No último capítulo…
Heero vai até o edifício St. Gabriel para esclarecer com Relena o que viu. Tint o leva até o apartamento de Lindt, que está dando uma festa, onde está Relena. Ao se reencontrarem, discutem sobre o acontecido, ele percebe como entendeu a situação de forma errada, mas ela se magoa por ter sido julgada mal. Rapidamente, porém, ela cai em si e percebe o erro que está cometendo e tudo se acerta. Depois, no Domingo, os dois comparecem ao casamento de Laurell.
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10
Heero nunca pensou que oferecer um jantar daria tanto trabalho. Mas as competências de organizadora de Akane faziam tudo correr suavemente. A maior parte das decisões foi tomada em um vai e vem de mensagens, nas quais ele teve de aprovar cores, flores e receitas. Akane não poupou esforços e aproveitou para redecorar toda a sala dele. Compraram na Ikea até um conjunto de mesa de jantar novo, para dois, especialmente para a ocasião.
De todos os preparativos, o mais importante era fazer o convite.
_Quero te levar para jantar este sábado. Tudo bem?
Relena franziu o rosto de um modo divertido, comentando:
_Você parece tão decidido… não ousaria recusar. –e riu faceira.
Ele deu de ombros, um pouco sem graça. Não tinha se dado conta de que soara tão autoritário. Atalhou roucamente, segurando-a pela cintura:
_Só precisava saber com antecedência se estava livre. Temos reservas especiais.
Aprovando o abrandamento dele, Relena riu:
_Ah, sendo assim, vou consultar minha agenda. –provocou, nunca antes tão marota, pousando as mãos no alto do peito dele, deixando seus olhos flutuantes sob os lábios dele.
Ele cortou o clima. Havia algo que o estava preocupando:
_E seu irmão?
_Está em nossa casa em Odelia. Está ansioso em conhecê-lo. –ela explicou, iluminada. Nada parecia problemático para ela.
Ele assentiu, ainda pensativo, e vendo Akane aproximar-se aos pulinhos, se desencostou do carro e gentilmente levou Relena a separar-se dele.
Ele já sabia o que aquele enorme sorriso de gato no rosto de Akane significava.
_E então? –foi só o que ele teve tempo de murmurar antes de ela saltar em cima dele, berrando:
_Consegui!
Ele foi obrigado a segurá-la para que ambos não caíssem, mas graças a toda a técnica que ela dominava, não pesou nos braços dele.
Os três riram contentes. Akane soltou Heero e tirou a cabeleira bagunçada do rosto, respirando fundo.
_O que houve que o Ned te segurou até agora? –Relena indagou, desconfiada. Ninguém tinha se comportado mal naquela tarde, pelo contrário, ela nunca tinha visto bailarinos mais motivados e exemplares depois de conseguirem os seus papéis.
_O Ned fez uma reunião. Ele me propôs ser suplente para Tint. Você não sabia que ele ia chamar a gente para falar disso? Bem que estranhei vocês não estarem lá.
_Ned não mencionou nada hoje de manhã. Talvez tenha tratado com a diretoria. –Relena conjeturou, um tanto espantada. Não era uma decisão que lhe competia de qualquer maneira.
_E o que decidiu? –Heero investigou.
_Não aceitei. Para mim, seria um prazer ser suplente da Tint, mas em outra situação. Até parece que o Ned está de perseguição comigo. É claro que me senti elogiada com a possibilidade de dançar no lugar da Tint, mas eu trabalhei tanto para conquistar meu papel. É minha primeira apresentação, será que o Ned não vê que é minha chance?
Relena acompanhou o solilóquio justificativo da amiga com um sorriso sabido no rosto, assentindo nos momentos pontuais.
_Na minha opinião, você agiu certo. Ned fez a mesma coisa comigo. Sugeriu que eu fosse a suplente da Zaza mal eu tinha chegado ao grupo avançado. E eu também não aceitei. –e segredou.
Akane exibiu uma expressão luminosa de soberba, causando mais risadas em Relena.
_Então, é uma espécie de teste? –Heero concluiu, provavelmente traçando mentalmente o mesmo paralelo mental que Akane.
_Quem sabe? –Relena deu de ombros. –A única que certeza é que o Ned é imprevisível. –fez uma pausa dramática. Akane careteou, concordando, de repente incerta sobre a própria escolha. Relena estava se divertindo um pouco em confundi-la. –Sabe quem serão os demais suplentes?
_Nadia vai ser a de Tint e Lya abriu mão do papel para ser a sua. Quanto ao de Daniil, não sei, Ned não chamou nenhum rapaz.
Sacudindo a cabeça com vagareza, Relena julgou em pensamento as escolhas e não viu nenhuma brecha para contrariar Ned em suas escolhas.
_Agora precisamos ir. –Heero consultou o relógio.
Tal assertiva imperativa intrigou Relena, mas ela foi deixada suspensa naquele mistério. Com um rápido beijo de despedida, Heero se pôs a contornar o carro. Akane deu um abraço breve e enérgico naquela que considerava cunhada, e parecia bastante empolgada outra vez.
Os dois faziam Relena rir e se divertir com suas atitudes tão peculiares.
Aquele comportamento furtivo deles para com ela durou a semana toda, sem trégua. Ela até pensara em abordar Akane em algum momento durante as aulas, mas pensava se não era apenas sua imaginação.
A única pessoa com quem acabou comentando algo foi Daniil.
_Heero anda tão ocupado essa semana, quase não temos nos visto direito. –ela murmurou explicando quando Daniil sentiu falta de Heero aguardando-a do lado de fora do estúdio. É verdade que ela e Heero tinham se esbarrado, trocado algumas mensagens e alguns beijos, mas nada especial.
_Acontece. –simplista, Daniil apontou com um sorriso suave e conformado.
_Mas vamos jantar no sábado. Parece que vai ser especial.
Alterando um pouco suas feições, ele aparentou uma malícia saudável:
_Então quem sabe está preparando alguma surpresa para você? –sugeriu, contente por ela.
Aquela perspectiva apaziguou Relena embora não acreditasse que Heero fosse alguém propenso a esse tipo de comportamento. Ele aparecia sempre tão firme, prático e franco…
Sim, de fato, nem Heero acreditava no que estava fazendo, mas não se arrependia em nenhum momento. Ela merecia muito mais.
Foi arrastado todos os dias da semana por shopping centers e supermercados e na sexta-feira recebeu a notícia sobre a faxina. Até então não tinha pensado muito no motivo de Akane ter comprado aquela embalagem de um quilo de cera.
_Se tem uma coisa que bailarina conhece bem é assoalho. Se você quer causar uma boa impressão com a Lena, nada como um assoalho brilhando! Vamos deixar isso feito um espelho!
Depois de um lanche como jantar, moveram mobílias e lustraram o chão incansavelmente. Juntos fizeram uma limpeza cabal no apartamento, lavaram a cozinha, deixaram o banheiro de molho, tiraram o pó de tudo, trocaram as cortinas, os bibelôs, montaram a mesa e as cadeiras novas e foram terminar a arrumação altas horas da noite.
Sempre prevenida, Akane tinha comprado algumas pizzas congeladas que eles aqueceram e lhe serviram de ceia. Nenhum dos dois queria admitir, mas estavam exaustos e não levaram nem um segundo para adormecerem quando deitaram.
Parecia que mal tinham fechados os olhos quando o despertador avisou que era hora de acordar. Heero se arrumou e foi para o trabalho e Akane dormiu uma hora a mais antes de recomeçar com seus preparativos. Seu trabalho nunca terminava: cuidou da roupa que ele ia vestir, deu retoques na decoração da sala e por fim dedicou-se a preparar a refeição daquela noite.
De vez em quando Heero recebia uma mensagem com uma foto do que ela estava aprontando.
_Por que a Ane está na sua casa? –Duo indagou, divertido. –Dispensou a faxineira?
_Sabe, estou achando mesmo que devia contratar ela… tinha me esquecido de como é eficiente. –ele considerou, a voz monótona, mas a intenção pilhérica. –Mas como sabe que ela está lá?
_Ela postou uma foto no grupo da vista da janela da sua sala.
Heero apressou-se para ver. A paineira do outro lado da rua estava carregada de flores e Akane tirara um tempo para apreciá-la. O mais divertido era o diálogo que vinha em seguida:
"Onde tirou esta foto?" –Relena, expressando deslumbramento pelos emojis, indagou.
"Essa informação é altamente confidencial. Estou em missão secreta." –Akane respondeu.
"Eu tenho amigos que podem descobrir sua localização." –Tint informou, espertalhona.
"Não venha bancar a russa perigosa comigo." –Akane revidou.
Daniil somente apareceu e comentou:
"Inspirador" –o único normal.
Heero meneou a cabeça, forçando-se a não rir.
_Akane deve estar tocando o terror nos seus vizinhos. –Duo sugeriu, imaginando ela ouvindo música alta e dançando pela casa. Não era uma imagem muito longe da realidade. Bem que ela aproveitou para treinar alguns passos.
Heero só meneou a cabeça.
_Você está muito misterioso hoje…
Heero só deu de ombros.
Que frustrante para Duo.
Somente os bailarinos principais e seus suplentes foram chamados aquele sábado para trabalhar. Ned queria fazer sessões de ensaio individual. Relena dançou até uma hora, quando foi dispensada. Heero tinha avisado que a buscaria às sete. Depois que almoçou, se programara para algo que há tempo não fazia – passar a tarde no salão de beleza.
Tint não estranhou quando ela chegou às seis horas, de cabelo escovado e mãos feitas, maquiada e pronta. Só precisava trocar de roupa.
_E você, vai sair com o Daniil? –enquanto Relena se arrumava, ela e Tint conversaram sobre um pouco de tudo.
_Não, hoje quem pretende ficar de molho em casa sou eu.
_Que incomum…
_Eu não estou sempre tramando alguma…
_Desculpe, eu ainda não tinha percebido…
Uma pausa. Depois, risadas.
_Acha que este está bom? –Relena terminou de ajeitar a gola esporte do vestido branco de bolinhas pretas que vestira.
_Ele não falou onde vai levá-la? E se for um lugar super grã-fino?
_Sim… nesse caso, esta roupa não seria apropriada… –e virou-se um pouco para lá e para cá na frente do espelho, conferindo. A saia levemente rodada lhe caía tão bem.
_O que acha que ele pretende? –Tint murmurou com curiosidade felina.
_Não sei… –Relena suspirou, analisando-se friamente no reflexo. Tinha gostado tanto de como parecia… estava tão confortável. –Com certeza não vai me pedir em casamento. –e riu corando com a possibilidade.
_Oh, meu Deus! Não! –Tint gargalhou, eufórica, achando a ideia absurda e genial. –Mas bem que você queria…
_Claro que não!
_Mentirosa!
_É muito cedo…
_Como você pode saber?
As duas se enfrentaram pelo espelho e a seguir riram frívolas e alegres ainda mais uma vez.
_Tive uma ideia. –e Relena procurou no closet um casquinho rosa-bebê bastante delicado que deixaria o traje mais formal sem tirar sua leveza e graça. –Eu estou nervosa… –e confessou enquanto calçava seus scarpins dourados.
Tint, largada na aconchegante cama da amiga, estalou os lábios:
_Mas ele não vai te pedir em casamento. –provocou, risonha, malvada.
_E se pedir? –Relena rebateu, marota, simulando um exagerado pânico.
_Você aceita, lógico! –Tint deu um salto e sentou no colchão, quase gritando.
_Lógico! –pareciam duas adolescentes alucinadas. Depois de rirem um pouco mais, Relena suspirou e foi pôr os brincos de pérola. –É só um encontro. Não deve ser nada especial. –e voltando-se para Tint a seu lado, sorriu recomposta.
_Não sei… mas dá um pouco de inveja. Faz tempo que o Daniil não me convida para nada assim. –Tint reclamou, aborrecida, deixando-se cair violentamente na cama outra vez. –Vou cobrar ele. Ele está achando que ser o cara mais compreensivo, paciente, respeitoso, educado, charmoso e querido do mundo basta? Também quero encontros misteriosos e românticos!
Relena a achou muito engraçada, mas o som do seu celular tocando sufocou seu riso singelo.
_Ele chegou. –e a azáfama retornou de uma vez. A azáfama de vê-lo, a azáfama pelo que estaria por vir.
A vontade e a alegria da mera possibilidade de estar com ele se combinavam e formavam um turbilhão, uma onda que a engolfava e lavava-a toda, deixando-a reluzente e viva. Não tinha mais nenhuma ansiedade. Estava simplesmente contente. Tudo parecia tão certo, tão simples, tão bom, tão fácil. Encontrava a perfeição, a plenitude, tudo por meio daquela voz:
_Relena? Está pronta?
Ela sorriu, deixando o timbre rouco e sóbrio dele ecoar em seu coração.
Não queria nada mais do que estar com ele, não precisava de nada mais. Nada que ainda pudesse acontecer importava porque ali já vivia uma eternidade particular, palpável e que eliminava qualquer ânsia pelo futuro. O momento, aquele momento, cada momento era valioso.
_Sim, estou descendo. –e respondeu segura de si, completamente contente.
À parte das vezes em que o viu no uniforme de gala, era a primeira vez que Relena via Heero arrumado de modo tão elegante, tão sedutor. Usava uma camisa extremamente branca que contrastava com o terno de um negro profundo. Tinha cortado o cabelo, e embora mantivesse a revolta franja castanho-escura, esta parecia mais penteada aquela noite, arranjada de modo a cair perfeitamente no rosto dele e fazer certa sombra de mistério e charme sobre seus olhos azul-turvos. A expressão circunspecta que moldava suas feições o transformava em uma criatura irresistível, assustadora, desejável, mas inatingível.
Relena respirou fundo, voltando a exibir um sorriso lasso nos lábios. Tinha se impressionado tanto que por um segundo se esquecera dos bons modos e o estudou descaradamente. Heero nem se deu conta do quanto ela se fascinara, perdido por sua vez na nuvem de perfume e luz que ela trazia, só se reencontrando quando a percebeu diante de si:
_Você está tão bonito… –Relena sussurrou ao se aproximar, sua voz tocando-o com carinho.
Ele meneou a cabeça levemente e esboçou um sorriso:
_Você também. –e só sabia responder a um elogio se fosse para retribuí-lo. Com delicadeza tirou uma mecha de cabelo dela de cima do ombro e ajeitou para trás.
Durante o trajeto conversaram sobre a rotina. Relena contou sobre a sua sessão de ensaio e os desafios da coreografia e Heero falou da ocorrência que atendera aquela manhã em um restaurante no centro da cidade.
_Aonde vamos? –por fim, Relena indagou com entusiasmo.
_Você já vai ver. –estavam quase chegando.
Heero estacionou na rua, debaixo da paineira, e Relena franziu as sobrancelhas, confusa por estarem diante de um pequeno prédio residencial. Com um sorriso de canto ele reagiu à intriga dela, divertindo-se e desafiando-a a investigar o que acontecia, mas ela preferiu acompanhá-lo em meditação silenciosa. Atravessaram a rua e no topo da curta escadaria de entrada Heero usou sua chave para destrancar a porta.
O hall diminuto dava acesso a uma escada e a um corredor lateral. Não havia nada de extraordinário no cômodo limpo e de ladrilhos antigos e, com um passo, Heero indiciou que deviam pegar a escadaria. Apesar de já ter entendido que ele morava ali, Relena manteve-se quieta tentando descobrir o que poderia estar acontecendo. Subia na frente, de quando em quando se voltando para trás para inquiri-lo com um olhar bem-humorado.
_É no quarto andar. –ele resolveu murmurar para esclarecer o quanto deveriam subir. Eram quase dez lances, porém eram ambos atléticos e sem pressa.
Ao alcançarem o patamar desejado, Relena aguardou a direção dele a porta certa. Havia duas, uma de cada lado do corredor. Tocando-a suavemente na base das costas, Heero a levou a esquerda. Pararam ali.
Parecia errado bater na porta de seu próprio apartamento, contudo esse fora o sinal combinado. Trocou um olhar maroto, expectante, com Relena e cedeu a seu mau hábito de enterrar as mãos nos bolsos ao aguardar ser atendido. Ela mordiscou o lábio, o olhar cintilante encarando-o sem trégua, curiosa sobre o que viria a seguir.
_Sejam bem-vindos. Meu nome é Akane e eu irei servi-los esta noite. –com o abrir da porta, surgiu Akane vestida feito uma garçonete chique de colete e gravatinha. Ela sorria receptiva, com simpatia, agindo feito não os conhecesse.
Sem resistir à surpresa, Relena soltou uma risada divertida, trocando olhares perplexos com os dois.
_Vamos? –Heero indicou o interior do apartamento com a cabeça, a voz gentil e baixa, em nada abalado pela atuação precisa de Akane, que se mantinha junto à entrada, aguardando-os com solicitude.
_É claro. –Relena assentiu, adiantando-se a ele, e acenou com a cabeça um cumprimento para a amiga.
_Fiquem à vontade. –Akane mostrou o sofá para os dois antes de desaparecer.
Relena nem notou a sugestão. Distraiu-se demais apreciando seu entorno. Onde quer que se olhasse, peônias, ranúnculos, rosas centifólia e outras flores em cor-de-rosa e branco, reunidas em buquês de calculada espontaneidade, brilhavam frescas exalando uma deliciosa fragrância. Os vasos de vidros estavam em todos os lugares possíveis, arrumados com bom gosto. Relena aproximou-se de um dos arranjos e acariciou uma flor.
Heero fechou a porta enquanto Relena se ambientava. Atrás do sofá havia um buffet em cujo tampo estava concentrada a maior parte dos vasos de flores, o que oferecia o cenário perfeito para a Relena impressionada que tudo admirava, bastante encantada.
Depois de inebriar-se com o perfume das flores, ela abrangeu o lugar com um olhar contemplativo. A sala era bastante ampla, com uma sacada ao fundo, onde estava posta uma charmosa mesa para dois. Em um breve passeio pelo cômodo, Relena observou Heero acomodar-se no sofá creme decorado com uma manta azul-celeste, que fazia a divisão de espaços. Notou como a mobília branca bem posicionada valorizava o espaço, ampliando-o. Na parede esquerda, chamou-lhe a atenção as prateleiras da estante exibindo porta-retratos, placas de premiação e troféus e outros bibelôs.
Heero deixou Relena à vontade, seguindo com os olhos o caminhar pausado dela, de passo arrastado, dramático, feito ela não quisesse que sua presença fosse notada.
Satisfeita com seu reconhecimento da sala, ela tomou seu lugar ao lado de Heero no sofá. Ao mesmo momento, Akane voltava com uma bandeja dourada, trazendo uma garrafa de uma bebida levemente rosada e duas taças.
_Uma especialidade de nosso bar: uma infusão artesanal de vodca e rosas com framboesa, água tônica e água de rosas. Ainda não demos um nome, bebam e sugiram um. –Akane descreveu enquanto servia e lançou o convite.
Heero franziu as sobrancelhas, estranhando a receita, enquanto Relena já se mostrou bastante disposta em provar a novidade, quase cedendo a entabular uma conversa com a garçonete sobre suas reveladas habilidades de mixologista. Mas não podia quebrar aquela quarta parede.
_O jantar será servido em vinte minutos. –e antes de sair, Akane os avisou, deixando-os a provar a bebida leve e refrescante.
_Que incrível, Heero…. –Relena expressou depois do primeiro gole.
_Está gostando? –ele bebeu também, algo falho em sua voz denunciando ansiedade.
_É maravilhoso. Você preparou tudo isso para mim? –com um franzido comovido em suas sobrancelhas, ela chilreou, seu coração ainda palpitante com a surpresa.
Assegurado do sucesso, ele fingiu-se contrariado:
_Como assim tudo isso? A noite nem começou. –e depois sorriu tigrino, oblíquo, menino.
Ela teve de rir, revoltada com o jeito presunçoso e ao mesmo tempo desajeitado de ele gabar-se. Contudo, estava tão emocionada que as palavras lhe escapavam. Quando contasse para Tint, ela não iria acreditar. Nem ela acreditaria se não estivesse vivendo. Nunca ninguém tinha feito algo tão especial assim para ela.
Heero mantinha sua atenção sobre ela para acompanhar cada reação que florescia no rosto corado apenas um tom acima do blush. Estivera ansioso pelo modo com ela responderia a tudo que planejara para aquela noite. Até debatia em pensamentos se não tinha exagerado. Pelo menos por enquanto não via por que nutrir inseguranças em tê-la agradado. Na verdade, existia uma grande chance de ter conquistado o coração dela em definitivo.
Terminando de beber, ela devolveu o copo para a bandeja, que ficara sobre uma das mesinhas próximas ao sofá, e voltou sua atenção para Heero. Encheu o peito de ar, comovida, e sorriu com graça e força. Ele queria conseguir retribuir a alegria à altura, mas tudo que podia fazer era oferecer um sorriso discreto, cândido, tímido. Mal sabia que aquele era o tipo de sorriso que ela mais gostava, que parecia a ela tão natural e sincero.
_Que nome vamos dar ao coquetel? –e ela propôs, o sabor leve e doce persistindo em sua boca.
_Não faço ideia, nunca fui bom com essas coisas. –ele replicou, cansado, jocoso.
_Não fale assim… –ela o censurou com um bico lamurioso.
Ele deu de ombros, encolhendo-se um pouco:
_Pode escolher. –incentivou assim, bem disposto, tranquilo.
Ela assentiu e não demorou muito em ter uma ideia:
_ "Espectro de Rosa".
_É muito comprido.
_Ah, mas é perfeito…
_É? Por quê?
_Ah, por que… descreve o sabor suave da rosa e… tem a ver com balé. –ela admitiu, travessa, revelando a razão ulterior e mais forte de sua opção.
Ele riu uma risada curta e rouca, desinibida:
_É provável que nossa garçonete aprove. Mas ainda acho muito comprido.
_Barman, um espectro de rosa, por favor. –Relena brincou de testar, experimentando o nome. –É misterioso… mas, sim, talvez seja mesmo muito comprido. –pôs-se a pensar mais uma vez, animada em gastar neurônios com o joguinho. Heero punha-se a se deleitar na feição graciosa de concentração dela. Ainda não aprendera a entediar-se dela. Não contava que isso acontecesse tão já. Ou nunca.
O sorriso nos seus lábios há muito tinha desvanecido, mas seu olhar ainda ria com ela, cheio de ternura, fixo, corajosamente fixo, descaradamente fixo nela, sua primeira e última paixão. A intensidade daquela atração poderia ser assustadora se avaliada, mas como era ele quem a sentia, acontecia como a coisa mais natural, mais certa, mais precisa.
Queria tanto beijá-la.
Sem voltar o rosto para ele, Relena o espreitou de soslaio.
Queria tanto ser beijada.
Sua respiração tensa e expectante corria pelo seu corpo, um arquejo em arabesco arfando em seu peito.
Pensou naquele primeiro dia em que o viu. Tinha esperado ele distrair-se, desviar a vista para conferir as horas. Ela ainda não tinha parado de dançar, no alto delicado e frágil da ponta dos pés ela o crivou com olhos clínicos, mesmo que o port de bras exigisse que ela seguisse a linha dos movimentos que executava. Ele não teve tempo de flagrá-la, com precisão e fluidez ela moveu o rosto para baixo, acompanhando a descida de seus braços, encarando seus pulsos com firmeza. Ergueu os olhos sem mover a cabeça, e encontrou-o encarando-a de volta, e aquela conexão lançou um sobressalto em seu coração. Agiu normalmente, moveu-se normalmente, fingiu ignorar o que houvera.
Aquela conexão, ela soube ali, estava fadada a se estreitar.
Amor à primeira vista era o único que pelo qual ela tinha consideração.
Acontecera com ela naquela tarde.
Acontecia com ela naquela noite.
Ele a viu soltar o fôlego devagar, piscar com propósito e virar-se para ele.
Era um bailado ditado pelo instinto, e ele nunca tivera problemas em confiar em seu instinto. Nunca tinha sido decepcionado.
Ainda era cedo demais.
E o batom?
E a falta do beijo?
O que era mais problemático?
Saber parar.
Heero se esquivou primeiro. Desviou seu movimento para a taça.
Ela suspirou, corando mais, e sorriu. Sentiu-se tola, sentiu-se tímida. Consolou-se com o copo também.
Parecia que nunca tinha beijado antes. Nunca e ninguém.
E não era mentira, porque beijar Heero era único e pelo que tudo indicava, se tornaria ainda mais especial após aquela noite.
_Aurora. –ele ronronou.
_Hã?
_A bebida tem de se chamar "Aurora", como a Bela Adormecida. –ele mencionou, e como sua razão ainda não ficava clara para ela, Relena cobrou com o cenho franzido e a cabeça empertigada a lógica disso. Ele estalou os lábios em um sinal de impaciência e embaraço. –O nome que as fadas usavam para a princesa era Rosa da Urze, certo?
Os lábios rosados e convidativos da moça se separaram em elucidação e depois se esticaram em um sorriso:
_Que inteligente… E você que tinha dito que não era bom com essas coisas… –ela o repreendeu, as sobrancelhas franzidas delineando quão revoltada ela estava com perspicácia dele.
_Não sou mesmo.
Ela bem que quis dar um tabefe nele diante de tanta presunção mal-educada. Gargalhou de novo, chocada.
A ideia dele era mais adequada do que ela esperava.
Assim, bufou, risonha, devolvendo o copo para a bandeja na mesa, procurando recompor-se. Respirou fundo, distraiu-se com os arredores outra vez, notando o brilho do assoalho, o tapete felpudo, o rico perfume floral que preenchia o ambiente mesclado com o aroma que escapava da cozinha, sugerindo algo apetitoso sendo preparado. Quando pensava em indagar Heero sobre a natureza do cardápio, Akane retornou para anunciar:
_O jantar será servido agora.
Tomados os lugares na mesinha, os dois guardaram o serviço. Akane trouxe uma tigela de louça e pôs uma porção generosa de macarrão em seus pratos e depois as cobriu com o molho.
_Bom apetite! –Akane se despediu, servindo medidas precisas de Sauvignon Blanc e deixando a garrafa. E enquanto ela empurrava o carrinho e recolhia os copos na sala de estar, a Heero e Relena restaram experimentar o primeiro prato do jantar.
Errar com macarrão é um feito em tanto, e para Heero, que já estava familiarizado com os dotes culinários de Akane, uma ideia impossível. A primeira garfada revelou que tudo estava preparado à perfeição.
A massa estava fumegante e cheirosa, vinha guarnecida por espinafre, abóbora manteiga e três tipos de queijo – parmesão, cream cheese e mascarpone. O molho de sálvia fazia um bom trabalho em integrar tudo, mantendo os queijos cremosos e a massa quente.
_Então era por isso que você estava tão ocupado essa semana… –Relena observou antes de provar uma pequena porção e sentir o macarrão desmanchar-se na boca. –Hm, está muito bom. –Tão bom que devia ser proibido. Nedved com certeza surtaria se visse o que ela estava fazendo, mas ele com certeza a desculparia se provasse só uma gota do molho amanteigado.
Heero não encontrou nada interessante para acrescentar. Relena deu prosseguimento ao assunto:
_Foi a Ane quem cozinhou? –e pediu falando baixo, com medo de estragar a encenação.
Ele quase riu ao entender o que ela estava fazendo e assentiu:
_Não é irônico uma magrela saber cozinhar tão bem? Quando morávamos todos juntos, era ela quem cuidava das refeições.
_E você da louça?
_Sim.
Relena sorriu.
_Vocês parecem se dar muito bem.
_A Ane é uma pentelha de alto escalão, mas está longe de ser um desafio para mim. –ainda mais quando estava acostumado a comandar e não tolerar gracinhas no seu turno.
Relena balançou a cabeça, risonha, e atalhou:
_Sim, mas me refiro a sua família toda…
Ele ficou pensativo e não respondeu.
_Eu vi a foto ali… Foi na sua formatura?
Heero voltou-se em direção da estante do outro lado da sala com um ar inquisitivo. Não se lembrava mais de quais fotos Akane escolhera para exibir, mas pela suposição de Relena, devia ser a favorita da menina, no dia em que ele se graduou bombeiro de carreira. Já fazia quase dez anos.
Como ele se demorava em explicar, ela prosseguiu:
_Estão muito bonitos juntos. Queria conhecê-los.
_Bem, é certo que eles virão para a apresentação.
_Nenhuma chance de eu vê-los antes?
Ponderativo, Heero deu de ombros. Gastaram algum tempo comendo.
_Então, me conte um pouco sobre eles.
_Não tem muito que dizer. –franzindo a testa, explicou.
_Como é seu pai? Vocês são parecidos? –ela não desistiu.
_Não muito. Todos dizem que se minha mãe tivesse nascido homem, seria igual a mim.
_Ah… –Relena observou o rosto dele por um instante, preocupada. Não fora sua intenção trazer algo triste à tona. Entretanto, como não via mudanças nele, experimentou questionar: –Como você se sente sobre isso? –queria entendê-lo. Queria saber como devia se sentir sobre o assunto e como, talvez, poderia consolá-lo.
O tom da voz dela chamou a atenção de Heero, tão suave e cuidadoso, mas inseguro e triste também. Ele permitiu-se demorar-se em silêncio um instante mais para que aquele timbre se registrasse em sua lembrança, para que não fosse logo dissipado pelo som da sua resposta.
_Não tenho problemas. Isso parece fazer todo mundo feliz. É uma forma boa de lembrar ela, acho. –e quando falou, tentou não soar grave ou displicente demais. Queria aprender a infundir sentimentos complexos em sua voz também.
_Imagino que sim. –e Relena sorriu, considerando a ideia. –Como ela se chamava?
_Livia.
_E o que aconteceu?
_Um problema cardíaco. Hipertrofia do miocárdio. Ela passou mal depois de uma aula de aeróbica. Tinha vinte e nove anos.
_E você?
_Seis.
_Eu sinto muito. –de novo aquele tom de voz. Ele respirou fundo, sorrindo com os olhos, e meneou a cabeça:
_Obrigado, mas já faz tanto tempo… –e não sabia explicar bem como se sentia em relação à perda da mãe. Não sabia dizer se sentia falta dela, era estranho pensar que tinha se acostumado com a situação. Sua mãe foi uma variável em sua vida de grande efeito modificador, mas já tinha parado de pensar havia muito tempo como seria sua vida se ela estivesse viva. Aceitara. Acostumara-se. Seguira em frente. Talvez soasse simples demais. Melhor assim.
Relena assentiu imperceptivelmente, pensando na situação, imaginando-se atravessando aquele momento difícil, aquele choque. Heero parecia tão composto, tão conformado, tão prático em relação a tudo. Ela sabia que por sua vez, não seria assim.
_Seu pai deve ter ficado arrasado. Foi muito repentino. –e foi dizendo baixo, cuidadosamente.
_Os primeiros seis meses foram difíceis. A rotina da casa mudou totalmente. Mas ele não desanimou. Era um grande desafio inesperado, mas ele teve muita ajuda para enfrentar. As esposas dos bombeiros da companhia, minha avó, nossos vizinhos, todos que conhecíamos se juntaram para nos apoiar. E Esther também.
_Como eles se conheceram?
_Ela mudou-se para nossa rua um ano depois que mamãe morreu, querendo recomeçar a vida depois do divórcio. Akane ainda não tinha completado dois anos. Meu pai às vezes me deixava com ela quando precisava sair para alguma emergência. Ela sempre estava em casa, costurando. Não demorou muito para eles se casarem, acho que uns dois anos.
_E você aceitou bem?
_Eu já estava acostumado com ela. Ela sempre foi muito atenciosa. Você vai gostar muito dela.
_E será que ela vai gostar de mim?
_Com certeza. Meu pai também.
_Espero. –e Relena mordeu o lábio inferior. –Eu sinto que vocês são muito unidos e não gostaria de estragar isso na família de vocês.
Heero meneou a cabeça, descartando a possibilidade.
Estavam tão entretidos que não notaram o macarrão acabar. O assunto tinha sido sério, até um pouco triste, mas revelava tanto sobre os dois. Não era como se eles ainda tivessem alguma dúvida sobre quererem ficar juntos, unirem suas famílias, formarem a sua própria.
Alguns minutos depois, veio o prato principal:
_Bife mongol. –Akane já trouxe os pratos montados da carne cortada em pedaços generosos, mas da medida certa de uma mordida, acompanhada de um molho marrom adocicado, feito de sriracha e outros condimentos, e cebolinhas.
_Eu nunca fui tão bem atendida em toda a minha vida. –Relena expressou sua apreciação, olhando para Akane, para o prato e para Heero.
_Isso porque você nunca foi atendida por mim. –e Akane piscou um dos olhos. –Espero que gostem. –reabasteceu as taças deles e foi embora outra vez.
_Acho que encontrei uma nova colega de quarto. –Relena comentou antes de experimentar a carne que só de olhar parecia deliciosa.
Heero franziu uma sobrancelha.
_E o que vai fazer com Tint?
_Não sei, acho que vou mandá-la para o Daniil. Acho que já está na hora de eles se casarem.
Heero riu e preparou-se para começar a comer.
_Por que não trouxe Akane para morar com você? –Relena tomou uma garfada do bife e o levou à boca, mastigando com delicadeza.
_Porque aqui só tenho um quarto.
Relena moveu as sobrancelhas atestando seu entendimento. Sorriu absorta, voltando a comer.
_Agora é a sua vez. –ele avisou, um tanto severo, deixando Relena preocupada com o que estava acontecendo:
_Hã? –e bebeu um golinho do vinho.
_Quero saber mais sobre sua família.
_Ah, claro. –pousou o copo na mesa. Sorriu, elegante. –Meu pai é advogado especializado em relações internacionais, mas era chefe do departamento de imigração antes de ter sido escolhido ministro. Minha mãe é filha de um diplomata norueguês, fala cinco línguas e estudou na Sorbonne. Entretanto, nunca trabalhou. Os dois sempre me apoiaram na minha decisão de me tornar bailarina profissional. E investiram bastante na minha carreira. –ela falava com uma clareza que parecia ter feito este discurso várias vezes.
Heero a ouvia com muita atenção, cada vez mais convencido do quanto suas vidas eram diferentes. Era fácil perceber que Relena crescera sem nunca precisar se preocupar com o futuro. A condição social de seus pais assegurou-lhe o privilégio de dedicar-se somente à dança e ter todos os confortos e seguranças supridos, enquanto ele passou a adolescência toda em empregos de meio período e de Verão para conseguir o que queria. Não que seu pai não estivesse em boa condição financeira, mas desde pequeno lhe fora incutido a vantagem da independência e o importância da responsabilidade.
_E seu irmão? –Heero garfou alguns pedaços de carne e comeu com gosto.
_Zechs chegou a ir para a faculdade e, depois de se formar, participou de uma corrida de iatismo solitário na França. Ele ficou em terceiro lugar e chamou a atenção de vários clubes. Poucos anos depois, se qualificou para sua primeira Olimpíada.
_E já ganhou alguma medalha?
_Uma de Bronze e outra de Prata. Por enquanto. –quis fazer a informação soar banal, porém o orgulho vazou do mesmo jeito.
_E o que ele estudou? –ele terminou de mastigar para indagar.
_Ciências políticas. Não me pergunte por quê. –riu e bebeu.
_Você tem vontade de fazer faculdade?
_Só se for para fazer dança. Não é que eu não goste de estudar, mas é que realmente não existe outra coisa que eu queira fazer na minha vida. Dançar sempre foi tudo para mim.
_Está certo. Faz bem em seguir sua paixão. Ainda mais quando tem tanto talento.
_Obrigada… –apesar de ter a consciência de que seu talento era real, sempre se acanhava um pouco ao ser elogiada. –E você sempre quis ser bombeiro?
_Nunca parei para pensar nisso, foi uma escolha lógica e natural. –diante do grande exemplo de seu pai, não restou espaço em sua mente para contemplar outra carreira.
_Eu acho que é uma profissão maravilhosa. E você me parece perfeito para ela.
_Pareço?
_Sim… você transmite segurança em tudo o que faz… não é difícil de confiar em você. Eu me sinto bastante tranquila ao pensar que minha vida pode estar em suas mãos. –e deixou um sorriso sereno flutuando em seus lábios. Um sorriso carinhoso de respeito sincero, de reconhecimento. Ele bebeu daquela expressão e recorreu à taça depois, sem saber o que responder. Decidiu a mais improvável das estratégias – prosseguir com o assunto:
_Eu me lembro de você ter dito algo sobre seu pai estar na Ásia… –até que estava aprendendo a se tornar um conversacionalista decente.
_É verdade. Ele foi para a China para participar de um congresso e deve voltar semana que vem.
_Sua mãe também foi com ele?
_Foi, mamãe e papai estão sempre juntos. Acho que é assim pelo fato de ambos serem filhos únicos. Depois que papai se tornou ministro, eles foram morar no Distrito Federal e ela o acompanha em todas as viagens.
_E enquanto isso sua casa fica vazia?
_Fica… –Relena respondeu depois de hesitar uma fração de segundos, recebendo um olhar um pouco cético, talvez inconformado da parte de Heero como reação. Pelo ponto de vista lógico, manter uma mansão de sete quartos para não ser usada por nenhum de seus donos era algo desvantajoso. Mas era uma propriedade hereditária, de estimação, não convinha se desfazer dela. Em um rompante de inquietude, ela julgou necessário se defender do estranhamento de Heero. –Bem, agora Zechs está lá. Ele vai ficar por um bom tempo.
Heero, entretanto, não deu mais importância ao fato e sacudiu a cabeça, condescendente.
_E quando poderei conhecer o ministro Darlian? –pediu, interessado.
_Ele virá para a apresentação do "Pássaro de Fogo".
_Gostaria de vê-lo antes disso. –a resposta óbvia não o satisfez, assim como não tinha satisfeito Relena. Ele sorriu de canto, reconhecendo seus impulsos similares e assistiu-a mover os olhos com impaciência, provocando-o. Em seguida, ela sorriu suavemente outra vez ao mencionar:
_Você deu sorte… Todo ano acontece uma gala beneficente em prol da reserva natural de Odelia e meu pai é um dos principais patronos. Vai ser mês que vem. Eu também devo ir e se você me acompanhar, posso apresentar vocês. –outra vez falou de modo banal, e até injetou um pouco de prepotência imitando o modo de Heero de fazer convites.
Heero franziu a testa, processando a informação:
_Na semana do feriado prolongado?
_Sim, você já tem planos?
Ele meneou a cabeça em pronta negativa. Para este tipo de folga, só se planejava com algo muito importante em vista e muita antecedência. Antes de Relena, a única razão para ele tirar o feriado era ir ver a família.
_Pois agora tem. –e marota, provocou com o comentário.
Ele abriu um sorriso discreto, assentiu fingindo relutância, feito não tivesse escapatória.
_Com licença… –Akane retornou, vindo verificar como os dois estavam. –Aceitam mais alguma coisa?
_Estou bem. –Heero replicou, monótono, e tomou o último gole de sua taça.
_E a senhorita?
_Estou satisfeita! A refeição estava maravilhosa! –ao contrário de Heero, Relena já disse tudo com muita ênfase e deleite. Ele sorriu por causa disso, mas ela não percebeu.
_Certo, só espero que tenham deixado espaço para a sobremesa. –e Ane começou a recolher a louça usada. –Está imperdível.
Heero baixou as sobrancelhas censurando o ar sugestivo com que Akane envolveu seu argumento. Ela expressou desentendimento com um sorriso desajeitado, mas Relena nada desconfiava porque não sabia que devia desconfiar.
_Onde fica o banheiro? –Relena murmurou antes de Akane se afastar da mesa.
_No corredor, à esquerda.
_Com licença. –tirando o guardanapo do colo, Relena se ergueu.
Heero se levantou junto dela e ficou em pé até ela se afastar.
Akane, ainda por ali, lançou uma piscadinha com um dos olhos para ele:
_Está pronto? –e sussurrou.
Ele estalou os lábios, aborrecido, e hesitou em voltar a sentar.
Não estava pronto. Estava grato que tudo tinha corrido bem até o momento e que Relena não estranhara toda aquela preparação ou questionara seu motivo. Mas ainda estava ansioso. Era tão difícil fazer as coisas pela primeira vez. Tinha se esquecido disso.
_Tem certeza de que ela vai gostar?
_Absoluta.
Não era nem um pouco do feitio dele; tinha que confiar em Akane.
Isso o deixava duas vezes mais ansioso.
Mas Relena era generosa e bem-humorada. E certa do que queria.
Não havia porque se preocupar.
Ele caminhou até a porta-balcão e tomou a brisa da noite até ouvir o som dos saltos dela no assoalho.
Voltando-se sobre o ombro, percebeu-a olhando tudo em volta mais uma vez, agradada. Pela forma com que ela sempre devolvia seu fito aos vasos de rosas era fácil descobrir do que tinha gostado mais.
Virou-se para ela. Seus olhos se encontraram e ela sorriu, jovial.
Akane veio outra vez com o carrinho para servir a sobremesa. Era um carrinho-bar que ela escolhera em uma loja de varejo no shopping a um preço bastante em conta e que combinava com as bandejas. Heero ainda poderia usá-lo bastante depois para entreter os amigos.
_Pensaram em um nome para o nosso aperitivo?
_Pensamos, mas fala você, a ideia foi sua. –Relena respondeu e depois se voltou para Heero.
Ele negou com a cabeça.
Akane os aguardava com curiosidade.
_Aurora. –diante da resistência dele, Relena se viu forçada a anunciar.
_Da Bela Adormecida? –Ane pareceu extática ao ver Heero confirmar com a cabeça. –É perfeito! Agora só precisamos testar se a infusão dá certo com lavandas e blueberry para termos a versão azul também. –e sem se conter desenvolveu, de tanto que aprovou o conceito. Depois, suspirou. –Sabia que vocês iriam formar uma ótima equipe.
Heero revirou os olhos e Relena riu, sempre se divertindo. E sem mais, diante de cada um Akane pousou um pratinho, que só podia conter no máximo um pedaço de torta. Todos estavam cobertos por tampas cloche acobreadas. No carrinho a seu lado, havia um prato grande, também protegido pela cloche. Relena observou o detalhe e inquiriu somente com uma curva das sobrancelhas a razão de tanto.
_E agora, se me permitem, irei me retirar. Foi um prazer servi-los esta noite. Espero que tenham gostado. –e com um sorriso brilhante e uma mesura discreta e respeitosa, Akane pegou sua bolsinha da prateleira mais baixa no carrinho e saiu em direção da porta.
Os dois acompanharam os movimentos dela em silêncio de perplexidade e se olharam após o ruído da porta fechando-se. Relena desfiou uma risada e deu de ombros. Heero parecia simplesmente confuso. Não se lembrava de ter combinado isso com Akane.
_E agora, vejamos… o que temos aqui? –Relena estreitou os olhos estudando a cloche e depois ergueu o mesmo olhar de escrutínio para Heero.
Ele pareceu flagrado e, se fosse desse tipo, até teria corado. Entretanto, manteve sua atitude desprendida e inclinou a cabeça aparentando inocência.
_Você sabe o que tem aqui, não é? –o escrutínio transformou-se em desconfiança bem-humorada. A voz dela vibrou com cobrança.
Ele riu baixo e moveu a cabeça outra vez, em silêncio digressivo. Era enervante para Relena.
_Você só pode inventar um jantar assim como esse daqui um ano, está entendendo?
Ele amou as entrelinhas na exigência dela, embora a intriga tenha levado a melhor em sua reação:
_Por quê?
_Eu devo ter ganhado uns cinco quilos só nessa hora em que passei sentada aqui. –ela explicou, preocupada.
_Mas com todo o exercício que você faz, não vai dar nem tempo de engordar.
_Fale isso para o Ned.
_Vocês e esse Ned. Já estou ficando com ciúmes. –e ele reclamou de um jeito que criava dúvidas sobre se falava sério ou só provocava. –Por acaso ele pesa vocês?
_Toda segunda-feira. –a resposta veio imediata e conformada.
_Isso é sério? –Heero não gostou.
_Claro que não! –mas logo ela replicou, travessa.
_Oras…
Relena riu, divertida.
_E então…? Abrimos juntos? –ela voltou ao problema premente.
_Pode ser. –as palavras vinham temerárias, por mais que sua face permanecesse inexpressiva.
_Um, dois, três… já! –seguindo sua contagem, ela ergueu a tampa. Nem notou que Heero não a imitou. Outra vez naquela noite foi distraída por alguma surpresa. Não estava calculando, mas bem que poderia ser a terceira vez que isto acontecia.
Com certeza deve ter gastado um segundo inteiro olhando para o prato em sua frente. Heero, por usa vez, gastou este tempo olhando para o rosto dela, sem saber como reagir. Os olhos dela faiscavam loucamente estudando o anel pousado exatamente no meio do pratinho. Em torno, escrito com cobertura de chocolate, vinha uma frase ingênua e gentil, e de tão simplória tornou-se a mais encantadora que ela já tinha lido:
"Seja minha namorada."
Ela lia e relia, o sorriso crescendo em seus lábios junto do corado em sua pele.
_Eu… –Heero já estava se arrependendo. Talvez tivesse sido melhor se ele simplesmente se declarasse para ela.
_Heero… –erguendo seu rosto para mirá-lo, ela transbordava de emoção. –Que lindo… –sussurrou, perdida sobre como agir, enternecida demais, extasiada demais, tímida demais para agir sensatamente.
Gastando outro minuto para processar a expressão luminosa da moça, Heero respirou fundo. Não era do seu feitio ser brega assim, dramático assim, descarado assim. Ele também estava ansioso demais, emocionado demais, tímido demais para fazer algo. Mas ele precisava. Se julgava a surpresa exagerada, a atenuaria com suas palavras:
_Relena, cada momento que passamos juntos me dá mais certeza de que você é uma parte essencial da minha vida. Eu não sou do tipo espontâneo, que deixa tudo se desenrolar a esmo, que se apoia em interpretações ou subentendidos… eu gosto de saber onde piso. Por isso, decidi trazer você aqui hoje para pedir formalmente para ser minha namorada.
O estado de arrebatamento que ela atravessava aos poucos foi sendo aplacado com a voz firme, rouca e singela que envolvia as declarações assisadas do rapaz. Ela o fitava e sorria, esforçando-se bastante para prestar atenção ao que ele dizia, ocasionalmente assentindo com a cabeça sem perceber.
_Eu dou a você a liberdade de uma resposta franca. –diante da mudez dela, Heero mencionou. –Esta é muito importante para mim.
Ela fechou os olhos apertados, sorrindo lindamente, e dessa vez assentiu com a cabeça deliberadamente:
_É claro. –sua voz vinha tão afável, cálida como um raio de sol. –Heero, você… não imagina como me faz feliz…
A surpresa no rosto dele foi imediata e impossível de disfarçar. E dessa vez ele corou e engoliu em seco, lutando para surgir circunspeto e falhando miseravelmente.
Ela riu de tanto amor:
_Eu aceito. –e pronunciou com toda a assertividade que conseguiu reunir, para agradá-lo, para fazê-lo seguro de que ela respondia assim espontaneamente, liberalmente, de coração e mente.
E tão aturdido com o que ouvia quanto ela quando descobriu o anel, Heero respirou fundo e sorriu com timidez e inocência. Assentiu, mais para si mesmo, contemplativo por um instante, sentindo o coração comemorando acelerado em seu peito.
_Obrigado. –e murmurou depois, olhando-a fixamente, enfrentando-a com tudo o que sentia, confiando a ela sua falta de jeito, seu embaraço, seu carinho, seu alívio. Tinha se doado, tinha se exposto, e tinha valido a pena. Nunca devia ter duvidado. Mas se não duvidasse, não seria intenso, não seria tão bom.
_Eu te amo, Heero. –e sem controlar-se, sem sentir-se errada, sem conseguir pensar em outra coisa que não fosse essa frase, ela falou.
Ele se levantou e caminhou até ela. Apanhando o anel do prato, abaixando-se em um dos joelhos, ele pediu a mão dela com um gesto e, enquanto deslizava a joia no dedo dela, respondeu:
_E eu também te amo, Relena Darlian.
Ela gargalhou, estonteada, caindo por cima dele, procurando seus lábios e os beijando fervorosamente. Ele a aparou pela cintura e caiu lentamente com o peso dela, mais interessado em retribuir o beijo do que com a compostura.
Parando ajoelhada entre as pernas dele, Relena pousou as mãos em seus ombros e o beijou sem reservas, esperando que assim transmitisse a totalidade de sua alegria e seu amor. Ele aceitava cada beijo como se aquele fosse o primeiro – com apreço – e também com se fosse o último – com ambição.
E embora eles não tivessem vontade de parar nunca mais, interromperam os beijos e trocaram um fito cúmplice e apaixonado, completamente feliz. Relena sentou-se e aproximou-se mais dele, querendo abrigar-se em um abraço.
Ele a envolveu com um braço e pousou seu queixo no alto dos cabelos dela, respirando fundo, buscando descansar. Ela fechou os olhos, confortável, ouvindo o coração palpitante dele falar ainda mais sobre seu amor.
Depois, se separaram. Relena parou para olhar o anel mais atentamente em seu dedo.
Era uma peça de prata com uma pedra vermelha cercada do nome da companhia escada 5. Nas laterais, o monograma das iniciais dos dois. Embora fosse um anel grande, não era grosseiro, nem pesado e se encaixava harmoniosamente na mão dela. Aproximando mais o anel do rosto ela notou que embaixo da gema havia uma gravação – uma fênix.
O Pássaro de Fogo.
_Eu escolhi o modelo mais delicado que encontrei… –ele explicou enquanto a assistia examinar a joia. –Mas queria que fosse parecido com o meu. –e tirou o anel de sua própria mão, mostrando-o para ela. Ela apanhou o anel e o estudou. Arriscou colocá-lo junto do seu. Era maior, mais largo e com outras gravações nas laterais, mas o formato era o mesmo.
_É lindo… –ela murmurou, devolvendo o anel ao dedo dele, deslizando-o em seu devido lugar. Ele segurou sua mão e ela deitou a cabeça em seu peito. –É perfeito… você sabe o quanto tudo é perfeito?
_Hã?
_É irresistível, é até cruel… –e voltou a olhá-lo. –Até o que você diz é perfeito… –comentou, felina. Ele franziu as sobrancelhas, tentando compreendê-la. –Para uma bailarina, nada é mais importante do que um chão firme. –e sorriu, embevecida ainda. Esticou o pescoço e o beijou, dessa vez com delicadeza, congratulando-o por sua perspicácia. Beijou-o e beijou-o, nos lábios, no queixo, nas maçãs da face.
Ele suspirou, contente. Sorriu discretamente, acariciou o rosto dela, correu os dedos pelos cabelos dourados, deixando a mente livre de todos os pensamentos que não diziam respeito a ela e a quanto a amava e desejava.
Aquela ela era uma noite que eles não queriam que acabasse. Mas ela ia acabar. Só que não havia motivo para eles lamentarem. Aquela era uma porta, era uma promessa para muitas outras noites como aquela. Ou melhores que aquela.
Boa noite!
Finalmente retorno!
Desculpem o hiato não intencional.
Eu considero esta uma postagem dupla. O capítulo ficou exatamente o dobro do padrão que eu usei nos anteriores. Para mim, esse é aquele episódio da serie, tipo season finale, que dura uma hora inteira, ehehehe. Para mim, aqui estão o capítulo 10 e 11, mas não achei onde partir para poder postar separadamente.
Odelia é uma cidade inventada. Escolhi um cenário fictício para essa fic, baseado levemente na cidade São Francisco, California. Mas é só uma base mesmo.
Eu odeio este tipo de momento importante, em que todo mundo põe um monte de expectativa na história. Eu nunca acho que consigo atingir um nível razoável. Eu acho que arrastei demais, me delonguei demais, mas não sei fazer diferente ainda. Ainda não. Agora, é isso que eu consigo fazer e estou orgulhosa e me diverti muito escrevendo. Mas não estou contente hashuahsahusha
Também a recapitulação ficou ruim. Faz tanto tempo que escrevi o capítulo 9 que nem sabia mais como resumir. Enehehehehehe
Desabafos desnecessários a parte, eu estou muito feliz em poder finalmente trazer o capítulo novo! \o/
Espero já emender e seguir escrevendo o capítulo 11.
Por favor, desconsiderem alguns pormenores. Espero que gostem!
Deixem reviews, comentários, críticas, xingamentos, enfim...
Amo vocês!
14.10.2016
