No último capítulo…

O mundo da primeira bailarina começou a ampliar-se mais e fazer mais sentido desde que Heero surgiu em sua vida. Relena começa a se aproximar mais de Akane após uma tarde divertida passada no alojamento do conservatório, jogando videogame e colocando a fofoca em dia. Heero está bastante atarefado com a finalização dos trabalhos no porto, mas tira tempo para fazer planos para ele e Relena.

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6

Foi preciso toda a manhã trocando mensagens para decidir em que restaurante ir. Não podia ser um lugar em que Relena pudesse aparecer. Tampouco podia oferecer apenas comidas pesadas e gordurosas no cardápio já que Akane ia dançar a tarde inteira. Só chegaram a um consenso quando ela entrou no carro.

_Pesquisei aqui enquanto te esperava…

_Sim?

_Acha que podemos ir a um restaurante vegetariano em China Town?

_Funciona bem… obrigada, eu sei que você detesta…

_Não, não me importo.

_É bom para a forma. Você está numa idade em que precisa se cuidar.

Ele desviou a atenção do trânsito lerdo e traiçoeiro:

_Não enche, Ane… –ordenou, monótono. Akane sabia que ele queria rir. A ideia de ela chamá-lo de velho era no mínimo ridícula.

No caminho, Heero deixou Akane contar tudo sobre o resultado do recital. Não resistiu um sorriso maroto enquanto ela super detalhava a tarde divertida no alojamento. Foi bom saber que ela manteve Relena distraída. Além de ter jeito para isso, Akane se sentia na obrigação de acolher e promover bem-estar.

Agora, no restaurante, era a vez de ele falar. Depois dos pedidos feitos, Akane apoiou os cotovelos sobre a mesa e usou as duas mãos para segurar o rosto, mergulhando em profunda mudez, dedicando uma atenção abissal.

Aquilo o sobrecarregou um pouco. Limpou a garganta, enxergando-se dentro dos olhos repentinamente enormes dela.

_Eu quero dar um jantar. –e esforçou-se em pronunciar calmamente. Não podia prever que reação ela ia ter.

_Tipo uma festa? –e ela investigou, já gostando da ideia.

_Não.

_Só um jantar.

_Sim.

_Para dois?

_É.

Akane assentiu, esclarecida, contendo uns barulhinhos de alegrias para não pressioná-lo. Notou Heero relaxar um pouco a postura, lembrando que não precisava se explicar para ela.

Enquanto as bebidas foram servidas, Akane pegou o celular para começar a organizar:

_Quando? –e bebericou o chá verde.

_Daqui aproximadamente duas semanas. –e bebeu também, mas careteando um pouco. O chá podia ser fraco, mas o gosto ainda era exótico demais para si.

_Em um sábado à noite? –e percorreu o calendário com olhos. Foi só Heero assentir e ela marcou a data. –Onde?

_Meu apartamento.

_Oh, vai ser algo bem especial. –e dessa vez deixou vazar sua felicidade. –A gente vai ter que fazer algumas alterações…

_Sim, pode ficar a vontade.

_Mesmo?

_Dentro de um orçamento…

_Não, claro. E o menu?

_Também pode ficar por sua conta.

_Ah, então eu quero cozinhar. Só que aí, eu vou ter de estar lá quando ela chegar.

_A gente pensa em alguma coisa.

_Bem, dá para eu ir amanhã à noite para observar o espaço?

_Vou ver como fica meu horário agora à tarde.

_Combinado. Agora vamos falar do pagamento.

_Hã?

_É claro. Além de eu te arranjar a garota, vou ter esse trabalhão organizando o jantar mais lindo do mundo de graça?

_Sim.

_Não. Heero, eu quero uma bicicleta.

A exigência dela era simplória.

_Não. –mas ele não tinha dó em destruir seus sonhos.

_Não-eu não tenho dinheiro ou não-não? –ela se permitiu compreender antes de se revoltar frente à tão intransigente negativa.

_Não-não. –ele reiterou, invariável.

_Por que não? –choramingou, magoada.

_Aqui não é como lá em casa. É uma cidade grande e perigosa. Como vai fazer quando chover? E vai ter ensaios até tarde, não é? É arriscado demais. Eu posso ir te buscar. Não é incômodo para mim.

_Ah, tudo bem. Vou pedir para o Duo. –ela resmungou, aborrecida.

_Ane… –repreensor, até se esqueceu de como o chá verde era amargo e bebeu um grande gole.

Ela o enfrentou com os olhos por um segundo. Depois, reclamou, infantil:

_Tá, tudo bem, esquece que falei isso.

E se enfiou em um silêncio amuado, mastigando a salada parecendo um dinossauro. Heero não se abalou. A qualquer momento, ela saia do emburramento. Ia ver a sensibilidade de seus argumentos. Aguardou com tranquilidade, sucumbindo a uma mentalização do passo que planejava dar, do compromisso que ia propor. Suspirou, incomodado.

_Não precisa ficar preocupado.

Ele tentou rebater, mas era inútil. Não importava o tamanho da certeza de que Relena reagiria bem, de que ela gostava de si, ainda afobava pensar que ela tinha duas opções de resposta.

_Vai dar tudo certo. Eu estou muito contente. Parabéns. É um passo importante.

_É um passo essencial.

Ela assentiu, divertida. Ele e seu senso de dever. Gostava de levar tudo a sério.

_Você também vai precisar de uma roupa legal.

_Eu tenho roupas legais… –ele se defendeu, afrontado.

_Ah, sim… camisa pólo, camisa pólo e, vejamos, camisa pólo. –e apontou para a que ele estava usando, do uniforme.

_Raios. –e estalou a língua, olhando para o fundo da xicara de chá, indisposto a tomar o último gole.

_Foi você quem me procurou… sabia que eu faço serviço completo.

Ele bufou, mais cansado que aborrecido.

_É um investimento. –ela alegou, querendo se justificar.

Heero não respondeu nem sim, nem não.

Não se deram ao trabalho de pedir sobremesa. Nenhuma opção era convidativa mesmo.

Heero desceu do carro e foi com Akane até a porta do conservatório, terminando o assunto sobre o progresso das operações no porto.

_Então, até mais. Quem vem me buscar, já que eu não posso ter uma bicicleta…? –e ela fez questão de mencionar.

Heero revirou os olhos.

_Eu venho, vou pedir uma licença para o capitão.

Ela sorriu e abanou um tchauzinho, escalando a escadaria em uma corridinha.

Heero a assistiu entrar e enfiou as mãos nos bolsos, demorando-se uns instantes. Olhou o movimento na avenida, sentindo a brisa e escutando o riso e conversas dos outros estudantes que também chegavam para o período da tarde. Alguns vinham com cases de instrumentos musicais e cabelos bagunçados, em alto contraste com os bailarinos, em suas roupas básicas e leves e mochilas esportivas.

E em meio aqueles rostos alheios, ele encontrou seu sorriso favorito, o dela. O que havia de especial nele Heero não sabia explicar. Somente sentia o tempo parar.

_Heero… –quando se aproximou, murmurou, suspirando sonhadora, iluminada, tentando não exceder-se em sua animação.

Com um sorriso no olhar, uma feição de carinho, Heero a segurou pela cintura e beijou o alto dos cabelos dela.

Ela definitivamente era seu maior, talvez seu único, motivo de alegria.

A tentação de afundar seu rosto no peito dele e render-se àqueles braços e esquecer-se até de si mesma era forte e urgente.

Trocaram olhares que transbordavam silenciosamente em palavras de amor. Os lábios queriam participar daquela comunicação silenciosa, do jeito todo deles, mas antes de se encostarem, foram surpreendidos:

_Nos encontramos outra vez. –havia qualquer coisa marcial no jeito da senhorita Une abordá-los, mas a expressão dela vinha entre felina e divertida.

Relena mordeu o lábio e deixou-se rir ao mesmo tempo em que Heero se encabulou, entesando a postura e desviando o olhar, querendo parecer neutro, responsável talvez.

_Cordelia, querida. –e a atenção de Heero acabou capturada pela nova voz que polidamente queria repreender a mulher. O homem loiro, uma presença apenas de pano de fundo até então, finalmente se manifestava.

Observando-se com cautela, nenhum dos dois modificou suas expressões.

_Heero, este é Lorde Treize Khushrenada, um dos patronos do balé belga. –Relena tirou tempo para explicar, sem enxergar nada incomum no modo como os homens se examinavam.

Sem resistir uma formalidade, o lorde estendeu a mão e Heero a aceitou usando sua cautela de sempre. Mantiveram-se em silêncio.

_Até daqui a pouco. –a senhorita Une despediu-se, tranquila, mas dona de si, sendo seguida por Treize, que observou Heero de soslaio até o quanto pôde.

Heero também o espreitou, deixando um ar tenso escapar dos pulmões, voltando a esticar uma das mãos para alcançar a moça consigo.

_O que há? –ela pediu, serena, a voz ecoando o prazer de simplesmente estar com ele.

_Ele não gosta de mim.

_O lorde? Por que diz isso?

_Sinto que não me vê com bons olhos.

_Ele é um pouco extravagante, mas não acredito que tenha algum julgamento sobre você.

Heero meneou a cabeça, ainda agarrado à má impressão que teve do encontro. Suspirou fundo:

_Eu preciso ir. Nos vemos depois. –e beijou-a de raspão. Era arriscado. Sentiu como os lábios dela queriam mais e os olhos se escureceram de prazer. –Assim que a operação no porto acabar, vou ter um tempo para nós dois. –e a frase também vinha para seu próprio consolo.

_Está bem. –e havia leveza e confiança concentrados naquela anuência.

Ela ergueu os ombros em gesto de relutância e deixou-o soltar-se e passar por ela. Ficou parada ali no primeiro degrau, assistindo-o afastar-se, ele não olhava para trás e ela sabia por quê. Era sempre tão prazerosamente difícil despedirem-se, se ele se voltasse, seria tortura para os dois.

Heero caminhava a passos firmes, como que contados, tentando se concentrar em algo que não fosse a sensação de ser vigiado à distância pelos olhos dela. Se se distraísse, com certeza seria detido e jamais desejaria se mover.

Mas por que tinham de ser fortes? Por que tinham de resistir? Sabiam que não eram capazes. Tinham acendido uma chama inexorável.

Relena encheu o peito de ar:

_Heero! –chamou, risonha, e fez com a mão uma viseira contra o sol.

Não importava a distância, aquela voz sempre o deteria. Ele estacou e virou para trás só para vê-la vindo até ele num passo célere de corrida contida.

Ele meneou a cabeça, os lábios se contorcendo de vontade de rir da travessura dela.

Quando chegou até ele, jogou seus braços sobre o ombro dele, envolvendo seu pescoço, e erguendo-se nas pontas dos pés, ousou dar-lhe um beijo. Ele aceitou de bom grado. A inconsequente coragem dela era a resposta mais extraordinária a tudo o que ele só tinha imaginado.

Pressuroso, o beijo compensou sua brevidade em intensidade. Cada segundo que passavam juntos aumentava o custo de ficarem separados.

Faltava algo, porém, uma frase de sabor doce que desmanchava na boca, ainda temerária. Os olhos se prometeram pronunciá-la em breve. Relena abriu um sorriso e retornou para a entrada do conservatório agora de coração apaziguado. Heero suspirou vendo-a ir só por um instante e também tomou o seu caminho. Ia pensar nela a tarde toda.

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Havia um apinhado de meninas aos pés da escadaria do conservatório, conversando barulhentas com toda a despretensão da juventude. Elas riam e mexiam os cabelos, expressivas, encostavam-se a suas scooters, cansadas. Mas estavam cheias de planos. Lya debruçava sobre o guidom ouvindo Tint discorrer sobre a festa que aconteceria no fim-de-semana. Relena comentava sobre suas expectativas para a audição da semana que vem com Akane e Fanny. Ainda outras bailarinas mais se ajuntaram ali, suas vozes compondo um ruído branco para quem estava de fora.

Enquanto Relena explicava porque achava que Valentina deveria se esforçar mais para o papel que queria, acompanhou um carro azul-marinho parar com intenção de não demorar-se. Já tinha aprendido a reconhecer aquele veículo tão rápido quanto a seu dono, os azuis dos olhos de Heero pareciam com a pintura metálica do sedan.

Ela sorriu discreto, amolecendo as palavras na sua boca. Valentina e Fanny franziram um pouco suas sobrancelhas, mas não tiveram tempo de observar nada. Akane avisou bem alto:

_Tenho que ir! Até mais, gente.

E agarrada na alça da bolsa, apressou-se em saltitos. Relena a seguiu com o olhar até a porta, tentando roubar um relance do motorista quando o carro abrisse. Estranhou, porém, a ruiva debruçar-se na janela e jogar a bolsa lá dentro. Falou alguma coisa com Heero, olhou para trás uma vez.

Fanny distraiu-se com Valentina e as demais. Se bem que Tint notou quando Akane voltou bem depressa e com um riso malicioso chamou Relena e a levou embora.

_Quer que Heero te leve para casa? Eu posso levar sua scooter. Sigo vocês até seu prédio…

Relena tentou não sorrir demais.

_Está bem…

Procurou na bolsa as chaves e entregou para Akane.

_Sabe qual é?

_Sei sim, a lilás, né? –e se afastou até a fila de motinhas acompanhando o meio-fio.

Relena a olhou indecisa só por um segundo e depois continuou até o carro, sem se lembrar de despedir-se, raptada espontaneamente.

Heero a olhava fixo desde que notou a silhueta dela se aproximando, brilhando sob o sol preguiçoso do fim de tarde.

_Olá… –ela abaixou diante do vidro aberto e embora não sorrisse, estava toda iluminada.

Ele respirou fundo, apreciativo e esticou-se, abrindo a porta para ela. Ganhou um beijo na bochecha complementando o cumprimento.

Não sabiam bem o que dizer. Heero checou os espelhos e saiu. Minutos depois, viu Akane um pouco atrás. Ela deu um sinal com o farol.

Relena analisava o perfil dele:

_Cansado?

_Não… hoje só estou de plantão. Vou trabalhar até a meia-noite.

_Acha que vai ter tempo no sábado à noite?

_Sim. Finalmente o incêndio acabou. Essa semana as escalas vão ser normalizadas.

_A Tint vai dar uma festa na casa do Daniil. Lá é mais espaçoso. Vai o pessoal do balé e alguns outros amigos… você também está convidado. –e ela foi mencionando naturalmente, parecendo animada.

_Está bem. Preciso levar alguma coisa?

_Não, acho que não…

_E qual a ocasião?

_Ah… Tint sempre faz isso antes de começarmos os ensaios para uma montagem. –e sorriu, pensativa. –Ajuda a criar expectativa.

Heero olhou o espelho, tentando ver Akane outra vez. Ela o tinha ultrapassado. O semáforo a sua frente estava amarelo. Ele parou, mas Ane seguiu. Olhou Relena a seu lado. O temporizador estava longe de terminar sua contagem. Quando se olha para ele, um minuto passa tão devagar, dá até tempo de roubar um beijo. Tocou-lhe o rosto com as dobras dos dedos, atraindo a atenção dela para si, e depositou um beijo ingênuo nos lábios macios dela.

Ela sorriu, surpresa, e mesmo que desejasse abrir a boca e convidá-lo a algo mais apaixonado, sabia que não havia tempo. Retribuiu o carinho com um movimento gentil e ele separou-se dela bem a tempo de ver o sinal abrir.

Só depois de agir é que temeu ter ousado demais. Nunca tinha sido impulsivo, mas sua autoconfiança normalmente o levava a agir sem pensar muito.

Ele não precisava se preocupar. Ela tinha gostado muito. Ela estava gostando muito de tudo. Cada vez mais sentia que o que vivia com ele era algo exclusivo.

Relena ficou vigiando-o guiar o carro com um sorriso traquina enfeitando seu rosto corado. Queria tanto conseguir explicar porque estava tão animada, mas não conseguia. Talvez fosse melhor assim. Se usasse palavras, banalizaria aquelas emoções e jamais queria que elas deixassem de ser especiais.

Quando ele parou o carro diante do prédio, olhou para ela uma última vez.

_Te mando uma mensagem. –ela esticou-se e o beijou em despedida.

Ele só assentiu e a viu descer. Escutou a voz vibrante dela brincar com Akane, segurando a porta aberta ainda.

Quando Ane entrou, ele já estava voltado para frente e pronto para sair. Não tinha tanto tempo quanto queria. Relena já tinha sumido dentro do prédio.

_Gostou da minha ideia? –e ela o provocou.

Ele sorriu de canto e sacudiu a cabeça, sem intenção de responder. A ideia dela tinha sido ótima, mas só serviu para atiçar ainda mais a vontade de estar com Relena.

_Sabe, estava pensando… –e depois de um instante de silêncio, Akane começou, mexendo com seu celular. –Por que temos de esperar duas semanas para o jantar?

_Porque eu encomendei um presente para Relena. –ele a olhou rapidamente, percebendo que trocava mensagens no Whatsapp.

_Hm… posso saber o que é?

_Claro que não.

_Oras… –ela reclamou, monótona, surpreendentemente desinteressada.

Heero a olhou outra vez, estranhando. Ela parecia completamente absorvida pela conversa no telefone. Devia estar online com Duo. Meneou a cabeça. Os dois tinham tão pouco tempo para se ver, que apesar de estarem na mesma cidade, era quase um relacionamento à distância.

Será que ia durar? Heero não queria vê-la magoada. Mas ela já era grandinha… tinha que saber como tudo funcionava. Não ia interferir. Por enquanto.

Ela guardou o telefone no bolso da jaqueta e suspirou, pensativa, ainda presa àquilo que tinha conversado nas mensagens. Tinham chegado.

_Se cuida, bonitão. –ela puxou a bolsa do banco de trás e depois fez uma festinha na cabeça dele, bagunçando a franja.

_Você também. –e praticamente murmurou. Ela fechou a porta e se apressou para dentro do alojamento.

Como ela fazia para lidar com a saudade?

Ele precisava perguntar qualquer hora dessas.

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_Eu acho que deveríamos levar flores.

Heero deu de ombros.

_Pelo menos isso. –Duo reforçou.

_Ela não tem cara de que gosta de flores.

_Toda mulher gosta de flores.

Heero achou o argumento comum, mas ainda assim consistente.

Depois de pensar bem, Heero mudou de ideia sobre não interferir. Afinal, Akane estava sempre tão disposta a ajudá-lo. Ela merecia aquele desfrute. Encontrou alguém para trocar a folga com Duo para ele poder ir à festa também. O capitão disse que essa era a última vez que cedia, mas não parecia necessariamente bravo. Ia acabar voltando atrás.

Duo colocou o braço na janela e olhou para o fim de tarde. Notou Heero fazer um retorno para entrar no estacionamento de um grande supermercado.

_Você leva as flores, eu o vinho.

_Beleza.

Duo escolheu um vaso de orquídeas brancas e esperou Heero perto dos caixas. Enquanto andava por ali, escolheu dois pacotinhos de bombons também.

_O que é isso? –Heero se intrigou.

_Para as meninas.

Perspicaz.

Primeiro, buscaram Relena. Duo ficou no banco de trás com o vaso. Ela o viu acenar pelo retrovisor e desfiou uma risada divertida:

_Hey, você está aí… –e depois corou por pensar que ele a viu beijar Heero.

_Fiquem à vontade… –Duo provocou com uma risadinha barata. Relena riu, esportiva, e mordeu o lábio inferior, observando a expressão de Heero. Estava estoico. Sentiu algo plástico roçar seu braço.

_Para você. –Duo esticou-se e passou para ela um dos pacotinhos de Ferrero Rocher.

_Oras, obrigada! –sua voz estava lúcida, cálida, sonora. –E nem é uma ocasião especial… –ela já abriu e comeu um. –E compraram uma flor para Tint…

_Isso, ficamos sem graça de aparecer de mãos vazias. –Duo seguiu, explicando. Relena sorria, tentando mastigar polidamente. Olhou Heero e o viu assentir:

_Escolhi um vinho… –ele adicionou.

_Como são cavalheiros… estou gostando de ver. –e brincou, prazenteira.

Ao Akane entrar:

_Liga o rádio, Lena!

_Você está mais que pronta pra festa, hein? –Duo observou, achando-a engraçada. –Acho que nem vou te dar seu chocolate agora.

_Tem chocolate? Eu quero, Duo…

Relena procurou uma estação até encontrar um programa de flashbacks de discoteca. Akane comemorou a música com um gritinho de boca cheia.

Daniil morava em um dos bairros mais nobre da cidade. Sua família tinha um duplex e a parte de baixo era toda dele. Já havia vários carros parados pela rua e Heero não encontrou uma vaga próxima para deixar o seu. Pelo jeito, a festa seria um sucesso.

Heero reparou que as duas garotas estavam de vermelho. Mesmo debaixo da iluminação desbotada dos postes, a cor reagia de modos diferentes com as compleições e cabelos delas, mas deixava-as igualmente atraentes. Pigarreou aborrecido ao notar Duo olhando o traseiro de Akane com insistência.

_O que foi? –ele não pareceu flagrado.

Heero o repreendeu firmemente com o olhar:

_Ingrato.

Duo riu sem graça então. Entendera o recado.

Relena tocou o interfone:

_Sou eu, Danny.

E a porta abriu imediatamente, dando para um hall minúsculo que exibia uma escadaria logo em frente e uma porta lateral, à esquerda, pela qual podiam ouvir música.

Heero começou a observar o ambiente assim que seu pé tocou o carpete elegante.

A sala estava decorada para a festa com flores vermelhas em vasos dourados. Ao fundo havia uma enorme janela com cortinas pesadas ladeando-a. Uma longa mesa exibia grandes recipientes de vidros com torneirinhas, cheios de suco e águas saborizadas naturalmente, também baldes cheios de gelo com garradas de cidra. Os vários tipos de salgadinhos e lanches estavam dispostos em enormes pratos chatos, feitos de louça pintada de branco e dourado.

A enorme sala parecia lotada ainda assim. Todos os integrantes do grupo avançado estavam lá, vários acompanhados de seus parceiros, e havia algumas meninas do grupo de base, privilegiadas pelo convite. Os bailarinos principais eram os anfitriões e ao mesmo tempo pareciam ser os homenageados. Querendo ou não, mesmo que fosse só uma festa de socialização, todos os bailarinos do conservatório acabavam querendo bajular e ganhar atenção deles, até sem interesse. Eram muito admirados por sua técnica, por seu carisma, por seu status.

Heero sentiu que Relena era a estrela mais esperada da festa. Era a primeira bailarina, a mais cobiçada.

E de certa forma, era sua.

Quantos daqueles rapazes não o detestavam ou invejavam agora?

Não ia prestar atenção.

A impressão de que acompanhá-la àquela festa consistisse em uma formalização de seu relacionamento o incomodava um pouco. Queria que isto acontecesse após seu planejado jantar.

Ao mesmo tempo, ninguém tinha nada a ver com ele, com eles dois, com o que viviam.

Duo, por outro lado, em nenhum momento pareceu preocupado com essa ideia de formalização. Ele levava tudo de modo tão natural. Talvez por isso desse tão certo com Akane. Eles não alimentavam expectativas demais, apenas aproveitavam o que sentiam um pelo outro intensamente.

Heero abriu um sorriso discreto diante seu pensamento e depois teve de se concentrar nas apresentações, cumprimentos, tantos rostos, nomes, detalhes…

Entregou a garrafa para Daniil ao mesmo tempo em que Duo deu o vaso para Tint. Foi engraçado ouvir os dois falarem juntos:

_Não precisava…

Todos ao redor acabaram rindo.

_Que bom que veio. Fique à vontade. Você também, Maxwell. –e Daniil pediu licença, indo conversar com outros convidados.

O grupo mais achegado de Relena logo gravitou em torno dela.

_Olha, pintei minhas unhas! –Lya mostrou toda orgulhosa o esmalte vermelho lustroso nas pequenas unhas redondas.

_Só falta o Ned aparecer e mandar você tirar! –Fanny provocou.

_Você convidou o Ned, não é, Tint? –Relena cobrou um pouco baixo. Era obrigatório.

_Claro. –Tint respondeu entediada. –Mas ele não confirmou. Ele não gosta de nada divertido…

_Ainda bem… –Akane riu aliviada.

Heero as assistia conversar. Todas as garotas usavam vermelho, sem exceção. Tinham combinado algum tema.

_É o pássaro de fogo? –Duo chegou ao seu lado e completou seus pensamentos.

_Com certeza.

Heero esperava que o ambiente fosse descontraído, mas não imaginou que seria bem recebido. Talvez por ter sido o eleito da primeira bailarina surgisse admirável também para os demais. Alguns rapazes se aproximaram determinados a sondar os motivos de ele ter conquistado Relena, outros vieram apenas conversar e se distrair.

_Ninguém trouxe cerveja? –no meio de um grupo de rapazes que se formara aos poucos ao seu redor, Duo perguntou, bebendo sem ânimo da taça de cidra.

Alguns dos bailarinos riram e concordaram.

_Pelo menos esta noite… –um deles murmurou.

_E nada de cerveja light! –o outro protestou.

Heero se contentava em assistir.

_Eu vou comprar… –o terceiro se ofereceu então, orgulhoso de sua coragem e disposição. Mais risadas. Notas de dinheiro amassadas começaram a surgir de dentro de todos os bolsos. –Já volto. –e então se afastou. Procurou Daniil antes para notificá-lo. Heero observou o diálogo e notou que o dono da casa não pareceu exatamente contente.

Embora a maioria ali dançasse todas as horas do dia, havia casais bailando no fundo da sala. As solteiras e amigas também dançavam juntas, despreocupadas, a seleção de trilha sonora da festa parecia não incluir nada romântico. Às vezes tocava alguma batida eletrônica mais forte, depois uma canção suave e outra divertida, da moda.

_Está gostando? –Relena reapareceu a seu lado quando Heero foi escolher algo para comer. Ela sorriu, encantadora, e encheu seu copo com limonada rosa.

Ele só assentiu e garfou um rolinho de pizza.

_Olha, tem molho aqui. –ela ergueu um potinho para ele.

_Muito chique. –ele murmurou, risonho. Depois deu uma nova olhada geral no ambiente.

Relena se divertiu:

_É verdade. É que dessa vez a maior parte da organização ficou na responsabilidade do Danny. Se fosse pela Tint… –e riu, exagerada. Heero não sabia exatamente o que aquilo significava, mas com certeza não estaria na mesma festa nesse caso.

Relena acabou pegando um diminuto sanduíche com patê para si:

_Mas eu estou gostando bastante.

Heero sorriu. Ficaram parados então ali, comendo e assistindo a festa. Chegaram mais alguns convidados, pelo jeito os que faltavam para completar os grupos de balé.

_Vamos tirar uma foto da companhia! –Valentina anunciou. Já estava com uma máquina nas mãos.

_Todo mundo se juntando no fundo da sala. –Tint apoiou, liderando. Seria uma grande professora quando se graduasse dos palcos.

_Vai lá. –Heero incentivou Relena, usando uma voz baixa e carinhosa.

Experientes com disciplina, acostumados a fazerem aquelas fotos em grupo, rapidamente os bailarinos se organizaram, formando fileiras perfeitas, algumas garotas sentadas no chão em poses elegantes, alternadas com alguns dos rapazes mais baixos. Relena e Daniil ocupavam o centro, sorrindo principescos.

Valentina encaixou a Nikon no tripé enquanto todo mundo tomava seu lugar. Uma corrente de risadas corria por aquelas faces animadas. Depois de enquadrar bem, ela acionou o timer e saiu flutuando até seu lugar no chão.

Para os poucos que assistiam o processo, era um espetáculo em si.

_Imagina só se a gente consegue tirar uma foto de grupo assim lá no quartel. –Duo comentou jocoso, acotovelando Heero.

_Nem por ordem do chefe. –Heero completou, gostando do que via. Relena desviou o olhar para ele por um segundo e pareceu corar. Estava empolgada.

Eles não saíram da posição enquanto Valentina conferia o resultado. Ela mostrou um polegar positivo e todos comemoraram. Afluíram nela perguntando se ela ia postar a foto em algum lugar.

No resto da noite Valentina, Tint e outras meninas ficaram de paparazzi, fazendo fotos aleatórias, inesperadas ou solicitadas dos casais, dos amigos, de todos, enfim, preocupadas em fazer um registro da festa digno da coluna social.

Heero pegou a garrafa de Bud que sobrou para ele e começou a dar uma volta pela sala. Ia pescando fragmentos de conversas, comentários que um rapaz fazia sobre uma das garotas, às vezes elogiosos, às vezes nem tanto. Dependia da interpretação. Heero meneava a cabeça, desdenhoso. Parou diante da enorme janela, perto de um dos feixes de cortina recuada, bebendo da garrafinha e da vista. Havia um jardim bem iluminado atrás do vidro, com uma cascata moderna e arbustos floridos.

Um ruído inesperado chamou sua atenção. Ele olhou o lado e percebeu um leve movimento na cortina pesada. Depois de ver o tecido se mexer de novo, percebeu uma risada. Era tudo muito suspeito. Franziu as sobrancelhas e se afastou, somente para olhar discretamente para trás e ver um casal sair sorrateiro de trás dos panos, risonhos, de mãos dadas.

Não era uma má ideia.

Foi buscar Relena.

_O que você quer que eu veja? –ela indagou inocentemente, parando junto à janela, sentindo a mão dele na base de suas costas, a guiando.

Gastou um instante admirando-a. Ela fixou o olhar através do vidro, trazendo seu constante sorriso de simpatia e bom humor. Normalmente, aquela expressão dela era calmante, entretanto, ali ela seguia eletrizada, empolgada demais. O olhou rápido de soslaio e notou como ele a encarava com ambição. Ela mordeu o lábio inferior e respirou fundo, inflando o peito, ambiciosa também.

_A cortina… –ele inclinou-se e murmurou no seu ouvido.

Ela olhou sobre o ombro e percebeu a mão dele esticar-se por cima dela e abrir uma brecha entre o pano e a parede.

Com uma risada surpresa, compreendeu as intenções dele.

E da forma mais discreta e rápida possível, entraram os dois atrás do pano.

A luz chegava até eles filtrada. Entretanto, era impossível notá-los ali abraçados tão apertado. Com esforço ela olhava para cima, olhava-o nos olhos, suas mãos presas ao pescoço dele, sorrindo ainda, sorrindo sempre, travessa, divertida, refestelando-se no banho que o olhar dele derramava nela.

_Ah, Heero… –sussurrou, desengatando as mãos e deixando-as escorrer pelos ombros dele, pelos braços dele, até cobrir as mãos que ele tinha prendido a sua cintura.

Ele não dizia nada, não queria, não precisava. Seus olhos expressavam tudo o que sentia, o quanto amava estar com ela, o quanto estava apaixonado. Não tinha receios em confessar silenciosamente aquele sentimento tão grande que só fazia crescer, e que quando transbordasse, os engolfaria de uma vez, os arrastaria para longe.

As mãos dela voltaram a mover-se, subindo pelo peito dele, suaves. Ele viu os olhos dela acompanharem o caminho de suas pequenas mãos, até ladearem seu rosto, segurá-lo, e ela esticar-se para alcançar seus lábios. Beijou-o primeiro, convidativa, e depois se entregou ali, também sem receios, pronta para ser beijada até o fim da noite, até o fim do mundo.

O ar começava a ficar quente e espesso no refúgio.

Ela sorria, depois ele. Um risinho ficava sufocado naquela dança de suas bocas. Eram os melhores bailarinos daquela coreografia. Ela se sentia presa, contra parede, contra o corpo maciço dele, e agradava-se disso pela garantia que dava de que era real. Seus dedos agarravam os ombros dele como se fossem garras, marcando o tecido da camiseta pólo azul-marinho. O beijo seguia ininterrupto, suspirado, silencioso, insaciável.

Houve um alvoroço na sala. Eles ouviram o entusiasmo percorrer os presentes, alguém ali próximo, uma garota, espantou-se:

_Eles estão aqui… –ela parecia maravilhada.

Relena e Heero foram forçados a quebrar sua onda de beijos e se encararam franzindo juntos suas sobrancelhas, comunicando intriga.

Devagar, espiaram por uma frestinha. Todo mundo se distraiu com a chegada de alguém, então aproveitaram para sair do esconderijo sem serem notados.

As mãos instintivamente se juntaram, entrelaçando os dedos, e com sutileza felina se esgueiraram para longe da cena do crime, ainda corados e ofegantes, mais próximos por meio daquele segredo. Se misturando com os demais, viram lorde Khushrenada e a senhorita Une sendo recebidos por Daniil.

Era a primeira vez que Treize se mostrava para a companhia sem terno. Ainda assim, parecia elegante demais, deslocado no ambiente alegre. Cordelia usava um vestido de um vermelho bem intenso que parecia a escolha mais apropriada para ela. Sorriam os dois como raposas arguciosas, um pouco soberbos, um pouco divertidos.

Depois que eles deram um cumprimento geral, a festa voltou ao ritmo anterior.

Cordelia misturou-se bem com as meninas. A cada dia passado dentro dos estúdios, mais ela se rendia às bailarinas. Não estava nela sustentar pose por muito tempo, do jeito que Treize fazia. Por ela, tantas coisas podiam ser mais espontâneas…

_Senhorita Une, você precisa nos dar algumas dicas! –uma das bailarinas do grupo básico pediu, empolgada por finalmente poder ver a estrela do balé belga de perto. –Queremos te ver dançar!

Cordelia sorriu com vivacidade. Porém, não disse nada. Entendia bem o desejo da menina e teria pedido o mesmo em seu lugar, em sua idade. Ela era apaixonada pelo balé e vinha sendo muito difícil somente assistir. Seus pés e seu coração pareciam latejar síncronos enquanto acompanhava Relena ou Tint executando os mais simples movimentos. Porém, havia tanta burocracia para impedi-la de dançar. Era frustrante. Procurou Treize com o olhar, atribuindo-lhe a culpa de sua repressão. Ainda assim, sorriu, carinhosa.

Diferente de Cordelia, Treize sustentava uma barreira natural para diferenciá-lo do mundo. Não se sabia ao certo se fora ele quem a erguera por vontade própria ou se ela se levantava por si só, visto sua posição, seu nome, enfim, seu ar de importância exigir alguma deferência dos demais. Ele até parecia meio melancólico de repente, rodeado de tantos jovens que não sabiam bem como se aproximar. Todos sorriam e o cumprimentavam com uma reverência que para ele era exagerada. De qualquer modo, ele não fazia nada para mudar essa impressão que causava.

Cordelia meneou a cabeça. Voltou a dar atenção às conversas. Aceitou a bebida, aceitou o salgadinho. Não importava o desfecho da viagem, já estava muito satisfeita por se ver tão querida.

Treize por sua vez prendeu a vista naquilo que por enquanto era a coisa mais importante para si. Fixou-se também, impassível, capcioso, nas mãos unidas fortemente. Era uma inconveniência. Suspirou, esnobe.

Relena sentiu a atenção dele. Excêntrico. Não se importava de qualquer modo. Nenhum homem no balé era convencional. Sorriu como tinha aprendido a fazer quando queria se mostrar autoconfiante e composta.

_Vamos até lá cumprimentar o lorde.

_Não.

_Oras, Heero… o que é isso? Você não é assim.

Como você sabe?, ele se perguntou. Depois sorriu espertamente. Ela sabia sim.

_Precisa desfazer essa má impressão. –ela incentivou depois, brandamente. Tinha conseguido colocar Heero em movimento e estavam indo em encontro do lorde.

Ele preferiu não discutir. Tinha pouca base e o lugar não era apropriado. Olhou para ela um segundo e depois encarou a frente. Ela tinha razão. Nada o intimidava. Nunca. Mesmo assim, respirou fundo, sentindo o peito pesar com a tensão. Ia deixar Relena fazer tudo, era o mais sábio.

_Boa-noite, lorde Khushrenada. –e sem reservas, ela o cumprimentou. Treize gostava como ela o tratava. Ela se sentia no direito de não seguir nenhum protocolo. Por ela, se sentia tratado como igual. Não, não como um cidadão comum, mas abordado por uma princesa. Admirava que mesmo fora do estúdio ela ainda ostentasse a cabeça com altivez e elegância, o queixo no ângulo preciso.

Ela o olhou com expectativa e seguiu mostrando seu sorriso. Não soltou a mão de Heero. Não parecia sem jeito.

Depois que a estudou, Treize deu atenção ao rapaz junto dela.

_Espero que se lembre de Heero. –ela sugeriu, preocupada, simpática.

_É claro, como poderia me esquecer de tão extraordinário rapaz.

Heero não desfez sua expressão austera ou poliu seu olhar afiado.

Relena teve de admitir que o silêncio entre os dois era mais pesado que os demais. Suspirou, considerando-os impossíveis, e decidiu arranjar algo mais para dizer:

_Foi difícil encontrar o endereço?

_Não, senhorita. O nosso motorista está bem familiarizado com a vizinhança.

_Que bom.

_E a senhorita teve notícias de seu pai?

_Ah, ele segue visitando a Ásia. Deve retornar daqui um mês, eu suponho. –e abriu um parêntese direcionado a Heero. –Ele foi participar de um congresso na China.

_Estou muito ansioso em conhecê-lo em pessoa.

Relena assentiu, cortês, e relanceou Heero. Certamente algo em Treize o estava incomodando muito. Ele não poderia estar com ciúmes, poderia? Não poderia estar julgando Treize saliente demais, poderia? Não devia dar tanta importância ao modo como Treize se comportava. Ouviu-o pigarrear e sobressaltou-se.

Talvez ele apenas estivesse se sentido excluído.

Era imaginação dela ou Treize fazia questão de não olhá-lo?

_Relena, venha aqui um instante! A senhorita Une quer falar com você. –Lya avisou, chamando-a com a mão. Relena percebeu a expressão convidativa de Cordelia voltada para ela.

Péssimo momento.

_Com licença. –ela dirigiu um olhar para cada um.

_Toda. –Treize fez questão de responder.

Heero quase franziu as sobrancelhas em desdém. Aquele homem se achava tão importante assim? Ou só era educado demais?

Colocando as mãos para trás feito um general, Treize voltou-se para ele:

_Então, Heero…

_Yuy, senhor.

_Um sobrenome notável igualmente. Há quanto tempo conhece a senhorita Darlian?

Heero suspirou.

_Aproximadamente dois meses, senhor. –e sem querer tinha assumido seu timbre vazio e pronto de soldado, as frases sem modulação.

Treize assentiu feito tirasse muito proveito no que ouvira.

_E já a viu dançar?

_Não, ainda não.

_É algo sem igual, sem dúvida, um espetáculo divino. Estive na montagem do ano passado. "Giselle". Foi algo inesquecível. –e o homem se gabou, feito tivesse algum direito. Queria frisar algum ponto.

Heero o acompanhou balbuciar os elogios sem conseguir controlar sua expressão de desconfiança. Respirou fundo, recorrendo ao silêncio como ponto de apoio. Tinha de se manter frio em todas as situações, fora bem treinado para isso.

_Mas você disse só dois meses, não é? Ainda terá oportunidade. –e Treize ressurgiu simpático de repente, lançando um olhar de escrutínio em Heero. Essa análise durou alguns desconfortáveis minutos, mais do que Heero julgava tolerável.

_Agora que falamos… acho que me recordo de você no primeiro dia em que visitei o treino avançado no conservatório. O que estava fazendo lá? –Treize seguiu fazendo a maior parte da conversa sem se incomodar com a mudez do rapaz.

_Esperando minha irmã. –e Heero pausou, procurando Akane. Ao identificá-la a mesa junto de Tint, indicou-a com a cabeça. –A senhorita Yora. –resolveu imitar o homem, sendo formal.

_A ruiva?

_Exatamente.

_Ela é muito talentosa.

_Eu sei.

Treize apreciou a pontada de ousadia. Preferia que ele tivesse espírito, que não fosse tão fácil assim de vencer.

_Mesmo assim… talento não é tudo em uma bailarina. Veja a senhorita Tcherbatskaya. –e educadamente apontou Tint por sua vez. Heero não aprovou sequer a intenção de fala que Treize demonstrava. –É possuidora de uma grande habilidade, mas ainda não desenvolveu a precisão necessária para tornar-se completa. É mister muita disciplina para tanto.

Tint não era menos dedicada que Relena, Heero sabia. Ela simplesmente era diferente. Manteve-se calado, indesejoso de participar daquelas comparações injustas.

_Uma bailarina deve ser dedicada de corpo e alma a sua arte, a menor distração pode ser fatal. –e olhou Heero diretamente ao dar seu veredicto dramático.

_Eu conheço bem o custo das distrações, senhor. Eu sou bombeiro.

_Um bombeiro? Não, isso é mais que extraordinário.

_Não exagere, senhor. –e o repreendeu de seu modo marcial, monótono, criando cortante contraste ao modo fervoroso e aparatoso de Treize.

O lorde ficou sorrindo sozinho.

_É bom saber que estou lidando com um homem que entende bem o que é disciplina e dever. Isto torna tudo muito mais fácil, senhor Yuy.

Ali Heero não conseguiu conter-se mais. Aparentou ofendido, enfiou as mãos nos bolsos e franziu uma sobrancelha.

_Do quê está falando? –e apesar da rouquidão, era afronta o que vibrava em suas cordas vocais.

_Estou certo que será mais fácil para o senhor entender o seu lugar.

_O senhor vai me desculpar, mas é Relena quem deve decidir isto.

Treize começou a desmanchar sua feição pomposa e amigável. Sorria ainda, entretanto, mas os olhos ganharam um cintilo cruel, aguçado como de uma cobra.

_Deveras. –fez uma pausa momentosa. Esperou para ver se Heero desviava o fito. Sabia que não desviaria. Não se decepcionou. –Sim, é bom saber que estou lidando com um homem perspicaz, Heero Yuy.

_Hey, Heero, não me apresenta o seu amigo? –Duo apareceu inesperadamente, sentindo que algo errado estava se passando ali.

Odiava qualquer coisa que pudesse estragar uma festa. Também, não queria que Heero queimasse sua largada com o pessoal do balé arranjado confusão com o cara que todo mundo parecia respeitar.

Heero tinha se armado tanto, mas só percebeu ao relaxar a postura com a chegada de Duo. Observou o amigo sem saber como julgar seu movimento.

Treize olhou Duo com desprezo. Jamais o confirmaria, porém.

_Sou Lorde Treize Khushrenada. –e reuniu toda a sua educação aristocrática para anunciar.

Duo seguiu olhando-o, expectante, nada impressionado com o esnobismo do homem, sem a menor ideia de quem ele era e porque se achava tão importante. Heero quase riu do que assistia.

_Ele é patrono do Balé Real da Bélgica. Até onde entendi, está fazendo uma seleção para uma bolsa de estudos. –e Heero murmurou de modo prosaico.

Treize mesurou com a cabeça diante da explicação.

_Ah, que legal! Eu sou Duo Maxwell, tenente na companhia de escada 5.

Treize encarou os dois de uma vez, disfarçando seu desgosto.

_Foi um prazer. Agora, com licença. –Treize decidiu se afastar desta vez, mas não estava admitindo qualquer derrota.

_À vontade. –Heero replicou, ainda soldado. Não se rebaixou.

Treize não pode deixar de ficar um pouco frustrado por não ter sido tão bem-sucedido quanto planejara. Frustrou-se mais não com o resultado, mas com o fato de ter subestimado seu rival. E ficou ainda mais interessado em seus embates futuros, porque vencer alguém a sua altura era uma satisfação ainda maior.

_O que está rolando? –Duo sussurrou.

Heero emburrou, bufando.

_Vem aqui, toma isso, esfria a cabeça. –e puxando Heero até a mesa, encheu um copo de plástico com cidra gelada.

Heero aceitou o copo, mas não bebeu.

Duo o ficou encarando, impaciente.

_Fala alguma coisa, cara.

_Deixa para lá. –e Heero terminou por resmungar. Pelo menos suas suspeitas estavam certas. Respirou fundo outra vez e olhou seu relógio. Já eram dez e meia. –Acho que está na hora de irmos embora.

_Mas já?

_Eu não estou de folga amanhã.

_Seu egoísta.

Heero franziu as sobrancelhas de novo, calibrando os olhos em um valor funesto.

_Mas você é um cara difícil, hein? Faz um favor e depois fica cobrando gratidão o resto da vida? –e Duo resolveu descontrair. As miradas ferozes e gélidas de Heero já não tinham tanto efeito.

_Está bem, ficamos mais meia-hora. –e Heero acabou bebendo.

Akane aproximou-se então.

_Tudo bem?

Heero e Duo trocaram olhares.

_É, melhor estaria se Heero já não quisesse ir embora. –e Duo decidiu reclamar.

Akane riu:

_Mas está cedo ainda.

_Só mais meia-hora. –Heero avisou.

_Está vendo? –Duo resmungou.

_Ah, meia hora é mais que suficiente… Dança comigo, Duo? –cômica, Akane deu o braço para ele que se enganchasse. Saíram, rindo como crianças sem um pingo de preocupação.

Heero podia tentar, mas não conseguia ser assim. Reabasteceu seu copo com a limonada rosa e ficou parado feito um totem severo.

Treize não voltou a olhá-lo, fez questão de mostrar que se esquecera dele. Aquilo não passava de um sinal de que haveria revanche.

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_Ele fez o quê? –Tint estava para ligar o liquidificador, mas desistiu. Precisava entender exatamente o que tinha acontecido ontem à noite.

_Você ouviu. –Relena desfiou uma risadinha infantil, travessa, maravilhada.

_Sua bandida! Você me superou! –não se conformava. –Quem diria que a santa senhorita Darlian estaria envolvida em uma indecência dessas!

_Não faça escândalo, Tint… Não aconteceu nada! A gente só se beijou…

_Ué, como não aconteceu nada? Se beijarem não é nada para você? –Tint distorceu, fingindo espanto, provocando-a.

_Não… Sim… quer dizer… –e as duas começaram a rir. –Ai, você está me deixando confusa!

_Isto porque você está mais tonta do que de costume… está tonta de amor… –e mostrou a língua para ela. Para não ouvir seus protestos, ligou enfim o liquidificador.

Relena se resignou a bufar. Era só cena.

_Quer dizer que vocês se pegaram mesmo atrás da cortina? –e voltando à incredulidade, Tint indagou, reverente, enchendo os dois copos com a vitamina.

Relena murmurou afirmativamente, engolindo pequenos goles da batida, exibindo olhos que faiscavam de prazer só pela lembrança.

_Gostei desse cara.


Boa noite!

Minha empolgação com esta história não passou! Tanto que este é o capítulo mais comprido até agora!

Estive me dedicando a terminar "Tentando a Sorte". Está completa, pode ir lá conferir! :)

Eu resolvi usar o nome que Frozen Teardrop revelou para a Lady Une. Mas todo mundo sabe como o Frozen Teardrop é um emaranhado, uma confusão. Então, ao mesmo tempo ignorando o papo de que ela abandona o nome Cordelia para ser Anne (então no caso, o certo seria Lady Anne e não Lady Une), vou usar Cordelia sempre como nome próprio para ela.

No mais, desconsiderem alguns pormenores.

Curtam bastante!

Deixem suas opiniões, pois quero muito lê-las.

Beijos e abraços!

25.04.2016