No último capítulo…

Já há algum tempo Heero, tenente da companhia do corpo de bombeiros Escada 5, está saindo com Relena, primeira bailarina do Conservatório Estadual. Sabendo que seus sentimentos por ela se tornam mais sólidos a cada dia, decide organizar um jantar para oficializar seu relacionamento. Para isso, recruta Akane, sua irmã de criação, para organizar tudo como uma surpresa. Relena, por sua vez, convida Heero para uma festa dos bailarinos na qual ele finalmente conhece o Lorde Treize Khushrenada, que não esconde seu vivo interesse na bailarina ou suas intenções de alavancar a carreira dela.

7

_Isso é sério…

_Pois é… –Duo murmurou confirmando, assistindo Heero lendo o convite repetidas vezes. –Peraí, isso foi uma pergunta?

Heero só deu de ombros enquanto guardava o convite para a despedida de solteiro de Laurell na gaveta.

_Eu pensei que ele nem se lembrava de mim… –Heero reclamou, desanimado.

_Nah, ele só se esqueceu de como você odeia essas coisas. –Duo não resistiu brincar.

Sem ânimo para reagir, Heero meneou a cabeça outra vez. Era uma reação para tudo que o contrariasse.

Laurell tinha reservado uma sala VIP em uma casa noturna luxuosa da cidade para aquela sexta-feira. A festa começaria às sete e iria até quando todos aguentassem. Não era necessário especificar no convite que haveria muita bebida e diversas piadinhas sem graça e maliciosas. Heero tinha certa abominação por ambientes descontraídos assim.

_Eu nem sabia que ele ia se casar. –depois, enfadado, Heero resmungou.

Duo franziu as sobrancelhas:

_Como não? Ele mandou o convite faz três meses. Você deve ter confirmado, caso contrário, ele não ia te chamar pra despedida.

_Três meses é muita antecedência. –Heero comentou, monótono.

_Não para um casamento chique como o dele.

Heero ficou olhando Duo com uma expressão interrogativa e levemente confusa.

_Heero, você não está sabendo? –Duo acabou se exaltando. –Meu Deus, a situação é grave. Você não leu o convite, Heero?

_Eu li… só não prestei atenção. –admitiu sem embaraço, feito tivesse agido certo em relação àquela informação.

_Tudo bem que a gente não é próximo do Laurell, mas todo mundo sabe que ele vai se casar com a filha do chefe! E você ainda confirmou a presença…

_É praticamente um requisito comparecer a casamentos na companhia.

_Só pensando em trabalho, como sempre. Se o chefe souber disso, vai ficar bem aborrecido. –Duo se fingiu indignado.

_Ele só vai saber se certas pessoas contarem, não é mesmo? E essas pessoas precisam estar vivas para contar, não é? –Heero apresentou, os olhos esfriando de repente.

_Que tom sinistro é esse? O que está tentando dizer?

_Só que acidentes acontecem, mangueiras de oxigênio podem acabar se soltando…

Duo segurou a respiração um instante, decidindo como interpretar o que ouvira. Heero brincava de modo tão sério que realmente acabava assustando. Depois, Duo escolheu como reagir:

_É verdade, principalmente se a ideia for fazer de certas pessoas viúvas… –usou a mesma moeda, se fazendo dúbio também.

_Vocês ainda não são casados… –só que Heero não conseguiu levar a ideia na boa, deixando a brincadeira de lado imediatamente.

_Disse bem, ainda não… algo fácil de resolver.

_Seu encardido…

Duo não se ofendeu. Riu malandro, curtindo sua rara vitória. Tinha dado um golpe baixo, mas não se envergonhava disso.

_De qualquer modo, como vamos fazer com as meninas? –Heero recuperou instantaneamente seu ar sóbrio, fazendo o assunto andar, descartando as provocações do amigo.

_Está achando que a Lena vai ficar com ciúmes? Ela não parece ser desse tipo.

_Para você, ela é Relena.

Duo estalou a língua e resmungou:

_Que cara chato… –então riu alegremente.

_Não sei o que ela vai pensar. –enfim, Heero respondeu.

_Vai levá-la ao casamento?

_E mais essa…

_Cara, você é novo nisso, então aceite esse conselho: não precisa fazer tempestade em copo d'água… é só conversar com ela.

Heero suspirou pesado, sem gostar nem um pouco do tom convencido de Duo, mas teve de concordar com ele. Não era de seu feitio também exagerar tanto. Talvez tivesse se desestabilizado por ter sido pego de surpresa, mesmo quando não devesse ser surpreendido. Como é que pôde ter se esquecido do casamento de Laurell com a filha do chefe? O que estava fazendo três meses atrás para ter agido de forma tão distraída quanto ao convite?

Podia pôr a culpa em seu desinteresse por socializações no final das contas.

Já tinha pensado demais nisso.

Agora era hora de fazer um plano de ação.

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_Então vocês estão saindo mesmo! –Valentina expressou seu espanto, sem saber se sussurrava ou berrava. De qualquer modo, parecia bastante contente.

Relena deu um sorriso preocupado e assentiu.

_E eu que pensei em falar com ele… –Fanny murmurou, sem medo de parecer invejosa, e depois bebeu um longo gole de sua garrafinha de água.

_Vocês nunca tiveram a menor chance… –Tint riu malvada, pendurada na barra, alongando os braços com o peso do corpo, vigiada por um Daniil aflito. Fanny mostrou a língua para ela e falou algum xingamento em russo. Tint riu mais.

_Parem com isso… –Relena advertiu, aborrecida. Não sabia que proveito elas tiravam daquelas conversas e estava ficando um pouco encabulada com a exposição.

_Mas conta, como foi que vocês se conheceram? –Lya tinha olhos encantados, como se diante da mais bela história de amor.

Relena olhou de uma menina para outra, sem graça, sem muito jeito para aqueles interrogatórios. Akane e Tint trocaram uma olhadela maliciosa e deixaram Relena se virar.

_Bem, todas vocês já tinham visto ele aqui… não é como se eu tivesse descoberto algo… –ela articulou, tentando encerrar a conversa.

_Conta, Lena… –Valentina insistiu, empolgada.

_Vocês estão namorando? –Lya sobrepôs uma nova pergunta, já esquecida da primeira que fizera.

_Bem, não sei… estamos nos conhecendo.

_Namorando. –Tint cortou, balançando-se de um lado para o outro na barra.

_Definitivamente. –Daniil reforçou, solene demais para a ocasião.

_Traidores! –Relena provocou, desistindo daquele assunto, indo escolher um lugar na barra. Nedved tinha acabado de chegar.

Todas as outras meninas estavam rindo, felizes pela amiga. Daniil se afastou, meneando a cabeça sorridente, indo falar com os outros rapazes.

Mas Akane, quieta todo o tempo, estreitou os olhos, desconfiada do que observou. Precisava agir rápido. Abriu sua bolsa de treino que deixara encostada na parede e, agachada, procurou seu celular e começou a digitar velozmente:

"Alerta vermelho."

"Alta possibilidade de Lena questionar o status do relacionamento de vocês antes do jantar."

"Se prepare para enrolar ela."

E ia escolher um emoji apropriado quando ouviu:

_Mas o que é isso?! –um berro grosseiro soou atrás de si, pairando sobre seus ombros.

Ela moveu o rosto levemente para ver o que havia e notou a sala inteira em silêncio mortal, todos transformados em estátuas de gelo. Prendeu a respiração e encarou Nedved com espanto. Por fim, abriu as mãos, deixando o celular caiu dentro da bolsa de qualquer jeito, e se levantou em um pulo, parando em postura perfeita. Todos a encaravam feito ela estivesse no cadafalso.

_Nós temos uma regra aqui! Sem celulares! A senhorita não sabe respeitar nada?

Akane preferiu não responder. Não iria contribuir em nada. Nedved era temperamental demais para tolerar justificativas.

_Suspensa! Pegue suas coisas e saia já! –e o sotaque deixava as palavras dele pesadas.

Daniil levou a mão à testa, frustrado. O ruído do leve tapinha atraiu a atenção do professor:

_Nem pense em defendê-la. –apontou agressivamente. –O que vocês estão pensando? É uma rebelião agora?

Armando um bico melindroso, Akane se abaixou e puxou a bolsa pelas alças. Saiu muda, mas olhou para trás, sobre os ombros, crivando o professor com olhos de chama verde.

_E agradeça que é só por hoje. –ele ainda avisou, batendo com seu bastão no chão para dar mais força as suas palavras. Depois correu a vista ameaçadoramente por todos os alunos, certificando-se que tinham visto a disciplina. –Barre! –E ao passar por Tint: –Não ensino macacos aqui, Tcherbatskaya.

Tint fungou e se soltou da barra, sendo a primeira a começar a aquecer.

"Fala sério, fui tentar te ajudar e acabei expulsa da aula!" –e Akane apanhou o celular de novo para desabafar sua raiva. E Heero nem estava online.

A passos duros, ela retornou para o vestiário, sem a menor ideia do que fazer com o resto do dia agora.

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No fim do expediente, Heero apanhou seu celular e encontrou diversos alertas de mensagens recebidas. Eram todas de Akane. Por um instante, ele ficou preocupado, mas se algo sério tivesse ocorrido alguém teria ligado, e então passou a leitura com mais tranquilidade.

Sorriu com a história. Só ela mesma para aprontar aquele tipo de coisa. Teve vontade de brigar com ela por se envolver demais, mas era inútil, ela era tão teimosa quanto ele e parecia estranho reprovar alguém por sua lealdade, por mais exagerada que fosse.

Respondeu as mensagens com um ok e uma pergunta:

"Devo ir te buscar?"

"Não, já estou em casa. Deu tempo de voltar com o Jean." –ela respondeu prontamente, adicionando um emoji de cara aborrecida. De manhã, ela sempre ia com Jean, um colega de alojamento que estava no grupo intermediário que tinha carro. Mas aulas do grupo intermediário iam só até às duas horas. Do grupo avançado se exigia mais, e o horário de trabalho só deveria aumentar com o início dos ensaios.

"Quando será a audição?" –ele resolveu distraí-la um pouco.

"Na quinta-feira. Viu a roupa que mamãe me mandou?"

"Não, você não me mostrou."

"Depois te mando uma foto."

"Você já está sabendo do casamento no domingo?"

"Claro, vou com Duo. Tint vai me emprestar um vestido."

"Falou com Relena sobre isso?"

"Ela deve ter me ouvido falar do vestido com a Tint, mas só…" e ele ouvia em sua mente o tom de voz meditativo nas palavras da irmã. Relena deve ter escolhido ser discreta, Heero pensou. Digitou mais um breve ok e mudou de janela no aplicativo.

"Quero conversar com você. Me encontre na saída." –avisou Relena, mas naquele horário ela não estava disponível, ainda trabalhando no estúdio.

Para garantir que ela o veria, quando estacionou na frente do conservatório às cinco horas, saiu e ficou esperando-a encostado ao carro. Ela não tinha respondido a mensagem até então.

Ele cruzou os braços e fixou os olhos na escadaria, vendo os estudantes começarem a surgir. Relena e Lya vinham juntas, as duas olhando algo nos seus celulares. Heero conseguiu flagrar o momento em que ela terminou de ler a mensagem e correu a vista pela calçada e o encontrou. Ela sorriu ao mesmo tempo em que mordeu o lábio inferior, e ele deu um aceno discreto com a mão, sem descruzar os braços.

Desviando sua rota, Relena guardou o celular na bolsa, tentando parecer calma enquanto seus pés ansiavam correr. Não queria armar uma cena depois do interrogatório daquela tarde. Lya ergueu os olhos de seu aparelho, estranhando a ausência de Relena, e só conseguiu entender o que tinha acontecido depois que Tint apontou nada discretamente:

_Eu não disse? Namorando…

Parando na frente dele, perscrutando o rosto que exibia olhos carinhosos e sorridentes, Relena tentou manter sua despretensão:

_O que foi que houve? –era uma boa atriz, contendo a agitação e o desejo de enlaçá-lo pelo pescoço, senti-lo perto de si.

Ele tirou um tempo para apreciá-la, certo de que nunca cansaria de olhar para ela. Tinha sido enlaçado pelos olhos, por cada minúcia daquela preciosa aparição angélica, incomparável e indescritível. Nunca se considerara uma pessoa dependente da vista, mas a imagem de Relena bastara para trazê-lo até aquele momento, para fazê-lo certo de ter encontrado seu destino. Suspirou, satisfeito, vendo a expectativa crescer no rosto rosado, os olhos azuis se aguçando. Embelezava-se ainda mais, se é que era possível. Como ele foi ter tanta sorte?

_E então…? –e a impaciência dela era tão meiga que ele teve vontade de testá-la. Contudo, não era de seu feitio comportar-se como criança.

Enterrou as mãos nos bolsos:

_Vai acontecer um casamento no domingo e queria saber se quer ir comigo…

_É claro. –e serenou, quase se misturando com a luz do fim de tarde. –É de algum amigo seu?

_Podemos dizer que sim. Trabalhamos bastante juntos, ele é da companhia 4, mas fora isso, a gente não se vê muito.

_Entendi. Mas se você foi convidado…

_Bem, praticamente todo mundo foi convidado. Vai ser um evento importante para o corpo de bombeiros.

_Sério? –Relena considerou o comentário intrigante.

_Laurell vai se casar com a filha do chefe. –Heero apresentou, prático, mas um tanto enfadado.

_Hm, então vai ser chique… –ela replicou com tom interrogativo.

_Provavelmente. –ele ponderou.

_Ainda bem que me avisou com antecedência. Preciso checar meu armário.

_Não precisa se preocupar tanto com isso. –achou que ia acalmá-la com essa frase, mas viu os olhos dela se estreitarem:

_Como não? Depois, você vai estar com aquele seu uniforme de príncipe, não vai…? –e o provocou, mordendo o lábio inferior.

Ele se impacientou com o comentário dela, revirando um pouco os olhos, ocultando o embaraço, e ela riu mais abertamente, com doce malícia.

_Oras, Lena…

_Não, eu não quero ficar atrás. –e murmurou depois sua justificativa desnecessária, absorta de repente. –É por que isso que Akane pediu um vestido emprestado?

Ele confirmou com um gesto de cabeça e a assistiu sorrir, apreciativa. Relena gostou de saber que não ficaria tão deslocada então.

_Tem mais uma coisa. –e Heero empertigou-se um pouco e ela assentiu, incentivando-o a continuar. –Laurell me convidou para a despedida de solteiro também. –incomodou-se por ter ficado um pouco rouco ao falar.

Ela não respondeu nada de pronto. Seus olhos, antes doces, se endureceram, pensativos, e as sobrancelhas se alinharam levemente na testa, formando uma linha de concentração. Ele ficou acompanhando atentamente a transformação da expressão dela. Suas bochechas oscilaram, esboçando as palavras que se formavam na mente dela, mas que estava indecisa em pronunciar. As covinhas chegaram a surgir, mas ela adotou o silêncio.

Heero também ficou calado. Se falasse mais, talvez parecesse estar dando importância demasiada à ocasião e não queria levantar suspeitas desnecessárias. Ele não sabia bem o que esperar da despedida de solteiro de Laurell. Como ele ia se casar com a filha do chefe, talvez tivesse de manter certo nível de moralidade? Ele também não era muito de badalação… entretanto, nem o noivo poderia garantir o comportamento dos seus colegas e as surpresas que eles poderiam aprontar. Como em todo o lugar, havia todo tipo de pessoas trabalhando para o corpo de bombeiro, e vários rapazes curtiam uma bagunça quando tinham oportunidade – na verdade, não viam a hora de surgir a oportunidade.

Relena ficou confusa por um instante, se perguntando por que aquilo poderia ser um problema. Talvez ela se sentisse travada por não conhecer bem aquela parte do mundo de Heero. Ela já tinha ouvido todo o tipo de coisa sobre despedidas de solteiro e considerava se devia ou não sentir ciúmes. E se sentisse, isso seria um bom sinal ou só uma reação exagerada? Afinal, o que existia de verdade entre eles? Era algo sobre o que valia a pena ter ciúmes?

De qualquer modo, olhando para o rosto sério e paciente dele, ela sentiu somente segurança. Parando para ouvir seu coração, surpreendeu-se com a paz regendo sua pulsação. Confiava nele. Tudo era diferente com ele. É certo que não tinha usado as palavras exatas, mas ele contava com a permissão dela. Sentia-se respeitada.

Como que voltando a si, o olhar ficando leve e iluminado outra vez, ela meneou a cabeça exibindo um sorriso alegre:

_Ele deve te considerar bastante, então. –ela observou. Heero fez uma cara incomodada, feito preferisse o contrário. –Quando vai ser a festa?

_Na sexta-feira.

_Certo. –ela deu a impressão de querer falar mais, olhou para baixo, agarrou-se na alça da bolsa. –Por que não vamos lá para casa para conversarmos mais? Preciso de mais detalhes desse casamento.

Ele assentiu, secretamente aliviado pela reação dela. E até gostou de toda aquela tensão, foi quase como abordá-la pela primeira vez, foi uma espécie de prova. Podia estar exagerando… e embora não quisesse admitir que, como Duo dissera, fosse inexperiente em matéria de relacionamentos, sentia estar aprendendo com a pessoa certa.

_Você… pode ficar para jantar, se quiser. –ela relaxou de vez, soltando a alça, soltando os braços.

_Aceito. –ele respondeu, simples e direto, os olhos comunicando timidamente o quanto apreciara o convite. Ela sorriu com brilho, mas lembrou-se de contar:

_Você viu? A Akane foi embora mais cedo. O Ned a expulsou por causa do celular. –e lamentou, e seu sorriso diminuiu, ficando preocupado.

_Ela me contou… É assim mesmo, Ane perde a noção das coisas às vezes… –e ele comentou, bem humorado. –Isso não vai prejudicá-la na audição, vai?

_Não, o Ned é chato, mas não pegaria tão pesado assim.

_Ainda bem… –e ele soou perigoso.

Relena riu, suspirando:

_Então, nos vemos lá no apartamento.

_Sim. Me dê sua bolsa.

Ela ficava encantada com aquilo. Ele era tão espontaneamente cavalheiro… jamais poderia ter imaginado que aquele rapaz misterioso que a abordou em uma pista de dança se mostraria alguém tão carinhoso e devotado… não importava se por enquanto o relacionamento deles não tinha um nome. No seu coração, ela estava convencida de que era real. Considerava isso o mais importante.

Heero demorou-se para entrar no carro, observando ela ir até a scooter. Mais que nunca, precisava dizer a ela o quanto ela era valiosa para si. Precisava explicar que jamais poderia resisti-la e que jamais queria perdê-la. Aborrecia ter de esperar ainda uma semana. Ia valer a pena, porém. Apesar do que Akane o alertou, Relena não pareceu tão ensimesmada sobre como era considerada por ele. Era como se ela já soubesse quão sinceros, puros e certos eram os sentimentos dele por ela, feito ela lesse sua mente e seu coração. Ele sorriu sozinho, entrando no carro. Que ela lesse, ele não se importava. Para ela, não havia segredos, não conseguia se proteger dela.

Colocou a bolsa cuidadosamente no banco de passageiro a seu lado e foi seguindo-a pelas ruas, agora já sabia aquele caminho de cor. Ligara o rádio, mas nem percebia o boletim de notícias sendo dado pela voz fanhosa na transmissão de má qualidade.

De braços dados, entraram no prédio. O porteiro os cumprimentou com um aceno de mão. Dentro do elevador, ela encostou a cabeça no ombro dele, absorvendo seu calor.

_Sabia que sua madrasta vai fornecer alguns acessórios para o figurino da montagem? –ela revelou. Heero não via seu rosto, mas ela soava sorridente.

_Ah é?

Ela murmurou afirmativa e explicou:

_Nossa figurinista gostou muito quando viu a roupa que ela mandou para Akane. –e não soava só sorridente, mas também empolgada.

_Esther é especialista em bordados. –ele observou, prático, tentando contribuir com o assunto.

_Sim, foi isso mesmo que chamou nossa atenção.

O elevador abriu inesperadamente, apesar de terem chegado ao andar desejado. É que estavam tão confortáveis enganchados ali que não parecia natural mudarem de posição. Trocaram um olhar cúmplice e Relena riu, puxando Heero para fora, que se deixou arrastar facilmente. Havia algo de mágico na risada dela, ofuscava seus sentidos, feito uma droga anestesiante.

Ela recuperou a bolsa e pescou as chaves lá dentro, destrancando a porta. Ao tocar o interruptor para acender a luz, ouviu um ruído estranho. A lâmpada piscou rapidamente duas vezes e depois apagou. A sala ficou completamente mergulhada na penumbra cinza azulada do final de tarde.

_Queimou… –ela murmurou conclusiva, olhando para cima. –Já estava esquisita ontem…

Heero não disse nada. A pouca claridade que conseguia vencer as cortinas da janela desenhava a silhueta dela em sua frente, movendo-se com a leveza de uma sombra, indo até o balcão da cozinha. Ela colocou suas chaves e a bolsa ali e depois se voltou sobre o ombro, os olhos acesos, procurando-o, estranhando seu silêncio. Sentou-se na banqueta e observou-o aproximar-se:

_Tem uma lâmpada aqui para eu trocar?

_Acho que não. Mas posso falar com o porteiro, talvez o zelador tenha algumas de reserva guardadas…

_Eu cuido disso. –e tinha parado bem perto dela, bem em sua frente. Mesmo ali ela se sentia espreitada.

Abriu um sorriso igual ao pôr-do-sol lá fora – de brilho oblíquo, manso, onírico. Ele via bem e respondeu à altura, sorrindo tão deslumbrante e sedutor quanto, apoiando cada uma de suas mãos sobre as pernas dela, os dedos contornando e apertando com gentileza as coxas firmes, esguias e de pele macia e cálida.

Envolvidos naquela luz baixa, sentiam-se mais sozinhos do que nunca. Ele levou o rosto para bem perto do dela, suas testas quase se encontrando, seus narizes se esbarrando, até trocarem um beijo intenso e longo, silente e sincero. A cabeça dela moveu-se para trás, extasiada, e ela escapou dos lábios dele, que seguiram ansiosos percorrendo a pele de seu pescoço e colo.

_Heero… não vá deixar marcas… –ela pediu, um tanto sufocada de prazer, a voz carregada de súplica, sensual.

As mãos dele alisaram as pernas dela até prenderem-se aos quadris, os lábios dele deixavam trilhas quentes de beijos pelos ombros dela. E ouvindo-a, afastou-se felino e procurou os seus olhos. Relena respirou fundo, retribuindo o fito.

_Só nos lugares invisíveis… –ele replicou, e pousou um último beijo na bochecha sedosa dela. E sorria com os olhos ao se afastar.

Relena sentiu-se corar e suspirou. Ela mal podia se mover, feito suas energias tivessem sido roubadas. Sorria debilmente e respirava lenta e intensamente, um delicioso langor se espalhando por debaixo de sua pele, desfazendo todas as tensões em seu corpo.

Ao sair do elevador no hall, Heero encontrou Tint diante da porta:

_Ué, mas já vai? Janta com a gente.

_Só vim ver se o porteiro tem uma lâmpada.

_Ah, então finalmente a lâmpada da sala queimou… –ela entrou no elevador. –Fale com Pargan, ele com certeza vai te ajudar.

_Ok.

_Não demora, senão a Lena vai ficar com saudades… –e provocou antes das portas fecharem completamente.

Ele meneou a cabeça. Relena bem podia ter uma colega de apartamento menos saliente.

O porteiro ouviu a conversa e saiu de trás de seu balcãozinho:

_O que aconteceu?

_O senhor tem uma lâmpada nova por aqui? –e explicou qual tipo precisava. O porteiro o escutou com atenção para então responder:

_É claro. Só um instante. –e olhando para a porta de soslaio, preocupado com a entrada de alguém, foi em direção a uma porta lateral identificada com uma placa de acesso restrito. Ao retornar, trazia uma embalagem com uma potente lâmpada de LED. –Quando precisar de algo assim, é só ir lá dentro. –e mostrou a porta ao mesmo tempo em que entregava a lâmpada. –Tem algumas ferramentas e uma escada também.

_Obrigado. –Heero estranhou a confiança que o senhor colocava nele.

_Disponha. –sorriu contente em ser útil, o bigode farto e branco conferindo-lhe uma aparência bastante bondosa. Fitou Heero com alguma insistência, mas essa não era invasiva.

_Até mais… –Heero despediu-se, chamando o elevador. Pargan seguia sorrindo e assentiu de novo, voltando a seu posto.

Uma cadeira foi o suficiente para ele alcançar a lâmpada. Enquanto substituía a queimada pela nova, Relena terminava de esquentar o arroz. Tint já tinha separado toda a louça a ser usada e só esperava a luz voltar para arrumar a mesinha de centro e transformá-la em mesa de jantar.

_Não precisa de tudo isso. –Heero murmurou, rosqueando a lâmpada.

_Claro que precisa, vai comer em pé? Hoje a gente improvisa um jantar estilo marroquino.

_Só o estilo, porque da cozinha marroquina eu não entendo nada… –Relena riu, quebrando os ovos para preparar a primeira omelete com azeite, tomate e ervilhas.

Tint fez um silêncio sério, dramático na meia luz. Depois explicou:

_Sobre isso devo assumir a culpa, já que tudo que a Lena sabe sobre cozinha foi eu quem ensinou. –e usou um tom de voz lacrimoso, só para rir argentina depois.

_Oras… –Relena resmungou. –Vai ser sua culpa também se eu queimar sua omelete.

Heero as ouvia, sorrindo de canto, sem interrompê-las. Esperou elas pararem de rir para indagar:

_E Daniil?

_Deve estar na academia… segunda-feira não é dia de namorar… –ela explicou, monótona.

E assim que Heero desceu da cadeira, Tint acendeu a luz. Até doeu um pouco os olhos a nova claridade intensa do LED.

Vinte minutos depois, estavam comendo. Relena perguntou mais sobre o casamento e Tint deu palpites sobre quais vestidos Relena poderia usar. Além disso, não falaram de nada muito sério, só de trabalho.

Então, às oito horas, Heero se despediu e deixou-as para que todos pudessem repousar do cansaço do primeiro dia de trabalho da semana.

_Esse lance está cada vez mais sério entre vocês… ele ainda não falou nada…?

_Não, ainda não. Eu não disse que não estamos namorando?

_Não, você só enrolou todo mundo com o papinho de estarem se conhecendo, o que é uma mentira esfarrapada…

_Oras, Tint…

_Com esse casamento aí, não tem mais volta. Como ele vai apresentar você para todo mundo lá?

Relena ficou pensativa. Tint estava sendo chata, mas também estava com a razão. Será que ela estava errada em não se preocupar mais com a situação de seu romance?

Com Ricard tudo tinha sido tão diferente que ela não podia usar como comparação. A história de Tint e Daniil também não era de muita referência para ela.

Suspirou, secando a louça que Tint lavava. Não gostava de se preocupar com aquele assunto. Não queria estragar sua felicidade.

::::::::::

Sexta-feira, oito da noite:

_Acabei de chegar e já quero ir embora. –Heero ouviu a voz enfadada a seu lado. Ele olhou Wu Fei e viu que a voz não comunicava nem metade do tédio que a expressão facial do amigo exibia. Heero bufou, sem vontade de responder, nem para concordar.

Eram raros os momentos em que se encontravam e até que gostavam assim, apesar de serem amigos. Wu Fei era paramédico de serviço de emergência, tão ocupado quanto Heero, ainda mais disciplinado, se é que era possível, e ainda muitas vezes mais desdenhoso quanto a ocasiões sociais.

_O Laurell tinha que casar… que incômodo… –e reforçou seu desagrado.

Duo encarava Wu Fei do outro lado da mesa praticamente ofendido. Os três beberam em sincronia.

_Mas é para isso que você guarda suas folgas… –Trowa resolveu provocar Wu Fei, embora sua voz monótona e elegante não desse qualquer sinal de bom-humor ou amistosidade. –E suas férias vão vencer de novo… –alfinetou mais agudamente.

Heero franziu as sobrancelhas, meneando a cabeça:

_Não é como se você tivesse vida social também…

Trowa também era um dos amigos que Heero quase nunca via. Ele trabalhava na unidade florestal e já era capitão.

_Rapazes, chega disso… temos que agradecer a Laurell a oportunidade de conseguirmos nos reunir depois de tantos anos… –Quatre salientou, cordato.

_Ah, mas se a gente não brigar não é a mesma coisa… –Duo zombou, deixando Quatre desanimado.

Estavam os cinco em torno de uma mesa bem servida de um balde de gelo com cervejas importadas e alguns pratos com salgadinhos e porções. O barulho das vozes masculinas no ambiente suplantava a música. Laurell procurou mesclar bem seus convidados, chamando amigos de todas as idades e posições, também alguns parentes. Ele parecia ter tios bem pentelhos e Heero sabia que a probabilidade daqueles homens aprontarem alguma coisa era bem grande.

A sala era bem ampla, Heero nunca imaginou um camarote VIP daquele tamanho, e por uma parede de vidro fumê, podiam ver tudo o que acontecia lá embaixo. A pista de dança ainda estava pacata, desinteressante para a maioria, que por enquanto preferia encher a cara à custa do noivo.

Laurell estava passando de grupo em grupo para cumprimentar, agradecer, conversar um pouco.

_E a Cîroc? Cadê? –Wu Fei cobrou, sacudindo o copo, quando Laurell se aproximou. O sorriso de apresentador de TV que trazia estampado no rosto de repente ficou amarelo e sem graça.

Quatre ficou pálido, mas não expressou sua vergonha em palavras.

_Não liga para ele, cara… –Duo tentou contornar. –Está muito boa a festa… deixa dar meia-noite e a gente acha uma garota na pista de dança para você… –piscou um dos olhos.

Quatre sabia que não deveria ficar tão horrorizado, mas ficava mesmo assim.

Trowa riu da cara do amigo sensível e comportado.

Laurell não sabia o que dizer, como escapar daquilo, como agir. Talvez não entendesse bem onde estava.

_Mas isso é ou não é uma despedida de solteiro? –Duo percebeu e frisou, malicioso.

Laurell sacudiu a cabeça, rendendo-se um pouco a brincadeira, rindo, e avisando:

_Daqui a pouco vai começar o campeonato de pôquer. Espero que se divirtam e muito obrigado por vir. –e escapou.

Heero notou que Laurell estava inibido e imaginava que era por causa do chefe do departamento ser seu sogro. Parecia que não queria desagradar ninguém para que o chefe não ouvisse qualquer reclamação dele e ao mesmo tempo tinha medo da festa sair do controle e ficar mal falado para o chefe. Parecia que nem conhecia o homem… ou tinha medo da Rika, a noiva? De qualquer modo, Heero não sentia firmeza naquela união.

Bufou. Enxergando tudo por meio de seu ponto de vista analítico, desaprovava.

O campeonato de pôquer pelo menos justificou sua presença ali. Wu Fei também aceitou participar, não vendo melhor alternativa. Toda a competição levou quase quatro horas, e embora nenhum dos dois tivesse ganhado, chegaram até o fim e deram bastante trabalho a seus oponentes. Havia mais interessados em participar e uma segunda chave de mesas foi organizada, mas Heero não ficou, deixou seu lugar para Trowa, e foi dar uma volta para fiscalizar a festa.

Um terço já tinha bebido além da conta e estava achando que a água refinadamente servida em taças era Martini. Um deles até reclamava que não colocaram a azeitona no seu drinque. Heero não conseguia rir de tão patética que era a cena.

A pista de dança finalmente estava lotada e alguns rapazes já tinham se juntado a ela. Quando espalhassem que estava havendo uma despedida de solteiro, não demoraria muito para garotas começarem a aparecer.

Por enquanto, porém, os tios e nem ninguém não tinha saído com alguma surpresa.

Encostou ao bar e pediu um copo de San Pellegrino com limão e procurou com os olhos seus amigos. Duo e Jonathan estavam vendo algo no celular de um dos dois, rindo suspeitosamente. Quatre prestava atenção na conversa que acontecia em um grupo, assentindo, considerando a história ouvida com gravidade. Trowa e Wu Fei jogavam cartas. Cada um achou um jeito de se entreter.

Bebeu solitário e silencioso, cansado da música. Um rapaz chegou ali também e puxou conversa, parabenizando-o pelo que viu do jogo de pôquer. Heero deu algum crédito, mas falou de trabalho, relatou algumas experiências, sem disposição de falar de nada mais pessoal que isso. Surgiu até um comentário meio grave sobre a falta do Vasilovitch ali, elucubrações sobre como estaria a viúva dele, mas o rapaz com quem conversava logo fez dissipar a lembrança triste, falando de sua namorada. Será que também estava tão babão quanto aquele cara, Heero perguntou-se. O rapaz falava dela como se beijasse o chão em que ela pisava, parecia que a moça era a melhor do mundo.

Não devia ser melhor que Relena…, Heero pegou-se rebatendo em pensamentos e respirou fundo por ter conseguido se conter. Não queria começar uma briga ali, não devia, não precisava.

O companheiro de Heero foi interrompido na descrição de seus sólidos planos futuros com a moça com quem saía fazia um mês ao ser chamado por um amigo.

Despediram-se em bons termos, Heero tinha feito mais um conhecido que vira uma vez em algum lugar…

Ao ver passar pela fresta da porta um quinteto de garotas, soube que era hora de ir embora. De onde elas tinham vindo chegariam mais e a festa estava finalmente descambando. Ele pouco se importava se seus colegas de trabalho pegavam alguma menina de vez em quando, mas aquilo não era para ele, nunca fora e muito menos o era agora. Já tinha cumprido seu dever e podia partir de consciência leve, não que isso fosse muito importante para si.

_Eu vou embora… –resmungou para Quatre ao passar por ele. Quatre anuiu e voltou a seu bate-papo, deixando o amigo desaparecer.

Heero atravessou a porta se esbarrando em uma morena que puxava um dos bombeiros da escada 5 pela mão. O rapaz trocou um olhar preocupado com o seu tenente, mas diante da frieza em Heero, respirou mais sossegado e voltou a rir com a garota.

Foi um alívio estar do lado de fora da casa noturna, o ruído dos carros na avenida amaciando seus ouvidos. Respirou fundo o ar gelado da noite, concentrou-se em sirenes que captou distante, de repente preocupado. Checou seu celular e estranhou vê-lo sem bateria. Enfiou as mãos no bolso depois de guardar o aparelho. Talvez fosse uma boa ideia dar uma passada no quartel e ver se tudo estava bem.

O manobrista se aproximou dele após alguns instantes, confirmou a placa e foi buscar o Elantra azul.

Aquela era a avenida mais badalada da cidade. Ele estava em um dos extremos, o das casas noturnas, mas se seguisse na outra direção, encontraria vários barzinhos, lanchonetes e restaurantes, todos cheios. Ao invés de sair daquela via, decidiu percorrê-la toda, observar suas luzes e seu agito, como fizera muitas vezes quando estava enjoado de ficar em casa.

Parou em um semáforo de cruzamento com outra grande avenida, bem perto da esquina, onde havia um bistrô. A fila estava enorme, era digno de nota, e meneando a cabeça, Heero olhou para o número impreciso de casais persistentes em entrar apesar da hora avançada. Que bobagem, julgou. Mas ficou perplexo mesmo ao identificar uma moça loira sorridente abraçada a um rapaz a poucos passos de entrarem.

Ele conhecia aquele sorriso melhor que o seu próprio.

O sinal abriu e ele não conseguiu olhar mais uma vez para se assegurar.

Mas como poderia confundir Relena?

Não havia semblante que ele tivesse decorado melhor e presença que ele distinguisse com maior precisão.

Não sentiu orgulho de si mesmo, mas deu a volta e passou de novo na frente do bistrô. Pegou o sinal fechando mais uma vez, diminui a velocidade e reparou: a moça jogou o cabelo, mostrando o rosto com mais destaque, bem arrumada, muito bonita, corada de repente com algo que ouviu o homem falar, rindo alegremente.

Sua Relena estava ali tratando aquele rapaz, aquele outro rapaz, com uma intimidade e um carinho dos quais Heero achava ser o único dono.

Olhou bem para ter certeza que não estava sendo enganado pelos seus olhos, que não inventava aquela cena, que não imaginava ela aninhada sob um dos braços que o rapaz passava por seus ombros, protegendo-a do sereno.

Quando o sinal abriu, ele olhou para frente, perfurando o para-brisa com seu fito, segurando o volante com força, prendendo a respiração. Seguiu a fila de carros, sentindo-se estranhamente esvaziado. Suas sobrancelhas franziram e seus olhos se apagaram, ele não ouvia mais nada, não sentia mais nada.

Talvez sua joia não passasse de bijuteria barata, feita de vidro.


Bom dia!

Finalmente, retorno!

Não reparem, mas eu mudei o nome da mãe da Akane de Stelle para Esther por motivos de canon. :P Então, onde foi lido Stelle, deve ser lido Esther e daqui em diante, Esther será.

Não levem em conta alguns pormenores.

Espero que estejam gostando. Se tiverem dúvidas, deixem perguntas em seus reviews que respondo tudo!

No mais, estou ansiosa em saber o que estão achando.

Beijos e abraços!

04.07.2016