessária.
Sempre me animo com enredos assim, cheios de diálogos, fatos rotineiros, aleatoriedades. Para mim, isso é que viver - celebrar o fascínio das pequenezas.
Quero explicar que decidi usar o título "Lorde" para Treize por que seria algo mais próximo, mais fácil para a gente entender, e elimina a necessidade de explicações demais, mas na Bélgica, o título dele seria "Jonkheer".
Agora, vou tentar dar uma atenção para "Tentando a Sorte" e cuidar das tarefas do trabalho. Aguardem mais, logo, logo.
Como sempre, desconsiderem alguns pormenores.
Esse capítulo era para ter sido uma surpresa para a Lica, que ama tanto a fic.
Obrigada a todo mundo pelo apoio!
Espero que estejam gostando, deixem também suas reviews!
Beijos!
12.02.2016
