No último capítulo…
O jantar termina em dança. Nenhuma noite antes tinha sido tão perfeita para os dois. No dia seguinte, Heero leva os vasos de flores para Relena e a surpreende mais uma vez. Lorde Treize Khushrenada se convida para a gala de Odelia. Para a surpresa de todos, a senhorita Cordelia Une dá uma aula para o corpo de baile. É a aula mais cansativa e proveitosa da temporada.
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12
Quem achava graça nesse tipo de observação picante ainda ria enquanto o grupo saía do estúdio. Mas Relena não tinha o que dizer, nem sempre sabia oferecer reações às ousadias da amiga. Adiantara-se até a saída, cruzando suavemente pelo estúdio sem aparentar o cansaço que sentia. Podia-se dizer que estava acostumada com aquele tipo de exaustão. E até que compartilhava a opinião de Tint, embora não soubesse se aquela tinha sido a comparação mais apropriada. Levava um sorrisinho de bem-humorada inocência enquanto deixava a bagunça para trás.
_Tint, mas que coisa para se falar… O que todos irão pensar? –Daniil repreendeu, corado de um modo que era difícil saber o que ele sentia mais: vergonha ou raiva. Ainda assim, a voz dele saiu rouca e composta ao passo que ele espreitava dentro dos olhos de Tint, coagindo-a a se comportar. Como se fosse dar certo:
_Oras, o que falei de mal? –ela deu de ombros. –No máximo, vão pensar que você manda muito bem. –e rebateu, simplista, embora ostentasse ainda um meio sorriso libertino que terminava de matá-lo.
Ele paralisou, encabulado demais para reagir, e a seu redor as risadas eclodiram outra vez.
_Veja por esse lado… –Miksa, o outro bailarino principal, deu uma palmada consolatória nas costas de Daniil, jovial.
_Você só está piorando as coisas… –Lya observou, risonha, tentando defender Daniil e ao mesmo tempo flertar com Miksa. Todos seguiram gargalhando sem aparentar o cansaço devido. Ou talvez, tanta asneira só podia ser o efeito colateral do desgaste…
De qualquer forma, Cordelia também ria, mas somente para si, e voltou-se para olhar Treize. Ele tinha acabado de levantar-se de seu lugar cativo no banco ao fundo da sala e meneou a cabeça, inexpressivo. Parou ao lado dela e assistiu os jovens deixarem o estúdio.
_Que modo mais vulgar de falar. –e criticou, afrontado.
_Não tem de ser sempre tão severo… –ela enganchou-se nele, tentando pô-lo em movimento para saírem também. Sua voz vibrava atrevida e alegre ao repreendê-lo.
Ele não aceitou a censura dela, embora não tenha contestado.
Secando o rosto levemente com sua toalha, Relena pausou na porta e olhou para a entrada do corredor. Não sentiu o sorriso abrir, tampouco sentiu seus pés se voltarem para aquela direção. Seus movimentos eram sem esforço, obedecendo somente à força de atração que obrigava tudo gravitar até ele.
Heero esboçou um sorriso por ver Relena e pela disposição dela de vir encontrá-lo no meio do caminho. Tímido, ele parou a pouca distância dela para apreciá-la. Colocou as mãos nos bolsos, aparentando uma calma que não combinava muito com a agitação do coração. Só reparou que estivera ansioso pelo encontro quando a viu. Seria a primeira vez que se veriam depois do jantar e ele de repente perguntava-se se alguma coisa tinha mudado ou devia mudar agora que era oficial. Passou uma mão na franja, molhada da chuva, o cabelo parando para trás por causa da umidade. Sabia que estava pensando em excesso. Ela sempre causava aquele efeito nele.
Relena já estava diante dele e sorria faceira, seus olhos trazendo os raios do Sol que se negavam em brilhar lá fora. Agora nada mais importava, e ele sorriu mais um daqueles sorrisos que ela não resistia, discreto e ainda assim tão intenso, reservado e ainda assim tão cheio de sentimento. Ela jogou os braços em redor do pescoço dele, sua toalha caiu no chão.
Os demais bailarinos saíram da sala. Uma das garotas notou-os perdidos em sua dimensão particular de amor, e desavergonhadamente cutucou a companheira, e aquilo virou uma corrente até que todos procuraram saber o que tinha acontecido com sua primeira bailarina.
_Nós temos plateia. –ele murmurou, empertigado, percebendo a movimentação do pessoal.
Ela arrumou o cabelo dele de volta ao penteado original e riu:
_Eu imagino…
_Você já está acostumada. –ele provocou, simulando impaciência, baixando o rosto sobre o dela, quase encostando os seus narizes. Ela riu mais, marota:
_Aí que você se engana. –confessou, usando mais o movimento dos seus lábios do que sua voz, a boca instintiva procurando a dele.
Ele sorriu e aproveitou a declaração surpreendente dela para se afastar. Não era só porque tinham espectadores que precisavam dar show. A tentação de beijá-la era grande, o consentimento dela era óbvio, mas a discrição ainda servia bem não só a ele e sua tendência reservada, como a ela.
Algumas garotas riram ao vê-los, empolgadas. Ele ia observando tudo por cima de Relena. Reconheceu Akane e Tint caminhando para o vestiário junto dos demais, e quando Akane o viu, ela só abanou a mão, cumprimentando, e piscou um olho, como que dizendo que iria demorar. Tint olhou-os com uma expressão aprobatória, e voltou a entreter-se com a conversa, provando que sabia se comportar também.
_Talvez o problema não seja o público ou o palco, mas você mesmo… –Relena seguiu divagando. Dançar era só o que ela fazia, e ainda assim, o frio no estômago a visitava toda vez que tinha de estar debaixo dos holofotes. Mas será que seria tão mágico se fosse diferente? Esperava nunca se acostumar.
Heero meneou a cabeça, bondosamente, a expressão sorridente e fascinada de sempre, mas com a qual ela também não se acostumava.
_Pelo menos, imagino que isso nunca a atrapalhou…
Ela negou com a cabeça:
_É a melhor sensação do mundo. –e pensou de novo no que Tint comentara. Ao invés de corar, olhou-o fixamente, absorta. Na velocidade da luz, seus pensamentos começaram a mudar, ela mordeu o lábio inferior e seus olhos fixaram nos lábios dele.
Será que estava sendo contagiada por Tint? Mas agora entendia o que era paixão de verdade.
Respirou fundo para se recompor e notou a expressão de Heero ficar tensa.
Enganchado na senhorita Une, lorde Treize saiu do estúdio e também sua expressão perdeu a graça quando viu Heero com Relena a uma pequena distância. Crivou com os olhos as mãos delas que escorriam pelos braços do rapaz até segurarem as mãos dele.
_O que houve? –ela murmurou, intrigada e Heero só sacudiu a cabeça, dissipando o peso que o olhar do lorde queria impor em sua consciência.
Não tinha porque cair naquela armadilha. Não estava fazendo nada errado.
Puxou as mãos dela até seu rosto e beijou-as. Relena acompanhou o movimento com os olhos e sorriu como uma dama medieval devia quando cortejada pelo seu cavaleiro dileto.
_O anel… –e lembrou-se de explicar, pois não estava usando.
_Eu sei. –ele a interrompeu, falando em um sussurro rouco, ciente de que ela não podia usar nada enquanto dançava.
Ela sorriu outra vez e então não resistiu, e esticou-se nos pés em ponta e o beijou. Era o que queria fazer desde que se reencontraram, era o que sempre queria fazer com ele.
Heero tinha evitado o quanto pôde, se contido enquanto estava em seu lugar se conter. Agora já não havia mais porque, ainda mais diante de um beijo doce como o que ganhava dela.
Cordelia se voltou para o que tinha despertado tanto desprezo da parte de Treize e só estalou os lábios, impaciente, e voltou a conversar com ele. Ele não conseguia deixar de observar o casal, mas a escutava e anuía com murmúrios pontuais. Mas quando os viu se beijar, Treize virou o rosto com brusquidão. Não por decoro.
Cordelia roubou um relance dos namorados e riu:
_Pare com isso, parece que nunca foi jovem. –e brincou com ele, resolvendo tirá-lo dali. Falava em neerlandês com ele sempre que estavam a sós.
_Não é isso. –ele se dignou a esclarecer, embora elusivo.
Ela meneou a cabeça e saíram os dois ainda enganchados para a sala de Nedved.
_Não parou de chover? –Relena indagou depois. Ele respondeu com um gesto leve de cabeça, mais interessado em contemplá-la, concentrado no brilho do olhar dela. –Eu vou me trocar. –ela avisou, depositando um último beijo nos lábios dele.
Ele soltou as mãos dela com uma gentileza que camuflava apego.
Pegando a toalha do chão com elegância, Relena saiu em uma marcha leve que a levou rápido para longe. Seus movimentos não a deixavam mentir quem era. Bailarina.
Heero deu as costas e saiu caminhando lentamente. Não queria comprar briga com o lorde, entretanto, não conseguia sentir-se de outro modo.
No vestiário, as bailarinas se acomodaram espremidas no banco para desatar as sapatilhas.
Percebendo desconforto nos seus pés, Valentina comentou:
_Só que sexo não faz isso. –e retirou as sapatilhas cuidadosamente, as bandagens dos dedos frouxas e a pele parecendo que tinha sido esfregada no asfalto.
_Ai… –Fanny franziu o rosto, empática com aquela dor.
_Existe muita tara estranha no mundo, mas isso é cem por cento balé. –Tint concordou, preocupada.
_Será que se eu pedir, a Lena autografa? Aí, eu posso vender no eBay… Deus sabe como estou precisando de dinheiro. –enquanto estudava o interior das sapatilhas para tentar entender a razão de tantas feridas, Valentina especulou, sorridente para dissimular seu desânimo.
_O que foi? –diante do suspiro fundo da colega, Akane desviou a vista do celular.
_Eu só vou ter dinheiro para comprar um par novo semana que vem e essas já eram…
_Eu te dou uma das minhas. –Akane avisou.
_Não posso aceitar. –imediatamente Valentina olhou para, séria.
_Pode e vai. Depois você paga… mais pra frente… quando formos famosas, sei lá… –e displicente, como se nem tivesse prestando atenção ao que propunha, Akane informou.
Valentina riu:
_Ah, então eu vou ter de pagar… –e saiu com Fanny para ir se lavar.
Akane riu com ela e meneou a cabeça. Com espaço liberado, aproveitou para deitar no banco, continuando a usar seu celular.
_Nem é espaçosa… –Tint reclamou quando Akane jogou as pernas em cima dela. Tentou espiar o que ela tanto fazia, mas não dava.
Quando Relena entrou, Tint estava tirando as sapatilhas de Akane.
_Pensei que já tinha fugido com o tenente… –não ergueu os olhos do trabalho para amolar.
Relena sacudiu a cabeça, estalando a língua e descartando a brincadeira. Pegou a bolsa do armário e sentou com as amigas. Ficou sorrindo, porém, enquanto aplicava camadas e camadas de hidratante labial. Tint deu uma olhadela nela e riu para si mesma.
_Pode ir com ele se quiser. –Akane cedeu, ainda com os olhos presos na telinha.
_Não, não é assim que funciona. Não posso ficar atrapalhando a rotina de vocês. –Relena devolveu o hidratante na bolsa.
Akane deu de ombros, ainda deitada, teclando sem parar.
_E como você iria embora? –Tint resolveu investigar.
_O Daniil me leva, ué… –era muito simples.
_ "O Daniil me leva"? –Tint produziu um timbre infantil e agudo que supostamente era a voz de Akane. Relena franziu as sobrancelhas, assombrada. –Como você sabe? Você está folgando muito, está sabendo? –e censurou depois, graças a Deus com sua própria voz.
_Sim.
Tint deu uma palmada na panturrilha de Akane, que nem se mexeu.
Relena deu risada. Talvez Tint finalmente tivesse encontrado alguém a sua altura. Revirou a bolsa outra vez e encontrou o porta-moedas onde guardara o anel.
_Mas quando vocês combinaram de se ver? –Tint retomou o assunto.
_Ah, não combinamos. Talvez de terça e quinta? Com os ensaios começando, eu não sei…
Aproveitando as duas ali, Akane mostrou as fotos da decoração da sala na noite do jantar e os cliques dos pratos que preparou. Não se apressaram, analisando as imagens e comentando o que viam.
Daniil e Heero estavam conversando enquanto aguardavam as garotas. Elas estavam demorando.
_Eu quero lhe parabenizar. –Daniil tentou não dar muita importância as suas palavras, mas estava comovido. Era sensível a esse ponto.
Heero o olhou com um pouco de desconfiança apesar de Daniil não oferecer nenhum tipo de ameaça.
_Relena está muito feliz. –e como Heero não falava nada, Daniil prosseguiu, sereno.
Sem se ofender, Heero chegou à conclusão que Relena tinha outro irmão:
_Obrigado. –e murmurou, sem deixar de soar sério, apesar de encabulado.
Daniil sorriu e meneou a cabeça, educado. Colocou a mão na cintura em uma pose atlética, um tanto encabulado por sua vez.
_Eu não quero que você pense que… –e começou a remendar.
_Não, eu não penso nada. Mas em seu lugar, é provável que me sentiria igual. Ela é especial.
_Ah… –Daniil assentiu com a cabeça, certo de que não havia mais nada a dizer.
As garotas chegaram todas de uma vez e os grupos se despediram. Com os guarda-chuvas, cada um procurou seu automóvel.
No banco de trás, Relena ouvia Daniil e Tint discutirem em russo. Ela já estava acostumada a assistir conversas em um idioma totalmente desconhecido e nem se importava mais. E até podia imaginar qual era o assunto da vez. Daniil vivia tentando colocar um pouco de juízo na cabeça de Tint, sem muito sucesso. Entretanto, eram dois teimosos.
Por isso, ela deixou a mente vagar, seus pensamentos todos alcançando Heero em rota do alojamento. Brincou com o anel no dedo, girando-o no lugar, compilando em sua mente todos os momentos incríveis entre eles dois.
_Eu tenho que fazer algo para retribuir. –e concluiu.
Daniil e Tint pararam de falar e olharam para ela.
_Até agora ele fez tudo… tantas coisas maravilhosas para mim… só para mim… e eu não fiz nada.
_Como não? Trazer luz, beleza, alegria e razão de viver para a rotina dele não conta? –Tint logo apresentou, nada romântica.
Relena soltou uma risadinha e deu de ombros.
Chegaram.
Tint e Daniil trocaram um beijo rápido. Depois, ela e Relena saíram correndo, a distância curta demais para perder tempo abrindo guarda-chuva.
Pararam no hall. Tint baixou o capuz do seu agasalho e Relena espanou um pouco das gotinhas acumuladas na roupa. Não era Pargan quem estava de porteiro aquela noite. Só acenaram com a cabeça.
_Já sei… manda nudes para ele. –e como não podia deixar de ser, Tint acabou saindo com uma ideia.
_Hã? –levou um segundo para Relena processar o que Tint estava sugerindo. –Deu para ver que tudo que o Danny te falou no carro foi uma perda de tempo! –e depois que destravou, lamentou.
Tint gargalhou e deu de ombros, incontrita sobre sua personalidade e dizer tudo o que pensava. Chamou o elevador e disse mais:
_Tenho certeza que ele ia gostar.
_Quem disse? –Relena rebateu logo, sem conseguir aceitar aquela possibilidade.
_Ele é homem, oras… –recorrendo ao clichê, Tint prosseguiu.
_O Daniil é homem e não gosta. –Relena contrapôs, confiante de que seu argumento era irrefutável. Mas Tint era campeã em desmontá-la:
_Você é que pensa… –não se poupava em parecer safada.
_Tint! –Relena se horrorizava, corando até a raiz dos cabelos. Era exatamente a reação que Tint esperava conseguir.
_É só brincadeira, sua boba… –e gargalhava ao se explicar.
O elevador abriu e elas entraram.
_Mas você já mandou para alguém? –Relena aproveitou a seclusão do transporte para investigar.
_Eu não; sou bailarina, não biscate. –e com displicência monótona e chocante, Tint deixou claro.
Relena não se deixou abalar pela franqueza da amiga e riu, divertida:
_Ufa, que alívio…
_Relena!
Heero ia com o carro lotado de meninas. Akane pediu que dessem carona a Fanny, Valentina e Maira também e como iam todas para o alojamento, Heero não viu problema algum. Pelo menos, elas não o tratavam feito um bichinho de zoológico como costumavam fazer as amiguinhas de Akane, cinco anos atrás, que faltavam se virar no avesso de tantas risadinhas ao vê-lo chegar. Até a professora precisou pedir para ele parar de esperar Ane na janela porque desconcentrava as garotas.
De qualquer modo, deixou-as conversar à vontade.
_E a Lya, a Nadia…? –Maira preocupou-se depois de acomodar-se no carro.
_Coloquem o cinto. –Ane pediu lá do banco da frente. Era uma neura, na opinião dela, mas Heero fazia questão.
_Foram com o Miksa… –Valentina respondeu com a voz enjoada.
_A Lya não sabe disfarçar? Se ela continuar desesperada assim, Miksa nunca vai querer ela.
_Que maldade, Fanny. –Maira repreendeu, mas riu mesmo assim.
_Ela que não deveria querer ele, isso sim… será que ela não vê que ele é o maior galinha?
_E com orgulho. –Akane reforçou.
_Ele é ótimo bailarino, mas fora isso, é um ordinário. –Valentina lamentou, olhando pela janela borrada de chuva.
_Ele só não conta vantagem do fora que levou da Lena.
Akane deu uma olhadinha para Heero a seu lado. Ele não esboçou reação, fingindo que o assunto rolando não lhe interessava. Era bom nisso. Mas não enganava Ane.
_Ah, você viu, né, Maira? –Fanny concluiu.
_Vocês entraram juntos no grupo avançado? –Valentina quis entender.
_Não, quando entrei no avançado ele se graduou bailarino principal. Era suplente de Daniil. –Maira era do corpo de baile já fazia mais de dois anos.
_Mas Daniil já era primeiro bailarino? –Akane se interessou.
_Não, era o Lupo. –e Maira suspirou, desavergonhada. Era evidente que ainda tinha uma queda por ele, depois de todos esses anos.
_Que importa tudo isso… fale do fora. –Fanny cobrou.
Riram todas, de acordo.
Mas com a palavra já pronta na garganta, Maira se calou. Olhou para as meninas com ela no banco de trás e depois olhou o retrovisor.
Heero encontrou os olhos castanhos dela pelo espelho. Ela não sabia se aquilo era um incentivo e acabou se acovardando.
_Eu quero saber. –ele murmurou então, suave.
Akane gracejou:
_É claro que quer, tem que se preparar, não é?
_Vai, o Heero deixou… –Valentina incentivou, à vontade.
_Tá bom. Foi assim. Demorou umas duas semanas, mais ou menos, ele cercando ela e tal, sabe como é, na Relena não se chega matando…
_Sei… –Fanny concordou, seguindo as palavras de perto.
Akane olhou de viés para Heero, lutando contra o riso, mas ele seguia com cara de paisagem.
_Ai, ele falou, –Maira engrossou a voz para imitar Miksa. Ou para denegri-lo. –'Olha, Lena, faz pouco tempo que a gente se conhece, mas você tem que saber, eu estou muito afim de você' –e com isso as três caretearam, enojadas. –E a Lena respondeu, 'sério?', e ele falou 'diz que você sente alguma coisa por mim'. Ele não perguntou, não, já foi mandando ela dizer…
_É um tonto. –Fanny cruzou os braços e retorceu o nariz.
_E o que ela respondeu? –Valentina incitou mais, suspensa.
Akane estava virada para trás prestes a quebrar o pescoço, e só ria, animada. Heero dividia sua atenção entre o trânsito e a voz mole e fanhosa de Maira. Não acreditava que tinha caído na armadilha da fofoca.
_'Sinceramente, Miksa, eu sinto sim. Sinto um pouco de pena, mas sei que, no fundo, você é uma boa pessoa. '
As quatro explodiram em risadas da qualidade mais venenosa que Heero já ouviu.
Ele cedeu a uma risada discreta também. Como elas estavam alucinadas, não perceberam. Compartilhou com elas da sensação de vingança. E como esta vinha da parte de Relena, ficou orgulhoso também, de ego acariciado. Quem diria que essas mesquinharias podiam contagiá-lo…
_Imagina a Relena, com toda aquela pose dela, falando isso na cara do Miksa! Acabou com ele! –se tivesse espaço no carro, Fanny estaria rolando de rir.
_Foi bem-feito. –Akane comemorou, ronronante. –Ouviu só? Cuidado, hein, Heero… –e felina, prosseguiu, importunando.
_Você está do lado de quem? –ele se impacientou, mas ela sabia bem que era brincadeira e riu, divertida. Deu de ombros:
_De quem tem mais vantagem, é claro…
Ele meneou a cabeça:
_Espero que não esteja falando do Miksa. –um tanto rosnado, prolongou o chiste.
_Estou falando da Lena! –Akane atacou.
Ele franziu as sobrancelhas, ultrajado, enquanto todas riam.
_Vocês podiam avisar a sua amiga, não acham? –e resmungou depois que estacionou na frente do alojamento.
_A Lya está cega, só vai acreditar se ver com os próprios olhos. –Maira sacudiu a cabeça.
As outras garotas ficaram pensativas por um instante.
_Muito obrigada pela carona! –Fanny se despediu, já abrindo a porta. Maira e Valentina repetiram a frase, escorregando pelo banco em direção da saída para a calçada.
Heero só mesurava com a cabeça em resposta.
_Só gente boa… –Akane murmurou, cansada de tanto rir, olhando-as correrem para a entrada do prédio, cobrindo-se com as blusas do agasalho ou com as mãos.
_Vocês conseguem mesmo dançar alguma coisa? –ele questionou, incapaz de visualizar aquelas garotas em qualquer pas de trois que se preze.
_Me responda você se vocês conseguem apagar algum fogo…
_Engraçadinha. –e depois olhou pelos espelhos, mas desistiu de sinalizar a saída. –Esse Miksa já mexeu com você?
_Mas é claro. Só que meu fora não foi tão épico assim… nenhum fora foi tão épico assim… –desfiou uma risadinha malvada.
Heero respirou fundo. E embora Miksa fosse um tipo bastante patético, teve pena de outra pessoa:
_Vai falar com a Lya? –talvez pelo jeito que as outras garotas trataram o assunto, sentiu-se na obrigação de fazer alguma coisa, qualquer coisa.
Akane assentiu:
_Tudo eu nessa casa! –e bufou, fazendo a franja voar.
Riram depois, cúmplices.
O dia seguinte começou com alerta do Whatsapp. Heero virou-se de barriga para cima na cama, já puxando o celular. Não sabia por que ainda não tinha silenciado o grupo. O problema não era o horário das mensagens, mas a inutilidade delas. Ia visualizar, de qualquer modo.
Akane dava bom-dia:
"Hoje o Sol resolveu voltar."
Com isso, ele pulou da cama para sair para a corrida.
"Tenho novidade: vou começar aulas de Lian Gong." –Tint jogou um assunto.
"Ah, sério? Quero ir também! Posso?" –Ane acrescentou o emoji da menina levantando a mão.
"Será que finalmente a Tint vai encontrar um pouco de equilíbrio interior?" –Relena provocou.
"Vem falar na cara, loira aguada." –Tint devolveu.
Heero terminou de engolir seu café solúvel.
Duo estava dormindo e não iria aparecer na conversa tão cedo. Daniil, assim como Heero, sempre acabava como mero espectador.
Relena mandou um emoji mostrando a língua.
Heero ia colocar o celular no bolso da calça quando um alerta diferente soou. Era uma mensagem de Relena.
"Bom-dia. Já reservei seu convite para a festa beneficente." Em seguida, ela colocou um emoji de sorrisinho e deu mais detalhes sobre a data e o local do evento.
"Obrigado."
"Zechs quer conhecer você. Disse que vai vir para a cidade. Tem alguma noite livre?"
Ele guardou o celular no bolso para pensar. Mas antes de terminar de caminhar as três quadras que o separavam do parque, respondeu:
"Quarta."
Ela mandou um emoji de beijo.
Heero colocou o aplicativo no silencioso, guardou o aparelho no bolso outra vez e começou a correr. Tinha qualquer noite livre e não queria delongar o encontro. Até marcaria para hoje se não fosse tão em cima da hora.
Uma hora depois, chegava ao quartel. Os vários soldados reunidos ali na sala comunal o cumprimentaram. Em sua sala, um pacote de relatórios de perícia e fiscalização o aguardava e o ocuparia boa parte do dia, caso não houvesse um chamado. Mas antes, sempre havia tempo para o café.
_Foi o Murat que passou esse café? –Heero tomou a primeira bicada e careteou. Doce, muito doce.
_Pois é… ele está apaixonado… –Johnny explicou, espirituoso.
_Não é desculpa. –Heero resmungou, tentando dar outro gole.
Todos riram e voltaram a assistir o jornal. Desse modo, meia-hora passou sem se ver. O para uns, o fim do programa significava que era hora de ir embora, mas para outros, sinalizava o início inevitável do trabalho.
Assumindo terminar aquele café melado como sua missão do dia, Heero engoliu meio copo e se ergueu do sofá. Tirou o celular do bolso no caminho para verificar se Relena o tinha atualizado sobre o encontro com Zechs. Sabia que ela estava dançando, mas era uma desculpa perfeita para olhar a foto dela.
_Yuy. –um chamado o pôs alerta. Era o capitão.
_Senhor.
_Entre aqui, tenho notícias que vão te interessar. –e gesticulou para enfatizar seu convite, sentando atrás de sua mesa impecavelmente organizada.
Heero obedeceu, movendo-se furtivamente como sempre fazia. Não se sentou.
_O departamento divulgou a formação de capitães essa manhã. O chefe pediu para que cada quartel indicasse um candidato.
Heero assentiu, feito aquele fato não tivesse nada a ver com ele. O capitão achou divertido.
_Vou indicar você. De acordo?
_Sim.
_Ótimo. O chefe foi explícito sobre a sua indicação. A formação começa com uma escola na semana do dia 13, de segunda a sábado, em Samarine. Libere sua agenda.
_Sim senhor. –e baixando olhos para o calendário de mesa, constatou que aquela era justamente a semana do feriado prolongado. –É só isso?
_Sim.
Heero mesurou com a cabeça e saiu.
Em sua sala, sentou-se pesadamente na cadeira, que rangeu alto, e começou a organizar a papelada junto de seus pensamentos. Precisaria se planejar. Tudo era questão de planejamento. Nunca pensou que sua disciplina seria útil em momentos como aquele de malabarismo social.
Estava habituado com essas escolas e sabia que no sábado só tinha meio-período de curso, encerramentos. Se havia alguma preocupação era a distância. Deveria ir de Samarine direto a Odelia? Ou o tempo permitiria que ele passasse em casa para se trocar? Talvez se se hospedasse em Odelia, poderia se trocar no hotel e ir para a gala. Relena ficaria decepcionada ao saber que ele usaria smoking dessa vez. A mente dele trabalhava rápido, esquematizando a e melhor ação, sem se economizar.
Aquela seria uma noite importante, talvez ainda mais decisiva do que a do jantar. Não podia desconsiderar a família de Relena. Não porque esta era importante na sociedade, no país até, mas porque eram as pessoas que vinham apoiando e cuidando desde sempre da mulher que ele amava. Banalizar esse encontro era assassinar sua respeitabilidade e perder Relena.
Ele nunca iria perder Relena. Porque, desde que a conhecera, perdê-la transformou-se em perder a si próprio também. Não se lembrava mais de como era sua vida sem ela. Não queria. Tinha certeza que era vazia. E ninguém se importa com algo vazio.
Duo chegou para seu turno quinze minutos antes e foi vê-lo. Encostou-se ao batente da entrada:
_Fala aí, moleque!
Heero ergueu os olhos do penúltimo documento na pasta e franziu as sobrancelhas, recriminatório. Duo gargalhou, como não podia deixar de ser:
_Já vejo que está bem. Terminou a papelada? 'Bora tomar um café?
_Ainda não terminei.
_Chato… –e resolveu entrar e sentar. –Você viu aquela parada do Lian Gong da Tint? Fiz umas pesquisas, é muito bom.
_Sério?
_Sim, é que a gente não é fitness no nível delas, mas acho que é uma ideia válida trazermos para o quartel, pelo menos para apresentar a modalidade.
Heero só balançou a cabeça, pensativo, concentrado na leitura. Duo o ficou olhando em um raro momento de serenidade. Heero tomou um bloco de post-it, fez algumas anotações e colou no papel que terminara de ler.
_Foi a Ane que te convenceu? –e averiguou.
_Hã? Não, apesar de que ela está empolgada…
_Ela sempre está empolgada.
_Ainda bem, já basta um chato na família, né?
Heero parou de ler outra vez e o crivou com a vista. Duo nem ligou:
_Mas e você, novidades?
Heero soltou a caneta e recostou-se na cadeira, jogando o corpo para trás. O móvel rangeu horrivelmente de novo.
_O irmão de Relena nos convidou para jantar.
_Isso é problemático?
_Não creio.
_Bom. Se precisar de alguns conselhos sobre como lidar com o irmão da namorada, é só falar.
_Não quero. Não de você.
_O que é isso? Eu sou o cunhado perfeito!
_Não enche.
Duo se divertia sozinho. Mas no fim, Heero deu um sorrisinho.
Houve uma pausa. Heero pareceu alienado por um minuto. Duo ficou cutucando a unha. Mordeu um pouco a ponta da unha do polegar. Heero emergiu com a próxima notícia:
_O capitão me indicou para promoção.
_Que ótimo! Parabéns! Já contou para o pessoal? –Duo se ajeitou na cadeira à guisa de pulo de alegria.
_Falei para minha equipe, no almoço. –Heero mencionou, ainda um pouco aborrecido com a exposição. A sensação de estar no centro das atenções não era uma das suas favoritas. Um ponto a aprimorar.
_A gente precisa comemorar, marcar com a galera… vou ligar para eles. Não podemos deixar passar.
Heero assentiu. Tinha que ligar para casa também e contar para o pai. Tinha muito para contar, na verdade. A última vez que se falaram foi na manhã do embarque de Akane. Já fazia quatro meses? Só isso? Como podia acontecer tanta coisa em tão pouco tempo? As mudanças que não aconteceram nos últimos quatro anos vieram todas de uma vez. Deviam estar esperando Relena.
Boa tarde!
Meu objetivo era postar antes do fim do mês! Consegui!
Foi um capítulo por mês esse ano, uma frequência boa. Não imaginei que a história ia durar tanto.
Espero que estejam gostando. Eu sei que nunca acontece nada demais nos capítulos. A intenção é meio que essa mesmo, algo leve e alegre, cotidiano, só para curtir.
Aguardo suas impressões e agradeço o apoio e o carinho!
Beijos e até o ano que vem!
27.12.2016
