No último capítulo…
Após muita preparação, Heero oferece um jantar bastante especial e romântico para Relena. Ela mal pode acreditar em todas as surpresas que a noite lhe trouxe, que incluiu uma linda decoração, um cardápio saboroso e um atendimento customizado para os dois, juntamente de um pedido de namoro e um anel de compromisso. Apaixonada, Relena não consegue pensar em outra resposta a não ser aceitar.
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11
_E qual será a sobremesa? –Relena se lembrou.
Um tanto chocado, Heero soltou uma risada baixa e meneou a cabeça. Ergueu-se e estendeu a mão para ajudá-la a se erguer do chão, cavalheiro. Ser cavalheiro era algo em que ele não colocava muito esforço. Não imaginava o quanto isso fascinava Relena.
Já de pé, ela explicou, risonha:
_Não podemos desperdiçar…
Ele meneou a cabeça, divertido, e juntos foram até o carrinho descobrir o que havia debaixo da grande cloche. Encontraram um bolo redondo de chocolate, feito de duas camadas, prodigamente recheado e coberto com chocolate cremoso.
_Uau. –Relena pronunciou gravemente. Apanhou seu garfo na mesa e tirou um naco do bolo. Experimentou. –Hum… divino…
Ele apenas a contemplou degustar o bolo que, como tudo ali, tinha um cheiro delicioso e rico.
_Se eu soubesse que tinha bolo, não tinha perdido tanto tempo beijando você… –e ela provocou, marota, pegando outro pedacinho com bastante cobertura.
_Ah é? –ele replicou, estreitando os olhos, ultrajado. Mas fingia mal.
Relena riu, terminando de mastigar:
_Não fique ofendido, é impossível competir com chocolate. –e consolando-o, garfou o bolo de novo e ofereceu uma porção generosa para ele, que a abocanhou desajeitadamente.
_O bolo está inteiro. –depois ele resmungou, investigativo, enquanto ela voltava a cavoucar uma parte com o garfo. –Ou pelo menos, estava… –e foi a vez de ele brincar.
_Se no meu prato tinha o anel… o que será que tinha no seu? –com a boca meio cheia, ela disse, seguindo a linha de raciocínio dele. Alcançou com os olhos a pequena cloche promissora. Soltou o garfo e avançou até onde Heero estivera sentado.
Primeiro, ele a seguiu com os olhos, enfiando as mãos nos bolsos. Depois, quando ela descobriu o prato, foi até ela. A expressão na face de Relena era perplexa e ele a imitou.
Então Akane tinha tomado as suas liberdades.
Em cima de um guardanapo de papel vinha uma caixinha de som, daquelas chinesas, com lâmpadas de LED ridículas e escandalosas. Outra vez, em cobertura de chocolate, uma mensagem:
"Aperte play"
Voltando sua atenção para Heero, parado a seu lado, Relena notou não ter sido a única surpreendida dessa vez.
Sem pensar mais, ele seguiu a instrução e uma voz agradável começou a cantar uma letra conhecida, quase acapella.
_Acho que vamos dançar… –ela se apoiou no ombro dele e sussurrou. Deu um passo para trás quando ele olhou para ela, só para ele ter de dar um passo para frente para enlaçá-la pela cintura.
Outra voz, doce e celestial, cantou a próxima estrofe. Um dueto. A melodia era romântica, mas alegre e estranhamente familiar.
_É o tema de "Dirty Dancing"… –Heero murmurou, segurando a mão direita dela no alto, levando-a virar com ele vagarosamente em tempo com a delicadeza da canção.
_Sim…
_Mas não me lembro de ser assim.
Relena sacudiu a cabeça, respondendo. Reconhecia aquela voz charmosa como a de Alieksei, um dos pianistas do conservatório. Ele devia ter gravado aquela música com a namorada, um cover, para o canal dele no YouTube. Mas não ia dizer nada disso, não queria desmanchar o momento falando de outra pessoa.
Prendeu seu fito dentro dos olhos dele, sustentando aquele silêncio ledo e silente, estudando a expressão composta, tranquila, misteriosa que ele lhe devolvia. Heero os mantinha em movimento de acordo com a música, agora em um tempo um pouco mais acelerado, descrevendo pequenos círculos pela sala.
Ele a fez girar, a fez deitar o corpo, a soltou e a trouxe de volta para seu enlace com controle e segurança. Antes de a música acabar, ela deitou a cabeça em seu peito, demonstrando o quanto queria ficar dentro do seu abraço. Ele soltou sua mão, envolvendo seus quadris.
Os dois ficaram assim, em um balanço tranquilo, confortável, mesmo depois de a música terminar.
Ainda no elevador Relena ia cantarolando "(I've had) the time of my life". Seguia dentro daquele momento tão particular, em que os corações obedeceram à mesma batida. Seu corpo poderia estar parado ali, mas em sua mente continuava a bailar com ele e a senti-lo consigo.
Tint apareceu no final do hall, descalça, vindo de encontro a Relena ao ouvir a porta se abrir. No rosto, um olhar vidrado de drogada, sedenta pelas novidades.
_Não acredito que ficou acordada me esperando! –Relena reclamou com um sorriso incrédulo.
Tint não negou nem confirmou. Somente seguiu encarando a amiga.
Com um movimento desdenhoso de cabeça, Relena deixou suas chaves no balcão da cozinha. Foi até o sofá, pôs a bolsa na mesinha de centro, sentou, tirou os sapatos. Tint a seguia, implacável.
_E então? –cansada de esperar, incentivou arrastando a voz, sentando-se ao lado da loira.
Relena suspirou fundo e ruidosamente:
_Eu nem sei por onde começar… aconteceu tanta coisa…
_Tudo bem, me fale o principal. –apressadamente, sugeriu.
_Não, Tint, nós não transamos. –enfadada, Relena já foi deixando claro.
_Não era isso que eu queria saber! –Tint se revoltou.
_Hã? Que incomum. –Relena franziu a testa, incomodada. –Quem é você?
_Não, Lena, sério! O que ele queria de tão importante afinal?
Estreitando os olhos com malícia, Relena fez suspense. Durou pouco:
_Me pedir em namoro! –esticou o braço e mostrou a mão para Tint. –Veja! –e deu destaque para o anel com um movimento sutil da mão.
Tint segurou a mão da amiga e examinou a joia bem de perto. Arregalou os olhos, deslumbrada ao ver a fênix aparecendo debaixo da pedra.
_Uau! –sacudiu a cabeça. –Que droga, Lena, esse boy é perfeito! Sua lambisgoia! –e jogou uma almofada no rosto da amiga. Relena caiu para trás com o golpe, rindo, deitando no braço do sofá.
_Você não imagina o quanto… –e murmurou, sonhadora, abraçando a almofada.
_E como assim, não transaram? Que sem graça…
Relena devolveu a almofada para Tint, atirando-a com força no nariz perfeitamente esculpido da amiga:
_Chega disso! Eu vou ligar pro Daniil e dizer que você está necessitada.
_Não! Mas você também, não sabe brincar! –derrubou a almofada no chão. Respirou fundo. –Vai, pode contar, eu me comporto.
_É bom mesmo… –e pausou um segundo inteiro, recolhendo as lembranças, cada uma tão vívida que era como se estivessem acontecendo outra vez.
E então começou a contar tudo que houve, falando das flores, dos perfumes e dos sabores, das surpresas, dos risos e de todo o enorme carinho que sentiu em cada detalhe cuidadosamente pensado por ele.
De volta a seu apartamento, Heero sentou-se no sofá. Acendeu só o abajur e ficou recordando-se de cada instante da noite, assistindo-os com a nitidez de um filme.
Tomou mais uma taça de vinho.
Pensou nela um pouco mais.
Ouviu seus risos ecoando em sua mente, como se estivessem vindo da cozinha.
_Nós temos de cumprir a tradição agora. –ela disse, pousando levemente o prato na sacada da porta-balcão, onde estiveram comendo o bolo.
Ele não disse nada, mas expressou sua confusão com um franzir de sobrancelha.
_A louça. –ela lembrou e mordeu o lábio inferior sem saber quanto aquilo o provocava. –A sua parte.
E juntos lavaram a louça da sobremesa, que era só o que tinha restado. Ele tirou o blazer e arregaçou as mangas. Ela saiu dos sapatos e ficou do lado dele, secando os pratos, sorrindo tão iridescente quanto às bolhinhas na espuma do detergente.
E ele lembrava e sorria junto, sem perceber.
O riso dela estava em todo o lugar. Sim, porque estava dentro de seu coração.
Tinha sido uma noite perfeita. Ele nunca antes tinha tido uma noite assim.
Estava maravilhado.
Mandou uma mensagem para Akane.
"Obrigado. Você se superou."
Alguns minutos depois, ela respondeu:
"Conte comigo. Espera só para ver o que estou planejando para o pedido de casamento." –e adicionou vários emojis que mandavam piscadelas para ele.
Taxando-a terrível, ele sorriu e sacudiu a cabeça.
"E aonde você foi?"
"Peguei um táxi de volta ao alojamento."
"Amanhã depois do trabalho levo suas coisas aí."
"Não quer ajuda com a arrumação?"
"É só pôr as coisas de volta no lugar."
"E as flores?"
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_Aimeudeusdocéu! –estacando no meio do hall, Tint vazou seu espanto, sobressaltando Relena e Daniil, que vinham atrás, com o resto das sacolas do supermercado.
Pargan adiantou-se:
_O senhor Yuy as deixou aqui.
_Dá uma olhada nisso tudo… –e Tint curtiu seu deslumbramento um segundo, de olhos arregalados.
Relena, de rosto corado e sorridente, percorria com a vista todos os vasos de flores da noite anterior, reunidos ali perto do balcão da portaria.
_Ele perguntou pela senhorita, mas como eu sabia que ia demorar, achamos melhor deixar aqui. –prosseguindo com seu relatório, lançou um olhar bondoso para Relena, em instantâneo e total estado de felicidade.
_Quantas! –e enfim Daniil reagiu com uma exclamação apreciativa, depois de apreender o quadro e absorver a situação.
_Está vendo, Danny? Está vendo? É assim que se faz! –Tint fez questão de provocar, atentada.
Ele assentiu, pensativo, como se levasse a sério a bronca dela. Depois olhou para Relena, afetuoso, expressando sua felicidade por ela.
_Vamos levar as compras primeiro. Depois buscamos os vasos. –Daniil decidiu, voltando-se para Pargan. O porteiro assentiu feito um homem que nunca discordava de nada.
Dentro do elevador, Tint bateu com o joelho na parte de trás da perna de Relena, fazendo-a perder o equilíbrio.
_Você não contou tudo que aconteceu ontem à noite, cretina.
Relena deixou escapar um gritinho de susto, mas depois jogou Tint contra a parede do elevador com uma ombrada.
_Ninguém recebe esse monte de flores por nada. –Tint sugeriu, pervertida.
Daniil olhou torto para a namorada, mas ela nem se deu conta.
_Para já com isso, Tint! Eu não sou você! –Relena não deixou barato. Era só brincadeira, mas Tint abriu a boca para mostrar ultrajo.
Dessa vez Daniil olhou torto para Relena, chocado.
Elas gargalharam escandalosamente, enchendo todo o espaço dentro do elevador.
_Aquelas são as flores que Heero usou para decoração da sala! –por fim Relena conseguiu explicar.
_Ah… –e fazendo uma expressão de esclarecimento, Tint deixou de lado a sacanagem.
Daniil seguia com uma expressão reprobatória.
Relena suspirou, mantendo o corado, perdida de novo no encanto que Heero tinha lançado nela.
_Que incríveis aquelas flores, cara! Você comprou a floricultura? –Duo, depois que se acomodou no banco do carro e prendeu o cinto, soltou o comentário. –São quantos mesmo, quinze vasos?
_Dezesseis. Ane não gosta de números ímpares. –Heero replicou e deu para sentir uma pontada de ironia em sua voz distante. Sem expressões no rosto, e ainda assim pareceu ofendido.
Duo riu uma risada fanhosa e brusca, jocosa:
_É a minha garota. –e por isso ganhou uma olhada condenatória pronta para perfurar seu crânio. Ele não fez conta. –Na humildade, quanto você gastou com aquilo?
_Não tanto quanto você acha. Conseguimos comprar com o fornecedor. –Heero divagou, monótono.
_Uau. Deve ter sido uma linda noite. –e deixou seu usual tom pilhérico um pouco de lado. –Acho que se a Lena…
_Relena. –Heero pigarreou e corrigiu, intrometendo-se.
_…não estava apaixonada ainda, isso acabou. –Duo terminou sua sentença com jovialidade.
Sacudindo os ombros sem soltar o volante, a reação de autoconfiança e orgulho de Heero foi silenciosa.
Duo deu uma risadinha marota:
_Quem diria que você sabia jogar assim? Nunca achei que pudesse ser um conquistador.
_Mas eu não sou conquistador.
_Não quis dizer no mal sentido. –Duo rebateu ainda com o sorriso esperto partindo seus lábios.
Pararam em um sinal, Duo colocou o cotovelo para fora, Heero checou o celular esperando algum retorno de Relena. Mas Pargan estava certo ao dizer que ela iria demorar.
Suspirou.
_Saca só. –Duo murmurou, aproveitando os últimos segundos do temporizador do semáforo para mostrar o celular.
Apertando os olhos, Heero encarou a foto na tela do telefone que tirou da mão do amigo.
_Sua última tatuagem?
_Isso mesmo. Foi a Ane que pediu.
Duo tinha uma coleção de tatuagens nas costas, cada uma com algum significado importante como retratos do seu passado e desejos para seu futuro. Dava para ver que o desenho novo se integrava no quadro maior com harmonia, enriquecendo a história. Era a silhueta negra e graciosa de um unicórnio, empinando à moda da Ferrari, na frente de uma flor alaranjada, grande e de pétalas bem abertas.
_Tagetes? –Heero pediu confirmação, devolvendo o aparelho para o amigo diante do sinal verde.
_Hã? A flor?
Heero assentiu.
_É, como sabia?
_É a flor para outubro, o mês que ela nasceu.
_Então… eu nem sabia que existia isso de flor mensal. A minha é o narciso.
_Cravo. –mal-humorado, Heero comentou. –Quer dizer que já chegou ao ponto de fazer tatuagem?
_Algum problema? Preferia que eu desse um anel? –Duo pirraçou, divertido, fazendo Heero bufar.
Talvez Heero não devesse ter contado sobre o que preparara para Relena na noite anterior. Sempre acabava se arrependendo de dividir com o amigo porque Duo não sabia levar nada a sério.
_E ela cogitou em fazer uma também? –e interrogou, ameaçador.
_Não, ela falou que já tem as sardas… –e Duo lembrou com carinho ainda derretido pela explicação dela. De fato, a ideia da tatuagem fora dele, ela só dissera o que gostaria que ele fizesse.
_É a minha garota. –Heero se gabou e lançou um olhar espicaçado enquanto estacionava na frente do alojamento.
Careteando e torcendo o nariz aborrecido, Duo respondeu:
_Seu tonto. –e depois passou. –Não fala nada para ela, que é uma surpresa. Ainda não está pronta, está faltando um sombreado…
_E como pretende mostrar para ela?! –Heero redarguiu, dessa vez bravo de verdade.
Ainda assim, Duo não fez caso. Lidava com Heero tempo demais para arranjar briga com ele cada vez que ele ficava zangado. Mesmo que tivesse motivo para estar enraivecido.
_Calma, amigo. –aplacou, tranquilamente. –Do mesmo jeito que eu mostrei para você.
Heero olhou para ele nada satisfeito.
Duo meneou a cabeça, tomando a superproteção de Heero por um exagero divertido.
Entraram no prédio.
Só um toque no celular foi suficiente para Akane saber que Heero tinha chegado com sua bolsa de dança. Ele não podia subir até o quarto dela, eram regras do alojamento, e então ela correu escadas abaixo para encontrá-lo na recepção.
_E então? –ela sorriu, saltando o último degrau.
Heero estendeu a bolsa para ela:
_Levei as flores para Relena, mas ela não estava. Deixei na portaria.
Ela abraçou a mala esportiva e sacudiu a cabeça em aprovação.
_Esse panaca me ajudou. –e Heero rosnou. Só então ela notou Duo.
_Docinho! –soltou a bolsa no balcão da recepção, desocupado naquele momento, e correu em direção do namorado.
_Você ouviu do que esse ingrato me chamou? –reclamou, zombeteiro, recebendo-a nos braços e a apertando amorosamente.
_Eu não vou me meter nas suas briguinhas… –ela avisou, a voz sufocada no ombro dele.
Duo pareceu desapontado.
Heero deixou os dois abraçados mais um minuto, depois anunciou:
_Vamos, que o capitão deu só uma hora você, Duo.
Ainda deixou os dois se beijarem por um minuto, desviando os olhos para as teias de aranhas acumuladas no canto do alto pé-direito.
_Te ligo mais tarde. –Duo murmurou separando-se dela com doce relutância. Ela assentiu sorrindo suavemente e os acompanhou até o carro.
_Muito obrigada, rapazes. –agradeceu pela bolsa e pela visita. Os dois acenaram adeus e entraram no Elantra, que logo estava se afastando.
Levou ainda duas horas para o telefone de Heero tocar. Ele já tinha devolvido os móveis a seus lugares costumeiros e preparado o jantar que consistia das sobras da noite anterior que Akane tinha guardado cuidadosamente.
Estava assistindo sem interesse a um programa esportivo e tomando garfadas cheias de seu prato bem servido no momento em que o celular na mesinha de centro começou a tocar. Ele teve de terminar de mastigar para poder dizer alô, mas assim que aceitou a ligação, já ouviu a voz de Relena indagar:
_Heero? –e era um som tão singelo que parecia irreal.
_Boa noite, Relena. –enfim ele conseguiu dizer. Ouviu-a sorrir.
Deixou o prato na mesinha e emudeceu a televisão. Não havia nada mais interessante agora do que aquela voz, aquela conversa.
_Oi… acabei de arrumar os vasos aqui em casa. –ela confidenciou, musical.
Cada vez que ouvia a voz dela, seu coração ficava mais embebido em um sentimento intenso e agridoce que ele não sabia definir. Era desejo, era saudade, mas também era um grande bem-estar. Nada tinha mudado desde a primeira vez que ele a viu pelo vidro do estúdio. A não ser… a não ser que agora ele sabia ser o dono daquela preciosidade.
_Você gostou? –ele não sabia bem o que dizer, por isso verificou.
_Sim, muito. –e aos poucos a voz dela ia ganhando um calor aconchegante.
Era curioso que apesar de somente ouvi-la, conseguisse imaginar com perfeição o brilho nos olhos dela, eufóricos e vibrantes, e a mordida que ela dava no lábio depois de responder.
_Que bom. –e sorriu sem perceber. O fato era que ele estava longe de ser dono de alguma coisa, muito menos de si, quando se tratava dela. Era ela quem o dominava, o cativara gentilmente desde o início. –E como você está?
_Tudo bem… e você? O que está fazendo?
_Jantando. Vendo TV. –uma noite de domingo normal. Mas agora ele queria que ela estivesse ali. Não acreditava que tinha passado um dia todo longe dela.
_Tint está preparando o jantar. Nós tínhamos ido fazer compras, por isso não estávamos.
_Entendi.
_Mas eu gostei mais desse jeito, de ganhar mais uma surpresa. Agora acabou? –e o provocou com sua pergunta.
_Por ora sim; preciso de você desprevenida. –charmoso, ele explicou, seu sorriso discreto vibrando nas palavras.
Ela riu, sucumbindo àquela voz cheia de textura que sem intenção despertava toda sua pele. Suspirou, pensativa, para depois assegurar:
_Nos vemos amanhã?
_Com certeza. –ele falou baixo, com charme ainda, e sério.
_Está bem. Beijos.
_Lena?
_Hm? –o coração dela disparou ao ouvi-lo chamá-la assim.
_Eu te amo.
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As gotas de chuva convidavam Relena a ficar na cama. Era a melhor canção de ninar. A pancada estava forte, mas não servia de desculpa para faltar no trabalho.
Quando foi a última vez que fizera isso?
Virou-se e encarou o teto.
Não conseguia sequer se lembrar.
Sem relutância, porém, saiu da cama para começar a rotina.
A caminho do banheiro, ouviu Tint desligar o despertador no outro quarto, certa de que ela tinha apertado o botão de soneca. Se ela sentia dificuldade para acordar aquele dia, que diria Tint, que nunca fora de madrugar.
A chuva caía sem trégua, suas camadas prateadas preenchendo a vista da janela, abaixando a temperatura. Com o passar dos minutos, aquela segunda-feira ia ficando cada vez mais preguiçosa.
Por cima do collant cor-de-rosa bebê, Relena vestiu um agasalho esportivo combinando, macio, num tecido que imitava seda. Ela amava aquela cor. Caía-lhe tão bem, rosava suas faces, evidenciava seus olhos e seu cabelo, feito ali em uma trança francesa embutida.
Estava na cozinha, conferindo o conteúdo da bolsa quando seu celular começou a tocar. Tinha sido pega desprevenida:
_Quer que eu passe aí para levar vocês para o conservatório? –depois dos cumprimentos, Heero ofereceu.
Ele tinha acordado no horário de sempre para correr, mas se deparou com a chuva. Enquanto bebeu seu instantâneo, esperou por uma trégua, encarando a janela com tanto escrutínio que parecia ter intenção de constranger a chuva até ela parar. Acabou se preocupando com Relena e em como ela se deslocaria para a aula.
_Daniil vem nos buscar. –serena, Relena explicou. –Obrigada por se preocupar.
_Então está bem. Qualquer coisa, me ligue. –ponderado, ele respondeu.
Tint apareceu, parando em frente da amiga, brincando com sua longa trança negra que vinha desde a testa, curiosa sobre o que estava acontecendo. Elas trocaram um olhar, Relena sorrindo um bom-dia, e Tint deu a volta para buscar o liquidificador no armário.
_Obrigada. –Relena sabia que era o mais conveniente e forçou-se a não se sentir desapontada por perder a chance de ver Heero logo cedinho. Suspirou, sentindo-se amada de qualquer modo.
_Dormiu bem? –e a voz rouca de Heero seguiu, acariciando o ouvido dela.
_Sim… e você? –não tivera intenção de arrastar tanto a voz, de soar tão deslumbrada, mas o timbre dele era quase tão fascinante quanto seu olhar. Podia ouvi-lo o dia todo, queria ouvi-lo a vida toda. Outro suspiro.
Quando Tint se voltou para ela outra vez, colocando o liquidificador no balcão, começou a fazer biquinhos, imitando beijinhos estalados, caçoando Relena.
Ela mal ouviu a afirmativa que ele ronronou, resmungando por sua vez:
_Para com isso, Tint! Sua boboca!
Tint gargalhou, travessa.
_O que foi isso? –Heero questionou, um pouco divertido, suspeitando pela risada que Tint estava aprontando.
_Ah, é só a Tint com ciúmes aqui… –Relena explicou, estocando a amiga.
Tint gargalhou de novo, dessa vez com certo ultrajo:
_Que ciúmes o quê, meu bem! Pode dizer para ele que se estiver interessado, eu topo um relacionamento aberto…
_Tint! –Relena a censurou, de brincalhona a furiosa em menos de três segundos.
Enquanto isso, Heero só ficava ouvindo. Ele não conseguia entender o que Tint falava, embora captasse toda a efusividade dela, e sorria sozinho.
_Olha só a sua cara! Ainda diz que a ciumenta sou eu! –Tint não sabia quando parar.
_Eu vou desligar, Lena… –Heero murmurou carinhosamente. Relena de repente parecia ocupada e de qualquer modo, o tempo não os ia esperar.
_Tudo bem… –ela lamentou. Heero não viu como ela cravejou Tint com o olhar por ter atrapalhado sua conversa. –Se cuide, Heero.
_Delícia! –Tint gritou, dessa vez Heero conseguiu distinguir perfeitamente. Ele não sabia se achava graça ou se ficava bravo. No final, só ficou encabulado. Que bom que elas não podiam ver.
Relena ameaçou Tint entre os dentes:
_Te mato.
No fim, Heero respirou fundo, e desejou:
_Bom trabalho.
Ela virou de costas para Tint:
_Eu te amo.
_Eu também.
_Ai, que lindo! Que fofo! –Tint continuou provocando Relena no fundo, cortando as frutas e jogando-as no liquidificador.
Relena apertou o botão encerrando a ligação e tomou fôlego, procurando sua paciência.
_Que saudade do meu começo de namoro… –Tint disse mais, bancando a tia velha.
_Eu te odeio, Tint! Sua ridícula! –Relena ergueu em riste as suas chaves de casa, fazendo movimentos que prometiam apunhalar a amiga na cara.
_Mas você não gostou mesmo da minha ideia? –Tint ria sem parar. –Que pena…
Relena acabou não resistindo e riu com ela.
A campainha tocou.
_Vamos ver o que o Daniil acha… –Relena foi atender, certa de quem chegava.
_Bom dia, Lena. –ele cumprimentou assim que a porta abriu. Sorria debilmente, os cabelos molhados da chuva, os trajes negros, mais melancólico que nunca.
_Bom dia. –trocaram beijos nos rostos. Ela se enganchou nele enquanto iam até a cozinha.
_Parece que estavam se divertindo. Do que conversavam?
_Ah, nada demais, a Tint só estava propond…
Mas Relena nunca chegou a terminar sua frase porque Tint ligou o liquidificador na máxima potência.
Franzindo os olhos com o barulho abrupto, Daniil se esforçou para ouvir o que Relena teria ainda a dizer. Mas ela só cravejou Tint mais uma vez com os olhos enquanto a outra fingia que nada acontecia. Relena adiou sua vingança. Tint sabia que ela ia deixar para lá.
Enquanto cada um bebia sua dose da vitamina de iogurte grego, banana, abacate, aveia e mel, conversaram sobre o que o dia tinha em reserva.
Partiram às sete e quinze. Daniil gostava de ter tempo de folga e normalmente dias chuvosos guardavam imprevistos e lentidão no trânsito e ele sempre fora alguém que prezava a segurança acima de tudo.
Já tinha passado o almoço e a chuva seguia firme, sem jeito de que ia parar tão cedo. O Sol seguia guardado em algum lugar atrás das nuvens e, no vestiário, Fanny reclamava dos efeitos da umidade em sua cabeleira ondulada.
_Quer um creme para pentear? –Valentina ofereceu, solidária.
Fanny só negou com a cabeça e abriu a porta de seu armário, procurando com a vista alguma solução não só para seu cabelo como também para sua autoestima.
Lya e Nadia trocaram olhares comiseradores, ruminando barrinhas insossas de gergelim e chia.
_Oras, sente aqui. –Akane apontou a beira do banco, um brilho maternal nos olhos atenuava sua imperiosidade. Fanny estava tão desanimada que obedeceu e deixou Ane trabalhar naquilo que considerava ser uma causa perdida.
Nomeando Valentina sua assistente, Akane pediu alguns produtos que estava certa de estarem guardados no armário de Fanny. Então, Ane gentilmente prendeu os cabelos castanhos em um coque e penteou com uma escova de dente todos os fiozinhos fora do lugar.
_Que lindo! –Relena chegou quando o coque estava pronto. Fanny parecia penteada para uma noite de gala com um enorme chignon feito do que pareciam várias camadas de cabelo.
Fanny ainda não tinha visto o resultado e procurou Relena com os olhos, mas não mexeu a cabeça, enquanto Akane dava os últimos retoques com a escova de dente.
_O que achou? –pediu, sentindo-se bem por de repente ser o centro das atenções.
_Está um arraso. –Tint falou, vindo atrás. Relena assentiu, corroborando. Akane olhou para as duas, orgulhosa e contente, analisando a finalização.
Fanny pegou um espelho que Valentina já tinha em mãos para poder olhar o coque e ficou vibrante:
_Ai, Ane, você salvou a minha vida!
_Exagerada… –Valentina provocou, ajudando com o reflexo.
Ane só meneou a cabeça, colocando as mãos na cintura:
_Próxima! –e brincou.
Todo mundo riu e elogiou tanto Fanny quanto Akane.
_Tira uma foto, Tina! –Fanny sacou o celular da bolsa.
_Vamos, que já vai dar a hora. –alguém avisou.
Relena e Tint só tinham vindo guardar as bolsas.
_Santa Ane das mil e uma utilidades, hã? –Tint provocou, passando uma mão por trás dos ombros amplos da amiga e encostando a cabeça nela, enquanto andavam para o estúdio, com suas toalhas e garrafinhas nas mãos e as sapatilhas nos pescoços.
Ane riu:
_Conte comigo. –e piscou um olho.
_Cozinha, penteia, decora, prega, pinta, borda, chuleia…
_E ainda faço 32 fouettés en tournant.
_Grande coisa! –Tint rebateu provocando.
Riram as duas. Ane passou uma mão pela cintura de Tint.
_Fiquei sabendo dos seus feitos este fim-de-semana…
_Ah é? –Ane pareceu travessa.
_Não tem fotinhas não?
_Tenho, claro que tenho!
_Então mostra pro Daniil, porque quero um jantar igual. Nosso aniversário está chegando.
_Ah! Mas assim não tem graça… afinal de contas, é um serviço totalmente personalizado.
_Que seja… eu quero ver, de qualquer jeito. A Relena ficou nas nuvens.
Ane ficou ruborizada pela ideia do sucesso.
Soltaram-se ao chegar à barra, junto à parede, e sentaram para calçar as sapatilhas. Tint enrolou sua trança no alto da cabeça e prendeu com um grampo. Elas nem notaram Lorde Khushrenada e a senhorita Une a um canto, conversando com o pianista do dia. Mas Treize as notou, notou todos, procurando alguém, sempre o mesmo alguém, a única pessoa que realmente importava para ele.
Relena tinha se apoiado em uma barra bem no meio do estúdio, alongando as pernas em attitude derriére. As linhas que seu corpo descrevia eram perfeitas, as mais apuradas que Treize já tinha visto. Para ele, ela era uma obra de arte animada que apresentava possibilidades inesgotáveis de encantar audiências e embelezar palcos.
_Dá uma olhada… –Akane, que tinha percebido primeiro as intenções do lorde, cotovelou Tint de leve enquanto se virava para a parede. Tint olhou discretamente e virou-se também, mas, sobre os ombros, continuaram vigiando Treize atravessar pesadamente o assoalho até a primeira bailarina.
_Ele nem disfarça. Será que a Une não tem ciúmes? –Tint recriminou e depois de um minuto, as duas pararam de disfarçar e viraram-se de frente para a sala outra vez.
Akane não adicionou nada ao comentário da amiga, analisando o modo como ele se comportava com Relena. Tint juntou-se a ela e cruzou os braços e assistiam a cena com sobrancelhas franzidas.
_Senhorita Darlian. –Treize chamou a atenção de Relena quando já estava bem próximo.
Ela baixou a perna com suavidade e precisão, mantendo-se em ponta, não demonstrando qualquer esforço com a posição.
_Boa-tarde, lorde. –e era a epítome da cortesia.
Ele fez uma pequena mesura e ela sorriu expectante pelo motivo da aproximação dele.
_Chegou a meu conhecimento que no próximo mês haverá um evento em que sua família participa anualmente. Isto é correto? –Treize não poupava esforços para ser extravagante.
_Sim, é a Gala de Odelia em benefício da reserva natural. –ela usava de uma simplicidade bonita de se contemplar. Treize adorava. Relena era a única pessoa que desafiava seu vocabulário – ele só sabia defini-la perfeita, nenhuma palavra outra parecia servir.
_Isto é ótimo. –ele replicou, extremamente satisfeito. –Eu gostaria muito de comparecer, tenho muito interesse em não só apoiar esta causa enquanto estou aqui em seu país, mas também em conhecer seus pais.
_Em nome da reserva, já agradeço de coração por qualquer contribuição que o senhor possa fazer. E meus pais com certeza vão gostar muito de conhecer o senhor e a senhorita Une. –Relena desceu em seus calcanhares.
_Seria muito inconveniente de minha parte pedir que nos providencie convites? –Treize prosseguiu pedindo, não que se reconhecesse inconveniente em algum momento de sua vida, como por exemplo, agora.
_Claro que não. Vou contatar nosso mordomo e ele vai cuidar disso.
_Eu fico muito agradecido. –e mesurou de novo, reverente.
Ela sacudiu a cabeça, amável, descartando a necessidade de tanto débito da parte dele. No final, ele só era um pouco seboso demais. De qualquer modo, sentia um leve desconforto na presença dele e se apoiou na barra como uma deixa para ele sair.
Ele entendeu e aceitou, retornando a seu lugar devido e cruzando com Daniil, que se achegava da companheira de trabalho.
_O que ele queria? –Daniil sussurrou, pareando com ela, fingindo alguns alongamentos.
_Falar do baile da reserva. Quer conhecer meus pais.
_Ah… –Daniil não comentou nada, mas achou a atitude do lorde um tanto estranha.
_Você quer ir também? Vou pedir convites…
_Meus pais com certeza irão, então não se preocupe comigo e Tint.
_Está bem. –e ela esticou os braços só por força do hábito.
_Onde será que está Nedved? Nunca vi ele se demorar tanto…
Relena olhou em torno. Todos ainda conversavam e se aqueciam, entrosados. O pianista seguia falando com a senhorita Une, hoje estranhamente em trajes de exercício.
Batendo palmas para trazer o foco de todos para si, Cordelia Une caminhou até quase o meio da sala e explicou:
_A pedidos, a aula de hoje será sob meu comando.
Todos trocaram olhares pasmados, empolgados, alguns soltaram gritinhos comemorativos. Treize apenas cruzou as pernas em seu assento.
_Isto é um teste. –Akane ronronou para Tint.
_Pode crer.
Cordelia lançou sorrisos aqui e ali, fez um movimento com a cabeça para o piano, que imediatamente começou a tocar, e avisou:
_Primeira posição. Demi plié. Tendu na frente. Demi plié. Tendu atrás. Perna de apoio. Continuem… –e enquanto cantava as várias instruções, passava entre os bailarinos, avaliando e corrigindo, elogiando e instruindo. –Sorriam! –e conduzia tudo com graça, mas com rigor marcial.
Foi uma das aulas mais desafiadora em semanas. Primeiro, porque todos queriam aparecer em sua melhor forma para Une. Depois, porque nunca tinham trabalhado tantos exercícios e repetições em uma tarde de aula. Foram quatro horas de puro esforço e suor. Terminaram todos curtindo aquele cansaço bom e profundo que só o balé trazia.
_E o sexo.
_Tint!
Bom dia!
Alguém segura a Tint, que essa garota está terrível. Será que o Daniil dá conta? (ehehehehehe)
Espero que gostem do capítulo!
Logo, logo, tem mais!
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Beijos e abraços!
16.11.2016
