No último capítulo…
Heero se dá conta de que tem um importante compromisso para honrar. Um dos soldados irá se casar naquele fim de semana e agora o convidava para sua despedida de solteiro. Depois de conversar com Relena sobre o evento e receber seu aval para a festa, eles tem um jantar despretensioso no apartamento dela. Na sexta-feira à noite, na festa de despedida de solteiro, reencontra seus amigos Trowa e Wu Fei que não via há um bom tempo. Retornando para casa, Heero passa de carro por uma fila em um bistrô e vê Relena lá na companhia de outro rapaz, divertindo-se muito.
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8
A mesma sexta-feira, cinco e meia da tarde:
_Vocês estão dispensados este sábado. –Nedved proclamou sem entonação, o sotaque deixando-o rabugento e relutante. Golpeou o chão com seu bastão, sinalizando o final da aula.
Os bailarinos comemoraram desavergonhados, disposto a usufruir plenamente a folga bem-vinda. Nem por um instante tinham se esquecido de que na semana seguinte os treinos passariam a se intensificar e o trabalho com as coreografias começaria para valer.
A partir dali começavam a contar cento e vinte dias até a estreia.
_Ainda bem, estou exausta… –Valentina murmurou enquanto todos curtiram a sensação de todos eles estarem livres aquele fim de semana.
_O que acham da gente aproveitar e ir para o cinema? –Fanny ainda estava empolgada.
_Ah, hoje não, quero ficar de boa e assistir Grey's Anatomy. –Valentina logo descartou, mais interessada em assistir a última temporada da sua série favorita.
_E você, Lena, que tal? –Fanny não desistiu.
_Olha, Fanny, pode esquecer, que essa daí agora só sai com o boy. –Tint cortou Relena, provocando a amiga.
Relena bufou, tentando não rir, querendo parecer aborrecida.
_Muito obrigada, Fanny, mas hoje também prefiro descansar… –e embora soubesse que a resposta de Tint causasse mais impacto, escusou-se educadamente, feito Tint não tivesse falado algo.
_Eu vou. –e Tint confirmou. Fanny sorriu grata e saiu para reunir mais interessados. Valentina pegou sua toalha e saiu para o vestiário.
Akane não se pronunciou sobre o cinema, embora certamente fosse juntar aos demais. E quando foi sua vez de falar algo, lamuriou, frustrada:
_Que chato, plena sexta-feira e nem vou poder beijar na boca.
Relena a encarou, espantada, mas Tint gargalhou, interessada:
_E o seu gato? Brigaram? Aí que você tem mais motivo para sair beijar… duvido que não tenha uns contatinhos…
_Ai, Tint… –Ane fez-se irritada só por um instante antes das duas explodirem em uma risada incriminadora. Relena revirou os olhos, sabendo-as impossíveis. Pelo menos elas se entendiam bem.
_Não, não brigamos. –e depois Akane achou por bem explicar, meneando a cabeça, tratando o que Tint tinha dito como um absurdo. –Estamos super bem, mas é que ele está na despedida de solteiro do colega dele.
_Você deixou? –Tint cobrou.
_Claro, quanto mais prende, mais ele cansa. –Akane deu de ombros, despreocupada. Tint não pareceu aceitar bem, deixando as sobrancelhas em ângulos insatisfeitos, e voltou-se para Relena:
_O Heero foi também?
_Sim. –com muita tranquilidade, Relena disse e assentiu, reforçando seu desembaraço.
_Isso você não me conta, né? Por isso que está tão desmilinguida. –e Tint não perdoava nada, buliçosa. –Vamos ao cinema… –e incentivou depois, se despindo de todo seu remoque.
_Não, estou com vontade de ler um pouco, tomar um bom banho…
Tint suspirou, sem entendê-la, mas deixou para lá.
Daniil se achegou suavemente:
_Vamos com a Fanny?
_Sim, você passa lá em casa?
_Claro, daqui uma hora mais ou menos…
_Uma hora e meia.
Ele só assentiu e a beijou nos lábios com leveza e atenção. Em aparência, eram muito iguais, os cabelos negros, as peles pálidas e os olhos azuis, mas em essência, totalmente diferentes, o que os tornava um casal excepcional. Era como se ele fosse o céu e ela o mar.
_Tint, me conta como você e o Daniil começaram a namorar? –Akane pediu ao sentarem para desatar as sapatilhas.
_Conte a história verdadeira. –Relena advertiu, olhando Tint de soslaio.
Revirando os olhos azuis-elétrico, Tint estalou os lábios e assentiu. Depois sorriu, jovial:
_A gente passou muito tempo sendo só amigo, amigo de verdade… porém, como a dona Relena aqui diz… –e fingiu mau-humor de novo, indicando a loira com um movimento brusco de cabeça. Relena riu melodiosamente, sabendo bem o que Tint iria mencionar. –Não existe amor que não seja a primeira vista. Pensando bem, foi isso mesmo. Eu gostei dele desde a primeira vez que o vi. E ele escondeu seu interesse por mim por muito tempo, um verdadeiro mártir… –e riu exasperada.
_A Tint sempre pegava ele para desabafar quando um de seus casinhos terminava…
_E eu tive muitos casinhos… –reconheceu, lamentando por Daniil.
_Você teve todos os casinhos, Tint. –Relena rebateu, frisando bem a palavra "todos".
Tint deu de ombros, sem se importar com a verdade.
_Que malvada! –Akane julgou. –Coitado do menino!
_Mas é que ele era tão paciente e atencioso comigo…
_Está vendo, Ane, como ela é sem coração?
As três acabaram rindo, cúmplices.
Tint prosseguiu, sem pressa:
_No fim, foi bem natural namorar com ele, feito fosse a coisa certa a fazer. –deixou seu sorriso diminuir, suspirou, pensativa em suas lindas lembranças. Tanto Relena quanto Akane a ficaram observando com os olhos marotos, contentes.
_E como é a história falsa? –e sem resistir à curiosidade, Akane murmurou depois, mordendo o lábio inferior, divertida.
Houve mais risos. Tint voltou a relatar:
_Ah, ela é muito mais interessante. Quando estávamos prestes a fazer a prova para passar para o avançado, a professora Mashkina lançou um desafio que ia valer pontos bônus. Ela sorteou variações de alguns balés entre nós e o Daniil pegou a da Odile. Eu juro que não consegui tirar os olhos dele em nenhum momento, ver ele dançar daquele jeito, dar todas aquelas piruetas… Ele me mostrou um lado dele naquela dança que eu jamais imaginei existir.–e suspirou, ainda se sentia fascinada só de lembrar o modo gracioso, firme e cativante com que ele se movia na coreografia, a expressão de poder que seu rosto assumiu, incorporando o cisne negro. E quem a ouvia ali não tinha dúvidas do quanto ela era apaixonada por ele.
_Essa história aconteceu mesmo, mas Tint tem que admitir que já gostava dele muito antes disso… –Relena murmurou, explicando, provocando um pouco mais a amiga.
_Teve uma época em que eu achei que ele gostava de você, isso sim… –justificou-se, tentando tirar um pouco da razão da amiga.
Relena meneou a cabeça, relevando-a, demonstrando que aquela impressão sempre fora infundada. Talvez Tint não fosse muito boa em tirar impressões acertadas:
_Teve uma época também em que você achou que ele era gay. –Relena ainda fez questão de mencionar.
Tint bufou, dessa vez seu emburramento não foi fingido.
A única reação cabível a Akane era rir. Tirou alguns minutos para imaginar como tinha sido tudo isso. Depois, indagou mais sobre o tal desafio, intrigada quanto a que variações as amigas dançaram e se Daniil usou ou não uma sapatilha de ponta em sua performance. O assunto rendeu uns bons minutos, as três entusiastas da arte e da técnica.
_Heero vem te buscar? –quando já estavam nos degraus de saída, Relena perguntou a Akane. Tentou dissimular a alegria sentida pela possibilidade de vê-lo, olhando para os lados, procurando o sedan azul do rapaz. Além do jantar na segunda, só tinham se visto na quarta-feira, brevemente, e no mais trocado mensagens.
_Não, ele vai trabalhar até mais tarde por causa do casamento… tiveram que adaptar as escalas, algo assim, não entendi direito… –Akane explicou vagamente, feito não se interessasse nos arranjos caóticos que o corpo de bombeiros teve de fazer para todos conseguirem comparecer aos festejos do casamento da filha do chefe. Essa era uma exigência do próprio chefe.
_Então vamos lá para casa, você se arruma e vai no cinema com a gente… –Tint logo propôs ao ver que Ane estava sem carona.
Relena ficou com elas no quarto enquanto se aprontavam, as três sempre conversando sobre tudo e todos, volta e meia discorrendo sobre a apresentação de "Pássaro de Fogo", sem conseguir conter a animação pelo início dos ensaios.
_Estranhei que você ainda não pediu para contarmos o resultado dos testes, Ane… –Tint comentou, ladina, na verdade louca para revelar tudo.
_Tint, não dê ideia! –Relena repreendeu, exagerada, voltando depois a passar blush no rosto. Não ia sair, mas de ficar vendo Tint e Ane, também ficou com vontade de se maquiar só por diversão.
_Ah, eu não preciso disso… –Akane replicou, cuidando para não borrar o risco de delineador que fazia na pálpebra esquerda. –Eu sei que consegui o papel. Deu para ver nos olhos do Ned. –e retrucou, fazendo-se altiva.
Tint revirou os olhos e Relena somente riu, melodiosa, sem repreender a colega. Ela estava certa.
_Não cresce não, está entendendo, que você acabou de chegar. –Tint, por outro lado, chamou a atenção de Akane.
_Está se sentindo ameaçada? –com os olhinhos verdes faiscando, Akane enfrentou sua tutora.
Fazendo uma careta qualquer, Tint mostrou que não ia nem se dignar a dar importância para a afronta, enquanto Relena riu e continuou com a conversa:
_O conservatório deveria abandonar essa bobagem de ordenar os bailarinos. Todos nós somos importantes e talentosos… já falei isso para o Ned, mas ele acha que assim incentiva mais.
_O Ned não ouve ninguém, a não ser aquele bastão ridículo que ele insiste em bater no chão… –Tint revoltou-se.
Só risadas.
_Lena, como ficou linda sua maquiagem! –Akane virou-se e percebeu, escandalosa.
Relena estudou o resultado de seu trabalho no espelho de mão. Nunca antes sua maquilagem tinha ficado tão impecável; era só porque não ia sair…
_Ah, não, agora você tem que ir com a gente! –Tint emendou, insistente. –Vai ser um desperdício se você ficar em casa…
_Não, vou tirar uma foto e depois eu limpo… –replicou, suavemente, dando de ombros. Relena tinha se fixado na ideia de ficar um pouco sozinha em casa, aproveitando o seu sofá, assistindo um bom filme, fazendo nada demais. Sabia também que depois não poderia contar com esse desfrute por pelos menos três meses.
Uma hora depois que Daniil levara as meninas, Relena estava na frente da TV, assistindo uma reprise legal, ainda toda maquiada, de pijama, quando seu celular tocou.
_Boa noite, princesa… –de início ela não reconheceu a voz. Atendeu por impulso, distraída, e não olhou quem chamava. Recuou o aparelho e viu a foto do irmão na tela.
_Zechs! –exclamou, quase pulando do sofá e derrubando a bacia de pipocas. –Que surpresa maravilhosa! Onde você está?
_No aeroporto, esperando minha conexão.
_Você está vindo para cá? –ela pensou rápido.
_Sim. –e parecia orgulhoso com a própria resposta.
_Sério?
_E eu mentiria para você? Chego aí em aproximadamente duas horas…
Ela gargalhou, sem se caber de felicidade. Fazia tanto tempo que não o via. Ele também sempre estava ocupado com treinos e competições o que fazia difícil acharem uma folga para se verem.
_Onde vai ficar? Em casa? –a família de Relena não morava na capital, mas a duas horas de distância, em uma refinada cidadezinha litorânea, cheia de mansões elegantes.
_Talvez, mas estava pensando em passar a noite com você… tem um sofá vago por aí?
_Claro, com certeza! Não vejo a hora de te ver! Quando você chegar, me avisa. Só não vou te buscar porque não tem como trazer suas malas na scooter…
Os dois riram, entrosados.
Ela não via a hora de revê-lo. Sentou-se para continuar com o filme, e nos primeiros minutos não se concentrou muito. Mandou uma mensagem avisando Tint, para que ela não estranhasse a presença de Zechs quando chegasse. Ficou pensando que novidades ele teria para contar e se estaria muito mudado.
_Desculpe o atraso… –Zechs murmurou, pouco apologético, assim que Relena abriu a porta. Deixou as malas no chão e abriu os braços, esperando ela aproximar-se.
Ela sorria desde que ouvira a campainha. Encheu a vista com a imagem do irmão. Tudo o que mais gostava nele estava lá, intocado: o tom dourado de pele, marcada eternamente pelo Sol, e os longos cabelos loiros, ainda mais claros que os seus, arrumados em um rabo de cavalo baixo. Avançou abraçando-o com energia, colando sua bochecha na dele. Ficou na ponta dos pés, e ele a embrulhou, apertando-a com força e erguendo-a do chão, obrigando-a a gargalhar.
_O voo atrasou, que novidade. –ao se largarem, ele mencionou. –Já é meia-noite…
_Você é da casa, tudo bem… –ela o provocou, gesticulando com despreocupação. –Seja bem-vindo… –e riu mais, fechando a porta.
Ele olhou em torno. Tudo era limitado, prático, funcional. O espaço depois do minúsculo hall abrigava a cozinha de um lado, separada pelo balcão que servia de mesa, e a sala no restante, com um sofá de três lugares, a mesa de centro e a televisão. As cortinas, as almofadas e o tapete combinavam embora fossem de estampas e texturas diferentes. Traziam cores joviais e suaves, pensadas para proporcionar um momento de descanso.
_É a primeira vez que entra aqui? –ela notou o estudo que ele dedicava ao cenário.
_Não, mas não tive a oportunidade de vê-lo mobiliado. –disse, pensativo, atento aos simples objetos decorativos que apareciam sobre a mesa de centro ou em alguma prateleira da cozinha.
_Muito diferente do que imaginou? –e ela enfiou as mãos nos bolsos da velha calça de plush rosa-bebê que usava para dormir.
_Não, na verdade, não… –e virou-se para ela com seu sorriso solar. –Vai a algum lugar?
_Hã?
Ele apontou o rosto dela, e só então Relena se lembrou da maquiagem, com certeza agora derretida e borrada.
_Ah, não… as meninas estavam aqui se vestindo para ir ao cinema e acabei me empolgando…
_E por que não foi com elas?
_Não estava no clima… mas foi melhor assim, caso contrário não poderia recebê-lo.
_Olhando por esse lado…
Ele empurrou as duas malas grandes para um canto fora do caminho.
_Está cansado? Eu vou pegar uma toalha para você tomar um banho…
_Obrigado. Você já deve ter jantado, não é?
_Comi umas pipocas…
_Eu estou com fome, mas não vou fazer você cozinhar… vamos sair para comer?
_Tudo bem…
_Está disposta a sair agora?
_Sim, agora que você está aqui…
Ele gostou da contraditoriedade dela e gargalhou.
_Então, vou tomar uma ducha e saímos. Aluguei um carro. –e reforçou.
Relena foi verificar o estado de sua maquiagem enquanto Zechs se banhava. Tinha desbotado, mas se fizesse alguns retoques serviria ainda por mais uma ou duas horas. Trocou-se rápido, escolhendo jeans, uma blusa e um blazer leve e, depois de uma boa escovada, prendeu só as mechas da frente dos cabelos com presilhas.
Em meia hora os dois irmãos estavam prontos para partir.
_Gostei de ver, os bastidores de um balé deviam ser passagem obrigatória para todas as mulheres aprenderem a arrumarem-se rápido assim. –ele congratulou, faceiro e espirituoso.
_Oras, Zechs! –ela o esmurrou no ombro, revoltada.
_É verdade, pense só na mamãe, quanto tempo nós iríamos ganhar?
Relena não quis incentivar o irmão no seu machismo inofensivo, mas soltou uma risadinha.
_Como será que ela está? –e depois ele mesmo indagou, carinhoso.
_Com certeza se acabando em compras em Hong Kong. –Relena respondeu prontamente, despreocupada. Zechs assentiu, concordando plenamente. –Tem algum motivo especial para você ter vindo para casa? –e Relena sondou, espontaneamente, mostrando-se um pouco intrigada.
_Meu técnico finalmente me deu as férias que venho acumulando esses últimos anos… de qualquer modo, já estava na hora de eu ficar um pouco com vocês.
_E quais seus planos?
_Estou pensando em ficar aqui uns dois meses e depois voltar para Europa e encerrar minha folga lá.
Relena assentiu, aprovando. Estimou que daquele modo teria tempo de aproveitar a companhia dele bastante e apresentá-lo a Heero com calma.
_E como vão as coisas?
_Vamos dançar "O Pássaro de Fogo" de Stravinsky na apresentação anual.
_Que ótimo. Quero conhecer o pessoal, hã?
_Vou ver se infiltro você em alguma aula da semana que vem, que tal?
_Perfeito. Tint e Daniil continuam no conservatório com você?
_Sim, estamos todos juntos no grupo principal. Este ano está sendo muito bom… os bailarinos que entraram para a turma avançada são excelentes, vamos fazer um grande espetáculo.
_Espero não perder a apresentação dessa vez.
_É bom mesmo. –e ela cobrou, mimada. –O Balé Real da Bélgica mandou uma equipe para assistir os ensaios.
_Olheiros?
_Podemos dizer que sim.
_E quais são suas chances?
_Quem sabe…?
_Sua espertona, não se faça de humilde. Não tem ninguém melhor que você naquele conservatório. –Zechs a importunou, orgulhoso. Roubou um fito dela enquanto guiava o carro, dando um passeio sem destino por enquanto, para rever alguns lugares da cidade que era particularmente linda a noite. Percebeu os olhinhos dela brilhando, embora ela não falasse mais nada. Resolveu falar um pouco de si:
_Vou endossar algumas campanhas.
_Virou garoto propaganda?
_É o preço do reconhecimento, vai chegar a sua vez…
Ela riu:
_Você daria um ótimo modelo de passarela, mamãe até já te disse isso…
Ele careteou, ultrajado. Fê-la rir ainda mais.
_Vou parar o carro aqui… vamos andar um pouco.
_Eu conheço um bistrô muito bom aqui perto, quem sabe damos sorte e conseguimos um lugar na fila?
Ele manobrou com expertise o sedan branco e imponente na vaga e logo os dois desceram e se engancharam ao caminharem na calçada movimentada.
Continuaram conversando, lembrando-se de coisas que queriam falar um para o outro. Ao chegarem ao bistrô sem notar. Havia oito casais a sua frente na fila para uma mesa.
_Vale mesmo a pena esperar? –ele indagou, olhando os lados. –Estou faminto…
_Sim, não é muito demorado e a comida deles é sem igual. Confie em mim.
_Não me faça me arrepender. Da última vez que você me pediu para confiar em você, eu quase morri.
_Não exagera, Zechs. Aquela montanha-russa nem era a maior do parque. Não dá para entender como um homem desse tamanho, velejador em alto mar, piloto de lancha, tem medo de um brinquedo de parque. –ela expressou sua inconformidade com um tom acusatório.
Ele não teve vergonha de confirmar:
_Não de qualquer brinquedo, mas daquela montanha-russa invertida do tormento eterno.
Ela revirou os olhos, desconfiando que ele estivesse de graça.
Em vinte minutos que estiveram em pé ali, dois casais entraram para sua refeição. Relena gostou de ter razão sobre a brevidade do intervalo de espera. O tempo ia rápido porque o assunto não cessava e ouvia o irmão contar sobre uma corrida em que participou por convite. Tinha acontecido em Ibiza. Por algum motivo, ele sempre estava em lugares maravilhosos daquele tipo, cercado de pessoas lindas e famosas sem um pingo de preocupação em suas vidas de capa de revista. Se ele não fosse seu irmão, ela não conseguiria acreditar nem em metade do que ele dizia.
_Não estou gostando disso… –de repente ele resmungou, cortando seu próprio raciocínio.
_O que foi?
_Está vendo aquele cara ali? –e mostrou um grupo de amigos próximo de um poste de placa de trânsito. Eles tinham se reunido junto a um carro e deixavam suas latas e garrafas de cerveja sobre o capô de quando em quando. –Aquele, com aquela camiseta ridícula, falsificada, parecendo um outdoor da Tommy Hilfinger.
_Ah, sim… –depois de tal descrição era impossível não identificar. O fulano parecia se sentir como se estivesse arrasando.
_Então, ele não para de olhar para você. Vou ir lá tirar satisfação.
_Mas o que é isso, Zechs, vai me fazer passar vergonha? Não estamos mais na escola… –ela achou graça, corou, admoestou, fez tudo ao mesmo tempo, pasmada com a intenção do irmão.
_Não, quem ele está pensando que é? –reclamou, franzindo as sobrancelhas com soberba.
_Sério, Zechs, deixa para lá. –ela o tocou no braço, chamando sua atenção. –Se não vai ficar feio para você e vai perder seus endossos milionários. –e soava persuasiva e sensata. –Quero poder falar para as meninas do balé que meu irmão fez a propaganda do desodorante que os pais delas usam. –e quase não deu conta de terminar sua frase sem rir. Cada vez que olhava Zechs, queria rir mais, a expressão de ofensa e descrença dele digna de virar meme.
_Eu te considero tanto… me preocupo em preservar sua honra… –ele murmurou depois, magoado. Ela ainda não tinha parado de rir. –E você faz isso comigo. Vai ter que bancar o jantar.
Ela respirou fundo, tentando recobrar a compostura:
_Tudo bem, é justo. –e se submeteu.
_A não ser que queira dar uma chance para aquele garoto propaganda também… –e ele resolveu provocá-la, em uma vingança pálida. –Ai, podemos pedir para ele pagar.
_Não, muito obrigada. –ela dispensou prontamente.
_Ainda bem. Ele não é os eu tipo.
_E qual é o meu tipo, irmãozinho?
_Vejamos… deixe-me lembrar dos pôsteres de boy bands no seu quarto…
E os dois riam, pareciam bêbados, estavam começando a chamar a atenção. Andaram um pouco quando mais um casal conseguiu uma mesa.
_Brincadeira… eu não sei, Lena. Desde que seja um rapaz decente, está bom.
_Gordo?
_Oras, sim… gordo, magro, alto, baixo… não há problemas…
Ela sorriu, meneando a cabeça.
_Tatuado?
_Sim.
_Com vários piercings no rosto? –e gesticulou com as mãos, mostrando as posições imaginárias dos vários brincos em sua própria face angelical.
Ele hesitou um pouco:
_Sim…
_Muito mais velho?
_Não!
_Divorciado.
_Relena…
_Bombeiro?
_Hã, bombeiro, Lena?
_Responde.
Ele não pôde deixar de suspeitar. Estreitou os olhos, perdigueiro:
_Qual é o nome dele?
Ela encheu o peito de ar e confessou:
_Heero. –mas sua voz cantava sem culpa aquele nome que lhe significava tanto.
_Eu mereço… –Zechs levou uma mão à têmpora e começou a massagear o osso. –Quero tirar satisfação com ele, então.
_Deixa de ser encrenqueiro. –ela protestou, o rubor reavivado em seu rosto.
_Conta mais. –ele passou a braço pelo ombro dela e pediu, simulando uma paciência de má vontade. –Quem sabe eu aprovo?
Relena seguiu risonha, mas hesitou um instante, atenta ao olhar carinhoso do irmão que aguardava ser obedecido.
_A gente está saindo faz pouco tempo, estamos nos conhecendo… –até pensou em mostrar uma foto e então se deu conta de que não tinha nenhuma.
_E o que mais? –com sua nova pergunta, sem querer Zechs evitou que ela se demorasse demais em sua frustração.
_Eu estou apaixonada. –e revelou com outra profunda tomada de fôlego. De fato, estivera distraída demais com seus deliciosos sentimentos para pensar em tirar fotos. Não percebeu, mas suspirou outra vez, enfatizando ainda mais sua declaração ao irmão.
_Então não há mais nada que eu possa fazer. –Zechs sentenciou fatídico, estreitando mais o abraço.
Riram os dois, cúmplices, e ela jogou o cabelo.
_Fico feliz por você, na verdade. –ele explicou mais. –Você estava precisando. Estava absorvida demais pelo balé… acho mesmo que será bom você ter outros projetos…
_Estava preocupado em eu ficar sozinha?
_Não sei se era bem isso, mas… vamos colocar assim.
_E você? Aposto que não faltam pretendentes…
_Pois é… eu até estou de olho em alguém, mas ela é difícil de agradar… vou te manter atualizada.
_Bem, se ela não dá mole para você é porque é uma moça decente. E eu não ligo se ela for mais velha, divorciada ou cheia de piercings, ouviu?
_Você está terrível hoje, não? Ficou todo esse tempo ensaiando essas tiradas?
E riram ainda mais. Entraram enfim para cear.
_Mas, vem cá, Lena, esse Heero é bombeiro mesmo ou ator de filme pornô?
_Zechs! Eu vou te matar!
_Sem preconceitos, certo?
_Depois dessa, a conta é sua.
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Heero dirigiu sem rumo, sem atenção. Todas as ruas eram iguais. Rodou a esmo pela cidade, rodou sem parar dentro de sua mente. Tudo era sobre ela. A risada, os olhares, a leveza, os beijos. Queria parar de pensar nela, mas ele a tinha assimilado.
Só sentia aquele incômodo pela ideia de ter de separar-se dela. Deixá-la seria mais que submeter-se a uma queimadura de terceiro grau. Seria como perder um olho. Seria como perder a vida. Não como morrer, mas como perder o melhor motivo de viver.
Ele tinha se dedicado a ela. Tinha baixado as defesas, tinha se permitido sonhar e planejar um futuro feito para ela.
Esmurrou o volante.
Será que ela não queria? Não dava valor? Não tinha respeito?
Parou os questionamentos ali.
Se ela fosse tão falsa, tão cruel, a ponto de encantá-lo irresistivelmente por capricho, a ponto de fabricar aquele calor e aquela empolgação, seria melhor partir. Afastar-se antes que tivesse investido tudo que era.
Nem precisaria se explicar. Só não a procuraria mais. Não atenderia suas ligações. Bloquearia suas lembranças.
Mas como ela podia ser tão desejada, se tudo o que sempre viu e sentiu nela foi coração? Pleno, puro, intenso? Como alguém aprende a dissimular assim?
Tinha que voltar a razão.
Era de sua Relena que estava falando.
Um diamante cristalino, lapidado com todo esmero, cintilante como o universo.
Algo assim é impossível de replicar.
Tinha que vê-la. Se a olhasse nos olhos, saberia a verdade.
Fez os retornos necessários e tomou o caminho para o apartamento dela. Queria sentir o coração na mão que agarrava o volante, contudo, surgia plácido. Nem ouvia mais sua pulsação. Encontrara instintivamente seu ponto de equilíbrio em face de tensão.
O porteiro não estranhou sua chegada, mas o analisou cuidadosamente. Não estava nada sonolento, comprometido com seu trabalho:
_Boa noite.
Heero não conseguiu responder o cumprimento.
_Relena está em casa?
_Acabou de chegar.
Um par de garotas aproximou-se, chamando a atenção de Pargan, perguntando sobre o apartamento de alguém, e Heero aproveitou a distração para tomar o elevador. Não se interessava em mais nenhuma informação e não queria nem saber se havia objeções a sua subida. Se ela estivesse acompanhada, iria querer ver isso por si só.
No décimo-quinto andar, os únicos ruídos ouvidos foram do elevador fechando e descendo, os passos do rapaz e o estalido da lâmpada automática ligando.
Depois, o ruído da campainha do I95 ecoou no silêncio da madrugada. Depois, batidas na porta, insistentes.
Péssima hora para estar sem telefone.
Heero ousou bater mais uma vez.
Mais uma vez.
Enfiou as mãos no bolso.
Que papel estava fazendo.
Sentia-se corar no escuro, a lâmpada há tempo apagada, e corava de agitação, de ansiedade, de apreensão, de vergonha.
De vergonha do quê?
De pensar mal dela, do silêncio daquele apartamento, daquilo que ele não sabia, mas sobre o qual gostava de se torturar…
Estava ficando desencorajado novamente.
Deu uma pancada mais forte na porta, desabafando sua frustração e chamou o elevador.
Um pouco depois, o transporte abriu para um casal risonho que ficou bem à vontade, prosseguindo com seu assunto, ignorando Heero.
A alegria deles estava irritante.
Ele não tinha nem o celular para usar de escape e ignorar os dois também.
De volta ao térreo, cruzou logo o hall de recepção com suas largas passadas, ensimesmado demais para atender ao chamado do porteiro.
_Ai… olhe por onde anda!
_Tint!
_Você também…
Nessa cacofonia de diálogo, Heero deu-se conta de ter esbarrado em Tint na porta. Daniil estava atrás e quase caiu com a brusca parada que ele foi obrigado a realizar.
_Heero… tudo bem? –e sem conseguir reação melhor, Tint questionou. Logo recuperou sua astúcia e malícia habituais, porém.
_Veio ver Relena? –Daniil garantiu o movimento da conversa. Um sorriso bem-humorado espantava a melancolia do seu rosto pálido.
_É claro que veio, né! –Tint resolveu responder a obviedade no lugar de Heero. –A não ser que ele esteja de paquera com Parg… ah ai! –e sua provocação foi cortada por um beliscão na parte de trás de sua coxa.
_Sossegue… –Daniil a reprendeu em russo, e embora a palavra tivesse certa aspereza em sua pronúncia, a voz dele era suave e brincalhona.
_Heero, você pode prender ele? –Tint pediu, mas olhava fixamente nos olhos de Daniil enquanto reclamava. A verdade era que ficou louca para beijá-lo.
_Qualquer um pode prender alguém, desde que seja flagrante. –e Daniil mesmo esclareceu, tranquilo, disfarçando um flerte.
Heero só revirou os olhos, irritado por demais com a felicidade deles.
_A Relena não está… –e resmungou, querendo passar por eles e ir embora.
_Está sim… você tentou o apê da Lindt?
Estacando em seu percurso, Heero franziu os olhos e lançou uma interrogação confusa, praticamente afrontado. Ela seguia espertalhona, com as mãos na cintura.
_Vem, estamos indo para lá.
_É o nono andar? –Daniil indagou, o dedo hesitando sobre os botões.
_O décimo. –Tint selecionou por ele, intrépida.
_Acabamos de deixar Ane no alojamento… –Daniil prosseguiu.
_Esperamos ela entrar, não precisa ficar preocupado. –Tint seguia extrovertida.
Heero não conseguiu responder nada.
_Talvez ela devesse ter vindo também… não seria divertido? –Daniil imaginou, enfiando as mãos no bolso, tímido com a própria pergunta.
_Ela falou alguma coisa sobre sono de beleza… acho que quer estar bonita no tal casamento… mas não é domingo? –Tint gesticulou amplamente, redarguindo, olhando Heero em relances.
_É, é sim. –Heero murmurou, imitando Daniil, encostando-se a parede a seu lado.
_Pronto, é aqui. –caminharam poucos passos até a porta.
_Eu não vou entrar. –Heero anunciou.
_Tudo bem, eu chamo a Lena.
_Está tudo bem? –Daniil acabou cedendo a seu exame e indagou.
Heero assentiu, os olhos concentrados em nada, como se olhassem para dentro, para o passado.
Daniil franziu as sobrancelhas, preocupado, entristecido.
Tocaram a campainha.
Boa noite!
Pássaro de fogo alçando voo essa semana.
Dividi o capítulo de novo! (risada de vilã de anime dos anos 1990)
Não, eu não ganho nada para ser malvada.
É possível uma postagem dupla essa semana, quem sabe? Só preciso de mais umas 2500 palavras para o próximo capítulo ficar pronto.
Torçam por eu me manter inspirada.
Mas pelo menos, agora todo mundo sabe o que a Lena estava aprontando.
Espero que gostem!
Beijos e abraços!
25.07.2016
